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segunda-feira, 13 de agosto de 2012

Há muito tempo que não me ria tanto!



Foi hoje, há bocado, num telejornal. Quando Jerónimo de Sousa, a propósito de qualquer coisa relativa a Passos Coelho articulou, gaguejou, tartamudeou, proclamou: "... hmm... porque... hmmm... mais depressa se apanha um mentiroso... hmmm... do que um homem com uma deficiência numa perna!"

Fico agora à espera de que o secretário-geral do PCP e os restantes, por assim dizer, responsáveis políticos nacionais venham a referir-se ao Corcunda de Notre-Dame. É que será de não perder! Afinal, a vida anda tão chata, que só estes momentos nos impedem o suicídio.

quarta-feira, 20 de junho de 2012

DOS COSTUMES DOS GIRINOS


   
  Nicolau Saião, Dos costumes dos girinos


     Eu, que me tenho lembrado de tanta coisa, nunca me lembrei de escrever sobre as denominadas “secretas”. Por medo, por receio, por timidez, porque sou português e, ainda por cima, alentejano – o que me faz ser um quase inerme ainda que não inerte? Não o sei.

    Só posso, digamos, conjecturar.

    Talvez seja por doçura de maneiras. Por esta ternura, muito minha, que tenho pelas coisas do Estado, que é como se sabe geralmente – e eu sei muito particularmente – uma entidade que nos merece o maior respeito e até mesmo um pouco de carinho. E de admiração.

   Dir-me-á, talvez, do lado algum leitor mais arguto, ou malandreco:” O amigo deve estar a brincar…! É aquele seu senso de humor, entre o amargo, o doce, o cruel e o amigável, não é?”. E olhará para mim com um timbre algo jocoso posto que fraternal.

   Juro que não.



   É que tenho pelo Estado luso, mormente o que se abrilhanta entre nós com os operadores que o enformam, uma enorme admiração. E não só pela sua intrínseca…sobriedade.

   De facto, enquanto Estados estrangeiros andam enfronhados em casos tenebrosos (ministros, primeiros-ministros e até presidentes protagonistas de putanhices, fraudes e patifarias de alto coturno), por cá humildemente andam metidos apenas em coisinhas como “sugerirem” ou “destaparem” que uma namora com um da esquerdalha mais agitada. Ou que outro apanhava detalhes de que um truta tinha amigos, meio-amigos ou inimigos – coisa que toda a gente sabe e é pois um “segredo de Polichinelo”.




   Onde, em certos países, há assassinatos e matanças bravas para se taparem segredos e conluios, por cá há alfenins que guardavam mails e sms como se fôssem entradas diarísticas…

  Como não ter pois um certo olhar de terna indulgência para com estes…arcanjos?




(imagem obtida aqui)

  Ontem chegou-me um mail, do nosso Nuno Rebocho, que confirma à puridade, creio, esta característica patriarcal, caseira – em jeito de coisinhas de opereta - de gente da nossa terra. E que vos dou a seguir.

 … E espero que nenhum leitor, lembrando-se de repente, numa súbita iluminação, solte do lado a frase de Brassens, que reza: “Olha meu filho, lembra-te disto: (e agora, para manter o sabor, vai no original) les plus grands cons sont les petits cons!”.

   A ser verdade, isso é que me deixaria a tremer…

  Tenho pensado no charivari que vai por aí no caso das Secretas. Mas ninguém se preocupou quando, há alguns anos, quando foram "formados" os primeiros secretas, tiveram logo como teste a Comunicação Social.



   Caíram na Rua Augusta, no "Século" - era o primeiro e elucidativo ensaio.   
   Deram nas vistas e foram fotografados. Eu era então subchefe de redacção e fui avisado de movimentos muito suspeitos; sujeitos que estavam sentados nas esquinas, a controlar as portas de entrada, anotando entradas e saídas. Mandei-os fotografar, o que foi feito. E depois, interpelá-los.
   Foi uma bronca das antigas. Telefonaram a correr ao director (Jaime Nogueira Pinto), pedindo desculpas de tudo isto e explicaram que era uma espécie de exame final das "secretas". O caso foi abafado, e não devia ter sido: como teste era perigoso... O Jaime deve lembrar-se disto. Se como teste se "lembraram" da CS, como ficar espantado com o "Público" e o "Expresso" agora (Só estes?).

Nuno Rebocho



domingo, 17 de junho de 2012

Pequeno mostruário para vampiros (6)




Do horror luso-nético nas suas obras vivas…

  Uns estão no ramo da diplomacia, outros no do professorado. Ainda outros e outras, prevalecem-se no meio-termo que é qualquer coisa pública, assessorias e jornalismos de meia-mantença. Ou de mantença completa. Propagam-se, como as orquídeas do deserto, digamos. Ou os malmequeres da estepe. E têm blogues e escrevem blogues e entesouram blogues. Não se masturbam, fornicam entre eles as frases com que se entesoam. Que andaram quase todos na mesma faculdade, a da notoriedade obrigada a mote.

