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segunda-feira, 2 de junho de 2014

Azulejos para Madagáscar


Jules Morot


 Com a delicadeza típica dos grandes espíritos, das pessoas de razão e coração que temos por vezes a sorte de ter por amigos, dias atrás recebi uma carta do Jules Morot - há dois anos a leccionar em Madagáscar - na qual o excelente autor de "Récits du parc" me solicitava se eu não poderia vender-lhe (vender-lhe!) um cartão para azulejo para ele ornamentar a sua casa de La Jolle. No género dum daqueles que, pouco mais que há um par de anos, eu lhe dera para o seu entreposto (adega e salão de provas) bem situado nos campos perto de Tours. Sugeria mesmo se não poderia ser um igual ao que eu mesmo tenho na sala de cima da minha cabana de Arronches. É que quando ele me visitara - e que visita mais ou menos helénica foi aquela!, pois se fizera acompanhar, para além da sua esposa Julienne, de uma boa dúzia de garrafas do seu afamado tintol "Pérouse", aquele de se dar estalos co'a língua bem colocada - dizia eu, gostara do maroto do painelzito (bondade dele).

   Com fraternal sadismo, disse-lhe que não. Com efeito, porque não vendo os meus quadros (surrealista que sou, tenho este hábito, confesso que mau, de os fazer para meu próprio gozo...e de alguns amigos que iam a mostras que dantes fazia mas já não faço). Manias. Mas bom: que a seguir disse-lhe que, como me sentia ligeiramente pachorrento não lho vendia mas...lho dava. E, como me empolgara, que ia executar uma versão um pouco diferente do outro, embora seguisse o mesmo figurino e estilo. E, num exagero de doçura, que lhe ia mandar não um...mas quatro. (É que não me esquecera da semana que há 3 aninhos passei na sua mansão, onde petisquei do fino e engorlipei do bom, sempre tudo posto num ambiente fraternal com que os franciús que se prezam, acho eu, gostam de acatitar convivas).

  Foi nessa altura que ele me deu, para que eu o traduzisse, um dos seus poemas, que em anexo apresento aos caros confrades para aquilatarem da categoria real deste criador de vinhos doublé de professor, de gastrónomo e de poeta em pleno. 

  E fiz seguir os cartões. No fundo o privilégio era meu. E não digo isto a reinar!



   (... Em meados do próximo ano lá os irei contemplar, estes filhos emigrados (como muitos portugueses dest'época algo surpreendente...).



     E, o que será muito melhor, enquanto ambos os dois, mais a Julienne anfitriã de brios, degustarmos calmamente assim umas coisinhas deliciosas. Evohé!


   
O URSO GANIMEDES
Ele levanta-se
coitado dele
e nós sentimos aquele arrepio inquietante
da sexta-feira ligeiramente escura
Cristãos comunistas desportistas consumidores de alcachofras
e mesmo outros de crânio em silhueta contra a luz da lua
no meio do frio glacial do continente antártico
se bem me entendo  financistas agentes de câmbio
comerciantes  ruidosos alunos de artes polícias
personagens que fazem navegar os barquinhos nos tanques dos seus
jardins da infância
Velhos capões
Notamos dizia eu  ou melhor    notam vocês os que
ainda por aí têm sonhos
a sua poderosa silhueta de comedor de bagas de zimbro
de fruta da época se a conseguia apanhar   
de uma perna descarnada de montanhês
nos tempos da grande solidão feliz
 O urso que outrora ia de Somner Valley a Livington pelo meio
das gramíneas das faias das nogueiras até às primeiras encostas
da grande montanha verde e negra

                                  ***
O meu urso
suave como um lilás
como um carvalho das Ardenas
sem saber ler sem saber escrever
O de muito perto da terceira subida nas Rochosas
ou mesmo da quinta ou da sétima
lá onde havia entre os abetos seculares um pequeno
lago sonolento
e se dizia que por ali emigrantes antigos tinham rebentado
no inverno coloquial de Wyoming evocado em Toulouse

Aquela senhora conferencista de boa perna dava-me volta ao miolo
Até me fazia sentir câmbrias

de Santa Fé a Colorado Springs
o meu urso  meu é claro ainda que de mil transeuntes contentinhos
Aquele que virando a cabeça   erecto   nos faz recordar o Quaternário
na sua imensa estrutura de velha fera indolente.

