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domingo, 14 de abril de 2013

PARA COMEÇAR BEM A SEMANA





 Para uma semana que vos desejo excelente em todos os aspectos ("felizes no jogo e no amor", parafraseando a frase célebre de Stendhal a rebours e contrariando fadários) nada melhor que contemplarmos, por um par de minutos, qualquer coisa bela e suscitadora. Excitante dum ponto de vista vital, não sei se me entendem.




 E assim sendo, neste caso aponto para a Mostra que abriu anteontem na Sala de exposições temporárias do castelo de Portalegre e protagonizada por Rui Real - cinéfilo encartado, agricultor, cultor de leituras muitas vezes heterodoxas que vão de Lovecraft a Lauro António, passando por Bradbury, Philip José Farmer, Ridley Scott, etc.




 E, já agora, uma estorinha real para ilustrar (digamos assim, que ilustrações mesmo, tiradas na "vernissage", vão em anexo):




 - Anos atrás, não estando eu em cheiro de santidade no bestunto de um sector que de forma atribiliária semi-dominava pelos meios e com a velhacaria que lhes é hábito o ranço político alentejano/portalegrense, um dos controladores dessa agremiação sugeriu/lançou a ideia de que seria bom arranjarem forma de me processarem, visando o corolário de me prenderem ou, no mínimo, me "darem cabo da vida", como disse com doçura um dos artilhadores. (Isto tem sua piada, pois se nos tempos da "velha senhora" me levaram de cana (digamos desta maneira justamente rasca) por duas vezes - foi precisamente por dar ajuda e protecção a membros dessa agremiação). Mas bom. O ambiente ficara um pouco...nublado. Nas terras pequenas Vs. calculam como é. E foi então que, num dia, me chegou um desenho carreando o trombil - muito melhorado, confesso - deste que vos fala; e uma semana depois era-me dito pelo seu autor que, para a minha peça de teatro ("Passagem de Nível") que eu buscava dar a lume por esse tempo, ele teria muito gosto em ilustrar a página de rosto.




  retrato tenho-o, encaixilhado, na Casa da Muralha (Arronches) junto de outros da mão de Mário de Oliveira, Cesariny, Juan Ribeyrolles, Carlos Texera, Miquel Elías, etc. que com generosidade me frequentaram o frontispício. O desenho está no livrito que de facto semanas depois saíu, também valorizado com capa de António Luís Moita e introdução de João Garção).




 Pronto, vendi meu peixe neste domingo ensolarado. Fica, com a estima que sabem, os proverbiais abrqs e bjh deste vosso confrade.

quinta-feira, 11 de abril de 2013

Exposição de Pintura - Rui Real




"É já amanhã, sexta-feira dia 12, que será inaugurada na Sala do Castelo de Portalegre - mantendo-se aberta até 17 de Maio - a Exposição "Visões paralelas" de Rui Real, sob o patrocínio do município alto-alentejano.


 Pintor desde a extrema juventude e, de há uns anos a esta parte, agricultor na sua herdade situada nas planuras após os contrafortes da Serra da Penha, o artista portalegrense que excursionou pela ilustração, pela banda-desenhada e pelo design e apresentou os seus quadros em diversos lugares expressos do país e se deu também a conhecer no estrangeiro, mostra-nos agora um acervo da sua produção mais recente.



 Grande cinéfilo, Real deixa espelhar nos seus quadros muitos referentes cinematográficos, sempre sob a égide de um olhar que encontra no fantástico os seus mais intensos motivos e se multiplica, noutra face da Mostra, em revisitações da Natureza e dos seus cambiantes maiores.



 Jorge Loeb Guelvada"


sexta-feira, 21 de setembro de 2012

Para o fim-de-semana, com amor


Caros confrades e amigos/as

 Não, não venho falar-vos de absurdo e de desespero - apesar de tudo o que se passa e, temo, irá passando no país, na nação, na pátria.

 Como exemplo mínimo refiro-vos apenas, num segundo, isto que pude constatar pessoalmente: durante bastante tempo as leis que tinham a ver com a circulação automóvel foram deixadas ao deus dará. Com o típico desleixo das administrações e o típico desprezo para com o cidadão luso (?) as Finanças deixavam tudo no vago - e o cidadão desprevenido no vago ficava...

