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sexta-feira, 7 de junho de 2013

Uma boa surpresa





   Ontem só adormeci lá pelas duas e picos da manhã.

  Por causa da febre dos fenos, por enfado de, num rasgo de tolice, ter ouvido num noticiário um salvador do povo bolsar as suas habituais inanidades que tanto nos têm atormentado?

  Nem por sombras.

  Acontece que uma hora antes captara no transístor o pivot a anunciar o programa que iria ser emitido: "Vozes da lusofonia", de Edgar Canelas. Bom, pensei eu com os meus botões do pijama, não fará talvez mal dar-me a ouvir uns minutinhos da emissão...

  Em boa, ainda que tardia, hora o fiz. Porque durante essa hora absolutamente ganha estive a ouvir, entre o encantamento e a surpresa, um cantor angolano de excepção. Acompanhado pela Orquestra Sinfónica de Londres, numa iniciativa do produtor Derek Nakamoto - que o ouvira fortuitamente e, de imediato, suscitado pela qualidade singular do artista, lhe propusera o ensejo - Waldemar Bastos apresentou trechos do seu recente trabalho (que já foi considerado internacionalmente um dos melhores discos do ano) Classics of my soul e, ainda por cima, teceu justíssimas considerações sobre a música, a arte de cantar, o seu percurso pessoal no mundo dos concertos, etc.

  Como se sabe (se sente) Portugal tem estado a atravessar uma das fases de maior mediocridade no capítulo radiofónico. Os programas são duma frouxidão, dum primarismo e duma auto-complacência que nos deixa siderados. Tudo se vai escoando p'las vias da bola, da música pimba ou desenxabida (ora pedante ora daquele romantismo lamecha) e da graçola ou alfacinhista ou matarruana, num cacharolete que, comparado com a rádio espanhola, nos desconsola, nos indigna e nos envergonha. E, como os radialistas são todos competentíssimos, depreende-se que é pecha, talvez, de epidemia societária...

 Daí que aquela hora, acompanhado pela conversa inteligente do entrevistador/realizador e pela voz poderosa do cantor, a tenha dado como muito bem empregue, como refrigério merecido e bem fruído de ouvinte que tem andado frequentemente "a apanhar bonés".

 No fim foi dito que em breve Waldemar Bastos, acompanhado pela Sinfónica da Gulbenkian, dará um concerto em Lisboa. Creio que fará sentido - e, com vossa licença, aqui fica o alvitre - ir-se ouvir este cantor angolano integrado na lusofonia.

 Não perderemos, creio, de forma alguma o nosso tempo.

 O abrqs de fim de semana


 Post-Scriptum - E, sem comentários (que me parecem desnecessários em função da excelência dos poemas que vos transcrevo no anexo) aqui vos entrego hoje o bloco referente a António Luís Moita, poeta excelso e alentejano pelo coração e pelas vivências.



ANTÓNIO LUÍS MOITA: Quatro poemas alquímicos
 seguidos de um OUTRO doado à memória




   Os poemas que a seguir se dão a lume pertencem ao livro Cidade sem Tempo, editado pelo A. e distribuído pela ULMEIRO.

   Executado em 1985 nas oficinas gráficas de Ramos, Afonso & Moita, Lda. dele foram tirados 800 exemplares, dos quais 100 numerados e assinados por ALM.

  Capa a partir de uma pintura de Alves Martins, arranjo gráfico de Fernando das Neves.

                           



    O livro está dividido em três capítulos - Do Amor; Da Morte; Das pequenas coisas - constituindo 133 páginas de texto.

   ALM ofereceu-me um exemplar no dia 24 de Março de 1990, antes do jantar com que honrávamos os convidados do programa semanal “Mapa de viagens” por mim realizado e emitido pela Rádio Portalegre das 22 às 24 horas de sábado.

   Na ocasião li, entre outros da autoria de Cristóvam Pavia, dois poemas dos que aqui se apresentam: “Reencontro: 13/10/68” e “Adepto”.

