Mostrar mensagens com a etiqueta Literatura Portuguesa. Mostrar todas as mensagens
Mostrar mensagens com a etiqueta Literatura Portuguesa. Mostrar todas as mensagens

sábado, 23 de março de 2013

Morreu Óscar Lopes




Faleceu hoje, no Porto, Óscar Lopes, político, professor e ensaísta.


Inegavelmente talentoso, a sua formação e mentalidade marxista limitou-lhe com certo relevo a qualidade e o discernimento, dado o intrínseco autoritarismo dessa filosofia que o norteava.

Daí que muitas vezes tivesse sido exagerado, falhando o enquadramento do que escrevia e, por outro lado, fosse inadequado nas suas avaliações e análises.

Isso explica que, não vendo nem querendo ver os erros e crimes do comunismo, tenha emprestado o seu nome e a sua presença a uma aberração como era e segue sendo o Comité Central do ainda estalinista e tendencioso PCP, no qual se apoia a Coreia do Norte e se compreende gente como Amadinejhad ou Castro.


As suas melhores páginas, entretanto, talvez estejam no "História da Literatura Portuguesa", escrita em conjunto com António José Saraiva.

Também interessante e significativo o livro que arrola a sua correspondência com este e onde se nota de forma muito clara a diferença existente, significativa, entre dois talentos de igual porte, mas um vindo do livre espírito (Saraiva) e outro (Lopes) do espírito obrigado a mote partidário e ideológico.

Desejamos paz à sua alma, apesar de ele não crer no Além.

segunda-feira, 4 de junho de 2012

É ASSIM QUE SE FAZ A ESTÓRIA (1)



Mário Cesariny, O papá que veio do Leste (Col. João Garção)

E, para começar bem a semana, digo eu:


  DUAS CARTAS MC/ns E UM QUADRO, RECORDANDO  CESARINY


A Francisco da Gália (*) envia Mário Ibericus

Saúde.

A morada da Maria Helena é 34, R. l’Abbé Carton, Paris 14 ème. Deves enviar – istové – o nome que é de pores no sobrescrito, é VIEIRA e SZÈNES. Vale.

Cá veio a tua carta com a tua tradução do Rosemont(1)que é a beleza, nenhum cheiro a tradução, e o teu poema de O Livro das Cidades e respectas duas colagens. Tudo do fino. Segue nesta o que a isso se junta para a Voz Anarquista (2).
De minha parte vão e estão:

o LUNÁRIO DO SURREALISMO PARA 1990. É uma secção a ser continuada e cujas características apanharás à primeira leitura. E é um presente bom que faço aos teus e nossos amigos porque título assim não vem todos os dias e eu tinha-o de lado para a edição de um livro grande gizado nos mesmos moldes. Aliás, não desisto de fazer tal livro (que está quase feito, aliás outra vez).

um NOTÍCIAS DA CULTURA que espero te regozijará bastante e servirá de aviso grave aos e às OKAPIS (3) de Lisboa e Horizontes.

uma  PEQUENA CONTRIBUIÇÃO AO PROGRESSO DO MITO “DEUS-PÁTRIA-FAMÍLIA”, que já conheces de vista.

um ENSAIO DE SIMULAÇÃO DA DISLEXIA PROFUNDA, do Miguel de Castro Henriques.

um FERNANDO PESSOA POETA, que é a minha comunicação para a base naval de Portland. (Congresso sobre pensamento libertário – Universidade de Portland-Oregon)

Penso que este material sublime, junto ao teu do Livro das Cidades e a tradução do Rosemont, dará darão as duas páginas requeridas e mesmo alguns sobres para continuados noutras páginas. E julgo ser importante que saia junto, por ficarem tocados os vários pontos-estrêlas gerais. A menos que ainda possa ser pouco e se lhes possa dar mais. Acrescentarias das tuas lavras. Caso contrário, e sendo absolutamente exigido “diminuir”, proponho que a “vítima” seja o Rosemont e se lhe diminua o texto. (…)
 As comunicações eu Botas (4) parecem-me comprometidas outra vez. Assim que te a ti mando, para que por tua vez sejas tu a mandar, como no princípio. Por fim, achava preferível que a esta página ou páginas se não apuzesse nenhum título especial. Apareceriam no que são como são. “Voz Anarquista” já é mais do que bom. Mas como há textos que não saem assinados (aqui vão três) poder-se-ia pôr, num cantinho, “página” (ou páginas) coordenada(s) por Fulano e Fulano”.

