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terça-feira, 2 de dezembro de 2014

"Devias ter feito uma fundação, pá..." ou De convicções está o inferno cheio


(imagem obtida aqui)


Dias atrás, nos telejornais da hora do almoço, pudemos ver um Mário Soares envelhecido, de saúde claramente debilitada, alterado, destrambelhado tanto nos modos como no discurso, à saída do Estabelecimento Prisional de Évora, afirmar fora de qualquer dúvida a inocência de José Sócrates bem como a existência de uma conspiração, apoiada no aparelho de Justiça e na Comunicação Social, que visa destruir a reputação desse ex-“primeiro-ministro exemplar”, de cuja seriedade ninguém duvidará. Hoje, um familiar meu mostrou-me a frase que dá título a este post, posta na boca de Soares dirigindo-se a Sócrates na foto acima, a circular na internet.

A frase insinua e a insinuação é algo que me repugna, a não ser quando visa o óbvio, assim se mudando em subtileza do humor. Aproveitei-a, porém, porque, se relacionada com o que se seguirá, reforça a compreensão do que, quanto a mim, a detenção e prisão preventiva de José Sócrates trouxeram à superfície do Portugal profundo, de um Portugal mais esquecido do que a mais recôndita das suas aldeias.

Alguns amigos, militantes do PS, perguntaram-me o que achava eu do ex-ministro do Ambiente de António Guterres, à época em que ele se candidatou pela primeira vez a secretário-geral do partido. Respondi-lhes – e, desde então, tenho-os lembrado disso várias vezes – que seria uma péssima escolha não só para os socialistas como para o país, uma vez que não encontrava nele nem perfil nem capacidade quer para desempenhar as funções a que se propunha quer, muito menos, para o cargo de primeiro-ministro que, em breve, com certeza viria a ocupar. Agressivo, prepotente e, o que é pior, o paradigma, no plano político, de um mestre d’obras com a correspondente visão sobre o desenvolvimento de Portugal e os meios para o concretizar. Um “caudillo” maquilhado de europeu que nada traria de bom, era o que me davam a entender as suas tiradas e acções governativas e públicas. Riram-se.

Foi, afinal, muito mas mesmo muito pior do que eu poderia esperar. José Sócrates governou Portugal como um velho regedor de aldeia: berrando do alto do varapau da maioria; fazendo descer o debate de ideias (desde sempre escasso) ao nível da ausência; reinando, vingativo, pela divisão de todos e deste modo inibindo em todos, por ressentimento ou medo, a livre expressão; impondo, com meios à toa, medidas avulsas a que pomposamente chamou reformas, com elas esfrangalhando a eito a estrutura do Estado sem critério nem dó. A meu ver, foi, depois de Salazar, a catástrofe que o país mais poderia ter temido.

Durante o período em que mandou no país, tive no blog Portugal e outras touradas, que criei em Maio de 2007 e encerrei, de facto, em Julho de 2011, o meio de aliviar um pouco o sufoco que senti nesse atoleiro quotidiano. Nele fui falando de tudo isto, à medida dos despautérios e desastres consecutivos. Não o apaguei, continua online, e qualquer um pode verificar que foi sempre nos planos político e social que me referi a Sócrates e ao seu governo, tal como a quem o secundou, de perto ou de longe. Mesmo tendo em conta, entre outras coisas, o que aqui diz José Gomes Ferreira, atento, tal como eu e muitos outros, aos sinais equívocos que emergiam sobre o carácter do primeiro-ministro.

A prisão preventiva de José Sócrates continua a não permitir, por agora, desfazer ou confirmar as suspeitas que o levaram ao Estabelecimento Prisional de Évora. Aguarda-se o resultado das investigações e, até lá, ao contrário de muita gente, demasiada gente, pelo respeito devido a qualquer ser humano não me permito o luxo de ter convicções num sentido ou noutro. Mas, por isso mesmo, gostaria de deixar um pouco do que venho a reflectir acerca aqueles que vivem acima das suas possibilidades de crença e certeza, e do nível de ostentação que disso se permitem. Bem como da possível origem desse seu capital lógico e ético.

Em particular, o dos que se revoltaram em público quer com a detenção de José Sócrates quer com o modo como ela ocorreu. Pois confesso que as operações mentais utilizadas nesse seu empreendimento de indignação edificante são para mim um mistério. Parecem-me de todo obscuras e, por isso, carentes de uma investigação impeditiva de que os seus eventuais reflexos causem maiores prejuízos na frágil economia moral da nação.