   Os poemas alquímicos, além das suas leituras e meditações próprias, reflectem o contacto do A. com Abel Teixeira, “irmão do orvalho” e seu amigo.
                                                                                                                  



                        





ADEPTO

Nunca morro da morte verdadeira
de que morrem os homens mais comuns .
Perseguido, renasço, intemporal,
sem ter morada certa nem fronteira.

De Júpiter sou filho – e do mistério.
Alberto ou Paracelso – quem me fez
sabe que nenhum túmulo me guarda
e que do amor perpétuo me acrescento.

Contudo, o Tempo dói-me. E, se não caibo
na pedra, a fonte humana me dá luz
(bebi demais no pó sanguinolento,
residual, da obra inteira, a vida).

Cumprido o ouro, louvo simplesmente,
com ele, o Pai.  Olvido-me de mim.
Nome não tenho. Nem sossêgo. Ardo.
Feiticeiro não sou, mas aprendiz.



ARIANA
                                       Ao Abel Teixeira
                        
Do pouco ou nada feito não revelo
qual o passo que dei ou que vou dar.
Do enxofre e mercúrio digo apenas
que se mordem, que mútuos se contêm,
que todo o sal é lágrima de Maio.

Poderei dizer mais: que o fogo é lento
e húmida é a via. A seca, não.
(Nunca o rápido amor me dá contento.
Nem há cultura fácil, fácil vento.
Qualquer trigo veloz sabe a traição).

Digo ainda, da via, que são sete
 as águas deste denso e longo mar.
Ao terceiro degrau já se promete
o peixe que prateia, a crepitar.
São porém as sereias. Não cardume.
O verdadeiro peixe – que é de lume –
a seu tempo virá, mas devagar.

Primeiro, há-de toldar-se em nevoeiro
o velo, vinte vezes (só morrendo
vinte vezes terríveis se renasce).
Entretanto, uma aberta: o arco-íris.
Depois, de novo, a noite, a fermentar-se.

Haverá, de manhã, menos indício
na espuma da maré, no barco estreito,
do que nos olhos puros de quem vê,
ou antes, adivinha.

- Tu,  que me segues, crê:
No ovo luz a vinha!



FULCANELLI

Ao microscópio, gotas de cristal.
Á vista desarmada, pó vermelho.
Uma pitada leve, como o sal,
um fervilhar – e eis prata o que era estanho.

Só que da mão depende o bem que tenho,
o gesto firme, próprio, sem o qual
teria tudo apenas o tamanho
que tem, antes da luz, a catedral.

Assoprador? Adepto? Não sei bem…
Sei que todo me dou, que nada espero,
que por amor somente transmutei
na semente mais viva o vil minério.

Prata quis. Prata fiz. Ouro farei
mordendo as águas turvas do mistério.



MANSÃO FILOSOFAL

Erguem-se os dedos. Crispam-se no todo.
Mas algo falta para o todo ser.
Algo que mora num dedal de fogo,
nessa palavra que não sei dizer

mas salta certa, célere, no sopro
irreprimível que de Urano vem
dar de repente vida nova ao corpo,
ceder razão ao que razão não tem.

É o dédalo negro, o labirinto,
a chave justa para libertar
no firmamento a névoa do que sinto.

Mas é também oráculo. O olhar.
O ver, sem fim, distinto, o indistinto
no desfazer da pedra tumular.


Nicolau Saião, Homenagem a Fulcanelli, técnica mista sobre cartão (80 x 140 cm)
              


Reencontro: 13/10/68
                                               À memória de CRISTÓVAM PAVIA
                                                 e de seu Pai
                                                 FRANCISCO BUGALHO
                                                 - meus amigos.


Quando o comboio surgiu
na curva do caminho
teu pai estava perto. E disse:

Não queria, meu filho, que viesses
tão cedo.
Tenho, porém, aparelhada e pronta
(oh, desde sempre!) a égua.
E, sem coleira, o velho cão te aguarda,
fiel e meigo como um sol de Outono.

