Escreve Alberto Gonçalves, no DN:
O
humanista que venerava Estaline
Uma
ocasião, ao conduzir à toa por São Paulo, deparei com a Mão de Oscar Niemeyer.
A Mão é uma escultura que integra o conjunto de edifícios do Memorial da
América Latina, também projectado pelo arquitecto, e, grosso modo, representa o
continente a sangrar. Naturalmente, foi concebida enquanto a típica denúncia da
opressão que marcou e marca a história daquelas paragens. Contra os tiranos,
tudo, não é verdade?
Parece
que nem tanto. O autor da Mão manteve uma longa, jovial e pública amizade com o
tirano mais duradouro dos séculos XX e, no fundo, XXI: Fidel Castro. Além
disso, admirava o tirano mais mortífero de sempre, sob o argumento de que as
suas acções se justificavam pela "defesa da revolução":
"Estaline era fantástico", declarou numa entrevista.
Ou seja,
Niemeyer legitimou através do exemplo os assassinos de que as suas criações
fingiam queixar-se. Não se trata apenas de um caso em que a arte é maior do que
a vida: a estética de Niemayer, do desconforto à "disfunção", é
discutível; o carácter, uma vergonha sem discussão. Na hora da sua morte, os
media chamaram-lhe humanista, conceito que não sendo irónico começa a parecer
pejorativo. Ainda iremos a tempo de canonizar Albert Speer?

