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sábado, 11 de maio de 2013

Da superioridade cultural do cristianismo




G. K. Chesterton


A propósito do texto anterior do Luís Dolhnikoff, "É tudo verdade", e dos comentários e respostas que suscitou até agora, lembrei-me deste, que publiquei, pouco mais de um ano atrás, no Fiel Inimigo:


A nossa época é uma época profundamente obscurantista. E tanto mais obscurantista quanto mais se arroga a representação exclusiva e definitiva de um pensar objectivo, laico e humanista, isento de anteriores superstições impeditivas do acesso à verdade e à liberdade, às liberdades, espelho de uma imparável evolução da Humanidade.

Uma das ideias nela muito difundida é a de que todas as religiões se equivalem:


 - ou porque todas elas resultam de um apelo do e a um Transcendente comum e que, pela parcialidade e correspondente sectarismo de cada uma dessas visões, todas elas comungam de iguais virtualidades e culpas nos seus efeitos sociais e políticos - sobretudo culpas;


- ou porque se limitam a reflectir o temor e o tremor da humanidade, e benefícios em busca de uma protecção na luta contra os elementos hostis e ameaçadores da sua existência, antes deste dealbar da sua libertação pelo pensamento científico e respectivas conquistas;


- ou porque não passam de uma artimanha destinada a que uns quantos cimentem o seu poder sobre os restantes, manobrando-os e explorando-os mais facilmente e a seu bel-prazer;


- ou porque resultam de uma síncrese de todos estes factores, próprios, uma vez mais, de uma espécie que não atingiu, e estará ainda muito longe, da sua maturidade - e ainda que, céus!, se dirige já para as estrelas, podendo contaminar todo o universo com a sua moléstia moral.


Neste papaguear generalizado entre os eruditos e disseminado superficialmente através de uma vulgata dos conceitos – entre a maioria dos políticos e a restante população da civilização ocidental (mas só desta!) – com a preciosa ajuda dos jornalistas, esses aprendizes da informação que tanto têm contribuído para a generalização da confusão e da degradação -   um dos pontos fortes da autoflagelação decadente da moda é que o cristianismo é uma religião como qualquer outra.

E não é.

Dizia Chesterton que os cristãos não são nem melhores nem piores do que os outros. Só são piores na medida em que teriam a obrigação de serem melhores.

Chesterton tinha toda a razão.

No cristianismo, e só no cristianismo, se encontra a raiz que levou ao surgimento do conceito de humanidade, de uma irmandade humana, pela ideia de uma cristandade universal – o budismo, ao dirigir-se a todos os homens mas ao fazer da salvação individual a sua pedra de toque, nunca foi capaz de o gerar.


E, mais ainda do que no budismo, é no cristianismo, e só no cristianismo, que a violência é condenada. Porque o é mesmo que em favor de Deus, quando Pedro é repreendido por Cristo ao puxar da espada para defender o Mestre. Porque Deus só é Deus de alguém enquanto for resultante do seu livre reconhecimento enquanto tal.

É no cristianismo, e só no cristianismo, que o estádio de desenvolvimento humano a que chamamos infância é valorizado pela boca do próprio divino, conferindo assim dignidade à totalidade da existência humana, dois mil anos antes do nosso tempo.

É no cristianismo, e só no cristianismo, como também Chesterton põe em relevo, que da boca do Enviado de Deus, um mero carpinteiro, saem não impropérios, ameaças, condenações e afirmações de grandeza, mas coisas do mais elementar bom senso, como um “que atire a primeira pedra quem ainda não pecou”. E em que, acrescento eu, o corpo é declarado como o Templo dos templos a Deus.

Estou a ouvir quem leia o que acabei de escrever a ripostar-me de imediato: “Mas, ó meu caro, não tem sido a história do cristianismo a negação de tudo isso ou, pelo menos, a sua negação quase total, a negação da vida? As crianças, por exemplo, não foram elas tantas vezes utilizadas, mal tratadas ou mortas no meio do fanatismo da cristandade? Não foram os não-cristãos tantas vezes perseguidos e aniquilados?”.

Sim.

Mas há nisso tudo uma diferença essencial, crucial.

É que os princípios nos quais dizem firmar-se os que o fizeram, os condenam sem equívocos, tal como Chesterton faz notar.

A cristandade terá, tal como os muçulmanos e outros o têm feito recentemente e por diversas vezes, sacrificado crianças e jovens para fins políticos e ambições pessoais, apresentando-os como “mártires do Reino de Deus”. Mas, ao contrário dos restantes, que nisso são sancionados pelos seus textos sagrados, o Evangelho faz desses cristãos mentirosos e condena-os a um julgamento divino inexorável.

A cristandade poderá ter sofrido poderes discricionários e prepotentes em nome de uma Cidade de Deus governada por iluminados de todos os matizes. Mas é nos textos cristãos – no “quem não é contra nós é por nós” (astutamente invertido pelo ditador Salazar) e no episódio da Paixão de Cristo que referi – que estão as sementes e as raízes da argumentação de John Locke em prol de uma sociedade democrática. A democracia ocidental tem a sua origem no cristianismo, não na “democracia” grega, assassina de Sócrates, o único democrata de Atenas, como ele sabia e disse aos seus juízes, incomodando-os e irritando-os.

A cristandade poderá ter depreciado o corpo como Templo de Deus, como o laboratório da Vida, criada por Deus. Mas essa depreciação e mesmo a sua mortificação é fruto (como qualquer estudante de Filosofia ou de Cultura Clássica o sabe) da infiltração dos misticismos grego e oriental, que consideravam o corpo como o túmulo da alma, logo no cristianismo dos primeiros séculos (“soma”, corpo, e “sema”, túmulo, têm a mesma raiz). Porque a sua glorificação vem, no Evangelho, na boca do próprio Cristo.