Como vão as tuas endoenças? Eu mantenho algumas. E as bodas do Ceia (5) quando são? Recita-lhe durante a cerimónia “O Casamento do Céu e do Inferno” do William Blake!

  Abraços para ti, para a Flora, e para o nubente

                                                                Mário (manuscrito)

Enfim, diz que recebeste, e o que achas do recebido.

                                                                                Abril 7 (manuscrito)

Magníficos, os “exemplares especiais” que fizeste das nossas comunicações Portland!! (6) (manuscrito)


Notas -   (*) Refere-se a NS, cujo nome civil é Francisco.
  
  1. Refere-se ao ensaísta americano Franklin Rosemont
  2. Jornal que se propusera publicar um suplemento literário orientado por MC e NS. Atarantados com a qualidade das colaborações (que não tinham nada a ver com “militâncias”) abandonaram a ideia, borregando.
  3. Referência irónica à ensaísta sul-americana Maria Lucia Lepecki, que na altura dispunha na praça lusa de bastante notoriedade.
  4. Refere-se ao pintor e poeta Mário Botas, nessa altura bastante doente.
  5. Refere-se ao confrade que escrevia textos sobre música moderna com o pseudónimo de A.J.Silverberg.
  6. Refere-se ao Congresso organizado pela Univ. de Portland (Lewis & Clark College), em que ambos apresentaram comunicações – MC sobre Fernando Pessoa, NS sobre  as Religiões Reveladas

***


26 Set. 84

Mário:

   Apresso-me a escrever-te para te dizer que, com efeito, o papel do Rosemont é de facto de mais. É, pelo menos, um bom serviço prestado aos kgb e companhia, sob a sua capa anarcaqueirante.
   Não alinho nisso; seria bom compreender-se que, também eu, não concordo com a sua inclusão no Catálogo; o fantástico e o maravilhoso, sendo a inteligência e a poesia em funcionamento prático, não se compadecem com a vizinhança de pistolinhas de Chicago. Aquilo não é revolucionarismo, é politiquice às três matracadas.
   Creio que é urgente mandares dizer a Rosemont que a Exposição nada tem a ver com anarquistas federados ou só de chapelinho; para que tudo não se complique e comece a ficar macacal. E dê merda.
   Por outro lado, importa dizer de uma vez por todas: eu não sou anarquista, explicando: sou libertário porque surrealista. A minha estadia junto dos anarquistas ibéricos foi um equívoco provocado pelo facto de eu julgar que as pessoas que se dizem livres têm poesia na cabeça e no corpo, trocando: que são a própria poesia.
 Quem são a própria poesia são os Poetas. (…). Os outros podem sê-lo eventualmente, mas não se tem notado nada. São anarquistas de aviário ou pistoleiros puros e simples. A Anarquia, para mim, teria de ser a poesia em movimento. Mas aqui (ou em todo o lado? Espero que não) é só a politiquice duma dada extrema. Que vão para a pôrra, definitivamente. O único anarquista verdadeiro é o homem criativo, o Poeta, que não se curva a cores e traquitanas. E disse, caraças!
  Concordo pois contigo e Carlos que importa levar a Rosemont as “actas de Niceia” (passe a piada!). O texto dele parece-me menos surrealista que exaltado. E a exaltação assim é meia-mantença de um outro conformismo. Prefiro os índios e os esquimós, mais que os americanos em (pseudo?) rebeldia. Tenho a ver com os Dogons (assim como com Basile Valentim) nada tenho a ver com Marx e Lenine. E pronto, punheta!
  Cago tanto na LSD como nos manifestos eleitoralistas. Tanto me urino nas bombas de compra ou de fabrico próprio como nos artefactos dos cabrões dos militares e estados-maiores. E acabei.

