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quarta-feira, 2 de outubro de 2013

O POETA E OS ISLAMISTAS


(imagem obtida aqui)


Um tiro na cabeça da poesia:

Kofi Awoonor

último adeus no Quénia




  Uma perda para o mundo das letras: O professor, poeta e diplomata Kofi Awoonor, um dos mais famosos escritores do Gana, foi morto dia 21 de Setembro no Quénia no ataque ao Centro Comercial Westgate em Nairobi, no Quénia. O professor Awoonor ia participar como orador no Storymoja Hay Festival do centro comercial, que visava aumentar as taxas de literacia entre as crianças quenianas, quando foi morto no ataque.

   Foi assim que no CULTURA, excelente jornal cultural angolano dirigido por José Luís Mendonça, se noticiou o assassinato - perpetrado por terroristas islâmicos - do grande poeta e romancista africano que por seu mal estava nesse dia num local condenado pelos bandidos.

   Os islamitas abatem indiscriminadamente quem lhes caia nessa rede de acaso que o fascismo verde coloca aleatoriamente nos seus planos sanguinários.

   Não passa pois duma falácia a narrativa brutalizadora de pseudo-esquerdistas que, de forma cruel e cobarde, justificam os actos dos fascistas verdes com o pretexto de que são dirigidos contra imperialistas brancos ou ocidentais em vista a “vingarem” o que estes teriam feito há séculos.

  O terrorismo islamita é inimigo de todos os que não aceitam o fanatismo nem partilham a “justificação” ou “compreensão” dos seus actos pró-totalitários.

  É, na expressão mais lídima, inimigo da Humanidade. Urge ser combatido sem temor ou intermitências.

  Como homenagem a todos os que tombam assassinados pelos terroristas corânicos, aqui fica um poema de Kofi Awoonor também colhido no CULTURA, a quem agradecemos a notícia veiculada pois é em si uma legítima acção democrática.
  

Canção de Lamento

Dzogbese Lisa tratou-me assim
Conduziu-me por entre as asperezas da floresta
Voltar não é possível
E avança-se com grande dificuldade
Os negócios deste mundo são como as fezes do camaleão
Nas quais pisei
Não as consigo limpar
Estou no extremo do mundo,
Não estou sentado na fila com os eminentes
Mas os afortunados
Sentam-se no meio e esquecem
Estou no extremo do mundo
Só consigo ir mais além e esquecer
Meu povo, estive algures
Se me viro para cá, sou fustigado pela chuva
Se me viro para lá o sol queima-me
A lenha deste mundo
É só para os que têm coragem
É por isso que nem todos podem apanhá-la.
O mundo não é bom para ninguém
Mas estás tão feliz com a tua sorte;
Ai! os viajantes estão de regresso
Todos cobertos de dívidas.
Algo me aconteceu
Coisas tão grandes que não posso chorar;
Não tenho filhos que disparem a arma quando eu morrer
Nem filhas que chorem quando eu fechar os lábios
Vagueei por lugares ermos
Pelo lugar ermo a que os homens chamam vida
A chuva fustigou-me,
E os cepos afiados cortam como facas
Vou mais além descansar.
Não tenho parente nem irmão,
A morte declarou guerra à nossa casa;
E a grande casa de Kpeti já não existe,
Só resta a cerca quebrada;
E os que não ousavam olhá-lo no rosto
Surgiram como homens.
Como o orgulho está com eles.
Que os que já partiram tomem nota
Trataram mal a sua descendência.
Porque estão a chorar?
Alguém morreu. O próprio Agosu
Ai! Fui mordido por uma cobra
O meu braço direito está partido,
E a árvore à qual me apoio está caída.
Agosi se lhes fores dizer,
Diz a Nyidevu, a Kpeti, e a Kove
Que nos fizeram mal;
Diz-lhes que a casa deles está a cair
E que as árvores da cerca
Foram comidas pelas térmitas;
Que os martelos os amaldiçoem.
Pergunta-lhes por que estão lá parados
Enquanto nós sofremos, e comemos areia.
E o corvo e o abutre
Pairam sobre as nossas cercas quebradas
E os estranhos caminham sobre o que é nosso.


