domingo, 24 de março de 2013

Doutas visões de Freitas do Amaral

Quanto há um par de meses o juro que Portugal baixou para níveis muito mais suportáveis que os valores herdados do tempo em que o país era governado por uma cáfila de palermas, o iluminado Freitas do Amaral, zenital ministro desse mesmo governo, veio declarar aos mortais que, quanto a ele, a descida do juro se devia muito mais à acção de Mário Draghi que do governo de Passos Coelho.

Alguém é capaz de informar o governo de Chipre que o nosso inteligente Amaral sabe que o juro que a acção de Mário Draghi proporciona é muito mais baixo que aquele que força os cipriotas a medidas draconianas?

Ainda... bom fim-de-semana!

Do que não cabe na cabeça de um tinhoso e também não cabe na de um espanhol



(cartoon recolhido aqui)
Pode ler-se aqui:
Em Espanha a imprensa mostra-se surpreendida com a contratação do ex-primeiro ministro para comentar a actualidade política nacional.
"A ninguém em Espanha passaria pela cabeça ver José Luís Zapatero a comentar a actualidade política na TVE", escreve o jornal espanhol La Vanguardia.
"Em Espanha a ninguém passava pela cabeça que no principal canal da TVE, logo após o telejornal da noite, aparecesse o ex-primeiro-ministro José Luíz Zapatero a comentar a actualidade política semanal. Mas em Portugal é possível e é o que vai acontecer a partir de Abril, quando o antigo líder passar a integrar o painel de comentadores da televisão pública RTP", escreve o La Vanguardia, na edição de hoje, num artigo com o título "El comentarista José Sócrates" e com o antetítulo "A televisão lusa contrata o ex-primeiro ministro como 'opinador', justamente na altura que se inicia o declínio do Governo de Passos".
Já o El Confidencial e o El Mundo dão conta das duas petições (uma contra e uma a favor) e da elevada adesão dos cidadãos à petição contra a contratação de Sócrates.
O El Mundo escreveu um artigo sobre o tema com o título "de primeiro-ministro a tertuliano".
A notícia da adesão da população à petição contra Sócrates como comentador da RTP, que já passa as 120 mil assinaturas, foi alvo de notícia na generalidade dos jornais do país vizinho.

É assim que se faz a Estória (5): "Quando comi lagosta no avião..."


Nicolau Saião, Panda sedutor


É este o título deste texto de Nuno Rebocho, que me foi enviado por ele mesmo:


Acompanhava, com uma caravana de jornalista, o então Primeiro-Ministro de Portugal, Mário Soares, à Alemanha Federal, quando - pela vez primeira e única – comi lagosta a bordo de um avião. Que o Marócas (assim lhe chamávamos, numa mistura de amor e ódio) gostava de se dar a estas grandezas de novo-riquismo… Dessa feita, ia ele a convite da Fundação Friederich Erbert para perorar em Bad Godesberg que os dólares investidos pelos alemães na fundação e apoio do PS não tinham corrido em vão e valeram a pena: os socialistas portugueses ditavam cartas então na Europa e tinham assumido o poder em Portugal. Corria o ano de 1985, se a memória não me atraiçoa.

Que era luzida a comitiva portuguesa. Estavam o Batista Bastos, o Fernando Assis Pacheco, o Fernando Rosas, e muita outra gente que no momento não recordo. E estava eu. Suponho que na Alemanha se juntou a nós o Hernâni Santos. Aterrámos em Koln (Colónia), fomos para Bona, onde ficámos hospedados, e daí seguimos para Bad Godesberg.

Para diversão nossa, Mário Soares foi-se libertando amiúde das normas protocolares, o que deixava em desespero os rigorosos alemães. Metia-se com gente em público, desprezava os seguranças, despertava o pânico nas germânicas fileiras. Mas lá ia levando a água ao seu moinho, vendendo a imagem de que os “afilhados” lusitanos se tinham transformado em grandes senhores e estavam ali para ensinar às gentes, industriando os antigos suseranos na arte de ter sucesso. Impávamos! Sentíamo-nos grandiosos e encarregámos o insuspeito BB de discursar a nossa gratidão ao Marócas, o que fez.

Ele tinha destas coisas. Lembro-me de um Dez de Junho em Portalegre, em que relegou para segundo plano uma monumental bebedeira do Vasco da Gama Fernandes, então Presidente da Assembleia da República, que – de grão na asa – se pusera a reger a banda que engalanava a cooperativa de Fortios: Mário Soares, Primeiro-Ministro, abeirou-se, retirou-lhe o chapéu de chefe da banda e enterrou-o na cabeça. De batuta em punho, pôs-se a reger os músicos.

Foi nessa altura que conheci mestre Javigas, de Portalegre, de quem me tornei amigo. Javigas tinha um grave defeito – volta não volta, enfrascava-se, perdendo então a noção de quanto fazia. Foi numa situação dessas que lhe dei três colmeias para ele me fazer o favor de as colocar no alto da Serra S. Mamede. Em má hora o fiz. O amigo Javigas colocou as colmeias, lá isso colocou, tal como eu lhe pedira, mas estava de tal maneira bêbado que esqueceu onde as colocara. Assim se esfumaram as minhas ambições em me fazer apicultor.

