quinta-feira, 14 de fevereiro de 2013

O que diz o Papa





Lê-se aqui:

O papa Bento XVI apelou hoje ao fim da "hipocrisia religiosa" e "rivalidades" dentro da Igreja Católica, na sua última missa na Basílica de São Pedro, no Vaticano.

"O rosto da Igreja é por vezes marcado pelos pecados contra a unidade da Igreja e divisões no clero", disse o sumo pontífice, trajando as tradicionais vestes roxas das celebrações da Quaresma, período católico de penitência antes da Páscoa.

Bento XVI anunciou na segunda-feira a renúncia ao papado, por falta de capacidade física, tornando-se no segundo sumo pontífice a fazê-lo.

O papa alemão afirmou que "a cara da Igreja" se apresenta "por vezes, desfigurada".

"Penso nos ataques à unidade da Igreja, nas divisões no corpo eclesiástico", frisou perante os cardeais, apontando a incoerência dos que se insurgem contra "os escândalos e injustiças naturalmente cometidas por outros" mas que não estão "prontos a agir no seu próprio coração, consciência e intenções".

Visivelmente debilitado, o papa foi transportado numa plataforma móvel entre a entrada da vasta nave da Basílica e o altar.

No início do dia, na sua audiência semanal com milhares de fiéis no auditório do Vaticano, o cardeal Joseph Ratzinger foi recebido com uma ovação de pé e aclamações de "Benedetto".

"Continuem a rezar por mim, pela Igreja e pelo futuro papa", disse Bento XVI, com a voz embargada.

O Vaticano anunciou que os 117 cardeais eleitores do novo papa vão reunir-se a 15 de março ou nos dias seguintes para escolher o sucessor.

O conclave terá lugar na Capela Sistina, ao longo de vários dias, e o nome do novo papa deverá estar escolhido a tempo da Páscoa.

Entre os candidatos estão europeus e norte-americanos, mas também sul-americanos e africanos.

Bento XVI deixará de ser papa a 28 de fevereiro, às 19:00 GMT, e seguirá para a residência papal de Castel Gandolfo, perto de Roma, onde irá viver temporariamente, enquanto é renovada a sua nova residência permanente no Vaticano.

Até à saída, manterá ainda encontros com o primeiro-ministro italiano, Mario Monti, e com o presidente Giorgio Napolitano, numa altura em que o país vive a campanha eleitoral para as eleições de 24 e 25 de fevereiro.

O seu último evento público será a audiência de 27 de fevereiro, na Praça de São Pedro.

O sumo pontífice disse hoje ser capaz de sentir "o amor dos fiéis, quase fisicamente, nestes dias difíceis".

quarta-feira, 13 de fevereiro de 2013

Do Papa como Bento… benzido



(imagem obtida aqui)

   Caiu como uma bomba (ou como um raio sobre a cúpula de São Pedro em Roma…) a notícia, difundida pelos serviços próprios do Vaticano, da resignação ao cargo de Papa do antigo cardeal Joseph Ratzinger, actual chefe do Estado do Vaticano e pontifex maximus.

(imagem obtida aqui)

   Que, após concretizar-se a sua saída do mais alto cargo daquela pequena Nação, cidade-estado com ramificações no mundo inteiro, entrará num mosteiro para repousar devido à sua provecta idade.

   Paralelamente a este súbito anúncio recebido com surpresa, por um lado, mas também com espanto em diversos casos e, noutros, com inquietação (o que teria na verdade sucedido para esta súbita renúncia, muitos se questionaram), os serviços de informação (contra-informação, segundo alguns) vaticanista, seguidos pela generalidade dos sectores católicos subsidiários à Organização Católica, entraram em competente e forte actividade, como é aliás seu apanágio.

(imagem obtida aqui)

  Assim, a primeira ideia que de acordo com observadores têm procurado instilar nos cérebros e nas consciências dos seus crentes e na opinião pública em geral, é de que a sua resignação teria anexa uma grande coragem, seja de ordem intelectual seja de ordem pessoal. Seria, segundo esses serviços de informação psico-sociológica, a demonstração de uma grande qualidade humana e eclesial, amparada por uma firmeza ética de alto gabarito e por uma força mental de extrema lucidez.