O Ganimedes
calmo empregado entre funcionários engravatados
pensa que pelas ruas faria dar gritinhos às raparigotas sem cuecas
a moda mais na moda de agora   imaginem vocês
a sua companheira ursa perdida com a barriga ao léu
                                    
                                          ***

Ganimedes
No Zoo parisiense ele é um senhor cheio de categoria
mau-grado o seu silêncio habitual
chegam a atirar-lhe maçãs   muitos lhe lançam
amendoins ou nozes de Agosto
e avelãs e até um maço de cigarros amarfanhado

O meu urso
Primo do meu primo Ribonard e dum grandalhão
mais tosco que a rocha Tarpeia
taberneiro merceeiro em La Jolle  onde eu ia com o tio Lenôtre
comprar botas de caçador de perdizes
de cigarrinho mais que malcheiroso sempre ao canto da bocarra
sempre ensopado em branco e aguardente barata.
Ganimedes

sob o luar e os planetas libertos aguarda o momento de estoirar.


terça-feira, 24 de setembro de 2013

SOBRE JULES MOROT




      Jules Morot, francês de fio a pavio, não podia deixar de ser um poeta que raciocina sobre a questão da escrita e da literatura que se organiza sobre aquela e, naturalmente, sobre a vida que lhe reside em torno, antes ou depois do acto.
      Sendo originário do Loire, essa - e cito - “região pacífica da exuberante paisagem, vinhas, longas praias arenosas e sapais, salpicada de castelos, solares e zonas de caça e na qual os prazeres bucólicos se misturam com a fruição de cidades fascinantes”, um pouco desse rincão encantado lhe percorre o que pensa, o que escreve, o que inventa.
      Assim sendo, é natural que se detecte nele um fundo mágico que o lança em composições nas quais tenho percebido duas coisas fundamentais: o amor à natureza e ao pensamento especulativo (o que se me oferece, por exemplo, nos seus poemas “O besouro” e “Mozart” dados a lume na DiVersos nº 7 -  revista de poesia e tradução).
   Creio que o trecho que aqui vai, extraído do seu “La chambre engloutie” (inserido na sua obra mais recente) do mesmo modo explicita o seu mundo interior, vazado numa afirmação que afinal é interrogação sistemática mediante os ítens que o enformam e que, ao cabo, reflectem o homem e o autor fascinado ante os mundos de baixo e de cima – que o mesmo é dizer os do espírito e os da luminosa materialidade.
                                                                                                                         
INTRODUÇÃO - O Regresso

    Eu chegava de Besançon.
  Era um dia de chuva miudinha de meados de Março e no largo da estação tomei um táxi da fila que aguardava passageiros. A imagem de “O marido da cabeleireira” perpassou-me na mente ao efectuar o acto tão simples de entrar no automóvel. Logo a seguir recordei o que a personagem dizia antes de morrer: “Todo o meu passado desapareceu contigo”. E toca, brrrr!, de se lançar às águas do rio.
  Mandei seguir para a Praça Lebrun, que fica perto da rua Lepic onde se situa o meu sóbrio apartamento de solteiro. O motorista era magro, de cabelo escuro, bigode à inglesa, tipo de  belo tenebroso.  Notei que  depositara  no  banco do lado um livro qualquer – mais me parecera um caderno - que pude relancear fugazmente. Tanto mais estranho consoante ostentava na capa uma ilustração que me intrigou.
   Ao passarmos nas imediações do parque Monceau soltei uma pequena imprecação. E disse de imediato: “Esqueci-me dos cigarros, raios!”. Então, num gesto entendível, debrucei-me ligeiramente e passei-lhe uma notinha de 20 francos. Ele encostou o carro perto do espaço dos jogadores de bolas deserto àquela hora, pois percebera que a demasia lhe estava destinada. Enquanto ele se dirigia ao quiosque, num gesto rápido e decidido peguei no livro-caderno. E compulsei-o sem demoras.
  Era um manuscrito. Com entradas, que me pareceram reflexões. Li um par de linhas. Vi que o nome posto ao alto da primeira página correspondia ao do taxista na pequena placa identificativa do “tablier”. Sem alardes, como faria o Arsène Lupin, meter o manuscrito no bolso interior da gabardina e recostar-me serenamente foi uma naturalidade que não me levou 3 segundos. Um taxista escrevente! E o par de linhas mostrara-me que o meu rapinanço (pois se tratava dum delicioso roubo) fazia sentido. Aconcheguei mais ao queixo a gola da sebosa, para disfarçar melhor o meu trombil. Ele durante uns minutos não notaria a volatilização da sua menina-dos-olhos, pensaria talvez que caíra para o espaço intermédio entre o banco e a porta. E quando despertasse do engano já seria tarde.
   Ele regressou, passou-me o maço de “gauloises” e com um gesto dei-lhe a demasia.
   Nos minutos que levou a trajectória até à Praça Lebrun amodorrei sem má consciência. Ali apeei-me, paguei-lhe generosamente para compensar o amargo despertar e comecei a andar como se fôsse para a rua Vosges.
  Passei por cima da relva, no separador arborizado com que o município nos mimoseia e num cavalgar harmonioso voltei para trás em passo estugado. O coração batia-me um pouco, como se tivesse acabado de cometer um assassinato. Mas a alma entoava uma pequenina melodia.
  Levar-me-ão a mal? Chegarão mesmo a chamar-me ladrão, a cobrir-me de adjectivos pouco próprios? Eu, contudo, vejo o assunto de modo bem diferente.
  Já em casa, depois das abluções e dos momentos de nostálgica retoma do ambiente familiar, despi-me calmamente e enverguei um pijama confortável. E enquanto degustava uma colação leve mas saborosa, deitei-me à leitura.
  Estive nisto mais duma hora, entre o irritado, o seduzido, o admirado.
  Eram, com efeito, reflexões ora sobre isto, ora sobre aquilo. Coisas do dia a dia, artes, literaturas, o que se esperaria em quem tem muito tempo para locubrar nas horas de uma vida de solteiro e com uma profissão pouco compaginável, pensei, com o trabalho do pensamento. No entanto enganara-me e creio que ficara de parabéns.
  Entre esses exercícios de pensamento e, mesmo, de crítica com certa penetração, ia contudo assomando, mesmo ressaltando, uma espécie de história delineada pelos breves diálogos entre duas personagens identificadas apenas pelos apelidos: Barre e Cibaljet.


