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quinta-feira, 28 de fevereiro de 2013
segunda-feira, 3 de setembro de 2012
quarta-feira, 11 de julho de 2012
terça-feira, 22 de maio de 2012
O rendez-vous do troglodita - 4
(...)
A
cortesia, na tacanhez da lógica positivista mais estrita ignoradamente
subjacente ao quadro mental de múltiplos “cientistas sociais”, é apenas uma
manhosa convenção destinada a evitar os conflitos entre os humanos. Nada mais
falso porque superficial, mas que, no entanto, ganhou foros de freudiana
sabedoria de café ou de bar, depois das doze badaladas e outros tantos copos.
Na realidade, a cortesia que, nos animais, é mera regra comportamental
padronizada pelo instinto de conservação individual e do grupo, é, entre os
homens, um salto qualitativo dessa necessidade de preservação, pela capacidade,
que só eles possuem, de se colocarem na pele do seu semelhante. Por isso
dizemos que alguém cometeu um acto “desumano”, isto é, um acto que não teve em
conta o sofrimento ou a humilhação de alguém em cujo lugar conseguimos
colocar-nos por golpe de imaginação.
Podemos
encontrar erotismo em todo o lado, repito. E, naturalmente, nas mais
elementares regras de cortesia quando entre duas pessoas de sexo diferente. Os
actos adquirem significados diferentes, conforme o contexto, mas há uma
gramática erótica institucional. Quando um homem abre cortesmente a porta a
outro homem, na maioria dos casos não está subjacente a isso, se se tratar de
um acto meramente formal, mais do que o simbolismo respeitante à consideração
que o semelhante nos merece, a exemplo do que sucede com a vénia oriental; mas,
se for a uma mulher, ao gesto acrescenta-se, implícita e inevitavelmente, uma
dimensão erótica que nada tem a ver com o tão falado “assédio” nem com a famosa
“compra”. Reconhecer a diferença, inclusive a da maior fragilidade física
feminina em geral (mesmo que se trate de uma campeã olímpica do lançamento do
peso) e agir de acordo com essa diferença é algo natural no homem. E, além do
mais, é giro,
porque é a diferença o que dá sabor à vida, não a igualdade; se houver Inferno,
a condenação deve consistir em passarmos a ser todos iguais e mantidos vivos no
meio desse horroroso e infindável tédio. As mulheres inteligentes sempre souberam
perfeitamente que a sua fraqueza é a sua maior força e, por isso, nunca se
queixaram; sempre acharam que isso é
giro que se farta — é que a inteligência está ligada ao sentido de humor e não
à graçola.
Nenhuma
relação se mantém, ou, melhor, existe sem a cortesia como expressão de respeito
mútuo; e, quando a relação inclui o sexo, sem que ela se transforme em
erotismo. É difícil manter o interesse mútuo, manter o nível de erotismo? Não
se esquecer de dizer, todos os dias, à mulher que o jantar que ela fez estava
bom ou, se nem por isso, dizer que sim… mas sugerir que não está com ela por
causa disso, em vez de o engolir sem qualquer referência de apreço pelo
trabalho que teve, é exprimir respeito por ela através de um acto de cortesia
que é também um acto erótico. O erotismo é o que transforma a sexualidade
humana em arte e, como toda a arte, inspira-se nos mais ínfimos pormenores do
quotidiano para os transmutar em espírito humano. Seduzir e ser-se seduzido dá
cor, sabor e movimento à existência, seja qual for o sexo de quem seduz e de
quem é seduzido. Não a sedução que empata, mas a que aumenta o desejo da sua
tradução em forma de união carnal, para utilizar uma expressão proscrita pelo
irracionalismo ateu devido àquilo para que serviu ao irracionalismo religioso.
O
erotismo é feito quotidianamente, mas é feito também de ocasiões especiais, da
mesma forma que é imprescindível fazer uma festa de vez em quando para
revitalizar o dia-a-dia. O erotismo pode gerar mesmo uma relação ocasional,
feita de olhares, de sugestões significativas, de adereços mais ou menos
teatrais… até de uma troca de ideias. A expressão “química entre os dois ” é
mais um exemplo da persistência do ferrete do primarismo boçal positivista, que
viu a Luz nas feromonas. Nem nos animais existem feromonas suficientes para que
o macho salte logo para cima da fêmea, saltando por cima de um elementar ritual
de acasalamento que nada serve para a reprodução em si mesma. Até os bichinhos
gostam de ser um pouco mais do que bichos. E, na nossa espécie, na sua natureza
mesma, o erotismo encontra-se, como já disse, por todo o lado. Gozar com um
sexy sotaque tripeiro por cima da mesa pode ser uma sugestão erótica tão forte
como a que um pé sábio pode dar por debaixo dela. Da mesma maneira que só nos apercebemos
integralmente da paisagem em que estamos quando dela nos distanciamos, também
só nos apercebemos do significado da pele quando nos distanciamos da sua
mediatidade. O erotismo é a distância que refaz a proximidade porque
permite senti-la de outra maneira.
Diz
o meu caro CdR que nunca falou em superioridade do velho sobre o novo e muito
menos em progresso ou progressismo. E, no entanto, é disso mesmo que não pára
de falar. Por exemplo, quando compara, noutro comentário que fez entretanto,
algures, O Pátio das Cantigas e O
sexo e a Cidade, entendendo a série como sintoma de um
avanço na libertação (sexual e não só) das mulheres registado desde há 70 anos.
