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quarta-feira, 11 de julho de 2012
terça-feira, 5 de junho de 2012
Aconteceu-me ou Hoje, eu sei que sou feliz!
Uns seis anos atrás. Numa situação familiar algo
complicada, enviei dois sms a uns amigos. Hoje, já não me recordo dos termos
exactos que neles utilizei; mas cerca de uns dez meses depois, quando aquilo aconteceu, lembrava-me de todos
eles, a ponto de poder reproduzir integralmente essas mensagens que,
entretanto, apagara, na sequência das limpezas que costumo fazer regularmente
às caixas de entrada e de saída.
E o que aconteceu foi que, estando eu a tentar avaliar do
estado de maturação das peras (que eu tenho uma pereira no meu quintal!) ouvi o
telemóvel assinalar a chegada de dois sms. Quem será? O que será?
Abro e — oh, espanto! — vejo as duas mensagens que enviara e
de que tão bem me recordava, arrumadinhas na caixa de entrada. Sem qualquer outro
remetente além de mim próprio.
Passados os primeiros minutos de estupefacção, pus-me a
pensar no que raio se passaria. Apresentaram-se-me várias hipóteses, da mais elaborada
à mais simples, a saber:
— que estaria casualmente envolvido numa conspiração
cósmica ou que o estaria voluntariamente, como a personagem principal do filme Total Recall — mas, hélas! sem a Sharon
Stone nem a Rachel Ticotin a fazerem-me companhia, algo que eu recusaria
liminarmente aceitar;
— que o sr. eng.º Belmiro de Azevedo,
proprietário da operadora, se interessava particularmente pela minha pessoa, no
sentido de vir a oferecer-me um lugar de administrador ou mesmo de me nomear herdeiro
único dos seus bens, e, por isso, desejaria certificar-se ao pormenor do meu
merecimento — algo que, embora ilegal, muito me lisonjearia, mas que julguei
ser talvez ainda mais inverosímil do que a primeira hipótese;
— que, finalmente, estaria em presença de uma falha de
funcionamento de alguma obscura engenhoca (talvez adquirida em segunda mão) de um qualquer organismo de segurança
do Estado, no qual se arquivariam todas as conversas, orais e escritas, de todos
os cidadãos portugueses para eventual futura utilização contra eles — já que, à
data, nem sequer blogue tinha, limitando-me à pacatez cívica de uma acção diária
dirigida para conversas telefónicas com amigos após o jantar, ou para um ou
outro vizinho que costuma aparecer no café quando eu também por lá estou.
Era-me evidente que nunca poderia saber qual dessas três era
a correcta, apesar de, a estar de acordo com Popper, a mais simples ser a que
mais possibilidade teria de ser verdadeira. A terceira era, sem dúvida, achei
eu também por esse motivo, a mais verosímil. E, em conjunto com a segunda, as mais próximas e
fáceis de investigar. Apesar de tudo.
Comecei, assim, por ligar para os serviços da Optimus. A assistente,
uma moçoila contratada para dar o tímpano aos clientes, ficou,
genuinamente, tão surpreendida como eu e, no desempenho das suas funções e em
defesa do seu salário, afiançou-me e trejurou-me que a empresa não tinha qualquer
divisão desse tipo. Passou-me, no entanto, a uma colega da secção de
reclamações que procurou convencer-me de que com certeza eu não apagara as
mensagens, de que o problema talvez tivesse origem no próprio aparelho, de que nem
sequer sabia a que departamento poderia ser dirigida uma exposição desse tipo…
Tentei, depois, alguns conhecimentos que tinha no Ministério do Interior. Nada. Ninguém
sabia de nada.
Desisti. Até que, como não há duas sem três, para aí uns quatro meses depois me surgiu um terceiro sms antigo, posterior aos dois anteriores,
de que também me recordava por constituir um comentário irónico que fizera a
uma situação vivida por um outro amigo. Novamente tentei descortinar a razão
desse “reenvio”, novamente acabei por desistir. Mas guardei as três mensagens. Até
que tanto o telemóvel como o cartão sofreram um acidente e eu fiquei sem
qualquer prova do que acabei de relatar.
As peripécias espiónico-jurídicas em Portugal com que a
social-comunicação nos inunda até ao arregaçar das calças dão, a meu ver, razão
a Popper. E, atendendo ao que vamos julgando saber do que em todo o mundo se
passa, tais peripécias são bastante menos portuguesas do que o cozido. Desiludamo-nos,
além disso, porque — como dizia no domingo a Ana Mesquita, a propósito do
assunto, no programa do Herman “Moeda de Troika” — “não há retorno”. Ninguém
jamais conseguiu ou conseguirá impedir a utilização indevida de algo, sobretudo
quando esse algo é uma arma tão poderosa, determinante e privilegiada para
tanto interesse e ambição, inclusive e, talvez, principalmente, em defesa do “bom
povo”.
Nada disto, aliás, é novo. Se qualquer rei, par do reino ou
rico burguês pôde misturar-se com o povo, passeando ou frequentando lugares
menos recomendáveis até quase ao final do século XIX, a invenção, divulgação
e expansão da fotografia, tornaram-lho a partir daí muito mais difícil e, por vezes,
absolutamente impossível. Desde então, nenhuma lei conseguiu anular a actividade dos paparazzi
porque a indústria que servem se serve a si mesma servindo para os mais
diversos fins, a pretexto da liberdade de informação própria de um sistema democrático. Os lobos
comem-se uns aos outros e nem os poderosos estão a coberto dos efeitos e do
alcance das armas que utilizam em seu proveito.
Posto o que presentemente, por tudo isto, me considero um cidadão
muito mais feliz, porque me sei debaixo do mesmo chapéu usado pelos grandes deste
mundo. Antes sabia que a PIDE e só a PIDE me poderia controlar os passos. Depois,
comecei a desconfiar de que alguns pretendiam controlar-me mais pormenorizada e
apertadamente do que a mera polícia política do Botas (o António de Oliveira,
claro, não o Mário). Agora sei que todos estamos permanentemente sob
vigilância, o que me deixa muito mais descansado sobre o que posso e o que
tenho a fazer. Não se tornou tudo, afinal, muito mais claro e seguro? Hmmm...?
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