 Pois há meia-dúzia de dias, agora que o Estado está com as calças na mão e tenta, desesperadamente (digo eu com boa-vontade e carinho, pois se calhar o desespero é mas é nosso!) arranjar dinheiro dê lá por onde der, lembraram-se que haveria carros já na sucata ou mesmo já inexistentes, a quem chamar à pedra.

 Vai daí, mihares largos de pessoas começaram a receber da repartição de assuntos tributários, como agora se chamam aqueles serviços, cartas para que pagassem os selos de circulação desses antigos veículos já a fazer tijolo.

 E embora muitos, creio que se calhar todos ou quase todos, tenham apresentado ou estejam a apresentar declarações em como esses carros não circulam (porque não existem) há vários anos, vão ter que pagar selos - em paralelo aos que pagaram pelos carros que de facto utilizaram/utilizam a partir do falecimento dos outros.

 Ou seja e como se diria ironicamente, com uma magoada ironia: nos tempos de Salazar havia mortos que votavam, agora há carros fantasmas que circulam ainda que estejam há anos no pó dos cemitérios de popós, mortinhos da silva!

 Mas vamos ao que de facto importa, que isto foi apenas detalhe em tempos de crise (que nós povinho não provocámos, mas que teremos de pagar porque estamos cheios de pecado, para usar esta expressão para-religiosa...de alguns lúcidos comentadores!

 Quero eu dizer sim que vos remeto, em anexo, um texto analítico - que irá sair em diversos órgãos de comunicação, interactivos e não interactivos, no país e no estrangeiro - em que me debruço sobre um excepcional acervo de foto-colagens dum dos mais representativos autores brasileiros de hoje (como poeta e ensaísta, como tradutor e interventivo viajeiro em toda a América, sendo uma verdadeira placa-rotativa para confrades, para vozes da criação artística, para acções de criatividade em transversal postura): Floriano Martins, de que também vos dou em iluminação 4 dessas Máscaras a que o acervo se reporta e que foram o leit-motiv duma Exposição recente no país irmão.



 Bom fim-de-semana, tanto quanto possível.




 SOBRE  MÁSCARAS de Floriano Martins


Floriano Martins, O intervalo da sílaba
1.    


  As máscaras como representação geral

     Quando se trata com máscaras, procura-se ir para além do lugar comum: máscara como disfarce, como alegoria, como simulação teatral? “Bem te conheço, ó máscara!” é aliás locução conhecida, inscrita num cenário ou de festa ou de período carnavalesco mas que contudo não esgota o significado que a máscara pode ser ou inevitavelmente é em circunstâncias específicas. E muitas vezes tal asserção transtorna os imaginários por esta razão muito simples: a máscara é uma projecção de nós nos outros, havendo todo um “background” histórico que nos impele numa determinada direcção, pois de acordo com especialistas a máscara começou por ser encenação ritual no encalço da imitação do rosto dos “deuses” ou do que como tal se tomava. E depois, com o correr do tempo, esvaziado que fôra esse sentido primevo, passou a ser uma simulação de cariz sacerdotal, dentro dum sagrado já perdido enquanto visão imanente ou dependente dum real que se contemplara.

   Ultimamente, neste nosso tempo dessacralizado e filho dum inconsciente colectivo ou dum subconsciente forjado pelas publi-imagens, ou imagens de substituição, multiplicaram-se as fantasias como por exemplo as provenientes da cultura de massas ou cultura popular assim chamada. Por exemplo as fantasias à Batman que, nesse caso, são a face normalizada e em versão cinéfila dum dos mais antigos mitos do Homem revisitado pelo marketing hollywoodesco: o vingador que sai das sombras mas é portador da luz, o anti-minotauro que, por razões diversas e muito próprias (megalomania positiva, adesão a monomanias justiceiras animais, fervor pelo insólito) resolve colocar os seus poderes de máscara poderosa ao serviço da comunidade ferida pelas prepotências diversas. Que é como quem diz: uma espécie de activista imerso em penumbra planejada que, em vez de transportar consigo soluções sociais permitidas, políticas, de cidadania legitimada, traz para o mundo da razão a força dos seus músculos e o engenho da sua perspicácia num universo societário e conceptual paralelo mas que se torna benéfico e reconfortado (reconfortante?). E a quem a comunidade quotidiana, sem máscara ou com a máscara transparente dos direitos frente aos díscolos, aplaude com ardor, enlevada pelas façanhas desse transformado cuja missão é transformar/modificar  sem se dar a conhecer no seu contexto de personalidade civil.