Com um aviso prévio, porém. Dizia Sartre que se o nosso objectivo for consciencializar uma família burguesa do horror que a sua vida constituiu não bastará simplesmente gravá-la ou filmá-la e mostrar-lhe o resultado, porque, como é natural, continuaria a nada estranhar no que visse e ouvisse. Teremos que ampliar, acentuar os pormenores decisivos que lhe escapam ou que contribuem para o seu torpor, numa palavra: até certo ponto, caricaturar. Não gosto de Sartre por aí além, mas dou-lhe razão quanto a isto. O mesmo farei, portanto, em relação a esses meus compatriotas indignados, e as imagens que utilizar seguidamente assim deverão ser entendidas.

Consideram eles, em primeiro lugar, que nem a detenção nem o modo como foi realizada são compatíveis com o cidadão que a sofreu; que constituiu um procedimento vergonhoso, por humilhante, para quem ocupou o mais alto cargo governativo. Mas imaginemos (e, relembro-o, irei exagerar, caricaturar para melhor me fazer entender) que Al Capone, no intuito de lograr um maior enriquecimento e poder pessoais, ao invés de enveredar pela actividade criminosa explicitamente violenta, mas local, se propusesse alcançar a presidência dos Estados-Unidos, deitando mão de influências. E que, havendo-o conseguido, reforçasse e cimentasse a rede de corrupção, valendo-se de favorecimentos e promoção de obras e políticas públicas, apresentando-as como fazendo parte de um plano desenvolvimento dos USA, mas que, na realidade, visariam apenas concretizar os seus intentos e alargar em definitivo a sua riqueza e esfera de acção pessoais. E que não tivesse pejo nem escrúpulos de, para tal, levar o país à beira da bancarrota. O facto de ter ocupado a mais alta posição do Estado reverteria na dignificação do seu carácter? Ou, antes, isso sim, em perversidade acrescentada, que o próprio Estado, enquanto instrumento do bem-comum, deveria repudiar e banir com maior vigor ainda?

Porque estaríamos num plano onde criminalidade e política não se distinguiriam uma da outra, e a extensão do delito se estenderia não somente a todo o país como também a mais de uma geração – acusação, aliás, infelizmente muito pouco inédita, tantas vezes ouvimos fazê-la a muitos dos chefes de Estado africanos e da América Central e do Sul…

Relembrando-o de novo: ninguém sabe se é este o caso (mitigado) de José Sócrates. Ninguém se pode arrogar a emitir juízos que lhe sejam favoráveis ou acusatórios antes de se apurar a verdade. Mas também ninguém, muito menos os que enaltecem constantemente a igualdade dos cidadãos perante a lei, pode invocar o argumento de que, por o havermos tido como governante, a Justiça e a polícia procederam mal (criminosamente, nas palavras subentendidas de alguns) não lhe atribuindo um tratamento de excepção, ao invés de procederem com ele como o fizeram, isto é, da mesma maneira como procederiam com qualquer outro suspeito de actividades ilícitas.

Admitamos, porém uma segunda hipótese, a de nos encontrarmos perente um caso de distúrbio de personalidade do tipo romanceado por Robert Louis Stevenson em O médico e o monstro. O caso em que teríamos, ao mesmo tempo, um Sócrates “primeiro-ministro exemplar” (para retomar a expressão de Mário Soares) e um outro, meliante mafioso nas horas livres da governação, embora para tal se aproveitando dos conhecimentos e influências que o cargo ocupado lhe facultavam. Quem deveria então a polícia escolher para a detenção: o dr. Jekyll com Mr. Hyde à perna; ou Mr. Hyde trazendo a reboque o dr. Jekyll? Uma escolha impossível julgo eu, já que tal exigiria das autoridades um prévio conhecimento da psique de José Sócrates, produto do exame que, tanto quanto se saiba, nunca foi realizado.

Chamo, a propósito, a atenção para que a argumentação dos responsáveis maiores do PS e de alguns dos defensores de Sócrates segue em paralelo com esta linha de raciocínio, ao afirmarem que não se pode nem deve confundir o Sócrates político com um eventual Sócrates criminoso. De outro modo: que podem existir em sincronia, numa só pessoa, um brilhante e patriótico primeiro-ministro e um escroque de primeira linha, que age em proveito próprio suportado pelas funções que desempenha. A hipótese, como disse anteriormente, não é menosprezável, mas terá que ser provada; e a polícia não é, nem costuma ir, à bruxa. Limitou-se, pois, a proceder segundo as regras do mais elementar bom-senso quando se trata de prender um suspeito de crimes graves.