Voltando a tal ida a Alemanha, que ficou pintalgada de incidentes. Por exemplo, sofria eu de enxaquecas – horríveis dores de cabeça provocadas pela sinusite. A viagem de avião ocasionara que a maleita fizesse das suas. O problema é que varrera-se da memória o alemão que aprendera no liceu. Então, como se dizia “farmácia” naquela língua de trapos? Resolvi sair do hotel, o Am Tuppenfeld, e descer a Konrad Adenauer Strasse: ao fundo, vi “Apotheke”. Lembrei-me: “Apotheke” é “farmácia”! Mas como pedir comprimidos para as dores de cabeça? Fui-me recordando: “Schmerz” é “dor”, “Kopf” é “cabeça”. Ergui as mãos, entrei na botica e desatei aos gritos - “Schmerz Kopf, Schmerz Kopf!”. Respondeu o farmacêutico, compreendendo: “Ah, eine Aspirine?”. Não me lembrara o óbvio – a aspirina era alemã, da Bayer.

Nuno Rebocho

sábado, 23 de março de 2013

Bom fim-de-semana!




Morreu Óscar Lopes




Faleceu hoje, no Porto, Óscar Lopes, político, professor e ensaísta.


Inegavelmente talentoso, a sua formação e mentalidade marxista limitou-lhe com certo relevo a qualidade e o discernimento, dado o intrínseco autoritarismo dessa filosofia que o norteava.

Daí que muitas vezes tivesse sido exagerado, falhando o enquadramento do que escrevia e, por outro lado, fosse inadequado nas suas avaliações e análises.

Isso explica que, não vendo nem querendo ver os erros e crimes do comunismo, tenha emprestado o seu nome e a sua presença a uma aberração como era e segue sendo o Comité Central do ainda estalinista e tendencioso PCP, no qual se apoia a Coreia do Norte e se compreende gente como Amadinejhad ou Castro.


As suas melhores páginas, entretanto, talvez estejam no "História da Literatura Portuguesa", escrita em conjunto com António José Saraiva.

Também interessante e significativo o livro que arrola a sua correspondência com este e onde se nota de forma muito clara a diferença existente, significativa, entre dois talentos de igual porte, mas um vindo do livre espírito (Saraiva) e outro (Lopes) do espírito obrigado a mote partidário e ideológico.

Desejamos paz à sua alma, apesar de ele não crer no Além.

quinta-feira, 21 de março de 2013

Aos leitores do Ablogando

Publicou em primeira mão o Diário de Notícias na sua edição de hoje, ao princípio da manhã, uma notícia (Sócrates comentador na RTP dentro em breve) que de imediato causou, a princípio, estupefacção. A seguir, um certo espanto pela insensatez ou descaramento que se deixava adivinhar. Depois, indignação e, logo após outra comunicação social a difundir, começou a circular no espaço interactivo próprio uma Petição que acolheria um número crescente de assinaturas de repúdio que, neste momento, já conta muitas dezenas de milhar.

Importa dizer: este convite será apenas uma insensatez de quem o convidou ou, por outro lado, uma busca desorbitrada de audiências a todo o custo, cifrada na crença de pequeno escândalo a pretexto de liberdade de expressão dum indivíduo controverso? Ou, pior que isso, tentativa de colocação do ex-premier – um dos políticos mais culpados da situação em que nos encontramos – num lugar de onde continue a sua acção pública nefasta e confucionista?

Porque, na verdade, o referido senhor não é um cidadão qualquer, agindo pelos mídias de forma “natural” e eventualmente salvífica.

A acção deste senhor enquanto governante foi prejudicial e mereceu que os cidadãos o repudiassem em cheio nas urnas, Ele tem colada a si, para além da má governação, muitas coisas que no entender da população foram nebulosas e nunca explicadas cabalmente. Daí que esta sua volta a uma certa liça seja desagradável, muito negativa e que, a atender pelas reacções despertadas, despropositada, incompreensível, inadequada e de péssimo cariz.

Nesta conformidade, entendemos que o estatuto de comentador televisivo, colocado presuntivamente em horário nobre e de primeira página, seja errado e, afinal, potencialmente perigoso pela indignação que causará e já está a causar, além de ser um abuso contra os contribuintes que irão pagar as suas prestações num serviço público, numa estação oficial.

Manuel Graça
Joaquim Simões
Nicolau Saião

8ª maravilha?

Nota-se um silêncio ensurdecedor relativamente à co-existência, em Chipre, de um governo com comunistas e de uma gigantesca off-shore.