***

   


(...)

 "Cibaljet repôs o livro na prateleira de cima duma das altas estantes em madeira encerada de cerejeira. Com um sorriso ameno disse para Barre, enquanto vertia nos copos uma generosa porção do líquido contido na garrafa de cristal facetado: - Na adolescência fui muito suscitado pelo catorze. Era um número que, não sei porquê, me despertava curiosos pensamentos. O sete duas vezes, o sete para um par de enamorados ou de companheiros, ou de inimigos...  
  Quando me tornei adulto, foi o quarenta e seis...
  É um número de grande poder, o quarenta e seis - disse Barre suavemente.Tem razão - redarguiu Cibaljet com um sorriso - É o sete multiplicado seis vezes e, depois, adicionado do quatro. Ou seja: da terra, da água, do ar e do fogo. "


***

  "Senti isso uma vez perto de Claremorris, no País de Gales, quando se começa já a descer até aos prados de Ballinrobe - disse Cibaljet entre duas puxadelas do havano - A sensação de que estamos longe, muito longe...como se fôssemos outros e nada nos prendêsse ao que fômos.
  Entendo! - redarguiu Barre com uma expressão sonhadora - Tive a mesma experiência certa noite junto ao Bósforo, quando ainda não me decidira a deixar a velha Europa...
  Você acha que a sensação é muito habitual, pelo menos em viajantes experimentados e decididos, com uma boa qualidade de conhecimento de estradas e lugares? - tornou Cibaljet passando-lhe o frasco viajeiro de aço recoberto de couro onde a bela aguardente das Cevènnes esperara a sua vez.
 Ora... - disse Barre na sua voz de baixo a que um leve tom de barítono emprestava um timbrezinho peculiar - Tenha em conta que a maior parte dos mortais com ou sem qualidades próprias de caminheiros se limitam, a não ser que haja milagre, a deslocar-se para aqui ou para acolá como se um vento os levasse..."


***

  “Já não me recordo quem teria dito a frase “Foge de alguns, foge de um, foge de todos” - disse Cibaljet passando a Barre a tábua onde um belo naco de Brie exalava o seu perfume sedutor para gastrónomos encartados – E quem teria dito, diabos levem a memória, “O companheiro Deus se quiser existir que exista” ? Puxo pela cabeça e por mais que tente não me consigo recordar...
  Sim, esses lapsos são apoquentadores em extremo – redarguiu Barre com um fino sorriso, untando a fatia de pão com deleite e vasando nos copos um Chandelle que estava mesmo a pedi-las – No meu caso, há anos que tento encontrar pistas do poeta que escreveu “Cuco, és tu uma presença errante ou apenas uma voz indagadora?”. Tenho procurado em antologias, em selectas liceais, em alfarrábios...e nada! E quem teria dito “É uma cidade soturna e desencorajante. Certas pessoas deviam entrar directamente do hall para o páteo e nunca lhes deveria ser franqueada a sala” ?
  Por mim sou um homem confiante – tornou Cibaljet entre duas mastigadelas – Ainda não perdi a esperança de conseguir lembrar-me de quem foi que disse “A vida é um mistério e não um delírio”.
 Barre pousou o copo. “Sabe - soprou de mansinho – quando era garoto um parente meu dizia que a memória atraiçoa frequentemente os que comem muito queijo...
  E talvez seja verdade... – disse Cibaljet servindo-se de outra generosa porção do Brie que restava na tábua – Será um caso de sabedoria popular...
  Mas nenhum deles sorriu.”