Donde virá, então, aquilo que me parece ser uma espécie de incoerência toldada pelas emoções (ou por quaisquer outros factores desconhecidos…) por parte de quem se indignou com a prisão de um antigo primeiro-ministro? Esta a pergunta a que, como já disse ao início, me propus responder a mim próprio, mas que achei pertinente o bastante para dever partilhá-la.

É que neste “não se prende nem se trata assim um antigo primeiro-ministro!” há qualquer coisa de “ancien régime” com cheiro a peúga de ex-seminarista, algo entre o bafio e o cheiro a beco escuso e escuro da vontade. Algo que cheira a “argumento de autoridade” e a “você sabe com quem está a falar?” que me assombrou em menino com voz roufenha.

Juro: estremeci de apreensão e um arrepio percorreu-me a espinha quando ouvi, repetido até por quem não esperaria, aquele “não se prende nem se trata assim um antigo primeiro-ministro”! Parecia-me que, como num vulgar filme de terror, um grupo de zombies fazia ecoar, no país, a voz de quem houvesse feito das suas cabeças sepultura, assombrando os vivos com os restos que de si nelas permanecessem, antes de se tornar para sempre em pó.

A simples possibilidade de enunciar tudo isto de forma explícita me constrange e enoja. Respondi, portanto, à pergunta metaforicamente. Mas julgo que fui bastante claro sobre a identidade desse avesso de Lázaro, doentio e violento, que tão fundo cravou as suas garras na mente de Portugal. Mesmo nos que são (ou se dizem) paladinos da democracia.

Voltando ao tom anterior, e antes de terminar quero ainda, contudo, acrescentar algo que julgo oportuno e de certa importância para alguns militantes socialistas.

Começo por recordar os elogios que Miguel Macedo recebeu de toda a oposição quando, há pouco tempo, pediu a demissão das suas funções de ministro da Administração Interna. Fê-lo devido à prisão do responsável máximo do Serviço de Estrangeiros e Fronteiras e de outros funcionários envolvidos em casos de corrupção. Gente, note-se, cuja nomeação para as posições que ocupavam não fora feita por ele, mas por quem o antecedera como responsável do MAI – não me lembro se o director do SEF foi nomeado logo no início do primeiro governo de José Sócrates ou no final do de Durão Barroso. Não teria necessidade de sair, mas demitiu-se em benefício da credibilidade do regime enquanto aguarda pelo apuramento da investigação e pela consequente decisão judicial.

Os ministros são-no por convite do primeiro-ministro indigitado após as eleições. Seriam, assim, da confiança de José Sócrates aqueles que integraram os seus governos e discutiram as diferentes políticas sectoriais e as medidas destinadas a implementá-las. Não ignoravam as motivações e os objectivos apresentados pelo chefe da equipa governamental de que decidiram fazer parte. Não podem, assim, afirmar que desconheciam o alcance e as implicações do plano que ajudaram a estruturar e a fazer cumprir. Se não se aperceberam, serão incapazes para desempenhar devidamente funções a esse nível. Se se aperceberam, das duas uma: ou não se deram conta de eventuais irregularidades; ou, se deram, serão cúmplices passivos ou activos de Sócrates.

Ora alguém duvida de que a incapacidade de detectar crimes de lesa-pátria é incomparavelmente mais grave do que o desconhecimento de um ministro sobre actividades criminosas de um conjunto de funcionários de um dos sectores de um ministério? Sem falar já na possibilidade de se ser suspeito de conivência…

Daí o meu apelo aos antigos militantes do PS que colaboraram com Sócrates, a começar por António Costa: a bem do regime democrático, demitam-se de todas as suas funções políticas partidárias. Sigam o exemplo que – tão justamente e a-propósito – elogiaram de Miguel Macedo e esperem pelo apuramento da verdade para as retomarem, rebrilhando de inocência e verticalidade cívica.

E que não vociferem como o pobre “pai da nossa democracia”, cada vez mais fragilizado, que “aquilo não se faz a um antigo primeiro-ministro!”. Para que os portugueses, eles próprios alheios ao fantasma ainda habita em muitos dos seus maiores, mas tendo em mente o velho provérbio “diz-me com quem andas, dir-te-ei quem és”, não discorram de modo tão distorcido como a frase inscrita na foto deixa transparecer.

quarta-feira, 27 de fevereiro de 2013

Quatro apontamentos de Alberto Gonçalves...