(imagem obtida aqui)

terça-feira, 24 de setembro de 2013

SOBRE JULES MOROT




      Jules Morot, francês de fio a pavio, não podia deixar de ser um poeta que raciocina sobre a questão da escrita e da literatura que se organiza sobre aquela e, naturalmente, sobre a vida que lhe reside em torno, antes ou depois do acto.
      Sendo originário do Loire, essa - e cito - “região pacífica da exuberante paisagem, vinhas, longas praias arenosas e sapais, salpicada de castelos, solares e zonas de caça e na qual os prazeres bucólicos se misturam com a fruição de cidades fascinantes”, um pouco desse rincão encantado lhe percorre o que pensa, o que escreve, o que inventa.
      Assim sendo, é natural que se detecte nele um fundo mágico que o lança em composições nas quais tenho percebido duas coisas fundamentais: o amor à natureza e ao pensamento especulativo (o que se me oferece, por exemplo, nos seus poemas “O besouro” e “Mozart” dados a lume na DiVersos nº 7 -  revista de poesia e tradução).
   Creio que o trecho que aqui vai, extraído do seu “La chambre engloutie” (inserido na sua obra mais recente) do mesmo modo explicita o seu mundo interior, vazado numa afirmação que afinal é interrogação sistemática mediante os ítens que o enformam e que, ao cabo, reflectem o homem e o autor fascinado ante os mundos de baixo e de cima – que o mesmo é dizer os do espírito e os da luminosa materialidade.
                                                                                                                         
INTRODUÇÃO - O Regresso

    Eu chegava de Besançon.
  Era um dia de chuva miudinha de meados de Março e no largo da estação tomei um táxi da fila que aguardava passageiros. A imagem de “O marido da cabeleireira” perpassou-me na mente ao efectuar o acto tão simples de entrar no automóvel. Logo a seguir recordei o que a personagem dizia antes de morrer: “Todo o meu passado desapareceu contigo”. E toca, brrrr!, de se lançar às águas do rio.
  Mandei seguir para a Praça Lebrun, que fica perto da rua Lepic onde se situa o meu sóbrio apartamento de solteiro. O motorista era magro, de cabelo escuro, bigode à inglesa, tipo de  belo tenebroso.  Notei que  depositara  no  banco do lado um livro qualquer – mais me parecera um caderno - que pude relancear fugazmente. Tanto mais estranho consoante ostentava na capa uma ilustração que me intrigou.
   Ao passarmos nas imediações do parque Monceau soltei uma pequena imprecação. E disse de imediato: “Esqueci-me dos cigarros, raios!”. Então, num gesto entendível, debrucei-me ligeiramente e passei-lhe uma notinha de 20 francos. Ele encostou o carro perto do espaço dos jogadores de bolas deserto àquela hora, pois percebera que a demasia lhe estava destinada. Enquanto ele se dirigia ao quiosque, num gesto rápido e decidido peguei no livro-caderno. E compulsei-o sem demoras.
  Era um manuscrito. Com entradas, que me pareceram reflexões. Li um par de linhas. Vi que o nome posto ao alto da primeira página correspondia ao do taxista na pequena placa identificativa do “tablier”. Sem alardes, como faria o Arsène Lupin, meter o manuscrito no bolso interior da gabardina e recostar-me serenamente foi uma naturalidade que não me levou 3 segundos. Um taxista escrevente! E o par de linhas mostrara-me que o meu rapinanço (pois se tratava dum delicioso roubo) fazia sentido. Aconcheguei mais ao queixo a gola da sebosa, para disfarçar melhor o meu trombil. Ele durante uns minutos não notaria a volatilização da sua menina-dos-olhos, pensaria talvez que caíra para o espaço intermédio entre o banco e a porta. E quando despertasse do engano já seria tarde.
   Ele regressou, passou-me o maço de “gauloises” e com um gesto dei-lhe a demasia.
   Nos minutos que levou a trajectória até à Praça Lebrun amodorrei sem má consciência. Ali apeei-me, paguei-lhe generosamente para compensar o amargo despertar e comecei a andar como se fôsse para a rua Vosges.
  Passei por cima da relva, no separador arborizado com que o município nos mimoseia e num cavalgar harmonioso voltei para trás em passo estugado. O coração batia-me um pouco, como se tivesse acabado de cometer um assassinato. Mas a alma entoava uma pequenina melodia.
  Levar-me-ão a mal? Chegarão mesmo a chamar-me ladrão, a cobrir-me de adjectivos pouco próprios? Eu, contudo, vejo o assunto de modo bem diferente.
  Já em casa, depois das abluções e dos momentos de nostálgica retoma do ambiente familiar, despi-me calmamente e enverguei um pijama confortável. E enquanto degustava uma colação leve mas saborosa, deitei-me à leitura.
  Estive nisto mais duma hora, entre o irritado, o seduzido, o admirado.
  Eram, com efeito, reflexões ora sobre isto, ora sobre aquilo. Coisas do dia a dia, artes, literaturas, o que se esperaria em quem tem muito tempo para locubrar nas horas de uma vida de solteiro e com uma profissão pouco compaginável, pensei, com o trabalho do pensamento. No entanto enganara-me e creio que ficara de parabéns.
  Entre esses exercícios de pensamento e, mesmo, de crítica com certa penetração, ia contudo assomando, mesmo ressaltando, uma espécie de história delineada pelos breves diálogos entre duas personagens identificadas apenas pelos apelidos: Barre e Cibaljet.