   São gente fina e reivindicam-se gastrónomos. Ou dizem-se. Ou apelam-se. Comem do bom e bebem do fino. Quando acaso comem, banqueteiam-se e fotografam-se porque nunca perceberam que, como dizia Beau Brummel, “se tiveres necessidade de dizeres quem és, não és ninguém”. Vestem bem se lhes apetece e mal se lhes quadra. São solidários, dessolidários, inteligentes ou encenadamente estúpidos. Porque isso é belo lá entre eles. Ou outra palavra qualquer, porque o seu signo é a crueldade e o desdém que disso parte. Sem saberem, acederam à maior santidade, a da distracção no meio da lama. Por isso, de vez em quando vão de ventas à torneira.

  Para terem um bocadinho de sonho? Creio que nem isso. Usam a cara como se usa a petulância de um sorriso sardónico. Ou a sobranceria ratona de um pulidovalentismo de opereta. São portugueses portuguesas até à medula, mas só nos fundilhos. De esquerda ou de direita tanto faz, isso é apenas um detalhe inócuo. Mas que os ajuda a fingir que são de fora, como aquela pedante loira e depois morena e depois loira televisivamente que escrevendo como se escreve nos croniquentos jornalitos de cá se sentia redactora de grande semanário americano. Para se compensar de ser uma criada de políticos ratoneiros? Muito provavelmente. Velhacazita como um abutre com cio? Tão natural como a sua sede de urubu. De urubua. Pois o céu está-lhes prometido, a ela e aos seus parceiros de charneca.




  São da bela rapaziada. Decididos mas frascários. Canalhas mas vencedores. E se vencidos por qualquer razão, ficarão sempre na mó de cima. É da sua condição de classe média alta. Ou de fidalgotes que como a pescadinha antes de o ser já o era. Ainda que republicanos.

  Espertíssimos, mas o país que controlam jamais passou da cepa torta. Talentosos, mas o sarro nunca o tiraram das esquinas e das paredes da pátria. Quando rebentam, quando estoiram (não morrem, fundem-se, esta gente não é digna de morrer) imortalizam-se na conversa rôta dos seus pares.

   Nunca escrevem nada de permanente, de sóbrio, de fundacional e sincero. E da emoção apenas sabem a lágrima fácil. Que pode ser arroto. Ou peido. Mas nunca grito desgarrador e comovente.

  Pululam nos espaços interactivos. Unem-se em irmandades informais e em cooptações estarrecedoras. Ou afectuosas. Lusitanamente doloridos, mas no fundo do poço da alma, trazem nela a marca, o ferrete da hipocrisia mansa e do cinismo de bom tom.

  Nunca serão fuzilados num terreiro. Nem pendurados num carvalho da Califórnia. Nem empalados num zimbreiro da Transilvânia.

  Quase eternos, omnipresentes como piolhos por costura, nunca nos veremos livres deles.

  São a garantia da raça. E têm opiniões. Autónomos na sua infâmia civilizada e moderna, durarão até ao fim dos séculos. Ou mesmo um poucochinho mais.

   Mas nem dão nem darão p’ra tabaco.  

terça-feira, 12 de junho de 2012

Perplexidades e dúvidas


(imagem obtida aqui)

Quando se LÊ a entrevista dada por António Borges ao Diário Económico verifica-se que ele NÃO DIZ que os salários devem baixar NEM SEQUER O SUGERE. Falar em contenção temporária de salários NÃO É O MESMO que baixá-los; não se ter temporariamente dinheiro para aumentar o salário da mulher-a-dias NÃO É O MESMO que passar a pagar-lhe menos.

Mas não foi o prémio Nobel da economia e guru da esquerda, o sr. Paul Krugman, que disse há poucos meses, quando esteve em Portugal para ser universitariamente homenageado, que OS SALÁRIOS DEVERIAM DESCER 30%?

SERÁ QUE ALGUÉM ANDA CONFUSO? OU SERÁ QUE ALGUÉM PRETENDE CONFUNDIR-NOS? 

Entretanto, disse-me há pouco um amigo que, recentemente, no decorrer da feira de vaidades chamada Eixo do Mal que Nuno Artur Silva criou e acarinha semanalmente na SIC Notícias para inefáveis gozos da intelectualidade irreverentemente à frente do cérebro, o sr. Daniel Oliveira, feirante com banca residente, esquerdino desde há meses zangado com o BE, paladino do inconformismo e indignado a tempo inteiro, afirmou que não põe o seu dinheiro em bancos nacionais.

E eu fiquei sem saber se alguém ficou com dúvidas quanto ao sr. Daniel Oliveira.

terça-feira, 29 de maio de 2012

Da relva que muitos querem que a gente coma


Encontrei aqui há pouco este comentário, o qual, por me identificar com o que nele é dito (embora as coisas vão ainda bastante mais fundo), transcrevo integralmente:

A sra. qualquer-coisa do Público, pessoa de suspeitas ligações a uma facção política, meteu-se na guerra de poderes entre a Impresa, do inefável dr. Balsemão, e a Ongoing, onde milita o arrogante dr. José Eduardo Moniz. Talvez porque a sua facção se tenha alinhado com uma das partes.

O dr. Relvas, entretanto, tem meio país à perna: o pessoal da RTP, por cuja reforma é responsável; as autarquias, que  querem mais dinheiro (e cala-te boca); a parte ressabiada das velharias do PSD; e até o dr. Daniel Oliveira que afirma que o dr. Relvas manda nos jornais todos, embora todos os dias todos os jornais lhe malhem.

