terça-feira, 22 de janeiro de 2013

O vespeiro europeu

(imagem obtida aqui)

Também poderia ser intitulada assim, esta crónica de Ferreira Fernandes publicada hoje no DN:

Não há vespas más


Têm nome suave que mais parece um nespresso, velutina, mas são máquinas de guerra invasoras. Como num filme de ficção científica, chegaram ao porto de Bordéus talvez escondidas num vaso chinês, em 2004 ou perto, subiram já até Paris e a Alemanha treme com a chegada delas, desceram pelo País Basco e descobriram-se, há dias, 40 ninhos no Minho. Diz-se que em poucos anos a Vespa velutina nigrithorax pode dar cabo das colmeias europeias. O eurodeputado Nuno Melo perguntou ao Parlamento Europeu o que pensa e este respondeu como na crise financeira: que cada país se safe. A lenda diz que 40 destas recém-chegadas vespas conseguem dar cabo de 30 mil abelhas (uma colmeia pode ter 80 mil). Carnívoras, despedaçam a abelha, desperdiçam a cabeça, asas e patas, ficam só com o abdómen, que levam para o ninho, para alimentar as suas larvas. Lá longe, as abelhas japonesas têm um truque para sobreviver a uma vespa mais terrível, a mandarina: deixam-na entrar na colmeia, fecham as entradas e aquecem o ambiente abanando as asas. Com 43 graus, matam a vespa que é mais sensível ao calor do que as abelhas. Sempre mais inteligentes os japoneses. Mas como importar essa sabedoria?... Os cientistas franceses, os europeus mais aplicados no estudo da velutina, tentam acalmar dizendo que não há vespas más. O povo está assustado. E, como já vimos, as autoridades empurram a solução com a barriga. A Europa é previsível qualquer que seja o assunto.

domingo, 20 de janeiro de 2013

Social-comunicação escondida com carteira de fora

Em adenda ao artigo de Alberto Gonçalves, "A carteira e a vida", transcrito no post anterior do Manuel Graça, aqui deixo os vídeos nele referidos. Para que fique bem patente o grau de estupidez e violência de que, com o maior descanso d'alma, é capaz a gentinha que nos "informa" e nos quer "iluminadamente" e "democraticamente" formatar e dirigir.

Quatro por cento

[Alberto Gonçalves no DN]:

Segundo um estudo da seguradora Zurich, 96% dos portugueses não acreditam nos políticos. Como agora é habitual, estes dados foram apresentados com preocupação e imputados à austeridade. Basta espreitar um noticiário televisivo ou folhear um jornal para perceber que, no caldo ideológico vigente, a austeridade está na origem de todos os fenómenos ocorridos no país, desde os suicídios ao abandono de cães, passando pelos assaltos à mão armada e a decadência do Sporting.

Fora das alucinações em voga, a notícia merece aplausos. Descrer da classe política não é, ao contrário do que a própria classe gosta de sugerir, meio caminho andado para o advento de uma ditadura, mas o primeiro passo para a consolidação de uma sociedade livre. As ditaduras erguem-se sobre a adesão excessiva aos "salvadores" nascidos justamente da veneração e da fé cegas. Numa democracia autêntica, criatura nenhuma depositaria nos políticos mais confiança do que a estritamente indispensável. Os políticos são um mal necessário, que se tolera com a resignação dedicada a uma gripe em Fevereiro. É óptimo que os portugueses suspeitem dos políticos. É trágico que, provavelmente, isso seja mentira.

Uma coisa é resmungar em inquéritos contra os senhores que mandam. Outra é supôr que os resmungos traduzem a capacidade de compreender que os senhores que mandam, quaisquer que sejam, constituem o problema e não a solução. Infelizmente, palpita-me que as pessoas não criticam o poder porque o poder é por definição criticável. Criticam-no porque não recebem dele tudo o que desejam. O poder, em suma, não satisfaz as expectativas, e a mera existência de expectativas, no sentido em que os de "baixo" delegam aos de "cima" a orientação das suas vidas, é flagrante sinal de atraso.

Entre parêntesis, note-se os extraordinários 4% de indivíduos que, íntima e publicamente, proclamam acreditar nos políticos. Antes de nos espantarmos com tamanha demonstração de primitivismo, convém somar os eleitos para cargos nacionais e locais, os adjuntos, os assessores, os secretários, os motoristas, os compinchas, os parceiros de negócios e todos os que sonham atingir um dos postos anteriores. O número parece plausível.

Terça-feira, 15 de JaneiroA carteira e a vida
As patrulhas não dormem. Uma campanha da Samsung filmou uma jovem ligada à moda a enumerar desejos para 2013. O principal desejo consistiu numa carteira Chanel, que a jovem sonha comprar logo que junte dinheiro para tal. A irrelevância do anúncio é tamanha que nenhuma criatura psicologicamente equilibrada repararia nele. Por sorte, o Facebook está repleto de criaturas à beira de um colapso nervoso e o filmezinho em questão transformou-se depressa no que agora se designa por fenómeno viral. Muitos milhares de pessoas decidiram considerar criminosa a ambição pela tal carteira e, com a indispensável valentia que define a raça, começaram um processo de enxovalhamento da jovem, de seu nome Filipa Xavier.

É ou não é bonito? É, sim senhor. Sobretudo num país em que todos os dias figuras públicas, semi-públicas e anónimas exprimem sem pudor nem consequências alucinados apetites. O dr. Mário Soares pode ansiar por guerras civis, europeias ou mundiais que o vulgo não arrisca um comentário menos abonatório. O inqualificável prof. Freitas e o sr. Carlos da CGTP reclamam a dissolução do Parlamento e o vulgo acha o pedido normalíssimo. Diversos capitães de Abril reivindicam golpes de Estado e o vulgo não dá um pio. Comentadores encartados e o sr. Baptista da Silva convocam a "solidariedade" europeia a patrocinar-nos os delírios e o vulgo aplaude. Jornalistas que perceberam mal a natureza da profissão adoptam a retórica demagógica em vigor e o vulgo aprecia a proeza. O próprio vulgo, ou parte dele, ciranda por manifestações e "telejornais" a exigir em simultâneo protecção social e isenção de impostos. E nada disto suscita uma fracção do escárnio inspirado pela carteira Chanel. Ou uma chamada aos estúdios da Sic.

