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domingo, 3 de março de 2013

Que se lixe a lucidez




Uma vez mais Alberto Gonçalves, no DN:


Questionada por um canal televisivo, uma das organizadoras do movimento "Que se Lixe a Troika" explicou que um Governo que não cumpre o programa eleitoral deve ser demitido, pressuposto que tornaria inúteis quaisquer governos e, consequentemente, quaisquer eleições. Aliás, suspeito que o objectivo não anda longe disso: quando a seguir lhe perguntaram se defendia a marcação de "legislativas" antecipadas, a senhora hesitou e, um bocadinho contrariada, lá acabou por responder que "essa é uma das formas", ainda que o importante seja atender à "vontade do povo". A senhora esqueceu-se de descrever como é que a "vontade do povo" se expressa na ausência de sufrágio universal, embora não custe imaginar que a coisa passaria por um sumário processo "directo" que depositasse a senhora e os heróis/amigos/primos da senhora no poder e merecidamente desprezasse os escassos milhões de reaccionários que teimam em votar no PSD e no PS.

Não pretendo insinuar que os milhares de participantes nas manifestações de ontem partilham esta curiosa interpretação da democracia. Sucede que, ao participarem na folia, acabam por legitimar as alucinações dos respectivos mentores. E as alucinações são diversas.

Uma das mais bizarras está explícita na designação daquilo. Mandar lixar a troika é um gesto nobre. Infelizmente, é também um gesto estúpido, sobretudo quando não se parece estar preparado para suportar as consequências da exclusão dos famosos mercados, talvez do euro e, um épico dia, da União Europeia. Para já, enxotar a troika equivale a abdicar dos empréstimos que mantêm isto a funcionar e, apesar dos apertos, conferem ao País um simulacro de normalidade. Os manifestantes do "2 de Março" (a profusão de datas "históricas" tende a preencher o calendário inteiro) não pensam assim.

Na verdade, dificilmente se pode dizer que pensem de todo. O "raciocínio", desculpem o exagero, é o seguinte: na ausência da troika, a austeridade termina e Portugal, na prática sem dinheiro para mandar cantar Stevie Wonder, fica teoricamente abonado e, enquanto diminui os impostos, volta a apostar no "investimento público", na "modernidade" e no "progresso social". Dito de outra maneira, recuse-se o crédito, diminua-se a receita e aumente-se a despesa, tese que para um leigo faz tanto sentido quanto doar uma prótese dentária a um cadáver decapitado, mas que para os especialistas em economia que desfilam pela ruas constitui a solução evidente. Meus caros, contas assim são compreensíveis no cerebelo do sr. Arménio da CGTP, nos peculiares empresários da CIP e nas medidas regeneradoras do dr. Seguro, não em cidadãos que se querem responsáveis.

Ou se calhar não querem. Se quisessem, antes da troika teriam mandado lixar os sujeitos que tornaram a troika inevitável. Se quisessem, antes da austeridade marchariam contra o Estado cuja preservação obriga à austeridade. Se quisessem, antes de berrar lugares--comuns, reflectiriam no absurdo dos mesmos. O Governo é péssimo? Com certeza, porque assalta os cidadãos a fim de garantir o statu quo de que os cidadãos, pelo menos os que desfilam em protesto, não abdicam. Que, com os seus defeitos, interesses e ilusões, a troika insista em patrocinar semelhante manicómio não é um cataclismo: é um milagre. E, a prazo, provavelmente uma inutilidade.

quarta-feira, 27 de fevereiro de 2013

Quatro apontamentos de Alberto Gonçalves...



(imagem obtida aqui)


... aqui, no DN:



Os fascistas espontâneos

O adjectivo mais divertido para qualificar o movimento de pândegos que calam e insultam governantes ao som de Grândola, Vila Morena é "espontâneo". Aparentemente, os pândegos não se conhecem de lado nenhum, por sorte encontram-se em eventos que contam com a presença de ministros e, num fenómeno que desafia a lei das probabilidades, desatam a entoar a referida cantilena e a gritar "Fascistas!" em uníssono.

Notável, não é? Os pândegos podiam não se ter cruzado, podiam ter ido à bola ou ao circo, podiam ter cantarolado um sucesso de Shakira e gritado "Olha o robalo fresquinho!". Mas não. Uma e outra e outra e outra vez acertaram na hora, no local, na cantilena e na palavra de ordem. Tudo, claro, de forma espontânea. Desde que um gémeo comeu ostras e o irmão apanhou uma intoxicação alimentar que não havia notícia de coincidência assim. Nem de patranha assado.