Eu diria, como, noutro dia, o Herman que os portugueses não gostam de quem aparece muito e como o dr. Relvas está constantemente a aparecer... E meio país detesta que ele apareça, porque considera o homem como a sua desgraça. Ele bem que se fartou de dizer que não ao dr. Passos Coelho, que não queria ir para o governo, mas o outro insistiu e ele, a esta hora, já deve estar assim para o arrependido, mas também sabe que se se demitir dá assim uma espécie de ximbalau no primeiro-ministro, por isso...

Eu não tenho opinião formada sobre a qualidade política do dr. Relvas, acho que, até agora, não lhe vi nada de especialmente digno de registo, embora o ouça falar das ideias que tem sobre o que já fez ou tenciona fazer. Umas são interessantes, outras nem por isso, de outras não partilho. Mas enfim, tem ideias, o que já não é nada mau. Coisa de que os portugueses, em geral, também não gostam. Tenha-se em conta a popular expressão "não te ponhas p'raí com ideias...!".

Há só uma coisa que eu achei piada no dr. Relvas: foi ter posto de imediato à disposição o material escrito trocado entre ele a jornalista, enviando-o mesmo ele próprio, exigido o inquérito e deslocar-se pessoalmente à ERC para testemunhar. Pode ser só fachada, mas procedeu como qualquer político de um país democrático à séria faria. Não foi como o outro, o dr. Ricardo Rodrigues, que roubou o gravador ao jornalista e continua impávido na AR e com a compreensão publicamente expressa do patriarca da II República, o venerando dr. Soares.

Não tenho, pelo que ficou atrás, nada a dizer sobre este  caso, nem a favor nem contra. Mas uma coisa é certa: não sou suficientemente ingénuo para tratar de um episódio de guerra entre empresas, asquerosamente disfarçada de problema de liberdade de imprensa, como ambas as empresas e os seus apoios políticos querem que ele seja para melhor disfarçarem os seus interesses de que todos seremos vítimas. Lixado, ainda vá, que remédio!; papalvo, não!

ÀS VEZES PARTEM CARTAS…


  Como Miguel Torga e D. António Ferreira Gomes diziam impressamente em epístolas notáveis que endereçaram ao Povo português e a outras entidades, a faculdade de nos contestarmos, exercendo opinião ainda que vivaz e crítica, é um índice de cidadania e de real liberdade.
  O que distingue uma pessoa de outra é o pensamento autónomo, que se conjuga com a faculdade de aceitar ou de rejeitar. E ambas, dessa forma legítima, não estabelecem contramão - antes concorrem para um aperfeiçoamento do território que lhes é comum: a vida em sociedade civilizada.
 O problema fundacional é que muitos não a desejam, não a acalentam, não a procuram sustentar e não a apreciam. Por outras palavras: porque "valores" (na verdade interesses espúrios) mais baixos se alevantam - digamos desta maneira a rebours da velha frase canónica.
  Nunca como hoje o mundo necessitou tanto da poesia que vem da dignidade e da dignidade que vem da poesia, como referiu num saudoso bilhete desses tempos Agostinho da Silva.
 O que implica a dignidade de discordarmos e de discordarem de nós.
 E o corolário creio que será este: se isso se perde, se mancha ou se trespassa... então está-se a caminho do princípio do fim.

A este propósito enviei há dias este email que achei por bem enviar também por aqui.

Caros confrades da revista SIBILA*

 Tomei conhecimento, por leitura recente, da polémica que vem acontecendo a propósito de um texto sobre Augusto de Campos (creio que digo bem) da autoria de Luis Dolhnikoff e que despertou situações bravas...
 Não vou referir-me ao cerne da questão, pois só posso aquilatar pela rama.
 Mas gostaria de dizer que essas polémicas, no fundo, são produtoras de luz - uma vez que purgam os maus humores do que esteja eventualmente errado, tendo em vista a existencia salubre.
 Muito diferente é o que se passa em Portugal, onde um espesso manto de silêncio vem cobrindo tudo. Os donos da aparelhagem literária/literata conseguiram criar por aqui um simulacro de "serenidade mansa e doce", em que não há sobressaltos nem pendências. E os que acaso se atrevem a tentar dizer que algo está mal, que alguns reis vão nus, são de pronto silenciados para que não causem danos eventuais à "panelinha" a que aludiu com perspicácia Eça de Queirós.
  Aí haverá coisas pouco amáveis. No entanto, aqui, caminha-se a passos largos para um indubitável cripto-fascismo.  
  Com o selo da unanimidade e da falsa cortesia!

  Saudações do

                                         nicolau saião

*(“SIBILA - revista de Cultura”, é editada no Brasil e nos Estados Unidos e dirigida por um núcleo de autores e professores tendo no lugar de topo o juiz de Direito e escritor Régis Bonvicino).


terça-feira, 22 de maio de 2012

BONS PRINCÍPIOS…MELHORES FINS!




“O Presidente francês, François Hollande, manifestou, num primeiro encontro com o homologo turco, Abdullah Gul, na segunda-feira em Chicago, a vontade de reativar as relações bilaterais, indica hoje a imprensa turca.

"Relancemos as relações entre a Turquia e a França. Reparemos o que está danificado", respondeu Hollande ao Presidente turco, que se mostrou inquieto com a "hostilidade francesa" face à Turquia.