Numa das páginas mais embaraçosas do jornalismo pátrio, Filipa Xavier viu-se entrevistada no noticiário por aquela senhora que, durante dez minutos, tentou uma carreira como correspondente de guerra. "Entrevistada" é força de expressão: Filipa Xavier foi alvo de um interrogatório paternalista, onde acabou forçada a fazer votos de pobreza pessoal e familiar, a mostrar-se aflitinha com a situação económica e, juro, a garantir que ajudaria os desvalidos a vestirem-se para concorrer a um emprego. Entretanto, a referida "jornalista" esqueceu--se de exibir o guarda-roupa ou de anunciar a partilha do salário, decerto superior aos confessos 700 euros de Filipa Xavier. E a Samsung suspendeu a campanha. A pior crise está nas cabeças, não na carteira.

Quinta-feira, 17 de Janeiro A questão racial
No Alentejo, um pitbull matou uma criança e os portugueses descobriram novo pretexto para a polémica. Dezenas de milhares de pessoas assinaram petições contra o abate do bicho. Suponho que outras tantas exibiram posição contrária. Eu, que decidi não ter filhos por falta de paciência e sempre tive imensa paciência para os meus diversos cães, tendo resignadamente a concordar com a segunda escola de pensamento, ou no mínimo a achar absurda a promoção do convívio entre o ser humano e espécimes susceptíveis de o trucidar. Em simultâneo, não percebo o debate sobre as raças perigosas e as raças inofensivas. Sobretudo porque o problema canino está, justamente, no conceito de raça.

Um cão, companhia fiel e alegria permanente, só o é de facto quando resulta da aleatoriedade na procriação. As raças, principalmente se manipuladas pelos criadores, não são um aprimoramento dos animais, mas o seu exacto oposto. A humanidade não reprimiu quase universalmente o incesto apenas para promover alianças tribais: a verdade é que os filhos de parentes próximos tendem estatisticamente para a toleima, e não é à toa que certos biógrafos, por azar charlatães, procuram uma origem incestuosa no berço de Hitler.

Compreendo o apelo pelos cachorrinhos de "marca" que custam pequenas fortunas em lojas da aberrante especialidade. Infelizmente, é inegável que tais criaturas não se distinguem pela estabilidade "emocional", mesmo considerando os voláteis padrões da espécie. Não digo que os animais acabem por se mostrar perigosos. Digo apenas que existe esse risco, e que, de acordo com o bom senso, o risco é proporcional à respectiva envergadura. Um "chihuahua" resultante da mais grotesca endogamia nunca oferece perigo de maior. Um rottweiler de condição similar é uma ameaça latente.

Não vou cair na armadilha da psicanálise e sugerir que a necessidade de possuir cães potencialmente ferozes é uma compensação do pénis (assim de repente, apostaria na compensação do cérebro). Porém, há por aí demasiados rafeiros fiéis, espertos, meigos e gratuitos a precisar de um lar e de um dono que não os utilize como símbolo de status. Se Deus não me livrar de um dia vir a defender uma "causa", que seja esta.

Sábado, 19 de JaneiroFalta de legitimidade
As razões apontadas para a alegada falta de legitimidade do Governo, hoje lengalenga recorrente, prendem-se com a discrepância entre o programa reformista que teoricamente o elegeu e o assalto fiscal que evidentemente pratica. Isto é, com a mentira.

Num certo sentido, a tese está correcta: ninguém duvida de que o dr. Passos Coelho mentiu, ou no mínimo enganou-se e enganou-nos muito. Sucede que daqui à "inevitabilidade" da queda vai uma certa distância. A distância que, por exemplo e para não recuar mais, manteve durante seis anos no poder os dois governos anteriores, cujos programas não correspondiam exactamente às políticas executadas. O PS do eng. Sócrates jurou em campanha duplicar a dívida pública? Obter recordes na dimensão do défice? Estimular o desemprego? Levar o país à bancarrota? Colocar-nos na dependência de credores? Se bem me lembro, nada disto foi prometido, tudo isto foi realizado - sem que se ouvisse um pio de discórdia dos críticos actualmente de serviço.

Em qualquer dos casos, a questão é meramente académica. Se o Governo actual ameaça (só ameaça) levar a cabo o vestígio de uma reforma, ou seja, aplicar o programa com que se apresentou nas urnas, os críticos estrafegam-no com idêntico vigor. Os que acusam o Governo de falta de legitimidade não têm legitimidade nenhuma.

O futuro da esquerda?
Primeiro o sr. Hollande anunciou um "pacote" de austeridade. Depois, pediu aos sindicatos a "flexibilização" das leis do trabalho. Em seguida, resolveu caçar terroristas islâmicos no Mali. Por fim, elogiou o Governo do dr. Passos Coelho. É isto o futuro da esquerda? Pelos vistos, sim, se apenas considerarmos a pequenina parte da esquerda às vezes capaz de recuar nos desvarios quando confrontada com a realidade. Há a esquerda restante, da qual os exemplos são numerosos e escusados.

domingo, 13 de janeiro de 2013

"A realidade não passará?" e "Os denunciantes"




(imagem obtida aqui)


São os títulos de duas crónicas de Alberto Gonçalves no DN, respectivamente aqui e aqui, que transcrevo de seguida.




A realidade não passará?

Agora é oficial: as exactas forças políticas que criticam os aumentos de impostos também não aceitam reduções na despesa. Se não tivesse outras virtudes, o relatório do FMI teria o mérito de confirmar que, perante um Governo indeciso, há uma oposição que sabe muito bem o que quer. Por acaso, quer o impossível, conforme já reivindicavam os "realistas" do Maio de 1968. E se as consequências de uns garotos mimados a berrar disparates não são graves, as consequências de partidos apesar de tudo representativos imitarem os garotos arriscam dar para o torto.