Meu colo tens também à tua espera
e a força do meu braço, do tamanho
da noite e do silêncio da tapada.

A força do meu braço quis descê-la
a tempo, sobre ti, descê-la quando
imaginaste um rosto na paisagem
- rosto que, distraído, se desfez
num prado alheio ao teu.

Quis, sobre ti, descer esse meu braço
de força já não minha forte ainda.
Mas era tarde para projectar-te
em ruas mais propícias.

Quis dá-lo a tua mãe (como tu, só)
mas já não foi possível.

Quis entregá-lo a dois ou três amigos,
mas tinham compromissos
pessoais.

Mesmo assim não queria que viesses
tão cedo.
Muita coisa podia acontecer
(muita coisa acontece)
como um súbito barco, uma palavra
- glicínia, madrugada, madressilva –
para teu recomeço
e minha espera
maior.

Aguardo-te, porém.
E, comigo, o teu cão, a égua alada,
a inocente infância dessa fonte
fresquíssima, da quinta, onde bebemos
a água
única.

Regressa, inteiro, à terra iluminada,
nu de mitos, de pétalas, de pranto
e das outras humanas falsidades
(como dizias)
do mundo.

Entrega-te e regressa.
Transparente.

No fundo, desde o fundo, pelo fundo
esmaga-te em meu peito!

                               

João Garção, Pintura (lápis bougard e guache sobre cartão, 40 x 65 cm)

quinta-feira, 12 de julho de 2012

É assim que se faz a Estória (4)



Obra de Mário Henrique Leiria 


   O Vicente Páscoa escreveu-me há dias. Com a frontalidade que o caracteriza, mas também com a amável ironia que o exorna, dizia-me a dado passo do seu bilhete (não lhe chamaria carta) razoavelmente acerbo mas onde se distinguia uma fraternal sobriedade: “(…) Tenho gostado do blog. Mas a meu ver, e tu desculpa, parece-me que pões lá demasiada poesia.(…) Numa altura em que factos momentosos atravessam o firmamento das híper-realidades nacionais (as sucessivas maratonas do Relvas, as paredes que cada vez mais se apertam, se houver boa vontade da Procuradoria, em torno do díscolo parisiense, a inocência do Lima esse primor de cristianíssimo calvo, as pachachadas do Arménio e a incontroversa velhacaria proto-revolucionária do Xico, para não falar de alfenins como o Seguro e outros infalíveis resíduos de uma administração fundibular cada vez mais sonsa e malévola(…) tu resolves esquecer ou não reparar nisso e…toca de poesia para a ribalta(…)”.

   Respondi-lhe sucintamente que não me apetecia remexer na lama.

  Além do mais e de acordo com o meu médico (um homeopata que nunca me desiludiu) eu apresento sinais inequívocos que se caracterizam por perda de auto-estima, tristeza acentuada, dificuldades de concentração, amargura e, intermitentemente, vontade de partir tudo (mas não no lar) e pequenas lucubrações em torno da serventia de caçadeiras de canos serrados e catanas de tipo japonês. “É evidente que se trata de uma crisionite-depressiva!”, diagnosticou o “good doctor” e eu não o irei contrariar.

   Em minha defesa digo contudo que o que me acalma, salvo os Socians e os copitos, com muito gelo, de Queen Margot de 8 anos, é a postura de poesia neste estimável entreposto.

   Mais do que uma fezada é uma questão de auto-ajuda. E alea jacta est!