Hollande encontrou-se com Gul na segunda-feira, à margem da cimeira da NATO em Chicago, refere a imprensa turca.

Segundo o jornal turco Hurriyet, Gul referiu a Hollande que os dois países têm "interesses comum na generalidade dos assuntos".

"Abramos um página em branco, uma nova página. Darei instruções aos meus ministros neste sentido", afirmou Hollande a Gul, segundo o jornal turco pró-governamental Sabah.

As ligações bilaterais entre Paris e Ancara degradaram-se devido à oposição do anterior presidente francês Nicolas Sarkozy à entrada da Turquia na União Europeia e à votação, em França, de um texto que penaliza a negação do genocídio arménio, que a Turquia não reconhece.

(in Diário de Notícias)”
                                                          ***
  A mentalidade "politicamente correcta" (ou seja, levar bofetadas para não apanhar pontapés) deste senhoreco já começou a dar frutos: agora é a Turquia, em breve será a burka livre e a seguir a construção de minaretes.

  Grão a grão enche o Islão o papo.

  Aliás, foi isso o que Hollande prometeu à comunidade de mullahs que o apoiou: para quê a v/ violência, se podem ter tudo com mansidão? Hoje já é conhecida a aliança entre o "socialismo" rosa ou escarlate com o proselitismo muçulmano. Ambos são capazes de tudo para possuírem o Poder.

  Pois não...!

quinta-feira, 10 de maio de 2012

Da surdez no clítoris - 5



(...)

Louçãs e Fazendas já não são adolescentes, já perderam esse trunfo eleitoral da rebeldia juvenil incitadora das “massas”. E o que propõem, por mais que alteiem a voz, esbracejem e se contorçam histrionicamente na Assembleia ou se multipliquem em exemplos de propaganda política criativa e anticonvencional, cada vez menos encontra audiência e receptividade. Passados os primeiros anos de fulgor e crescimento, começam lentamente a declinar e afundar-se na inocuidade. Mas há uma parte dessa “plêiade” da intelectualidade revolucionária (por força dos tempos, cada vez menos atacada pelo quadradismo mental do “revisionista” PC) cuja influência — embora quase invisível, na medida em que se confunde com a luta pela observação dos três princípios enformadores da civilização ocidental que referi e, por tal, permeia e se insinua naquilo que a ela própria se opõe — é maior e mais representativa, ao mesmo tempo, do que resta da esquerda e daquilo em que ela se tornou: falo do movimento Política XXI.

Desfeita a sovietização no Leste europeu; desmembrada a URSS; extinto o Pacto de Varsóvia; a crista cubana à banda; desvendada a miséria dos territórios em que se aquartelava o socialismo; Pequim a todo vapor, mas agora graças à sua efectiva rendição ideológica disfarçada de admissão de um “segundo sistema”… A esquerda da mentira disfarçada com a farronca, acossada, pouco mais pôde fazer, até hoje, do que defender o vão de escada político e ideológico a que ficou reduzida. Com isso, porém, fez avançar num movimento — só na aparência — paradoxal a esquerda que sempre procurara menosprezar e aviltar: a esquerda dos direitos e liberdades das minorias culturais, do universalismo humanista, do multiculturalismo como tarefa, etc., etc., gerada pelos sixties. Ser a favor da revolução sexual e da liberalização de costumes, ser respeitador das restantes culturas, costumes e religiões e questionar ou contestar, a partir delas o que fosse ocidental, ser militantemente (na rua ou no café, no sofá ou na cama) pelo amor e pela paz no mundo era, nessa época”, para quase todos, ser “de esquerda” ou, pelo menos, “progressista”. Uma “outra esquerda”, entenda-se, expressão que se mantém por deformação das vias do pensamento consequentes ao domínio da vulgata conceptual marxista.

Essa esquerda, contudo, institucionalizara-se já, note-se, nos países nórdicos e anglo-saxónicos e, em geral, na Europa ocidental e nos USA, sobretudo no plano da educação. Foi nesta que os seus teóricos estabeleceram os seus quartéis-generais e criaram os seus ninhos; educar para o Homem Novo, minar o “sistema” pondo a escola ao serviço da contestação foi a estratégia seguida. Do mesmo modo que Marx e Engels, numa época em que lhes era impossível utilizar a imprensa, tanto por falta de meios financeiros e de distribuição como de oportunidades, escolheram as associações populares para disseminar a “fé comunista”, os socialistas de horizontes alargados viraram-se para o ensino, onde mais facilmente pregaram e impuseram a educação “humanista”, virada para os amarfanhados “aprendentes”, alvos de contínua agressão opressiva na sua aprendizagem e desejo de saber. As preocupações democráticas do Ocidente constituíram assim o terreno onde, insinuando questões sofisticamente ligadas à liberdade individual, essa mesma democracia tem vindo a ser atacada a pretexto de melhor a consolidar e alargar por meios pedagógicos. E, o que é pior, frequentemente com as melhores intenções por parte dos eternos “idiotas úteis” de serviço.