Ou quando apresenta aquele pequeno filme brasileiro com que pretende ilustrar o
que às mulheres não era permitido sequer sonhar anteriormente. Segundo o
dicionário, designa-se por “progresso” entre dois estados qualquer mudança que
resulte numa melhoria registada no segundo em relação ao primeiro. O contrário
chama-se “retrocesso”. Se quiser inverter o dicionário, faça favor; mas avise
primeiro, que é para eu e os restantes habitantes do planeta podermos ler e
pensar em conformidade. Porque eu digo-lhe: há mais erotismo e consequentes
promessas de incomparáveis gozos físicos e espirituais (porque é isso que o
erotismo possibilita) na franja de Beatriz Costa e nas redondezas abdominais do
Vasquinho do que em toda a série urbantronga das deprimentes desventuras
quecais da Sarah Jessica Parker e suas irmãs de permanentes desencontros.
É
que, repare, quando diz, ainda num comentário jocoso, que a sua mãe achou o
filme uma pouca-vergonha, eu também concordo consigo, que aquilo não é
pouca-vergonha nenhuma. De facto, aquilo não é uma pouca-vergonha, é uma
vergonha insuportável para qualquer animal. Porque aquela triste está reduzida
a algo abaixo de macaco, abaixo de cabra, abaixo de aranha, abaixo mesmo da
feromona: ela já só quer dentro dela a moca positivista, tal a degradação a que
está sujeita; é tanto o seu desespero, que ela come raivosamente o veneno que a
mata. O orgasmo que ela exige não é terapêutico, é o punhal da tristeza com que
ela mata ambos, o “já que queres que assim seja, assim será!”. Porque à pobre,
nem um ritual que qualquer outra fêmea curte, nem sequer a vigarice de uma
atençãozinha feita de porrada, lhe é dado! Não é de fazer chorar as pedras da
calçada, é de fazer explodir em lágrimas a Vida no planeta inteiro. Ela
suicida-se de solidão e de inumanidade e você diz: “Assim mesmo é que é, o
progresso que há no suicídio por tortura! O extraordinário humor que há neste
filme!”.
O
que é de facto espantoso para mim, aquilo que eu não compreendo de todo, é que
se o filme fosse sobre a situação inversa, se fosse dele a brutalidade verbal e
física com que ela o trata, você, como qualquer de nós, repugnar-se-ia com ela
e falaria do asco que aquilo lhe havia provocado. Ainda admito que o filme lhe
pudesse provocar alguma hilaridade enquanto explorasse uma simbólica inversão
de papéis, embora para mim isso fosse, por tudo o que disse, de humor mais do
que duvidoso. Agora apregoar como progresso aquela visão da morte implosiva de
uma civilização, Carmo da Rosa…
Não
foi por acaso que utilizei a expressão “morte implosiva”. Quando, em resposta
ao Lidador, disse, por mais que uma vez, que ele poderia manter-se no passado,
mas o certo é que nos países da Europa civilizada, a Europa mais a norte, a
coisa se passa assim, nos “vamos lá à queca! e prontes!”, e que isso, afinal,
até é bom, veio-me à memória um pormenor de não pequena importância, relacionado
com uma pós-graduação que fiz em Estudos Clássicos. E agora, de repente, uma
história passada comigo. Começo por esta.
Uns
trinta e tal anos atrás, conheci um casal de gente muito-à-esquerda, daqueles
que hoje devem andar muito indignados, com aspirações a guerrilheiros… de café
do centro da capital, e uma casa na aldeia de sãos costumes comunitários. Ele
queria, no porte e na postura, fazer jus ao que julgava que era: um verdadeiro
inconformista e revolucionário, em suma, um homem à séria, capaz de pegar numa
arma e ir-se a “eles”; ela era esganiçada, feiúca, desenxabida, quase
insignificante mas inefavelmente intelectual, como todas as suas irmãs de
género deveriam ser. Dizia ela, a propósito já não sei de quê, com um ar
libertadérrimo: “Ah, nós somos assim, não estamos com grandes coisas: queres?
vamos a isso, e pronto…”. E ele, com ar pràfrentex e algo gingão, tipo Vital
Moreira: “Pois, é assim mesmo…”. Julgo não precisar de lhe explicar porque me
lembrei disto. Garanto-lhe: foi-me impossível aceitar um segundo convite para
ir jantar lá a casa. Que enjoo!
Quanto
aos gregos de antanho, a tradição, devo dizer, que ao contrário do que pretende
impingir a comunidadegay, a tradição nunca foi o que era. Exemplifico
com duas obras de Platão: no (se a memória não me falha) Cármides, temos
uma imagem de Sócrates, corado de excitação por imaginar o que poderá estar por
baixo da túnica do mancebo que lhe é apresentado; no Górgias, quase ao final, o sofista passa de súbito, sem que
consigamos compreender porquê, na tradução portuguesa, a concordar com o que
Sócrates lhe diz. Quando se sabe ler um pouco de grego, vê-se que Sócrates
lançou mão de um “argumento” muito pouco dialéctico: sugere que Górgias é, além
de estrangeiro (o que, para um grego, é um factor depreciativo), sexualmente
pervertido, amante de rapazinhos, e, portanto, implicitamente, não tem o
direito de falar sobre política. É que a relação sexual com efebos, que, para
um ateniense, é um dever cívico enquanto o amor do mais velho tem por justificação
ensinar o mais novo a ser um verdadeiro cidadão (e não vou entrar aqui no que
isto possa ter de cultural no que respeita aos hábitos sexuais dos gregos de
etnia dória nem da sua relação com a guerra), não pode ser motivado pela mera
concupiscência, que é uma degradação do carácter. Daí a proibição que, a partir
de certa altura, as autoridades decretaram de os (não me lembro se todos, mas
pelo menos uns quantos, assinalados) cidadãos mais velhos assistirem aos jogos
que se realizavam com adolescentes.