(imagem obtida aqui)


... aqui, no DN:



Os fascistas espontâneos

O adjectivo mais divertido para qualificar o movimento de pândegos que calam e insultam governantes ao som de Grândola, Vila Morena é "espontâneo". Aparentemente, os pândegos não se conhecem de lado nenhum, por sorte encontram-se em eventos que contam com a presença de ministros e, num fenómeno que desafia a lei das probabilidades, desatam a entoar a referida cantilena e a gritar "Fascistas!" em uníssono.

Notável, não é? Os pândegos podiam não se ter cruzado, podiam ter ido à bola ou ao circo, podiam ter cantarolado um sucesso de Shakira e gritado "Olha o robalo fresquinho!". Mas não. Uma e outra e outra e outra vez acertaram na hora, no local, na cantilena e na palavra de ordem. Tudo, claro, de forma espontânea. Desde que um gémeo comeu ostras e o irmão apanhou uma intoxicação alimentar que não havia notícia de coincidência assim. Nem de patranha assado.

A tentativa de sublinhar a "espontaneidade" destes episódios não é inocente. O facto de os incidentes serem encomendados (e convocados via Facebook) pelos grupinhos do costume, especialistas em recorrer à tolerância do regime para treinarem os sonhos do derrube do regime, não cai tão bem. Tratar a Grândola e os insultos como obra do acaso confere à coisa uma aura inevitável e genérica. No fundo, sugere-se que o povo em peso ciranda por aí a silenciar "fascistas" com a sua indignação.

E há quem não se fique pela sugestão. Numa coluna lindamente intitulada "Keynesiano, graças a Deus", Nicolau Santos, director-adjunto do Expresso, jura que "as pessoas" estão "fartas, fartissimas [sic], de políticos que não respeitam e a quem não reconhecem um pingo de credibilidade." Logo, prossegue o dr. Nicolau, "o facto de não o deixarem falar em público só mostra que o ministro Relvas não percebe isso mesmo: que foi julgado e condenado."

Naturalmente, o dr. Nicolau confunde, ou finge confundir, os inúmeros cidadãos que desconfiam dos méritos académicos do dr. Relvas com as dúzias de intérpretes ambulantes da Grândola. O dr. Nicolau não percebe, ou finge não perceber, que o bizarro exercício de censura a membros de um Governo eleito é uma afronta aos que o elegeram. Por fim, o dr. Nicolau esquece-se, ou finge esquecer-se, de que a falta de credibilidade do político que aldraba o currículo é idêntica à do jornalista que promove um currículo aldrabado - e ao que se vê nenhuma implica necessariamente a demissão.

Em matéria de "keynesianos", prefiro, Deus me perdoe, Augusto Santos Silva. Embora movido pela (defensável) vontade de reprovar a apatia de Cavaco Silva, o ex-ministro socialista afirmou, sem nenhum dos habituais "mas" pelo meio, que a praga de "Grândolas" é um comportamento, cito, "anti-democrático": "O que esteve em causa foi uma limitação ilegítima à liberdade de expressão de uma pessoa."

Nunca fui admirador do dr. Santos Silva e nunca deixarei de achar que a permanência de Miguel Relvas consome escusadamente um Governo com consumições de sobra. Porém, nunca, quer no apogeu da tragédia "socrática" quer na demência fiscal dos seus sucessores, me passou pela cabeça que não podia haver pior. Pode, sim senhor, e os bandos de cançonetistas "espontâneos" dissipam todas as dúvidas a propósito. Perante tais emanações totalitárias, na boca das quais a palavra "fascistas" é uma afirmação identitária e não um ataque, uma pessoa quase se sente inclinada a gostar do "dr." Relvas e a pedir-lhe que se demore no ministério um bocadinho. Só um bocadinho.


A procuradora Cândida

Para que serviu a excelentíssima senhora procuradora Cândida Almeida, agora enxotada das funções no DCIAP? Para, entre outras coisas bonitas, chefiar a investigação a uma série de casos duvidosos ligados à política e à finança, do Freeport aos submarinos, do Monte Branco às Parcerias Público-Privadas, e, no fim, concluir jovialmente que "os nossos políticos não são políticos corruptos, os nossos dirigentes não são dirigentes corruptos, Portugal não é um país corrupto".