***

  “Meu caro Barre: ontem, na rua do Tivoli, encontrei um alquimista. Não se ria, essa qualidade existe. Acontece que por uma subtil concatenação de factos esse homem é meu vizinho e tive oportunidade de lhe prestar um pequeno obséquio que o dispôs a meu favor. É um indivíduo inteligente e desembaraçado, com um vago ar de distância indefinível que, contudo, não o apouca.
   Após vários anos de contacto fortuito, eis que confiou em mim. Contou-me uma história surpreendente.
  Como não saberá, mas aqui fica a revelação, os adeptos que atingem a iluminação não precisam daí em diante de comer ou beber e consequentemente de eliminar os resíduos líquidos ou sólidos. Habitando vinte anos atrás um solar isolado das redondezas, entregou-se a uma curiosa actividade: esteve 4 meses sem sair do seu quarto, imóvel numa poltrona e lendo incessante e interessadamente as obras de Vítor Hugo. Entre um e outro livro, dormia a sono solto para se distrair com os sonhos. Depois, recomeçava.  
  Os músculos não se atrofiavam pois as células corporais, nessas pessoas, mantêm a elasticidade. Quando chegava ao fim dos tomos, reflectia sobre as qualidades e defeitos da Obra do mestre. Adquiriu assim a certeza de que a leitura roda no espírito humano como um planeta o faz à volta do Sol.
  Vai dentro em breve recomeçar o mesmo périplo, desta vez com as obras de Balzac. Para isso isolar-se-á numa vivenda que descobriu nos arredores do Languedoc, no cimo duma colina e no meio de um bosque fora dos circuitos de quem quer que seja. Estará nisto, segundo prevê, 8 meses seguidos. Depois, será a vez de Homero, de Dante, de Borges, de John O'Hara, de outros mais. Dará aí para coisa de 4 anos. No entanto, desta vez acompanhará as leituras com intervalos durante os quais, cozinheiro emérito em que se tornou por gosto e sensibilidade gastronómica, preparará pratos sumamente apetitosos conforme a sua disposição do momento.
  Disse-me que um dia, em meio às suas leituras futuras, já os homens terão chegado a um planeta habitado fora do nosso sistema solar. Sairá então, com o intuito de renunciar à leitura dos clássicos e votar-se a passeios incessantes durante os quais ordenará na sua cabeça todas as páginas que leu.
   A solidão não o assusta. A única coisa que parece preocupá-lo um pouco é que, entrementes, uma catástrofe nuclear aniquile a nossa velha Terra. Eu disse-lhe que deveria começar a pensar em manobrar de forma a que os governos que se interessam pela aquisição atómica não tivessem esse ensejo.  
  Uma vez que dispõe de incomensuráveis possibilidades, já de tempo já de sabedoria, isso ser-lhe-á possível a meu ver.
  Ele olhou-me fixamente durante uns segundos e depois respondeu: “Saiba que mesmo a nós é extremamente difícil inflectir a loucura dos homens. Já outros antes de mim o souberam. Confiemos antes nas leis do acaso”.
  Despedimo-nos à porta do edifício que ambos habitamos, em andares diferentes.
   Agora  estou sentado a ouvir uns trechos de Brahms, enquanto lhe escrevo.  Jantei costeletas grelhadas com um fiozinho de molho inglês para acertar a preparação. Sinto, contudo, uma leve inquietação que não consigo definir se vem da conversa ou do leve zumbido que algures soa vindo do apartamento do lado, onde reside aquela morena de que não sei se já lhe falei.
  Até que nos encontremos.
  Cibaljet”

 ***

  “De cada vez que ouço Stravinsky ou leio Maupassant sinto sempre que alguém foi demasiado longe. Há autores que nos deslumbram e outros que nos sufocam. E o mais grave é que ambas as coisas podem ser suplementares.  Nunca consegui ler mais do que três contos de Maupassant de uma vez só. E nunca consegui ouvir Stravinsky durante um inteiro quarto de hora. O pássaro de fogo põe-me todo a tremer. Tal como sucede com O colar de Maupassant. A meu ver existe algures, perdida no meio dos séculos e das coisas, dos acontecimentos e das descobertas, uma lógica inquietante que ainda não foi avaliada. Algo para além das frases e dos sons. Tem-se a impressão que certos autores tocaram com o dedo nu o mistério da espécie... - regougou Barre em voz cava
   Junto da janela, Cibaljet olhava atentamente para fora. Traçava, distraidamente, figurinhas no vidro embaciado com a mão direita, enquanto a esquerda levava aos lábios, intermitentemente, o charuto já meio fumado.
   Vem aí uma forte pancada de chuva... - disse enquanto se virava e apanhava o cálice de “Napoléon” da mesinha de mogno envernizado - O céu está negro ali para Norte...Vai ser de escachar!
   Barre inclinou-se e, duma pequena taça de cerâmica com arabescos, tirou uma boa porção de amêndoas torradas.
   Gosto da chuva quando cai numa tarde assim de princípios de primavera, como esta – afirmou com um leve suspiro.”


***

  “Lacordaire ultrapassa em muito a sua própria lenda. Nisso está nos antípodas de Stevenson, cuja lenda é do tamanho da sua vida vivida. Não é fantasia e sim realidade o facto de que escreveu “O médico e o monstro” de rajada, horas depois de ter tido um sonho onde lhe foi oferecida a imorredoira história. - E, dizendo isto, Barre estugou o passo ao longo da álea que bordejava o canteiro de flores diversas e multicoloridas.
  Sim, mas só até à segunda transformação. Daí em diante teve ele de inventar – retorquiu Cibaljet com um leve sorriso enquanto, tomando Barre pelo braço, o encaminhava na direcção da pérgola um pouco mais adiante.”