Sem surpresas, os "argumentos" contra os cortes no Estado não diferem dos "argumentos" contra a carga fiscal. Os cortes são ideologicamente orientados (como se os seus adversários agissem em nome de uma pureza desprovida de ideologia e de interesses). Os "cortes" não constam do Memorando assinado com a troika (como se se defendessem os "cortes" que constam do Memorando e se achasse este documento, afinal, louvável). Os "cortes" violam a Constituição (como se estraçalhar as finanças públicas à custa de negociatas e em seguida deslizar para Paris não violasse o artigo que prevê a punição política, civil e criminal das "acções e omissões" que os governantes "pratiquem no exercício das suas funções"). Etc.

Sobretudo o zelo constitucional é curioso. Aqui e ali, gente indignada fareja com regularidade incumprimentos da sacrossanta lei fundamental sem perceber, ou fingindo não perceber, que o problema não passa por aí. A situação para que, directa ou indirectamente, tantos entusiastas do legalismo arrastaram o País força o País a esquecer a constitucionalidade e a preocupar-se com a realidade. A primeira, apesar do escândalo, ainda é contornável; a segunda, cujo carácter imperativo não carece de tribunal próprio, não. De que adianta uma Constituição "garantir" a todos os cidadãos o direito ao Maserati na garagem se o stand de automóveis deixou de vender fiado?

Descontado o exagero, a retórica que vinga por aí teima no Maserati (ou no Opel, vá lá) e na isenção de o pagar. Para citar um recente convidado do Expresso da Meia-Noite, "temos de definir o padrão de vida de que não estamos dispostos a abdicar e então pedir solidariedade europeia". E não, o convidado não se chamava Artur Baptista da Silva, mas Nãoseiquê Nazaré, figura que suponho ligada aos futebóis e aos socialismos e que, diga-se, limitou-se a repetir a loucura vigente. Aos portugueses, compete respeitar escrupulosamente a Constituição. Aos europeus do Norte, cabe-lhes desprezar as constituições deles a fim de nos sustentar a folia, perdão, o padrão de vida de que não abdicamos. É a solidariedade unilateral.

De qualquer modo, a histeria geral está mal direccionada: o primeiro-ministro correu a avisar que o relatório do FMI "não é a Bíblia" e Paulo Portas admite que o dito relatório possui "coisas discutíveis" e "coisas inaceitáveis". Mesmo sendo verdade, o importante é o frenesim do Governo em abraçar a luta que o une aos que o desejam enxotar. No que depender de nós, nada muda. Feliz ou infelizmente, hoje pouco depende de nós. E, por este andar, amanhã ainda menos.




Os denunciantes

Ao arrepio da timidez típica na classe política, o Bloco de Esquerda não teme erguer a voz contra as injustiças. Há dias, o seu líder parlamentar denunciou um caso de negligência no Hospital de São Sebastião, em Santa Maria da Feira, onde um homem de 25 anos foi mandado para casa sem realizar qualquer exame e acabou por morrer devido a um aneurisma.

O único problema desta história, além de uma morte prematura, é a circunstância de ser tudo mentira - excepto, infelizmente, a morte. Afirmando-se triste com o uso da dor alheia para fins políticos, a própria mãe do falecido esclareceu que no estabelecimento hospitalar em causa "tiveram todos os cuidados, acompanharam-no sempre, realizaram todos os exames com diagnóstico imediato". Quanto ao BE, voltou-se contra as "incongruências" da fonte que lhe cedeu a informação e nem por instante admitiu que o pormenor de o Hospital de São Sebastião ser um exemplo pioneiro de gestão empresarial no Serviço Nacional de Saúde espevitou os apetites da rapaziada por expor as "falhas" do recurso aos métodos do sector privado (o sector público, escusado recordar, é imaculado).

Quem aqui falhou foi, como sempre, o BE. Desta vez fê-lo com espalhafato. Na maioria das vezes fá-lo à revelia do escrutínio público. Mas a repugnante natureza da coisa não muda: os senhores do BE sentem-se tocados pela graça, ungidos cuja missão na Terra é a de acusar, com o dedinho a tremer, as respectivas iniquidades, ainda que as iniquidades nem sequer existam ou ainda que as acusações escondam a defesa de iniquidades piores. De resto, a pior iniquidade é o BE.

sábado, 5 de janeiro de 2013

Por Artur Baptista da Silva!

(foto obtida aqui)

Pc reparado, volto hoje para sugerir a constituição de um movimento cívico, com vista a levar Artur Baptista da Silva mais alto do que até hoje conseguiu ir politicamente: a lista distrital do PS que foi derrotada pela de António Costa. Os socialistas não o merecem.


O lugar legitimamente reclamável por Artur Baptista da Silva  dentro do actual panorama político e social português, nunca poderá, pelo sucedido, ser inferior ao da chefia de um grande órgão de comunicação social. Mas o posto que verdadeira e honrosamente lhe compete é: ou o de futuro chefe do Governo que substitua o actual; ou o de próximo Presidente da República.


Porque jamais qualquer responsável deste país pôde ou poderá, tão dignamente como Artur Baptista da Silva, escolher a seguinte frase como lema de campanha: "Não engano ninguém!"

(foto obtida aqui)

sábado, 29 de dezembro de 2012

Walter E Williams - The Free Market Is Not Allowed To Work



"Quando o roubo legalizado começa, convém que todos participem e aqueles que não participarem ficarão agarrados ao tota". [Minha tradução livre]

Carvalho da Silva: o mago das falências, fala do que "sabe"

"O que faliu foi a economia fictícia, não a dos países e dos povos"

Pois a economia fictícia foi aquela em que ele militou arduamente durante anos e anos. A economia em que as "lutas" encerraram a generalidade da indústria e a intervenção estatal torrou os proventos do trabalho de quem produz riqueza em "direitos sociais" de quem se foi aconchegando a eles.

Do Brasil e o futuro ou do futuro e o Brasil?

[Mas é um cato, tem aranhas e aranhas têm quelíceras]

O Brasil, como a EURSS e os EUA, encontra-se à beira da mesma e desesperada situação em que nos encontramos. Ainda não lá chegou, e parte de um patamar inferior ao dos EUA e da EURSS (média). Como conseguiu? Aplicando, mutatis mutandis, as mesmas medidas de investimento "virtuoso" que Portugal aplicou.