Cândida, de facto. O Índice de Percepção da Corrupção, elaborado pela Transparência Internacional (TI), coloca-nos em 33.º lugar na matéria em 2012, três degraus acima do lugar de 2011 mas, ainda assim, nos fundilhos do Ocidente. Salvo pelo último ano, Portugal mostra uma tendência longa e inabalável para se afundar na tabela, onde por exemplo em 2006 ocupava o 26.º posto. De resto, mesmo sem a ajuda de instituições externas, o cidadão médio é capaz de concluir sem dificuldades que os negócios caseiros assentam mais na impunidade do que na honestidade. Ou o cidadão médio é idiota e a TI trapaceira ou a excelentíssima senhora procuradora não procurou bem.


Assédio ideológico

Não me compete julgar o caso de D. Carlos Azevedo, suspeito de assédio sexual a pelo menos um sacerdote católico. Em primeiro lugar, não sou juiz. Em segundo lugar, não sou crente. Em terceiro lugar, consta que as eventuais indiscrições do bispo envolvem cidadãos adultos. Em quarto e espero que último lugar, todos recordamos histórias nas quais suspeitos similares, inclusive de pedofilia, acabaram celebrados pelos representantes do povo no edifício da Assembleia da República. No que respeita a sexo, nosso e dos outros, é preciso cautela.

De resto, o julgamento que tinha a fazer de D. Carlos Azevedo já o fiz há muito, sempre que essa prestigiada figura da Igreja irrompia a proclamar a "indecência" do sistema económico ocidental, o fim do capitalismo "mercantilista" e a "selvajaria" da "gestão neoliberal". Pior do que um devasso, o homem parece-me um dos muitos especialistas instantâneos que disparam frases sem sentido de modo a caçar a simpatia dos pasmados. Não é crime, mas aborrece.


Os trabalhadores querem ganhar mais ou ganhar menos?

Não é novidade a exibição da figura do saudoso "Che" Guevara em manifestações a favor de melhores salários. Novo, pelo menos para mim, é o recurso a bandeiras da Venezuela em eventos similares. Trata-se de um inequívoco progresso nos objectivos. O salário mínimo cubano ronda os 3 (três) euros sob uma inflacção de 4%. O salário mínimo venezuelano subiu recentemente para cerca de 300 euros, mesmo que fundamentado numa conversão fictícia para o dólar e sob uma inflacção de 8%. É, sem dúvida, muito melhor, embora ainda bastante abaixo dos indicadores portugueses, os quais constituem o alvo do protesto dos trabalhadores embalados pela CGTP.

Corrijam-me se estiver enganado, mas não seria preferível ostentar iconografia de países onde, com ou sem salário mínimo definido, se ganha muito mais do que aqui, género Holanda e Alemanha? Porque é que os desfiles da CGTP não incluem crachás em forma de moinho e t-shirts com o rosto de Angela Merkel? Idolatrar economias arruinadas é como marchar contra a pedofilia empunhando cartazes de crianças despidas: uma confissão de estupidez e um argumento de peso em prol dos ordenados baixos ou de ordenado nenhum.

sábado, 27 de outubro de 2012

"O casal gay, a criança e o juiz"




(imagem obtida aqui)


A propósito desta notícia, escreve Henrique Monteiro, no Expresso:


Não vou discutir, nem tenho elementos, se a decisão de entregar uma criança deficiente à guarda de um casal gay foi justa ou não. Quero, apenas, colocar uma questão que reputo importante para a vida de todos, independentemente da orientação sexual: um juiz pode escolher o melhor projeto de vida para uma criança? É que me parece que essa perspetiva também esteve na origem da decisão.

À primeira vista, se determinada pessoa tem um bom projeto de vida para uma criança, melhor do que outra, parece fazer sentido escolhê-la como tutora. Mas podemos entendermo-nos sobre o que é o bem? Vários filósofos, ao longo da história, acham que não. Que é mais fácil socialmente determinarmos o mal do que o bem. Façam este exercício: perguntem para quem não será um mal a doença, a fome, a miséria, o roubo, o assassínio. E agora tentem fazer o mesmo exercício em relação ao bem. É muito mais difícil.

