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sábado, 13 de dezembro de 2014

A Instituição José Sócrates





Um dos fundadores do PS, António Campos, em visita ao seu amigo José Sócrates, disse aos jornalistas, à porta do Estabelecimento Prisional de Évora, que "a política é a política e a Justiça é a Justiça" e que, nesse caso, sendo um ex-primeiro ministro quem ali se encontrava detido, é a própria instituição democrática que está em causa.

Ora, segundo aquilo para que tudo aponta, é por ter querido pôr em causa a instituição, aprisionando-a em proveito próprio enquanto primeiro-ministro, que José Sócrates foi preso preventivamente para libertar a instituição da sua eventual acção criminosa enquanto aguarda pela conclusão das investigações.

Acrescento, assim, ao que aqui disse:

Sócrates deveria, até, haver procedido e continuar a proceder de modo contrário ao que fez e faz. Em defesa do Estado de direito, inocente do que o acusam, enquanto ex-primeiro-ministro e democrata convicto vítima de uma cabala tenebrosa, deveria ter-se apresentado voluntariamente para ser preso, convocando a Comunicação Social e exigindo, ao mesmo tempo, uma investigação completa ao seu caso. De modo a proteger-nos desse polvo que começara por querer aprisioná-lo.

E, já agora, pedido contenção pública nas emoções aos amigos.

Acho eu.

quinta-feira, 11 de dezembro de 2014

Polvo à portuguesa




Assino por baixo este editorial de José António Saraiva, no jornal Sol.

DO QUE NOS LIVRÁMOS!

Em 2008, o BPN foi nacionalizado contra a vontade dos seus accionistas. Na altura, poucas vozes contrárias se fizeram ouvir, até porque a nacionalização tinha o aval do governador do Banco de Portugal, Vítor Constâncio.

Após este acto, o Governo designou como administrador do BPN Francisco Bandeira, um homem da confiança pessoal de Sócrates.

Entretanto, no ano seguinte, na sequência de convulsões internas, o BCP seria 'governamentalizado', entrando para a administração Carlos Santos Ferreira e Armando Vara, notórios amigos de Sócrates.

O BES, por seu lado, era governado por Ricardo Salgado, cuja cumplicidade com Sócrates se tornou a partir de certa altura evidente, ao ponto de - quebrando a sua proverbial contenção nas referências ao poder político - elogiar por diversas vezes o primeiro-ministro em público.

Quanto à CGD, era tutelada pelo Governo.

Em conclusão, exceptuando o BPI (de Fernando Ulrich), a partir de 2009 toda a banca ficou 'nas mãos' de Sócrates ou dos seus amigos: CGD, BCP, BPN e BES - para não falar do BdP, onde pontificava Constâncio.

Na comunicação social a situação também não era famosa.

No início do consulado de José Sócrates, o grupo Controlinvest (DN, JN e TSF), de Joaquim Oliveira, foi logo identificado pelo primeiro-ministro como um potencial aliado (até pela sua dependência da banca).

O grupo Cofina (Correio da Manhã e Sábado), de Paulo Fernandes, também se mostrava cauteloso nas referências ao Governo.

O grupo Impresa (SIC, Expresso e Visão) mantinha-se na expectativa.

O grupo RTP (RTP e RDP) pertencia ao Estado e mostrava-se dócil.

O grupo Renascença não se metia em sarilhos.

Restava o quê?

A TVI e o Público - este dirigido por José Manuel Fernandes, considerado por Sócrates persona non grata.

O SOL só apareceria mais tarde.

 Quando rebenta o caso Freeport, em 2009, as coisas vão aquecer.

A TVI estabelece um acordo com o SOL para a investigação daquele tema e torna-se para Sócrates um inimigo declarado.
Manuela Moura Guedes, a pivô do jornal televisivo de sexta-feira (que antecipa as notícias do Freeport), é o primeiro alvo a abater - e Sócrates empenha-se em afastá-la por todos os meios; mas tal não se mostra fácil, dado ser mulher do director da estação, José Eduardo Moniz.

Em desespero, Sócrates tenta usar a PT para comprar a TVI, mas o negócio borrega.

Também há tentativas para fechar o SOL, através do BCP (que era accionista de referência do jornal), comandadas por Armando Vara.

No que respeita à Impresa, apesar de não fazer grande mossa ao socratismo, sofre vários ataques, designadamente por parte de Nuno Vasconcellos e Rafael Mora, líderes da Ongoing e próximos de Sócrates, que tentam encostar Balsemão à parede.

Finalmente, sem se perceber porquê, Belmiro de Azevedo aceita a saída de Fernandes da direcção do Público, e Moura Guedes e Moniz deixam a TVI (indo este estranhamente para a Ongoing…).

O SOL fica isolado - e só se salvará por ser adquirido por accionistas não envolvidos na política interna.

Visto o controlo substancial de Sócrates sobre a banca e a comunicação social, olhemos para o poder político.

Sócrates dominava naturalmente o Governo, de que era o chefe, e o Parlamento, onde o PS tinha maioria absoluta - só lhe escapando a Presidência da República.

Por isso, voltou contra Cavaco Silva todas as baterias.

O PS e o Governo tentaram tudo para implicar Cavaco no caso BPN, por deter acções do banco (embora as tenha vendido antes de ir para Belém).

Esta campanha contra o Presidente da República ressuscitaria com estrondo nas eleições presidenciais de 2011, com a cumplicidade - diga-se - de muita comunicação social.

Outro momento alto da guerra contra Cavaco foi o aproveitamento de uma gafe de um seu assessor, Fernando Lima - que tinha falado a um jornalista sobre a possível existência de escutas a Belém -, para tramar o Presidente.