(imagem obtida aqui)

  É a acção que, em geral, em todos os quadrantes e em todo o mundo se efectua quando alguém sai de cena sem ser por evicção dolorosa. Ou seja, sais mas em beleza… és um belo cidadão e mereces aplausos, vai pois descansar…

   A segunda ideia seria esta: de que Bento XVI resignava por ter percebido que as forças para comandar os difíceis e exigentes serviços dum Estado que é de duas ordens, a civil e a espiritual (de evangelização sistematizada, digamos) lhe estariam a faltar. Alquebrado, o pontifex maximus teria optado pelo abandono vigiado, ainda em lucidez, antes que fosse tarde demais…

(imagem obtida aqui)

   O Vaticano disse e nós todos, como bons ouvintes que somos, gente de boa fé e normalmente crédulos, aceitamos esta explicação. E porque não?

(imagem obtida aqui)

   Com efeito – conforme o conhecimento da leitura da História nos faculta – seria pelo menos estultícia estar-se neste momento a congeminar cenários diferentes do que nos é proposto desvelada e interessadamente.

    O tempo futuro o dirá. E, habitualmente, costuma falar com força e muita adequação!

   Uma coisa, pelo menos, nos tranquiliza e ilumina: é que Bento XVI, Joseph Ratzinger, não abandonou a cena da mesma forma em que João Paulo I, Albino Luciani, teve de a abandonar…

   E isso, quer o queiramos quer não, é já um índice de progresso – por um lado – e de que algo mudou definitivamente para os lados de Roma e da Praça de São Pedro.


terça-feira, 12 de fevereiro de 2013

São os impostos, pá!



Em países normais, é uma evidência cartesiana que todos os  governos necessitam de cobrar impostos para funcionar.
Teoricamente, assumindo a ideia de que o governo, por definição, resulta de um contrato social, todo e qualquer governo tentaria  maximizar a receita recolhida sem causar grandes irritações às pessoas a quem o dinheiro é cobrado, e sem provocar efeitos perversos.
Seria então  lógico que criassem sistemas fiscais que  não desincentivassem essas mesmas pessoas de tentarem ganhar mais.
Aqui chegados, fácil é concluir que o sistema ideal seria aquele que não taxasse o rendimento mas sim o consumo.
O IVA, em síntese.
Ou então, para evitar o síndroma da privação e facilitar o desmame,  uma flat tax sobre o rendimento, de 10 ou 15%, aplicável a toda a gente, sem margem para isenções e excepções.

Mas não é isso que temos nem teremos.
Pelo contrário, temos um sistema fiscal complicado com taxas progressivas  inacreditáveis, que desincentivam as pessoas de se esforçarem para ganhar mais, já que as taxas marginais são absolutamente pornográficas. E, sim, temos  uma máquina fiscal caríssima, porque tem de lidar com a complexidade do sistema.

Porquê? Porque o governo não se limita a funcionar. Os governos do “modelo social”, querem muito mais do que isso: querem distribuir, redistribuir, fazer engenharia social, dar emprego, fazer “justiça social”, enfim, fazer a festa, deitar os foguetes e apanhar as canas.

Ora isto não pode funcionar bem. Desde logo porque se o governo está a distribuir fatias de bolo, toda a gente quer a sua fatia. Um piloto da TAP, um maquinista da CP, etc,  terão alguma dificuldade em  chegar à fatia mas podem sempre obtê-la pela força, fazendo greve, por exemplo.  E é exactamente isso que fazem todos os empregados de serviços que o estado gere. Basta parar os portos, os transportes, os hospitais, e aí vem bolo.

Mas há muita gente a quem a fatia cai literalmente do céu. Gente que nada faz nem quer fazer, gente que se dedica ao mercado negro, gente que abichou o estatuto de refugiado, ou pertence a categorias sacralizadas pela correcção política, recebe calmamente a sua fatia, diligentemente entregue pelo estado.

E claro, para distribuir tanta fatia, o governo necessita de um bolo maior.

Não querendo que a malta sinta a mão do estado a remexer ostensivamente no bolso, cá pelo burgo, sucessivos  governos trataram de ir lá fora pedir dinheiro.
O resultado é o famoso déficit.
E agora?
Agora há que pagar. Agora há mesmo que invadir os bolsos dos contribuintes, pagar a dívida e  esperar que os governos que virão se limitem a funcionar com pouco dinheiro,  e se deixem de engenharias e justiças sociais e patati patatá.

