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domingo, 24 de março de 2013

É assim que se faz a Estória (5): "Quando comi lagosta no avião..."


Nicolau Saião, Panda sedutor


É este o título deste texto de Nuno Rebocho, que me foi enviado por ele mesmo:


Acompanhava, com uma caravana de jornalista, o então Primeiro-Ministro de Portugal, Mário Soares, à Alemanha Federal, quando - pela vez primeira e única – comi lagosta a bordo de um avião. Que o Marócas (assim lhe chamávamos, numa mistura de amor e ódio) gostava de se dar a estas grandezas de novo-riquismo… Dessa feita, ia ele a convite da Fundação Friederich Erbert para perorar em Bad Godesberg que os dólares investidos pelos alemães na fundação e apoio do PS não tinham corrido em vão e valeram a pena: os socialistas portugueses ditavam cartas então na Europa e tinham assumido o poder em Portugal. Corria o ano de 1985, se a memória não me atraiçoa.

Que era luzida a comitiva portuguesa. Estavam o Batista Bastos, o Fernando Assis Pacheco, o Fernando Rosas, e muita outra gente que no momento não recordo. E estava eu. Suponho que na Alemanha se juntou a nós o Hernâni Santos. Aterrámos em Koln (Colónia), fomos para Bona, onde ficámos hospedados, e daí seguimos para Bad Godesberg.

Para diversão nossa, Mário Soares foi-se libertando amiúde das normas protocolares, o que deixava em desespero os rigorosos alemães. Metia-se com gente em público, desprezava os seguranças, despertava o pânico nas germânicas fileiras. Mas lá ia levando a água ao seu moinho, vendendo a imagem de que os “afilhados” lusitanos se tinham transformado em grandes senhores e estavam ali para ensinar às gentes, industriando os antigos suseranos na arte de ter sucesso. Impávamos! Sentíamo-nos grandiosos e encarregámos o insuspeito BB de discursar a nossa gratidão ao Marócas, o que fez.

Ele tinha destas coisas. Lembro-me de um Dez de Junho em Portalegre, em que relegou para segundo plano uma monumental bebedeira do Vasco da Gama Fernandes, então Presidente da Assembleia da República, que – de grão na asa – se pusera a reger a banda que engalanava a cooperativa de Fortios: Mário Soares, Primeiro-Ministro, abeirou-se, retirou-lhe o chapéu de chefe da banda e enterrou-o na cabeça. De batuta em punho, pôs-se a reger os músicos.

Foi nessa altura que conheci mestre Javigas, de Portalegre, de quem me tornei amigo. Javigas tinha um grave defeito – volta não volta, enfrascava-se, perdendo então a noção de quanto fazia. Foi numa situação dessas que lhe dei três colmeias para ele me fazer o favor de as colocar no alto da Serra S. Mamede. Em má hora o fiz. O amigo Javigas colocou as colmeias, lá isso colocou, tal como eu lhe pedira, mas estava de tal maneira bêbado que esqueceu onde as colocara. Assim se esfumaram as minhas ambições em me fazer apicultor.

Voltando a tal ida a Alemanha, que ficou pintalgada de incidentes. Por exemplo, sofria eu de enxaquecas – horríveis dores de cabeça provocadas pela sinusite. A viagem de avião ocasionara que a maleita fizesse das suas. O problema é que varrera-se da memória o alemão que aprendera no liceu. Então, como se dizia “farmácia” naquela língua de trapos? Resolvi sair do hotel, o Am Tuppenfeld, e descer a Konrad Adenauer Strasse: ao fundo, vi “Apotheke”. Lembrei-me: “Apotheke” é “farmácia”! Mas como pedir comprimidos para as dores de cabeça? Fui-me recordando: “Schmerz” é “dor”, “Kopf” é “cabeça”. Ergui as mãos, entrei na botica e desatei aos gritos - “Schmerz Kopf, Schmerz Kopf!”. Respondeu o farmacêutico, compreendendo: “Ah, eine Aspirine?”. Não me lembrara o óbvio – a aspirina era alemã, da Bayer.

