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quinta-feira, 14 de março de 2013

ALTO E PÁRA O BAILE ou UM HOMEM NÃO É DE PAU!




   Por vezes um tipo tem mesmo de se assustar. De ficar com os olhos não digo em bico mas redondos como berlindões esbugalhados. E o caso não é para menos…

   Pois não é que estávamos todos mais ou menos postos em sossego, apesar de tristes (snif) devido à morte do nosso querido líder Chávez, filado por um simples e honesto cancro – e de repente, como nos filmes do Hitchcock, ficamos todos a saber que, segundo revelou o camarada Maduro (este nome vale um soneto!) o comandante fora catrafilado sim por um truque minaz dos americanos que (de acordo com o mesmo maduro, vai ser provado por cientistas mundiais requisitados para o efeito) lho cravaram no pelo à má fila?




  Um homem não é de pau, c’um raio, esta marotice faz-nos ficar de unhas encravadas! Que é como quem diz. Trocado por miúdos: a malta do Tio Sam tem para estas maldades tecnologia que só visto.




  Mas antes de termos tempo de respirar profundamente, devido à surpresa estralejante, o mesmo nosso maduro revelou outra, se não tão bicuda pelo menos mais excitante dum ponto de vista conceptual: o oposicionista Cabrilles, que anda lá a chatear os bolivarianos com a mania das democracias não-populares e populistas, afinal… é panasca. Ou, por outras palavras, homossexual, como o excelente Maduro disse educadamente ao dirigir-se à população daquele “fim-do-mundo” sul-americano (para citarmos a expressão já histórica do bom Papa Francisco).




  Ele há coisas levadas do diabo, passe a expressão. E até ao lavar dos cestos (ou seja, até ao fim das eleições, em que o Maduro se verá posto em figura verdadeiramente presidencial, carago, ainda que não embalsamado) de certezinha que outras revelações bombásticas, de maior ou menor fino recorte, serão dadas ao Povo, para ir tirando a fotografia aos malandrecos dos não chavistas ou maduristas (não partidários das madurezas, se assim me posso exprimir).




  É só, creio eu, darmos tempo ao tempo…



domingo, 10 de março de 2013

Elogios da loucura



(imagem obtida aqui)


Um novo texto, a não perder, de Alberto Gonçalves, no DN:


O que falta dizer sobre Hugo Chávez que ainda não tenha sido dito? Quase tudo. Embora as convenções aconselhem a não insultar um morto recente, o bom senso dispensaria a veneração respeitosa que por aí vai, mais adequada a um santo do que a uma personagem pouco recomendável.

Imagine-se um insignificante militar transformado em agitador, que jovialmente mistura a leitura de três citações de Marx com a incarnação de Simon Bolívar, por acaso um ódio particular daquele. Imagine-se que o agitador promove sucessivas conspirações "anticapitalistas" até tentar, e falhar, um golpe de Estado. Imagine-se que, após breve passagem pela cadeia, regressa à agitação e, mediante um talento inato para o populismo, alcança finalmente o poder pela via democrática, que se apressa a demolir de modo a perpetuar o seu reinado. Imagine-se que não falamos de Berlim em 1933, mas de Caracas em 1998: eis Chávez, cujas semelhanças com o velho führer terminam aí.

Privado da força necessária, Chávez não invadiu os seus inimigos, limitando-se a atirar-lhes adjectivos e fúria analfabeta. No resto, só moderadamente difamou e perseguiu a comunidade judaica, só se aliou a líderes psicopatas para efeitos simbólicos e só causou estragos em terceiros no que toca à paciência. Se descontarmos certa influência nas repúblicas das bananas vizinhas, a acção devastadora de Chávez circunscreveu--se à Venezuela, que sob o carismático da praxe viu suprimida a liberdade de expressão, incrementada a violência (oficial e civil), saqueada a propriedade privada, potenciada a corrupção e reduzida a economia à estrita dependência do petróleo, o qual, mal por mal, impediu a bancarrota absoluta. Os simpatizantes de ditaduras aplaudem as "políticas sociais", leia-se as migalhas com que a nomenclatura do regime, crescentemente multimilionária, comprou os votos dos miseráveis. Em determinadas franjas do Ocidente do século XXI, o estereótipo do "pai da pátria" continua a suscitar ternura.

Sem surpresas, em Portugal o falecimento de Chávez não ajudou a lembrar estas trivialidades. A generalidade dos media, vergada ao alegado fascínio do "comandante", tratou a coisa com desmesurada pompa e inusitado detalhe, decidindo esclarecer-nos pela enésima vez que um tirano, logo que prospere à custa da invocação dos oprimidos, é um "revolucionário". Quanto à classe política indígena, que ao dito alto nível já celebrara Chávez em vida (ver, por favor, a comenda atribuída por Jorge Sampaio, as vénias de Mário Soares e a admiração aparentemente sincera de José Sócrates), resolveu cobrir o ditador de elogios fúnebres, menos grotescos à direita (o "amigo de Portugal", de acordo com Paulo Portas) do que à esquerda (o combatente do "liberalismo e do capitalismo selvagem", de acordo com Alberto João Jardim).

Em qualquer dos casos, as opiniões são irrelevantes: a obra de Chávez revela-se no seu legado, desde os herdeiros políticos que recuperam a hilariante tese do cancro infligido (pelos EUA, claro) ao típico encobrimento da doença (há um par de semanas, a Embaixada da Venezuela acusou-me de exagerar a respectiva gravidade), desde o cortejo de luminárias presentes no funeral (Ahmadinejad, o segundo Castro e o sr. Lukashenko da Bielorrússia tiveram dieito a lugares de primeira fila; Kadhafi não durou o suficiente) até ao embalsamento do cadáver (à semelhança, garantiu o sucessor Nicolás Maduro, "de Ho Chi Min, Lenine e Mao Tsé-tung"). Por enquanto, a loucura folclórica do "chavismo" sobrevive ao seu mentor.