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sexta-feira, 29 de junho de 2012

UMA NOVA EDITORA E JOÃO RUI DE SOUSA



João Rui de Sousa


Recebi há dias, do jornalista e poeta Mário Galego, uma notícia e um convite: diversificando as suas actividades, este nosso confrade lançou-se também na edição. Diz-me ele:

    Mando-te este mail para te contar que agora chegou a vez de ser editor «a sério» !
   Em breve (princípio de Julho), estará por aí uma nova editora (da qual sou sócio): Ediresistência. Vai ter uma colecção de livros de prosa - Resistência - que começa com a publicação de uma novela de Urbano Tavares Rodrigues e um livro de contos de António Nunes de Almeida; uma colecção de poesia - Madrugadas - que deverá arrancar com um novo livro de João Rui de Sousa(...) e uma colecção de música - Contralto - que terá uns autores conhecidos mas ainda em fase de escrita.

    Posteriormente, enviou-me o Convite já estruturado do lançamento no dia 3, às seis e meia da tarde, nas intalações do El Corte Inglês de Lisboa, .

   Voltemos agora as atenções para João Rui de Sousa. E já perceberão o meu ponto.

    Ora, no ambito da correspondência que me enviam habitualmente, comunicaram-me hoje os services próprios da Ass.Port. de Escritores que no próximo dia 9, na Culturgest, sob a presidencia do Secretário de Estado da Cultura, terá lugar pelas 18,30 h a cerimónia oficial de entrega do Prémio Vida Literária deste ano precisamente a João Rui de Sousa.

    Entendo como honrosa – creio que é consensual - para as diversas entidades , a atribuição deste galardão ao autor de “A hipérbole na cidade”.

    Como autor, como professor, como confrade de leal e fino trato, João Rui de Sousa é hoje por hoje um dos mais dignos escritores portugueses.

     Em 1987, José Manuel Capêlo convidou-me a integrar a antologia “Palavras - sete poetas portugueses contemporâneos”. Informou-me ainda que numa reunião havida no Porto tinha ficado definido o nome dos participantes bem como o do prefaciador, João Rui de Sousa, que aceitara o encargo de imediato.

    No entanto, mais me informou o já falecido autor de “Madrugadas e vozes”, e editor da Átrio, que o meu nome havia despertado junto de um par de autores alguma resistência. Não só porque Capêlo se propusera pagar do seu bolso a verba que me cabia, como a todos, para execução material do livro – mas também por eu não estar nesse tempo em cheiro de santidade junto de certos e muito imperiosos sectores socio-políticos da nação.
    Capêlo persistiu, não cedeu e a antologia (aliás com grande êxito desde o próprio acto de lançamento) veio a lume sem que eu tenha sido ejectado. (E como é lógico eu não reivindiquei um tostão que fosse).
    E eis o que João Rui de Sousa (que não me conhecia, nem eu a ele) escreveu a meu respeito:
    “Subscreve NS uma das mais seguras e coerentes sequências desta antologia. Uma segurança (de estilo) que obriga a surpreender-nos com o facto deste autor ainda não ter publicado qualquer livro. Uma coerência (de tom) que, nada tendo a ver com um repisar monocórdico, se espraia através dum acervo escritural cujo tópico mais à vista se situa no entendimento da arte, mormente a pictórica, ou de alguns artistas (veja-se “Introdução”, “Paul Gauguin”, “Arpad Szènes” e “Pessoa Inúmero”). A complementar esse núcleo, relevem-se ainda a parte de ironia transposta em “Labirinto”; o evento inesperado dessa “tristeza perfeita” aludida num texto que tem o título de “Alegria”; e, sobretudo, o exercício de construção/desconstrução exemplarmente sugerido em “A janela” , de que se trans creve apenas o fecho:

                   A janela constrói-se
                   pouco a pouco, a janela diz
                   milhares de palavras inventadas
                   e nuas, é uma imagem
                   em equilíbrio subtil. A janela é agora
                   quase porta, parece feita de
                   altas meditações familiares. Nem precisa de ser
                   ausência, como um retrato

                   que sai de nós para todas as ruas
                   onde irrompe um perfil enegrecido

                   onde alguma outra vida se acolheu.”