Usando uma técnica nele recorrente, Sócrates armou-se em vítima, virou os acontecimentos a seu favor e tentou destruir Cavaco Silva, acusando-o de montar uma cabala.

Outra vez com a ajuda de muitos jornalistas, os socratistas exploraram o caso à exaustão e o assunto foi objecto de intermináveis debates televisivos - onde se chegou a dizer que o PR tinha de renunciar ao cargo!

A campanha não matou Cavaco mas fez mossa, fragilizando o único bastião que não era dominado por Sócrates na esfera do poder político.

Talvez hoje alguns jornalistas percebam melhor o logro em que caíram.

Passando finalmente à Justiça, Sócrates tinha no procurador-geral da República, Pinto Monteiro, e no presidente do Supremo Tribunal de Justiça, Noronha do Nascimento, não propriamente dois cúmplices, como alguns disseram, mas duas pessoas que pareceram sempre empenhadas em protegê-lo, fossem quais fossem as razões.

Nesta área, Sócrates contava ainda com um bom aliado: Proença de Carvalho, pessoa influente nos meios judiciais (incluindo junto de Pinto Monteiro).

E teve sempre o apoio do bastonário da Ordem dos Advogados, Marinho e Pinto.

Portanto, também aqui, o primeiro-ministro estava bem acolchoado.

Governo, Parlamento, Justiça, comunicação social, banca: Sócrates controlava os três poderes do Estado - executivo, legislativo e judicial - e estendia os seus tentáculos ao quarto poder (os media) e ao poder financeiro (os bancos).

Talvez muita gente não se tenha apercebido na época deste cenário aterrador.

Mas olhando para trás - e sabendo-se o que hoje se sabe - temos noção do perigo que o país correu: um homem sobre o qual pesam suspeitas tão graves chegou a deter um poder imenso, que se alargava a todas as áreas de influência.

Só de pensar nisto ficamos assustados - e é muito estranho que alguns dos que privavam com ele não se tenham apercebido de nada.

Foi lamentável ver pessoas de bem - como Ferro Rodrigues ou Correia de Campos - fazerem tão tristes figuras, defendendo-o encarniçadamente até ao fim.

É certo que, como bem disse José António Lima, a democracia venceu-o, afastando-o do cargo.

Mas também foi a democracia que permitiu que um homem como este chegasse a reunir um poder tão grande em Portugal.

Isso mostra a vulnerabilidade do sistema democrático.

P. S. - No caso dos vistos gold, logo a seguir às detenções, deu-se por adquirido que os arguidos eram culpados, considerou-se “inevitável” a demissão de Miguel Macedo, e António Costa disse que o Governo ficava “ligado à máquina”. Uma semana depois, as mesmas pessoas contestam a prisão de Sócrates, invocam a “presunção de inocência” e acham “absurdo” falar na hipótese de demissão de António Costa.
Palavras para quê?

domingo, 7 de dezembro de 2014

No dia em que Mário Soares faz 90 anos...





... recorde-se o que o (na altura) Bastonário da Ordem dos Advogados António Marinho Pinto escreveu sobre ele no "Diário do Centro".


MÁRIO SOARES E ANGOLA

 A polémica em torno das acusações das autoridades angolanas segundo as quais Mário Soares e seu filho João Soares seriam dos principais beneficiários do tráfico de diamantes e de marfim levados a cabo pela UNITA de Jonas Savimbi, tem sido conduzida na base de mistificações grosseiras sobre o comportamento daquelas figuras políticas nos últimos anos. Espanta desde logo a intervenção pública da generalidade das figuras políticas do país, que vão desde o Presidente da República até ao deputado do Bloco de Esquerda, Francisco Louçã, passando pelo PP de Paulo Portas e Basílio Horta, pelo PSD de Durão Barroso e por toda a sorte de fazedores de opinião, jornalistas (ligados ou não à Fundação Mário Soares), pensadores profissionais, autarcas, "comendadores" e comentadores de serviço, etc. Tudo como se Mário Soares fosse uma virgem perdida no meio de um imenso bordel. Sei que Mário Soares não é nenhuma virgem e que o país (apesar de tudo) não é nenhum bordel. Sei também que não gosto mesmo nada de Mário Soares e do filho João Soares, os quais se têm vindo a comportar politicamente como uma espécie de versão portuguesa da antiga dupla haitiana "Papa Doc" e "Baby Doc". Vejamos então por que é que eu não gosto dele(s). A primeira ideia que se agiganta sobre Mário Soares é que é um homem que não tem princípios mas sim fins. É-lhe atribuída a célebre frase: "Em política, feio, feio, é perder". São conhecidos também os seus zigue-zagues políticos desde antes do 25 de Abril. Tentou negociar com Marcelo Caetano uma legalização do seu (e de seus amigos) agrupamento político, num gesto que mais não significava do que uma imensa traição a toda a oposição, mormente àquela que mais se empenhava na luta contra o fascismo.

 JÁ DEPOIS DO 25 DE ABRIL, ASSUMIU-SE COMO O HOMEM DOS AMERICANOS E DA CIA EM PORTUGAL E NA PRÓPRIA INTERNACIONAL SOCIALISTA. Dos mesmos americanos que acabavam de conceber, financiar e executar o golpe contra Salvador Allende no Chile e que colocara no poder Augusto Pinochet. Mário Soares combateu o comunismo e os comunistas portugueses como nenhuma outra pessoa o fizera durante a revolução e FOI AMIGO DE NICOLAU CEAUCESCU, FIGURA QUE CHEGOU A APRESENTAR COMO MODELO A SER SEGUIDO PELOS COMUNISTAS PORTUGUESES.