NOS 37 ANOS DA MORTE DE MAX ERNST (1 de abril de 76)



Nicolau Saião, Homenagem a Max Ernst


Transcrevo o e-mail que enviei ontem ao Joaquim Simões:


 "Confrade  Simões

 Fiz ontem este poema e pus na intenção mandar-lho na data da morte do poeta a que alude.
 Contudo, um mail do Alfredo Pérez Alencart alertou-me para o facto, que eu não tinha presente, de que é na próxima quinta-feira o Dia Mundial da Poesia.
 E então congeminei que talvez fizesse sentido mandar-lho já. Pois sendo um poema referente a um falecimento, na verdade o que ele celebra é a Vida - vida do poeta e vida de todos que, desta ou daquela forma - seja escrevendo ou apenas lendo - persistem em colocar em epígrafe a Vida e o que ela tem de raro e encantado, mas bem natural ou que o devia ser não fossem as "armadilhas do acaso" que a tentam derribar em nós.
 E que melhor bofetada na face da morte do que enviar-lho em união com uma data que aponta para a importância da poesia viva - se somos e nos recriamos numa intenção de permanência?

O proverbial abraqson amigo do

 n."



A MORTE NO JARDIM

Hoje os pássaros não cantam como dantes
nem as portas batem como antigamente
nem os gatos, que tanto amavas
como dantes vagueiam no lar dos homens.

Partiste
e algo terminou, que não era
simplesmente o teu vulto de príncipe renano
traçando a rota primordial
ou apenas
a tua boca sussurrando nas planuras encantadas
les hommes n’en sauront rien.

Foi aqui que tu morreste, Max
nesta rua portuguesa onde as crianças brincam
neste pátio de casa provinciana a que as plantas conferem
a dignidade e o medo
a beleza interior de algo humilde que se evoca
foi bem aqui
nesta Cidade Inteira
repleta de inocência e de amargura
neste Café que se alonga como se quisesse devorar o espaço
neste quarto alugado onde os amantes se encaram
como se se vissem pela primeira vez
nesta praia policiada pela maldição das pátrias
neste silêncio
neste espanto
nesta ignomínia.

Max Ernst, A Ninfa Eco

Alguém um dia desenhará nas paredes derruídas
o coração escondido da tua Ninfa Echo
com o ar de quem volta de uma grande viagem
com as mãos humildes e já serenas
sem que ninguém lho impeça
Algum dia, no doce recanto duma madrugada
alguém entenderá porque sabias tu que é bem real a Vila Petrificada
e então será possível o caminho até ao mar
e os homens saberão finalmente
qual a melhor mais bela delirante floresta
guarida para os cavalos e os animais nocturnos
E que será na penumbra das ruas desse mundo
onde cantamos, comemos, bocejamos, padecemos
que a alegria submersa se haverá de descobrir
paciente e subtil como uma estrela abrindo
sobre uma antiga casa.

Há gente que fala, dizias tu. Há gente que fala
mas as palavras sabem a azebre e a limalha
e a tristeza e o remorso percorrem-nos os ombros
como um pedaço de um qualquer metal maldito
pois a cidade violenta devora a sua própria cauda
como se fosse ainda existir centenas de anos..

É nas coisas reais que morres em cada minuto.

Neste pedaço de pão a que uns dentes ofereceram um sinal de fogo
nesta janela aberta como se aqui tivesse sido posta para um acto teatral
neste incrível Abril de vozes sonolentas
chamado muitas vezes a ultrapassar o tempo
É aqui que tu morres com as palavras por companhia
em cada hora de desespero organizado
nas vagas caravelas sulcando o mar oculto
para as ilhas para os momentos para os sonhos.

Não morreste pela razão das armas
como essoutro teu irmão Garcia Lorca
nem te foste pelo postigo octogonal
que Jacques Rigaut escolheu lucidamente
partiste, apenas partiste como um fruto demasiado maduro
como um ovo que se quebra no minuto habitual
como uma cama revolvida pelos espasmos da solidão
e que já nada dará  nunca mais   a quem a abriu.

Max Ernst, Napoleão no deserto

Por isso Max para ti não tenho mais que um olhar longínquo
ou um breve uivo de raiva à altura do coração
para a tua fresca libertação
para a tua máscara e para o teu cinzel que soube construir
e desconstruir de seguida
todos os Napoleões do Deserto
mas mesmo assim dói
e persiste
porque ficámos mais sozinhos ante a solenidade e a ganância
e não mais nos dirás que a vida reside no segundo degrau.

Porque quase ninguém tem a coragem de brincar
como tu a sério dizias defronte ao teu chemin mistérieux, debaixo
da tua eternité des mondes
nós continuaremos com os nossos frágeis cigarros
lançando o fumo da nossa dor revoltada de encontro às sombras
que já se vêem surgir no tempo
do derradeiro arrepio
como um tremor na montanha distante
no mundo que permaneceu

nesse teu universo adivinhado
tantas vezes sonhado, no plenilúnio

pintado e escrito.

(Março de 2013)

terça-feira, 19 de março de 2013

Os portugueses, a troika, o crime, o Papa e os ateus




Tudo isto em mais três crónicas de Alberto Gonçalves, no DN:



Os portugueses que ficam em casa

Os portugueses estão contra a troika? Nem tanto. Uma sondagem da Católica para o DN sugere que 64% dos cidadãos votariam hoje no partido que assinou o memorando de entendimento ou nos partidos que o aplicam, com o principal partido do Governo a registar uma subida de três pontos face à sondagem anterior.