Nuno Rebocho

quinta-feira, 12 de julho de 2012

É assim que se faz a Estória (4)



Obra de Mário Henrique Leiria 


   O Vicente Páscoa escreveu-me há dias. Com a frontalidade que o caracteriza, mas também com a amável ironia que o exorna, dizia-me a dado passo do seu bilhete (não lhe chamaria carta) razoavelmente acerbo mas onde se distinguia uma fraternal sobriedade: “(…) Tenho gostado do blog. Mas a meu ver, e tu desculpa, parece-me que pões lá demasiada poesia.(…) Numa altura em que factos momentosos atravessam o firmamento das híper-realidades nacionais (as sucessivas maratonas do Relvas, as paredes que cada vez mais se apertam, se houver boa vontade da Procuradoria, em torno do díscolo parisiense, a inocência do Lima esse primor de cristianíssimo calvo, as pachachadas do Arménio e a incontroversa velhacaria proto-revolucionária do Xico, para não falar de alfenins como o Seguro e outros infalíveis resíduos de uma administração fundibular cada vez mais sonsa e malévola(…) tu resolves esquecer ou não reparar nisso e…toca de poesia para a ribalta(…)”.

   Respondi-lhe sucintamente que não me apetecia remexer na lama.

  Além do mais e de acordo com o meu médico (um homeopata que nunca me desiludiu) eu apresento sinais inequívocos que se caracterizam por perda de auto-estima, tristeza acentuada, dificuldades de concentração, amargura e, intermitentemente, vontade de partir tudo (mas não no lar) e pequenas lucubrações em torno da serventia de caçadeiras de canos serrados e catanas de tipo japonês. “É evidente que se trata de uma crisionite-depressiva!”, diagnosticou o “good doctor” e eu não o irei contrariar.

   Em minha defesa digo contudo que o que me acalma, salvo os Socians e os copitos, com muito gelo, de Queen Margot de 8 anos, é a postura de poesia neste estimável entreposto.

   Mais do que uma fezada é uma questão de auto-ajuda. E alea jacta est!



Nicolau Saião, Génesis (tapeçaria), col. engº Ignacio Maragall             
                     
                                                                                                     
Mário Henrique Leiria


Origem dos sonhos esquecidos


Entre a bicicleta e a laranja
vai a distância de uma camisa branca

Entre o pássaro e a bandeira
vai  a distância dum relógio solar

Entre a janela e o canto do lobo
vai a distância dum lago desesperado

Entre mim e a bola de bilhar
vai a distância dum sexo fulgurante

Qualquer pedaço de floresta ou tempestade
pode ser a distância
entre os teus braços fechados em si mesmos
e a noite encontrada para além do grito das panteras

Qualquer grito de pantera
pode ser a distância
entre os teus passos
e o caminho em que eles se desfazem lentamente

Qualquer caminho
pode ser a distância
entre tu e eu

Qualquer distância
entre ti e eu
é a única e magnífica existência
do nosso amor que se devora sorrindo.

                                                                   (1949)





Mário Henrique Leiria (imagem obtida aqui)


Foi-me enviado, inédito – em 1978 - por Mário Cesariny, que depois o publicaria, na revista “MELE – International Poetry Letter” (dada a lume em Honolulu e dirigida por Stefan Baciu) cujo número de Março de 81 foi integralmente dedicado aos poetas surrealistas portugueses.

terça-feira, 10 de julho de 2012

É assim que se faz a estória (3)


NOS ONZE ANOS DO SEU FALECIMENTO
                 
                     Lud, habitante do outro lado do espelho




Lud, Paisagem, serigrafia, col. ns



   A notícia, vinda no JL pela mão de Vítor Silva Tavares, apanhou-me de chofre. Horas antes, já um ex-colega tentara entrar em contacto comigo para me transmitir a triste notícia. E isto porque, à puridade aqui fica dito, a última conversa que tivéramos no dia anterior fora precisamente sobre Lud - Ludgero Viegas Pinto - o pintor e poeta bissexto, o imprevisível Lud que contudo comigo sempre agira como um cavalheiro e confrade fraternal.