 Durante a revolução portuguesa andou a gritar nas ruas do país a palavra de ordem "Partido Socialista, Partido Marxista", mas mal se apanhou no poder meteu o socialismo na gaveta e nunca mais o tirou de lá. Os seus governos notabilizaram-se por três coisas: políticas abertamente de direita, a facilidade com que certos empresários ganhavam dinheiro e essa inovação da austeridade soarista (versão bloco central) que foram os salários em atraso.


 INSULTO A UM JUIZ

 Em Coimbra, onde veio uma vez como primeiro-ministro, foi confrontado com uma manifestação de trabalhadores com salários em atraso. Soares não gostou do que ouviu (chamaram-lhe o que Soares tem chamado aos governantes angolanos) e alguns trabalhadores foram presos por polícias zelosos. Mas, como não apresentou queixa (o tipo de crime em causa exigia a apresentação de queixa), o juiz não teve outro remédio senão libertar os detidos no próprio dia. Soares não gostou e insultou publicamente esse magistrado, o qual ainda apresentou queixa ao Conselho Superior da Magistratura contra Mário Soares, mas sua excelência não foi incomodado. Na sequência, foi modificado o Código Penal, o que constituiu a primeira alteração de que foi alvo por exigência dos interesses pessoais de figuras políticas. Soares é arrogante, pesporrento e malcriado. É conhecidíssima a frase que dirigiu, perante as câmaras de TV, a um agente da GNR em serviço que cumpria a missão de lhe fazer escolta enquanto presidente da República durante a Presidência aberta em Lisboa: "Ó Sr. Guarda! Desapareça!". Nunca, em Portugal, um agente da autoridade terá sido tão humilhado publicamente por um responsável político, como aquele pobre soldado da GNR. Em minha opinião, Mário Soares nunca foi um verdadeiro democrata. Ou melhor é muito democrata se for ele a mandar. Quando não, acaba-se imediatamente a democracia. À sua volta não tem amigos, e ele sabe-o; tem pessoas que não pensam pela própria cabeça e que apenas fazem o que ele manda e quando ele manda. Só é amigo de quem lhe obedece. Quem ousar ter ideias próprias é triturado sem quaisquer contemplações. Algumas das suas mais sólidas e antigas amizades ficaram pelo caminho quando ousaram pôr em causa os seus interesses ou ambições pessoais. Soares é um homem de ódios pessoais sem limites, os quais sempre colocou acima dos interesses políticos do partido e do próprio país. Em 1980, não hesitou em APOIAR OBJECTIVAMENTE O GENERAL SOARES CARNEIRO CONTRA EANES, NÃO POR RAZÕES POLÍTICAS MAS DEVIDO AO ÓDIO PESSOAL QUE NUTRIA PELO GENERAL RAMALHO EANES. E como o PS não alinhou nessa aventura que iria entregar a presidência da República a um general do antigo regime, Soares, em vez de acatar a decisão maioritária do seu partido, optou por demitir-se e passou a intrigar, a conspirar e a manipular as consciências dos militantes socialistas e de toda a sorte de oportunistas, não hesitando mesmo em espezinhar amigos de sempre como Francisco Salgado Zenha. Confesso que não sei por que é que o séquito de prosélitos do soarismo (onde, lamentavelmente, parece ter-se incluído agora o actual presidente da República (Mário Soares), apareceram agora tão indignados com as declarações de governantes angolanos e estiveram tão calados quando da publicação do livro de Rui Mateus sobre Mário Soares. NA ALTURA TODOS METERAM A CABEÇA NA AREIA, INCLUINDO O PRÓPRIO CLÃ DOS SOARES, E NEM TUGIRAM NEM MUGIRAM, APESAR DE AS ACUSAÇÕES SEREM ENTÃO BEM MAIS GRAVES DO QUE AS DE AGORA. POR QUE É QUE JORGE SAMPAIO SE CALOU CONTRA AS "CALÚNIAS" DE RUI MATEUS?".


 "DINHEIRO DE MACAU"

 Anos mais tarde, um senhor que fora ministro de um governo chefiado por MÁRIO SOARES, ROSADO CORREIA, vinha de Macau para Portugal com uma mala com dezenas de milhares de contos. *A proveniência do** dinheiro era tão pouco limpa que um membro do governo de Macau, ANTÓNIO **VITORINO, *foi a correr ao aeroporto tirar-lhe a mala à última hora. Parece que se tratava de dinheiro que tinha sido obtido de empresários chineses com a promessa de benefícios indevidos por parte do governo de Macau. Para quem era esse dinheiro foi coisa que nunca ficou devidamente esclarecida. O caso EMAUDIO (e o célebre fax de Macau) é um episódio que envolve destacadíssimos soaristas, amigos íntimos de Mário Soares e altos dirigentes do PS da época soarista. MENANO DO AMARAL chegou a ser responsável pelas finanças do PS e Rui Mateus foi durante anos responsável pelas relações internacionais do partido, ou seja, pela angariação de fundos no estrangeiro. Não haveria seguramente no PS ninguém em quem Soares depositasse mais confiança. Ainda hoje subsistem muitas dúvidas (e não só as lançadas pelo livro de Rui Mateus) sobre o verdadeiro destino dos financiamentos vindos de Macau. No entanto, em tribunal, os pretensos corruptores foram processualmente separados dos alegados corrompidos,com esta peculiaridade (que não é inédita) judicial: os pretensos corruptores foram condenados, enquanto os alegados corrompidos foram absolvidos.