***

   “Caro Cibaljet: Contaram-me ontem que Marcel Proust deixou algures, de acordo com um dos seus melhores exegetas, dois livros inéditos. A meu ver trata-se de não mais que um boato vago, talvez incrementado por um editor voraz e arteiro com o intuito de despertar uma nova curiosidade pelas obras já existentes. Mas e se fôr verdade? Que novas visões isso despertará, não acha? Críticos, leitores, simples observadores, andarão à porfia durante sei lá que tempo em roda da obra do aristocrata mais socialista de França. E já me revelaram que se trata de um diário e de cartas confidenciais.  Que bico de obra, que bela jornada para duas ou três épocas!
   Gostaria de ouvir a sua opinião. Até domingo próximo e os meus respeitos à senhora sua Mãe.
   Barre”


***

   “Meu caro Barre: A meu aviso trata-se de um boato, desses que surgem ciclicamente na nossa sociedade hiper-literária. Ou, melhor dizendo, sofisticada pelos piores motivos. Mas sempre lhe digo que, a ser verdade, teria importancia apenas nas vendas e nos fins-de-mês das livrarias. E daria durante um lustro pano para mangas aos batalhões académicos da especialidade, mas nada mais. Quando um autor está morto, fisicamente morto e várias décadas passaram sobre a sua desaparição da cena, transforma-se em História com todas as consequencias que se conhecem. Nada mais modifica, quando muito suscita um arrepio intelectual e algumas paixões de segunda ordem.
   Assim, se por exemplo um autor, trinta anos passados sobre o seu último livro, anunciar que vai publicar um tomo de inéditos que lhe haviam escapado, arriscar-se-á a passar por velho relho à guisa de plagiador da sua própria obra.Tanto mais que, entretanto, apareceram novos ritmos, novas maneiras de indagar os séculos e o século, um novo olhar sobre a escrita.
   Infelizmente e creio que digo bem, a literatura é um pouco como as bananas, que devem ser consumidas na hora. A novidade, tanto quanto me parece, advém-lhe sempre de novos relances, de leitores sucessivos, não de descobertas materiais.
   Seja como fôr, a ser verdade, creia que estarei como um dos primeiros compradores dessa iguaria, tanto mais que a frequentação das velhas glórias é uma das características de que não abdico. E, além disso, qualquer página de Proust é no fundo como se tivesse sido escrita mesmo agora, o que contradiz absolutamente tudo o que lhe disse atrás.
   Até domingo, pois. E uma saudação respeitosa a seu Tio.
  Cibaljet”


***

   “E esta é uma das peças que me chegaram ontem – disse Barre assim que entrou, sustendo cuidadosamente nas mãos uma peça de cerâmica de côr esverdeada, com pequenos elementos abstractos, que Cibaljet logo se apressou a contemplar tão-logo foi deposta sobre a toalha que cobria a mesa no centro da pequena sala -  Ainda nem sequer a coloquei junto de outras irmãs de outras civilizações. Não é uma beleza?
   Cibaljet, sem a levantar, rodou-a cuidadosamente, quase com ternura. Olhava-a como que extasiado. Virou-se e olhou Barre com unção.
   Tão simples e no entanto tão bela! - afirmou - Olha-se para isto e quase se ouvem os sons do passado em que esta peça foi um elemento do dia a dia. Posso quase ver os que dela se serviam, o camponês comendo nela o seu alimento enquanto olhava os filhos e a mulher, ou enquanto sentado à porta de casa olhava os longes da floresta na tardinha que chegava. Os sons dos animais que começavam a ouvir-se na noite nascente...
   Neste caso – disse Barre com um trejeito, contudo assaz delicado – temo que se engane: é um exemplar, muito bem conservado, das taças ou tigelas, conforme queira, em que os participantes no rito maia bebiam o sangue da vítima propiciatória que o sacerdote acabara de degolar.”
                                                      
  (...)

in O quarto submerso, de Jules Morot
Trad. nicolau saião



sábado, 15 de junho de 2013

O jogo de janelas do cantor


(imagem recolhida aqui)

     Por vezes, nas minhas horas e tanto quanto me recreio no youtube das músicas, vagamundeio por aqui e por ali à guisa de um apreciador relativamente nostálgico de melodias de antanho mas também do momento que passa - e nós com ele.
  
    Os Moody Blues, os Scorpions (com os seus trechos notáveis, respectivamente "For my Lady" e "Send me an angel" entre outros de fecunda traça) além de coisas de grande nível como as composições de Rick Wakeman, Olafur Arnalds e, sem ser redundante e ao correr da lembrança, Cimarosa, os Dire Straits, Pierre Henry...

    Mas agora a música é outra. Com efeito, neste envio de hoje relanceio - ainda que de forma necessariamente breve -  um livro, saído tempos atrás e ainda com lançamentos públicos em várias localidades, de um alentejano de gema meu conhecido de há largo tempo que se abalançou noutra disciplina criativa.

 Mas aqui fica o alvitre: visualizarem/ouvirem esta "Romanzeira", canção com que participou no Festival da Canção de 99.



  Até à próxima semana, com os abrqs e bjh proverbiais.