Na antiga
civilização grega, porque encontrou na democracia política um ponto de
organização que só viria a ter semelhanças com o que o Ocidente encontrou a
partir do século XIX, encontra-se problemas curiosa e assustadoramente
parecidos com os que temos hoje. Como acho que já disse mais do que uma vez,
aqui pelo blogue, sabe-se que se escreveu “A terra a quem a trabalha” nas
paredes de Atenas. Os gregos acabaram por perder a independência, conquistados
pelo pai de Alexandre. E o que é mais interessante para o que tenho vindo a
querer dizer-lhe, é que a decadência política e cultural grega foi acompanhada
de, no plano da arte, um retrocesso em cujo final se encontra o erotismo
degradado ao plano do boçal, do puramente ordinário, mesmo do simplesmente
malcriado. Tire as conclusões que achar por bem, quanto à libertadora mocada
troglodita eleita pelo progressista norte da Europa.
Olhe,
vou terminar. Creio que não tenho mais nada a dizer, por agora. Mas sou capaz
de lhe dar razão, talvez às vezes me alargue demais nas respostas. Talvez,
perante o filme que decidiu apresentar como um avanço civilizacional me
bastasse ter dito: Aquilo, aquilo, é um avanço cultural e civilizacional…?! Oh
Carmo da Rosa,
F…OOODAA-SSSE!!!
E
pronto, cada um iria à sua vida.
domingo, 20 de maio de 2012
O rendez-vous do troglodita - 3
Henri Matisse, La danse
(...)
A
Mulher, tal como o Homem, como se sabe, não existe neste mundo. Quando muito,
padrões com uma raiz comum, por sua vez detectáveis em conjuntos de raízes
secundárias — todas elas, afinal, individualizáveis. Descontando os casos
claramente patológicos, há, nesse plano, diferentes tipos de indivíduos, homens
e mulheres: os sexualmente mais activos do que os outros; os mais espontâneos
na exteriorização dos seus afectos ou apetites do que os outros; os que
diversificam mais a prática com que os concretizam e na utilização do seu corpo
do que os outros. E um dos enormes problemas que hoje existe em termos de
coesão social, porque aliado à maior liberdade individual e a consequente menor
pressão social, é precisamente o facto de a noção de família não acompanhar
essa mesma realidade inegável e soberana, continuando a sua constituição a ser
regulada e controlada pelo Estado, seja em nome de uma moralidade resultante do
preconceito, da ignorância ou do receio, seja por meras questões de
fiscalidade. Se é imprescindível que a família constitua o garante de uma sã
continuidade da humanidade futura é necessário reinventá-la, sem, no entanto,
ao mesmo tempo poder por um momento esquecer os elementos que tornam o “átomo”
familiar no local por excelência de um desenvolvimento equilibrado dos membros
da espécie. E isso implica a presença imprescindível de membros de sexos
diferenciados, sem o que a escolha de modelos não funciona com a necessária
normalidade. Porque os padrões existem mesmo, não são apenas de natureza cultural.
Um
dos erros dos sixties foi inferir que, como a
maioria se encontrava impedida de expor livremente a dimensão da sua
sexualidade (subliminarmente identificada com a imagem da sexualidade
abrutalhada com que a “ciência” positivista quis indrominar até os
animaizinhos) todos estávamos reprimidos sexualmente e que todos desejávamos a
mesma medida de actividade sexual. Quem não aceitasse um convite estaria
certamente com bloqueios na cabecinha devido à influência da ssciedade. Essa
atitude ajudou, de facto, muita gente a assumir melhor a sua vida, mas como
nada é perfeito, ajudou também a gerar mais confusão. Nas mulheres como nos
homens. É o problema da esquerda, mesmo da mais liberal, o do pronto-a-vestir.
Tanto mais desejariam que o mundo fosse e se comportasse à sua medida, tanto
mais absolutizam o que não é absolutizável.
Em
si mesmo você encontra esses resquícios, quando, por exemplo, ainda
recentemente, num comentário que fez já não me lembro de a quê, dizia que há
(como, aliás, toda a gente saberá desde o tempo das cavernas, nisso não deu
nenhuma novidade) raparigas que se fazem aos homens mais velhos; mas que as que
não o fazem — sugeria — era porque ainda tinham macaquinhos no sótão. Meu
caro, se há mulheres, jovens ou menos jovens, que gostam de homens mais velhos,
há outras a quem o pezinho não foge para aí — e você tem que o aceitar. Em
primeiro lugar, porque não cabem na vertente erótica que lhes agrada e as
motiva, preferem o vigor à experiência, que esta logo se ganha; em segundo
lugar, porque, ao contrário das outras, o sabor da pele menos fresca ou o ranço
que o tabaco e o álcool acrescentaram a essa menor frescura de pele e de
hálito, por exemplo, as desmotivam; em terceiro lugar, porque a visão de um par
de bochechas, agora flácidas, balouçando por cima do seu rosto, não é
propriamente uma visão que ajude ao clímax — e nem sempre lhes apetece estar
por cima; em quarto lugar… e por aí fora. O mesmo para os rapazes, é claro.
Descontando estasnuances, confesso-lhe que, pelo que me toca, as
mulheres abaixo da quarta década, com raras excepções, não me motivam por aí
além: faz-lhes falta a experiência necessária a uma dimensão de erotismo que só
as vivências de um maior tempo de curtição pela vida proporcionam. Diria quase,
como não sei quem que outro não sei quem citava noutro dia: mulheres, só com
certificado de menopausa. Mas já cá volto, à questão do erotismo.