 Aliás, no que respeita a Macau só um país sem dignidade e um povo sem brio nem vergonha é que toleravam o que se passou nos últimos anos (e nos últimos dias) de administração portuguesa daquele território, com os chineses pura e simplesmente a chamar ladrões aos portugueses. E isso não foi só dirigido a alguns colaboradores de cartazes do MASP que a dada altura enxamearam aquele território.

 Esse epíteto chegou a ser dirigido aos mais altos representantes do Estado Português. Tudo por causa das fundações criadas para tirar dinheiro de Macau. Mas isso é outra história cujos verdadeiros contornos hão-de ser um dia conhecidos. Não foi só em Portugal que Mário Soares conviveu com pessoas pouco recomendáveis. Veja-se o caso de BETINO CRAXI, o líder do PS italiano, condenado a vários anos de prisão pelas autoridades judiciais do seu país, devido a graves crimes como corrupção. Soares fez questão de lhe manifestar publicamente solidariedade quando ele se refugiou na Tunísia. Veja-se também a amizade com Filipe González, líder do Partido Socialista de Espanha que não encontrou melhor maneira para resolver o problema político do país Basco senão recorrer ao terrorismo, contratando os piores mercenários do lumpen e da extrema direita da Europa para assassinar militantes e simpatizantes da ETA. Mário Soares utilizou o cargo de presidente da República para passear pelo estrangeiro como nunca ninguém fizera em Portugal. Ele, que tanta austeridade impôs aos trabalhadores portugueses enquanto primeiro-ministro, gastou, como Presidente da República, milhões de contos dos contribuintes portugueses em passeatas pelo mundo, com verdadeiros exércitos de amigos e prosélitos do soarismo, com destaque para jornalistas. São muitos desses "viajantes" que hoje se põem em bicos de pés a indignar-se pelas declarações dos governantes angolanos. Enquanto Presidente da República, Soares abusou como ninguém das distinções honoríficas do Estado Português. Não há praticamente nenhum amigo que não tenha recebido uma condecoração, enquanto outros cidadãos, que tanto mereceram, não obtiveram qualquer distinção durante o seu "reinado". Um dos maiores vultos da resistência antifascista no meio universitário, e um dos mais notáveis académicos portugueses, perseguido pelo antigo regime, o Prof. Doutor Orlando de Carvalho, não foi merecedor, segundo Mário Soares, da Ordem da Liberdade. Mas alguns que até colaboraram com o antigo regime receberam as mais altas distinções. Orlando de Carvalho só veio a receber a Ordem da Liberdade depois de Soares deixar a Presidência da República, ou seja logo que Sampaio tomou posse. A razão foi só uma: Orlando de Carvalho nunca prestou vassalagem a Soares e Jorge Sampaio não fazia depender disso a atribuição de condecorações.


 FUNDAÇÃO COM DINHEIROS PÚBLICOS

 A pretexto de uns papéis pessoais cujo valor histórico ou cultural nunca ninguém sindicou, Soares decidiu fazer uma Fundação com o seu nome. Nada de mal se o fizesse com dinheiro seu, como seria normal. Mas não; acabou por fazê-la com dinheiros públicos. SÓ O GOVERNO, DE UMA SÓ VEZ DEU-LHE 500 MIL CONTOS E A CÂMARA DE LISBOA, PRESIDIDA PELO SEU FILHO, DEU-LHE UM PRÉDIO NO VALOR DE CENTENAS DE MILHARES DE CONTOS. Nos Estados Unidos, na Inglaterra, na Alemanha ou em qualquer país em que as regras democráticas fossem minimamente respeitadas muita gente estaria, por isso, a contas com a justiça, incluindo os próprios Mário e João Soares e as respectivas carreiras políticas teriam aí terminado. Tais práticas são absolutamente inadmissíveis num país que respeitasse o dinheiro extorquido aos contribuintes pelo fisco. Se os seus documentos pessoais tinham valor histórico Mário Soares deveria entregá-los a uma instituição pública, como a Torre do Tombo ou o Centro de Documentação 25 de Abril, por exemplo. Mas para isso era preciso que Soares fosse uma pessoa com humildade democrática e verdadeiro amor pela cultura. Mas não. Não eram preocupações culturais que motivaram Soares. O que ele pretendia era outra coisa. Porque as suas ambições não têm limites ele precisava de um instrumento de pressão sobre as instituições democráticas e dos órgãos de poder e de intromissão directa na vida política do país. A Fundação Mário Soares está a transformar-se num verdadeiro cancro da democracia portuguesa." O livro de Rui Mateus, que foi rapidamente retirado de mercado após a celeuma que causou em 1996 (há quem diga que "alguém" comprou toda a edição)”.

terça-feira, 2 de dezembro de 2014

"Devias ter feito uma fundação, pá..." ou De convicções está o inferno cheio


(imagem obtida aqui)


Dias atrás, nos telejornais da hora do almoço, pudemos ver um Mário Soares envelhecido, de saúde claramente debilitada, alterado, destrambelhado tanto nos modos como no discurso, à saída do Estabelecimento Prisional de Évora, afirmar fora de qualquer dúvida a inocência de José Sócrates bem como a existência de uma conspiração, apoiada no aparelho de Justiça e na Comunicação Social, que visa destruir a reputação desse ex-“primeiro-ministro exemplar”, de cuja seriedade ninguém duvidará. Hoje, um familiar meu mostrou-me a frase que dá título a este post, posta na boca de Soares dirigindo-se a Sócrates na foto acima, a circular na internet.