Por isso, os tribunais apenas deveriam pronunciar-se sobre aspetos concretos. De outro modo, qualquer pessoa rica ou bem na vida tem projetos melhores do que pessoas pobres e com fraca educação e cultura. Aos tribunais cabe dizer: esta determinada criança está a ser maltratada, pelo que deverá ser dada à guarda de outras pessoas (se um casal gay ou não já é outra discussão). E nunca em função de um projeto de vida. Imaginem que os juízes passam a avaliar os projetos de vida que cada um tem para os filhos... O que significa isso? Que os filhos dos ciganos ou de outras minorias não podem viver com os pais? Eu sei que o caso concreto não era esse, peço, uma vez mais, que pensem no geral e não no concreto, como deve fazer a justiça, que nunca é ad hominem.

Uma nota final para dizer uma coisa que nada tem a ver, mas que me parece relevante: um juiz que já tomou posição pública numa polémica deve aceitar julgar um caso que está relacionado com essa polémica. Podemos confiar que o seu juízo prévio (ou preconceito) não prevalece sobre a análise fria e justa dos factos? E aqui já estou a falar deste processo outra vez. 

segunda-feira, 17 de setembro de 2012

Do Estado e do crime




Confrades e amigos/as

  Num "órgão de informação", que por higiene mínima não identificarei, um caramelo sugeriu que eu - ultimamente, que ando e andarei em tratos literários, em Espanha brevemente e, depois, em França - com egoísmo já não me importava com o que se passa no real quotidiano societário. Estaria pois a render-me ao desinteresse pela cidadania.

 Não é verdade.

 O que se passa é que tenho andado ocupado com a feitura de dois discursos e outras "intervenções espontâneas" (risos)para responder a futuras entrevistas e nisso sou muito cuidadoso, pois gosto de dar ao leitor, ao público por extenso, o melhor e mais digno do pouco que sei.

 Mas para acabar definitivamente com algumas ideias relativamente desadequadas, vou tomar posição neste momento em que se iniciou a corrida descendente para a governação social-democrata (e só se podem queixar deles mesmos):


O governo luso actual, que ganhou as eleições opondo-se ao do díscolo parisiense, todavia a seguir mentiu ao povo português e agrediu-o nos seus direitos constitucionais, forçando-o através do arbítrio que protege ricos e fundações e desanca pecuniariamente reformados.

"Todos têm o direito de resistir a qualquer ordem que ofenda os seus direitos, liberdades e garantias e de repelir pela força qualquer agressão, quando não seja possível recorrer à autoridade pública." - Direito de resistência, Art.21 da Constituição da República.

  As declarações, sensatas e claras, dum dos representantes dos polícias, que referiu que o governo tem tentado arteiramente usá-los contra o povo manifestante legal, não deixa margem para dúvidas. 

Assim sendo, o povo tem o direito de insurreição ante esta gerência que se colocou fora da lei. Devemos pois preparar-nos para essa eventualidade, amarga mas legítima!

 Todavia, isso não passa por ataques armados a ministros ou sedes de partidos políticos. Ninguém, que eu saiba, propôs até hoje tal insensatez. Ninguém tanto quanto sei sugeriu, como se está a fazer em Espanha e França, que as moradas de magistrados pervertidos ou colaboracionistas dos turiferátrios oficiais sejam postas em agenda, para na altura própria se lhes "apresentar cumprimentos". Nem ninguém aventou a ideia de se vigiarem atentamente assessores potencialmente abusadores ou corruptos para se lhes "apertar a mão..." quando rebentar a "bernarda". Ou que deputados dos que o dr. Paulo Morais, presidente do Observatório Anti-Corrupção, classificou como "vendilhões relapsos" pois fazem da Assembleia da República verdadeiro coio de ilegalistas, sejam sumariamente pendurados nas árvores da Avenida da Liberdade, a exemplo do que sucedeu a 5 delegados do ministério público italiano, mancomunados com a Mafia, no decorrer da operação Mãos Limpas.



 Insurreição significa algo bem diferente!

 Significa a contestação, através da presença nas ruas e em todo o lado onde isso legitimamente se possa exercer, dos cidadãos usando do seu direito inalienável de ser gente contra os abusos à pala da governação. E que não é passível de negociação, mesmo num País onde vigora uma "sociedade criminal" (ou seja, como eu referi e perdoem-me se me cito, no meu "O crime e a sociedade", aquela onde o crime é consentido pelos esteios do Estado quando não por ele incrementado, como entre nós se verifica).