  Amanhã te mandarei o resto da tradução do Calas. Acredito no valor do livro dele se o dizes. Aliás estes textos dele não são maus, são só horrivelmente ingénuos (embora necessários, e além disso a inteligentsia de cá é tão estúpida que não irá dar por nada). Depois um dia falaremos disso.
  Os meus textos que apontas não estão publicados em nada a não ser as cópias fotocopiadas que te mandei – com excepção do Picasso.
  Agrada-me que tenhas colocado esses para publicação no catálogo.
  Talvez dentro deste tempo eu tenha dinheiro para editar um livro (que dizes a “Objectos inquietantes” ou outro?) Fala disto. Procura por favor uma tipografia que faça BARATO, PÁ. Davas capinha? Então vê lá isto. Estou um bocado melhor, depois falaremos de viva voz.
  E viva a Poesia, a revolta e a beleza sem amarras nenhumas.
  E vejam lá isso sobre o Rosemont. Se não, qualquer dia estão a fabricar bombas atómicas de bolso. O que é tão mau como o resto.

                   Abraço grande do     Francisco   (nome de NS,  também manuscrito)

sexta-feira, 1 de junho de 2012

Pequeno mostruário para vampiros (4)




   Em Lisboa como na província magna costumam aparecer, aproveitando-se da ingenuidade de disponíveis assistentes e dos pequenos velhacos organizativos, certos “mestres-escolas de tudo e oficiais de nada” conferencistas, que com o descaramento que a mediocridade e a petulância lhes facultam ousam perorar sobre assuntos que gostariam de ter próximos e fecundos, mas que lhes estão tão longe como Vega ou Canis Minor…

  Pesporrentes e à guisa de vendedores de banha da cobra, esses caramelos estabelecem maior confusão ainda nas orelhas dos que os ouvem, capturados pela sua audácia de pequenos jogadores das artes & letras.

  Em “homenagem” a esses sujeitos atravancadores, aqui se deixa um poema sobre uma figura singular, existente e de que maneira apesar de artilhado nos plainos da imaginação, o grande Pitta Raposo, o magnificente e sem par…



Nicolau Saião, Um Pitta Raposo



Perfil de um grande homem

É arteiro como um cigano                  
elegante e donairoso                           
- um magnífico fulano                        
o grande Pitta Raposo!
                       
Melífluo e insinuante                          
dá de si boa impressão                       
e com voz tonitruante                
é um belo cidadão!  
                            
É real homem de bem
nada há que lhe não valha
pois seguro prestígio tem
entre outros da mesma igualha.

Sabe aguentar a parada                      
para levar tudo a eito                           
 entra em qualquer titarada               
que lhe dê justo proveito.                   

Um fidalgote fogoso                             
mexido até dizer basta                         
- o grande Pitta Raposo                      
como ele gosta da pasta!                 

Com a mão esquerda arrebanha
com a direita arrebata.                                                                                                   
O que faz falta é ter manha,
o que é preciso é ter lata! 
   
Mesmo sem obra imponente
que o venha a cobrir de louros
deixará um nome ingente
aos lusitanos vindouros

E a Estória registará
o seu nome valoroso
mesmo sendo a escrita má.
- E viva o Pitta Raposo!

segunda-feira, 21 de maio de 2012

UM POUCO DE PARAÍSO (3)




Às vezes chegam cartas…

 …e outras vezes chegam mails. Que hoje por hoje, modernos q.b. que somos, jogamos no mapa interactivo com mais ou menos vivacidade, menor ou maior pertinácia e, frequentemente, com salubres resultados.

  Desta vez foi dum rincão africano, a cidade da Praia desse Cabo Verde onde se mesclam sinais de melodias singulares e um solo que o não é menos por diversas circunstâncias específicas, que me chegou um texto dum confrade de há largos anos que, após ter cumprido sua função profissional na nossa RDP, para lá se transportou a outros tratos paralelos. Refiro-me ao Nuno Rebocho, que quis endossar-nos este trecho memorialista com marcadas referencias à “terra grande” e que aqui vos deixo para uns minutos de degustação.