A frase insinua e a insinuação é algo que me repugna, a não ser quando visa o óbvio, assim se mudando em subtileza do humor. Aproveitei-a, porém, porque, se relacionada com o que se seguirá, reforça a compreensão do que, quanto a mim, a detenção e prisão preventiva de José Sócrates trouxeram à superfície do Portugal profundo, de um Portugal mais esquecido do que a mais recôndita das suas aldeias.

Alguns amigos, militantes do PS, perguntaram-me o que achava eu do ex-ministro do Ambiente de António Guterres, à época em que ele se candidatou pela primeira vez a secretário-geral do partido. Respondi-lhes – e, desde então, tenho-os lembrado disso várias vezes – que seria uma péssima escolha não só para os socialistas como para o país, uma vez que não encontrava nele nem perfil nem capacidade quer para desempenhar as funções a que se propunha quer, muito menos, para o cargo de primeiro-ministro que, em breve, com certeza viria a ocupar. Agressivo, prepotente e, o que é pior, o paradigma, no plano político, de um mestre d’obras com a correspondente visão sobre o desenvolvimento de Portugal e os meios para o concretizar. Um “caudillo” maquilhado de europeu que nada traria de bom, era o que me davam a entender as suas tiradas e acções governativas e públicas. Riram-se.

Foi, afinal, muito mas mesmo muito pior do que eu poderia esperar. José Sócrates governou Portugal como um velho regedor de aldeia: berrando do alto do varapau da maioria; fazendo descer o debate de ideias (desde sempre escasso) ao nível da ausência; reinando, vingativo, pela divisão de todos e deste modo inibindo em todos, por ressentimento ou medo, a livre expressão; impondo, com meios à toa, medidas avulsas a que pomposamente chamou reformas, com elas esfrangalhando a eito a estrutura do Estado sem critério nem dó. A meu ver, foi, depois de Salazar, a catástrofe que o país mais poderia ter temido.

Durante o período em que mandou no país, tive no blog Portugal e outras touradas, que criei em Maio de 2007 e encerrei, de facto, em Julho de 2011, o meio de aliviar um pouco o sufoco que senti nesse atoleiro quotidiano. Nele fui falando de tudo isto, à medida dos despautérios e desastres consecutivos. Não o apaguei, continua online, e qualquer um pode verificar que foi sempre nos planos político e social que me referi a Sócrates e ao seu governo, tal como a quem o secundou, de perto ou de longe. Mesmo tendo em conta, entre outras coisas, o que aqui diz José Gomes Ferreira, atento, tal como eu e muitos outros, aos sinais equívocos que emergiam sobre o carácter do primeiro-ministro.

A prisão preventiva de José Sócrates continua a não permitir, por agora, desfazer ou confirmar as suspeitas que o levaram ao Estabelecimento Prisional de Évora. Aguarda-se o resultado das investigações e, até lá, ao contrário de muita gente, demasiada gente, pelo respeito devido a qualquer ser humano não me permito o luxo de ter convicções num sentido ou noutro. Mas, por isso mesmo, gostaria de deixar um pouco do que venho a reflectir acerca aqueles que vivem acima das suas possibilidades de crença e certeza, e do nível de ostentação que disso se permitem. Bem como da possível origem desse seu capital lógico e ético.

Em particular, o dos que se revoltaram em público quer com a detenção de José Sócrates quer com o modo como ela ocorreu. Pois confesso que as operações mentais utilizadas nesse seu empreendimento de indignação edificante são para mim um mistério. Parecem-me de todo obscuras e, por isso, carentes de uma investigação impeditiva de que os seus eventuais reflexos causem maiores prejuízos na frágil economia moral da nação.

Com um aviso prévio, porém. Dizia Sartre que se o nosso objectivo for consciencializar uma família burguesa do horror que a sua vida constituiu não bastará simplesmente gravá-la ou filmá-la e mostrar-lhe o resultado, porque, como é natural, continuaria a nada estranhar no que visse e ouvisse. Teremos que ampliar, acentuar os pormenores decisivos que lhe escapam ou que contribuem para o seu torpor, numa palavra: até certo ponto, caricaturar. Não gosto de Sartre por aí além, mas dou-lhe razão quanto a isto. O mesmo farei, portanto, em relação a esses meus compatriotas indignados, e as imagens que utilizar seguidamente assim deverão ser entendidas.

Consideram eles, em primeiro lugar, que nem a detenção nem o modo como foi realizada são compatíveis com o cidadão que a sofreu; que constituiu um procedimento vergonhoso, por humilhante, para quem ocupou o mais alto cargo governativo. Mas imaginemos (e, relembro-o, irei exagerar, caricaturar para melhor me fazer entender) que Al Capone, no intuito de lograr um maior enriquecimento e poder pessoais, ao invés de enveredar pela actividade criminosa explicitamente violenta, mas local, se propusesse alcançar a presidência dos Estados-Unidos, deitando mão de influências. E que, havendo-o conseguido, reforçasse e cimentasse a rede de corrupção, valendo-se de favorecimentos e promoção de obras e políticas públicas, apresentando-as como fazendo parte de um plano desenvolvimento dos USA, mas que, na realidade, visariam apenas concretizar os seus intentos e alargar em definitivo a sua riqueza e esfera de acção pessoais. E que não tivesse pejo nem escrúpulos de, para tal, levar o país à beira da bancarrota. O facto de ter ocupado a mais alta posição do Estado reverteria na dignificação do seu carácter? Ou, antes, isso sim, em perversidade acrescentada, que o próprio Estado, enquanto instrumento do bem-comum, deveria repudiar e banir com maior vigor ainda?

