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sexta-feira, 21 de dezembro de 2012

Dize tu direi eu





Dizia Fernando Pessoa:

Entre as várias superstições verbais de que se alimenta a pseudo-inteligência da nossa época, a mais vulgarmente usada é a da "opinião pública". E, como acontece com todas as superstições que conseguem deveras enraizar-se mas que não conseguem tornar-se nunca lúcidas, este critério instintivo respeitador da opinião pública em palavras (porque sente que há por detrás da frase uma realidade), mas pouco respeitador dela em actos (porque não sabe definitivamente que realidade é essa), é ao mesmo tempo o esteio e o vício das sociedades modernas. (...)

Todos nós sentimos, qualquer que seja a nossa política que, em resultado, toda a política, para que não seja mais do que um oportunismo de egoístas, tem de se conformar com a "opinião pública", com a pressão insistente de uma opinião geral. Todos temos a intuição, natural ou adquirida, de que uma nação vale o que vale a sua "opinião pública"; porque, como essência de uma política estável e fecunda, consiste na sua conformação com a opinião pública, pressupõe-se, na nação em que tal política é possível, um estado da opinião pública que persistentemente compila os políticos, os governantes, sob pena de deixarem de o ser, a conformar-se com as suas imposições. (...)

O que precisamos, portanto, de determinar para que devidamente nos orientemos no assunto, é, primeiro, que espécie de cousa é essa "opinião pública", com a qual uma política fecunda tem que se conformar, se essa "opinião pública" na verdade coincide com a "opinião das maiorias"; se essa "opinião pública" (...) pode ser manifestada pelo sufrágio; e, segundo, em que princípio, em que regras, assenta, por que processos se produz, essa "conformação" da acção dos governantes com a "opinião pública", qual a maneira por que na verdade a interpretam ou servem, e não apenas dizem servi-la e interpretá-la.

in A Opinião Pública, Editorial Nova Ática



Diz, por sua vez, João César das Neves, no DN:


O fascínio das redes

Ultimamente, surgiu no nosso debate político-cultural um novo protagonista: as redes sociais. Com frequência se ouve citar o que elas pensam sobre pessoas e assuntos. Em geral, pensam mal. É interessante debruçar-nos sobre a razão da sua influência e credibilidade.

Grande parte do prestígio vem sem dúvida da novidade e fascínio tecnológico. Facebook e afins são criações recentes e brilhantes que, como todas, prometem mudar o mundo. Depois o mundo acaba muito parecido ao que era, e os mesmos que apregoaram a revolução vêm repetir desanimados que anda tudo sempre na mesma. A verdade é que o avanço nem foi drástico nem vácuo. As coisas vão melhorando e o progresso é uma evidência, embora o essencial permaneça.

Mas a especial reverência que por isso se concede à opinião das redes sociais não faz sentido. O meio tecnológico pode ser sofisticado, mas quem o usa é o mesmo tipo que era antes. A qualidade da análise e a profundidade das considerações não melhoram por se passar do pombo-correio ao telégrafo ou do telefone à Internet. Aliás, a haver algum movimento, é negativo, pois quando a comunicação era cara e difícil as pessoas tinham mais cuidado com o que diziam. Naturalmente a baixa do custo da informação beneficiou sobretudo o disparate, de menor produtividade.

Outra razão porque se admira as redes sociais é, alegadamente, por através delas falar directamente a voz do povo. Nos jornais e televisões temos a opinião de políticos, intelectuais, jornalistas e comentadores, mas nas redes é a própria população que se exprime. Esta é uma ânsia de milénios, com democracias e ditaduras procurando saber o que realmente sente a opinião pública. Os métodos utilizados para chegar a esse desiderato foram múltiplos, mas temos de dizer que este é um dos mais fracos. Primeiro porque, precisamente devido à sofisticação tecnológica, não se pode dizer que as redes sociais sejam um instrumento privilegiado dos pobres. Pelo contrário, é uma actividade típica de ociosos tecnicamente refinados, porque as pessoas ocupadas andam envolvidas na verdadeira vida social e os cidadãos comuns, mesmo quando os usam, não sabem explorar as possibilidades desses programas, ficando-se pelo trivial.

Talvez o aspecto mais curioso seja o fascínio que tantos sentem pelo poder desses mecanismos, invocando como prova definitiva as manifestações espontâneas promovidas através das novas tecnologias. Cada vez que surge um evento, das reacções ao atentado de 11 de Março de 2004 em Espanha aos recentes protestos de 15 de Setembro por cá, há quem venha garantir que tais fenómenos mostram um novo poder. Apesar de serem coisas que, para não recuarmos mais, Marat e Desmoulins conseguiam sem dificuldade usando os velhinhos panfletos da Revolução Francesa. A técnica melhora, mas o essencial permanece.