    De acordo com Capêlo, estas palavras causaram alguns pequenos engulhos em certos autores bem determinados.

    Dois anos depois da publicação, a APE atribuíu ao meu “Os objectos inquietantes” o prémio nacional “Revelação/Poesia”, o que me permitiu um vôo mais livre nas estantes do país. A edição esteve a cargo da “Caminho”.
       De certa maneira findara a primeira parte da minha marginalização, que agora praticamente apenas existe em Portalegre mas que já não me consegue impedir de continuar a cirandar pelo mundo, Portugal incluído.
       Por último, resta referir que em 2000 o meu livro “Os olhares perdidos”, saído na Universitária Editora, foi honrado com as palavras introdutórias (“Expansividade e Transfiguração”) de João Rui de Sousa, o mais belo pórtico que o poemário poderia ter.
       Estranhar-se-á que por estas e outras manifestações de fraternal cordialidade que dele tenho recebido eu envie ao Poeta a minha extrema simpatia e estima envoltas no Abraço que naturalmente lhe tributo?

terça-feira, 3 de abril de 2012

ALENTEJO É NOME DE MUNDO



Nicolau Saião, Grande interior alentejano

   Tenho seguido com algum interesse, alguma curiosidade e certa nostalgia as notícias e demais parafernália que vai rodeando o tentame, absolutamente correcto e bastante justificado, de conseguir que o “cante alentejano” seja considerado património cultural da humanidade.
  Creio que o é já, independentemente de as entidades oficiais darem de maneira formal o seu assentimento. Tal como o flamenco, maravilha musical maior de “nuestros hermanos”, o cante alentejano é indubitavelmente uma das fórmulas vocais e poéticas mais belas que a imaginação, caldeada por anos de adequação intrínseca, deu à voz humana organizada num jeito peculiar.
  Gostaria de pensar, de concluir e finalmente certificar que este movimento não está nem estará orientado – e muito menos capturado – por intenções de sectores que, por radical conceptualidade que pelos anos lhe tem sido própria, usam tentar colonizar todas as coisa que pareçam, ou se lhes antolhem, fazer aumentar a sua influência na manobra política e social.
  O que no Alentejo, pelo tempo fora, tem sido por vezes demasiado usual…

PScriptum - O poema que vem a seguir foi escrito nos idos de 72 e publicado por Mário Cesariny num dos boletins do Bureau Surrealista em 1978. Tinha sido cortado pela Censura quando busquei dá-lo a lume no “Distrito de Portalegre”, então dirigido por José Heitor Patrão, algumas semanas após a sua efectivação.
  A obra que ilumina este bloco, “Grande Interior Alentejano” - cartão para painel de azulejo (210 cm X 200 cm) faz parte da colecção do engº Vítor Lemos Julião e foi elaborado por Trepal Ldª.



POEMA ALENTEJANO

Nascer no Alentejo é engraçado
- com a morte debaixo e a fome ao lado.

Planta-se uma couve regada de urina
- colhe-se um maneta com viola e menina

É-se jovem e airoso como um deus antigo
- com sorriso rasgado da garganta ao umbigo

Esvoaça na rua da aldeia velha
A canção do pirata de brinco na orelha

(História contada no caminho
dos que estão
com a raiva ou o carinho
dos que vão.
História terrível
do Bem e do Mal
alentejanamente
convencional)

E o sol ao tombar doura as arcas de ouro
fugindo das trevas, vagalume mouro.

E o suão é suor de romance barato
- p’ra ter bem depressa toucinho no prato.

Saudades saudades saudades irmão
- natureza morta com cego e bordão.

Ai terra do Alentejo
corda de guitarra cigana
flor de lua ao entardecer
caranguejo de face humana
no dia negro a morrer.

(E o pastor que guardava o gado
jaz dolorido e enforcado)

Tudo está errado e tudo está certo
a oliveira ao longe e o borrego ao perto.
E balança a estrela da madre pendente
o silêncio da infância e a voz do poente.

Saudade saudade saudade perdida
na morte na morte na morte
da vida.

in Poemas perdidos