***

   


(...)

 "Cibaljet repôs o livro na prateleira de cima duma das altas estantes em madeira encerada de cerejeira. Com um sorriso ameno disse para Barre, enquanto vertia nos copos uma generosa porção do líquido contido na garrafa de cristal facetado: - Na adolescência fui muito suscitado pelo catorze. Era um número que, não sei porquê, me despertava curiosos pensamentos. O sete duas vezes, o sete para um par de enamorados ou de companheiros, ou de inimigos...  
  Quando me tornei adulto, foi o quarenta e seis...
  É um número de grande poder, o quarenta e seis - disse Barre suavemente.Tem razão - redarguiu Cibaljet com um sorriso - É o sete multiplicado seis vezes e, depois, adicionado do quatro. Ou seja: da terra, da água, do ar e do fogo. "


***

  "Senti isso uma vez perto de Claremorris, no País de Gales, quando se começa já a descer até aos prados de Ballinrobe - disse Cibaljet entre duas puxadelas do havano - A sensação de que estamos longe, muito longe...como se fôssemos outros e nada nos prendêsse ao que fômos.
  Entendo! - redarguiu Barre com uma expressão sonhadora - Tive a mesma experiência certa noite junto ao Bósforo, quando ainda não me decidira a deixar a velha Europa...
  Você acha que a sensação é muito habitual, pelo menos em viajantes experimentados e decididos, com uma boa qualidade de conhecimento de estradas e lugares? - tornou Cibaljet passando-lhe o frasco viajeiro de aço recoberto de couro onde a bela aguardente das Cevènnes esperara a sua vez.
 Ora... - disse Barre na sua voz de baixo a que um leve tom de barítono emprestava um timbrezinho peculiar - Tenha em conta que a maior parte dos mortais com ou sem qualidades próprias de caminheiros se limitam, a não ser que haja milagre, a deslocar-se para aqui ou para acolá como se um vento os levasse..."