Descoberto petróleo (em Portugal foi a "Europa dos fundos") tratou, rapidamente, de vender os direitos da sua exploração para os torrar em apoio ao social e obras megalómanas (por exemplo no mundial de futebol e nos jogos olímpicos). Que aconteceu mais uma vez? O que sempre acontece.

O Brasil "investiu" na educação despejando dinheiro sobre o mecanismo mas baixando as fasquias a ultrapassar pelos estudantes. Desta forma "garantia" o direito não só ao acesso como ao sucesso. "Investiu" no apoio social também para dinamizar o mercado interno,  tal que em Portugal está em palpos de aranha por não poder ser mantida a tal "dinamização". As matérias e as escolas e universidade encheram-se, entretanto, de tralha e pessoal amante do socialismo.

E que resultados se obtiveram pelo apoio social? Apenas a dinamização do mercado dos produtos não  transaccionáveis sem que qualquer outra mais valia fosse obtida pelas pessoas objecto desse apoio. E porquê? Porque esse apoio é utilizado pelas pessoas para resolver problemas imediatos e como forma de compensação de agruras anteriores, e não como oportunidade para se valorizarem profissionalmente de forma a garantirem a manutenção do artificial nível de vida por que, consciente ou inconscientemente optaram, e poder, num futuro mais ou menos próximo, melhorar o seu nível de vida face ao previsível momento em que o apoio social irá irremediavelmente ter que desaparecer. O abardinamento do ensino dificulta ainda mais essa real ascensão - ascende-se no papel (o canudo garante) mas não no mundo real.

Acabado o dinheiro do petróleo e o Brasil está a ser forçado a voltar à estaca zero com o inconveniente de ver derrocar o artificial mercado interno de serviços e de bens não transaccionáveis, mas o poder político, socialista que tresanda, está agora a dar o "impulso final" ao "desenvolvimento" entrando (como Obama) pelo endividamento exponencial face aos mercados de capital ("vendendo" dívida, como gostam de afirmar usando a palavra "vendendo" como cortina de fumo que não traduz mais que a entrada pelo mundo do endividamento).

O resultado já está a aflorar. Crescimento praticamente de zero, inflação galopante (já se afirma que o projecto Real se está a esboroar), estado social incomportável, enorme percentagem da população substancialmente dependente do estado garantindo aos proponentes das actuais políticas votação suficiente para as continuar a aplicar ... e os mercados de capitais começam a abandonar os zenitais projectos no "desenvolvimento" pelo social. De desinteresse em desinteresse, apenas se mantêm interessados no negócio investidores que, conscientes do risco, exigem juro alto.

Se o povo insistir em mais do mesmo, o Brasil acabará numa primeira fase como Cuba, numa segunda como a Coreia do Norte. Se não insistir, ouviremos os bafejadores e bafejados pela mama do social a guinchar que se trata de um ataque da "ditadura dos mercados", que é a fuga de capitais para off-shores, por mais impostos sobre os ricos, por mais investimento (sem conceder que esse mais investimento só poderá vir dos mesmos ricos a quem, entretanto, tentarão infernizar a vida) ...

A desordem social aumentará muito acima do actual (no Brasil o nível de assassinatos está muitíssimo acima relativamente aos EUA) e, com sorte, o povo pedirá uma qualquer intervenção musculada. Se for de esquerda, o Brasil entrará no buraco negro das repúblicas populares, de for de direita, repetir-se-á Pinochet, e, como no Chile que penosamente conseguiu voltar à luz do dia, o culpado de tudo o que aconteceu passará a ser esse regime.

sexta-feira, 28 de dezembro de 2012

Estabilidade na carreira

Num país normal estas promoções seriam um escândalo, mas em Portugal não são. Com o país falido e as promoções e progressões da função pública congeladas para a maioria dos funcionários, o Governo tem-se desdobrado em exceções e encontrado sempre maneira de promover alguns. Se com os militares o argumento é a especificidade militar, com as forças de segurança a justificação é a estabilidade na carreira, que é do mais esfarrapado que poderia encontrar. Qualquer carreira da função pública entra em instabilidade se for congelada, pelo que este argumento pode ser aplicado a qualquer funcionário. Mas como não é,  não se percebe o motivo pelo qual exceções destas passam despercebidas e não provocam qualquer clamor, ao contrário de assuntos, como o do falso funcionário da ONU, que continuam a ocupar capas de jornais.

Sem Terra à vista

Neste nosso (façamos de conta) Portugal, o disparate tornou-se endémico. Qualquer artolas diz qualquer coisa e uma caixa de ressonância de infinitos mas não menos encanudados artolas amplifica e 'aperfeiçoa' a calinada.

Pareceria razoável haver esperança que, tornado patente o disparate, as coisas se aplacassem apurando-se-se as inevitáveis ilações, mas assim não é. O disparate volta de novo, ainda mais disparatado, e, novamente as caixas de ressonância voltam a gongar para, novamente, serem desmascaradas.

E ficará a coisa, desta vez, por aqui? Não. Nem pensar. Voltará certamente a exercitar-se a tentativa de desempenamento do somatório dos anteriores disparates por via de novo e mais-que-perfeito disparate.

Ponham-e agora na posição de um potencial investidor, dos que Portugal tanto precisa para ver se alguém consegue começar a trabalhar para criar alguma da riqueza que, irremediavelmente e numa primeira e longa fase, permitiria aplacar os credores que não mais estão dispostos a alinhar no nosso regabofe de investimentos estatais "virtuosos". Que povo, pensarão eles, será aquele, que não se governa, que não se deixa governar, mas que insiste em governar-se por conta dos dinheiros alheios e que tudo tempera com orgias de parvoeira num estratosferico vórtice?

Pretenderá em particular esta especial-e-detentora-de-canudos-sem-fim tuga gente, chegar à estratosfera para de lá declarara que algo de errado se passa com os "especuladores" por lá se sentir uma tremenda falta de ar? E, pensarão ainda os "tenebrosos" capitalistas, se são os mais supremamente encanudados os mais afoitos luso-cosmonautas, como raios-e-coriscos serão os outros?

quarta-feira, 26 de dezembro de 2012

Quem?