Continuando:
há poucos dias, fazendo zapping,
apanhei num telejornal qualquer, creio que o da TVI, uma peça sobre a crescente
expansão do modo de vida swinger em Portugal e os
problemas psicológicos que algumas mulheres apresentavam devido a ele. A
sexóloga de serviço da comunicação social cá do jardim, Marta Crawford, a quem
o jornalista perguntou o que sabia do assunto, respondeu: “Eu acho que sim, que
traz problemas, pelo menos esses são os casos que me chegam. Mas o facto é que
está em expansão, portanto parece que as pessoas não se sentirão tão mal,
senão…”. Por outro lado, tempos atrás, novamente fazendozapping, desta
vez na SIC Radical, uma habitante do Bunny Ranch, respondeu à pergunta do
entrevistador sobre se as raparigas que ali estavam se mantinham lá a
contra-gosto, respondeu: “Sabes, isto é como em todas as profissões: quem não
se sente bem com o que faz, anda contrariado, acaba por ir-se embora, mais
tarde ou mais cedo…”. A enfermagem não é vocação de toda a gente, mas só de
alguns, que o diga a enfermeira-chefe Nightingale. Por mim, nada tenho contra a
diversidade desde que ela não seja resultante do arbítrio de alguém sobre
outrem.
A
propósito, já reparou que uma das fantasias mais populares entre os clientes
das prostitutas é vê-las vestidas de enfermeiras? Pelo menos, sugerem-no muitos
dos anúncios “eróticos” dos nossos jornais diários. Não é apenas a Grande Mãe
da espécie, é a mulher que cura, pelo carinho, aquilo que está subjacente na
fantasia. E é mais: é algo que Georges Bataille muito bem ressalta num dos
contos que li numa edição em livro de bolso, que juntava Madame
Ewarda e Histoire de l’oeil a
um outro, de cujo título não me recordo. Como se o doente no seu leito
parecesse ter um efeito desinibidor e catalisador da pulsão sexual, como se o
instinto de sobrevivência, de “persistência no ser”, como diria Espinosa, se
levantasse contra a morte não só da parte dele como dos que dele estão
próximos. É verdade. Soube-o, ainda criança, quando estive perto de morrer. E
isso leva-me à questão — vital! — do erotismo.
Não
foi arbitrariamente que os historiadores relacionaram o início da História da
humanidade com a presença de monumentos funerários. O animal assusta-se com a
morte, não se espanta porque não tem instrumentos mentais para reflectir sobre
ela. Um primata, como o chimpanzé, é capaz de operar sobre os dados fornecidos
com um nível de eficácia igual à de uma criança entre os seis e os dez anos,
mas é incapaz de um da auto-reflexão a que se liga a linguagem humana desde o
ano e meio de idade. Apesar de ter um aparelho vocal que lhe permitiria falar,
o animal não fala, sinaliza situações, tal como um trovão é um aviso de que
estamos em presença de uma trovoada. A noção de tempo é-lhe estranha: um cão é
capaz de se aperceber do ritmo e, por isso, continuará a ir mecanicamente
esperar o dono à mesma hora durante anos, após a sua morte; mas não se
conseguirá fazê-lo compreender ordens do tipo “daqui a dois dias, vais
buscar-me os sapatos” ou “amanhã, levas as ovelhas para ali”. A noção abstracta
do tempo — do ontem, do hoje e do amanhã —, isto é, a capacidade de nos
projectarmos no futuro, de nos planearmos, apenas se nos desenvolve, aliás, a
partir dos sete anos. E a capacidade de nos pormos no lugar do outro, de
imaginarmos o que sentiríamos se nos encontrássemos na pele de outrem, isso só
a partir dos onze. A capacidade de avaliarmos o prazer e a dor do outro, de nos
identificarmos com ele, ainda mais inacessível é ao animal, porque incapaz da
operação que o poria ao nível de se distanciar de si mesmo, de se pôr em causa
a si próprio.
A
necessidade que o ser humano tem de mudar sem, para isso, ser forçado pelas circunstâncias,
é resultante dessa capacidade de autoconstrução. Fazemos vários tipos de casas,
de diversíssimos padrões estéticos, independentemente das necessidades
específicas que todas elas, no seu conjunto, procuram satisfazer. Da mesma
maneira que não existe apenas um ritual de acasalamento para toda a humanidade
ou sequer para cada cultura, não existem dois de nós com os mesmos exactos
gostos e desgostos amorosos. Mas é esta mesma diversidade que acaba por
construir uma outra unidade, intrínseca à espécie humana. Espécie, note-se, que
tem a particularidade, rara no reino animal, de os atributos de chamariz sexual
estarem concentrados predominantemente na fêmea e não no macho. Uma coisa,
porém, é o ritual de acasalamento, mais padronizado enquanto, até certo ponto,
biologicamente condicionado; outra, o erotismo, que é algo muito mais
simultaneamente lato e individualizado e que permeia o acasalamento humano.
Atribuir
um significado à vida e, em geral, ao que nos acontece e fazemos, discutindo-o
e partilhando-o com os nossos semelhantes, é o que essa mesma capacidade de
viver para lá do momento e da circunstância imediatas nos permite. Fora do
tratar do preço das bananas na mercearia e do comê-las em maior ou menor
quantidade, é isso que nos transforma em homens e nos distingue dos macacos. O
erotismo assenta nisto mesmo, na capacidade de conferir significado e, logo, de
reinventar e estimular o acto amoroso numa gama quase infinita de modos. Nesse
sentido, acrescentaria eu ainda, da mesma forma que a criança humana se prepara
para a vida brincando ao faz-de-conta e, assim, ao desenvolver a imaginação,
multiplicando as soluções e as possibilidades de sucesso de vir a ter mais
prazer na vida do que dor, também o sexo se muda, no adulto, na brincadeira em que
a autoconsciência, a consciência da finitude da existência (o amor e a morte
desde sempre se ligaram estreitamente nas nossas mentes, conforme o testemunha
abundantemente a arte em geral), a necessidade de atribuição de sentido às
coisas e a capacidade de nos imaginarmos na pele alheia constituem um aspecto
fundamental do salto qualitativo (e não de mera quantidade) que a nossa
inteligência constitui em relação à restante inteligência animal. O erotismo é
o que nos torna humanos.