  Afinal, o Lud  já estava morto à hora em que concertávamos pedir-lhe desenhos para o suplemento que então co-coordenava e em que combinávamos apanhá-lo, na próxima ida a Lisboa, para uma conversata até às tantas. Mas a vida – a vida que a morte, essa, não tem nada senão negrume – tem destes arrepios, destes desconchavos que nos derribam a alegria. A essa hora, a esse tempo em que congeminávamos projectos que o incluíam, já o Lud lisboeta dos quatro costados e alentejano por casamento e inclinação (como tantas vezes me disse nos tempos em que frequentávamos Monte da Pedra, terra de sua mulher) percorria outros caminhos, outras jornadas de peculiar desenvoltura. Talvez em passo estugado, como usava nos seus bons tempos de empenhado fruidor de ritmos epicuristas, ou em passeio mais pausado desde que uma recomendação de médico lhe aconselhara dietas menos reconfortantes. À hora em que nós o recordávamos pensando para ele diferentes enquadramentos, Lud retoiçava já noutras paragens com o seu atento olho negro de português retinto, o cabelo asa de corvo e o bigode à Douglas Fairbanks dos seus bons tempos.

  Lá por setenta e um setenta e dois, em certo dia apareceu-me na Estação Meteorológica onde eu, pela mão de Vitorino Caramelo, me iniciava como ajudante de meteorologista (única profissão que de facto tive, o resto foi só caminho civil para tratos de existência quotidiana) um sujeito de porte atlético solenemente vestido com um desses fatos azulados que se usavam na década, impecável camisa branca e gravata a condizer. Vinha falar com os responsáveis dum Liceu ou duma Escola do burgo portalegrense para que cordatamente o admitissem como professor de desenho. Propósito louvável, mas algo quimérico. Como pouco depois vim a saber pelo mesmo Pedro Oom que para mim lhe entregara recomendação, só por intemerato desígnio é que Lud se dera a esse périplo de potencial labutador…Com efeito, Lud não era propriamente cidadão que conseguisse estar dia após dia, com esmero, ensinando estudantinhos com propósito e persistência. Ele mesmo se encarregou, digamos, de me esclarecer sobre o inusitado da indumentária, da farpela de dandy: “É só para a entrevista…”, elucidou-me na sua voz educada de alfacinha encartado.
            



Lud, O terceiro, óleo



   De modo que o que lhe ficou dessa viagem algo quimérica foi só um belo almoço na aprazível “Casa Capote” e, dispersa pelos anos, a amizade do signatário.

   De tempos a tempos aparecia-me em Portalegre, em geral acompanhado de um primo amigalhaço ou dum vizinho conterrâneo da esposa e lá íamos nós a caminho da aldeia de Monte da Pedra onde, numa simpática tasquinha a condizer, depois de lauta manducação de petiscos regionais nos entregávamos ao prazer singular e algo desenquadrado da declamação de poemas e ao trautear de algumas canções – manutenção de minha lavra – que o Lud acompanhava com fervor mas sem timbre excessivo…

    Em Lisboa, algumas vezes com Carlos Martins e, pelo menos uma vez, com Luís Osório e Henrique Madeira, demos nossos passeios cortados eventualmente por alguma partida das que gostava de artilhar. Pirraças em vol d’oiseau  mas que nunca indiciavam maldade, antes certificavam um humor de cepa lusitana sem ferocidades.

   Colaborou comigo em suplementos e revistas. Fez capa para um livro meu que não chegou a sair na altura por o seu presuntivo editor ter falido com pequenino estrondo, mas que foi o suficiente para se lhe entravar a rota. Expusemos em conjunto aqui e ali, no país e lá fora com envios pela prestimosa e bendita via postal. E até combinámos, num dia mais sonhador e pachorrento, uma viagem a Itália que o Lud afinal não pôde fruir por mor de outros afazeres e, razão muito ponderosa, por não lhe abundar marcadamente o vil metal.

