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Aqui escreveu José Manuel Fernandes (via Blasfémias):
Anda por aí uma nova moda: devíamos ser como os espanhóis. Não no
tikitaka futebolístico, mas na fúria das manifestações. Esta moda, que perpassa
pela crónicas dos jornais e comentários das televisões, que influencia o tom
dos noticiários e leva os saudosistas do PREC a suspirar, é apenas a versão
estival da primaveril excitação com a Grécia, com os seus desacatos e com o seu
Syriza. Há mesmo quem glorifique a “tradição de cidadania” dos espanhóis
enquanto se enfurece com a suposta abulia dos portugueses.
Confesso
que olho para Espanha (como antes olhei para a Grécia) e não consigo encontrar
nela razões para esses entusiasmos. É “tradição de cidadania” uma greve de
mineiros asturianos marcada por emboscadas em que homens mascarados disparavam
morteiros improvisados contra os polícias que tentavam manter aberta uma
auto-estrada? Será “tradição de cidadania” juntar-se à sua marcha em Madrid e
provocar distúrbios de que resultaram dezenas
de feridos, nenhum dos quais mineiro? Ou será antes que em Espanha se cruzam
várias tendências muito perigosas – uma propensão para radicalizar posições,
extremando campos, como se viu durante o Governo do PSOE e se vê agora com o
Governo do PP; uma tradição política muito marcada pela violência, tanto à
direita como à esquerda, uma violência que nunca deu descanso à democracia
espanhola; uma realidade política inquinada pelas mentiras que se disseram
durante a recente campanha eleitoral, que foi radicalmente diferente da nossa
de há um ano atrás – e que nada é recomendável neste caldo de cultura? Que
pensar, por exemplo, de um parlamento catalão que aprovou, nesta mesma semana
em que a região autónoma se viu forçada a pedir um resgate ao governo central,
uma proposta de soberania fiscal que terá como inevitável consequência diminuir
as transferências dessa região, que é uma das mais ricas de Espanha, para as
regiões mais pobres?
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Há
muita coisa onde nos inspirarmos em Espanha, mas não seguramente na sua forma
extremada de fazer política. Sobretudo não é de copiar uma forma de gerir a
crise que tem sido desastrosa, mistura de mentiras sobre a real dimensão dos
problemas e bravatas sobre o orgulho espanhol. O triste espectáculo desta
semana, com o Governo francês de Hollande e o italiano de Monti a tirarem o
tapete ao seu parceiro espanhol, mostra até como já não é só em Berlim que o
comportamento errático de Rajoy causa irritação e desespero.
O
idílio de certos fazedores de opinião com tudo o que cheire a manifestação,
idealmente desacato, está, de resto, a gerar um fenómeno que é mais uma
construção mediática do que real: a multiplicação dos protestos e das vaias.
Com excepção de duas ocorrências genuinamente espontâneas – a vaia ao
Presidente da República em Guimarães depois das suas declarações sobre as
pensões de reforma e a assobiadela a Miguel Relvas na abertura de uns jogos da
CPLP -, a maior parte das manifestações de desagrado têm sido organizadas por
sindicatos da CGTP, o mesmo é dizer pelas estruturas locais do PCP. Valem por
isso o que valem: relativamente pouco. A não ser, claro, nas rádios e nas
televisões, onde permitem sempre um bom “momento de reportagem”.
A
vontade de transformar estes micro-eventos – que com o passar dos dias são cada
vez mais não-notícias, por serem repetições do mesmo guião – em grandes
acontecimentos decorre da enorme vontade em que se concretizem as múltiplas
profecias sobre a “explosão social” que têm vindo a ser repetidas ao longo do
último ano. Já se perdeu a conta às vezes que Mário Soares disse com ar sério
que isto estava à beira da implosão, para não falar das previsões apocalípticas
do bispo das Forças Armadas. Como nada ainda aconteceu, não há como fazer uma
forcinha.