A militância esquerdalha da generalidade dos jornalistas portugueses atinge hoje um status de paroxismo. É gritante a agenda esquerdista dos jornalistas e é impossível que não se perceba que a verdade é, para eles, absolutamente irrelevante. Apenas a sua agenda política, de esquerda extremista, os ‘orienta’.

Nuno Santos foi recentemente saneado na RTP onde exercia o cargo de director de informação. Foi saneado, e foi muito bem saneado, porque quebrou uma regra fundamental do jornalismo: a protecção às fontes. Nuno Santos aprovou o visionamento pela Polícia das gravações originais dos desacatos à porta da Assembleia da República.

O saneamento de Nuno Santos levantou em polvorosa umas dúzias de comadres mais ou menos do campo político, mas, o silêncio das organizações de jornalistas foi estridente. Porquê? Porque o visionamento pela Polícia das referidas imagens punha em causa a cáfila e escumalha indignácara-revolucionária que não institui gulags porque ainda não pode.

Quando se levantam as lamúrias das organizações de jornalistas e seus mentores esquerdalho-indignácaros? Quando, por exemplo, um segurança do 1º ministro ordena a um jornalista que não lhe aponte a câmara. E, neste caso, quem visionou as gravações em bruto que a própria estação de televisão desfocou? Toda a gente, logo que um dos jornalistas da mesma estação colocou parte delas na internet. E, porque não foi o identificado jornalista saneado? Porque diria tratar-se de um direito “adquirido” e toda a gente se daria por contente.



Esta semana rebentou a bomba de Artur Baptista da Silva. Que tem de especial esta figura? Nada. Não diz coisa com coisa mas diz ‘bem’, ou seja, diz o que a esquerdalha jorna cripto-fascista quer ouvir e pavloviana e cegamente segue. O homem apresenta-se com credenciais que nunca teve mas que soam aos jornas ‘bem’ simpáticas e o que eles querem ouvir e, imediatamente, obtém microfone aberto para vomitar disparates. Parece, entretanto, que a Procuradoria Geral da República vai levantar um processo ao pobre-diabo mas nenhum jorna será certamente saneado. Mais que exonerados das funções, deveriam ser DESPEDIDOS e proibidos de voltar a exercer a profissão por vários anos todos aqueles que cegamente cederam tempo de antena a … quem?

Comunicação social portuguesa: o reino dos idiotas


Sobre Nicolau Santos e Artur Baptista da Silva, no Blasfémias:

1. Artur Baptista Silva diz o mesmo tipo de disparates que 90% dos comentadores que aparecem na TV e comentam nos jornais.
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2. No Expresso, Nicolau Santos tem propagado mais ou menos as mesmas falácias que Artur Baptista Silva semana após semana, ano após ano, sem que ninguém o acuse de ser burlão. Se perguntarem ao Artur Baptista Silva onde se inspirou, aposto que ele dirá que foi nas colunas de opinião do Nicolau.
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3. Não se pode esperar que um jornal em que o Nicolau Santos é o responsável pela secção de economia consiga distinguir um discurso económico com lógica de uma aldrabice.  Aldrabice é a cultura da casa.
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4. Ao longo de 2012, a discussão pública em Portugal andou à volta de variações das ideias de Artur Baptista Silva. Basicamente, não somos responsáveis pela nossa dívida e os alemães/BCE/FMI é que devem pagar a conta porque nós temos o direito adquirido de continuar a viver folgadamente. Não houve um editor de economia que não tenha caído nesta lógica.
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5. Ao longo deste ano a comunicação social divulgou de forma totalmente acrítica os maiores disparates.  Por exemplo, há menos de uma semana todos repetiram a tese do Ricardo Cabral de que a TAP valeria 1000 milhões de euros. Era disparate, mas era o disparate que todos queriam ouvir.
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6. No período que se seguiu ao anúncio do aumento da TSU os jornais escreveram todo o tipo de disparates: tabelas erradas, contas erradas, estudos mal amanhados, análises erradas, desinformação. Nenhum jornal conseguiu explicar em que é que a medida consistia e poucos jornalistas da área económica perceberam exactamente o que se pretendia. O resultado foi uma solução pior mas mais consensual.
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8. A comunicação social que aceitou como legítimo o Artur Baptista da Silva é a mesma que tomou por bons todos os estudos sobre SCUTs, OTAs, TGVs e afins  e que ajudou a vender a estratégia dos grandes eventos e do investimento em grandes obras públicas. É a mesma que apoiou a trajectória suicidária de Sócrates rumo à bancarrota e desculpou tudo com a crise internacional e as agências de rating.
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9. Recorde-se que a comunicação social deixou de falar do Krugman no dia em que ele cá veio dizer que Portugal tem que cortar na despesa.
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10. Este caso é uma espécie de caso Sokal do jornalismo económico português. A forma como estão a reagir indica que tudo continuará na mesma e que dentro de uma semana voltarão à mesma narrativa em luta contra qualquer reforma ou corte na despesa e de culpabilização da Alemanha e das agências de rating.

sexta-feira, 21 de dezembro de 2012

Dize tu direi eu





Dizia Fernando Pessoa:

Entre as várias superstições verbais de que se alimenta a pseudo-inteligência da nossa época, a mais vulgarmente usada é a da "opinião pública". E, como acontece com todas as superstições que conseguem deveras enraizar-se mas que não conseguem tornar-se nunca lúcidas, este critério instintivo respeitador da opinião pública em palavras (porque sente que há por detrás da frase uma realidade), mas pouco respeitador dela em actos (porque não sabe definitivamente que realidade é essa), é ao mesmo tempo o esteio e o vício das sociedades modernas. (...)