  Neste momento, o que vem na sequência da governança do denominado popularmente "Pinóquio", a Nação lusa já não é uma Democracia real ou por extenso, mas um Estado cripto-fascista devido aos actos de políticos e seus manteúdos (utilizantes do sistema judicial, que bloqueiam a justiça mediante a colocação, em locais estratégicos, de apaniguados ou áulicos estipendiados moral e materialmente), membros das polícias secretas - que não visam a defesa da Nação mas dos que a usam como uma coutada - e correlegionários partidários, verdadeiros homens-de-mão dos que tripudiam sobre a pátria lusa a seu bel-prazer.

 Estes homens, que agora parece tiraram definitivamente a máscara, não são economicistas ou tecnocratas! São, isso sim, verdadeiros apaniguados que tentam tapar o estado ruinoso a que os seus capangas, quando não eles mesmos em parte, levaram Portugal.

  O estado a que se chegou não é culpa da população, o que eles tentam injectar através de uma insidiosa, mentirosa e cínica propaganda.

  O povo comete erros. É ingénuo, por vezes mesmo desleixado. Mas não é globalmente criminal, tanto mais que numa "democracia aproximativa" não tem tido, geralmente, senão que ratificar eleições ratonas! Manipulado pela incultura induzida, pala futebolite, pelas telenovelices e pela beatice dos "parlapatões tonsurados", como dizia Eça, muito tem ele tolerado.

 Num país menos pacífico já teriam rolado cabeças. E não falo por simbolicamente...!

  Quando um Constâncio, que não conseguiu perceber que nos bancos algo de apodrecido estava a dar-se, vem "dar sentenças" e conselhos de comadrinha; quando um Vítor Gaspar de discurso roboticamente sincopado vem tentar convencer-nos de que o amarelo é azul e o verde castanho às pintinhas; quando outros cavalheiros tentam fazer passar a ideia de que para salvar a nação é necessário ficarmos sem calças, sem camisa e, se calhar, sem cuecas (passe a justa ironia) - é tempo de dizer BASTA, tendes de mudar de rumo!

  Temo-lo sugerido a bem. Seria grave que nos obrigassem a DIZÊ-LO A MAL! Depois não se queixem.

  Viva Portugal!

segunda-feira, 27 de agosto de 2012

TEXTOS DIVERSOS (4)




O macaco e a essência


   Tempos atrás vi na TV uma cena que me esclareceu para sempre sobre as misérias e as grandezas da actividade pública – política, religiosa, militar, desportiva, judicial. Com um famoso condutor de massas, um desses seres excepcionais que movem multidões? 

  Nem por sombras!

  O protagonista que me elucidou foi um humilde vigarista de bairro.

  Melhor dizendo: modesto, insinuante. Com uma forma de estar na vida que depressa conquistou – pois participava num talk show posto a correr por uma esbelta serigaita das nossas noites televisivas – a assistência que o ouvia, quase fascinada.

  O inspector da polícia que em tempos o prendera, também presente no programa, bem se fartou de prevenir os espectadores de que era mesmo aquela a técnica de que o indivíduo se servia para perpetrar os seus golpes. E que propiciava que um simples mortal, depois de o ouvir, lhe entregasse tudo o que ele queria. “Já vos conquistou a todos!” - dizia o pobre chui (polícia) em desespero de causa – “ Digam lá se agora não entravam no negócio que ele vos propusesse…”. E o simpático vigarista, com um sorriso fraternal no rosto aberto e franco, saiu do cenário coroado por uma enorme salva de palmas.



Da série "Monstrinhos lusitanos"


   Eu e milhares como eu, decerto, acolhemos com proveito a inapreciável lição que ali nos fora dada.

  Lembrei-me disto e também de uma notícia referente ao ex-ministro Alain Joupé, que tinha tempos atrás sido condenado a 18 meses de prisão, com pena suspensa (é sempre pena suspensa a que estes ilustres cidadãos apanham), para além de 10 anos de impedimento de se candidatar a qualquer cargo – por ter cavilosamente manipulado uns dinheiritos chegados aos seus bolsos de forma esquisita.

  Ora o Supremo Tribunal, instado a pronunciar-se, reduziu para catorze meses a pena aplicada, além de considerar que lhe bastava um aninho de travessia do deserto. E o nosso homem agora soma e segue…

  Em 1999, num encontro sobre Literatura Policial numa cidade francesa, defendi a tese de que “o sistema judicial é o cancro que está a destruir a Democracia”, a qual foi bem acolhida pela assistência que me quis ouvir. E disse ainda que o sistema judicial politicamente correcto, eticamente corrompido até à medula, não o era devido a magistrados receberem dinheiros desta ou daquela entidade mas sim por no seu coração e no seu cérebro – com as naturais excepções - aceitarem o jogo de que os poderosos são seus irmãos de cena e portanto credores de cuidados especiais, aliás generosamente dispensados.