   Em casa dos familiares próximos do Dr.Feliciano Falcão, conviva e amigo de Régio, está decerto uma obra sua. Foi compra/venda feita durante uma das tais viagens até aos rincões de São Mamede. Por mor desse negócio artístico proveitoso, generosamente, o pintor quis debruçar-se comigo, fazendo do seu bolso as honras do bródio, sobre uma vasta pratada de marisco acompanhada de outros pitéus e líquidos condizentes, numa Casa do ramo bem conhecida ali ao pé do Coliseu da capital.

    Lud tinha mão de pintor e era – para mim sempre foi, como o atesta uma dedicatória iluminada com um desenho e aposta no meu exemplar de um livro de C.W.Ceram – um conversador tonificante ainda que algo deambulatório. Levemente intempestivo para alguns, não sei porquê mas sempre manifestou pelo que aqui o evoca e relembra uma cordialidade afectuosa e um companheirismo intelectual que nunca desceu à zombaria ou ao descontrole. Ares serenos do Alentejo o enlevavam nesses momentos? Não o sei, nunca o soube nem procurei tirar isso a limpo, confesso que jamais pensei muito nisso. Mesmo agora e quando ele se foi e só restou um halo de saudade com uma dúzia de anos.

  Nessa altura senti uma sensível amargura e disse para os meus botões enquanto lhe recordava o perfil desaparecido: “Até sempre, amigo Ludgero. Que descanses coloridamente, já sem as tuas habituais inquietações, na absoluta paz final!”.   
                                                                                                      



Lud, Gato número seis, óleo


Nota do senhor Professor Doutor Administrador deste blogue:
Lud (Ludgero Viegas Pinto) nasceu a 3 de Junho de 1948, em Lisboa, no Bairro de Alfama, tendo falecido em 2001, também em Lisboa, com 53 anos. Apesar de toda a actividade que desenvolveu ao longo da vida, participando em múltiplas exposições e como ilustrador dos melhores jornais e das melhores revistas do país, é hoje um dos mais esquecidos artistas do Movimento Surrealista português. 

quarta-feira, 27 de junho de 2012

É Assim que se Faz a Estória (2)


Pedro Oom, Retrato de Artur do Cruzeiro Seixas (ilustração)



 Lembrança de Pedro Oom


  “Sacavém, 24. 3. 73

  Caríssimo Nicolau

   Não consigo tratar-te por Francisco – muito menos por Garção, pois tendo havido já um na literatura e na poesia, aliás muito chato, parece-me que 2 serão de mais.
   Acabado este preâmbulo tenho a dizer-te o seguinte: a ideia “exposição Carlos Martins e Lud” aí parece estar em marcha. No dia da inauguração poderia fazer-se o recital. Esta ideia já está a ser posta por mim em marcha. Falei à Júlia Chaves. Concordou com a estadia num fim-de-semana e os 500 paus que darão somente para a gasolina. Ela tem um carro “ultra bright”.
  Terás de ajudar um pouco:
  1º  Manda “Balada de Portalegre” do Régio, se possível com nota biográfica.
  2º  Diz para quando é possível esta manifestação (nunca antes de um mês).
 Agora outro assunto: pediram-me no “& etc” que te contactasse para o seguinte: pretendem expôr colecções dos números do “& etc” em várias sociedades de recreio, juntamente com os boletins de inscrição para sócios. Como presidente ou influente do Clube local, podes escrever para o “& etc” propondo exactamente o que foi dito atrás.
 Espero que o faças sem grande demora pois estão muito interessados nesta espécie de promoção.
  Manda também (para mim) um poema teu que te pareça o melhor para o recital. Igualmente do nosso amigo daí, cujo nome me esquece sempre.
  Espero notícias breves.
  Um abração do
                                                                                            Pedro”

Notas


1. Esta carta manuscrita vinha acompanhada dos poemas que a seguir se dão a lume.

2. A exposição em projecto não se realizou, uma vez que o Governo Civil a impediu. Foi substituída por uma outra de recurso, tendo sido mostrados poemas-colagens a exibir em Coimbra – e ali também proibidos ainda que tivessem sido noticiados no jornal “República”.