Até
agora a maioria dos portugueses tem-se alheado destes protestos. Já várias
vezes tentei explicar porquê, pois isso nada tem a ver com abulia ou défice de
cidadania. Primeiro, muitos portugueses começaram por sentir na pele, mesmo
antes do aumento do desemprego, mesmo antes da dieta do Estado, o custo dos
excessos de consumo e de crédito. Perceberam em casa que teriam de mudar de
hábitos quando o Estado ainda não tinha começado a fazê-lo. Depois, porque os
portugueses votaram há pouco mais de um ano em partidos que prometeram cumprir
o acordo com a troika, não nos que prometeram denunciá-lo ou renegociá-lo.
Tem
sido deste crédito social e deste crédito político que tem vivido, em boa
parte, o Governo de Passos Coelho. Mas as coisas podem estar a mudar, e não
apenas porque há muita gente a querer ver os portugueses na rua.
Há
duas regras em política que nunca devem ser esquecidas pelos governantes. A
primeira foi formulada por Maquiavel: é melhor fazer todo o mal de uma só vez a
fim de que, provado em menos tempo, pareça menos amargo. A segunda é atribuída
a Salazar, mas muitos a poderiam ter postulado: em política, o que parece, é.
Passos
Coelho tentou, reconheça-se, aplicar o melhor que pôde a primeira destas
máximas. O OE de 2012 prova-o bem. Quando foi discutido não faltaram
comentários, sobretudo à esquerda, sobre “as folgas” que este incluiria, e que
seriam malfeitorias desnecessárias. Hoje, pela conjugação de vários factores –
as dificuldades da execução orçamental, o acórdão do Tribunal Constitucional, a
situação em Espanha e na Grécia -, parecemos estar face a uma situação em que
novas dores terão de ser anunciadas. Ao contrário do que sucedeu até aqui, em
que houve compreensão para aceitar percorrer um caminho tão difícil, novas
medidas de austeridade – como novos impostos – serão muito mais difíceis de
aceitar do que as do passado. E o pior é que o tempo gasto na concretização de
algumas reformas – como a reorganização da rede hospitalar ou a extinção de
tribunais – já foi demasiado, pelo que as resistências estão a enquistar. O
terreno está hoje muito mais minado do que há alguns meses, e de pouco parece
valer acenar com estudos: a lógica das reacções políticas é de que tudo são
“cortes cegos”, mesmo quando são cortes racionais e necessários.
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Mais
complexa ainda é a falta de atenção que este Governo tem tido com os detalhes,
com a necessidade de um rigor intransigente. Por exemplo: nunca um governo
nomeou tão poucos boys, nunca houve tão drásticas alterações na forma de
escolher quem é nomeado, mas mesmo assim cada erro cometido – e foram vários,
inúteis e alguns deles graves – polarizou sempre todas as atenções. Já o
escrevi várias vezes, repito-o agora: cada disparate desses custa mais em
reputação que muitas das medidas duras e impopulares. Ao mesmo tempo, os
múltiplos casos Relvas enfraqueceram mais o Governo do que o acórdão do
Constitucional. E os atrasos no combate às rendas – mesmo admitindo-se que quem
os critica, especialmente o PS, foi quem criou os regimes que agora se procura
desmontar – minam qualquer tentativa de aumentar a contribuição dos cidadãos
vulgares e pagantes de impostos. Há uma percepção de injustiça que é
politicamente explosiva.
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O meu
desejo para Agosto não é por isso que os portugueses exercitem os músculos para
se tornarem mais espanhóis, antes que o Governo e o principal partido da
oposição sejam capazes de perceber que as angústias crescentes de muitos
cidadãos obrigam a mais cuidado, e a menos demagogia, na acção política. A
maioria deve recordar-se que não basta ter razão e agir com boa vontade
reformista, que tem de ouvir mais e falar mais, e o PS lembrar-se que tem de
ser parte da solução também nos temas difíceis, como na definição da rede
hospitalar ou de tribunais.
Ao contrário do que
muitos dizem, o país não precisa de nenhuma “grande visão”, mas necessita de
uma luz ao fundo do túnel.