 PScriptum - Em próximos envios: "Palavras escritas de um professor", "Imagens que me chegaram pelos tempos", "As paredes de C.Ronald", "Louvor de Cruzeiro Seixas", entre outros..




O Jogo de Janelas do Cantor
                       
Nicolau Saião, A música

    Francisco Ceia tem sido, preferencialmente, cantor e homem de teatro. A sua biografia encontra-se, pode encontrar-se, na rede e em lugares da mesma traça com anexos em DVD e outra - como costuma dizer-se – soma de pormenores.

   Mas não é a isso que agora vou, espero que adequadamente, reportar-me.
  
   Com efeito, este pequeno bloco tem a ver com outra circunstancia que não tomaria como fortuita ou, mesmo, subsidiária.

  Visto o interesse que o autor pôs na sua efectuação – já pela edição em si, já pelo cuidado posto na sua divulgação que foi acompanhada de actuações – percebe-se que FC tem esta sua nova feição como fundamentada, diria mesmo nuclear e pelo menos paralela àquelas outras apontadas no início deste trecho.

   E assim foi que este músico por extenso, congregando muito naturalmente um trabalho de diversos anos, deu recentemente à estampa um livro – razoavelmente volumoso e tocando em diversos pontos da sua experiência pessoal como homem de palavras (é um cantautor, também e como decerto saberão) e do que o lirismo lusitano repercute nele – intitulado “Jogo de Janelas”, que excursiona pela inflexão poético-memorialística, sendo a poesia do hacedor, como no fundo é sempre, uma viagem pela memória própria visando tocar as memórias vivenciais dos outros (que é esse o veículo da partilha, da comparticipação que une autores e leitores).

    Janelas são lugares de onde, por onde, se pode aceder ao universo das imagens exteriores, mas também das concepções que lhe subjazem, das propostas que lhe estão inerentes e, por tudo isso, que situam quem as abre num plano privilegiado para observar o tempo – o que foi, o que é e o que irá chegar – num jogo incessante e ainda que fragmentado de reflexões e de desejos que estão somente dependentes da capacidade com que aquele que contempla, que simultaneamente as abriu e nelas se consubstancia, efectiva com maior ou menor justeza mas sempre filha duma liberdade que se auto-concedeu na busca de uma apropriação bem cimentada.

    O discurso poético de FC, que se inicia formalmente com textos enunciados duma maneira habitual  - estrofe seguindo estrofe, à guisa do que Tomás de Figueiredo usou fazer no seu longo poema “Viagens no meu Reino” (parente próximo creio que apenas por acaso, pois era capaz de apostar que FC não o conhecerá) – a breve trecho se vaza em compactos blocos de prosa que, sendo de facto prosa poética, não afasta as estórias que neles se contêm -e que o leitor facilmente apreenderá no decorrer da sua incursão através das páginas que as janelas lhe oferecem e que, realce-se, possuem dentro o timbre do cantor que Francisco Ceia continua, mesmo num livro assim dado, a ser.



                         
  
“(…) Eu, a ver o caldo entornado, bem agarradinho à tigela balouçante,
A voz rude do contra-mestre a insistir: Estás na lua, meu farsante?
Nunca, em tal façanha, tinha pensado, mas até não seria má ideia,
Que raio, ou vento teria de soprar, mais o fogo de quanta candeia,
Para de porto seguro, içar este casco de tábuas a ranger, céus arriba,
É pensar atrevido, para que moço da planície neste tempo, o exiba,
A emperrar tal feito, não faltariam vozes de burro e cães ladrando!
Enfeitados na gordurosa sanha de incapazes palradores, aterrando,
Todos em cortejo: Só um parvo, pretenderia lobrigar naquele vazio,
Ouro, especiarias, seda, marfim ou a precisar de cruz, preto gentio!  
Um safanão, tirou-me do delírio: Viste o demo, ó, vadio duma figa?
Vou dar à coberta, estão murchas, as velas, e o bafo que as fustiga;  
Invadiu-a uma poalha húmida que a todos embacia, da cor do leite.
Cauteloso, espreito da amurada, o mar está um alguidar de azeite,
Cirandam marujos como fantasmas, o barco estagnou prisioneiro,
Horas a fio, como se esperássemos a salvação, vinda do nevoeiro.
   Se calha, esta saga vem de mais longe, a correr na massa do sangue.
Desta feita, quem irá ser o salvador que nos liberta o peito exangue?
Só restou acesa acima dos mastros, lá no alto a candeia do mundo,
Mas não passa de um pirilampo, neste oceano branco e profundo.
Se o sol se lembrou de acordar como sempre faz, no céu admirável,
É bem grande o mistério para onde foi recolher-se, o vento amável,
Umas vezes enche os panos, assobiando alegre, as naves empurra,
Outras, dá-lhe tamanha moleza no sopro, é um anjo que sussurra,
Presos neste ardil da mãe Natureza e extraviados das outras naus,
Manda quem pode, vai de bombarda para assustar espíritos maus,
Mas qual quê, o manto branco não se rasgava, nem a aragem bulia.
Nos confins do porão, espantava-se um boi, sem saber para onde ia,
As galinhas no cacarejo, refilavam, sem disposição para pôr o ovo,
Para o casalinho de borregos de olhar morto, tudo aquilo era novo,
Até o galo ficou de trombas, por não poder o cavername balançar,
A chinfrineira aniquilava-lhe a concentração, nas alturas de galar,
Pelos vistos, não há bolina que nos acorra, nem truques de verga,
Só bruma esvoaçante, mais nada, a um palmo do nariz se enxerga,
Ô! Mestre parece mesmo que arribámos ao tranquilo mar da lua! (…)”.