E que, para tal, tratem de simplificar o sistema fiscal e tirar a mão do bolso dos cidadãos.
Não querem crescimento?
Pois então, meus caros, os impostos carregam os custos do trabalho e do investimento. Se eles sobem, as pessoas investem menos e compram menos. Logo, as empresas não vendem tanto, logo têm de despedir pessoal.

A solução, em palavras simples?

Que o estado se limite às suas funções inalienáveis, que cobre apenas o dinheiro para isso, e que deixe as pessoas usarem o seu dinheiro como bem entendem.
Uns metem-no debaixo do colchão, outros vão ao restaurante, outros dão, outros mudam a mobília, etc.
E todos ganhamos com isso.

segunda-feira, 11 de fevereiro de 2013

A Questão Síria

A questão síria não é daquelas sobre as quais é fácil assumir uma posição clara. “Take sides”, como dizem os americanos. 
 Há múltiplas visões sobre o conflito que ali decorre há dois anos, com o seu cortejo de destruição e dezenas de milhares de vítimas.
Importa pois, avaliar o que ali se passa, numa estrita óptica de interesses. E, neste caso, dos “nossos” interesses, sendo que este “nossos” se inscreve num plano identitário “Nós”, os ocidentais, versus “eles”, os muçulmanos, afinal uma das maiores e mais activas falhas tectónicas que movem o nosso mundo desde há umas boas centenas de anos. 

Na Síria, toda a gente sabe, as forças leais a Bashar Al Assad, combatem contra grupos rebeldes. Mas esta narrativa, sendo verdadeira, não dá uma imagem clara do conflito. Com Assad alinham os alauitas, uma variante xiita, e simpatizam os cristãos, os drusos e os kurdos. Contra Assad perfilam-se os sunitas.

Efectivamente, o grande pano de fundo é o milenar conflito entre as duas maiores variantes do Islão, o sunismo e o xiismo.  E são os estados núcleo dessas duas visões do Islão, quem alimenta o conflito, dando-lhe uma dimensão superior. De um lado o Irão e os seus proxies, incluindo o Hezbollah, do outro a Arábia Saudita e o Qatar, bem como a nebulosa jihadista que se sustenta no apoio destes protagonistas e bebe na ideologia da Irmandade Muçulmana. 

Na óptica destes contendores, não é difícil antecipar as consequências do desfecho sírio.  Importa notar que este é um daqueles conflitos existenciais, nos quais a probabilidade de acordo negociado parece quase impossível. Tudo leva a crer que, na Síria, se lutará até à clara derrota de uma das partes. 

Embora ela não esteja no horizonte visível, a derrota sunita reforçará o eixo xiita e colocará o Irão num novo patamar de poder, abrindo-lhe portas de intervenção em países onde existem fortes minorias xiitas, como o Afeganistão, Yemen, Bahrain, Kuwait, etc, assegurando, em conjunção com o provável estatuto nuclear, o estatuto de incontornável potência regional, susceptível de ditar condições aos estados vizinhos. 

A derrota do eixo xiita, colocará o Irão à defesa, quebrará a continuidade com o Líbano e reforçará o poder, já hoje formidável, da Irmandade Muçulmana.

Nenhum destes desfechos é agradável para o Ocidente. Tanto o triunfo xiita como o sunita reforçarão os respectivos poderes e impulsionarão a jihad contra nós.

Assim sendo a questão que divide as chancelarias ocidentais, e divide mesmo a Administração americana (Clinton e Paneta preconizavam a ajuda militar aos sunitas, Obama opôs-se) , é se se deve intervir para ajudar os sunitas ou não.

 Pondo de lado as questões humanitárias nas quais, de resto, também não é fácil distinguir os bons dos maus, o que parece ser do interesse do Ocidente é que o conflito se alongue o mais tempo possível, mas contido naquele teatro de operações.

Uma Síria engalfinhada numa prolongada guerra civil intra-islâmica, assegura a usura da vontade e dos meios humanos e materiais de ambos os contendores, impossibilitando o seu uso contra outros e a prossecução das visões megalómanas que caracterizam ambas as versões do Islão.


Em conclusão, o que o Ocidente deveria fazer é:

1- Ajudar discretamente a parte mais fraca, qualquer que ela seja.