Floriano Martins, A garrafa esfomeada


   Nesta perspectiva particular a máscara propõe pois o indizível, o impossível aos que não dispõem desse artefacto que pressupõe poderes mais vastos e eficientes. Sem a sua máscara, no caso vertente, o homem-morcego não passa dum argentário vulgar, algo excêntrico e snob mas apenas dono de um lirismo um pouco ingénuo que o aproxima do diletantismo de filho-família. Mas assim que assume a máscara o personagem muda literalmente de figura…

   Sendo uma clara face de substituição, mesmo de transfiguração como ficou sugerido, a máscara é igualmente uma projecção dos nossos continentes submersos, das partes demasiado sugestivas e reveladoras do duplo que se acoita nos nossos compartimentos mais recônditos e que através dela é acordado para as actuações que doutra forma não teriam ensejo de se manifestar. Através da máscara que nos vela e nos esconde, paradoxalmente mostramos então a parte oculta da nossa Lua pessoal. Ao mesmo tempo que nos disfarça, a máscara revela/desvela: o que somos intimamente ou, dizendo doutro modo, o que sem máscara nunca patentearíamos à realidade circundante e colectiva.

   E sendo o teatro (ou o theatrum mundi), como é, a assunção plena da máscara, natural se torna que todos sejamos um pouco actores, ora num plano de recusa ora no da aceitação de uma certa estratégia de saber viver numa sociedade em que as mais graves encenações se apresentam contemporaneamente de forma “aberta” mas num universo em que o grosso da população praticamente perdeu a privacidade na polis em que os donos da realidade fingem que tudo continua a existir normalmente. (Quem não sabe que, hoje por hoje, o reino dos que mandam no quotidiano é uma completa mascarada?).

   Nesta conformidade, o grande e real perigo que nos espreita é que a máscara se nos cole à cara, fazendo com que o imaginário encenado, para uma hipótese mínima de defesa, passe para o lado de lá do palco.

  Que é como quem diz: para o lado de cá da existência em sociedade…





Floriano Martins, A colheita de acasos


2.     As máscaras como representação do artista

   Neste impressionante acervo de quarenta e cinco máscaras proposto por Floriano Martins o que de imediato salta aos olhos é a sua modificação expressiva. Não são máscaras, digamos,  para usar mas para contemplar, para ver, na verdade para que o destinatário – que é o público em geral, se assim me exprimo – se encontre frente ao mistério que elas sugerem. Que elas são – constituindo matéria ora de maravilhamento ora de espanto, ora de inquietação (ora mesmo de medo) frente ao inusitado da transfiguração.

  E tal facto é sublinhado pelos títulos que as certificam, que obviamente as definem tanto no mundo da expressividade como no do humor negro, da surpresa e da eventual estranheza que ante elas se sintam. Máscaras de teatro? Não o afirmarei. Máscaras sobretudo de arte criada por intermédio duma vivência em que o experimentador joga com um certa tradição mas principalmente com os contrastes mais íntimos de quem as pode observar, num jogo incessante (incessado?) de sugestões e de procuras propiciado pelas novas tecnologias de que dispõe hoje em dia um autor plástico capacitado.

    Pela visão do conjunto percebe-se, sente-se, que a máscara com que estamos a contas é todo um engendro patenteado em diferentes recorrências, em diversas visualizações, em diversas montagens calibradas por uma ideia base: elas trazem já em si corpos, transportam subjacentes transmutações carnais, são já o elemento humano que em si-mesmo se transfigurou, se projecta então num universo multifuncional e objectivo que só neste mundo ficcionado cobra a representatividade que lhe é própria fazendo jus à frase canónica de que a Arte, afinal, não é uma verdade mas uma mentira que torna possível a Realidade. Ou seja, por palavras operativas eficazes: que, transtornando a “verdade” que é a mentira global societária em que subsistimos (em que conseguimos ir subsistindo?) atinge e consagra uma realidade mais funda, ou apenas realmente verdadeira, para além do Bem e do Mal que os controladores sociais apresentam como inevitáveis. E que não são mais que impostura num contexto por eles criado e mantido e onde tentam que não tenha lugar a imaginação criadora, pedra philosofal da Liberdade.