Os filhos e os netos do Dr. Benjamin Spock (o tal que hoje se sabe, por portas travessas, arrear nos alunos à surrelfa, de vez em quando) tornaram-se assim a intelectualidade arauta dos três princípios de fé da cultura ocidental que procurei evidenciar, oficiada por um aparelho conceptual de raiz marxista aplicado às questões trazidas ao Ocidente por um desenvolvimento técnico-científico vertiginoso, sem paralelo na História humana, e respectivas mutações económicas e de dinâmica social. Chegara a hora da entrada em cena e do protagonismo da nova esquerda, redentora dos pobres e dos oprimidos, humanista, tolerante: chegara a hora do “politicamente correcto”. O seu mimetismo com a cultura ocidental é de tal maneira eficaz que nem os comunistas de antanho conseguiram furtar-se a vergar-se e obedecer à sua influência.

Louçãs e Fazendas podem desaparecer, portanto, que Política XXI se dissemina por todo o lado, mesmo sem nome mas com nomes, pelo PS, pelo PSD e até pelo CDS. Não precisa sequer de designação para se manter e sobreviver — sempre, é claro, em eternas guerras de poder e de prestígio como é típico de qualquer organização que, como o marxismo, tenha o modelo de seita. Mantém-se e sobrevive porque venceu a democracia, envenenando-a com as suas próprias armas, garantiu audiência e militância porque lhe formatou a mentalidade e os instrumentos do pensar através da escola, da comunicação social, da cultura. A esquerda já não se acoita agora nas pretensas conquistas económicas, no incomparável desenvolvimento e na fuga dos proletários ao jugo capitalista. A esquerda caminha agora na própria origem com que justifica a sua existência: a da abertura de novas vias que levem ao aparecimento do Homem Novo sem necessidade de qualquer golpe armado — embora, em última instância, não o rejeite. Já não premedita, acaba por ser quase sincera. Tornou-se "natural" porque é cultural.

E, para isso, basta-lhe — para além do não abrandamento do seu discurso tradicional sobre os crimes da burguesia, é claro — passar a defender cada vez mais os direitos das minorias reveladas ou formadas no âmbito das transformações do Ocidente, tratando a excepção no mesmo nível da regra e, no seu discurso, transformando esta numa quase excepção (sem esquecer, o resto do mundo, quase todo ele transformado, da China ao Médio Oriente, passando pela África e pela América Central e do Sul, numa espécie de enorme minoria étnica). Por exemplo, fazendo perspectivar a individualidade sexual como um papel induzido socialmente ou, de outra maneira: eliminando a noção de indivíduo dotado de estrutura e vontade construtora de si e substituindo-a pela do ser humano enquanto mero produto e joguete de forças colectivas a quem, com as melhores intenções, é preciso desbloquear a mente para outros horizontes. Lembro-me sempre, a este propósito, dos costumes de uma tribo da Papuásia, Nova Guiné, referidos pelo Professor José Gabriel Pereira Bastos, do curso de Antropologia da Universidade Nova de Lisboa, para grande choque dos alunos (alguns saíam da sala). Nessa tribo, os homens vivem à parte das mulheres; e raptam os rapazes à medida que eles atingem uma determinada idade, para os levarem para junto de si, justificando-o com a crença de que, para se tornarem adultos fortes e saudáveis, terão que beber bastante esperma.

Mas não só. Na sua ânsia de reinar, a pretexto da libertação de tudo o que possa cheirar ou ser apresentado como opressão com base no preconceito cultural ou outro, aceita discutir, com ar sério e quase sempre composto, coisas como a existência de uma cultura própria de cegos, de surdos ou de coxos, mistificando e relativizando, desse modo, a noção de cultura e dando azo a que possa vir a serem cometidos crimes como o que este casal de lésbicas pretende fazer. Ultrapassa o querer transformar em normalidade o que é excepção, por apelo à dignidade desta: chega a querer dar estatuto de honestidade à discussão sobre se um acto hediondo é, afinal, um acto belo; se um egoísmo criminoso é, antes do mais, um benfeitoria (sem esquecer no que tem resultado a justiça “humanista” e de quanta injustiça, violência e criminosos impunes dela têm resultado). O “humanismo” desta nova esquerda traduz-se num banditismo ideológico instaurador da maior ditadura que a Humanidade poderá vir a conhecer, imensamente superior à que os nazis chegaram a instaurar na Alemanha.

Para terminar, Carmo da Rosa, um apontamento. Que outrem haverá mais paradigmático dessa “nova esquerda” e da sua vitória do que o dirigente máximo do país onde Spock pontificou, do país do “politicamente correcto” instituído até à náusea? Que exemplo maior de hipocrisia e arrogância assente em contradições demagógicas do que o sr. Barack Obama? Obama é a típica esquerda moderna, a esquerda “de sucesso” que ascende ao poder melifluamente como desejo de justiça e liberdade para as minorias (não interessa quais) e que se apoia, não somente nas existentes mas ainda descobrindo outras, novas, nem que para isso, tenha que incentivar a convicção da sua existência. A esquerda que é permissiva para melhor dividir, a pretexto de unir, e assim reinar.

