Existem recursos e actividades que, embora universais, têm no nosso país uma tal aceitação e implantação que, pelo seu prolongamento temporal, vêm a constituir factores de caracterização do espírito e das predisposições nacionais, acabando alguns deles por dar origem a empreendimentos de maior ou menor sucesso e durabilidade. É o caso do biscate, cujo paradigma maior se encontra nos Descobrimentos. A má gestão, a consequente decadência e o fim conhecido desse Grandioso Biscate, posteriormente elevado pela evolução histórica a alturas místicas, determinou, porém, as suas presentes formas e dimensões, mais comezinhas e reduzidas, com objectivos que nunca ultrapassam (com sorte!) o médio prazo.
Vivendo cada um de nós em Portugal, no meio dos portugueses,
achamo-nos sempre tristonhos, melancólicos, desalentados, mesmo preguiçosos. Os
outros, os “lá de fora”, é que inventam tudo, trabalham como deve ser; nós não
passamos de uma cambada de monos, a começar pelos tipos que moram no andar
baixo, para não falar dos do andar de cima e dos do lado. Bem, reconheça-se,
para os copos e a sardinhada não seremos má companhia, umas larachas e tal, mas
fora isso…
E não é verdade! Também nós somos grandes. Porque o ambiente
de permanente efervescência no plano do biscate, cultural e institucionalmente estabelecido,
acicata a imaginação não apenas no plano conceptual mas também no da respectiva
concretização, até ao golpe d’asa que o coloca na confluência das fronteiras da
técnica, da ciência e da arte. Mercê do qual cada português é, nos seus mínimos
pormenores, a incarnação do que poderíamos designar como o "biscatismo".
Nesse sentido,
poderíamos afirmar que qualquer português é ideologicamente um biscatista e
que, deste modo, Portugal é, hoje, “O Biscate” — o biscate de todos os portugueses.
Transformar um país inteiro numa enorme força económica dirigida, voluntária e
espontaneamente, para uma única forma de actividade, significa a existência de
uma união nacional que nem Hitler nem Estaline nem, muito menos, Salazar alguma
vez imaginaram lograr sem terem que usar a força. E se uma nação foi definida, até
hoje, como um conjunto de pessoas unidas por uma língua que traduz a sua
experiência comunitária secular, haverá agora que — ao menos no caso luso —
acrescentar à língua um ramo de actividade económica: o biscate.
Só um “estrangeirado” se diz um “indignado”. Um verdadeiro
português não se indigna: biscata. Nenhum português à séria é um “indignado”
porque todo o português é um biscateiro.
Pelo que, ao contrário dos meus vizinhos e compatriotas, não
fiquei nada admirado, antes diria cheio de patriótico orgulho, quando ouvi o que
dizia, a uma cliente, a mulher de um polícia que é proprietária de um salão de cabeleireiro
que fica ao lado do banco que fica a uns 300m da minha casa que foi assaltado
seis meses atrás. Informação, portanto, inquestionavelmente fidedigna, uma vez
que provém do cônjuge da autoridade sem ser mediatizada pela comunicação
social.
Segundo a senhora, o assaltante foi preso após algumas
averiguações. Funcionário de uma empresa dos arredores, costumava ir tasquinhar
a uma tasquinha onde tasquinham também diariamente os polícias da esquadra da
terra. E, enquanto os ia ouvindo falar sobre as diversas ocorrências ocorridas
e das que supunham que viriam a ocorrer, outros pormenores se lhe foram
gravando no espírito, como, principalmente, o dos horários das diferentes
brigadas, levando-o à conclusão de que existia um pequeno período durante o qual
todos os elementos policiais disponíveis se encontravam à mesa, presos à vital
necessidade de se alimentarem. Um clarão lhe rebrilhou então na mente, desde há
muito em busca do biscate que daria o necessário desafogo à sua situação
financeira e, em simultâneo, lhe alimentaria o ego biscateiro com a garantia de
um lugar de inquestionável relevo na tradição nacional.
Da inspiração à prática não terá tardado muito, dado o
conjunto e a importância das informações que recolhera. Fez o sacrifício.
Passou a prescindir de parte ou mesmo da totalidade do tempo destinado pela
empresa à refeição do meio do dia e — engolindo à pressa a comida, com riscos
acrescidos de úlcera gástrica, ou, quem sabe, levando na mala, junto à pistola,
a sandocha carinhosamente preparada pela avó que iria mordiscando nervosamente durante
a acção, podendo engasgar-se com gravidade — inaugurou uma inaudita e
inovadora forma de biscate, assaltando os bancos das redondezas à hora do
almoço.
Contudo, a par do orgulho e da fé neste país que me encheram o
peito, uma apreensão superior me ensombrou de imediato o espírito: a de
saber se a sua prisão prematura não terá posto fim definitivo a um futuro
grande cidadão deste país, que nos apontaria caminhos inovadores e decisivos de
lusitana raiz e alargados desenvolvimentos. É que ninguém pode prever o que um
dia Deus, o Universo, ambos ou sabe-se lá quem mais, contarão das acções de
cada um de nós…