2-Intervir, se necessário, apenas para confinar o conflito nas fronteiras sírias, impedido a exportação de armas e acções armadas.

domingo, 10 de fevereiro de 2013

Três, a conta que deus fez (dito popular)



(imagem recolhida aqui)


   Pela mão de Camilo Prado, através da sua Editora Nephelibata,  foram dadas ao grande público brasileiro e, por extensão, a todos os leitores da língua portuguesa, os livros Os fungos de Yuggoth, de H.P.Lovecraft, e Vestígios, de Gérard Calandre.

   A expressão pela mão tem inteiro cabimento – pois as edições da Nephelibata, que se impõem pela sua qualidade material, são executadas artesanalmente pelas mãos do editor com o concurso adequadíssimo das mãos de sua mulher. Mais do que trabalho aprimorado será de se dizer trabalho de quem ama os livros e os faz com desvelos de amorosos por extenso.

   Não é de estranhar pois que todas as edições já postas em terreiro possuam a bela estrutura (até no papel!) que faz jus à frase consabida de Éluard que, em frente de um escorço de Picasso, que mais tarde o veria numa bela edição de Albert Skira, a disse com emoção: “Como eu gostaria de poder fazer os meus livros com as minhas mãos!”.

   O empreendimento a que Camilo meteu ombros justifica plenamente, pelos resultados - já de concepção gráfica já de acabamento, diria mesmo de feitura total – que epigrafemos da forma mais alta estes livros que se certificam como objectos excelentes da arte de editar.

   Finalmente, mediante os bons ofícios de Annie Launay e das Éditions du Parc, vai também sair a público o tomo bilingue de Jules Morot, Le mardis gras, de que tive o gosto de assegurar a versão em português (Terça-feira gorda).

   Em anexo, para que as possam ver, estão imagens das capas das obras referidas. 
     
    A seguir  dois poemas de cada um dos autores em epígrafe:
         



   

                       

VENTOS ESTELARES
 
 Sobretudo no Outono, a essa hora
 Em que tombam as sombras do entardecer
 Os ventos estelares derramam-se
 Pelas ruas mais altas e desertas
 Onde assoma a luz fagueira de algum cálido aposento.

 As folhas secas agitam-se em estranhos redemoinhos,
 O fumo das chaminés enrola-se com etérea graça
 Atento às geometrias do espaço exterior
 Enquanto Fomalhout palpita entre as brumas do Sul.

É a hora em que o poetas lunáticos conhecem
Que fungos brotam em Yuggoth,  que perfumes
E matizes de flores enchem os campos de Nithon,
Que nenhum jardim terrestre pode ter.
  
Mas, por cada sonho que esses ventos ofertam
Doze dos nossos nos roubam!


H. P. Lovecraft
  

A JANELA

Era uma casa velha, com estranhas alas tão emaranhadas
Que ninguém podia dizer que lhes conhecia bem a disposição,
E num quarto pequeno algures nas suas traseiras
Havia uma singular janela entaipada com pedra antiga.

A esse lugar, numa infância atormentada pelos sonhos,
Costumava  ir sózinho, quando reinava a noite negra e vaga.
E destroçava as teias-de-aranha sem qualquer  ponta de medo
Sentindo-me,  p’lo contrário,   cada vez mais maravilhado.

Mais tarde  num certo dia  levei até lá uns pedreiros
P’ra descobrir que paisagem os meus antepassados
Haviam tentado encobrir,
Mas quando perfuraram a pedra, impetuosamente entrou
Uma lufada de ar soprada p’lo ignoto vazio  do outro lado.

Fugiram a sete-pés... Eu assomei-me  - e encontrei um por um
Todos os mundos selvagens que os sonhos me haviam mostrado.







NOTÍCIA

Ao declinar da tarde chego à cabana velha
de muitas gerações. O silencio deixa-me respirar.
As paredes ainda são as mesmas. Grandes manchas
de humidade, a luz de astros distantes, a presença
de pássaros desconhecidos. Os meus pensamentos que
iniciam a ronda das sombras. Era um dia era uma hora
propícia de repousos, de vozes como antigamente.
Coisas construídas e eu estou aqui
ladrar de cães entre as árvores. Eu vejo
mais do que a luz, as linhas leves dos montes.
Desce neles o perfil divino da terra molhada.
As estações na ombreira da porta Raramente lembramos
os lugares como um livro que se abre Horizonte já
inacessível.
O primo pequeno o calção sujo de terra Fotografias
pacientemente dispostas sobre a mesa de madeira
Sem detença me abandono Veredas perfumadas flores voando
pulsa lento o sangue junto ao esqueleto

Neste chão vos imagino calados como outrora
vida sem desenlace o fogo que se desenrola
amei em vós o fulgor do coaxar das rãs
o alfabeto sensível do que a escuridão me dizia.