   E nestas máscaras compósitas integrando uma intenção, como em toda a verdadeira obra artística, não se detecta uma mística nem mesmo uma metafísica – inúteis e complicativas, alibis para encandear ingénuos ou os que por razões específicas vivem afastados (pois os afastaram) do conhecimento verdadeiro e da sabedoria possível. Estão ali, frente aos nossos olhos, na sua naturalidade e na sua nudez real (e consequentemente surreal, que é a realidade em todas as direcções), constituindo corpo concreto ainda que solúvel numa globalidade que por estes meios se desamarra.

   Aqui, nelas, “on ne peut évidemment s’atendre à une autre jugement sur ce symbol”, como referia Guillaume d’Auvergne citado por Justin van Lennep, “senão àquele que era comum aos alquimistas e aos sábios de antanho”.





Floriano Martins, A garrafa escorregadia

   E é este o justíssimo intuito, a meu ver, deste autor que me habituei a estimar – entendendo nesta palavra o que de salubre e de fundamental existe numa criação visando a permanência duma proposta transfiguradora e, para tudo dizer, intemporal.

                                                      Casa do Atalaião de Portalegre, Setembro de 2012
                                                                                                      Nicolau Saião
     
   (Os textos de ns não seguem os preceitos do Acordo Ortográfico)

domingo, 10 de junho de 2012

Aos 97 anos


Maria Keil, ilustração


Morreu...



Maria Keil, Mural na Avenida Infante Santo, Lisboa (detalhe)





Maria Keil, Auto-retrato, 1941

quinta-feira, 7 de junho de 2012

Um novo texto enviado por António Justo


Paul Gauguin, D'ou venons-nous, qui sommes-nous, où allons-nous? (clicar na imagem para aumentar) 


O Absolutismo na Arte


De cinco em cinco anos peregrinam, de todas as partes do mundo, milhares de artistas e admiradores da arte contemporânea até Kassel, Alemanha. A documenta foi criada em 1955, em Kassel pelo artista Arnold Bode que pretendia, com a iniciativa, abstrair das ruinas da guerra e seguir novos horizontes ao serviço da abstracção. Na primeira exposição houve sobretudo obras de arte que tinham sido proibidas e perseguidas durante o regime nazi e intituladas de arte degenerada (“Entartete Kunst”).

A documenta alonga-se por 100 dias. Nesta altura a cidade transforma-se num mar de gentes de portes exóticos: um aspecto folclorístico que faz lembrar os mercados da idade média em torno das catedrais e, assim, forma, já por si, também uma obra de arte social. Kassel transfigura-se numa praça de arte que se estende por edifícios, parques e outros espaços públicos da cidade. A documenta apresenta uma perspectiva transversal da arte contemporânea e permite fazer o ponto da situação mundial em questões de arte e ocasionar uma certa orientação de perspectiva. Na sua história de 57 anos com 13 exposições, documenta as contradições e ambivalências do Homem e do tempo num currículo de realização e fracasso em processo de morte e ressurgimento.

A dOCUMENTA (expressão gráfica da documenta 13) vive da ambivalência e do escândalo na procura dum futuro prospectivo a partir dum presente impregnado de contradições e inconsistências que se expressam de documenta para documenta, numa manifestação de diferentes atitudes artísticas a que assistem diferentes filosofias, teorias, correntes políticas e sociais contemporâneas.

A documenta13, realiza-se de 9 de Junho a 16 de Setembro de 2012. A última documenta/2007 conseguiu vender 754.301 bilhetes. O objectivo da actual é atingir um milhão de visitantes. Ela é ao mesmo tempo o maior festival Open-Air. Kassel oferece possibilidades ilimitadas: o visitante tem a oportunidade de se alegrar e irritar sobre a arte.

A documenta (13), foi elaborada sob o lema “Colapso e Reconstrução” e tem como chefe/gerente a americana Carolyn Christov-Bakargiev apelidada por jornalistas de “Lady Gaga”. Ela situa-se nas pegadas e tradição das 12 documentas anteriores prosseguindo um espírito de continuidade de arte afirmativa e provocativa. Procura apresentar o válido como inválido e vice-versa, documentando assim as contradições da actualidade.

