Mostrar mensagens com a etiqueta FC. Mostrar todas as mensagens
Mostrar mensagens com a etiqueta FC. Mostrar todas as mensagens

sexta-feira, 28 de junho de 2013

A AURORA BOREAL DAS “DEMOCRACIAS FELIZES” ou DE COMO O ESCRITOR TEM RAZÃO ANTES DO TEMPO





A PROPÓSITO DE “EXTERMÍNIO NO 31º ANDAR”, DE PETER WAHLÖÖ


  Sem comentários – para quê? – aqui fica o texto que dei a lume em páginas culturais do Brasil, de França e de Portugal em 2007/2009.
  O livro, por seu turno, foi escrito em 1964 (‼!) e publicado entre nós em 1990.
 …e é assim que se faz a Estória. E a História também…



                    “Porque vos ensinam eles a amá-los, se é para vos tratar assim? Porque não vos deixam eles em paz?” – William Irish



     Há livros assustadores. Uns pelo espírito, como por exemplo o “Lázaro” de Andreiev, que nos coloca de chofre e sem complacências em frente do facto de que uma vida de ressuscitado seria, afinal, tão angustiante e repugnante como a degustação de uma refeição apodrecida. Outros pela letra, como o Drácula de Bram Stoker sobre o qual já se disse que só um leitor completamente destituído de sensibilidade conseguirá ler numa casa deserta e pelas horas mortas da noite.

   Outros, por seu turno – e é o caso desta “utopia negra” vasada nas luzes boreais que conformam as sociedades escandinavas – porque o que neles se encena está a acontecer paulatinamente. E não só naqueles rincões.

   O caso sucedido tempos atrás na politicamente correcta Noruega, onde os monstros particulares são produto de uma administração cuja tenaz cegueira é a prova do seu cinismo suave e perito em enterrar a cabeça na neve (e já não, como os avestruzes, na areia do deserto) para sagração de um oportunismo que finge supor que os cidadãos são um resíduo angélico para que se não vejam as partes demoníacas do seu poder governativo, mostra-o sem véus e sem disfarces.

Nicolau Saião, O grande guerreiro

    Nesta obra de entrecho quase linear, duma secura de estilo necessária para que a sugestão resulte, Peter Wahlöö (que com sua mulher Maj Sjowal deu na época a lume um belo punhado de polars bem inseridos no género, mas com um timbre de novidade que os distinguiu) segue passo a passo os sete dias duma investigação que um inspector da polícia efectua para que naquela sociedade pacífica e onde o Estado mais ou menos cordial procura que o cidadão viva sem traumas (e onde o único crime significativo e punido aliás sem muita violência expressa é a embriaguez, que entretanto se multiplica) tudo continue a ser sereno.

   Nesta sociedade o controle é exercido pela leitura: leitura de revistas e de jornais com visão positiva, onde o próprio fenómeno desportivo (fautor de paixões e frequentemente de conflitos) não recebe muita atenção a não ser a que possibilita que se possa epigrafar televisivamente o sucesso das vedetas que o integram.

   O consórcio que o domina é constituído por gente esclarecida e de “boa formação” partidária e propugnadora de uma igualdade social estabelecida de maneira amena e que até quando despede dos empregos o faz cordatamente: o indivíduo ou indivídua em causa recebe uma reforma razoável e um diploma por bons serviços, assinado por altas individualidades. E o além está muito longe…mesmo quando ao virar da esquina.

    Mas há sempre alguém que, com impetuosidade maldosa, “sem olhar à felicidade social a que se conseguiu chegar” (sic), resolve meter um pauzinho na engrenagem. Por puro sadismo (como se diz neste ocidente cristão, civilizado e culto) ou por maldoso anarquismo (como há dias disse publicamente um comandante da polícia metropolitana inglesa, que ao mesmo tempo solicitou aos cidadãos britânicos que, e cito, denunciassem os vizinhos que soubessem que perfilhavam ideias anarquistas – o que quer que isto seja…)? Ou, ainda, por impiedade, como se diz naqueles países do oriente que têm a dita de existir em teocracias?