Certamente que Obama não conhecerá este casal de lésbicas surdas (ou já teremos que lhes chamar “inauditivas”?) nem muitas outras existências minoritárias. Ele é, porém, o “progressista” à sombra do qual a esquerda — a“esquerda esclarecida”, entenda-se — cria e consolida o seu domínio. E que, tal como todos os colectivistas da História, tem agido pragmaticamente “à direita”, sempre que a realidade o faz engolir, sem pestanejar, as convicções ideológicas e as medidas a tomar que propagandeou para chegar ao poder — por cá, houve quem, anos atrás, metesse “o socialismo na gaveta”. Porque Obama não é apenas um agente dessa esquerda: isso é, uma vez mais, engolir o messianismo marxista, na sua afirmação de que as condições sociais hão-de gerar sempre alguém que as represente e efective, de que a vontade do indivíduo não é mais do que expressão camuflada do inconsciente colectivo. Não. Obama é um alguém, possuidor de uma vontade e de um interesse próprios; como qualquer de nós, não é um agente meramente passivo, é também activo, pretendeu alcançar o estatuto a que chegou. Obama é, como todo o ser humano, dotado de livre arbítrio e, portanto, responsável.

Ora um dos pontos de conflito que tem havido entre si e o Rio d’Oiro é precisamente o grau de envolvimento de Obama em desmandos vários, permissividade incluída. E argumenta com exemplos de políticos de direita que sancionam e, por vezes, até dão respeitabilidade a essa permissividade. E isso, Carmo da Rosa, é não perceber o que está em jogo.

É claro que se quebraram tabus disparatados e inaceitáveis e que as pessoas que vivem nas sociedades ocidentais onde isso sucedeu passaram a viver já livres deles. Mas por isso mesmo é que a direita de hoje também não é já a direita anteriormente dominante, os seus horizontes alargaram-se à medida das transformações sociais. A direita puritana é folclore, a direita de hoje já se “debocha” com naturalidade e descontracção, tem uma concepção de vida muitíssimo mais aberta. Não usa essa autolibertação insidiosamente como arma política, não manipula as pessoas no que lhes é mais essencial e lhes tempera intimamente a vida para cimentar o seu domínio “teológico”. Argumentar com a existência de líderes liberais ou de direita que, a esse nível (e não só), têm o mesmo comportamento de Obama ou da esquerda “moderna” para afirmar que tal tipo de coisas nada significa é cair no engodo que a esquerda e Obama estenderam ao Ocidente crédulo e incauto, é, como dizia o meu paizinho, “o mesmo que comparar uma vaca com um molho de salsa”.

É a diferença entre assumir novas formas de viver e utilizá-las como arma, transformando-as na teologia de novos salvadores, que mudam a sua adopção lenta, natural e espontânea em versículos jurídico-legais moldadores dos Amanhãs por eles visionados como ninguém e de que serão eternos oficiadores. Em Portugal, Obama não está no poder, mas temos na universidade Boaventura de Sousa Santos, do alto de cuja fronte nos contemplam os séculos vindouros.

Esteja, portanto, descansado. Quando o Rio d’Oiro, o Lidador ou eu próprio, abardinamos com o Obama ou o apontamos directamente, não é por embirração, para fazermos reinar a injustiça cega de um qualquer sectarismo ou para achincalharmos alarve (deverei pedir desculpa por utilizar uma palavra, que, na sua etimologia, significa “árabe”?) ou gratuitamente. É porque Obama é, de facto, alguém muito perigoso para o Ocidente e para a presente e futura luta mundial pela liberdade. Não apenas pelo que faz nem pelo que diz, mas pelo que diz que faz e porque o faz. Porque, parafraseando Baudelaire, quando dizia que a maior vitória do diabo é ter-nos convencido de que não existe, a maior vitória da “esquerda iluminada”, do “progressismo” é ter-nos convencido de que não é (conscientemente ou inconscientemente) esquerda, mas apenas o ideário do cidadão de uma sociedade “verdadeiramente humana”.

Se eu quisesse sintetizar o essencial do que aqui fui pretendendo esclarecer, diria que os três princípios culturais que apontei são, afinal, como que o horizonte para o qual e pelo qual se moveu e se move a cultura ocidental. E sob esse aspecto, mais do que necessários, são para ela vitais. Mas que quando alguns determinam, por vaidade ou por insegurança sobre o que possa estar mais além do que conseguiram ver — o que constitui esse horizonte —, fixando-o essa sua visão como a Visão, isso torna-o, pelo contrário, letal, porque já nada mais há para descobrir do que o que é sabido, nada para fazer senão ruminar o permitido sob a capa da total ou quase total permissão, sob a guarda do juízo do pastor omnisciente. E isto engloba quer os antigos paraísos socialistas — tanto do ponto de vista da economia como do da cultura — quer as disposições legais introduzidas pela esquerda “moderna”. E também os socialismos rivais dos marxistas, como o nazismo e o fascismo.

Termino esta minha resposta, que se alongou ao tornar-se, afinal, já menos para si do que a-pretexto-de-si. Não sei se a ml voltará como o fez — inesperada, mas atenta e oportunamente — ao fim de tanto tempo, a ressurgir das sombras, num momento de aparente maior crispação entre alguns de nós, para falar de um blogue ridículo com ridículas posições de ridículos colaboradores. Não calculo para que se deu a senhora, de súbito, ao trabalho ou ao desfastio: mas, confesso, também não estou por aí além desejoso de o saber. De qualquer modo, não disporei proximamente de muitas oportunidades para responder seja a quem for. É que não tendo, como o Carmo da Rosa, armários para acabar de pintar, estou, no entanto, metido noutras tarefas que, além de me tomarem bastante tempo, me dão um gozo do caraças. E que nada têm a ver com política. Felizmente.