Isto, evidentemente, não significa que a maioria dos portugueses esteja satisfeita com o papel do PS na bancarrota pátria ou com os esforços do PSD e do CDS para em vão curar a bancarrota através da espoliação fiscal. Mas significa que, apesar de tudo, as alternativas ao "sistema" suscitam menos confiança do que o "sistema" propriamente dito. E que os regulares protestos públicos, ainda que espectaculares, merecem ser lidos com uma ponderação que os "media" e os extremistas raramente exibem.

Quem viu as reportagens sobre as manifestações do passado dia 2 foi abalroado pela garantia de que o País em peso aspira a lixar a troika. Não importa que na rua marchassem um milhão e meio, um milhão ou 500 mil pessoas. Mesmo quando 30 sujeitos berram em frente à residência oficial do primeiro-ministro, o facto é notícia e alimenta a noção totalitária de que os 30 sujeitos, espontaneamente manipulados pela CGTP ou por metástases do Bloco, representam a população.

Por estranho que pareça, não representam. Por estranho que pareça, os nossos representantes na matéria são os políticos, tenhamos votado neles ou não, gostemos deles (Deus me livre!) ou não. Numa altura em que abundantes luminárias se referem jovialmente às "limitações" da escolha popular e tentam pôr em causa a legitimidade eleitoral, convém lembrar que esta é a única de que dispomos. Em democracia, claro. E embora a democracia em questão padeça de inúmeras maleitas e se assemelhe a um desfile de incapazes, as opções restantes implicam a consagração de rematados malucos, os quais procuram alcançar pelo pandemónio o poder que as urnas não lhes concedem.

Dito de outra maneira, por mal que isto ande, haveria forma de ficar pior, muito pior. Os portugueses ou, para ser exacto, 64% dos portugueses suspeitam disso, por isso lamentam os apertos em curso sem exigir a desgraça eterna. Aliás, suspeito que quanto mais os 20%, 10% ou 5% se empenharem na desgraça mais crescerá a quantidade de resignados à penúria presente, talvez futura e certamente preferível ao caos.



A previsão do crime

Durante meses, fomos informados de que a crise económica e a austeridade subsequente seriam responsáveis pela promoção de zaragatas domésticas, abandono de animais, suicídios, depressões, amuos, gripes e terçolhos. E do crime? Do crime nem se fala. Ou falou-se imenso. Segundo especialistas sortidos, que às vezes fingiam preocupação enquanto sentiam regozijo, a crise aumentaria os pequenos roubos, os assaltos violentos, os furtos intermédios e a insegurança em geral. A prevenção do crime viu-se substituída pela respectiva previsão.

Depois, veio a realidade e constatou-se que, pelo menos em Lisboa, a criminalidade está a diminuir, a geral em 5% e a grave em 15% face a 2011. Ou, ao contrário do que consta, a capital não é afectada pela crise, ou, ao contrário do que constou, a crise e as malfeitorias não são indissociáveis.
Por acaso, também já tinha essa impressão. Por muito que os defensores dos oprimidos insistam na tese oposta, nada assegura que um cidadão subitamente desempregado desate a surripiar transeuntes de navalha em punho. E que uma família incapaz de pagar a prestação do apartamento adira no dia seguinte à prática do carjacking. E que um reformado cuja pensão foi subtraída pela voracidade estatal se converta aos ensinamentos do estripador de Chelas. Etc.

Nem vale a pena lembrar que, na generalidade do mundo ocidental, o crime e a prosperidade tendem a crescer em simultâneo. Mas vale a pena repetir que a ideia de que a pobreza conduz quase fatalmente à delinquência não é apenas falsa: é ofensiva, bastante mais ofensiva do que os periódicos e ocasionalmente obtusos desabafos dos srs. Borges e Ulrich. Por ridículo que fosse o chavão algo salazarista do "pobres e honrados", o ridículo maior é que a alternativa democrática se resuma ao "pobres e bandidos". Aliás, se acrescentarmos o conhecido "ricos e ladrões", verifica-se que, em Lisboa e no País inteiro, o crime tende para o anacronismo na medida em que não sobra ninguém para roubar



A fé dos descrentes

O sucessor interino de Hugo Chávez afirmou que a doença do falecido "rompia toda a normalidade", um regresso à tese de que o cancro fora "provocado" pelos EUA e por isso se distinguia dos cancros comuns, inofensivos e ocasionalmente agradáveis.

Mas nem tudo é mau, e o sr. Maduro tem razões para festejar. Primeiro porque subirá provavelmente à presidência não interina. Depois porque, conforme explicou em palestra televisiva, Chávez subiu às alturas e encontrou-se com Cristo, que talvez num intervalo das conversas com Alexandra Solnado lhe confidenciou: "Chegou a hora da América do Sul." Ou seja, Chávez fez lóbi no Céu e colocou um argentino em Roma. Embora os motivos pelos quais Chávez não arranjou um Sumo Pontífice venezuelano fiquem por esclarecer, os restantes factos são indesmentíveis. Duvidar disto é duvidar do potencial cancerígeno da CIA, do progresso social da Revolução Bolivariana e dos suínos ciclistas.