A direcção da documenta escolhe para chefe de cada exposição, um curador/chefe da documenta equipado de poderes absolutos; este pode pôr e dispor à sua vontade de maneira dogmática a própria filosofia. Na documenta, aqui em Kassel, a arte arroga-se alvores absolutistas. Carolyn Christov-Bakargiev encena-se como se fosse a sacerdotisa da arte, não lhe faltando a estola, o gesto religioso e o dogmatismo ostentado. O sensacionalismo em torno dela talvez venha do facto Carolyn Christov-Bakargiev querer, com idiotices mudar o nosso pensamento, através da documenta. Desta vez participam 297 artistas e grupos de artistas de todo o mundo.

“Direito de Voto para Cães e Morangos”

Em torno da dOCUMENTA 13 tem havido muita discussão na imprensa; a chefe tem-se revelado como bastante jacobina, não suportado mesmo nada que contradiga a sua ideologia/visão de arte. Para Josef Beuys artista “ é toda a pessoa”;  para a chefe da documenta, artista é toda a natureza, ponto.  Carolyn Christov-Bakargiev exige o direito de voto também para os morangos e para os cães; também há três cães da documenta treinados e colocados à disposição de visitantes que se deixarão conduzir pelos caninos; o sentido desta iniciativa é levar o visitante a ver a atitude do cão perante a obra de arte; intenção é inverter os valores colocando o Homem ao nível do cão e do morango. As suas posições radicais têm sido muito criticadas, muito embora a sua posição extremista possa ajudar uma sociedade surda-muda a notar que a natureza é sua companheira. A exposição paralela à documenta organizada na igreja católica St Elisabeth, onde o artista Stephan Balkenhol apresenta (na torre) uma instalação com um homem de braços abertos sobre um globo dourado, provocou os furores da chefe da documenta que não queria ver o Homem numa posição superior ao dos animais e das plantas. Sentiu-se “ofendida” por aquela instalação que questiona a sua intenção niilista não suportando o optimismo do Homem como senhor e corresponsável da natureza. Isto não passa dum ultraje invertido pois encontra na torre da igreja algo irritante para quem quer um mundo plano com tudo sem moldura, tudo abstrato, que desvie as atenções do humano.

A documenta quer ser um espelho da arte contemporânea mas negligencia grande parte da arte e em especial a pintura, o realismo, fotorrealismo, o realismo fantástico e o surrealismo. Por isso já houve movimentos anti documenta que foram imediatamente oprimidos. As pessoas não ousam opor-se ao espírito da documenta sejam cientistas da arte seja o povo. O doentio, o dilacerado tem sido tematizado em instalações e esculturas. Contrapõe-se o desastroso, o ameaçador em rituais negadores de ritos optimistas da religião e da sociedade. Um certo espírito da documenta quer afirmar-se como religião secular contra o religioso cristão e passar à margem das pessoas. Parece não reconhecer o facto de vivermos todos num mesmo mundo plurifacetado feito de muitos universos complementares.

Numa perspectiva cristã da arte o ser humano está chamado a mais do que a gritar. O Homem é o caminho de Deus e deve reconhecer-se como companheiro adulto da natureza mas sem abdicar de ser sua consciência. A religião e a arte devem ser os sismógrafos dos problemas. A arte também tem de se entender como resposta ao mundo na responsabilidade; por isso, também ela deve questionar os próprios conceitos. Por vezes tem-se a impressão, em certos meios ideológicos e de certa arte que a imagem de Homem constitui, já por ela, uma provocação. Esquecem que o olhar cego e vago da realidade é um olhar de governantes ou de quem se não quer envolver ou deixar tudo às forças duma natura sem cultura.

A arte abre novas visões mas precisa da condição humana para tornar não só a miséria humana visível mas também a parte nobre como a religião pretende afirmar. Também Dostoievski dizia “o belo libertará o mundo”. Quando se desiste da religião, o mundo torna-se em ameaça, como pretendem certas tendências ideológicas. Torna-se importante libertar a religião e a arte do medo e das ideologias.