Devagar. Deus dá-se por satisfeito espreguiça-se
no sereno entardecer. Devagar digo de mim para mim
Longa criatura arfando na terra nas horas que passam.

Abro a porta, aguardo a quietude abro a saída
uma chuva mais frágil entre duas águas que se reúnem.


Gérard Calandre


JITTERBUG


Perdi uma das casas
da minha infância

Pombos por sobre as árvores
onde é agora um hipermercado

Na rádio, Hillary St.Georges
entoa uma ária do  “Rigolleto”.

O meu pai morreu com um livro de Tchekov
sobre a mesa-de-cabeceira
onde um lenço e uma tesoura de unhas
aguardavam o último arranco

O meu tio, que me ensinou a espirrar
- fazia-o sem ruído, como um velho soldado –
morreu também
e a prima que me acalentara as manhãs de domingo
foi também desta para melhor. E agora

Olho ao longe o pequeno subúrbio
a minha casa antiga está entre outras
Será a que inicia a rua frente à estrada
a segunda, a terceira? Não creio que seja a de portas
azuis, com um pezinho a condizer, ou aqueloutra
um pouco fanada, com uma motocicleta junto ao muro.

A mãe, pobre dela, ausentou-se
vive agora num bairro periférico
e a sua memória flutua
“Filho, lembras-te da figueira?”
“Meu rapaz, recordas-te do perdigueiro castanho?”

E é só a isto que chega
enovelando rostos, quando muito uma expressão
das vizinhas que iam ao baile.

Por isso
sou já um pouco como aqueles velhotes relampados
de sapato engraxado, estralejante
comendo bolos-de-rei com um cafézinho
na “roulotte” de comes-e-bebes
perto do andar que hoje habito. Tenho já
como eles

a pupila funda
a garganta presa
o braço anguloso
de quem foi desapossado de algo que era perene

e agora é a fome da terra   uma linguagem secreta.

                      




COMMOTION DE NOËL

Je suis un espion plus que parfait
mes yeux mes mains ma silhouette
tout ce que j'ai appris tout ce que j'ai oublié
tout ce que j'ai vu Seigneur après votre décès
même les cuillères de bois et l'assiette brute
du dîner
au commencement de la nuit
même les chaussettes avec des trous de mon cousin
même la chemise en lambeaux de mon père
et les joyeux yeux tristes de ma mère
et ce qui nous achetons sans le paiement
et sans un dieu lui paye

Tout cela je garde dans mon coeur.

Dans les nuits les jours de mon adolescence
quand je m'asseyais à méditer
dans la roche peinte de blanc
au moyen du potager de la petite Armandine
qui m'offrait des marrons cuits quand c'était l'automne
et nettoyait mon front avec un mouchoir de lin
en regardant ma sueur de sang.

Tout cela est mon trésor
pour vous cher Monsieur pour vos anges
pour vos assistants dans la forêt céleste
pour les notaires de votre auguste Père
sans oublier le petit que vous avez été
et même le mendiant qui vous a aidé
à monter sur le petit âne
qu'il vous a transporté jusqu' à la porte Suse
ce jour lá de Pâques.

Ainsi, Seigneur, pardonne moi
mes défauts
mes brusques joies
mes étranges silences

et  tous les poèmes que j'ai seulement pensé.


Jules Morot


POUR O.HENRY

Dans son esprit s'est faite lumière
et il a tapoter par centaines le grisbi

Son bouton de gilet ne lui servait pour rien de plus
et dans sa cellule il l'a regardé attentivement
il s'a donné à ce travail
en l’érigeant entre deux doigts 
l'indicateur et le gros pouce

Sa femme l'a cousu à l’époque ancienne
un heureux après midi de bourbon et de sacrés bécots

Il se méfie  se méfie et pourtant
beaucoup est resté pour décider
peut-être des diamants   des horloges des chaînes d'or
mais rien ne l'intéressait déjà   il a eu nécessité
de madrigaux et de quelques monnaies sonnantes
Et tout a été simplement de cette jolie manière.

Nous avons besoin de bien plus de choses
nous   leurs vieux compagnons de promenades
par des villages bruyants
de bien de plus nous avons besoin
mais c'est surement au cours
des temps sans date marquée.