Podemos
encontrar erotismo em todo o lado. Matisse, um dos pintores por excelência do
erótico, confessava-se apaixonado por uma cadeira que encontrara nos mares do
Sul. E, quando nos esquecemos da moca positivista, achamos risível e amacacado
o tipo que firma o pé na parede a fim de melhor ganhar balanço para “lhes
saltar para a cueca” — lembro-me, a este propósito, de um empregado de mesa
“engatatão” e que “não perdia uma”, mas que, quando eu, em conversa, brincava
com ele por causa de um dos seus “engates” mais recentes, me dizia, entre o
irónico e o quase melindrado, que não iria “levar uma mulher para a casa de
banho, há um mínimo que se deve a uma mulher”. Até ele, meio analfabeto e, por
isso, supostamente por muitos meio-bruto, tinha essa noção do que às mulheres
se deve, de um “significado” por mais tosco que seja. F…, f… todos, mais ou
menos, homens, animais e plantas. Mas eróticos, só nós, mais nenhuns, porque só
nós saltámos da cueca para o significado — da cueca inclusive.
sexta-feira, 18 de maio de 2012
O rendez-vous do troglodita - 2
(...)
Os
chamados “grandes primatas” dividem-se em quatro grupos: os orangotangos, os
gorilas, os chimpanzés e os bonobos. Dos três primeiros, todos ouvimos falar
frequentemente e conhecemos a maioria das suas características e hábitos; não
dos últimos, que, no entanto, apresentam aspectos interessantíssimos e mesmo
mais aproximados aos humanos do que os restantes. Um deles é a utilização do
sexo como modo e instrumento de coesão social, de saneamento de conflitos. “Make
love, not war” e “peace and love” são, neles, não uma ideologia ou
preceitos de um catecismo mas prática fundamental para a sua existência,
individual e de grupo. O contacto homossexual nela incluído. Ao contrário das
habituais lutas pelo poder, da disputa das fêmeas, das guerras de grupos e por
aí fora, observáveis entre os outros, entre os bonobos o que é comum
observar-se é que tudo f…, minha gente. Se desconhecia o que eu disse e quiser
um pouco mais de informação sem ter que ir a correr à biblioteca, veja aqui . Dá para se ficar com uma ideia.
Os
bonobos estão mais próximos de nós porque, entre outras coisas, deram uma
função à sexualidade que ultrapassa a da reprodução e a da simbologia da
submissão ao macho vencedor; os bandos têm, até, uma estrutura matriarcal. Mas,
admitindo, como o faziam ainda os antropólogos darwinianos alguns anos atrás,
que o ser humano provém de uma evolução do estado macacal, onde está a
violência dos macacos para com as fêmeas enquanto preliminar de conquista? Não
se observa nos bonobos, como não se observa nos restantes primatas nem em
nenhuma espécie conhecida. O que pretendo eu dizer com isto? Vou tentar ligar
as peças do que parece um puzzle,
acrescentando-lhe uma outra.
O
século XIX é, como todos sabemos e eu já lembrei vezes que cheguem, um século
cheio de profetas e messias. Um deles foi Augusto Comte, o patriarca da ciência
que investiga as leis de formação e consolidação das sociedades humanas bem
como as que permitem prever a sua evolução, com vista a formar a sociedade
perfeita e definitiva: a Sociologia. Marx nunca reconheceu a influência que
nele teve Comte (talvez porque este considerasse a propriedade privada como
indispensável para formar o carácter do cidadão da Humanidade Nova, ao nível do
desenvolvimento do sentido e do sentimento de solidariedade), mas certamente
que a sua juventude não o desconheceria já. É que a “filosofia positivista”
teve um papel decisivo em muito do que aconteceu nos 100 anos que se seguiram à
morte de Comte, em 1857, e a sua influência perdura em grande medida já neste
novo milénio graças a um conjunto de circunstâncias que lhe foram propícias e
ao facto de, por ser conceptualmente primária, facilmente haver seduzido os
sequiosos de poder de horizontes estreitos em todas as áreas. Não por acaso, a
sua obra de referência chama-seCatecismo Positivista.
Não
entrarei em pormenores sobre o positivismo, como filosofia. Assinalarei apenas
o fundamental:
- Para Comte, a humanidade evolui ao longo de três estádios: o
religioso, assente na superstição, próprio de sociedades arcaicas; o
metafísico, em que já se procura especular racionalmente sobre o tema das
origens do mundo e de um seu Criador, como foi o caso da Idade Média (cá está
ela, de novo); e, finalmente, o estádio positivo, no qual, desprezando tais
questões como menores, insolúveis e mesmo sem sentido, a humanidade considera o
conhecimento científico, o conhecimento do que se lhe apresenta aos sentidos,
como o único válido. O ateísmo, aliás, enquanto movimento exclusivamente
ocidental e do século XIX, fundamenta-se nestes princípios; passa-se, deste
modo — contraditoriamente com o primado estabelecido da racionalidade —, da fé
que afirma a existência de um nível divino, absoluto, do ser, para uma fé que
afirma o seu oposto.
- De qualquer modo, a humanidade necessita de uma religião — se o
quisermos: de um horizonte. Há, pois, por este motivo, que criar uma nova
religião, a que é própria desses Amanhãs que Cantam visionados por Augusto
Comte: a religião positivista. Além dos templos em que se presta culto à
Humanidade, as estátuas que representam os ídolos da superstição e da
irracionalidade de outrora deverão ser substituídas pelas dos grandes
benfeitores da grei, dos cientistas… E, sobre todas as outras ciências, como
sua síntese útil e orientadora, aquela que visa a felicidade humana definitiva:
a Sociologia.