(Da Janela V)
FC


sexta-feira, 7 de junho de 2013

Uma boa surpresa





   Ontem só adormeci lá pelas duas e picos da manhã.

  Por causa da febre dos fenos, por enfado de, num rasgo de tolice, ter ouvido num noticiário um salvador do povo bolsar as suas habituais inanidades que tanto nos têm atormentado?

  Nem por sombras.

  Acontece que uma hora antes captara no transístor o pivot a anunciar o programa que iria ser emitido: "Vozes da lusofonia", de Edgar Canelas. Bom, pensei eu com os meus botões do pijama, não fará talvez mal dar-me a ouvir uns minutinhos da emissão...

  Em boa, ainda que tardia, hora o fiz. Porque durante essa hora absolutamente ganha estive a ouvir, entre o encantamento e a surpresa, um cantor angolano de excepção. Acompanhado pela Orquestra Sinfónica de Londres, numa iniciativa do produtor Derek Nakamoto - que o ouvira fortuitamente e, de imediato, suscitado pela qualidade singular do artista, lhe propusera o ensejo - Waldemar Bastos apresentou trechos do seu recente trabalho (que já foi considerado internacionalmente um dos melhores discos do ano) Classics of my soul e, ainda por cima, teceu justíssimas considerações sobre a música, a arte de cantar, o seu percurso pessoal no mundo dos concertos, etc.

  Como se sabe (se sente) Portugal tem estado a atravessar uma das fases de maior mediocridade no capítulo radiofónico. Os programas são duma frouxidão, dum primarismo e duma auto-complacência que nos deixa siderados. Tudo se vai escoando p'las vias da bola, da música pimba ou desenxabida (ora pedante ora daquele romantismo lamecha) e da graçola ou alfacinhista ou matarruana, num cacharolete que, comparado com a rádio espanhola, nos desconsola, nos indigna e nos envergonha. E, como os radialistas são todos competentíssimos, depreende-se que é pecha, talvez, de epidemia societária...

 Daí que aquela hora, acompanhado pela conversa inteligente do entrevistador/realizador e pela voz poderosa do cantor, a tenha dado como muito bem empregue, como refrigério merecido e bem fruído de ouvinte que tem andado frequentemente "a apanhar bonés".

 No fim foi dito que em breve Waldemar Bastos, acompanhado pela Sinfónica da Gulbenkian, dará um concerto em Lisboa. Creio que fará sentido - e, com vossa licença, aqui fica o alvitre - ir-se ouvir este cantor angolano integrado na lusofonia.

 Não perderemos, creio, de forma alguma o nosso tempo.

 O abrqs de fim de semana


 Post-Scriptum - E, sem comentários (que me parecem desnecessários em função da excelência dos poemas que vos transcrevo no anexo) aqui vos entrego hoje o bloco referente a António Luís Moita, poeta excelso e alentejano pelo coração e pelas vivências.



ANTÓNIO LUÍS MOITA: Quatro poemas alquímicos
 seguidos de um OUTRO doado à memória




   Os poemas que a seguir se dão a lume pertencem ao livro Cidade sem Tempo, editado pelo A. e distribuído pela ULMEIRO.

   Executado em 1985 nas oficinas gráficas de Ramos, Afonso & Moita, Lda. dele foram tirados 800 exemplares, dos quais 100 numerados e assinados por ALM.

  Capa a partir de uma pintura de Alves Martins, arranjo gráfico de Fernando das Neves.

                           



    O livro está dividido em três capítulos - Do Amor; Da Morte; Das pequenas coisas - constituindo 133 páginas de texto.

   ALM ofereceu-me um exemplar no dia 24 de Março de 1990, antes do jantar com que honrávamos os convidados do programa semanal “Mapa de viagens” por mim realizado e emitido pela Rádio Portalegre das 22 às 24 horas de sábado.

   Na ocasião li, entre outros da autoria de Cristóvam Pavia, dois poemas dos que aqui se apresentam: “Reencontro: 13/10/68” e “Adepto”.

   Os poemas alquímicos, além das suas leituras e meditações próprias, reflectem o contacto do A. com Abel Teixeira, “irmão do orvalho” e seu amigo.
                                                                                                                  



                        





ADEPTO

Nunca morro da morte verdadeira
de que morrem os homens mais comuns .
Perseguido, renasço, intemporal,
sem ter morada certa nem fronteira.