Nicolau Saião, Génesis (tapeçaria), col. engº Ignacio Maragall             
                     
                                                                                                     
Mário Henrique Leiria


Origem dos sonhos esquecidos


Entre a bicicleta e a laranja
vai a distância de uma camisa branca

Entre o pássaro e a bandeira
vai  a distância dum relógio solar

Entre a janela e o canto do lobo
vai a distância dum lago desesperado

Entre mim e a bola de bilhar
vai a distância dum sexo fulgurante

Qualquer pedaço de floresta ou tempestade
pode ser a distância
entre os teus braços fechados em si mesmos
e a noite encontrada para além do grito das panteras

Qualquer grito de pantera
pode ser a distância
entre os teus passos
e o caminho em que eles se desfazem lentamente

Qualquer caminho
pode ser a distância
entre tu e eu

Qualquer distância
entre ti e eu
é a única e magnífica existência
do nosso amor que se devora sorrindo.

                                                                   (1949)





Mário Henrique Leiria (imagem obtida aqui)


Foi-me enviado, inédito – em 1978 - por Mário Cesariny, que depois o publicaria, na revista “MELE – International Poetry Letter” (dada a lume em Honolulu e dirigida por Stefan Baciu) cujo número de Março de 81 foi integralmente dedicado aos poetas surrealistas portugueses.

sexta-feira, 29 de junho de 2012

UMA NOVA EDITORA E JOÃO RUI DE SOUSA



João Rui de Sousa


Recebi há dias, do jornalista e poeta Mário Galego, uma notícia e um convite: diversificando as suas actividades, este nosso confrade lançou-se também na edição. Diz-me ele:

    Mando-te este mail para te contar que agora chegou a vez de ser editor «a sério» !
   Em breve (princípio de Julho), estará por aí uma nova editora (da qual sou sócio): Ediresistência. Vai ter uma colecção de livros de prosa - Resistência - que começa com a publicação de uma novela de Urbano Tavares Rodrigues e um livro de contos de António Nunes de Almeida; uma colecção de poesia - Madrugadas - que deverá arrancar com um novo livro de João Rui de Sousa(...) e uma colecção de música - Contralto - que terá uns autores conhecidos mas ainda em fase de escrita.

    Posteriormente, enviou-me o Convite já estruturado do lançamento no dia 3, às seis e meia da tarde, nas intalações do El Corte Inglês de Lisboa, .

   Voltemos agora as atenções para João Rui de Sousa. E já perceberão o meu ponto.

    Ora, no ambito da correspondência que me enviam habitualmente, comunicaram-me hoje os services próprios da Ass.Port. de Escritores que no próximo dia 9, na Culturgest, sob a presidencia do Secretário de Estado da Cultura, terá lugar pelas 18,30 h a cerimónia oficial de entrega do Prémio Vida Literária deste ano precisamente a João Rui de Sousa.

    Entendo como honrosa – creio que é consensual - para as diversas entidades , a atribuição deste galardão ao autor de “A hipérbole na cidade”.

    Como autor, como professor, como confrade de leal e fino trato, João Rui de Sousa é hoje por hoje um dos mais dignos escritores portugueses.

     Em 1987, José Manuel Capêlo convidou-me a integrar a antologia “Palavras - sete poetas portugueses contemporâneos”. Informou-me ainda que numa reunião havida no Porto tinha ficado definido o nome dos participantes bem como o do prefaciador, João Rui de Sousa, que aceitara o encargo de imediato.

    No entanto, mais me informou o já falecido autor de “Madrugadas e vozes”, e editor da Átrio, que o meu nome havia despertado junto de um par de autores alguma resistência. Não só porque Capêlo se propusera pagar do seu bolso a verba que me cabia, como a todos, para execução material do livro – mas também por eu não estar nesse tempo em cheiro de santidade junto de certos e muito imperiosos sectores socio-políticos da nação.
    Capêlo persistiu, não cedeu e a antologia (aliás com grande êxito desde o próprio acto de lançamento) veio a lume sem que eu tenha sido ejectado. (E como é lógico eu não reivindiquei um tostão que fosse).
    E eis o que João Rui de Sousa (que não me conhecia, nem eu a ele) escreveu a meu respeito:
    “Subscreve NS uma das mais seguras e coerentes sequências desta antologia. Uma segurança (de estilo) que obriga a surpreender-nos com o facto deste autor ainda não ter publicado qualquer livro. Uma coerência (de tom) que, nada tendo a ver com um repisar monocórdico, se espraia através dum acervo escritural cujo tópico mais à vista se situa no entendimento da arte, mormente a pictórica, ou de alguns artistas (veja-se “Introdução”, “Paul Gauguin”, “Arpad Szènes” e “Pessoa Inúmero”). A complementar esse núcleo, relevem-se ainda a parte de ironia transposta em “Labirinto”; o evento inesperado dessa “tristeza perfeita” aludida num texto que tem o título de “Alegria”; e, sobretudo, o exercício de construção/desconstrução exemplarmente sugerido em “A janela” , de que se trans creve apenas o fecho:

                   A janela constrói-se
                   pouco a pouco, a janela diz
                   milhares de palavras inventadas
                   e nuas, é uma imagem
                   em equilíbrio subtil. A janela é agora
                   quase porta, parece feita de
                   altas meditações familiares. Nem precisa de ser
                   ausência, como um retrato

                   que sai de nós para todas as ruas
                   onde irrompe um perfil enegrecido

                   onde alguma outra vida se acolheu.”

    De acordo com Capêlo, estas palavras causaram alguns pequenos engulhos em certos autores bem determinados.

    Dois anos depois da publicação, a APE atribuíu ao meu “Os objectos inquietantes” o prémio nacional “Revelação/Poesia”, o que me permitiu um vôo mais livre nas estantes do país. A edição esteve a cargo da “Caminho”.
       De certa maneira findara a primeira parte da minha marginalização, que agora praticamente apenas existe em Portalegre mas que já não me consegue impedir de continuar a cirandar pelo mundo, Portugal incluído.
       Por último, resta referir que em 2000 o meu livro “Os olhares perdidos”, saído na Universitária Editora, foi honrado com as palavras introdutórias (“Expansividade e Transfiguração”) de João Rui de Sousa, o mais belo pórtico que o poemário poderia ter.
       Estranhar-se-á que por estas e outras manifestações de fraternal cordialidade que dele tenho recebido eu envie ao Poeta a minha extrema simpatia e estima envoltas no Abraço que naturalmente lhe tributo?

quarta-feira, 27 de junho de 2012

É Assim que se Faz a Estória (2)


Pedro Oom, Retrato de Artur do Cruzeiro Seixas (ilustração)



 Lembrança de Pedro Oom


  “Sacavém, 24. 3. 73

  Caríssimo Nicolau

   Não consigo tratar-te por Francisco – muito menos por Garção, pois tendo havido já um na literatura e na poesia, aliás muito chato, parece-me que 2 serão de mais.
   Acabado este preâmbulo tenho a dizer-te o seguinte: a ideia “exposição Carlos Martins e Lud” aí parece estar em marcha. No dia da inauguração poderia fazer-se o recital. Esta ideia já está a ser posta por mim em marcha. Falei à Júlia Chaves. Concordou com a estadia num fim-de-semana e os 500 paus que darão somente para a gasolina. Ela tem um carro “ultra bright”.
  Terás de ajudar um pouco:
  1º  Manda “Balada de Portalegre” do Régio, se possível com nota biográfica.
  2º  Diz para quando é possível esta manifestação (nunca antes de um mês).
 Agora outro assunto: pediram-me no “& etc” que te contactasse para o seguinte: pretendem expôr colecções dos números do “& etc” em várias sociedades de recreio, juntamente com os boletins de inscrição para sócios. Como presidente ou influente do Clube local, podes escrever para o “& etc” propondo exactamente o que foi dito atrás.
 Espero que o faças sem grande demora pois estão muito interessados nesta espécie de promoção.
  Manda também (para mim) um poema teu que te pareça o melhor para o recital. Igualmente do nosso amigo daí, cujo nome me esquece sempre.
  Espero notícias breves.
  Um abração do
                                                                                            Pedro”

Notas


1. Esta carta manuscrita vinha acompanhada dos poemas que a seguir se dão a lume.

2. A exposição em projecto não se realizou, uma vez que o Governo Civil a impediu. Foi substituída por uma outra de recurso, tendo sido mostrados poemas-colagens a exibir em Coimbra – e ali também proibidos ainda que tivessem sido noticiados no jornal “República”.