Todos nós sentimos, qualquer que seja a nossa política que, em resultado, toda a política, para que não seja mais do que um oportunismo de egoístas, tem de se conformar com a "opinião pública", com a pressão insistente de uma opinião geral. Todos temos a intuição, natural ou adquirida, de que uma nação vale o que vale a sua "opinião pública"; porque, como essência de uma política estável e fecunda, consiste na sua conformação com a opinião pública, pressupõe-se, na nação em que tal política é possível, um estado da opinião pública que persistentemente compila os políticos, os governantes, sob pena de deixarem de o ser, a conformar-se com as suas imposições. (...)

O que precisamos, portanto, de determinar para que devidamente nos orientemos no assunto, é, primeiro, que espécie de cousa é essa "opinião pública", com a qual uma política fecunda tem que se conformar, se essa "opinião pública" na verdade coincide com a "opinião das maiorias"; se essa "opinião pública" (...) pode ser manifestada pelo sufrágio; e, segundo, em que princípio, em que regras, assenta, por que processos se produz, essa "conformação" da acção dos governantes com a "opinião pública", qual a maneira por que na verdade a interpretam ou servem, e não apenas dizem servi-la e interpretá-la.

in A Opinião Pública, Editorial Nova Ática



Diz, por sua vez, João César das Neves, no DN:


O fascínio das redes

Ultimamente, surgiu no nosso debate político-cultural um novo protagonista: as redes sociais. Com frequência se ouve citar o que elas pensam sobre pessoas e assuntos. Em geral, pensam mal. É interessante debruçar-nos sobre a razão da sua influência e credibilidade.

Grande parte do prestígio vem sem dúvida da novidade e fascínio tecnológico. Facebook e afins são criações recentes e brilhantes que, como todas, prometem mudar o mundo. Depois o mundo acaba muito parecido ao que era, e os mesmos que apregoaram a revolução vêm repetir desanimados que anda tudo sempre na mesma. A verdade é que o avanço nem foi drástico nem vácuo. As coisas vão melhorando e o progresso é uma evidência, embora o essencial permaneça.

Mas a especial reverência que por isso se concede à opinião das redes sociais não faz sentido. O meio tecnológico pode ser sofisticado, mas quem o usa é o mesmo tipo que era antes. A qualidade da análise e a profundidade das considerações não melhoram por se passar do pombo-correio ao telégrafo ou do telefone à Internet. Aliás, a haver algum movimento, é negativo, pois quando a comunicação era cara e difícil as pessoas tinham mais cuidado com o que diziam. Naturalmente a baixa do custo da informação beneficiou sobretudo o disparate, de menor produtividade.

Outra razão porque se admira as redes sociais é, alegadamente, por através delas falar directamente a voz do povo. Nos jornais e televisões temos a opinião de políticos, intelectuais, jornalistas e comentadores, mas nas redes é a própria população que se exprime. Esta é uma ânsia de milénios, com democracias e ditaduras procurando saber o que realmente sente a opinião pública. Os métodos utilizados para chegar a esse desiderato foram múltiplos, mas temos de dizer que este é um dos mais fracos. Primeiro porque, precisamente devido à sofisticação tecnológica, não se pode dizer que as redes sociais sejam um instrumento privilegiado dos pobres. Pelo contrário, é uma actividade típica de ociosos tecnicamente refinados, porque as pessoas ocupadas andam envolvidas na verdadeira vida social e os cidadãos comuns, mesmo quando os usam, não sabem explorar as possibilidades desses programas, ficando-se pelo trivial.

Talvez o aspecto mais curioso seja o fascínio que tantos sentem pelo poder desses mecanismos, invocando como prova definitiva as manifestações espontâneas promovidas através das novas tecnologias. Cada vez que surge um evento, das reacções ao atentado de 11 de Março de 2004 em Espanha aos recentes protestos de 15 de Setembro por cá, há quem venha garantir que tais fenómenos mostram um novo poder. Apesar de serem coisas que, para não recuarmos mais, Marat e Desmoulins conseguiam sem dificuldade usando os velhinhos panfletos da Revolução Francesa. A técnica melhora, mas o essencial permanece.

A última machadada no mito das redes sociais vem do facto de elas só conseguirem realmente marcar a actualidade quando jornais, rádios e televisões lhes dão destaque, o que aliás acontece muito menos do que a jornalistas e comentadores. Deste modo, elas estão na mesma posição que todos os outros. Pior ainda, como se pode determinar o que pensa uma rede? Se elas fossem realmente a voz do povo, então comunicariam uma cacafonia de miríades de opiniões. E é precisamente isso que se verifica. Deste modo, quando a comunicação social fala da "opinião das redes sociais", está realmente a criar uma ficção, confundindo uma parte com o todo. Pior ainda: como ninguém dá a cara pelo que é dito, no parecer anónimo domina a irresponsabilidade e a atoarda. Não admira que nunca se ouça as supostas redes sociais dizerem coisas ponderadas, serenas, construtivas.

As redes sociais são um instrumento maravilhoso. Passadas as tolices inevitáveis da euforia inicial, serão tão úteis como o correio, o telefone, a imprensa ou os clubes. No entanto, para isso é preciso que vigore nelas o mesmo critério de verdade e bem da vida comum. Uma opinião não é atendível por ser tecnológica, mediática ou popular, mas justa e válida.

quarta-feira, 19 de dezembro de 2012

"Incongruências"




(imagem obtida aqui)



Casa onde não há pão, todos ralham e ninguém tem razão." Vendo o que se diz sobre a crise nota-se enorme falta de lógica e coerência. Isto é normal em tempos assim. Aliás o estranho e precioso em Portugal é que, por enquanto, as discussões, apesar de vociferantes, são pacíficas e a economia vai ajustando. Mas a paz e os progressos não impedem os disparates.

Para compreender os erros comecemos numa das poucas afirmações consensuais: o ensino obrigatório deve ser gratuito. Uma pseudo-ameaça a este princípio suscitou há pouco os maiores sobressaltos. Mas logo a seguir ouvimos os protestos das escolas e dos professores contra a redução dos seus gastos. Afinal a educação gratuita fica muito cara. Quem a paga então?