Até logo.

P.S. - A gravura que encima o post fica como o sinal da minha homenagem às cidadãs lésbicas e bissexuais de todo o mundo.

terça-feira, 8 de maio de 2012

Da surdez no clítoris - 4



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Quando Álvaro Cunhal publicou A superioridade moral dos comunistas já Freud era, há muito, dono da secção ocidental do Jardim das Delícias, comunistas residentes incluídos. O século XX foi, neste plano, o século da psicanálise, o que, em conjugação com o aumento do número e importância dos papéis desempenhados pelas mulheres e a consequente alteração do estatuto do feminino, alterou por completo a perspectiva das relações entre os sexos e a própria definição do que definiria cada um deles quer individual quer socialmente. Os conceitos psicanalíticos foram, a partir de certa altura, integrados num outro conjunto conceptual emergente no âmbito da luta por emancipações e direitos diversos, sempre, todavia, inseridos num enquadramento dado pelo vocabulário social e histórico do ou com a raiz oitocentista do materialismo dialéctico.

Foi nos trinta anos decorridos entre 1955 e 1985 que teve lugar a formação do contexto no seguimento do qual vivemos hoje. São os trinta anos em que as chamadas tendências sociais minoritárias irrompem no Ocidente como expressão da necessidade das mudanças no modo de viver que se tornavam irreprimíveis. Surgem grupos contestatários do “sistema”: osprovos, na Holanda; quase imediatamente, os beatnicks; poucos anos depois, nos USA, o movimento hippie, como consequência da influência de ambos os grupos na chamada beat generation; e, inevitavelmente, dois ou três anos depois, os yippies, do Youth International Party, politicamente ligado ao anarquismo — todos eles declarados pelos marxismos instituídos como movimentos de alienação da juventude fabricados pela CIA para a desmobilizar da "justa luta encabeçada pelos comunistas". É também na segunda metade da década de 50 que, paralelamente à posterior pregação hippie do “make love, not war”, começa a emergir o burguesíssimo movimento swinger, o qual no final dos anos 60 merecia já reportagens em órgãos de informação tão respeitáveis como a Newsweek. E é também nos mesmos anos que a homossexualidade — essa “tristeza”, como a classificava o mesmo Cunhal, nos anos 90 — começa a espreitar dos armários quando não a mostrar-se já orgulhosamente de corpo inteiro. De tudo isto se distanciaram os marxismos dos diferentes países “revolucionários” bem como os partidos comunistas, de diversas obediências, do resto do mundo: homossexualidade, bissexualidade, família comunitária, amor livre e o próprio erotismo eram considerados desvios, doenças da sociedade burguesa.

Lembro-me de haver lido algures que um jornalista de uma revista de Angola (de cujo nome não me recordo agora e onde escrevia gente da craveira do poeta Herberto Hélder), enviado para cobrir a chegada do Homem à lua, voltou mas a falar predominantemente de coisas como… camas de água, inventadas por essa altura e aproveitadas desde logo para muitas mais coisas além de dormir. Além de dar também conta de algo que, visto à distância de mais de 40 anos, adquire contornos interessantíssimos: a orgia sexual colectiva que se terá seguido ao sucesso da missão entre muita gente envolvida no projecto, quase como que numa celebração espontânea da própria espécie. Creio que este exemplo bastará para se conseguir uma imagem da erupção que, neste plano, se deu no Ocidente. Juntamente com as emergentes problematizações ecológicas e à atenção dada às formas espirituais de vida do Oriente, do hinduísmo ao budismo zen — a este último devido sobretudo aos estudos de Alan W. Watts, que integrava o exército americano estacionado no Japão a seguir ao final da guerra.

O Maio de 68 representa e acrescenta algo a tudo isto: a afirmação da existência de uma esquerda “moderna”, de “temas e propostas fracturantes”, para utilizar a terminologia de herdeiros dos soixante-huitards, como o é a parte mais inspiradora da formação do BE. O fascínio oriental chegou também aos “duros” do marxismo (e, não por acaso, aos neo-nazis), com os seus entusiasmos pelo educador-mor das massas, Mao Tsé-Tung e pela “revolução cultural” do “Bando dos 4” no PC chinês, esses “comunistas de manteiga”, como lhes chamara Estaline — agora também “bloquistas”. E nem é preciso sair da recordação da constituição do Bloco para nos apercebermos de outra coisa.

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segunda-feira, 7 de maio de 2012

O Calcanhar de Aquiles (1)




Nicolau Saião, As coisas do mundo


…E ANDANDO (como diz a expressão vernácula)

   Todas as pessoas têm as suas armas de defesa – instintivas ou artilhadas mais ou menos adequadamente. Assim como aqueles animais que, carentes de genica ou de ferocidade, encenam truques de camuflagem, digamos, como sejam mudanças de cor, ruídos ou berros mais ou menos intempestivos, etc.

  Tudo para afastarem, ou manterem ao largo, os vigorosos sinais de perigo ou os actos expressos que os podem deixar em palpos de aranha.

  Também tenho tido, pela vida fora, os meus truques à semelhança desses referidos…

   Na esperança, muitas vezes perfurada, de manter adversários potenciais ou inimigos provados à distância conveniente. Uns têm pegado, outros nem tanto.