De facto, os valores que – ateus, crentes ou nem por isso – dizemos contemporâneos e as características que atribuímos aos seres humanos da futura humanidade diferente, tudo isso se encontra no Evangelho. Porque o cristianismo é diferente de tudo o mais.

Este o sentido da frase de Chesterton, para quem ele é a única religião que celebra a Vida, na acepção mais fundante do termo.

Defender os valores cristãos é, portanto, como se vê, defender e incentivar a evolução da espécie humana na própria óptica dos ateus e dos indiferentes e não o oposto, como o venenosamente prepotente obscurantismo reinante na nossa era pretende. E isto leva-me a um último aspecto não menos importante, o qual, em profunda relação com os anteriormente apontados, se torna também não menos decisivo.

O cristianismo é, enquanto religião do corpo, uma religião do finito e, por consequência, do limite. O mundo, qualquer mundo, é “o lugar” e por lugar entende-se algo de-limitado, de-finido. Donde se infere, por tabela, dois planos distintos inter-relacionados – tal como a pele é, em simultâneo, o que, separando-nos, nos liga inevitavelmente a tudo o mais. O mundo é o plano do limite, é “o caso”, na deliciosa expressão de Wittgenstein, o que faz com que tudo o que nele acontece tenha, necessariamente, limites.

O Cristo que toca os corações das boas almas de todos os credos e continentes, que anda na boca dos cantores de rock, nos discursos e cerimónias do correcto humanismo do Ocidente de todos os quadrantes políticos e que eu próprio pus em destaque, até agora, nas suas implicações mais profundas, é o Cristo compassivo, manso, misericordioso. A sua firmeza é a firmeza da resistência, de certo modo passiva, à barbárie, firmeza que afirma o que a esta se opõe.


O Cristo de que não falei e que todos eles, por diferentes motivos, procuram ignorar o mais possível é o outro, o que expulsou os comerciantes do Templo, chamando-lhes ladrões, virando-lhes as mesas e mesmo chicoteando-os. Coisa estranha, já que aparentemente contraditório não apenas com o fundamental da sua atitude e mensagem mas também com o facto de ser uma característica da Antiguidade que todos os actos fundamentais da vida humana, do comércio ao acto sexual que consumava o casamento, tivessem lugar no templo, assim ligando o mundo profano ao mundo sagrado, com o Templo no lugar de “pele” do profano.

Ironicamente, é a esquerda, na sua superficialidade, a que menos vira a cara e mais se aproxima de um enquadramento lúcido ao que é narrado. Na época, essa relação entre o profano e o divino estaria – dizem-nos os documentos que nos dão conta do ambiente religioso entre os judeus da época, divididos entre o judaísmo tradicional e o judaísmo helenizado, o ascetismo orientalizado e outras tendências que incluíam elementos das diferentes religiosidades presentes na região, num crescente clima de relativismo – muito desvirtuada pelo pendor para o mero comércio a pretexto do religioso.


Se Pessoa, na Mensagem, diz que no Portugal em que vive, “ninguém sabe que coisa quer/ninguém sabe que alma tem/ nem o que é mal nem o que é bem”, isto é, que Portugal, não tendo limites, não existe por falta de limite, por inexistência de de-finição que o faça existir, pela separação que o torne dinâmico (e note-se que definir-se é o oposto de tornar-se rígido), que o torne significativo, sinal da presença de algo vivo, Cristo age no mesmo sentido.

Cristo age e, pela acção, marca o limite a partir do qual deixa de ser possível estabelecer a ligação e a interacção entre o homem, a sua acção e o seu destino, isto é, deixa de ser possível criar vida entre o sentido e o valor que a serve e a mede. Ao expulsar os mercadores do Templo, não está a condenar os exploradores do povo mas a travar o esvaziamento da existência humana para o nível da mera sobrevivência animal, mais aperfeiçoada e sofisticada, a afirmar um conjunto de valores vitais.


Porque não é possível transigir sem que isso implique o desaparecimento e a morte de quem transige. E se são os vendilhões quem representa e concretiza tal degradação e perigo, cristianismo significa não unicamente resistência activa, mas acção clara de repúdio.

Este é um Cristo que estraga os “arranjinhos” sempre possíveis de serem feitos com o lado que fica melhor na “fotografia”, publicada pela comunicação social com a conveniente regularidade. É um Cristo inconveniente, incómodo, não contextualizável na hipocrisia funda que vivemos. É um Cristo que não serve ao farisaísmo humanista, porque é um Cristo afirmativo.


E se há algo que faz guinchar os vampiros da cultura ocidental da nossa praça, que vivem do esgotamento da sua vitalidade, mistificando-o sem escrúpulos para servir os seus fins, é uma afirmação de cristianismo.

Concordo com Montesquieu quando aconselha a que não se pretenda dizer tudo no que se escreve, para que também o leitor possa completar assumir o texto e as suas conclusões, pela compreensão e pelos raciocínios que com ele aproveitou para fazer. Limitar-me-ei, portanto, por esse motivo e por escassez de tempo, a sugerir a quem teve a paciência de me acompanhar até aqui, que imagine o que eu poderia dizer quanto ao que provavelmente seria, a meu ver, a acção de Cristo no caso do juiz que sobrepôs a sharia à lei americana, referido no post d’O Lidador.