A arte também é importante como catarsis, como crítica, sem ter necessidade de exilar a esperança. Não se podem tornar cúmplices com os senhores que roubam o mundo roubando a senhoria ao Homem tornando-o seu arrendatário e reduzindo-o a indivíduo anónimo numa imagem sem nós, como se uma árvore não estivesse incardinada num biótopo. Eu sou rei e escravo soberano, permaneço mistério e tanto a arte como a religião, como a ciência, a política, não conhecem um porquê da realidade. A arte e a religião protegem o mistério, aquilo que dá grandeza e perspectiva ao Homem e à natureza. Seria abstruso que arte e religião não reconhecessem o mesmo coração donde provêm, do epicentro da intuição que proporciona o sonho na empatia. Até ao séc. XVIII religião e arte viviam em relação amorosa, queriam modelar e tornar visível o mistério. Arte e religião questionam as compreensões imediatas. Com o racionalismo e o materialismo deu-se o divórcio do sagrado e do profano e dividiu-se o povo em sábios e ignorantes caindo-se num fundamentalismo de posições. Hoje torna-se óbvia também uma reculturização, uma nova consciência, à margem dum normativo racional que aprisiona a realidade em imagens e caixilhos religiosos, científicos, ideológicos, políticos, etc.

Na casa da arte, tal como “na casa do Pai” há muitas mansões; seria miopia expulsar a religião e o Homem do templo da arte e a arte da religião. Realidade e imagem são imagens!... Fazemos todos parte dum mesmo mundo, numa realidade complementar do não só… mas também…


Gaudí, A Sagrada Família

quarta-feira, 23 de maio de 2012

quarta-feira, 9 de maio de 2012

UM POUCO DE PARAÍSO (2)




  Tenho lido, com proveito e interesse, o ciclo de textos que José Gonsalo aqui tem publicado “Da surdez no clitoris” creio que despoletado, ou a pretexto, de uma intervenção de uma leitora pontualmente escrevente e decerto interessada nestes assuntos, tanto política como fisicamente…

 Creio que fará sentido, como achega ou sublinhado, dar a lume o texto que constituíu a minha intervenção aquando da mostra de Sevilha “De puta madre – arte erótica”, no qual se perpetram as dissemelhanças (que alguns querem abafar, solapar, maquilhar) entre estes dois factos (erotismo versus pornografia) da condição humana/social aonde alguns, ou até um razoável número, querem ver a foto “a saque e a sangue”, do imaginário individual ou colectivo ocidental.

ARTE E EROTISMO



Nicolau Saião, La chambre engloutie

   No descontínuo da existência humana o erotismo assegura a continuidade do som envolvente. “Este corpo fala”, dizia Lacan. Suspenso entre dois silêncios, o da vida e o da morte, o erotismo é mais que mero sinal na campina onde os fantasmas primordiais do espírito vagueiam sem destino.

  Se ao princípio foi o Verbo, logo a seguir o Homem teve de confrontar-se com um surpreso e confuso balbuciar. “Coisas de deuses”, dir-me-eis familiarmente. “Coisas universais, onde se reproduzem realidades misteriosas”, responder-vos-ei. Afirmando a desordem sonora (que é uma bem ordenada configuração) contra o tímido império de uma perturbada realidade muda, o erotismo participa na instauração duma realidade outra, transfigura as experiências e o próprio sentido da Natureza circundante. Não é arbitrariamente, pois, que Marianne Roland-Michel nos diz que “A humanidade só existe graças à infinidade milenar dos acasalamentos, aos sucessivos nascimentos, num encantamento e encadeamento inumeráveis como a areia dos desertos. Homens e mulheres enlaçam-se na noite dos tempos e procriam, por muito que se recue no passado. Daí nós aqui estarmos hoje, gerados e geradores.

  A arte é, antes de tudo, linguagem dos sentidos em movimento. À arte não se chega pela Razão: a poesia, como dizia Lautréamont, “é um rio majestoso e fértil”; a pintura erótica, por seu turno - na minha concepção metafórica -  é uma região silvestre onde vagueiam Dionísio e as ninfas, acompanhados por todas as estrelas e cometas que constituem o seu séquito. E, como se sabe, os deuses pagãos enquanto símbolos existem no nosso tempo, se os soubermos ver, que o mesmo é dizer: se soubermos reconhecer-nos no sagrado que é a vida.