3. No decorrer da “vernissage” ao princípio da tarde, foram lidos poemas de Régio,  A.M.Lisboa, ns e Pedro Oom, que acabara por não se deslocar a Portalegre. Finda a função, ns e o vice-presidente da colectividade Manuel Bagina Garcia, falecido em 2007, foram detidos pela polícia “para averiguações”. Foram postos em liberdade na noite do dia seguinte com a indicação de que “na próxima iriam para Peniche”.
   Os dois primeiros poemas seriam depois do 25 de Abril dados a lume no semanário “A Rabeca”, depois defunccionada pelos próceres políticos que a haviam tomado “revolucionariamente”, saneando ns de imediato.





Cruzeiro Seixas, No dia a seguir ao nosso casamento, 1967



Poema

Há um ar de espanto
no teu rosto em silêncio    pequenas pausas
entre nós e as palavras
          que desfiamos
Quando o silêncio (pausa mais longa
           que nos contrai o peito)
cai bruscamente
duas mãos agitam-se meigamente     as nossas
e os mendigos, todos os mendigos
espreitam ao postigo do teu pequeno apartamento
coroados de rosas e crisântemos

É o momento
em que afirmamos a realidade das coisas
não a que vemos na rua
e que sabemos fictícia

mas a outra

aurora cintilante
que põe estrelas no teu sorriso
quando acordas de manhã
com um sol de angústia na garganta

acredita
nada nos distingue
entre a multidão anónima a que pertencemos
embora
o fotógrafo teime sempre
em nos oferecer uma esperança
- fluido imaterial que nem mil anos
poderão condensar -

O nosso rasto
mal se apercebe na areia
condenados ao fracasso
pequena glória dos pequenos heróis deste tempo
ainda aspiramos
          no entanto
a ser o índice deste século
único sinal humano, florescente e salubre
de contrário
seremos apenas
um halo de vento
arco-íris de luto
ou estrada para sedentários
É ocioso
preparar a objectiva
que nos vai condenar a um número
nesta cidade onde cada homem
é escravo de uma arma
Ocioso
avivar as flores do cenário
encher de luar o jardim do nosso afecto
                      Só um acaso
                      nos poderá revelar
                 por isso
                        fechemos o rosto
                                                   meu amor





Cruzeiro Seixas, Projecto para um Tejo à nossa medida, 1966



Poema

Os camaradas
saíram para a rua
com os bolsos cheios de serpentinas

            (o calendário
            estava trocado
            e de Entrudo

                        nicles
              nem um só cabeçudo
              ou máscara
              até o polícia de giro
              com a dignidade sui generis
              dos pequenos autocratas
              participou na patuscada
              depois do jogo
              - o Benfica foi eliminado)

Os camaradas
compraram fatos novos
nos alfaiates dernier-cri
e botaram as serpentinas
no lixo

para não deformar
os bolsos (novos).


História do meu boneco

Cresceu comigo
neste espaço que se diz português
e neste tempo (histórico)

Maricas (era de esperar)
mas rebelde como um felino
ninguém se lhe pôs inteiro
ficou sempre um bocadinho
porque rangia a dentadura.

Deixou de acreditar na Santíssima Trindade
quando notou as primeiras brancas do púbis
mas já era muito tarde para ir às “meninas”
pelo que aderiu aos movimentos parlamentares
- lixou-se!

Depois de 45
afundou-se na continuidade
engordou (discretamente)
caíram-lhe os últimos molares
farfalhou o bigode, à Guarda Nacional antiga
e hoje
para fingir que é   ainda o teso,
levanta a calva luzente
e bate o pé

ao peso dos argumentos.