***

  “Já não me recordo quem teria dito a frase “Foge de alguns, foge de um, foge de todos” - disse Cibaljet passando a Barre a tábua onde um belo naco de Brie exalava o seu perfume sedutor para gastrónomos encartados – E quem teria dito, diabos levem a memória, “O companheiro Deus se quiser existir que exista” ? Puxo pela cabeça e por mais que tente não me consigo recordar...
  Sim, esses lapsos são apoquentadores em extremo – redarguiu Barre com um fino sorriso, untando a fatia de pão com deleite e vasando nos copos um Chandelle que estava mesmo a pedi-las – No meu caso, há anos que tento encontrar pistas do poeta que escreveu “Cuco, és tu uma presença errante ou apenas uma voz indagadora?”. Tenho procurado em antologias, em selectas liceais, em alfarrábios...e nada! E quem teria dito “É uma cidade soturna e desencorajante. Certas pessoas deviam entrar directamente do hall para o páteo e nunca lhes deveria ser franqueada a sala” ?
  Por mim sou um homem confiante – tornou Cibaljet entre duas mastigadelas – Ainda não perdi a esperança de conseguir lembrar-me de quem foi que disse “A vida é um mistério e não um delírio”.
 Barre pousou o copo. “Sabe - soprou de mansinho – quando era garoto um parente meu dizia que a memória atraiçoa frequentemente os que comem muito queijo...
  E talvez seja verdade... – disse Cibaljet servindo-se de outra generosa porção do Brie que restava na tábua – Será um caso de sabedoria popular...
  Mas nenhum deles sorriu.”


***

  “Meu caro Barre: ontem, na rua do Tivoli, encontrei um alquimista. Não se ria, essa qualidade existe. Acontece que por uma subtil concatenação de factos esse homem é meu vizinho e tive oportunidade de lhe prestar um pequeno obséquio que o dispôs a meu favor. É um indivíduo inteligente e desembaraçado, com um vago ar de distância indefinível que, contudo, não o apouca.
   Após vários anos de contacto fortuito, eis que confiou em mim. Contou-me uma história surpreendente.
  Como não saberá, mas aqui fica a revelação, os adeptos que atingem a iluminação não precisam daí em diante de comer ou beber e consequentemente de eliminar os resíduos líquidos ou sólidos. Habitando vinte anos atrás um solar isolado das redondezas, entregou-se a uma curiosa actividade: esteve 4 meses sem sair do seu quarto, imóvel numa poltrona e lendo incessante e interessadamente as obras de Vítor Hugo. Entre um e outro livro, dormia a sono solto para se distrair com os sonhos. Depois, recomeçava.  
  Os músculos não se atrofiavam pois as células corporais, nessas pessoas, mantêm a elasticidade. Quando chegava ao fim dos tomos, reflectia sobre as qualidades e defeitos da Obra do mestre. Adquiriu assim a certeza de que a leitura roda no espírito humano como um planeta o faz à volta do Sol.
  Vai dentro em breve recomeçar o mesmo périplo, desta vez com as obras de Balzac. Para isso isolar-se-á numa vivenda que descobriu nos arredores do Languedoc, no cimo duma colina e no meio de um bosque fora dos circuitos de quem quer que seja. Estará nisto, segundo prevê, 8 meses seguidos. Depois, será a vez de Homero, de Dante, de Borges, de John O'Hara, de outros mais. Dará aí para coisa de 4 anos. No entanto, desta vez acompanhará as leituras com intervalos durante os quais, cozinheiro emérito em que se tornou por gosto e sensibilidade gastronómica, preparará pratos sumamente apetitosos conforme a sua disposição do momento.
  Disse-me que um dia, em meio às suas leituras futuras, já os homens terão chegado a um planeta habitado fora do nosso sistema solar. Sairá então, com o intuito de renunciar à leitura dos clássicos e votar-se a passeios incessantes durante os quais ordenará na sua cabeça todas as páginas que leu.
   A solidão não o assusta. A única coisa que parece preocupá-lo um pouco é que, entrementes, uma catástrofe nuclear aniquile a nossa velha Terra. Eu disse-lhe que deveria começar a pensar em manobrar de forma a que os governos que se interessam pela aquisição atómica não tivessem esse ensejo.  
  Uma vez que dispõe de incomensuráveis possibilidades, já de tempo já de sabedoria, isso ser-lhe-á possível a meu ver.
  Ele olhou-me fixamente durante uns segundos e depois respondeu: “Saiba que mesmo a nós é extremamente difícil inflectir a loucura dos homens. Já outros antes de mim o souberam. Confiemos antes nas leis do acaso”.
  Despedimo-nos à porta do edifício que ambos habitamos, em andares diferentes.
   Agora  estou sentado a ouvir uns trechos de Brahms, enquanto lhe escrevo.  Jantei costeletas grelhadas com um fiozinho de molho inglês para acertar a preparação. Sinto, contudo, uma leve inquietação que não consigo definir se vem da conversa ou do leve zumbido que algures soa vindo do apartamento do lado, onde reside aquela morena de que não sei se já lhe falei.
  Até que nos encontremos.
  Cibaljet”