A tentativa de sublinhar a "espontaneidade" destes episódios não é inocente. O facto de os incidentes serem encomendados (e convocados via Facebook) pelos grupinhos do costume, especialistas em recorrer à tolerância do regime para treinarem os sonhos do derrube do regime, não cai tão bem. Tratar a Grândola e os insultos como obra do acaso confere à coisa uma aura inevitável e genérica. No fundo, sugere-se que o povo em peso ciranda por aí a silenciar "fascistas" com a sua indignação.

E há quem não se fique pela sugestão. Numa coluna lindamente intitulada "Keynesiano, graças a Deus", Nicolau Santos, director-adjunto do Expresso, jura que "as pessoas" estão "fartas, fartissimas [sic], de políticos que não respeitam e a quem não reconhecem um pingo de credibilidade." Logo, prossegue o dr. Nicolau, "o facto de não o deixarem falar em público só mostra que o ministro Relvas não percebe isso mesmo: que foi julgado e condenado."

Naturalmente, o dr. Nicolau confunde, ou finge confundir, os inúmeros cidadãos que desconfiam dos méritos académicos do dr. Relvas com as dúzias de intérpretes ambulantes da Grândola. O dr. Nicolau não percebe, ou finge não perceber, que o bizarro exercício de censura a membros de um Governo eleito é uma afronta aos que o elegeram. Por fim, o dr. Nicolau esquece-se, ou finge esquecer-se, de que a falta de credibilidade do político que aldraba o currículo é idêntica à do jornalista que promove um currículo aldrabado - e ao que se vê nenhuma implica necessariamente a demissão.

Em matéria de "keynesianos", prefiro, Deus me perdoe, Augusto Santos Silva. Embora movido pela (defensável) vontade de reprovar a apatia de Cavaco Silva, o ex-ministro socialista afirmou, sem nenhum dos habituais "mas" pelo meio, que a praga de "Grândolas" é um comportamento, cito, "anti-democrático": "O que esteve em causa foi uma limitação ilegítima à liberdade de expressão de uma pessoa."

Nunca fui admirador do dr. Santos Silva e nunca deixarei de achar que a permanência de Miguel Relvas consome escusadamente um Governo com consumições de sobra. Porém, nunca, quer no apogeu da tragédia "socrática" quer na demência fiscal dos seus sucessores, me passou pela cabeça que não podia haver pior. Pode, sim senhor, e os bandos de cançonetistas "espontâneos" dissipam todas as dúvidas a propósito. Perante tais emanações totalitárias, na boca das quais a palavra "fascistas" é uma afirmação identitária e não um ataque, uma pessoa quase se sente inclinada a gostar do "dr." Relvas e a pedir-lhe que se demore no ministério um bocadinho. Só um bocadinho.


A procuradora Cândida

Para que serviu a excelentíssima senhora procuradora Cândida Almeida, agora enxotada das funções no DCIAP? Para, entre outras coisas bonitas, chefiar a investigação a uma série de casos duvidosos ligados à política e à finança, do Freeport aos submarinos, do Monte Branco às Parcerias Público-Privadas, e, no fim, concluir jovialmente que "os nossos políticos não são políticos corruptos, os nossos dirigentes não são dirigentes corruptos, Portugal não é um país corrupto".

Cândida, de facto. O Índice de Percepção da Corrupção, elaborado pela Transparência Internacional (TI), coloca-nos em 33.º lugar na matéria em 2012, três degraus acima do lugar de 2011 mas, ainda assim, nos fundilhos do Ocidente. Salvo pelo último ano, Portugal mostra uma tendência longa e inabalável para se afundar na tabela, onde por exemplo em 2006 ocupava o 26.º posto. De resto, mesmo sem a ajuda de instituições externas, o cidadão médio é capaz de concluir sem dificuldades que os negócios caseiros assentam mais na impunidade do que na honestidade. Ou o cidadão médio é idiota e a TI trapaceira ou a excelentíssima senhora procuradora não procurou bem.