L'amour l'amitié flagrants délits de jeunesse
de bien de plus nous avons besoin
et le monde arrive et apporte
seulement du cotton sordide dans les poches.


(Em linha no TRIPLOV, no UN SOIR UN TRAIN e no AU TOUR DE MA CHAMBRE)

    Cordialmente, desejando-vos um excelente período carnavalesco (...é claro que não me refiro ao ambiente político mas ao Carnaval ele-mesmo!) aqui ficam, com a proverbial estima.

Nota: as fotografias foram obtidas em www.revista.agulha.nom.br

Dos cripto-neo-especialistas em manifestações espontâneas

O gang da "europa" decidiu que os até funcionários não políticos devem pastar pelas redes sociais tentando contrariar o desagrado relativamente à "europa".

Salazar, cujo regime era especialista em manifestações espontâneas, deve estar a rir-se na tumba.

BBC - UKIP Nigel Farage, Arguing about the EU budget 'deal' (08Feb13)

Between The Warm And The Wild

The Skunk

O que diz...


(imagem obtida aqui)

Da resistência passiva

Estavam todas juntas ... Quatrocentas bruxas

Dirigentes da esquerda sentaram-se à mesma mesa num jantar de convergência. Na homenagem ao ex-dirigente comunista Carlos Brito esteve o líder do PS, o coordenador do Bloco de Esquerda e o secretário-geral da UGT. Foi o próprio aniversariante que apelou a uma unidade da esquerda.



Estavam todas juntas
Quatrocentas bruxas
À espera À espera
À espera da lua cheia

Estavam todas juntas
Veio um chibo velho
Dançar no adro
Alguém morreu

Arlindo coveiro
Com a tua marreca
Leva-me primeiro
Para a cova aberta

Arlindo Arlindo
Bailador das fadas
Vai ao pé coxinho
Cava-me a morada

Arlindo coveiro
Cava-me a morada
Fecha-me o jazigo
Quero campa rasa

Arlindo Arlindo
Bailador das fadas
Vai ao pé coxinho
Cava-me a morada

Contas indignácaras

Em jeito de alembradura sobre como os especialistas indignácaros fazem contas, vale a pena transcrever o artigo que se segue, publicado no blog Delito de Opinião, juntamente com meia dúzia de subsequentes comentários.



por Rui Rocha | 09.02.13 | favorito
O governo local anunciou uma desvalorização do bolívar face ao dólar. Entretanto, se ler num jornal de referência (sei lá, o Expresso, por exemplo) que a desvalorização é de cerca de 32%, faça as suas próprias contas. Na verdade, se 4,3 bolívares valiam 1 dólar e 6,3 bolívares vão passar a valer o mesmo dólar a partir de 13 de Fevereiro, a conta correcta seria, não sei, digo eu: 2/4,3x100. Isto é, 46%. Mas também é verdade que, ao contrário de Nicolau Santos, não frequentei a BSSE (Batista da Silva School of Economics).
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9 comentários:
De Anónimo a 9 de Fevereiro de 2013 às 19:56
A venezuela para atacar alguém, oque é que o Nicolau Santos tem a ver com a venezuela? Branquear a tralha que cá temos esse é que é o fundamento deste comentário. por favor, já não chega o Raposinho.

De jaa a 9 de Fevereiro de 2013 às 20:22
Rui:
Acho que 'BS' significa 'bullshit'. O que vai dar no mesmo, claro.

De jj.amarante a 9 de Fevereiro de 2013 às 20:44
A sua conta não me parece razoável. Uma nota de 100 bolívares (se é que as há) valia 23,25 US$ e agora vale apenas 15,87 US$. O valor da nota de 100 bolívares depreciou-se assim 7,38 US$. Dividindo 7,38/23,25 obtém-se os 31,7% de depreciação referida.

De Rio D'Oiro a 9 de Fevereiro de 2013 às 21:26
Caro jj.amarante,

Eu parece-me que o que está em causa não é a valorização do dólar, é a desvalorização do bolivar.

De Pedro Almeida a 9 de Fevereiro de 2013 às 21:31
Precisamente por isso, a notícia está correcta.

De Pedro Almeida a 9 de Fevereiro de 2013 às 21:30
Do "ponto de vista" do bolívar (que é o que interessa aqui) o comentador anterior tem razão, não pode tomar por base quantos bolivares compra com 1 dolar, mas sim quantas parte de dolar compra com 1 bolivar.