  Mas, como diria Mateus Pippebarem, “o que se há-de fazer, rai’s vos estrafeguem?”.

  E tinha razão o talentoso musicólogo e pensador.

  Como hoje, o que me vem já de há coisa duma semana, me sinto muito farto desta jiga-joga (refiro-me ao ambiente social, ao habitat que nos rodeia transversalmente, digamos assim com crueldade), bastante amarrotado em matéria de vivacidade varonil, baixo um pouco a guarda e vou ser sincero por uns minutos. E deus praza que nenhum proto-sacana, nesse ínterim, aproveite para me lixar ainda mais qu’ó que já estou. (Assim como assim, é uma vez sem exemplo e como se calhar ninguém vai reparar…alma até Almeida).

  Pois um dos meus truques é encenar que sou muito corajoso.

  Como fui dotado duma constituição robusta e duma expressão façanhuda, o que deu para ter andado no pugilismo com relativamente bons resultados (fui, como alguns de excepcional memória estarão lembrados, vice-campeão militar de meios-médios ligeiros, nos bons velhos tempos em que também havia bola, atletismo, equitação e esgrima), a coisa tem pegado…Muitos criaram-me um certo…medo – quando, se me têm batido o pé com temeridade, eu teria metido o rabo entre as pernas e batido em retirada!

  E o mesmo se diga no plano da escrita: tenho espingardeado certos verbos-de-encher, do Soares a operadores públicos do mesmo jaez, do antigo premier a certos poetinhas e escrevicadores da capital e da província, de protagonistas do pervertido sistema judicial a padralhada e afins…

  Tem ido tudo a eito!

   Mas mal os visados sabem que durante dias me torço todo por dentro.

   Chego a ter suores frios. E noites mal dormidas!

   Ou seja: temo e não é pouco que – apesar de eu não ter importância nenhuma, ser portanto fraco pitéu para os seus deles dentes acerados – haja o perigo dalgum dos ditos manguelas num dia de cólera eventual me tomar de ponta e, à guisa de dar o exemplo, me meter em trabalhos.

   Até que um tempinho passe, todo eu sou tremeliques.

   Este é um dos meus aspectos secretos.

   O outro é este: simular – mas nisto não serei original, dezenas para não dizer centenas de confrades publicistas, para além naturalmente dos manos da classe política, sofrerão da mesma circunstância – que me interesso muito pela coisa pública, pelo bem comum como usa dizer-se.

  Quando a verdade é que me estou urinando para o meu semelhante, para o vulgar cidadão que anda por cá a receber as benesses dos que nos têm, vão e continuarão a governar.

  (Eu sei que estou a desiludir um pouco a meia-dúzia que tinha por mim algum, digamos, apreço ou mesmo até admiração, mas hoje o dia – e um dia não são dias, pôça – é de total franqueza e frontalidade, ainda que isso fira para sempre a minha efígie).

  Aquilatem por estes exemplos: como consta que eu não gosto de hipócritas e de pachelgas, de falsos-irmãos demagogos e de pirretes, seria de esperar que eu tivesse ficado triste com a vitória do politicamente correcto Hollande, que soube ter a habilidade de fingir que vai pôr a França no caminho certo e ser uma lufada de ar fresco ante o já desbotado e cheio de tiques Sarkozy.

  Pois sim…

  E a verdade é que fiquei sadicamente contentíssimo!

  O parceiro e os seus parceiros vão, a meu ver, dar cabo da nação dos comedores de rãs (como os ingleses, tradicionais inimigos ontem como hoje, dizem com certeiro humor) num aninho ou coisa. Vai uma apostinha?

   Basta ver-se o gosto com que uma das câmaras de TV se deteve, por um largo instante, sobre um negro e duas moçoilas com o toutiço tapado e sorrindo com esmero, no meio de tanta gente. Não foi por acaso, acho eu.

  É uma indicação clara de que os amigalhaços de turbante e a futura larga onda de bem-vindos imigrantes terá da nova gerência fraternal acolhimento.

   O que mais tarde ou mais cedo dará nos boulevards grossa bernarda. Até já lambo os beiços…

   Também fiquei contente pela alegria do nosso estimado A.J.Seguro, pela outra do extenso grupo de como se costuma dizer adeptos de Sócrates e pela do excelso pai Soares, que mal deram os resultados foi de pronto filmado a colocar o punho no ar soltando ao mesmo tempo esta frase inspirada e reveladora: “E agora, à Bastilha!”.

  (Têm de concordar: para alguém com os pés para a cova - lagarto, lagarto – é ter-se muita coragem e espírito de combate, carago!).

  Já gostei menos do que houve na Grécia: fiquei triste porque ali os pasokas e outros papandreus ficaram de rabo ao léu. Mais uns meses e eles vingariam, escaqueirando definitivamente a Arcádia, os bárbaros que se fartaram de levar na tromba em Salamina, Termópilas, etc…Mas mesmo assim talvez não leve muito tempo.

   E, com a maldade que hoje me deixarão ter, uma pergunta sádica mas terna aqui deixo a pairar: será isto o princípio do fim em rota de encontro para o 2012 dos sacerdotes Maias?
  Olhem que eu não disse nada! Não me queiram mal!

  Fica com estima (tá bem, deixa…) o vosso et nunc et semper