Peço desculpa pelas gralhas que possa haver no texto, inclusive as de ligação, mas já não tive tempo para o rever.

sexta-feira, 21 de setembro de 2012

Fanatismo disciplina o Modernismo secularista




Um novo texto enviado por António Justo.


O Estado protege Criminosos e negligencia os Cumpridores da Lei

A maneira como a política e a sociedade reagem à provocação de caricaturistas e à violência islâmica favorece a confusão das mentes. Uma arte banal e de mau gosto quer provocar os sentimentos religiosos de pessoas crentes, mostrando Maomé nos braços duma mulher nua, o Papa de nádegas nuas, Jesus como homossexual, etc. Quer-se desviar a atenção das pessoas dos problemas reais para discussões paralelas, servindo-se assim os extremistas muçulmanos e uma economia liberalista agressiva e desumana, como se os valores do Ocidente se reduzissem à liberdade de expressão. Nos baixios de sociedades em desgraça domina a satisfação baixa do rir-se uns dos outros.

No que diz respeito à avaliação da liberdade de expressão na arte, a sociedade ocidental usa dois pesos e duas medidas. De facto, um Islão militante consegue conquistar compreensão e até respeito pelas manifestações violentas contra a sua difamação, como se vê na discussão pública e na reacção da política. A violência e o medo, daí resultante, determinam a lógica e a argumentação pública. Segundo comentários políticos, a gravidade não vem do acto em si mas das possíveis reacções a ele. A arbitrariedade dos argumentos a favor e contra ultrapassa a razão e a ideia de liberdade.

Chega o cinismo duma caricatura, o fanatismo de "Innocence of Muslims", ou a ganância duma editora que, para atrair as atenções, publica uma caricatura de Maomé na certeza que as mesquitas movimentarão (às sextas-feiras, depois das orações rituais) enormes massas, chegando aí a serem legitimados actos de violência criminosa.

Há um vídeo anti-islâmico. Há também muitos filmes e caricaturas anticristãos. Por exemplo, aqui na cidade de Kassel a "Caricatura" tem uma exposição de caricaturas. Numa delas Deus Pai diz para o filho Jesus na cruz: "Eh tu, eu fodi a tua mãe!" Os responsáveis de “Caricatura”, apesar do protesto escrito de cristãos, continuam a exibir tal caricatura em nome da arte e da liberdade de expressão.


A publicação de caricaturas ridicularizadoras do maometanismo é considerada perturbação da ordem pública por ferir os seus sentimentos religiosos; a ridicularização de símbolos cristãos não é relevante. O mesmo público que condena a acção provocadora de caricaturistas ofensores do Islão, acha normal e até sinal de liberdade a difamação de símbolos cristãos. Será que se pensa que os cristãos não têm sentimentos religiosos ou que são demasiado tolerantes?

Se o radicalismo e a violência passam a ser o critério de orientação para avaliação e decisão na sentença pública, então a política e a opinião publicada dá a perceber que os cristãos para serem tomados a sério e ouvidos, teriam de se tornar violentos e radicais. Dado a política tomar mais a sério a violência/medo do que a atitude pacífica descrimina a agressão pela positiva e a atitude cristã pela negativa. No mundo ocidental chegou-se ao extremo de quem nega as suas fontes (greco-judaico-cristãs) e difama o cristianismo é considerado progressista e defendido como representante da modernidade.

Um secularismo impúdico ao apoderar-se das democracias e dos órgãos de Estado dá cada vez mais margem ao extremismo, numa tática de submeter a razão ao medo e ao oportunismo. A perversidade do pensamento e da moral encontra-se na ordem do dia e agindo em nome duma democracia medrosa e envergonhada. Nela parece valer cada vez mais a máxima: direito recebe-o quem perturba a paz pública ou os lóbis parasitas que se assenhorearam dos Estados!

Naturalmente que aqui está mais em jogo do que a mera liberdade de expressão!

Ao fanatismo do "Innocence of  Muslins", segue-se o fanatismo de massas maometanas; à tolerância cristã, nas sociedades ocidentais, segue-se o abuso do fanatismo secular.


Por outro lado, Estados de cultura árabe estão habituados a mandarem na sua terra ao ponto de incendiarem igrejas, perseguindo crenças não maometanas, sem que alguém os moleste por isso. Além disso querem mandar na casa dos outros sob o manto da hegemonia da religião. A reacção da política e dos Média, bem como a intervenção da Nato nas suas regiões, tem-lhes dado razão.

O abuso com filmes e com caricaturas contra a religião cristã tem sido protegido e querido pela política ocidental. Agora chegam estes estrangeiros a chamá-la à reflexão. Será um abuso eles quererem impor a sua ordem na casa dos outros?

Também é um facto que o secularismo tem abusado e engordado à custa do sentimento religioso cristão. O medo do poder secular da Europa perante o sentimento religioso muçulmano irá fazer aplicar leis anti-difamatórias da religião, de que indirectamente aproveitarão os cristãos. Os de fora vêm impor respeito pela religião! E de que maneira! Pelos vistos o braço secular parece entender mais de violência do que de paz!

Encontramo-nos perante um paralelismo intrigante: depois dos Descobrimentos as vítimas de perseguições religiosas na Europa emigraram para a América em fuga ao fanatismo reinante; essa mesma Europa vê hoje o seu liberalismo extremo questionado pelo fanatismo árabe. Há que procurar uma nova estratégia de diálogo sem recorrer à blasfémia, à difamação, à exploração nem a grosserias; segundo a desleixada máxima cristã: na humanidade reside a divindade! Cada pessoa, crente ou descrente, é filho de Deus!

segunda-feira, 17 de setembro de 2012

Do Estado e do crime




Confrades e amigos/as

  Num "órgão de informação", que por higiene mínima não identificarei, um caramelo sugeriu que eu - ultimamente, que ando e andarei em tratos literários, em Espanha brevemente e, depois, em França - com egoísmo já não me importava com o que se passa no real quotidiano societário. Estaria pois a render-me ao desinteresse pela cidadania.