Dizer que deve ser o Estado é tolice, pois todo o dinheiro que ele gasta sai do nosso bolso. Só que os mesmos que querem educação gratuita e manutenção dos gastos das escolas também protestam contra a subida dos impostos. Assim se completa a incongruência. Como as coisas gratuitas e caras não se limitam à educação, a coisa fica mesmo grave. Pensões e apoios, polícia e tribunais, saúde e energia, embaixadas e militares, estradas e esgotos, entre tantos outros, constituem pesadíssimos encargos. E falar de pagamentos dos utentes, das portagens às taxas moderadoras, implica sempre novos protestos ruidosos. Podem ser compreensíveis, mas não são coerentes, violando as leis da aritmética.

Muitos julgam escapar à falácia apelando a mitos. Um dos mais populares, que o Governo também divulga, é cortar as "gorduras" do Estado. Os opositores usam uma variante da mesma ideia, falando de carros e gabinetes ministeriais, erros e corrupções administrativos. É verdade que existem muitos desperdícios, vícios, exageros e entorses na máquina pública. Mas um problema deste tamanho não se soluciona só com dieta. É precisa cirurgia estrutural. Devemos manter o essencial, na educação, saúde, estado social, etc., mas a aritmética exige que tudo seja alinhado com os impostos que podemos suportar. Recusar a mudança é perigosa ilusão.

Outro mito comum é achar que os ricos pagam a crise. Claro que quem mais tem mais deve pagar. Só que, não só não temos ricos suficientes, mas se abusarmos desse expediente quem beneficia é a Espanha e Inglaterra, para onde irão os nossos ricos, aumentando a nossa miséria. Também as empresas não podem ser sobrecarregadas de tributação se quisermos criar emprego e crescimento. Mais uma vez a lógica impõe-se. A verdade é que só cá estamos nós, e querer serviços gratuitos, despesas altas e impostos baixos não é possível. A não ser que alguém nos empreste.

Esta última ilusão é aquela que hoje nos custa couro e cabelo. A crise resultou directamente da acumulação de quinze anos de dívida externa. Aqui surge uma outra incongruência, quando descarregamos os nervos, não sobre os culpados, mas precisamente naqueles que nos querem ajudar.

É bom lembrar que Passos Coelho e Vítor Gaspar não geraram a doença, mas tentam curá-la. O mesmo se diga da troika. Só conseguimos o nível de vida dos últimos anos porque os alemães e outros europeus nos emprestaram as suas economias. A dívida externa bruta do País, incluindo Estado e privados, atingiu 386 mil milhões de euros em Junho. É isto a crise. Os credores não querem que saldemos essa dívida, mas apenas que demos garantias de conseguir ir pagando os juros. Foi esse medo que nos fechou os mercados em 2010 e criou a crise.

Ficar zangado com quem nos ajudou é estranho. Mais estranha é a continuação. A recuperação portuguesa interessa-nos a nós tanto quanto aos credores, que perderiam tudo se falíssemos. Por isso, em resposta às nossas dificuldades, eles decidiram emprestar-nos mais 78 mil milhões de euros, impondo em troca que sigamos uma cura exigente dos desequilíbrios. Estas condições são muito melhores que a generalidade dos países gastadores tiveram ao longo dos séculos. Face a isto fará sentido insultar a troika? São concebíveis alternativas melhores? Podemos ralhar, mas não temos razão.

terça-feira, 18 de dezembro de 2012

Torturou bebé, mas não foi preso

Henrique Raposo, no Expresso:
Não invento, veio no jornal. No ano passado, um ser de 22 anos partiu o braço esquerdo, queimou os olhos, pés e lábios de um bebé de um ano. O ser ainda pontapeou o seu pequeno enteado nas pernas, nas costas e nos órgãos genitais. As marcas duraram 113 dias (internamento hospital). Na sexta-feita, o ser foi colocado em liberdade. Um indivíduo chamado Jorge Melo, juiz da 8.ª Vara Criminal, deu como provados os actos de violência, mas assinou uma pena suspensa; este juiz da República disse que estávamos perante um situação atroz e até afirmou que o réu mostrou indiferença perante os seus actos, mas não o puniu com prisão efectiva. Porquê? "O tribunal acredita que o simples risco de prisão é suficiente para não repetir crimes". Quando ouviu isto, o réu começou a rir.
Sim, Portugal está doente, mas a doença não é económica. É de outra espécie .

segunda-feira, 17 de dezembro de 2012

"A fome e a vontade de comer"



(imagem obtida aqui)


Subscrevo o que é dito neste artigo por Alberto Gonçalves, no DN:

Segundo o próprio, Mário Soares não viu tanta fome em Portugal "nem no tempo de Salazar". O que explica isto? Na versão clínica, talvez a hipótese de a memória do dr. Soares sofrer de alguns percalços. Na versão conspirativa, talvez a hipótese de o dr. Soares afinal não passar de um revisionista de Maio disfarçado de campeão de Abril. Na versão plausível, talvez a hipótese de o dr. Soares proferir os disparates que julga necessários aos seus objectivos.

Hoje, é ele mesmo quem confessa: "Toda a gente diz na televisão que não há dinheiro para comprar pão, para comprar nada, tem de ir pedir, ir aos caixotes de lixo. Alguma vez se viu isto em Portugal? Eu tenho 88 anos e nunca vi. Sinceramente nunca vi, nem [todos juntos, agora] no tempo de Salazar." Em suma, a perspectiva histórica de um dos maiores vultos do Portugal contemporâneo fundamenta-se exclusivamente no que lhe chega através dos "telejornais", inexistentes ou inconsequentes durante o Estado Novo e incansáveis em denúncias, com ou sem aspas, desde que, para irritação de muitos amigos do dr. Soares, Cavaco Silva abriu as ondas hertzianas à iniciativa privada.

O dr. Soares responde por ele, mas num país menos exótico atoardas assim não se limitariam a demonstrar ignorância ou má-fé: prejudicariam a causa que actualmente o motiva, leia-se o derrube do Governo. O Governo é uma desgraça? Com certeza. Sucede que, em primeiro lugar, não é uma desgraça pelas razões avançadas pelo dr. Soares, já que uma política que esfola os contribuintes para preservar o Estado lembra bastante mais o socialismo do que o mítico "neoliberalismo", esse consolo dos simples. Em segundo lugar, o Governo não é uma desgraça comparável à regência de Salazar pela prosaica razão de que, ao contrário deste, o dr. Passos Coelho foi livremente eleito por uma razoável quantidade de cidadãos, eventualmente superior às 70 ou 80 alminhas subscritoras da carta do dr. Soares a pedir a demissão do primeiro-ministro. Em terceiro e último lugar, as hipérboles tendem a ridicularizar os seus autores, e só um território de pasmados justifica a tolerância de que o dr. Soares dispõe.