Assédio ideológico

Não me compete julgar o caso de D. Carlos Azevedo, suspeito de assédio sexual a pelo menos um sacerdote católico. Em primeiro lugar, não sou juiz. Em segundo lugar, não sou crente. Em terceiro lugar, consta que as eventuais indiscrições do bispo envolvem cidadãos adultos. Em quarto e espero que último lugar, todos recordamos histórias nas quais suspeitos similares, inclusive de pedofilia, acabaram celebrados pelos representantes do povo no edifício da Assembleia da República. No que respeita a sexo, nosso e dos outros, é preciso cautela.

De resto, o julgamento que tinha a fazer de D. Carlos Azevedo já o fiz há muito, sempre que essa prestigiada figura da Igreja irrompia a proclamar a "indecência" do sistema económico ocidental, o fim do capitalismo "mercantilista" e a "selvajaria" da "gestão neoliberal". Pior do que um devasso, o homem parece-me um dos muitos especialistas instantâneos que disparam frases sem sentido de modo a caçar a simpatia dos pasmados. Não é crime, mas aborrece.


Os trabalhadores querem ganhar mais ou ganhar menos?

Não é novidade a exibição da figura do saudoso "Che" Guevara em manifestações a favor de melhores salários. Novo, pelo menos para mim, é o recurso a bandeiras da Venezuela em eventos similares. Trata-se de um inequívoco progresso nos objectivos. O salário mínimo cubano ronda os 3 (três) euros sob uma inflacção de 4%. O salário mínimo venezuelano subiu recentemente para cerca de 300 euros, mesmo que fundamentado numa conversão fictícia para o dólar e sob uma inflacção de 8%. É, sem dúvida, muito melhor, embora ainda bastante abaixo dos indicadores portugueses, os quais constituem o alvo do protesto dos trabalhadores embalados pela CGTP.

Corrijam-me se estiver enganado, mas não seria preferível ostentar iconografia de países onde, com ou sem salário mínimo definido, se ganha muito mais do que aqui, género Holanda e Alemanha? Porque é que os desfiles da CGTP não incluem crachás em forma de moinho e t-shirts com o rosto de Angela Merkel? Idolatrar economias arruinadas é como marchar contra a pedofilia empunhando cartazes de crianças despidas: uma confissão de estupidez e um argumento de peso em prol dos ordenados baixos ou de ordenado nenhum.

sexta-feira, 22 de fevereiro de 2013

Do fascismo anti-fachista...


(imagem obtida aqui)

... escreve Henrique Raposo aqui:


O fascismo do "Grândola Vila Morena"

Sophia de Mello Breyner cunhou uma expressão engraçada para classificar as tácticas inquisitoriais dos companheiros de estrada do PCPo "fascismo do anti-fascismo" .

Esta intolerância de esquerda foi criada antes do 25 de Abril e, como é óbvio, agressividade dos virtuosos reemerge. Nos últimos dias, por exemplo, têm caído alguns pinguinhos: meninos e meninas têm usado "Grândola Vila Morena" como forma de calar outras pessoas. Uma música criada para promover a liberdade de expressão foi assim transformada numa arma contra a liberdade de expressão.

Os novos cantadeiros do "Grândola Vila Morena" dizem que sãoanti-fascistas. Bom, sobre isso nada sei, mas sei que são bons aprendizes de fascistas. Têm todas as sementes do bicho. Em primeiro lugar, revelam uma total intolerância em relação ao outro lado; há que malhar na "direita" (assim mesmo: a "direita", um bloco compacto, monolítico, desumanizado, desprezível e espezinhável). Em segundo lugar, respiram e transpiram ódio, um ódio que escorre pelos cartazes, pelos rostos, pelas vozes. E, de forma mui fascista, esta malta tem orgulho nesse ódio. Aquilo que os define é o amor que têm pelo seu ódio, adoram odiar a "direita" ou seja lá o que for. Esta elevação do ódio à categoria de virtude é a marca do fascista, seja ele castanho ou vermelho. Em terceiro lugar, temos a consequência lógica das duas premissas anteriores: o culto da violência. Se a "direita" é espezinhável, se não vale a pena ouvir o outro lado, se o ódio é uma virtude que confere uma legitimidade superior, então a violência é legítima e não faz mal dar uns carolos no Relvas. Aliás, só faz bem dar uns tabefes no Relvas.