                                   Sacavém, Março de 1973



Pedro Oom

segunda-feira, 4 de junho de 2012

É ASSIM QUE SE FAZ A ESTÓRIA (1)



Mário Cesariny, O papá que veio do Leste (Col. João Garção)

E, para começar bem a semana, digo eu:


  DUAS CARTAS MC/ns E UM QUADRO, RECORDANDO  CESARINY


A Francisco da Gália (*) envia Mário Ibericus

Saúde.

A morada da Maria Helena é 34, R. l’Abbé Carton, Paris 14 ème. Deves enviar – istové – o nome que é de pores no sobrescrito, é VIEIRA e SZÈNES. Vale.

Cá veio a tua carta com a tua tradução do Rosemont(1)que é a beleza, nenhum cheiro a tradução, e o teu poema de O Livro das Cidades e respectas duas colagens. Tudo do fino. Segue nesta o que a isso se junta para a Voz Anarquista (2).
De minha parte vão e estão:

o LUNÁRIO DO SURREALISMO PARA 1990. É uma secção a ser continuada e cujas características apanharás à primeira leitura. E é um presente bom que faço aos teus e nossos amigos porque título assim não vem todos os dias e eu tinha-o de lado para a edição de um livro grande gizado nos mesmos moldes. Aliás, não desisto de fazer tal livro (que está quase feito, aliás outra vez).

um NOTÍCIAS DA CULTURA que espero te regozijará bastante e servirá de aviso grave aos e às OKAPIS (3) de Lisboa e Horizontes.

uma  PEQUENA CONTRIBUIÇÃO AO PROGRESSO DO MITO “DEUS-PÁTRIA-FAMÍLIA”, que já conheces de vista.

um ENSAIO DE SIMULAÇÃO DA DISLEXIA PROFUNDA, do Miguel de Castro Henriques.

um FERNANDO PESSOA POETA, que é a minha comunicação para a base naval de Portland. (Congresso sobre pensamento libertário – Universidade de Portland-Oregon)

Penso que este material sublime, junto ao teu do Livro das Cidades e a tradução do Rosemont, dará darão as duas páginas requeridas e mesmo alguns sobres para continuados noutras páginas. E julgo ser importante que saia junto, por ficarem tocados os vários pontos-estrêlas gerais. A menos que ainda possa ser pouco e se lhes possa dar mais. Acrescentarias das tuas lavras. Caso contrário, e sendo absolutamente exigido “diminuir”, proponho que a “vítima” seja o Rosemont e se lhe diminua o texto. (…)
 As comunicações eu Botas (4) parecem-me comprometidas outra vez. Assim que te a ti mando, para que por tua vez sejas tu a mandar, como no princípio. Por fim, achava preferível que a esta página ou páginas se não apuzesse nenhum título especial. Apareceriam no que são como são. “Voz Anarquista” já é mais do que bom. Mas como há textos que não saem assinados (aqui vão três) poder-se-ia pôr, num cantinho, “página” (ou páginas) coordenada(s) por Fulano e Fulano”.

Como vão as tuas endoenças? Eu mantenho algumas. E as bodas do Ceia (5) quando são? Recita-lhe durante a cerimónia “O Casamento do Céu e do Inferno” do William Blake!

  Abraços para ti, para a Flora, e para o nubente

                                                                Mário (manuscrito)

Enfim, diz que recebeste, e o que achas do recebido.

                                                                                Abril 7 (manuscrito)

Magníficos, os “exemplares especiais” que fizeste das nossas comunicações Portland!! (6) (manuscrito)


Notas -   (*) Refere-se a NS, cujo nome civil é Francisco.
  