Basta
lembrar que, a este segundo nível, Comte foi o guru de múltiplos movimentos
republicanos, incluindo o português e da I República lusa; que a frase “Ordem e
Progresso”, inscrita na bandeira brasileira, se refere à visão comteana da
sociedade perfeita do futuro sob a égide da ciência sociológica; que, a Igreja Positivista do Brasil se mantém desde
há 120 anos… Tão ou mais importante, porém, do que os aspectos político
directos, são os que dizem respeito ao caldo cultural de “cientismo” que ajudou
a formar e a disseminar mesmo dentro do próprio meio científico, assente na
autoridade dos novos conhecimentos e das novas tecnologias, chegando a travar
uma investigação séria e a ostracizar quem o queria fazer. A doutrina
positivista e os seus conscientes e inconscientes esbirros serviram poderes
políticos de todos os matizes, nas universidades e fora delas. Por cá serviram
Salazar depois de terem servido a I República, anulando tudo o que fosse
tentativa de renovação e alargamento de estudos fora das suas perspectivas.
O
primarismo conceptual do positivismo, maior ainda do que o do materialismo
histórico, marxista, não o deixou reinar por muito tempo no que respeita às
chamadas ciências humanas; quatro décadas bastaram para a contestação adquirir
teorização e metodologia próprias e eficazes. Mas, uma vez mais, tal como
sucedeu com o marxismo, as fragilidades do positivismo transformaram-se na sua
maior força. O positivismo constituiu um veneno muito mais insidioso porque
contava com um princípio fundamental na sua fé, irresistivelmente lisonjeiro
para qualquer membro da tecnologicamente triunfante civilização ocidental: o
homem europeu ou, mais latamente, o de qualquer cultura de raiz europeia, seria
aquele que se superiorizara a todos os restantes homens do planeta, ao
conseguir furtar-se às trevas religiosas e metafísicas. Constituindo o cume
inultrapassável de uma evolução histórica, constituía igualmente a referência
para tudo o que o antecedera. E o que antecedera o homem positivista, como não
podia deixar de ser, pelos pressupostos do seu catecismo, fora o mundo da
superstição e da barbárie que o pensamento, enfim iluminado e esclarecido,
naturalmente deixava adivinhar. A estratégia que já servira aos Renascentistas,
reutilizável, serviu, quatro séculos depois, às novas mistificações.
Nem
todas as imagens se podem gabar, como esta, de tão grande, espontânea e
duradoura aceitação simultânea por mundos tão diversos como a rua e o gabinete
do estudioso académico: refiro-me à consequente grande ilustração positivista
do acasalamento troglodita. Nela, para estarrecimento e gozo das massas e
afirmação do superior saber da instituição universitária que as elevava, por
fim, ao verdadeiro conhecimento, passava o filme do brutamontes apenas quase
humano, empunhando, triunfante, a moca com que espancara a fêmea que agora
arrastava pelos cabelos, vencida, não interessa se convencida. E duas
convicções contraditórias se firmaram, subliminarmente, no inconsciente de
ambos os sexos, com tal imagem de grande sucesso sapiencial e comercial: a de
que o nosso tempo era incomensuravelmente superior às épocas anteriores; e a de
que o natural e legitimamente desejado sexo às claras era o sexo bruto,
que, com ou sem a mocada preliminar, pouco mais era do que a “mocada” praticada
por pura pulsão. Ainda hoje vemos, por tudo quanto constitui o mundo da
social-comunicação, a constante mas indecisa valorização quanto à
essencialidade sexual, o balanço entre uma sexualidade “animal” e uma outra
que, por mais humana, deixou de se ter a certeza sobre se é “natural”,
“cultural” ou simplesmente disfarce para preservação do indivíduo e da
sociedade.
A
imagem era sublimadora de tantas pulsões que ninguém, ao início, questionou o
óbvio. Em primeiro lugar, uma vez que ninguém alguma vez se cruzara com um
troglodita, como se podia saber serem aqueles os seus hábitos? Não existindo
documentos que o comprovassem; nunca se tendo observado nada de parecido em
qualquer das tribos arcaicas conhecidas nem vestígios de antigas tradições que
o sugerissem — antes, nas mais arcaicas, predominando o matriarcado; sendo o
comportamento do macho, em todas as espécies existentes na natureza, o oposto
do afirmado sobre o do abominável homem das cavernas: em que homem
comprovadamente existente se poderia encontrar tal comportamento? Nos
camponeses, esses excluídos da alfabetização? Não, respondia Chesterton, um
século atrás, mexendo, divertido, os dedinhos dos pés dentro das botas,
transformando como ninguém a inteligência e o riso em ironia incomparável: os
antropólogos confundiram o homem “primitivo” com o homem dos bas-fonds das
grandes cidades europeias. O “homem primitivo” da antropologia, dizia ele, não
é mais do que o chulo que bate na sua pêga e a arrasta pelo chão, antes de lhe
arrear de outra maneira para consumar o seu domínio — porque esse “homem
primitivo” nunca existiu fora da degradação das ruas escusas e do aviltamento
humano que nelas se acoita. Um macho estranho e repugnante para qualquer
bonobo, acrescentaria eu.
Meu
caro Carmo da Rosa, veja agora como o nosso cérebro, e com o nosso, o de
milhões e milhões de homens e mulheres das gerações seguintes, foi formatado
por uma patranha simplória mas de altíssima eficácia manipulatória, concebida
por um conjunto de estúpidos “positivos”, ávidos de poder. Deixe lá, o que está
debaixo do nosso nariz é o que mais dificilmente conseguimos ver, tão
dificilmente que na maioria das vezes morremos sem ter conseguido fazê-lo. É
nas pedras que tropeçamos, não nas montanhas.