Porque estaríamos num plano onde criminalidade e política não se distinguiriam uma da outra, e a extensão do delito se estenderia não somente a todo o país como também a mais de uma geração – acusação, aliás, infelizmente muito pouco inédita, tantas vezes ouvimos fazê-la a muitos dos chefes de Estado africanos e da América Central e do Sul…

Relembrando-o de novo: ninguém sabe se é este o caso (mitigado) de José Sócrates. Ninguém se pode arrogar a emitir juízos que lhe sejam favoráveis ou acusatórios antes de se apurar a verdade. Mas também ninguém, muito menos os que enaltecem constantemente a igualdade dos cidadãos perante a lei, pode invocar o argumento de que, por o havermos tido como governante, a Justiça e a polícia procederam mal (criminosamente, nas palavras subentendidas de alguns) não lhe atribuindo um tratamento de excepção, ao invés de procederem com ele como o fizeram, isto é, da mesma maneira como procederiam com qualquer outro suspeito de actividades ilícitas.

Admitamos, porém uma segunda hipótese, a de nos encontrarmos perente um caso de distúrbio de personalidade do tipo romanceado por Robert Louis Stevenson em O médico e o monstro. O caso em que teríamos, ao mesmo tempo, um Sócrates “primeiro-ministro exemplar” (para retomar a expressão de Mário Soares) e um outro, meliante mafioso nas horas livres da governação, embora para tal se aproveitando dos conhecimentos e influências que o cargo ocupado lhe facultavam. Quem deveria então a polícia escolher para a detenção: o dr. Jekyll com Mr. Hyde à perna; ou Mr. Hyde trazendo a reboque o dr. Jekyll? Uma escolha impossível julgo eu, já que tal exigiria das autoridades um prévio conhecimento da psique de José Sócrates, produto do exame que, tanto quanto se saiba, nunca foi realizado.

Chamo, a propósito, a atenção para que a argumentação dos responsáveis maiores do PS e de alguns dos defensores de Sócrates segue em paralelo com esta linha de raciocínio, ao afirmarem que não se pode nem deve confundir o Sócrates político com um eventual Sócrates criminoso. De outro modo: que podem existir em sincronia, numa só pessoa, um brilhante e patriótico primeiro-ministro e um escroque de primeira linha, que age em proveito próprio suportado pelas funções que desempenha. A hipótese, como disse anteriormente, não é menosprezável, mas terá que ser provada; e a polícia não é, nem costuma ir, à bruxa. Limitou-se, pois, a proceder segundo as regras do mais elementar bom-senso quando se trata de prender um suspeito de crimes graves.

Donde virá, então, aquilo que me parece ser uma espécie de incoerência toldada pelas emoções (ou por quaisquer outros factores desconhecidos…) por parte de quem se indignou com a prisão de um antigo primeiro-ministro? Esta a pergunta a que, como já disse ao início, me propus responder a mim próprio, mas que achei pertinente o bastante para dever partilhá-la.

É que neste “não se prende nem se trata assim um antigo primeiro-ministro!” há qualquer coisa de “ancien régime” com cheiro a peúga de ex-seminarista, algo entre o bafio e o cheiro a beco escuso e escuro da vontade. Algo que cheira a “argumento de autoridade” e a “você sabe com quem está a falar?” que me assombrou em menino com voz roufenha.

Juro: estremeci de apreensão e um arrepio percorreu-me a espinha quando ouvi, repetido até por quem não esperaria, aquele “não se prende nem se trata assim um antigo primeiro-ministro”! Parecia-me que, como num vulgar filme de terror, um grupo de zombies fazia ecoar, no país, a voz de quem houvesse feito das suas cabeças sepultura, assombrando os vivos com os restos que de si nelas permanecessem, antes de se tornar para sempre em pó.

A simples possibilidade de enunciar tudo isto de forma explícita me constrange e enoja. Respondi, portanto, à pergunta metaforicamente. Mas julgo que fui bastante claro sobre a identidade desse avesso de Lázaro, doentio e violento, que tão fundo cravou as suas garras na mente de Portugal. Mesmo nos que são (ou se dizem) paladinos da democracia.

Voltando ao tom anterior, e antes de terminar quero ainda, contudo, acrescentar algo que julgo oportuno e de certa importância para alguns militantes socialistas.

Começo por recordar os elogios que Miguel Macedo recebeu de toda a oposição quando, há pouco tempo, pediu a demissão das suas funções de ministro da Administração Interna. Fê-lo devido à prisão do responsável máximo do Serviço de Estrangeiros e Fronteiras e de outros funcionários envolvidos em casos de corrupção. Gente, note-se, cuja nomeação para as posições que ocupavam não fora feita por ele, mas por quem o antecedera como responsável do MAI – não me lembro se o director do SEF foi nomeado logo no início do primeiro governo de José Sócrates ou no final do de Durão Barroso. Não teria necessidade de sair, mas demitiu-se em benefício da credibilidade do regime enquanto aguarda pelo apuramento da investigação e pela consequente decisão judicial.

Os ministros são-no por convite do primeiro-ministro indigitado após as eleições. Seriam, assim, da confiança de José Sócrates aqueles que integraram os seus governos e discutiram as diferentes políticas sectoriais e as medidas destinadas a implementá-las. Não ignoravam as motivações e os objectivos apresentados pelo chefe da equipa governamental de que decidiram fazer parte. Não podem, assim, afirmar que desconheciam o alcance e as implicações do plano que ajudaram a estruturar e a fazer cumprir. Se não se aperceberam, serão incapazes para desempenhar devidamente funções a esse nível. Se se aperceberam, das duas uma: ou não se deram conta de eventuais irregularidades; ou, se deram, serão cúmplices passivos ou activos de Sócrates.