 Não é verdade.

 O que se passa é que tenho andado ocupado com a feitura de dois discursos e outras "intervenções espontâneas" (risos)para responder a futuras entrevistas e nisso sou muito cuidadoso, pois gosto de dar ao leitor, ao público por extenso, o melhor e mais digno do pouco que sei.

 Mas para acabar definitivamente com algumas ideias relativamente desadequadas, vou tomar posição neste momento em que se iniciou a corrida descendente para a governação social-democrata (e só se podem queixar deles mesmos):


O governo luso actual, que ganhou as eleições opondo-se ao do díscolo parisiense, todavia a seguir mentiu ao povo português e agrediu-o nos seus direitos constitucionais, forçando-o através do arbítrio que protege ricos e fundações e desanca pecuniariamente reformados.

"Todos têm o direito de resistir a qualquer ordem que ofenda os seus direitos, liberdades e garantias e de repelir pela força qualquer agressão, quando não seja possível recorrer à autoridade pública." - Direito de resistência, Art.21 da Constituição da República.

  As declarações, sensatas e claras, dum dos representantes dos polícias, que referiu que o governo tem tentado arteiramente usá-los contra o povo manifestante legal, não deixa margem para dúvidas. 

Assim sendo, o povo tem o direito de insurreição ante esta gerência que se colocou fora da lei. Devemos pois preparar-nos para essa eventualidade, amarga mas legítima!

 Todavia, isso não passa por ataques armados a ministros ou sedes de partidos políticos. Ninguém, que eu saiba, propôs até hoje tal insensatez. Ninguém tanto quanto sei sugeriu, como se está a fazer em Espanha e França, que as moradas de magistrados pervertidos ou colaboracionistas dos turiferátrios oficiais sejam postas em agenda, para na altura própria se lhes "apresentar cumprimentos". Nem ninguém aventou a ideia de se vigiarem atentamente assessores potencialmente abusadores ou corruptos para se lhes "apertar a mão..." quando rebentar a "bernarda". Ou que deputados dos que o dr. Paulo Morais, presidente do Observatório Anti-Corrupção, classificou como "vendilhões relapsos" pois fazem da Assembleia da República verdadeiro coio de ilegalistas, sejam sumariamente pendurados nas árvores da Avenida da Liberdade, a exemplo do que sucedeu a 5 delegados do ministério público italiano, mancomunados com a Mafia, no decorrer da operação Mãos Limpas.



 Insurreição significa algo bem diferente!

 Significa a contestação, através da presença nas ruas e em todo o lado onde isso legitimamente se possa exercer, dos cidadãos usando do seu direito inalienável de ser gente contra os abusos à pala da governação. E que não é passível de negociação, mesmo num País onde vigora uma "sociedade criminal" (ou seja, como eu referi e perdoem-me se me cito, no meu "O crime e a sociedade", aquela onde o crime é consentido pelos esteios do Estado quando não por ele incrementado, como entre nós se verifica).

  Neste momento, o que vem na sequência da governança do denominado popularmente "Pinóquio", a Nação lusa já não é uma Democracia real ou por extenso, mas um Estado cripto-fascista devido aos actos de políticos e seus manteúdos (utilizantes do sistema judicial, que bloqueiam a justiça mediante a colocação, em locais estratégicos, de apaniguados ou áulicos estipendiados moral e materialmente), membros das polícias secretas - que não visam a defesa da Nação mas dos que a usam como uma coutada - e correlegionários partidários, verdadeiros homens-de-mão dos que tripudiam sobre a pátria lusa a seu bel-prazer.

 Estes homens, que agora parece tiraram definitivamente a máscara, não são economicistas ou tecnocratas! São, isso sim, verdadeiros apaniguados que tentam tapar o estado ruinoso a que os seus capangas, quando não eles mesmos em parte, levaram Portugal.

  O estado a que se chegou não é culpa da população, o que eles tentam injectar através de uma insidiosa, mentirosa e cínica propaganda.

  O povo comete erros. É ingénuo, por vezes mesmo desleixado. Mas não é globalmente criminal, tanto mais que numa "democracia aproximativa" não tem tido, geralmente, senão que ratificar eleições ratonas! Manipulado pela incultura induzida, pala futebolite, pelas telenovelices e pela beatice dos "parlapatões tonsurados", como dizia Eça, muito tem ele tolerado.

 Num país menos pacífico já teriam rolado cabeças. E não falo por simbolicamente...!

  Quando um Constâncio, que não conseguiu perceber que nos bancos algo de apodrecido estava a dar-se, vem "dar sentenças" e conselhos de comadrinha; quando um Vítor Gaspar de discurso roboticamente sincopado vem tentar convencer-nos de que o amarelo é azul e o verde castanho às pintinhas; quando outros cavalheiros tentam fazer passar a ideia de que para salvar a nação é necessário ficarmos sem calças, sem camisa e, se calhar, sem cuecas (passe a justa ironia) - é tempo de dizer BASTA, tendes de mudar de rumo!

  Temo-lo sugerido a bem. Seria grave que nos obrigassem a DIZÊ-LO A MAL! Depois não se queixem.

  Viva Portugal!

quinta-feira, 13 de setembro de 2012

Entrevista a Carlos Pimenta...