Para terminar, só queria dizer que gosto bastante deste PREC cantado. É que assim já não tenho de recorrer à história para explicar a profunda intolerância das extremas-esquerdas portuguesas . Agora basta-me apontar para o presente. Ela, a intolerância progressista e revolucionária, está aí, anda por aí. Até peço uma coisa: aumentem o volume da violência, continuem a mostrar que não sabem viver em democracia, que não sabem aceitar opiniões contrárias, continuem a ameaçar, continuem a ser fascistazinhos de vão de escada.

terça-feira, 19 de fevereiro de 2013

Da indignada solidariedade


(imagem obtida aqui)

Muito mais do que curioso, é significativo até à náusea o facto de toda esta gente se "manifestar" contra o videirinho ministro Relvas, mas NINGUÉM se haver manifestado contra a imoralidade de "estudantes" terem entrado, desde há uns cinco anos, nas universidades públicas com médias propulsionadas ao escalão dos 18 e 19 pelas "oportunidades" socráticas. Médias que constituíram verdadeiras burlas legalizadas e que permitiram a quem não tinha nem saber real superior (frequentemente, nem sequer igual) ao nível do 9º Ano nem qualquer currículo ou experiência justificativa, usurpar o lugar que seria, de direito, de verdadeiros estudantes, cujas médias ficaram, por isso, a uma e mesmo a meia décima de lhes permitir o ingresso na faculdade ou no curso que pretendiam.

(imagem obtida aqui)

Repito: não me lembro de NINGUÉM se manifestar contra a burla ou sequer fazer ouvir por todo o lado a sua solidariedade com aqueles que ficaram com as suas vidas adiadas por, pelo menos, um ano  - porque, no ano seguinte, voltariam a ter a concorrência deste surto inédito de genialidade. Ou que foram obrigados a frequentar estabelecimentos de ensino, públicos ou privados, a distâncias muito superiores, arcando por isso com despesas enormemente acrescidas. Ou que, por esse motivo, desistiram.

(imagem obtida aqui)

Pois é. À solidariedade académica com o copianço, à incompetência generalizada, ao estatuto dado pela ignorância vestida de canudo para subir na vida, pisca-se-lhes o olho, cúmplice. Desde que se seja "da cor" e "da corda", é claro. A "rapaziada" e o "bom povo" que a esquerda defende e pelos quais é constituída, gente "felizmente ainda viva", é mesmo assim: hipócrita até à medula e burra como o Big-Bang os fez.

domingo, 20 de janeiro de 2013

Social-comunicação escondida com carteira de fora

Em adenda ao artigo de Alberto Gonçalves, "A carteira e a vida", transcrito no post anterior do Manuel Graça, aqui deixo os vídeos nele referidos. Para que fique bem patente o grau de estupidez e violência de que, com o maior descanso d'alma, é capaz a gentinha que nos "informa" e nos quer "iluminadamente" e "democraticamente" formatar e dirigir.

domingo, 13 de janeiro de 2013

"A realidade não passará?" e "Os denunciantes"




(imagem obtida aqui)


São os títulos de duas crónicas de Alberto Gonçalves no DN, respectivamente aqui e aqui, que transcrevo de seguida.




A realidade não passará?

Agora é oficial: as exactas forças políticas que criticam os aumentos de impostos também não aceitam reduções na despesa. Se não tivesse outras virtudes, o relatório do FMI teria o mérito de confirmar que, perante um Governo indeciso, há uma oposição que sabe muito bem o que quer. Por acaso, quer o impossível, conforme já reivindicavam os "realistas" do Maio de 1968. E se as consequências de uns garotos mimados a berrar disparates não são graves, as consequências de partidos apesar de tudo representativos imitarem os garotos arriscam dar para o torto.

Sem surpresas, os "argumentos" contra os cortes no Estado não diferem dos "argumentos" contra a carga fiscal. Os cortes são ideologicamente orientados (como se os seus adversários agissem em nome de uma pureza desprovida de ideologia e de interesses). Os "cortes" não constam do Memorando assinado com a troika (como se se defendessem os "cortes" que constam do Memorando e se achasse este documento, afinal, louvável). Os "cortes" violam a Constituição (como se estraçalhar as finanças públicas à custa de negociatas e em seguida deslizar para Paris não violasse o artigo que prevê a punição política, civil e criminal das "acções e omissões" que os governantes "pratiquem no exercício das suas funções"). Etc.