Ora alguém duvida de que a incapacidade de detectar crimes de lesa-pátria é incomparavelmente mais grave do que o desconhecimento de um ministro sobre actividades criminosas de um conjunto de funcionários de um dos sectores de um ministério? Sem falar já na possibilidade de se ser suspeito de conivência…

Daí o meu apelo aos antigos militantes do PS que colaboraram com Sócrates, a começar por António Costa: a bem do regime democrático, demitam-se de todas as suas funções políticas partidárias. Sigam o exemplo que – tão justamente e a-propósito – elogiaram de Miguel Macedo e esperem pelo apuramento da verdade para as retomarem, rebrilhando de inocência e verticalidade cívica.

E que não vociferem como o pobre “pai da nossa democracia”, cada vez mais fragilizado, que “aquilo não se faz a um antigo primeiro-ministro!”. Para que os portugueses, eles próprios alheios ao fantasma ainda habita em muitos dos seus maiores, mas tendo em mente o velho provérbio “diz-me com quem andas, dir-te-ei quem és”, não discorram de modo tão distorcido como a frase inscrita na foto deixa transparecer.

terça-feira, 25 de novembro de 2014

Sócrates e a banalidade do Mal ou A volta do condottieri (2)


Sem título, gravura de Nicolau Saião

  Não nos deixemos equivocar: o caso Sócrates não é fundamentalmente um caso de polícia ou de justiça, mas sim eminentemente e no mais alto e triste grau um caso de política.

  De política especiosa ou, mesmo, especial? Talvez… Mas claramente um caso onde o que emerge é a panorâmica de uma prática política que pelos anos fora - nos lugares expressos em que este sedutor aventureiro político pôde estribar a sua maneira de estar e de fazer estar – foi criando um estilo entre a arrogância, a agressividade e o descaramento demagógico que não só colocaram o País à beira da bancarrota mas, ainda pior, à beira da falência ética e moral.

   Basta termos acompanhado, com algum pormenor, durante o par de anos transactos, os espaços públicos onde a mentalidade do condottieri (pois não é verdadeiramente, nem nunca foi, um líder, mas claramente um condottieri, com toda a carga ideológica e pessoal que essa condição arrastava) extravasava no exemplo dos seus partidários e áulicos, para se entender tudo: a agressividade compulsiva, a arrogância pesporrente, a ausência de ética nos escritos e nos ataques aos oponentes, em suma: a sombra extremamente perceptível de um posicionamento a que poderemos dar a classificação de cripto-fascista típica, jogando no revanchismo, na postergação de uma atitude tolerante, muitas vezes descendo ao enxovalho e à violência verbal desbragada.

  O indivíduo político em causa cifrou na sua figura e no seu estilo tudo o que de pior tem existido no ambiente conceptual da nação. Por isso não admira que tenha sido o chefe sonhado e amado pelos seus asseclas, para quem os antónios josés seguros e os antónios costas não passam de passageiros secundários para a ocupação provisória da barca em que apostavam por não terem outro remédio, mas que os não fazia esquecer do “chefe” real onde se concentravam as suas nostalgias e as suas esperanças de poderem voltar a dominar intangivelmente, mas muito consistentemente, o País que ajudaram a depredar.

  Os elogios e as declarações sistemáticas de reverência ao condottieri, propiciadas pelos seus partidários intransigentes, seduzidos pelo seu carisma de “animal feroz da política” (expressão que traz bem o selo de um discurso cripto-fascista típico, pela brutalidade da frase) não traduz senão a captura por um tipo de prática política contra os interesses do Povo e da nação.

   Não podem portanto os membros do Partido Socialista, que por excesso ou por diferença consentiram no domínio interiorizado da mentalidade e da postura material socrática, virem agora eximir-se a responsabilidades alegando que uma coisa é a política em que se mergulham e, outra, as responsabilidades do foro judicial em que ele – o político que sempre epigrafaram e desculpabilizaram – está metido.

  O caso de Sócrates é directamente dependente de um estilo e uma prática política evidente, muito própria e muito marcada.

   Pretenderem convencer-nos do contrário é apenas uma simulação mais que agora tentam para sacudirem do capote a água pantanosa em que se deixaram ir existindo!

segunda-feira, 24 de novembro de 2014

É José Sócrates que está em causa...



... ou o país que, preguiçosamente, estupidamente, se alheou de tudo o que é aqui referido ao longo destes anos, com responsabilidades acrescidas para os militantes do PS?

quinta-feira, 20 de novembro de 2014

terça-feira, 29 de janeiro de 2013

Alberto Gonçalves em grande forma




(imagem obtida aqui)


Duas crónicas suas, no DN (respectivamente aqui e aqui):





Quem se esquece do PS?


À semelhança de boa parte dos portugueses, as trapalhadas internas do PS interessam-me tanto quanto um concurso filatélico. Aliás, reconheço nem saber ao certo de que trapalhadas falamos. Parece que a impopularidade do Governo e uns pulinhos difusos nas intenções de voto convenceram o dr. Seguro de que chegara a sua hora. Parece que os herdeiros do eng. Sócrates, entusiasmados pelos mesmos peculiares motivos, querem remover o dr. Seguro e colocar alguém "confiável" no seu lugar. Parece que António Costa, cuja enorme relevância começou anteontem a ser inventada, é a escolha "natural" dos socialistas que se afirmam alternativa à austeridade. Conforme avisei, a coisa é de facto aborrecida. Excepto para um psiquiatra.