  Em 1908 declarou Alfred Loos que “toda a arte é erótica”. Esta frase tem de entender-se no contexto em que foi pronunciada. É uma verdade que a arte pertence ao mundo de Eros, ao mundo que se opõe a Thanatos, que mais que o território da morte é o lugar da não-existência, das frias pulsões destrutivas. No entanto, a arte erótica tem características que a definem: ela epigrafa o corpo amoroso e a pessoa sexuada, apresenta-a simultaneamente como objecto e sujeito de desejo, coloca os dados da questão na capacidade humana de fruir o espaço da sexualidade e de transfigurar essa experiência em poesia e libertação da nossa triste condição de seres mortais.

  Já o mesmo não se dá com a pornografia: esta, pelo contrário, recenseando falsas premissas (é um mundo de frieza e de supressão da lógica dos relacionamentos e mesmo da sua exemplaridade) é uma espécie de caricatura existencial – terreno onde apenas se jogam esquemas pré-determinados, naturalmente controlados por razões simplesmente argentárias e de comércio deliberado.

  A arte erótica tende pois a sublinhar uma evidência fundamental rodeada de sombras suspeitas, a trazê-la ao quotidiano salubre. Na infinita madrugada dos corpos que se amam, as classificações só contam se evocam e provocam um rito mais perfeito e gerador de novas e exaltantes comunhões interiores: a experiência banal eleva-se até ao ponto supremo, ao vértice da comunicação. Tal como, na religião, a cerimónia de ordenação sacerdotal comporta uma unção, uma transfiguração – mesmo que ilusória, porquanto é dirigida a uma entidade fora do mundo, um deus – no acto erótico passa-se a outro plano, aquele que une dois corpos, duas mentes, duas experiências, dois percursos. Amar não é dois tornarem-se um, mas um tornar-se dois – é, por extensão, o ser humano tornar-se universo. O amor é uma infinita repetição. Para o enamorado a sua amada é todas as mulheres - e vice versa. O Homem, definitivamente re-ligado, existe então em plenitude. Daí que o acto amoroso seja uma simulação da morte (ultrapassando-a soberanamente) e não uma pequena morte como queriam os aristocratas libertinos e derivados menores ou uma grande morte como propunham os sádicos, míopes sexuais que necessitam de óculos/faca, ou os autoritários no plano social, membros em geral de crenças reveladas com o seu ódio ao amor humano, que esplendidamente se ergue contra o egoísmo teocentrista.

  A voz sibilina que até nós chega do fundo das eras traz com ela a certeza de que a realeza absoluta pode ser compartilhada por todos os homens e mulheres que se livraram da pequena escala hipócrita e redutora que os próceres societários armadilharam tendo-os como alvo (expressa, por exemplo, através do negócio da moda e da cosmética, do aperfeiçoamento corporal como um absoluto, da pacóvia alegria de blocos para solteiros, jornadas para a terceira idade, etc.). Assim se explica que as religiões reveladas, que subjazem a deuses autoritários, persigam aberta ou dissimuladamente o erotismo, o corpo e a sua dimensão amorosa enquanto discretamente incentivam pela sua acção castradora e estupefaciente a pornografia e os recalcamentos societários. É esta a explicação, também, para a atitude do mundo argentário, que descaradamente explora as forças eróticas - que primeiro sufoca - nos bordéis e nas lojas de sexo. Ou a do mundo da política totalitária, que procura incluir a feição sexual, controlando-a, numa razão de Estado ou de partido.

  Uma face, na arte, não é apenas uma face: milhares de momentos de outras faces nela se representam e consubstanciam. O nu da imagem corresponde à nudez assumida do homem e da mulher em comunhão, pois o erotismo é o sinal da sacralização do mundo concretizado em seres que se amam e possuem. Viaja-se através de um corpo como se viaja em busca dum planeta a milhares de anos-luz. A arte erótica, seja pelo traço e a cor de Cézanne, Watteau, Bazille, Clóvis Trouille, etc., ajuda-nos a encalhar a nossa barca nas margens onde cresce o mirto e a rosa, onde os fulgores do dia se transmutam incessantemente na penumbra de que os amantes necessitam para os mistérios do seu coração.

  Suspensa entre o brilho duma imagem ausente e a saudade daquilo que a imaginação nos concede, a arte erótica fala com vital soberania: e é desta maneira que se assume como signo da humanidade liberta, eternamente colocada além das aparências passageiras e compreensivelmente sujeitas ao desaparecimento final. 

                                in De puta madre “ – exposição de arte erótica” (Sevilha)