Do "ponto de vista" do dolar é que é uma valorização de 46,5%.

Fazendo o desenho:
1 bolivar = 0,232558 USD antes
1 bolivar = 0,15873 USD depois
Depreciação de 31,7% (a base tem que ser o antes)

1 USD = 4,3 bolivares antes
1 USD = 6,3 bolivares depois
Apreciação de 46,5%

Existem o conceito de cotação ao certo e cotação ao incerto, veja aqui:
http://www.iapmei.pt/iapmei-art-03.php?id=402

A notícia está correcta, escusava de estar a mandar bocas foleiras ao Nicolau Santos.

De da Maia a 10 de Fevereiro de 2013 às 02:22
««« ... "a base tem que ser o antes". »»»»»

Sim... conforme aos manueis, mas como depois deixa de viver no antes, e a desvalorização terá sido de 46.5%, que é o que precisa de aumentar para regressar ao valor inicial.

Por exemplo:
O patrão Manuel chega ao Emanuel e diz-lhe:
- Bla, bla... agora passamos por dificuldades, bla, bla... temos que baixar o seu ordenado de 10%.

O Emanuel vê o ordenado passar de 1000€ para 900€.
Passados uns tempos, o patrão Manuel diz-lhe:
- Bla, bla... voltámos a uma situação normal, bla, bla... e para compensá-lo, vamos aumentá-lo agora 11%.

O Emanuel é suposto ficar contente, só depois lá em casa, é que a Emanuela, mais vivida, lhe diz:
- Escuta lá, mas não ganhavas antes 1000€? Então como é esse "maior" aumento de 11%, te deixa contente agora com o ordenado de 999€?

Enfim, tudo conforme os manuais dos manueis.

De Alexandre Carvalho da Silveira a 10 de Fevereiro de 2013 às 02:34
Façamos então o desenho assim: um Magalhães custava antes 100 dólares, ou seja, 430 bolivares; agora, o mesmo Magalhães custa os mesmos 100 dólares, mas os venezuelanos têm de gastar 630 bolivares, ou seja têm de gastar mais 46,5% para adquirir o mesmo Magalhães. Isto é que interessa, e o resto é conversa à la Baptista da Silva.
As bocas (???) não são foleiras. O Nicolau Santos é que é, e não tem emenda.

De Vaga Ideia a 10 de Fevereiro de 2013 às 09:32
Não uso lacinho, mas também é verdade que se se pesquisar aparece 32% nuns websites e 46.5% noutros. Não tive pachorra para apurar, mas tenho a vaga ideia que o bolivar tinha 2 paridades com o dólar, uma para uns efeitos e outra para outros...

sábado, 9 de fevereiro de 2013

Autofagia

É muito interessante ouvir A. J. Seguro reclamar que como condição prévia para que o PS alinhe na discussão da reforma do estado que pretende eliminar despesa no valor de 4 mil milhões de euros, o primeiro-ministro deve forçar a troika a abdicar da exigência de cortes de 4 mil milhões de euros na despesa.

Curiosamente, Seguro não se propõe avançar ele próprio ou o PS, com essa quantia nem este ano, nem para o próximo, nem para o outro ...

sexta-feira, 8 de fevereiro de 2013

Esquerda-animal

A esquerda te-se tornado galopantemente incompetente. Mesmo no PS, a incompetência vai galopante.

É sabido que a esquerda é incapaz de olhar o passado e dele tirar ilações. Os erros do passado, os genocídios do passado, a generalizada miséria infligida a povos inteiros, não a convencem a analisar esse passado e a tirar dele lições para futuro.

A incompetência da esquerda projecta-se muito para além de assuntos do dia-a-dia e, evidentemente, da governação relativamente ao futuro mais ou menos previsível. A incompetência da esquerda raia já o animalesco mais descerebrado porque o bicho já perdeu a  noção de tempo, nomeadamente que ele desfila de passado para futuro.

O exemplo acabado dessa incompetência, dessa animalesco na sua mais imberbe forma, revela-se na derradeira acusação a Franquelim Alves: "porque não tomou anteriormente medidas face ao que veio posteriormente a apurar?"

Escrevia Alberto Pimenta, 30 anos atrás (na sequência da resposta do Manuel Graça ao meu comentário no post anterior)


quinta-feira, 7 de fevereiro de 2013

Não, ele não volta.