Sobretudo o zelo constitucional é curioso. Aqui e ali, gente indignada fareja com regularidade incumprimentos da sacrossanta lei fundamental sem perceber, ou fingindo não perceber, que o problema não passa por aí. A situação para que, directa ou indirectamente, tantos entusiastas do legalismo arrastaram o País força o País a esquecer a constitucionalidade e a preocupar-se com a realidade. A primeira, apesar do escândalo, ainda é contornável; a segunda, cujo carácter imperativo não carece de tribunal próprio, não. De que adianta uma Constituição "garantir" a todos os cidadãos o direito ao Maserati na garagem se o stand de automóveis deixou de vender fiado?

Descontado o exagero, a retórica que vinga por aí teima no Maserati (ou no Opel, vá lá) e na isenção de o pagar. Para citar um recente convidado do Expresso da Meia-Noite, "temos de definir o padrão de vida de que não estamos dispostos a abdicar e então pedir solidariedade europeia". E não, o convidado não se chamava Artur Baptista da Silva, mas Nãoseiquê Nazaré, figura que suponho ligada aos futebóis e aos socialismos e que, diga-se, limitou-se a repetir a loucura vigente. Aos portugueses, compete respeitar escrupulosamente a Constituição. Aos europeus do Norte, cabe-lhes desprezar as constituições deles a fim de nos sustentar a folia, perdão, o padrão de vida de que não abdicamos. É a solidariedade unilateral.

De qualquer modo, a histeria geral está mal direccionada: o primeiro-ministro correu a avisar que o relatório do FMI "não é a Bíblia" e Paulo Portas admite que o dito relatório possui "coisas discutíveis" e "coisas inaceitáveis". Mesmo sendo verdade, o importante é o frenesim do Governo em abraçar a luta que o une aos que o desejam enxotar. No que depender de nós, nada muda. Feliz ou infelizmente, hoje pouco depende de nós. E, por este andar, amanhã ainda menos.




Os denunciantes

Ao arrepio da timidez típica na classe política, o Bloco de Esquerda não teme erguer a voz contra as injustiças. Há dias, o seu líder parlamentar denunciou um caso de negligência no Hospital de São Sebastião, em Santa Maria da Feira, onde um homem de 25 anos foi mandado para casa sem realizar qualquer exame e acabou por morrer devido a um aneurisma.

O único problema desta história, além de uma morte prematura, é a circunstância de ser tudo mentira - excepto, infelizmente, a morte. Afirmando-se triste com o uso da dor alheia para fins políticos, a própria mãe do falecido esclareceu que no estabelecimento hospitalar em causa "tiveram todos os cuidados, acompanharam-no sempre, realizaram todos os exames com diagnóstico imediato". Quanto ao BE, voltou-se contra as "incongruências" da fonte que lhe cedeu a informação e nem por instante admitiu que o pormenor de o Hospital de São Sebastião ser um exemplo pioneiro de gestão empresarial no Serviço Nacional de Saúde espevitou os apetites da rapaziada por expor as "falhas" do recurso aos métodos do sector privado (o sector público, escusado recordar, é imaculado).

Quem aqui falhou foi, como sempre, o BE. Desta vez fê-lo com espalhafato. Na maioria das vezes fá-lo à revelia do escrutínio público. Mas a repugnante natureza da coisa não muda: os senhores do BE sentem-se tocados pela graça, ungidos cuja missão na Terra é a de acusar, com o dedinho a tremer, as respectivas iniquidades, ainda que as iniquidades nem sequer existam ou ainda que as acusações escondam a defesa de iniquidades piores. De resto, a pior iniquidade é o BE.

domingo, 11 de novembro de 2012

"A Oeste nada de novo"



(imagem obtida aqui)


É este o título da crónica de Alberto Gonçalves, no DN, que transcrevo de seguida:


O extraordinário não é que António José Seguro se afirme "preparado para governar", nem que o faça sob o divertido argumento de que o "investimento" público garante o crescimento económico.


O extraordinário é que, se as eleições se realizassem hoje, o PS do dr. Seguro e os argumentos do dr. Seguro sairiam muito provavelmente vencedores. Já chega de culpar os políticos pela desgraça do País: o País desceu a isto por culpa do bom povo. Crise de representação? Nem vê-la. Feitas as contas, os nossos representantes representam-nos com esmero.