Quanto ao Papa propriamente dito, o meu discreto ateísmo não me inspira grandes considerações. Em compensação, o ateísmo ruidoso de muitos não os impede de emitir palpites sucessivos acerca da matéria. Pelo menos em Portugal, os media trataram de ouvir avidamente as opiniões de gente sem qualquer vínculo ao catolicismo, o que faz o mesmo sentido que questionar um adepto dos Los Angeles Lakers sobre o momento do Sporting. Neste caso, o fã de basquetebol diria provavelmente não saber nada a propósito. Já os ateus militantes não só sabem imenso a propósito do Vaticano como insistem em partilhar a sabedoria connosco.

Padecendo de uma estranha maleita que os impede de viver em paz sem que o líder de uma fé a que se dizem radicalmente indiferentes concorde com eles, os ateus militantes receberam o Papa Francisco sob três perspectivas. A perspectiva simpática apreciou a circunstância de o homem vir do hemisfério sul (porquê?) e ter sido nomeado contra o "sistema" (apesar de ter sido o "sistema" a nomeá-lo). A perspectiva hesitante lamenta que o homem não defenda o casamento homossexual, o aborto, a eutanásia e, afinal, cada imperativo dos bem pensantes. A perspectiva desconfiada descobriu (ainda que, conforme se comprova no site do Bloco de Esquerda, à custa de manipulações fotográficas) a afinidade entre o sr. Bergoglio e a antiga ditadura argentina. Enquanto os cardeais não designarem um herege para pastorear os crentes, o catolicismo não se redime.

SÍRIA: IMPASSE À BEIRA DO ABISMO



1

No contexto do nacionalismo árabe e do pan-arabismo dos anos 1960, os alauítas, ramo do xiismo francamente minoritário na população síria (10%), saiu de uma posição histórica de subserviência, na qual vegetara durantes séculos de domínio turco-otomano (sunita), em busca da igualdade política e social sob um Estado moderno que definiria todos os sírios, fundamentalmente, como sírios. Na prática, à sombra do partido Baath sob a liderança do grupo de Hafez al Assad, os alauítas tomaram o poder no novo Estado, dominando desde então o poder executivo, além do exército, da polícia, da justiça e da economia, na figura do próprio ditador e depois de seu filho, Bashar Assad. A inversão histórica foi completa: ex-excluídos, os alauítas eram agora os novos senhores e excluíram do poder a maioria sunita.
Isso deu ao regime sírio uma feição particular, difícil de compreender sob a ótica clássica do Estado-nação ocidental. Neste, mesmo em situações extremas, como a de uma ditadura, a repressão é feita segundo linhas ideológico-políticas. Ou seja, trata-se ainda de disputa política, apesar dos métodos não-civis nem civilizados, e de alvos individuais, aqueles comprometidos com a oposição política. No caso sírio, a lógica não é política, pois se trata de uma “pólis”, de uma nação, fraturada dentro de um Estado uno. O regime de Assad é uma etnocracia, em que um grupo, tribo ou confissão governa sobre outro. O que se passa, então, é mais semelhante à situação de ocupação de um Estado por outro.
Em 1975, a Indonésia invadiu o Timor Leste para anexá-lo. O governo militar indonésio e as forças armadas indonésias não estavam ali, portanto, para oferecer à população os serviços fundamentais do Estado, como segurança e justiça. Ao contrário, sua presença invertia a lógica do Estado, tornando-o um inimigo da população local, que dele tinha de se proteger, ou seja, a ele se opor e se recusar. O caso sírio é semelhante. O Estado, sequestrado pela minoria alauíta, é um Estado alauíta governando uma nação sunita (80% da população síria). A luta da população não é, portanto, contra um líder ou mesmo contra seu regime, como nos demais casos da “primavera árabe”. A luta é contra o Estado sírio, ou seja, o Estado alauíta.
Isso explica algumas coisas de outro modo incompreensíveis. Por exemplo, o genocídio como método de repressão. A palavra, criada após a Segunda Guerra Mundial para dar conta do assassinato de um povo (gene), seria depois mal utilizada tanto por excesso e facilitação quanto por timidez e negação, a depender do caso. Mas isso não condena seu uso a priori. Se o conjunto da população de uma cidade pode, com pertinência, ser dito o povo daquela cidade, então o extermínio deliberado de uma cidade pode ser chamado de genocídio. Isso aconteceu na Síria, em 1982, quando o governo cercou, bombardeou e destruiu a cidade de Hama, então centro da oposição sunita. Numa situação como a síria, se o Estado é o Estado de uma nação dentro de outra nação, a nação excluída, porque nação e porque excluída, só pode ser governado pela força. Ao mesmo tempo, quando se insurge, não se trata de oposição política, mas de um ato de guerra, pois fora do Estado (porque fora da política, ou vice-versa) e contra ele. Daí a repressão militar, e daí a repressão genocida: o Estado sírio não estava, sob sua própria lógica, atacando seu próprio povo ao destruir Hama.
Prova disto é que Hama, longe de ser um caso isolado, tornou-se uma regra, a “regra de Hama”, explicitada pelo próprio Assad pai: o que aconteceu em Hama seria o modelo de repressão do regime a qualquer oposição. Como não havia a possibilidade de uma oposição “síria” senso lato, pois os alauítas se identificam com um Estado por eles dominado (na verdade, por eles construído) e que a eles serve, toda oposição, necessariamente sunita, seria tratada como ameaça ao regime e ao Estado.
Daí não existir solução política para a atual crise síria. Como todas as instituições do Estado são dominadas pelos alauítas, todas as instituições do Estado têm de ser, na prática, refeitas. A oposição síria tem por objetivo lógico a refundação do Estado sírio.