 ***

  “De cada vez que ouço Stravinsky ou leio Maupassant sinto sempre que alguém foi demasiado longe. Há autores que nos deslumbram e outros que nos sufocam. E o mais grave é que ambas as coisas podem ser suplementares.  Nunca consegui ler mais do que três contos de Maupassant de uma vez só. E nunca consegui ouvir Stravinsky durante um inteiro quarto de hora. O pássaro de fogo põe-me todo a tremer. Tal como sucede com O colar de Maupassant. A meu ver existe algures, perdida no meio dos séculos e das coisas, dos acontecimentos e das descobertas, uma lógica inquietante que ainda não foi avaliada. Algo para além das frases e dos sons. Tem-se a impressão que certos autores tocaram com o dedo nu o mistério da espécie... - regougou Barre em voz cava
   Junto da janela, Cibaljet olhava atentamente para fora. Traçava, distraidamente, figurinhas no vidro embaciado com a mão direita, enquanto a esquerda levava aos lábios, intermitentemente, o charuto já meio fumado.
   Vem aí uma forte pancada de chuva... - disse enquanto se virava e apanhava o cálice de “Napoléon” da mesinha de mogno envernizado - O céu está negro ali para Norte...Vai ser de escachar!
   Barre inclinou-se e, duma pequena taça de cerâmica com arabescos, tirou uma boa porção de amêndoas torradas.
   Gosto da chuva quando cai numa tarde assim de princípios de primavera, como esta – afirmou com um leve suspiro.”


***

  “Lacordaire ultrapassa em muito a sua própria lenda. Nisso está nos antípodas de Stevenson, cuja lenda é do tamanho da sua vida vivida. Não é fantasia e sim realidade o facto de que escreveu “O médico e o monstro” de rajada, horas depois de ter tido um sonho onde lhe foi oferecida a imorredoira história. - E, dizendo isto, Barre estugou o passo ao longo da álea que bordejava o canteiro de flores diversas e multicoloridas.
  Sim, mas só até à segunda transformação. Daí em diante teve ele de inventar – retorquiu Cibaljet com um leve sorriso enquanto, tomando Barre pelo braço, o encaminhava na direcção da pérgola um pouco mais adiante.”


***

   “Caro Cibaljet: Contaram-me ontem que Marcel Proust deixou algures, de acordo com um dos seus melhores exegetas, dois livros inéditos. A meu ver trata-se de não mais que um boato vago, talvez incrementado por um editor voraz e arteiro com o intuito de despertar uma nova curiosidade pelas obras já existentes. Mas e se fôr verdade? Que novas visões isso despertará, não acha? Críticos, leitores, simples observadores, andarão à porfia durante sei lá que tempo em roda da obra do aristocrata mais socialista de França. E já me revelaram que se trata de um diário e de cartas confidenciais.  Que bico de obra, que bela jornada para duas ou três épocas!
   Gostaria de ouvir a sua opinião. Até domingo próximo e os meus respeitos à senhora sua Mãe.
   Barre”