... mas não o das "alternativas", recolhida aqui,  que transcrevo a propósito do comentário que deixei ontem no post do Manuel Graça, e cujo período final me abstenho de comentar:


Haveria tamanha crise se a União Europeia não andasse de abraços com o crime organizado, a fraude e a corrupção? E o que é que Portugal tem a ver com isso?
"Agora sabemos que é tão perigoso ser governado pelo dinheiro organizado como pelas máfias organizadas." Não, a frase não é atual. Quer dizer, atual até é, mas foi proferida em 1936 pelo Presidente dos EUA, Roosevelt, na ressaca da Grande Depressão. "É uma frase totalmente aplicável aos nossos dias", garante Carlos Pimenta, do Observatório de Economia e Gestão de Fraude da Faculdade de Economia da Universidade do Porto (OBEGEF).
As palavras de Roosevelt podem até inspirar a conferência que o Observatório organizará, por estes dias, no Porto, com a "nata" do País e do estrangeiro no estudo e investigação da fraude e da corrupção. Afinal, "a crise que estamos a viver está muito ligada a situações dessas. Começou nos EUA, com o subprime, mas também é resultado das más políticas da União Europeia, promotora de medidas que, do ponto de vista científico, foram abandonadas há muitos anos", resume Carlos Pimenta.
Não se assuste, mas o resultado é este: "A Europa concentra hoje um grande número de off-shores e 'câmaras' de corrupção entre bancos sem qualquer registo de movimentos. É benévola para o crime organizado e comporta-se como um grande paraíso fiscal", resume o catedrático de Economia.
Faça-se um exercício sobre o desconhecido: quem reparou na adesão ao euro de países que não integram a UE e que, por vezes, nem nos lembramos que o são? Vaticano, São Marino, Kosovo e outros territórios constituem, segundo Carlos Pimenta, "o centro do tráfico internacional" e conquistaram o melhor de dois mundos: usam a moeda única, mas não respondem perante as leis europeias. "O dinheiro que ali circula fica automaticamente lavado." Não admira, pois, ver a Europa "extremamente vulnerável".
Portugal, galinheiro de serviço
Não sendo ainda um paraíso para as máfias, a verdade é que a moldura europeia, mais jeitinho menos jeitinho, cabe na perfeição a Portugal, país onde as raposas encontram sempre o galinheiro aberto, e à discrição, para se empanturrarem. Carlos Pimenta socorre-se da metáfora de Jean-François Gayraud - autor de diversas obras sobre fraudes e crime organizado - para ilustrar o nacional-porreirismo nestas matérias, conivente e irresponsável. "As crises e o endividamento do Estado geram situações de grande fragilidade. Degrada-se a situação social, abre-se a porta a negociatas", refere o economista. A estratégia de rapina é fácil e dá milhões: "As organizações criminosas não têm falta de liquidez. Além de facilitarem o crédito, tomam conta de empresas em situação difícil e dos negócios legais, através de jogos de influência e de branqueamento de capitais. As privatizações são um dos alvos", explica Carlos Pimenta.
Os sinais são variados e estão para durar. É "o cancro do off-shore da Madeira, onde Portugal só tem a perder". São as Parcerias Público-Privadas (PPP´s), "onde era bom saber quantas foram negociadas em situação de conflito de interesses". São os negócios entre Portugal e Angola, com "exemplos de uma relação pouco clara entre empresários portugueses e angolanos e onde a diplomacia secreta aparece em grande". Há tempos, em Luanda, Carlos Pimenta ouviu mesmo da boca de responsáveis da polícia económica angolana uma frase curiosa: "Disseram-se espantados com o facto de empresários falidos em Portugal serem um sucesso por lá." Por cá, valham-nos o Ministério Público e a PJ que, "mesmo sem recursos, têm sido extremamente corajosos. Nos últimos anos, foram trazidos a público e investigados casos que, noutros tempos, nunca viam a luz do dia".
Neste momento, de acordo com as estimativas de Carlos Pimenta, a "economia sombra" representa já 35% do PIB. Em 2007, o cenário corresponderia a uma pilha de notas de cem euros, quase do tamanho da Torre dos Clérigos. "Agora, são várias torres", ironiza.
Entretanto, "a comunidade pacífica de revoltados" de que falava Torga parece manter a fervura, sem levantar a tampa. Somos até "muito tolerantes com a fraude e a corrupção autárquica", sobretudo ao serviço da máxima "rouba, mas faz", mas continuamos impressionáveis quando o aparelho de Estado dá nas vistas. Os exemplos, esses, já não vêm de cima. "As revistas sociais alteraram o padrão de ética das pessoas", afirma Carlos Pimenta. "As referências, hoje, são tipos que vão à TV, alguns bandidos e vira-casacas." Tudo bons rapazes, portanto.
Elite nacional e mundial no Porto
Susan Rock-Ackerman, uma das maiores autoridades mundiais na área da fraude e da corrupção, e Friedrich Schneider, autor de um estudo sobre economia paralela na UE, são dois dos oradores da conferência Percepção Interdisciplinar da Fraude e Corrupção, organizada pelo OBEGEF e que decorre de hoje, 12, até sábado, 15. Na abertura do evento será divulgado o mais recente Índice de Economia Não Registada, da autoria do Observatório. Paula Teixeira da Cruz (ministra da Justiça) Cândida Almeida (diretora do DCIAP), João Amaral Tomaz (administrador do Banco de Portugal) e Carlos Tavares (presidente da CMVM), serão alguns dos oradores.

quinta-feira, 30 de agosto de 2012

Contra a ingerência do Estado...