De Júpiter sou filho – e do mistério.
Alberto ou Paracelso – quem me fez
sabe que nenhum túmulo me guarda
e que do amor perpétuo me acrescento.

Contudo, o Tempo dói-me. E, se não caibo
na pedra, a fonte humana me dá luz
(bebi demais no pó sanguinolento,
residual, da obra inteira, a vida).

Cumprido o ouro, louvo simplesmente,
com ele, o Pai.  Olvido-me de mim.
Nome não tenho. Nem sossêgo. Ardo.
Feiticeiro não sou, mas aprendiz.



ARIANA
                                       Ao Abel Teixeira
                        
Do pouco ou nada feito não revelo
qual o passo que dei ou que vou dar.
Do enxofre e mercúrio digo apenas
que se mordem, que mútuos se contêm,
que todo o sal é lágrima de Maio.

Poderei dizer mais: que o fogo é lento
e húmida é a via. A seca, não.
(Nunca o rápido amor me dá contento.
Nem há cultura fácil, fácil vento.
Qualquer trigo veloz sabe a traição).

Digo ainda, da via, que são sete
 as águas deste denso e longo mar.
Ao terceiro degrau já se promete
o peixe que prateia, a crepitar.
São porém as sereias. Não cardume.
O verdadeiro peixe – que é de lume –
a seu tempo virá, mas devagar.

Primeiro, há-de toldar-se em nevoeiro
o velo, vinte vezes (só morrendo
vinte vezes terríveis se renasce).
Entretanto, uma aberta: o arco-íris.
Depois, de novo, a noite, a fermentar-se.

Haverá, de manhã, menos indício
na espuma da maré, no barco estreito,
do que nos olhos puros de quem vê,
ou antes, adivinha.

- Tu,  que me segues, crê:
No ovo luz a vinha!



FULCANELLI

Ao microscópio, gotas de cristal.
Á vista desarmada, pó vermelho.
Uma pitada leve, como o sal,
um fervilhar – e eis prata o que era estanho.

Só que da mão depende o bem que tenho,
o gesto firme, próprio, sem o qual
teria tudo apenas o tamanho
que tem, antes da luz, a catedral.

Assoprador? Adepto? Não sei bem…
Sei que todo me dou, que nada espero,
que por amor somente transmutei
na semente mais viva o vil minério.

Prata quis. Prata fiz. Ouro farei
mordendo as águas turvas do mistério.



MANSÃO FILOSOFAL

Erguem-se os dedos. Crispam-se no todo.
Mas algo falta para o todo ser.
Algo que mora num dedal de fogo,
nessa palavra que não sei dizer

mas salta certa, célere, no sopro
irreprimível que de Urano vem
dar de repente vida nova ao corpo,
ceder razão ao que razão não tem.

É o dédalo negro, o labirinto,
a chave justa para libertar
no firmamento a névoa do que sinto.

Mas é também oráculo. O olhar.
O ver, sem fim, distinto, o indistinto
no desfazer da pedra tumular.


Nicolau Saião, Homenagem a Fulcanelli, técnica mista sobre cartão (80 x 140 cm)
              


Reencontro: 13/10/68
                                               À memória de CRISTÓVAM PAVIA
                                                 e de seu Pai
                                                 FRANCISCO BUGALHO
                                                 - meus amigos.


Quando o comboio surgiu
na curva do caminho
teu pai estava perto. E disse:

Não queria, meu filho, que viesses
tão cedo.
Tenho, porém, aparelhada e pronta
(oh, desde sempre!) a égua.
E, sem coleira, o velho cão te aguarda,
fiel e meigo como um sol de Outono.

Meu colo tens também à tua espera
e a força do meu braço, do tamanho
da noite e do silêncio da tapada.

A força do meu braço quis descê-la
a tempo, sobre ti, descê-la quando
imaginaste um rosto na paisagem
- rosto que, distraído, se desfez
num prado alheio ao teu.

Quis, sobre ti, descer esse meu braço
de força já não minha forte ainda.
Mas era tarde para projectar-te
em ruas mais propícias.

Quis dá-lo a tua mãe (como tu, só)
mas já não foi possível.

Quis entregá-lo a dois ou três amigos,
mas tinham compromissos
pessoais.

Mesmo assim não queria que viesses
tão cedo.
Muita coisa podia acontecer
(muita coisa acontece)
como um súbito barco, uma palavra
- glicínia, madrugada, madressilva –
para teu recomeço
e minha espera
maior.

Aguardo-te, porém.
E, comigo, o teu cão, a égua alada,
a inocente infância dessa fonte
fresquíssima, da quinta, onde bebemos
a água
única.

Regressa, inteiro, à terra iluminada,
nu de mitos, de pétalas, de pranto
e das outras humanas falsidades
(como dizias)
do mundo.

Entrega-te e regressa.
Transparente.

No fundo, desde o fundo, pelo fundo
esmaga-te em meu peito!

                               

João Garção, Pintura (lápis bougard e guache sobre cartão, 40 x 65 cm)