***

   “Meu caro Barre: A meu aviso trata-se de um boato, desses que surgem ciclicamente na nossa sociedade hiper-literária. Ou, melhor dizendo, sofisticada pelos piores motivos. Mas sempre lhe digo que, a ser verdade, teria importancia apenas nas vendas e nos fins-de-mês das livrarias. E daria durante um lustro pano para mangas aos batalhões académicos da especialidade, mas nada mais. Quando um autor está morto, fisicamente morto e várias décadas passaram sobre a sua desaparição da cena, transforma-se em História com todas as consequencias que se conhecem. Nada mais modifica, quando muito suscita um arrepio intelectual e algumas paixões de segunda ordem.
   Assim, se por exemplo um autor, trinta anos passados sobre o seu último livro, anunciar que vai publicar um tomo de inéditos que lhe haviam escapado, arriscar-se-á a passar por velho relho à guisa de plagiador da sua própria obra.Tanto mais que, entretanto, apareceram novos ritmos, novas maneiras de indagar os séculos e o século, um novo olhar sobre a escrita.
   Infelizmente e creio que digo bem, a literatura é um pouco como as bananas, que devem ser consumidas na hora. A novidade, tanto quanto me parece, advém-lhe sempre de novos relances, de leitores sucessivos, não de descobertas materiais.
   Seja como fôr, a ser verdade, creia que estarei como um dos primeiros compradores dessa iguaria, tanto mais que a frequentação das velhas glórias é uma das características de que não abdico. E, além disso, qualquer página de Proust é no fundo como se tivesse sido escrita mesmo agora, o que contradiz absolutamente tudo o que lhe disse atrás.
   Até domingo, pois. E uma saudação respeitosa a seu Tio.
  Cibaljet”


***

   “E esta é uma das peças que me chegaram ontem – disse Barre assim que entrou, sustendo cuidadosamente nas mãos uma peça de cerâmica de côr esverdeada, com pequenos elementos abstractos, que Cibaljet logo se apressou a contemplar tão-logo foi deposta sobre a toalha que cobria a mesa no centro da pequena sala -  Ainda nem sequer a coloquei junto de outras irmãs de outras civilizações. Não é uma beleza?
   Cibaljet, sem a levantar, rodou-a cuidadosamente, quase com ternura. Olhava-a como que extasiado. Virou-se e olhou Barre com unção.
   Tão simples e no entanto tão bela! - afirmou - Olha-se para isto e quase se ouvem os sons do passado em que esta peça foi um elemento do dia a dia. Posso quase ver os que dela se serviam, o camponês comendo nela o seu alimento enquanto olhava os filhos e a mulher, ou enquanto sentado à porta de casa olhava os longes da floresta na tardinha que chegava. Os sons dos animais que começavam a ouvir-se na noite nascente...
   Neste caso – disse Barre com um trejeito, contudo assaz delicado – temo que se engane: é um exemplar, muito bem conservado, das taças ou tigelas, conforme queira, em que os participantes no rito maia bebiam o sangue da vítima propiciatória que o sacerdote acabara de degolar.”
                                                      
  (...)

in O quarto submerso, de Jules Morot
Trad. nicolau saião



terça-feira, 5 de fevereiro de 2013

Alguns poetas brasileiros (5)





Um poema de Luís Estrela de Matos


                                              a carlos felipe moisés


 a  longa madrugada avança em mim pelo meu corpo
e  eu avanço por ela, por suas veias invisíves
 tentando  tocar o impalpável
e  juntos nos vivemos como um amor que não pode terminar;
de  meu lado porque entrego minha alma e minhas forças ao desconhecido
e  de seu lado porque ela se realiza em meu sangue
 e neste coração que sempre pulsa forte
O ar fica mágico e quase sinto um cheiro  real de chocolate se fazendo.
Este  mistério doce e decidido chama-se escrita
e  eu não o trocaria por nada neste mundo,
absolutamente  nada.
Esse  é o grande amor acontecendo
 o amor de uma vida
noturna,
 eterna.

 E  inteira.


 Nicolau Saião,Os namorados

sábado, 13 de outubro de 2012

Justiça vai sendo feita - Sobre o Poeta C.Ronald‏




Caras/os amigos/as e confrades

  Numa carta de 2007 endereçada ao autor de As Origens, livro com que em 1971 iniciou a sua Obra que hoje conta 16 títulos de primeira água, escrevi o seguinte: "C.Ronald é hoje por hoje um dos poetas que verdadeiramente contam a nível mundial.(...) é um dos poucos no Brasil a quem de facto assentaria bem o Nobel, entendendo-se por este galardão algo que seja muito alto e muito sério".