(imagem obtida aqui, onde a notícia também pode ser lida)


... na vida privada  - ou "Uma notária com as ideias en su sítio" (ler também aqui)


(imagem obtida aqui, onde a notícia também pode ser lida)

sábado, 21 de julho de 2012

LIBERDADE DE EXPRESSÃO

  


  Voltei por instantes, para dizer ainda o que se segue e que enviei também, por email, à confraria.

  O nosso confrade Vicente Páscoa, que agora se encontra definitivamente em Portugal após uma estadia de 14 anos na Bélgica, publicou no forum do DN o que aqui se dá a lume e tem vindo a ocupar as atenções dos jornalistas e leitores daquele órgão nacional e. por extenso, afinal todos os publicistas do país. Ouçamo-lo então:

   A questão do "comentário livre" versus "comentário moderado" ou "censurado", liga-se profundamente à questão da Democracia e da Sociedade tutelada. Mas como? Aqui é que está o busílis. Ora bem: a meu ver o problema põe-se agora porque pela primeira vez houve em Portugal um debate sério e a sério.

   Até há bem pouco isso não acontecia porque ninguém punha em causa eficazmente o facto de haver uma clique (política, amparada em publicistas "da corda" e com boa boca e disposição) que punha e dispunha enquanto o geral do poviléu não piava. A Crise veio modificar os dados da questão: deixaram esses senhores de ter "poder de vida ou de morte" sobre o discurso societário. Os comentadores são emanações do cidadão comum.








   O medo vai-se perdendo. E como o medo se vai perdendo e a clique dominante já não controla eficazmente, aparecem comentadores enraivecidos, ou "a soldo" da agit-prop, que desbocam e desbancam o discurso. Isto é o índice seguro de que o País administrativo se esboroa!

  A clique dominante, a que a lógica de formações típicas e com cassette subversiva afinal justifica, já não sabe o que fazer e faz uma fuga para a frente: primeiro tentando instaurar a "lei da rolha", informalmente, dentro em breve criando formas legais que permitam a prisão de contestatários. E se fosse com a gerência anterior, dominada por um indivíduo sem princípios, um aventureiro político típico, ainda seria pior: seria uma espécie de Venezuela com "safanões a tempo"!





terça-feira, 17 de julho de 2012

MOMENTO DE POESIA, novo fado português



 Nicolau Saião, O caçador (desenho a tinta-da-china)

   Dias atrás um confrade meu, grande poeta brasileiro (um dos maiores que aquele país irmão possui) enviou-me uma das suas habituais missivas – que sempre recebo com gosto – e a certa altura lamentava impressamente que eu perdesse tempo a escrever coisas políticas (sic), pois o que ele achava digno era eu dar-vos poemas, poesia própria e alheia (e eu agradeço o mimo de considerar que faz sentido eu dar aqui a lume o material de fabrico próprio a par do de fabrico alheio…).

  É capaz, mas não o iria asseverar, de ser verdade. De ter ele razão. No entanto, ao mesmo tempo que o lia, sentia bater-me nas orelhas a frase lúcida de António Maria Lisboa, que rezava e ainda reza “A crítica é a razão da nossa permanência”, a par daqueloutra de Manuel de Castro “Chama-se UM HOMEM àquele que sabe o que está fazendo” e, “the last but not de least” como usa dizer o famoso crítico lusitano cujo nome não me ocorre de momento, ainda a de Camus, que arruma, creio eu, a questão definitivamente: “A poesia e a prosa nunca devem esquecer que se são feitas por um impulso que não tem por norma o testemunho ético não passam de actos desumanos ou, no limite, de egoísmos ou mesmo de canalhices”. (E não devemos esquecer que há a crise que nos sufoca, provocada por estimáveis homens públicos ladrões e/ou caloteiros – e agora nós é que temos de esportular as lecas para encher o buraco que esses amáveis bandidos escavaram…Porque havemos de passar em branco as suas malfeitorias?).

   Mas como sou, creio eu, um tipo tolerante e – talvez por ser fraquito e um pouco medroso – um esforçado gerador de consensos, pensei que podia conciliar as coisas e dar poesia que, simultaneamente, tivesse algum pequenino gesto social.

  Vai daí saíu-me o que aqui vos deixo, com o xi-coração de sempre pelo menos para as minhas estimadas leitoras:


FADO PORTUGUÊS

Vamos lá falar a sério:
a nação está estragada.
Só há uma solução:
- malta, vamos p'rá porrada!

Até sou um tipo afável
mas isto assim não dá nada...
Temos justificação:
- malta, vamos p'rá porrada!

Tudo limpinho e às claras.
Em segredo não vale nada
e os da “secreta” vigiam…
- malta, vamos p'rá porrada!

O Sócrates lá na estranja
leva vida regalada
e nós aqui a tinir…
- malta, vamos p'rá porrada!

O Constâncio melhorou
recebe uma batelada!
Aqui, perdeu quem poupou
- malta, vamos p’rá porrada!

Até o Cavaco ganhou,
tem vidinha prestigiada
pois engrola o que sempre engrolou…
- malta, vamos p'rá porrada!

Diz ao povo para ter calma.
É uma treta pegada,
ele quer é safar os gandulos…
- malta, vamos p’rá porrada!

Confiava no sô Lima…
e o Loureiro figura amada
merecia-lhe toda a estima…
- malta, vamos p’rá porrada!

O Arménio propagandeia
e é só conversa fiada.
Quanto ao Xico, é um varre-feiras…
- malta, vamos p’rá porrada!