   Mediante o estatuto granjeado pelas suas qualificações pessoais – companheirismo de formatura, de família (pessoal ou política), lábia poderosa e poderoso desembaraço, preparação e cultura – o homem público cai no goto do vulgus pecus e daí em diante praticamente tudo lhe é consentido. Passou-se com Joupé como se tem passado com outros simpáticos safardanas europeus e mundiais, que quais sempre-em-pés logo se erguem e seguem triunfantes ou pelo menos perdoados mal os atira a terra uma vigarice ou um acto assacanado. Ou o simples desprezo que acalentam pelo povo, sobre o qual tripudiam com o beneplácito dum universo societário podre e complacente para com esses irmãos naturais, que aliás lhe pagam com juros deixando os seus próceres bem ancorados no seu específico conforto corporativo.

   E tudo isto é mais eficaz – e muito mais inquietante - que a simples vigarice dum tratantezito de bairro…

  in As vozes ausentes

domingo, 3 de junho de 2012

PEQUENO MOSTRUÁRIO PARA VAMPIROS (5)




Um email que enviei há dias:


Como disse Leucipo, na frase canónica que muitas vezes é dita de outro modo mais "moderno", o azeite, como é mais leve que a água, fica sempre por cima, tal como a verdade, pois é mais leve que a mentira.

 E é de facto assim.

 Embora, por vezes, se sinta que ela demora a chegar - muito mais quando é entravada por sistemas lentos ou capturados em parte por sectores pervertidos, estimulados por mídias corrompidos eticamente ou decididamente canalhas.

 Refiro-me ao embuste que durante anos rodeou os portugueses, muitos dos quais ingenuamente e de boa-fé, quero crer, atacavam e caluniavam e difamavam quais autómatos (mas a pressão infame era muita...!) Fátima Felgueiras - anteontem como decerto terá visto nos órgãos de informação TOTALMENTE ABSOLVIDA em sentença confirmada pela Relação e vinda na sequência da absolvição em primeira instancia.



Salvador Dali, La main monstrueuse


 Como decerto saberá, por razões familiares eu tive conhecimento directo deste caso: assisti às calúnias que eram lançadas sistematicamente, vi tudo dum ponto privilegiado, por diversas vezes tomei posição contra os que - ora ingenuamente ora nefandamente - lançavam lama tentando aniquilar um ser humano, assassinar-lhe o carácter por razões pérfidas. E a maior parte nem sequer o conhecia, apenas "emprenhava pelos ouvidos" como sói dizer-se, manipulados por periódicos que tentavam o sensacionalismo e a "verdade de pacotilha".

 Também a mim me coube ser caluniado, enxovalhado e difamado nomeadamente, em acção, por um blogue e, por omissão, por um indivíduo que deu, nessa medida, certa "credibilidade" ao acto.

 Não pode estranhar-se que em breve o meu advogado avance com processos-crime, pois como diz o povo "quem não se sente não é filho de boa gente". E certas coisas não podem passar-se por alto! Para onde tentaram que fosse a verdade honrada nesta Nação à beira da desgraça económica?

 E passando a outro assunto: hoje em dia, em certos meios, a impostura pedante está a tentar aproveitar-se da inocência dos cidadãos. É isso que se releva, com frontalidade e ironia, no bloco que junto vos deixo (também em linha no Ablogando), com o velho abraqs de estima.

quarta-feira, 16 de maio de 2012

O Crime e a Sociedade





"Numa ditadura, o arbítrio é garantido pelas polícias e pelas forças armadas.
Numa aparente democracia, esse papel cabe ao Sistema Judicial, através dos seus homens de mão instalados nele.
Os poderosos e os mandantes têm, assim, uma guarda pretoriana tanto para os isentar como para ir controlando ou, ainda e em casos indicados, reprimirem a população se for caso disso." 
   
Jorge Gaillard Nogueira


 Em 2008 escrevi um texto que constituiu a minha participação nos encontros de Tours sobre a literatura policial, Partindo dessa base, tracei um fresco sobre as características do Sistema Judicial e as diferentes sociedades onde ele se insere, analisando a sua estrutura intrínseca, o que tem ligação com a tipologia abordada pelo Alf uns posts atrás.
 Ora leiam no TriploV, aqui