2

Isso implica, do ponto de vista alauíta, não apenas a perda de poder, mas a perda da segurança, além da riqueza. Pois não se trata, num primeiro momento (ao menos, há um grande e real temor de que não se trate), de tentar refundar um Estado sírio, ou seja, para todos os sírios, entendidos como uma cidadania nacional, mas de extinguir o Estado alauíta comandado pela família Assad a fim de em seu lugar instituir um Estado sunita. As razões disso são principalmente três: a história profunda, da qual os alauítas emergem como um grupo separado dos e subalterno aos sunitas, numa relação de separação e subserviência históricas que teria sido subvertida pelas circunstâncias políticas recentes; as circunstâncias políticas recentes, vistas pela maioria sunita como uma degradação e uma injustiça histórica, ao que se soma o ódio irreconciliável gerado pela repressão genocida; a ausência de um conceito de nacionalismo e de cidadania modernos na cultura árabe, que historicamente conheceu apenas a vassalagem sob o império turco ou sob reinos árabes que, na prática, eram o domínio de uma tribo sobre as demais.
Não há, portanto, caminho para uma solução negociada, ou seja, política. A troca do governo de Bashar Assad por outro coloca a questão da troca ou manutenção de um grupo por outro. Se um novo governo pós-Assad for ainda alauíta, não será aceito pela maioria sunita. Se for sunita, não será aceito pela minoria alauíta, pois significaria a perda definitiva do poder e a perspectiva de ser submetida a um Estado que vingaria ou não impediria a vingança por parte da maioria sunita. Um governo integrando governo e oposição, como tantos pleiteiam ingenuamente no Ocidente, seria, na verdade, um governo que integrasse sunitas e alauítas. Mas na presente situação síria, essas grupos não são conciliáveis. Os alauítas têm tudo a perder, portanto, lutarão até o fim para manter-se no poder. Fala-se inclusive de, no limite, se criar um cantão, um enclave alauíta em regiões próximas ao Líbano, ou seja, de uma divisão do Estado sírio, como aconteceu na Índia com a criação do Paquistão para a sua população muçulmana, após a independência. Os sunitas, por outro lado, têm tudo a ganhar, portanto, lutarão até o fim para tomar o poder e o Estado, e para vingar seus mortos passados e presentes.

3 

Mas apesar de tudo, a oposição síria é fragmentada, ou mesmo fraturada. Não apenas pela existência de outras minorias, como cristãos e curdos, cujo alinhamento com governo e oposição não tem a clivagem clara dos sunitas versus alauítas. Mas porque se trata, justamente, não de derrubar o governo para pôr em seu lugar um outro, talvez mais democrático ou representativo, mas de refundar o Estado. Daí que os diferentes projetos de Estado não esperarão pela luta política após uma eventual queda de Assad, como se deu nos demais casos da “primavera árabe”. A construção de um novo Estado pós-alauíta começa na destruição do Estado alauíta. A situação é, deste ponto de vista, mais semelhante a uma verdadeira revolução do que o foi em outros países da região. O objetivo comum imediato de derrubar o governo, confundido com o de destruir o regime e suas relações sociopolíticas, é então sobrepujado pelo objetivo último de garantir o domínio do novo Estado já a partir do início de sua construção, ou seja, da derrubada do “Antigo Regime”.
No caso dos sunitas sírios, dois grupos têm projetos completamente distintos: um grupo laico, centrado nas cidades e na classe média, pretende a construção de um Estado laico e moderno, segundo o modelo turco; um grupo religioso, centrado no campo e liderado pela forte Irmandade Muçulmana síria, tem por objetivo instituir uma teocracia, ou ao menos um Estado tutelado pelo e atrelado ao clero, segundo o modelo saudita. Daí a oposição sunita não ser uma nem una, o que resulta em não ter ainda podido fazer frente à unidade alauíta, apesar de esta ser minoritária.