O Seguro é um alfenim
de cantiga bem cantada,
mas andou co’ Sócrates ao colo!
Malta, vamos p’rá porrada.

Mandantes? Urina neles
pois é tudo uma cambada.
Só há uma coisa a fazer
- malta, vamos p'rá porrada!

Vamos agir em conjunto,
está a pátria ameaçada.
Sem temor, tratemos deles...
- malta, vamos p'rá porrada!

O caminho é só já esse:
ou nós ou a Força Armada.
Temos de salvar o país!
- malta, vamos p'rá porrada!

Viram como foi lá fora?
É uma coisa danada,
estes gajos só percebem
se a malta for p'rá porrada!

Por isso, nada de medos.
E de cara levantada
sem coisas clandestinas:
- MALTA, VAMOS P'RÁ PORRADA!!!

terça-feira, 26 de junho de 2012

COMO??!!



(imagem recolhida aqui)

Diz-se aqui:
O Tribunal Criminal de Lisboa acabou de dar como provados todos os pontos da acusação contra o deputado socialista Ricardo Rodrigues e condenou-o por um crime de atentado à liberdade de imprensa. O deputado apanhou 110 dias de multa e tem de pagar 4950 euros ao tribunal.
O Expresso contactou Ricardo Rodrigues. O deputado disse-nos que pensa recorrer da sentença, pelo que só a comentará depois de transitada em julgado. 
Em abril de 2010, durante uma entrevista que decorria numa sala da Assembleia da República, Ricardo Rodrigues 'perdeu a cabeça' com uma pergunta sobre o seu envolvimento num caso de pedofilia nos Açores. O deputado levantou-se e pôs no bolso os dois gravadores que estavam sobre a mesa.
Ricardo Rodrigues foi tão rápido que os jornalistas da revista "Sábado", Fernando Esteves e Maria Henrique Espada, nem deram pela falta dos gravadores. Quando repararam, ainda confrontaram o deputado socialista, que recusou devolver o material. Mas Ricardo Rodrigues esqueceu-se de que a entrevista estava a ser filmada e as imagens foram divulgadas no site da revista e pelas televisões.
O deputado socialista, que é o representante no Parlamento no Centro de Estudos Judiciários, foi acusado pelo Ministério Público de atentado à liberdade de imprensa. Em tribunal, Ricardo Rodrigues alegou que as perguntas que lhe estavam a ser feitas eram ofensivas e alegou o direito à ação direta para se defender.

Pergunto:
- como pode o PS manter como militante alguém com o nível ético deste indivíduo, sem implicitamente se identificar com ele?
- como pode a AR tolerar, sem se rebaixar ao mesmo nível, que alguém como o sr. Rodrigues diga representar qualquer cidadão português?
- como podem os portugueses ficar calados perante isto, sem se sentirem responsáveis pela sua própria extinção?

terça-feira, 5 de junho de 2012

Aconteceu-me ou Hoje, eu sei que sou feliz!




Uns seis anos atrás. Numa situação familiar algo complicada, enviei dois sms a uns amigos. Hoje, já não me recordo dos termos exactos que neles utilizei; mas cerca de uns dez meses depois, quando aquilo aconteceu, lembrava-me de todos eles, a ponto de poder reproduzir integralmente essas mensagens que, entretanto, apagara, na sequência das limpezas que costumo fazer regularmente às caixas de entrada e de saída.

E o que aconteceu foi que, estando eu a tentar avaliar do estado de maturação das peras (que eu tenho uma pereira no meu quintal!) ouvi o telemóvel assinalar a chegada de dois sms. Quem será? O que será?

Abro e — oh, espanto! — vejo as duas mensagens que enviara e de que tão bem me recordava, arrumadinhas na caixa de entrada. Sem qualquer outro remetente além de mim próprio.

Passados os primeiros minutos de estupefacção, pus-me a pensar no que raio se passaria. Apresentaram-se-me várias hipóteses, da mais elaborada à mais simples, a saber:

— que estaria casualmente envolvido numa conspiração cósmica ou que o estaria voluntariamente, como a personagem principal do filme Total Recall — mas, hélas! sem a Sharon Stone nem a Rachel Ticotin a fazerem-me companhia, algo que eu recusaria liminarmente aceitar;

— que o sr. eng.º Belmiro de Azevedo, proprietário da operadora, se interessava particularmente pela minha pessoa, no sentido de vir a oferecer-me um lugar de administrador ou mesmo de me nomear herdeiro único dos seus bens, e, por isso, desejaria certificar-se ao pormenor do meu merecimento — algo que, embora ilegal, muito me lisonjearia, mas que julguei ser talvez ainda mais inverosímil do que a primeira hipótese;

— que, finalmente, estaria em presença de uma falha de funcionamento de alguma obscura engenhoca (talvez adquirida em segunda mão) de um qualquer organismo de segurança do Estado, no qual se arquivariam todas as conversas, orais e escritas, de todos os cidadãos portugueses para eventual futura utilização contra eles — já que, à data, nem sequer blogue tinha, limitando-me à pacatez cívica de uma acção diária dirigida para conversas telefónicas com amigos após o jantar, ou para um ou outro vizinho que costuma aparecer no café quando eu também por lá estou.

Era-me evidente que nunca poderia saber qual dessas três era a correcta, apesar de, a estar de acordo com Popper, a mais simples ser a que mais possibilidade teria de ser verdadeira. A terceira era, sem dúvida, achei eu também por esse motivo, a mais verosímil. E, em conjunto com a segunda, as mais próximas e fáceis de investigar. Apesar de tudo.