É preciso notar que o eleitorado, ou pelo menos a parte do eleitorado que pesa, não está descontente com os senhores da coligação do poder por estes terem demorado ano e meio a iniciar, segundo consta, um esboço de reforma estatal. O eleitorado anda irritado porque o Governo vem aumentando os impostos para evitar bulir no Estado. Quando, e se, bulir, o eleitorado andará irritadíssimo. Poucos são os que desejam reformas, "refundações" ou mudanças: milhões de criaturas sonham com a imobilidade absoluta, mesmo após constatarem que essa imobilidade possui um custo que, a pronto ou habitualmente a crédito, não poderemos continuar a pagar.

Paradoxal? Os paradoxos não nos atrapalham. É por isso que enquanto nos queixamos da crise estamos dispostos a legitimar nas urnas o exacto partido que apressou a crise e as exactas alucinações que tornaram a crise obrigatória. Como o maluquinho que volta a enfiar o dedo na tomada depois de cada choque, uma impressionante quantidade de portugueses não aprende. E é duvidoso que venha a aprender.

A verdade, que quase ninguém admite para não ferir susceptibilidades, é que não percebemos a razão de acontecer o que nos acontece. Descontados os casos de má-fé, as reacções à visita da sra. Merkel exibem o desnorte que por aí vai. Não falo dos arruaceiros, nitidamente empenhados em reinar sobre as ruínas. Falo dos bem-intencionados como Marcelo Rebelo de Sousa, que patrocinou um filmezinho destinado a mostrar aos alemães que do Minho ao Algarve há gente boa (parece que as autoridades berlinenses deitaram o filmezinho ao lixo). E falo da empresa de Marco de Canaveses que quer oferecer à chanceler um cabaz com azeite, vinho do Porto, enchidos, queijo e "outras iguarias" (suspeito que o cabaz não chegará ao destino).

Isto seria genial se o drama pátrio fosse a Alemanha supor que somos antipáticos e incapazes de produzir uma morcela decente. Sucede que o problema não é esse: o problema é precisarmos do dinheiro alemão para não nos afundarmos de vez à conta da estroinice indígena. E nada indica que o contribuinte de lá ceda à filantropia após provar um vintage da Ramos Pinto. No meio disto, sobra a sra. Merkel, suficientemente atenta aos perigos da implosão do Sul para nos amparar a austeridade e suficientemente atenta aos votantes dela para impedir que o amparo seja incondicional. E só. Se não respeitamos a realidade, é altamente duvidoso que a realidade venha a respeitar-nos. De qualquer modo, é enternecedor ver Portugal explicado por quem não o compreende.

sábado, 3 de novembro de 2012

"Gente fixe"

(foto obtida aqui)

Ainda Alberto Gonçalves, no DN:

Um daqueles grupinhos que passam a vida a brincar no Facebook e se queixam do desemprego instigou os adeptos da bola a entoarem Grândola, Vila Morena durante o jogo Portugal-Irlanda do Norte. Em prol do efeito cénico, a cantoria deveria acontecer aos 20 minutos e 12 segundos da partida (2012, percebem?) e, segundo os preponentes, visava exibir a "senha que nos uniu em lutas passadas", já que "ombro a ombro sabemos que outro caminho é possível e que iremos percorrê-lo". Bonito. Infelizmente, absurdo e pouco produtivo.

Por um lado, não se percebe porque é que se protestam salários mínimos de 500 euros e em simultâneo se recorre ao reportório do falecido "Zeca" Afonso, intérprete e autor inspirado por modelos de sociedade onde um trabalhador mataria a mãe a troco de um salário assim. Por outro lado, com a desertificação do Interior, a Grândola perdeu pertinência: quantos portugueses se estendem à sombra das azinheiras? Por fim, não se admite confiar tamanha responsabilidade a espectadores de futebol, os quais fatalmente se distraíram a contemplar linhas de passe e, aos 20.12 m, nem um pio se ouviu no estádio do Dragão. Não houve senha. Não houve luta. Não houve união. Não houve caminho alternativo. E, rezam as crónicas, até a selecção se arrastou no relvado.

Em matéria de resistência, nada como deixar o assunto ao cuidado das figuras da cultura. Em Portugal, "figura da cultura" significa algum indivíduo que alguma vez tenha recebido algum subsídio para produzir alguma coisa por que cidadão algum se interessa. São, pois, muitas figuras. Foram, pelo menos, as suficientes para compor as manifestações de sábado passado, ainda que, fora do Porto e de Lisboa, certas manifestações tivessem tanto público quanto os espectáculos regulares de muitas das figuras em causa.