E
repare agora, também, nas consequências. Porque tal imagem, repito, se
constituiu um acicate no processo de transformação social ao nível da definição,
papel e do estatuto de cada um dos sexos que se verificava e se acelerou e
pelas duas guerras, também foi em grande medida a origem da grande bagunça hoje
existente tanto no que respeita à caracterização da sexualidade como à sua
prática. Primeiramente porque ajudou a criar uma divisão interior entre qual o
“verdadeiro sexo”, o que se deve praticar, para atingir o verdadeiro gozo: o
“animal”, entendido como a tradução de uma pulsão num mecânico truca-truca; ou
o “humano”, cheio de variantes mais ou menos desejadas e bem vistas,
predominantemente de raiz cultural. Depois, e em consequência, porque pôs no
caminho do feminino em processo um escolho extra e de tratamento nada fácil. Um
escolho sem palavras que o caracterizem e que actua directamente por sugestão,
não é nada fácil de resolver.
(...)
segunda-feira, 14 de maio de 2012
O rendez-vous do troglodita - 1
Jerónimo Bosch, O Jardim das Delícias (painel central)
Na sequência do que motivou os cinco textos que constituíram os posts da sequência que aqui publiquei com o título comum "Da surdez no clítoris", começo agora a publicar uma outra, "O rendez-vous do troglodita", em resposta a este post e, no seguimento do comentário que lhe fiz (ver caixa), a este outro.
CdR:
(...)
O essencial das suas posições assenta na
superioridade do que supõe novo face ao que supõe velho. Avaliando o que é novo
como um progresso em relação ao que é velho. Assinalo: progresso.
As minhas avós eram analfabetas, bem como o meu avô paterno. Trabalhadores rurais, eles; camponeses, todos. Do interior do país. Nenhum dos meus avôs maltratou as suas companheiras e ambas, em especial a paterna, tiveram um papel bastante marcado e importante nas respectivas famílias. Com as naturais — ao tempo — liberdades e restrições próprias de cada sexo. Como elas, a crer no testemunho dos meus pais e outros familiares próximos, 80% dos restantes habitantes da vila. A maioria da excepção que constituíam os sobrantes 20% era constituída por alguns dos mais pobres e alguns dos mais ricos. Assinalo: alguns.
Pelo que, sobre as nossas experiências pessoais no que respeita à importância do papel da mulher desde as sociedades arcaicas matriarcais, estamos esclarecidos. Ou então, releia ou leia esse drama terrível que é A casa de Bernarda Alba, do Lorca, que os meus 15 aninhos — ao contrário do que sucedeu com outros amigos meus, de famílias citadinas, que achavam aquilo um exagero — souberam desde logo identificar com as vivências que tivera, não tanto com os “cavadores de enxada”, mestres de ofício e outros, mas numa parte das “casas ricas” da vila (na família da minha mãe encontravam-se os dois extremos; na do meu pai, os que, a pulso, procuravam viver com mais desafogo). Porque nas mais pobres ou nas “remediadas”, embora sob a necessidade de manter a aparência da “honra”, a atitude quanto à sexualidade não era bem aquela.
Agora, vamos por partes. Em primeiro lugar, o que se liga à quantidade. Mas, antes, para situar melhor o que quero dizer, deixo-lhe já uma pequena nota prévia ao que virá a seguir. E que é isto: a ideia da Idade Média como Idade das Trevas foi um recurso dos Renascentistas para se demarcarem e se apresentarem como uma nova forma, a forma correcta, de perspectivar o mundo. De facto, quando se lêem os textos que escreveram, encontra-se um discurso bem diferente, que reconhece nos medievais os seus mestres. Porém, para aqueles que, intencionalmente ou não, nesse tempo e futuramente, por pouco mais se interessaram verdadeiramente por algo que não fosse essas declarações bombásticaspour épater les gens e chamar sobre eles as atenções, bastou-lhes a vulgata que bastava para justificar os seus fins. Leia, por exemplo, Luz sobre a Idade Média, de Régine Pernoud, um clássico das novas investigações.
É, aliás, um truque desde sempre actual. Como dizia o Mick Jagger, ainda há pouco tempo: “Bem, nós tínhamos que falar mal do Sinatra…”. O marketing perde-se no chavão da bruma do tempo.
Passemos então ao abençoado e desejado sexo: investigue um bocadinho também, por sua conta. Nem precisa de grandes referências para, rapidamente, se dar conta de que a Idade Média nunca foi a época da diminuição, por opressão ou medo de divino castigo, da actividade sexual, bem pelo contrário — ou porque pensa que foram inventados os cintos de castidade? Suspeita-se de que Jerónimo Bosch, por exemplo, pertencesse a uma seita (de cujo nome não me recordo agora, mas que facilmente encontrará) cuja conduta faria corar qualquer swinger e que esteve muito longe de ser a única. Por cá, há já mais de 40 anos, houve quem fizesse um estudo sobre a vida sexual dos portugueses da medievalidade e concluiu que o país era, todo ele — nobreza, clero e povo —, a esse nível, tão activo como uma coelheira. O que não me surpreendeu. Tinha eu para aí uns doze anos quando li uma biografia (academicamente recomendada) de Nuno Álvares Pereira: descobri, à saída da infância, com a natural estranheza face ao que se impingia, na altura, na escola, quanto ao tempo em que ele vivera, que o Condestável era o 13º filho de um total de 32 que o seu pai, eclesiástico e militar, fizera a 4 mulheres. Às claras, como muitos e muitos outros. Sem renegar os seus deveres parentais. Otelo Saraiva de Carvalho, ao pé destes medievais, é um asceta.