Comecei, assim, por ligar para os serviços da Optimus. A assistente, uma moçoila contratada para dar o tímpano aos clientes, ficou, genuinamente, tão surpreendida como eu e, no desempenho das suas funções e em defesa do seu salário, afiançou-me e trejurou-me que a empresa não tinha qualquer divisão desse tipo. Passou-me, no entanto, a uma colega da secção de reclamações que procurou convencer-me de que com certeza eu não apagara as mensagens, de que o problema talvez tivesse origem no próprio aparelho, de que nem sequer sabia a que departamento poderia ser dirigida uma exposição desse tipo… Tentei, depois, alguns conhecimentos que tinha no Ministério do Interior. Nada. Ninguém sabia de nada.

Desisti. Até que, como não há duas sem três, para aí uns quatro meses depois me surgiu um terceiro sms antigo, posterior aos dois anteriores, de que também me recordava por constituir um comentário irónico que fizera a uma situação vivida por um outro amigo. Novamente tentei descortinar a razão desse “reenvio”, novamente acabei por desistir. Mas guardei as três mensagens. Até que tanto o telemóvel como o cartão sofreram um acidente e eu fiquei sem qualquer prova do que acabei de relatar.

As peripécias espiónico-jurídicas em Portugal com que a social-comunicação nos inunda até ao arregaçar das calças dão, a meu ver, razão a Popper. E, atendendo ao que vamos julgando saber do que em todo o mundo se passa, tais peripécias são bastante menos portuguesas do que o cozido. Desiludamo-nos, além disso, porque — como dizia no domingo a Ana Mesquita, a propósito do assunto, no programa do Herman “Moeda de Troika” — “não há retorno”. Ninguém jamais conseguiu ou conseguirá impedir a utilização indevida de algo, sobretudo quando esse algo é uma arma tão poderosa, determinante e privilegiada para tanto interesse e ambição, inclusive e, talvez, principalmente, em defesa do “bom povo”.

Nada disto, aliás, é novo. Se qualquer rei, par do reino ou rico burguês pôde misturar-se com o povo, passeando ou frequentando lugares menos recomendáveis até quase ao final do século XIX, a invenção, divulgação e expansão da fotografia, tornaram-lho a partir daí muito mais difícil e, por vezes, absolutamente impossível. Desde então, nenhuma lei conseguiu anular a actividade dos paparazzi porque a indústria que servem se serve a si mesma servindo para os mais diversos fins, a pretexto da liberdade de informação própria de um sistema democrático. Os lobos comem-se uns aos outros e nem os poderosos estão a coberto dos efeitos e do alcance das armas que utilizam em seu proveito.

Posto o que presentemente, por tudo isto, me considero um cidadão muito mais feliz, porque me sei debaixo do mesmo chapéu usado pelos grandes deste mundo. Antes sabia que a PIDE e só a PIDE me poderia controlar os passos. Depois, comecei a desconfiar de que alguns pretendiam controlar-me mais pormenorizada e apertadamente do que a mera polícia política do Botas (o António de Oliveira, claro, não o Mário). Agora sei que todos estamos permanentemente sob vigilância, o que me deixa muito mais descansado sobre o que posso e o que tenho a fazer. Não se tornou tudo, afinal, muito mais claro e seguro? Hmmm...?

domingo, 3 de junho de 2012

PEQUENO MOSTRUÁRIO PARA VAMPIROS (5)




Um email que enviei há dias:


Como disse Leucipo, na frase canónica que muitas vezes é dita de outro modo mais "moderno", o azeite, como é mais leve que a água, fica sempre por cima, tal como a verdade, pois é mais leve que a mentira.

 E é de facto assim.

 Embora, por vezes, se sinta que ela demora a chegar - muito mais quando é entravada por sistemas lentos ou capturados em parte por sectores pervertidos, estimulados por mídias corrompidos eticamente ou decididamente canalhas.

 Refiro-me ao embuste que durante anos rodeou os portugueses, muitos dos quais ingenuamente e de boa-fé, quero crer, atacavam e caluniavam e difamavam quais autómatos (mas a pressão infame era muita...!) Fátima Felgueiras - anteontem como decerto terá visto nos órgãos de informação TOTALMENTE ABSOLVIDA em sentença confirmada pela Relação e vinda na sequência da absolvição em primeira instancia.



Salvador Dali, La main monstrueuse


 Como decerto saberá, por razões familiares eu tive conhecimento directo deste caso: assisti às calúnias que eram lançadas sistematicamente, vi tudo dum ponto privilegiado, por diversas vezes tomei posição contra os que - ora ingenuamente ora nefandamente - lançavam lama tentando aniquilar um ser humano, assassinar-lhe o carácter por razões pérfidas. E a maior parte nem sequer o conhecia, apenas "emprenhava pelos ouvidos" como sói dizer-se, manipulados por periódicos que tentavam o sensacionalismo e a "verdade de pacotilha".

 Também a mim me coube ser caluniado, enxovalhado e difamado nomeadamente, em acção, por um blogue e, por omissão, por um indivíduo que deu, nessa medida, certa "credibilidade" ao acto.

 Não pode estranhar-se que em breve o meu advogado avance com processos-crime, pois como diz o povo "quem não se sente não é filho de boa gente". E certas coisas não podem passar-se por alto! Para onde tentaram que fosse a verdade honrada nesta Nação à beira da desgraça económica?

 E passando a outro assunto: hoje em dia, em certos meios, a impostura pedante está a tentar aproveitar-se da inocência dos cidadãos. É isso que se releva, com frontalidade e ironia, no bloco que junto vos deixo (também em linha no Ablogando), com o velho abraqs de estima.