Lembrando Manuel Ferreira


   O português como uma só língua, com vertentes derivadas (a falada em Portugal e no Brasil, a falada em cada um de cinco países africanos) foi tese defendida por Manuel Ferreira muito antes que os ventos da descolonização soprassem, de maneira irremediável, a partir de 1974. Quando, com parte da sua obra escrita, conheci o autor de “Hora di Bai” (o “africanista”, como era geralmente então apontada) nas mesas heterogéneas da desaparecida leitaria “Paço”, no lisboeta Rossio – onde abancavam, em volta de Armando Ventura Ferreira (o “patriarca”), escritores como Manuel da Fonseca, Palla e Carmo (Sesinando), Baptista Bastos, António Borga, Costa Mendes, Júlio Salgueiro, Hugo Beja, Fernando Grade, João Carreira Bom e muitos outros – Manuel Ferreira era um tanto menosprezado, por quanto entendiam, preconceituadamente, como “menores” as literaturas portuguesas de África, “donzelas” pelas quais ele galhardamente já se batia. Esses eram tempos de tertúlia pelos “cafés” e leitarias de Lisboa, em que intelectuais – em conversas fluidas – iam desafiando a PIDE (polícia política) e a censura salazarentas e se ergueram as bases da resistência à vilania que foi o encerramento compulsivo da Associação Portuguesa de Escritores, por ter atribuído prémio a Luandino Vieira. Eram tempos de franco e amistoso combate de ideias diversas, e por vezes bem opostas, e que tanta falta fazem nos nossos dias, se bem que houvesse também a tendência para o alinhamento por ideologias, como era o caso dos neo-realistas que, por volta das 18 horas, juntavam as suas armas nas caves do Martinho da Arcada, ao Rossio, ou da geração 61 que se encontrava num “café” das Avenidas Novas: o “Paço dos Conjurados” (como nós lhe chamávamos) era lugar de confluências no trânsito de alguns que não desdenhavam de uma boa conversa antes de prosseguir para outra “freguesia”.

   As ideias expressas por Manuel Ferreira caíam em ouvidos moucos. Já então ele começava a advogar a necessidade da língua portuguesa encontrar uma matriz comum (acordo ortográfico) que unificasse as divergências criadas pela separação dos continentes. Só mais tarde me apercebi dos contributos desta tese, à medida que fui (re)conhecendo a realidade linguística de cada um dos novos países africanos fraccionados entre jovens que estudaram em Portugal e jovens que estudaram no Brasil. Havia quem se opusesse a esta senha renovadora – era o exemplo de Vasco da Graça Moura – e que, aos poucos, foi merecendo o meu apoio e entendimento.



Nicolau Saião, África


   Por essa época de incontidas raivas contra a mordaça de Salazar – anos 60 do século passado -, Manuel Ferreira era um “simples” autor de um romance, “Hora di Bai” (que dificilmente traduzíamos por Hora de Partida), o qual merecia a curiosidade de então jovens, como Carreira Bom, mal chegado a Lisboa vindo de Aldeia Nova de S. Bento, ou de mim mesmo. Era o “Sargentanas”, como eu fraternalmente lhe chamava, em galhofa pelo seu passado no exército colonial, embora tivesse o dever de o escutar com mais atenção, mordido que estava pelo anúncio de novas aragens trazidas por “Nós Matámos o Cão Tinhoso”, de Luís Bernardo Honwana, que foi meu colega em Lourenço Marques, nome que recebia a cidade que é hoje conhecida por Maputo, Moçambique. Mas só mais tarde, anos 70, viriam a surgir “Voz de Prisão” ou “No Reino do Caliban”… e a grande dimensão, e importância, de Manuel Ferreira se patentearia a meus olhos: Ferreira se tornaria no grande propulsionador dos estudos africanos na Universidade portuguesa e referência actual das literaturas africanas de língua portuguesa. Foi ele que, com olhos de ver, primeiro conclamou os estudiosos para as novas literaturas que iam aparecendo nas Áfricas, complementando o labor que ia sendo feito pelo angolano Mário Pinto de Andrade (que eu conhecia de leituras várias na saudosa Casa de Estudantes do Império, em Lisboa, alfobre de anti-colonialismos múltiplos e nacionalismos díspares). De certo modo, foi um precursor e como tal deve ser honrado, hoje em dia, o seu toque a parada.

   É verdade que, como se costuma dizer, “a ocasião faz o ladrão”: há sempre o momento em que as pessoas se revelam, para o bem e para o mal, à verdadeira dimensão da sua grandeza. Serão nuns momentos o que noutros não são ou ainda não o são. Estão sempre em interacção com o meio, em constante mudança, numa roda-viva de constantes mutações e evoluções. Como se diz: nunca aprendem. Portanto, nada é definitivo… nem mesmo a morte – vide o “terrível” Fernando Pessoa. Pelo que é apressado e injusto julgar, em absoluto, qualquer indivíduo – ele pode sair da sua aparente concha e tornar-se gigantesco aos olhos do vulgo, ganhando um recanto da história.

   Manuel Ferreira foi nisto um caso exemplar.
                                                                               Nuno Rebocho