A última machadada no mito das redes sociais vem do facto de elas só conseguirem realmente marcar a actualidade quando jornais, rádios e televisões lhes dão destaque, o que aliás acontece muito menos do que a jornalistas e comentadores. Deste modo, elas estão na mesma posição que todos os outros. Pior ainda, como se pode determinar o que pensa uma rede? Se elas fossem realmente a voz do povo, então comunicariam uma cacafonia de miríades de opiniões. E é precisamente isso que se verifica. Deste modo, quando a comunicação social fala da "opinião das redes sociais", está realmente a criar uma ficção, confundindo uma parte com o todo. Pior ainda: como ninguém dá a cara pelo que é dito, no parecer anónimo domina a irresponsabilidade e a atoarda. Não admira que nunca se ouça as supostas redes sociais dizerem coisas ponderadas, serenas, construtivas.

As redes sociais são um instrumento maravilhoso. Passadas as tolices inevitáveis da euforia inicial, serão tão úteis como o correio, o telefone, a imprensa ou os clubes. No entanto, para isso é preciso que vigore nelas o mesmo critério de verdade e bem da vida comum. Uma opinião não é atendível por ser tecnológica, mediática ou popular, mas justa e válida.

domingo, 11 de novembro de 2012

"A Oeste nada de novo"



(imagem obtida aqui)


É este o título da crónica de Alberto Gonçalves, no DN, que transcrevo de seguida:


O extraordinário não é que António José Seguro se afirme "preparado para governar", nem que o faça sob o divertido argumento de que o "investimento" público garante o crescimento económico.


O extraordinário é que, se as eleições se realizassem hoje, o PS do dr. Seguro e os argumentos do dr. Seguro sairiam muito provavelmente vencedores. Já chega de culpar os políticos pela desgraça do País: o País desceu a isto por culpa do bom povo. Crise de representação? Nem vê-la. Feitas as contas, os nossos representantes representam-nos com esmero.

É preciso notar que o eleitorado, ou pelo menos a parte do eleitorado que pesa, não está descontente com os senhores da coligação do poder por estes terem demorado ano e meio a iniciar, segundo consta, um esboço de reforma estatal. O eleitorado anda irritado porque o Governo vem aumentando os impostos para evitar bulir no Estado. Quando, e se, bulir, o eleitorado andará irritadíssimo. Poucos são os que desejam reformas, "refundações" ou mudanças: milhões de criaturas sonham com a imobilidade absoluta, mesmo após constatarem que essa imobilidade possui um custo que, a pronto ou habitualmente a crédito, não poderemos continuar a pagar.

Paradoxal? Os paradoxos não nos atrapalham. É por isso que enquanto nos queixamos da crise estamos dispostos a legitimar nas urnas o exacto partido que apressou a crise e as exactas alucinações que tornaram a crise obrigatória. Como o maluquinho que volta a enfiar o dedo na tomada depois de cada choque, uma impressionante quantidade de portugueses não aprende. E é duvidoso que venha a aprender.

A verdade, que quase ninguém admite para não ferir susceptibilidades, é que não percebemos a razão de acontecer o que nos acontece. Descontados os casos de má-fé, as reacções à visita da sra. Merkel exibem o desnorte que por aí vai. Não falo dos arruaceiros, nitidamente empenhados em reinar sobre as ruínas. Falo dos bem-intencionados como Marcelo Rebelo de Sousa, que patrocinou um filmezinho destinado a mostrar aos alemães que do Minho ao Algarve há gente boa (parece que as autoridades berlinenses deitaram o filmezinho ao lixo). E falo da empresa de Marco de Canaveses que quer oferecer à chanceler um cabaz com azeite, vinho do Porto, enchidos, queijo e "outras iguarias" (suspeito que o cabaz não chegará ao destino).

Isto seria genial se o drama pátrio fosse a Alemanha supor que somos antipáticos e incapazes de produzir uma morcela decente. Sucede que o problema não é esse: o problema é precisarmos do dinheiro alemão para não nos afundarmos de vez à conta da estroinice indígena. E nada indica que o contribuinte de lá ceda à filantropia após provar um vintage da Ramos Pinto. No meio disto, sobra a sra. Merkel, suficientemente atenta aos perigos da implosão do Sul para nos amparar a austeridade e suficientemente atenta aos votantes dela para impedir que o amparo seja incondicional. E só. Se não respeitamos a realidade, é altamente duvidoso que a realidade venha a respeitar-nos. De qualquer modo, é enternecedor ver Portugal explicado por quem não o compreende.