O essencial, porém, é que tudo correu conforme o esperado. Na Praça de Espanha, Maria do Céu Guerra declamou aquilo que no Terceiro Mundo passa por poesia ("O que é preciso é gente/gente com dente/gente que tenha dente/que mostre o dente//Gente que não seja decente/nem docente/ /nem docemente/nem delicodocemente"). Uma menina que não conheço leu uma glosa do Manifesto Anti-Dantas, de Almada Negreiros (se não há um comunista à mão, arranja-se um "fascista": a "cultura" só não venera democratas). O marido de uma apresentadora de variedades que aufere 24 mil euros mensais na RTP desfilou preocupado com a pobreza. Os Deolinda tocaram Parva Que Sou. E principalmente brindou-se a multidão com a nova preciosidade saída da cabeça de Carlos Mendes: A Cultura Não Se Troi-ka, que serviu de hino e cartilha ideológica das festividades.

Por mim, levo sempre a sério um movimento fundamentado no pensamento filosófico do cançonetista que nos legou Siripipi de Benguela. Eis a filosofia: "Disparamos uma bala de ternura defendendo a cultura portuguesa/e outra bala mais acesa e mais dura contra a troika vai dizer não à tristeza." E o refrão acrescenta: "Somos mais gente fixe a dizer esta troika que se lixe." Por azar, nem o sr. Mendes nem a gente fixe em geral explica o que julgam restar do país depois de lixada a troika. Talvez imaginem uma folia permanente, na qual uma minoria convencida do seu esclarecimento usa o dinheiro da ralé para obter os privilégios que a ralé não alcança e não compreende. Ou seja, o costume. Não admira que a "cultura" à portuguesa viva agarrada ao Estado: no fundo, são igualzinhos.

(imagem obtida aqui)

segunda-feira, 9 de julho de 2012

A revolucionária que saiu à Rua Sésamo





Conhecia apenas de vista o Monstro das Bolachas, boneco da Rua Sésamo que doravante e pelo menos em Espanha trocará os biscoitos por uma dieta equilibrada em fruta e vegetais. A ideia visa combater a obesidade infantil, mas é sobretudo uma prova da infantilidade destes ditatoriais tempos.

Pressupor que as crianças imitam as personagens de ficção é acreditar que diversas gerações ficaram milionárias por ler as histórias do Tio Patinhas, que inúmeros petizes se lançaram pela varanda após um desenho animado do Super-Homem ou que uma data de moçoilos passaram a residir em conjunto com um idoso mal-educado em consequência do convívio com as aventuras de Tintim. Ou, para usar outro exemplo em que a opressão vigente fez lei, é acreditar que muitos meninos desataram a fumar por inspiração de Lucky Luke, cujo cigarro foi entretanto substituído por uma palha (e é extraordinária a quantidade de criancinhas com palhas pendentes dos lábios desde então).

Porém, o pequeno fascismo dos nossos dias não espanta. Espantoso é perscrutar as cabeças que apoiam, e prescrevem, semelhantes delírios. O DN ouviu uma: Isabel do Carmo, dita endocrinologista, acha aconselhável que, "no caso das crianças com excesso de peso ou obesas", se lhes retire certos alimentos "da vista, seja em casa, seja na televisão".

Assim de repente, a dra. Isabel assemelha-se imenso àquela ilustre antidemocrata que há meia dúzia de anos foi condecorada pelo então presidente Jorge Sampaio e que, nos idos da década de 1970, chefiava uma organização terrorista intitulada PRP, prestigiado cargo que a envolveu no rebentamento estratégico de explosivos em locais avessos à revolução. Respeita-se a coerência de quem, hoje como ontem, está disposta a tudo de modo a impor a sua vontade. O que custa é respeitar a opinião em matéria de saúde vinda de uma criatura cujo bando recreativo cometeu, entre diversas traquinices, crimes de sangue. No fundo, não seria demasiado diferente se o estripador de Lisboa se aliviasse de uns palpites sobre a importância da matemática no ensino básico.

Além disso, acresce à questão moral a questão técnica. Mesmo sendo credível que a dra. Isabel desempenhou com mestria a antiga profissão, nada indica a sua competência na actual: para uma especialista em nutrição e para sermos educados, a dra. Isabel possui excesso de peso. Ou muito me engano ou a senhora não perde uma emissão da Rua Sésamo, na versão não censurada e repleta de calorias.