Fora do manicómio em que os políticos indígenas cirandam, os estragos causados nos últimos anos bastariam para erradicar o PS do mapa político. Dentro do manicómio, o PS não apenas se acha no direito de reclamar o retorno antecipado ao poder como julga mais provável consegui-lo na exacta versão que, de desastre em desastre, o levou a perder esse poder. O dr. Seguro, faça-se-lhe a honra, quis mostrar-se envergonhado das proezas do partido e, sem grandes resultados, tentou disfarçá-lo sob o verniz da responsabilidade. O dr. Costa não tem vergonha nenhuma e, se o pernicioso regresso aos mercados não lhe trocar as sondagens, pondera apresentar-se às massas enquanto o orgulhoso representante dos desvarios que condenaram as massas a apertos sem fim à vista. Se nada garante que tamanha extravagância vá longe, a sua mera plausibilidade é suficiente para recear a falta de memória e de juízo do bom povo.


Mesmo no futebol, que não será um universo particularmente lúcido ou vital, é difícil imaginar os sócios do Benfica ansiosos por devolver à presidência aquele fulano que costuma gravitar entre os luxos de Londres e a cadeia. Na política, porém, é teoricamente possível reabilitar com leveza o sicrano que, após reduzir uma população à penúria, experimenta, alegadamente a expensas da família e da banca, as delícias de Paris (mas não, salvo seja, a cadeia). Os apóstolos do sicrano andam desejosos de terminar o lindo serviço que iniciaram, e o próprio já é um nome "óbvio" para Belém. Um país assim dá sempre vontade de rir. Mas raramente dá vontade de habitar.


American idol

Foi exemplar a hesitação de Barack Obama quando, na tomada de posse, tropeçou ao pronunciar o nome do próprio país. É difícil falar em Estados Unidos se, além de cientificamente duvidoso (a referência dogmática ao "aquecimento global" caiu ali a que propósito?), o discurso que o Presidente terminara minutos antes constituiu uma tentativa de inventariar motivos de divisão e conflito internos.



Escrevo "tentativa" porque aludir à discriminação sofrida pelas mulheres, pelos homossexuais e pelos imigrantes soa um bocadinho a anacronismo ou a erro geográfico. Poucas nações exibem os índices de igualdade de género dos EUA. Raríssimas nações são tão progressistas no tratamento legal (e informal) dos homossexuais quanto os EUA. E, em última instância, decerto nenhuma nação acolhe "naturalmente" os estrangeiros como os EUA, aliás definidos em larga medida por esse milagre de integração.




Não digo que, hoje e sobretudo ao longo da História, o milagre estivesse isento de obstáculos. Digo que exagerar as diferenças num momento destinado à coesão demonstra o tipo de estadista que Obama é: um delegado de cliques e parcelas, para quem as políticas de "identidade" têm precedência face ao mundo real. O mundo de Obama não é habitado por indivíduos, mas por grupos que o elegem ou abominam e aos quais ele se preocupa em servir ou alienar. Não custa prever que o segundo mandato reforce a tendência insinuada no primeiro: os estados já estiveram de facto mais unidos. Vale que a partir de agora falta cada vez menos para a reforma de um objecto de veneração e um sujeito que não a justifica.

sábado, 6 de outubro de 2012

Perplexidades - 2


Aquele discurso do Costa que é presidente da CML terá sido escrito por ele ou pelo secretário-geral do PS? E foi para dar nas vistas, aproveitando a ocasião? Ou para dizer que o 5 de Outubro é dele? Ou que a República é dele? Ou do PS?

terça-feira, 26 de junho de 2012

COMO??!!



(imagem recolhida aqui)

Diz-se aqui:
O Tribunal Criminal de Lisboa acabou de dar como provados todos os pontos da acusação contra o deputado socialista Ricardo Rodrigues e condenou-o por um crime de atentado à liberdade de imprensa. O deputado apanhou 110 dias de multa e tem de pagar 4950 euros ao tribunal.
O Expresso contactou Ricardo Rodrigues. O deputado disse-nos que pensa recorrer da sentença, pelo que só a comentará depois de transitada em julgado. 
Em abril de 2010, durante uma entrevista que decorria numa sala da Assembleia da República, Ricardo Rodrigues 'perdeu a cabeça' com uma pergunta sobre o seu envolvimento num caso de pedofilia nos Açores. O deputado levantou-se e pôs no bolso os dois gravadores que estavam sobre a mesa.
Ricardo Rodrigues foi tão rápido que os jornalistas da revista "Sábado", Fernando Esteves e Maria Henrique Espada, nem deram pela falta dos gravadores. Quando repararam, ainda confrontaram o deputado socialista, que recusou devolver o material. Mas Ricardo Rodrigues esqueceu-se de que a entrevista estava a ser filmada e as imagens foram divulgadas no site da revista e pelas televisões.
O deputado socialista, que é o representante no Parlamento no Centro de Estudos Judiciários, foi acusado pelo Ministério Público de atentado à liberdade de imprensa. Em tribunal, Ricardo Rodrigues alegou que as perguntas que lhe estavam a ser feitas eram ofensivas e alegou o direito à ação direta para se defender.

Pergunto:
- como pode o PS manter como militante alguém com o nível ético deste indivíduo, sem implicitamente se identificar com ele?
- como pode a AR tolerar, sem se rebaixar ao mesmo nível, que alguém como o sr. Rodrigues diga representar qualquer cidadão português?
- como podem os portugueses ficar calados perante isto, sem se sentirem responsáveis pela sua própria extinção?