4

A Síria não é a Líbia. Tampouco o Egito. Mas dizer isso não aclara em que ela não é nem o Egito nem a Líbia. Fundamentalmente, trata-se de um poder incomparavelmente maior de envolver e desestabilizar toda a região.
Ao contrário do Egito, a Síria mantém um contencioso militar com Israel, com o qual está oficialmente em estado de guerra, em função da ocupação israelense das colinas de Golã. A Síria é, também, a última ou principal fiadora da instável estabilidade libanesa. A Síria ocupou o Líbano por décadas, após a guerra civil libanesa doa anos 1970-80, e ao sair do país deixou como preposto o fortíssimo grupo xiita Hezbolah, ao mesmo tempo um partido político, um grupo religioso e uma milícia, constituindo, na prática, um Estado dentro do estado libanês. Um governo sunita na Síria não daria ao xiita Hezbolah o mesmo apoio de um governo alauíta (os alauítas são um ramo do xiismo). O Hezbolah se aproximaria ainda mais do Irã, seu segundo grande aliado, tornando-se, se não mais radical, pois isso é impossível, mais imprevisível. O Irã, país xiita governado por um clero idem, perderia com a queda do regime alauíta sírio seu único grande aliado na região. Por fim, o governo saudita, que se considera o guardião da ortodoxia sunita, tem muito a ganhar em influência com a troca de regime sírio. Resta ainda a Turquia, que faz fronteira ao sul com a Síria, e têm suas próprias demandas sectárias internas, como as dos curdos locais.

5

Há hoje na Síria um impasse sangrento. A surda revolta histórica da maioria sunita encontrou afinal na “primavera árabe” o impulso para partir para a ação. Mas à diferença do caso egípcio, em que o próprio regime negociou uma solução política, e do caso líbio, cuja liderança não tinha força para resistir, por não representar grupo algum além dos próprios integrantes do regime, as condições sírias impedem uma saída negociada, além de explicarem a resistência e a brutalidade do regime alauíta. Esse impasse sangrento, se não pode se resolver por uma solução política, deve sê-lo pela ruptura, ou seja, pela extinção de qualquer possibilidade de solução política. A guerra civil síria terminará, necessariamente, pela destruição do Estado alauíta. A variável importante que resta incógnita, a ser verdadeiro esse quadro, é a duração da guerra civil, portanto, sua intensidade. Quanto mais rápida, menos brutal, quanto menos brutal, maiores as chances de minimizar os inevitáveis traumas e as incontáveis dificuldades e ameaças do período de reconstrução.
A conclusão é que se deve armar a oposição síria, não apenas para que não fique submetida à artilharia do governo como animais de caça num safári, mas também para abreviar a queda do regime e, assim, a dimensão e a duração da guerra civil.
O que parece uma contradição, ou seja, armar um lado de uma disputa para que tal disputa seja menos sangrenta, deixa de sê-lo ao se sair da teoria bélica para a prática da realidade imediata. Não há retorno na situação síria, pois os sunitas, uma vez entrevista a possibilidade histórica de tomar o poder, e uma vez tendo sacrificado por esse objetivo milhares de vidas nos últimos meses, não têm por que ou como desistir. Como tampouco pode desistir de resistir o governo alauíta, a situação atual, com seus mortos cotidianos, para não falar da tortura sistemática e da destruição de casas, arrastar-se-á até que a oposição consiga as armas para enfrentar militarmente as forças do regime, levando o que é agora uma guerra civil assimétrica a uma simetria maior. A negação de armas à oposição não evitará a guerra civil franca, apenas a adiará ao custo do atual morticínio. Ou seja, somará aos mortos futuros da guerra civil aberta os mortos de seu preâmbulo.
Encurtar esse preâmbulo sangrento e sanguinário, se não é possível pela via política, deve sê-lo pela via militar. A alternativa, a manutenção e a extensão do impasse, é a extensão e a manutenção do morticínio, sem dar às vítimas possibilidade de se defender.
Além disso, quanto mais o atual impasse cruento se prolongue, maiores as chances de os países vizinhos se envolverem na luta, aumentando também os riscos de sua internacionalização.
A queda do regime alauíta deve, por tudo isso, ser abreviada. A todos os temores imediatos, porém, soma-se o receio ainda maior da emergência de um regime teocrático, como se deu no Irã após a queda do xá. Mas, em primeiro lugar, os sunitas, ao contrário dos xiitas, não contemplam historicamente o Estado teocrático. Em segundo lugar, não há como evitar que os próprios sunitas decidam o tipo de Estado e de sociedade que querem para si, finda a era alauíta. Os secularistas sunitas terão de enfrentar amanhã a Irmandade Muçulmana e seus aliados jihadistas, tão certamente quanto enfrentam hoje, ao lado deles, o regime alauíta. E é da vitória dos sunitas na guerra civil, bem como da subsequente vitória dos sunitas secularistas no período pós-guerra-civil, que depende a muito improvável, mas não inteiramente impossível, emergência de uma futura democracia síria (incluindo a necessária normalização com a minoria alauíta).

segunda-feira, 18 de março de 2013

O estado tem de encolher

Comentário que deixei no FaceBook de Ramiro Marques:

RM:

"A crise da dívida pode levar décadas a ultrapassar. No caso português,o problema é tão grave que podemos ter de nos sujeitar a 15 anos de recessão e taxas de desemprego de dois dígitos. É bom que as pessoas tomem consciência da gravidade do problema e não apoiem "soluções" semelhantes às que nos conduziram à bancarrota. A questão é simples: o Estado andou uma década a gastar mais 10% ao ano do que o volume das receitas. Agora, o Estado precisa de voltar a gastar na proporção das receitas. Tem de encolher. E encolher significa prestar menos serviços e reduzir o número dos funcionários."