3. No decorrer da “vernissage” ao princípio da tarde, foram lidos poemas de Régio,  A.M.Lisboa, ns e Pedro Oom, que acabara por não se deslocar a Portalegre. Finda a função, ns e o vice-presidente da colectividade Manuel Bagina Garcia, falecido em 2007, foram detidos pela polícia “para averiguações”. Foram postos em liberdade na noite do dia seguinte com a indicação de que “na próxima iriam para Peniche”.
   Os dois primeiros poemas seriam depois do 25 de Abril dados a lume no semanário “A Rabeca”, depois defunccionada pelos próceres políticos que a haviam tomado “revolucionariamente”, saneando ns de imediato.





Cruzeiro Seixas, No dia a seguir ao nosso casamento, 1967



Poema

Há um ar de espanto
no teu rosto em silêncio    pequenas pausas
entre nós e as palavras
          que desfiamos
Quando o silêncio (pausa mais longa
           que nos contrai o peito)
cai bruscamente
duas mãos agitam-se meigamente     as nossas
e os mendigos, todos os mendigos
espreitam ao postigo do teu pequeno apartamento
coroados de rosas e crisântemos

É o momento
em que afirmamos a realidade das coisas
não a que vemos na rua
e que sabemos fictícia

mas a outra

aurora cintilante
que põe estrelas no teu sorriso
quando acordas de manhã
com um sol de angústia na garganta

acredita
nada nos distingue
entre a multidão anónima a que pertencemos
embora
o fotógrafo teime sempre
em nos oferecer uma esperança
- fluido imaterial que nem mil anos
poderão condensar -

O nosso rasto
mal se apercebe na areia
condenados ao fracasso
pequena glória dos pequenos heróis deste tempo
ainda aspiramos
          no entanto
a ser o índice deste século
único sinal humano, florescente e salubre
de contrário
seremos apenas
um halo de vento
arco-íris de luto
ou estrada para sedentários
É ocioso
preparar a objectiva
que nos vai condenar a um número
nesta cidade onde cada homem
é escravo de uma arma
Ocioso
avivar as flores do cenário
encher de luar o jardim do nosso afecto
                      Só um acaso
                      nos poderá revelar
                 por isso
                        fechemos o rosto
                                                   meu amor





Cruzeiro Seixas, Projecto para um Tejo à nossa medida, 1966



Poema

Os camaradas
saíram para a rua
com os bolsos cheios de serpentinas

            (o calendário
            estava trocado
            e de Entrudo

                        nicles
              nem um só cabeçudo
              ou máscara
              até o polícia de giro
              com a dignidade sui generis
              dos pequenos autocratas
              participou na patuscada
              depois do jogo
              - o Benfica foi eliminado)

Os camaradas
compraram fatos novos
nos alfaiates dernier-cri
e botaram as serpentinas
no lixo

para não deformar
os bolsos (novos).


História do meu boneco

Cresceu comigo
neste espaço que se diz português
e neste tempo (histórico)

Maricas (era de esperar)
mas rebelde como um felino
ninguém se lhe pôs inteiro
ficou sempre um bocadinho
porque rangia a dentadura.

Deixou de acreditar na Santíssima Trindade
quando notou as primeiras brancas do púbis
mas já era muito tarde para ir às “meninas”
pelo que aderiu aos movimentos parlamentares
- lixou-se!

Depois de 45
afundou-se na continuidade
engordou (discretamente)
caíram-lhe os últimos molares
farfalhou o bigode, à Guarda Nacional antiga
e hoje
para fingir que é   ainda o teso,
levanta a calva luzente
e bate o pé

ao peso dos argumentos.


                                   Sacavém, Março de 1973



Pedro Oom