    Alguém, portanto, usando precisamente uma folha anexa não preenchida dum desses diplomas, (uma vez que o papel é pacificamente controlado), endereçou às autoridades uma carta inquietante, sugerindo que inquietantes acontecimentos iriam dar-se. E embora as forças vivas tenham essa carta por eventual simples brincadeira, tal como uma outra insistência significante, nunca fiando – a própria brincadeira indicaria já um escabroso, quiçá injusto, desvio e Jensen - polícia compenetrado e eficiente sofrendo no entanto de um doloroso e crónico desarranjo gástrico que nem a comida cientificamente confeccionada e posta à disposição dos cidadãos pelo ministério da saúde que tem a seu cargo as dietas racionais consegue tranquilizar – mergulha num universo de entrevistas e de encontros que pouco a pouco lhe patenteia os meandros do jornalismo, se jornalismo se lhe pode chamar, e da criação escrita quando a criação escrita é apenas um simulacro que ora leva ao suicídio dissimulado (ou assistido) ora à entrega a um ambiente de mundanidade, de sucesso e de notoriedade bastante semelhantes ao que usa utilizar-se nesta Europa das pátrias e, suspeito-o com alguns tremores relativos, nas sociedades alfabetizadas de outros continentes…

   Homem sério e bom profissional, ético tanto quanto as circunstâncias peculiares o permitem, nesta viagem iniciática de uma semana nem sequer negra em que a desesperança do protagonista é irmã colaça da desesperança sentida pelo leitor enquanto mergulha na naturalidade do relato, a regra da “detective novel” é subvertida, ou melhor: invertida. Os chefes que o comandam preferiam não saber e a demanda de Jensen dirige-se não à descoberta mas à ocultação. Nas sociedades racionalmente policiadas, como por exemplo a sociedade lusa, o polícia, (que funciona como Némesis justiceiro) age preferencialmente como aquele que camufla o enigma ou, dizendo ainda mais esclarecedoramente, faz com que o enigma seja uma camuflagem que garante ou sustenta o “equilíbrio” entre as classes, para que a paz e o progresso coabitem salutar e airosamente…

    No entanto, nem nestas mansões quase celestiais as coisas são como deviam ser (ou se esperava que fossem).

   Dizia António Maria Lisboa, numa frase bem respigada por Cesariny, que “Todo o acto premeditado ou todo o acto leviano tem a sua guilhotina própria”.

    A mim sempre me pareceu que ele tinha razão ao cunhar este conceito. E, se o pudesse ter lido, creio que Jensen – e muito mais os seus chefes – teriam dolorosamente entendido a verdade que assistia ao infausto poeta surrealista lusitano.


    À sua deles própria custa – mas isso seria já uma outra estória…   

quinta-feira, 7 de junho de 2012

Os corpos de Deus e do Homem



(imagem obtida aqui)

Caros confrades e amigos

   Hoje é dia de Corpo de Deus. Data significativa para crentes, dia de feriado para todos. Em suma, geralmente dia de repouso e de alegria. E a alegria, mormente a alegria de viver é algo de fundamental, diria mesmo fundacional.

  Mas há dias em que a alegria se nos gela de repente nos minutos. E ficamos quase inermes. O coração e a vontade param por segundos e quando recomeçam a vibrar é com uma agulha enterrada.

  Depois, como me disse em mail uma querida confrade amiga, quando ontem lhe escrevi a narrar coisas tristes, “E passados dias reentramos na normalidade, que se pode fazer?”. Porque, bem ou mal, a vida continua. Mas desta vez foram duas as agulhas: uma ao princípio do dia, outra quando este findava.

 Para mim e para muitos ontem foi um dia amargo.



(imagem obtida aqui)


 Como o confrade talvez tenha ouvido nos noticiários, morreram no deserto do Sahara, no périplo de Marrocos, dois moços irmãos. Andavam, desde pequenitos, sempre juntos, andavam juntos sempre que podiam agora que já eram homens. E juntos morreram, quando numa prova automobilística atravessavam as imensidões daquele norte de África.

 De pequenos os conheci, em grandes os via frequentemente: eram os filhos do meu querido amigo e mecânico António Ramos, a quem devo tantas amabilidades e desvelos de pessoa honrada e profissional sem jaça.

  O mais velho deixa um casalinho. Filhos que irão crescer sem pai. Às vezes a vida é bem dura – e creio que não é preciso dizer mais nada.

  Quase ao findar a jornada, outra notícia amarga me atingiu. Chegara ao fim dos seus dias o grande Ray Bradbury. E nem o/a confrade imagina o que este homem, este escritor que modificou totalmente o panorama imaginativo da literatura americana, tendo também um enorme relevo na mundial, representou para mim.



(imagem obtida aqui)


  Li-o pela primeira vez há mais de meio século. E desde o primeiro momento ele foi para mim um símbolo, entre alguns mais (Lovecraft, Régio, Camus, J.Dikckson Carr), um daqueles cuja arte nos garantia que, como dizia António Maria Lisboa, mesmo em tempos funestos “Não há razão/para queimar a esperança”. Mestre do conto e grande poeta da science-fiction, a sua influência no sentir literário e no pensar a existência sem fronteiras foi enorme e, felizmente, reconhecida tanto pelos leitores devotados como pelos especialistas e a própria aparelhagem crítica, que a breve trecho teve, ora com gosto da parte de uns, ora com inevitabilidade da parte de outros, de o cifrar como um dos grandes escritores do nosso tempo vivo.