Sem dúvida que a iliteracia do tempo facilita o exercício. Bush invade o Afeganistão e o Iraque? Bush é igual a Hitler. Israel defende-se de ataques terroristas? Os líderes israelitas são iguais a Hitler. Merkel recusa financiar-nos incondicionalmente? Merkel é igual a Hitler. Os novos mapas do iPhone não primam pelo rigor? A Apple é pior do que a Gestapo. Até ver, o dr. Passos Coelho fica-se pela equivalência (desfavorável) a Salazar. Se, um dia, executar uma reforma digna do nome, é garantido que a rigorosa escala do dr. Soares o colocará a par do Führer, o padrão de medida em vigor. Não seria mais idiota se comparássemos o dr. Soares por exemplo a Estaline, com a atenuante de que o dr. Passos Coelho nunca integrou a Mocidade Portuguesa nem alimenta simpatias evidentes pelo Terceiro Reich, enquanto o "pai da democracia" serviu indirectamente o "pai dos povos" ao longo de sete anos. Contra Salazar, que pelos vistos não merecia a desfeita.

Lord Monckton on what happened when he took the floor at COP18

domingo, 16 de dezembro de 2012

Caros/as amigas/os e confrades




Claro que vos venho desejar um Bom Natal. Claro que vos desejo um Bom Natal. Embora suspeite que o não ireis ter tão bom assim.

Ou seja: bom, o que se diz bom, porque apesar da retórica e dos truques o estado do País, deste nosso Portugal que todos amamamos pois não tem culpa de ser e ter sido liderado(?) por díscolos e mentirosos compulsivos, é cada vez mais inquietante. E nem será necessário, para o constatar, recorrer à demagogia de sectores que, aquando do tempo em que internacionalmente dominavam metade do mundo, ainda fizeram pior, mais sujo e criminal. Palavras dessas as leva o vento...

 E digo ainda: como o progresso financeiro tem estado proverbialmente, principalmente a beneficiar patifes hábeis, e como eu não tenho contactos/confrades patifes - infiro que ireis ter, como eu, quadra algo amargurada.

 Fica-nos, é claro, a felicidade interior. Mas essa não se merca nas boticas (nem nas sacristias, apesar da agitprop propagandística desse sector) pelo que ela é, na verdade, um caso de vivência pessoal e intransmissível.

 Resta-nos pois, muito para além das realidades escuras, a fraternidade de uns para os outros como campo susceptível de sentirmos um pouco de calor humano - esse halo que pode clarear os dias. Uma espécie de sursum corda para que a iluminação quotidiana nos possa atingir.

  E essa dou-vo-la sem desdouro, carreada num desejo de que tudo vos corra pelo melhor!

  Os proverbiais abrqs e bjh do vosso confrade

   ns


PScriptum - O bloquinho anexo, que vos envio à guisa de humilde presente, acha-se também no TriploV, no Ablogando e no Frère Julien (França), nos quais podereis ler coisas excelentes de outros autores.



A terra prometida e Oito lendas para o Natal



A terra prometida (tapeçaria)


   Neste nosso tempo de quimeras e algumas certezas – mas menos de certezas que de quimeras – o Natal está colocado (colocaram-no) num ponto algo incerto entre a realidade histórica e a legenda fideísta.


  Nem será preciso chamar a atenção para as últimas polémicas (se de polémicas se trataram) que têm rodeado a reconfiguração de figuras, de presenças, no tradicional Presépio que a veneração, a tradição e o apego a uma certa vernaculidade compósita de protagonistas animais (sim, refiro-me à vaquinha e ao burro, sinais de singeleza e quotidiano participativo) pelos tempos dos Tempos se puseram em acção no palco presumível da História sacra.


  Seja como for, em nós que persistimos em não perder o nosso coração de crianças o Natal segue sendo um espaço aberto na nossa sucessão dos anos, no nosso evidente encantamento feito duma junção muito clara de recordações e de fidelidade ao passado que, se é verdade que não volta, podemos contudo reviver, creio, mediante a celebração de um ritmo e de uma memória situados em momentos idos de um tempo feliz.


  Será, terá sido, o tempo de uma “terra prometida”, que através de uma inflexão que entronca nos territórios de um certo sagrado, mormente da Arte, podemos de novo tentar trazer à convivência de todos os que não esqueceram natais antigos.



 E, a despeito das amarguras, vos deseja um próspero e fecundo Natal o vosso et nunc et sempre

ns

Equívoco técnico...



... ou equívoco linguístico? É que eu daria outros nomes a isto.

sábado, 15 de dezembro de 2012

Nivaldo Cordeiro: Chacinas e desarmamento civil

"O recente massacre de crianças nos EUA trouxe de novo a ladainha midiática pelo desarmamento civil, uma falsificação dos fatos. O que se viu é que leis nos EUA tornaram os campus escolares território 'livre' das armas dos bons cidadãos, mas os chacinadores não as respeitam e lá encontram sua caça abundante e sem resistência. É o que há contidianamente nas periferias das nossas cidades, que contabilizam chacinas diárias. Aqui os bandidos têm o monopólio das armas."

quinta-feira, 13 de dezembro de 2012

Leopoldo Federico - Seleccion de Astor Piazzolla [HD]

Lula lá? O polvo de Lula?


"Lula lá, no banco dos réus? É uma forte possibilidade, depois das contundentes revelações de Marcos Valério à Procuradoria Geral da República, onde tornou público inclusive que pagou com verbas do Mensalão despesas pessoais de Lula. Um crIme de peculato caracterizado. Porém Lula é mais que um homem, tornou-se um símbolo. Vamos ver se a Justiça vai subjugá-lo"