  1. Refere-se ao ensaísta americano Franklin Rosemont
  2. Jornal que se propusera publicar um suplemento literário orientado por MC e NS. Atarantados com a qualidade das colaborações (que não tinham nada a ver com “militâncias”) abandonaram a ideia, borregando.
  3. Referência irónica à ensaísta sul-americana Maria Lucia Lepecki, que na altura dispunha na praça lusa de bastante notoriedade.
  4. Refere-se ao pintor e poeta Mário Botas, nessa altura bastante doente.
  5. Refere-se ao confrade que escrevia textos sobre música moderna com o pseudónimo de A.J.Silverberg.
  6. Refere-se ao Congresso organizado pela Univ. de Portland (Lewis & Clark College), em que ambos apresentaram comunicações – MC sobre Fernando Pessoa, NS sobre  as Religiões Reveladas

***


26 Set. 84

Mário:

   Apresso-me a escrever-te para te dizer que, com efeito, o papel do Rosemont é de facto de mais. É, pelo menos, um bom serviço prestado aos kgb e companhia, sob a sua capa anarcaqueirante.
   Não alinho nisso; seria bom compreender-se que, também eu, não concordo com a sua inclusão no Catálogo; o fantástico e o maravilhoso, sendo a inteligência e a poesia em funcionamento prático, não se compadecem com a vizinhança de pistolinhas de Chicago. Aquilo não é revolucionarismo, é politiquice às três matracadas.
   Creio que é urgente mandares dizer a Rosemont que a Exposição nada tem a ver com anarquistas federados ou só de chapelinho; para que tudo não se complique e comece a ficar macacal. E dê merda.
   Por outro lado, importa dizer de uma vez por todas: eu não sou anarquista, explicando: sou libertário porque surrealista. A minha estadia junto dos anarquistas ibéricos foi um equívoco provocado pelo facto de eu julgar que as pessoas que se dizem livres têm poesia na cabeça e no corpo, trocando: que são a própria poesia.
 Quem são a própria poesia são os Poetas. (…). Os outros podem sê-lo eventualmente, mas não se tem notado nada. São anarquistas de aviário ou pistoleiros puros e simples. A Anarquia, para mim, teria de ser a poesia em movimento. Mas aqui (ou em todo o lado? Espero que não) é só a politiquice duma dada extrema. Que vão para a pôrra, definitivamente. O único anarquista verdadeiro é o homem criativo, o Poeta, que não se curva a cores e traquitanas. E disse, caraças!
  Concordo pois contigo e Carlos que importa levar a Rosemont as “actas de Niceia” (passe a piada!). O texto dele parece-me menos surrealista que exaltado. E a exaltação assim é meia-mantença de um outro conformismo. Prefiro os índios e os esquimós, mais que os americanos em (pseudo?) rebeldia. Tenho a ver com os Dogons (assim como com Basile Valentim) nada tenho a ver com Marx e Lenine. E pronto, punheta!
  Cago tanto na LSD como nos manifestos eleitoralistas. Tanto me urino nas bombas de compra ou de fabrico próprio como nos artefactos dos cabrões dos militares e estados-maiores. E acabei.

  Amanhã te mandarei o resto da tradução do Calas. Acredito no valor do livro dele se o dizes. Aliás estes textos dele não são maus, são só horrivelmente ingénuos (embora necessários, e além disso a inteligentsia de cá é tão estúpida que não irá dar por nada). Depois um dia falaremos disso.
  Os meus textos que apontas não estão publicados em nada a não ser as cópias fotocopiadas que te mandei – com excepção do Picasso.
  Agrada-me que tenhas colocado esses para publicação no catálogo.
  Talvez dentro deste tempo eu tenha dinheiro para editar um livro (que dizes a “Objectos inquietantes” ou outro?) Fala disto. Procura por favor uma tipografia que faça BARATO, PÁ. Davas capinha? Então vê lá isto. Estou um bocado melhor, depois falaremos de viva voz.
  E viva a Poesia, a revolta e a beleza sem amarras nenhumas.
  E vejam lá isso sobre o Rosemont. Se não, qualquer dia estão a fabricar bombas atómicas de bolso. O que é tão mau como o resto.

                   Abraço grande do     Francisco   (nome de NS,  também manuscrito)