  Em anexo vos ofereço duas obrinhas pictóricas e um texto que em tempos lhe dediquei.

  E que, se me permitem, ponho sob a égide da partilha: tanto do artista justamente glorificado, rodeado da sua amada família no momento da morte, como dos dois moços anónimos, para o vasto mundo, tombados na solidão de um deserto.





(imagem obtida aqui)


O coração do Mundo

                                            a Ray Bradbury, inventor de corações


   Tempos atrás, numa clínica de New Jersey, uma criança recebeu um coração novo.

   O facto não causaria estranheza não fosse dar-se a circunstância de a criança ser um bebé de tenra idade. Agora, com o seu coraçãozinho batendo serenamente, a pequenita - pois trata-se de uma menina - irá pela vida fora.

   Esperemos que vá. De acordo com os médicos que procederam ao transplante a pouca idade da garota favorece o resultado da operação. Com o seu pequenino coração tiquetaqueando, Philipa enfrentará o mundo e as suas tristezas e alegrias. Com esse coraçãozinho de empréstimo – que será todavia muito seu – conhecerá tudo o que uma criança do quotidiano ocidentalizado usa experimentar: o despertar lento para a vida de relação, o progressivo descobrir da existência, a surpresa das brincadeiras e o esforço controlado do trabalho. Conhecerá outras crianças, outras vidas: outros corações. Conhecerá um dia o amor e a amargura – embora, prosaicos que todos somos, bem saibamos que não é no coração que residem os sentimentos. Mas, como referia Richard Lewinson (esse mesmo, o excelente historiador francês que, curiosamente, foi também o criador de uma das figuras mais conhecidas do moderno relato policiário: o Tenente Columbo) “prestemos homenagem à fantasia secular de situar no coração a morada desse mar que sempre agitou a humanidade”.



Nicolau Saião, Viagem a Alderbaran – a Bradbury, (Col. António Garção)


   A possibilidade de receber em termos o coração estranho deveu-se aos melhoramentos introduzidos em certo mecanismo de apoio por um cientista-inventor. Aliás, de acordo com as notícias que diariamente se cruzam sobre os diversos sectores da actividade humana, os inventos estão a conhecer ultimamente como que uma idade de ouro. Os inventores, esses curiosos Ulisses da ciência aplicada, se desde sempre foram apreciados pela lenda e pela literatura de imaginação só nos últimos tempos estão recebendo uma atenção profunda: na Bélgica, em França, nas Américas, em Espanha e até nos actuais países de Leste, a acção desses homens granjeia o apoio e o apreço das entidades científicas e mesmo das empresas com alta capacidade de manejo. No fundo, é delas o benefício; e, finalmente, de todos nós. Porque a existência é uma componente rica e articulada, nos melhores casos, entre o espiritual e o material.

   Jules Verne, que aliás morreu desiludido com o excessivo materialismo do seu tempo e o que este tinha por ciência definitiva, disse-o com propriedade, tal como o têm feito outros autores que equacionaram e debateram nos seus escritos esses temas candentes. A talhe de foice:  Ray Bradbury, Fritz Leiber, Clifford Simak, Isaac Asimov...

   Mas em Portugal (como noutros lugares…) não é, com efeito, assim. Já vai sendo conhecido nos diversos países que um inventor, cá no jardim, passa as passas-do-Algarve para conseguir afirmar-se. Dispondo de um poder de imaginação relativamente limitado, formado frequentemente por homens públicos mazorros ou de espírito bronco e politicão, o Estado português não tem tido pelos inventores portugueses o desvelo que estes merecem. Aqui há dias um destes homens teve ocasião de relatar na televisão a sua odisseia de pessoa criativa num país onde a imaginação é por vezes mais bem vista a inventar aldrabices mediáticas, cenários políticos e outras baldrocas.

     Sabia o leitor que muitos dos inventos mais úteis e comuns que aí andam p’lo mundo  foram congeminados por inventores portugueses?



Nicolau Saião,  Lá fora está-se melhor – a Ray Bradbury, (Col. Maria Estela Guedes)


    Pois é verdade. O que acontece é que tiveram de ir para as franças e araganças dar seguimento prático às suas invenções. Cá no portugalinho tinham de se quedar como se nada tivessem descoberto. Nem facilidades para registarem os seus trabalhos lhes eram dadas!

  Pelo que, fique então sabendo: se acaso inventar algo e for lusitano, perca um bocado as ilusões. E encha-se de paciência…

 E se quiser ter o quotidiano facilitado, dedique-se antes – será muito apreciado pela doce gente politiqueira que vive um pouco em todo o lado – a artilhar uma nova maneira de fazer o Zé Povinho esportular as lecas.

   É o espírito inventivo que muitos deles apreciam. Até lhes faz bater o coração!