  Disse-o nessa altura numa carta e, depois, tive mesmo o ensejo de o publicar tanto no Brasil como em França, na Argentina, em Espanha, nos EUA e mesmo em Portugal. Numa dessas vezes recordei a ocasião em que, sendo um devotado leitor da biblioteca Calouste Gulbenkian, contactei pela primeira vez com alguns poemas seus - os únicos que durante muito tempo estiveram editados em Portugal - inseridos numa antologia de poetas brasileiros contemporâneos arrolada por autor luso.

  Ultimamente, pela mão da Bernúncia Editora (Florianópolis, Estado de Santa Catarina) saíu a colectânea Bichos procuram buracos em paredes brancas, tomo de quase 500 páginas abrangendo poesia, teatro e textos de grandes autores mundiais traduzidos por CR, que recebeu na Revista do TriploV nº 31 um magnífico ensaio de Maria Estela Guedes, sucedendo-se a um outro, também esclarecedor e certeiro, da autoria de Renato Suttana dado a lume no nº 17 da mesma e num dos números da Agulha, a justamente conceituada revista que recebeu o Prémio António Bento por ter sido num dos anos o mais importante veículo cultural do país irmão.

 Na colectânea, em apresentação inserida numa das badanas (orelhas), diz Ledo Ivo (outro nobelizável por razões justificadas e considerado autor "essencial" pela Academia Brasileira de Letras: "Caro amigo e poeta C.Ronald - Foi numa casa rodeada de florestas e montanhas que li o seu "Caro Rimbaud". Foi num espaço de silêncio, longe de qualquer rumor, que ouvi a sua voz, e mais uma vez aplaudi a sua poesia misteriosa, distanciada dos lirismos correntes, e que é como um estremecimento do Absoluto. Um grande abraço do seu amigo e leitor, Ledo Ivo".

 Ora, anteontem chegou-me do outro lado do mar um exemplar do catálogo da Exposição de escultura e pintura que o governo do Estado de Santa Catarina, por meio da secretaria de Estado de Turismo, Cultura e Esporte e da Fundação Catarinense de Cultura, em conjunto com o artista, levou a efeito no Museu de Arte de Santa Catarina.

 Dele extraio 3 quadros, além da introdução, e aqui os dou em anexo. E deixo igualmente dois poemas que retirei da sua vasta Obra.

 Por último, resta-me dizer: também no Catálogo é referido que, num arroubo de justa lucidez e justo apreço, um grupo de personalidades da cultura brasileira tem estado finalmente a propor C.Ronald para o Prémio Nobel. E este ficaria nobilitado - tal como ficou quando foi atribuído a Czeslaw Milosz, Juan Ramón Giménez, Jean Marie le Clézio, Thomas Mann ou Wieslawa Symborska, entre alguns outros mais.

 Que tenham um bom fim de semana, com muita paz e o comprazimento possível nestes tempos infaustos, é o que vos desejo com o proverbial abrqs.




Retrato de família

Pais e filhos agrupam-se para a pose. Tamanho
é o sentido da permanência que o que vem de trás
perde-se na rapidez do flash. Ali, o sorriso
não faz barulho nos olhos, o detalhe suficiente
do que vivemos dá nome igual ao perdido.

Nenhum destino aparece inteiro. O mundo força
a estátua sobre aquilo que perece. Flores e regatos
são anos de alegria própria e a história da casa aberta
fixa o termo do reconhecimento por tudo que já
passou. Eis a foto. A soma dos anónimos

para alguém distante. Um cachorro sem consciência
aos pés dessa criança é a pura imagem da afeição.
Ela houve. Continua ainda e pode ser mais que o homem.