Por enquanto e porque estamos e emergência. Depois, há que dar uma cajadada na despesa do estado para permitir que os impostos venham abaixo. Só desta forma se poderá potenciar o crescimento e só então, começar um híbrido de pagamento de dívida e subida do PIB para que o pagamento dos juros não tenha tanto peso.

Que os portugueses não se voltem a esquecer que de cada vez que o estado "dá" vai sair-lhes do bolso. De cada vez que o estado "dinamiza" vai sair-lhes do bolso.

A mais importante missão deste ou qualquer outro governo consiste em fazer encolher o estado, a bem ou a mal. Os promitentes trabalhadores da coisa pública (e muitos dos actuais) terão que se capacitar que terão que encontrar (ou ficar à espera comendo couves) que empresas privadas surjam no sector de bens transaccionáveis para que o futuro possa fica mais desanuviado.

O que digo é coisa bruta que nem casas? Pois é. É assim desde há 10 anos e deviam ter-me ouvido há mais tempo.

E qual é o papel da "europa" nesta coisa? Neste momento é um estorvo e tudo indica que não vai melhorar. Bruxelas continua em roda livre fora de qualquer controlo democrático e o parlamento europeu parece uma horda de cachopos.

domingo, 17 de março de 2013

Brasil: petróleo

Espero que o Brasil não se estampe na maldição dos recursos.

O maravilhosos sistema de saúde cubano, ...

... em versão para indignácaros:

... "faça alguma coisa" ...!!!

Comentário meu a uma leitora do Prof. Ramiro Marques:

Portugal é um país sentado à espera que o estado "faça alguma coisa", também pelos filhos. Portugal é uma país de dependentes do estado. Portugal é um país onde a larga maioria da população depende directamente do estado. Em boa verdade, é um "estado" sem país.

Vive-se hoje um relampejo, um momento de verdade em que as pessoas começam a perceber dolorosamente que há mais vida, há mais mundo para além do estado.

A Grâce vê os sintomas mas não não diagnostica a doença. A doença chama-se "estado", chama-se falta de amor-próprio, falta de orgulho-próprio, falta de afirmação do 'eu' por ... vergonha.

Da federação-maravilha



Sabrina Vlaskalic Concert Gitaarsalon in Enkhuizen, Holland


sábado, 16 de março de 2013

A PROPAGANDA, A ALMA DO NEGÓCIO E O PÚBLICO-ALVO

 
 
 
 

À LUZ DA ANDALUZIA

                                     



não tenho interesse pelo islã

quando acordo de manhã
penso no meu trabalho
na roupa que irei vestir
no tempo que vai fazer
no que comer no café
mas não em maomé

a direção do vento me afeta
muito mais que a de meca

se ao longo do dia
penso no islã
é porque o islã
ao longo do dia
entra em minha casa
pelas mãos de uma notícia

nunca é positiva

puro preconceito da mídia
rezam os muçulmanos

isto considerando
em momentos de ócio
pus-me a pensar com minúcia
nos muitos afazeres humanos

não nos mais cotidianos
como comer, dormir, defecar
mas nos que pedem a mediação
do pensamento e da ação

em suma
o que se costuma chamar de cultura

fiz então uma pequena lista:
leis inovadoras
inovações artísticas
novidades tecnológicas
descobertas científicas
organização política
história olímpica
montagens de ópera
comédias teatrais
artes gráficas
crítica literária
estudos de filosofia
novos materiais
novas arquiteturas
viagens espaciais
necessidades especiais
pesquisa agrícola
design de automóveis
adestramento de cães
mapeamento da flora
indústria da moda
estudos de geologia
previsão meteorológica
previsão de terremotos
prevenção de acidentes
tratamento dos dentes
cirurgia estética
renovação da ética
novidades da ótica
inovações náuticas
astronáuticas
ou internáuticas

não importa quantos itens
se acrescentem à lista
a parte do islã
é bem específica:
encher o mundo de mesquitas
escolas corânicas
e mulheres mal-vestidas

porém na andaluzia
mil anos atrás
a estrela do islã reluzia
dizia-me uma tia

ao que eu, infiel e infeliz
respondia:
mas, titia
o mundo é maior que a andaluzia
e mil anos não são pouca porcaria

verdade, meu filho:
porém é mais polido
apontar nos demais suas qualidades
principalmente as raras

sim, titia:
mil anos atrás
na bela andaluzia
a estrela do islã reluzia...