Nem mesmo a homossexualidade, pelo menos a masculina, foi vista como algo de censurável por aí além até à imposição da moralidade burguesa, no século XIX — moralidade de fachada, já que tinha a sua raiz na mesma necessidade de condenação moral da ordem política anterior, como justificação da necessidade de uma revolução, tal como referi no Da surdez no clítoris com que lhe fui respondendo. Em todos os textos que nos dão conta dos costumes sexuais até ao século XVIII, na Europa, encontramos alusões aos amos que dormem com os criados, aos amos que dormem com outros amos e aos criados que dormem com os outros criados, como sendo factos corriqueiros e que não levantavam problemas a ninguém, a não ser quando, por motivos mais ou menos obscuros, se queria condenar quem o fizera à prisão, ao degredo, à forca ou à fogueira. E as casas reais, nisso sempre, sempre ao lado do povo: D. Pedro (o da D. Inês) mandando castrar Afonso, seu escudeiro e amante, a pretexto justiceiro de este haver desvirginado e engravidado uma moçoila; o Infante D. Henrique, aos marinheiros tão afeiçoado, discretamente afastado da corte; D. Sebastião…
Tenha-se em atenção o Decameron, do tão apreciado pelos seus contemporâneos Bocaccio; os poemas populares licenciosos que Carl Orff transformou na cantata Carmina Burana; o poema quase obsceno encomendado pela princesa não-me-lembro-de-qual ao trovador idem. E tenha-se também em atenção que os conflitos morais presentes no Frei Luís de Sousa não existiam nos inícios do século XVII; que essa peça clássica do teatro português é uma fraude histórica cometida por um Garrett metido até à alma nos tormentos, pessoais e públicos, que uma filha ilegítima lhe gerava, procurando, desta maneira, chamar a atenção para situações absurdamente dramáticas causadas pela mentalidade do seu século.
Mais vitoriosa, porém, do que o modelo de casamento e de família que os estratos sociais vitoriosos em 1789 procuraram instituir ao longo das mudanças no viver colectivo que promoveram e desenvolveram até aos nossos dias, foi sempre a realidade. Aquela que fez viver em conjunto Paul Rée, Lou von Salomé e Nietzsche; Chopin, Amandine Dupin (de nome literário, Georges Sand) e suas sucessivas namoradas; talvez mesmo, quem sabe, Byron, Shelley e a segunda mulher deste, Mary, a criadora do romance Frankenstein. Aquela realidade que, já no século XX, levou Simone de Beauvoir a escrever L’Invitée, em consequência de um dos ménages à trois entre ela, Sartre e alunas de ambos. A realidade a rebentar pelas costuras. Só em meia dúzia de casos e em meios intelectuais e artísticos? O casamento nunca foi uma preocupação proletária, como se sabe. E, quanto à homossexualidade, relembre-se a caracterização da descarada lésbica, dura e viciosa, pertencente às “classes mais desfavorecidas” que Gomes Leal fez num dos seus poemas.
Dizem as más-línguas que o tenente-coronel Robert Baden-Powell criou os escuteiros porque tinha determinados gostos, hoje alvos de condenação social e jurídica. Não sabemos se é verdade, mas sabemos que uma menina da high-society, Florence Nightingale (nascida, como não podia deixar de ser, nos inícios do século XIX), apontada como exemplo de emancipação feminina, rompendo com parte da família, decidiu ir tratar os feridos da guerra da Crimeia, mais tarde fundar uma escola de enfermagem, acabando por receber a Cruz Vermelha das mãos da rainha Vitória. A enfermeira Nightingale e as suas companheiras revolucionaram a enfermagem, até aí exercida pelas vivandeiras (destacamento de putas que, até aí, acompanhara os exércitos) e pelas cozinheiras. As vivandeiras cuidavam (melhor ou pior) dos ferimentos; cuidavam também de algo, porém, de que a menina emancipada e suas continuadoras nunca mais tiveram em conta: do impulso para a vida. Consciente e reconhecidamente ou não, a importância do sexo estava presente na vida dos séculos anteriores.
Hoje não. E não apenas na enfermagem, mas em muitos outros sectores. Vá aos institutos que tratam de pessoas que, por doença, acidente ou qualquer outra coisa, ficaram diminuídas fisicamente para o resto da vida e pergunte-lhes como encaram a prática da chamada terapêutica ocupacional. As mulheres e os homens que, com as melhores intenções, a praticam, habilitados com o respectivo curso, não se dão conta nem ninguém os alertou suficientemente, para o significado profundo que a sua prática estimuladora do desejo de viver e da consequente recuperação tem em quem ela é exercida. Não é de admirar as profundíssimas crises psicológicas que grande parte dos pacientes sofre nesses períodos e que se prolongam muito para além deles, a maior parte das vezes pela vida fora. Sofridas, é claro, dissimuladamente, envergonhadamente, em silêncio e, por vezes, num posterior rápido ou lento suicídio. O humanismo da emancipação humana tem estas faces desumanas.
Já agora, um pequeno parêntesis sobre a prostituição: do mesmo modo que a tradição, como dizia o anúncio, já não é o que era. A prostituição sempre foi algo ligado ao sexo como arte ou celebração religiosa, desde a Antiguidade, quer a Oriental quer a Clássica; as cortesãs eram respeitadas, algumas tiveram poder, eram companhia de reis, nobres e burgueses. Desde a Pompadour do Rei-Sol, até à prostituta — negra! — que, para grande gáudio do povo, punha fora de casa, aos gritos, o nosso restaurador da independência pátria, D. João IV. A prostituição da miséria, da degradação do carácter, da fome e da tuberculose, é a que assolou os bairros das cidades da Revolução Industrial.
Resumindo e abreviando: como dizia o desbragado (na linguagem e no viver) Luiz Pacheco, que o Paulo Porto já para aqui chamou: “não!, no nosso tempo não se f… menos do que hoje…, f… era mais às escondidas”. Logo, se em quantidade tem sido, portanto, ao que parece, mais ou menos igual, ao que é hoje, embora hoje seja possível praticá-lo mais “às claras”, as diferenças só se poderão fazer sentir na qualidade. E entro na segunda parte da resposta, lembrando um dado que me parece interessante. Se já o conhece, pode saltar o parágrafo que se segue.
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