Morrer imitando o teu jeito de morrer
é possível se no meu corpo trago o teu encanto
Horas oblíquas do fim que surge da sombra
familiar abaixo do anjo prematuro e veemente
Tudo pode voltar e dar nome ao que senti sempre
A solidão virá modificada e a ausência não será
a mesma nem as coisas dadas por engano
Morrer no teu silêncio amando essa conjunção
que não havia ainda dentro ou fora do tempo
A terra tornou-se outra vez o sentido diferente
do teu corpo submisso ao meu tormento
Que coragem para resistir e emboscar a existência
Afortunada representação do lado novo e antigo
dos sentidos com a inocência feita por si mesma
Mas haja memória na galeria humana dos descrentes
que tudo oferece de mal ou bem no pior silêncio.

in Ocasional Glup




quarta-feira, 18 de julho de 2012

DOIS POEMAS DE GÉRARD CALANDRE



Chirico, Interior metafísico com biscoitos


NAVEGAÇÃO



1. Quantas vezes
comecei por ali
pela janela entreaberta
cruzada por uma leve penumbra
- Deneb ou outra estrela
da Cassiopeia, ou um planeta
errante
Quantas vezes
sem saber que dizer, sem poder
respirar a valer
inventei ruídos ao longe
pus gente a viajar à beira de caminhos
que nem sei se existem   Quantas vezes
escarneci fiquei sério
e digo isto sem troçar
deixei a mão direita sozinha
acenando entre particípios e conjuntivos
Quantas vezes  quantas vezes
perdi de vista a morte a vida
Quantas vezes
cheio de sono   farto de verbos
peguei em sonhos numa vassoura
fugi assustado, andei de barco
e ao acordar enchi-me duma imperiosa
ternura   num suspiro
e fui pelas ruas bocejando
trocando os pés moderadamente
como se estivesse ligeiramente louco
ou os poemas fossem    apenas simulacros.


2. Agora vou pensar um bocado no “Anjo Guardião
Aparecendo a Maria” da basílica de San Genaro
de Piero de la Francesca, como que por acaso
Uma pintura sem arabescos, aparentemente
sem semelhanças com outra que vi – e no entanto
tão igual! – num museu de Évora durante a minha
primeira viagem a Portugal. Almoçara
num famoso restaurante de Lisboa
Como a cidade estava bela cheia de vento
e a minha bendita gravata de riscas que a
Jeannette me oferecera   devia
fazer um vistão
e eu rapava o prato   miraculosamente
e então a Jeannette disse-me: repara! E eu
olhei
Um senhor alto, de óculos reluzentes
olhei   entre o assado e o doce
Era, esclareceram-me, um famoso escritor
uma pessoa de qualidade, romancista   também
com putices finas pelo meio, um homem
de confiança de Sua Excelência   enfim
antes da fruta, antes do brandy. A Jeannette
dissera-me: repara! E eu olhei, eu
olhei. Vírgula, dois pontos, aspas
traço e sublinhado.

A gravata está pendurada
no trinco de uma porta. Entretanto
como passaram vários meses
já digeri o assado, a sopa, o doce
o charuto que o Pierrot me deu. Doravante
- lembro-me que pensei –
vou passar a comer em modestas tascas
não fumar
mijar   sei lá   se calhar à socapa atrás

dum arbusto.


                     in Vestiges/Vestígios” (Tradução ns)

   Na segunda parte deste poema é perceptível a simpática alusão do A. a um muito conhecido e estimado vulto político, também nas suas horas renomado tradutor e poeta.




  Gérard André Loison Calandre nasceu em 1952, na Bretanha. Viveu vários anos em  Messina, entregue ao professorado e a trabalhos de laboratório, que abandonou após  desastre numa das estradas europeias.
   De formação científica, manteve-se largo tempo relativamente afastado do mundo das letras.
  Autor de “Vestígios”, O levantino – pré-novela e de textos esparsos sobre o seu ramo profissional, debruça-se presentemente sobre “O sentimento de perda em Gérard de Cortanze”(ensaio).
  Visitou Portugal em 92 e 97. Após o falecimento de sua segunda mulher, Jeanne Vaillon Remise,  foi residir para o Canadá francófono.
  Textos seus foram dados a lume por Agulha, TriploV e revistas Bicicleta, Abril em Maio e DiVersos.