[Este post do Blasfémias é incontornável para se perceber a orgia que anda no Bloco de Esquerda na comunicação social (isto foi ontem, hoje de manhã já se berrava que, afinal, Bruxelas ainda não tinha aprovado o TGV):]

Um rumor deixou ontem em histeria os apaniguados do antigo primeiro-ministro nas redes sociais: vem aí o TGV.
.
Tudo nasceu de uma notícia da TVI:
tgv .
«TGV»: Governo acertou com Bruxelas novo projeto - Obra para linha de alta velocidade que ligará Lisboa a Madrid deverá avançar entre 2014 e 2020
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A notícia era acompanhada de uma entrevista por escrito ao ministro Vitor Gaspar (que aparentemente já não está online) e em que este explicava que o financiamento para o TGV Lisboa-Madrid tinha sido renegociado e que os fundos iriam ser utilizados num novo projeto reformulado e focado nas mercadorias.  A leitura era óbvia: o dinheiro que estava reservado para o TGV ia para outras coisas. Além do mais, o Ministro Álvaro esclareceu rapidamente qual era esse projeto: a linha ferroviária de mercadorias Sines-Madrid, em bitola europeia.
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Não há lugar a grandes interpretações nem confusões, mas mesmo assim, a RTP acompanha a notícia com a luz verde da discórdia: “…horas depois de o ministro das Finanças ter declarado à TVI que negociara com Bruxelas o financiamento da ligação entre Lisboa e Madrid, obtendo nesse processo uma comparticipação europeia superior à que estava prometida ao Governo Sócrates.”
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O DN, por sua vez, fez uma maravilha de jornalismo inventivo. Perante a frase de Álvaro Santos Pereira: não está previsto para o período da atual legislatura qualquer iniciativa por parte do Governo para que o projeto de alta velocidade seja retomado”, ou seja, até 2015.”, escolhem este título: Álvaro Santos Pereira diz que TGV faz-se após 2015. 
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 E o Público, escreve esta notícia absolutamente divertida: Título: vem aí o TGV. Conteúdo: não percebemos bem se é bem um TGV. Último parágrafo: vai-se poupar dinheiro não fazendo o TGV.
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Logo na altura, publiquei estes dois tweets.
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Metam na cabeça de uma vez por todas: não vai haver TGV nenhum.
Agora vão levar uns dias a falar no TGV até se aperceberem que é de linha de mercadorias que se está a falar.
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Todos lemos as mesmas fontes, mas como se vê, cada um escreve o que quer ler. Por essa altura já ia alta a festa pá, pelos lados das redes sociais e não parou, apesar de ser claro que não ia haver nenhum TGV. O que mais divertia algumas pessoas era a contradição entre Gaspar e Álvaro. Escreveram-se coisas destas:
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João Pinto e Castro: O Passos vai explicar que decidiu construir o TGV para poder exportar comboios carregados de Magalhães.
João Quadros: está visto que o ministro da economia ficou fora do comboio
João Ribeiro (Porta-voz e Secretário Internacional do PS) – Prova que austeridade é escolha ideológica.
Ana Gomes (RT de G_L): A estocada final no cachaço do povaréu tolo que votou Passos será a retoma do TGV. E em breve, do aeroporto. Toma que é para aprender.
José Junqueiro: “O TGV existe para o ministro das Finanças, mas não existe para o ministro da Economia…” e “O governo “apanhou” o TGV … e eu … prenhe de tanto ouvir … já convencido de q era coisa faraónica e socialista … -:))-:))-:))” (já hoje de manhã)
Inês Pedrosa: Começou a refundação do Estado: vem aí o TGV. Ainda bem que não foi uma ideia do Sócrates…
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E por aí fora. E já esta manhã, vem uma das mais divertidas:  “Ana Paula Vitorino aplaude “recuo” do governo sobre o TGV

E aquele que se engana sempre: “Nicolau Santos estranha regresso do TGV e não se admira que ideia do aeroporto volte.”
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Conhecendo a imprensa portuguesa como conheço, podemos esperar nos próximos dias títulos do género:
  • Governo volta a recuar: já não vai haver TGV outra vez.
  • Trapalhada: Álvaro e Gaspar não se entendem
  • Álvaro ganha a Gaspar
  • CDS incomodado com regresso de TGV faz governo recuar.
Vale uma aposta?