sábado, 11 de maio de 2013

ISLAMISMO VERSUS KEMALISMO (ELOGIO DE ATATURK)




Nota introdutória

A propósito da complexa e premente questão da "reformabilidade" ou não do islã, recente objeto de aguda discussão neste venerável blogue, através de vários posts e comentários, copio abaixo um capítulo de meu livro inédito As asperezas da crença: a religião no mundo contemporâneo [1], obra que não trata apenas das questões do islã com a modernidade, mas também delas. Neste pequeno capítulo em particular (apenas uma parte da seção dedicada ao islã), discuto de forma sucinta a experiência inédita do kemalismo, ou seja, a criação da moderna República da Turquia sobre os escombros do Império Otomano, liderada por Kemal Mustafá Ataturk, um anti-islamista radical, talvez o mais radical da história.
 
 

Toda a discussão sobre a relação do islã com os graves e agudos problemas contemporâneos do mundo muçulmano é, de certa forma, ociosa. Pois ela se dá deixando de lado um dado histórico fundamental – o que, portanto, a falseia. Falsa e ociosa, a discussão se mantém (sem na verdade avançar) ao desconsiderar algo do tamanho do Império Otomano – mais exatamente, da moderna República da Turquia. Se este dado é inserido na discussão, ela muda tanto quanto se clarifica. Pois se dá uma resposta, ou ao menos um exemplo histórico, do que pode ser feito, ou do que já foi feito, em um caso específico, para resolver a questão do islã na difícil equação "mundo muçulmano versus modernidade".

Depois de um longo período de lenta decadência, com o império sendo literalmente comido pelas bordas pelas novas e ascendentes potências europeias, e apenas não se desfazendo antes por haver certo interesse dessas mesmas potências em preservá-lo, ainda que – e na verdade porque – enfraquecido (na segunda metade do século XIX, o Império Britânico utilizava o decadente Império Otomano como um tampão contra a expansão do Império Russo para o sul e para a região estratégica do Mar Negro), o Império Otomano afinal se desfez ou foi desfeito logo após sua derrota na Primeira Guerra Mundial, na qual se aliara à Alemanha. A própria existência de qualquer estado turco ficou então em suspenso – até a reação chefiada pelo coronel Mustafá Kemal Ataturk, líder da Revolução Turca de 1919 e fundador, em seu rastro, da atual Turquia.

Portugal já foi um império. Também a Espanha, a Rússia e, mais recentemente, a Inglaterra. Porém o mais correto seria dizer que esses países tiveram um império. Ao perderem suas colônias, voltaram, de certa forma, a ser o que haviam sido antes de conquistá-las. O Império Otomano era diferente. Não houve uma Turquia que depois conquistou um império. Houve, primeiro, o império turco, nascido da lenta expansão militar de um pequeno núcleo tribal. Esse núcleo tribal, de cultura centro-asiática, era originário da região de Altai (Mongólia), e fizera parte das várias levas de invasores nômades que, historicamente, se deslocavam do centro da Ásia para o oeste, como mongóis e hunos (estes também de etnia turca). Essa tribo turca em particular, cujo líder se chamava Osman, ou Otman, e daí o seu nome, estabeleceu-se na Anatólia (atual Turquia) em torno do ano 900. Nos séculos seguintes, os turcos otomanos incorporariam regiões e estruturas – físicas, culturais, religiosas e políticas – de estados árabes nascidos do esfacelemanto do Califado de Maomé, assim como do Império Bizantino, incluindo sua própria capital, Constantinopla. Quando, mais tarde, o Império Otomano se desfez, no início do século XX, não havia um antigo centro nacional a preservar, ou para o qual retornar, como havia, no centro do Império Britânico, a Inglaterra. Para haver uma Turquia depois do fim do Império Otomano, era preciso criá-la.

Na lista dos maiores estadistas do século XX, Roosevelt e Churchill têm um lugar natural por sua vitória na Segunda Guerra Mundial. Porém há uma outra lista, não menor do que a primeira, apenas diferente, ou seja, não a dos grandes líderes político-militares, mas a dos grandes construtores de nações, em que se destacam Gandhi e Mandela. E na qual o primeiro lugar, o de maior estadista do século XX em sua acepção mais ampla, cabe a um coronel turco, Kemal Ataturk, o criador, no sentido mais puro da palavra, da atual República da Turquia a partir dos escombros do Império Otomano.

Ataturk foi um déspota esclarecido, o último e o maior deles, na tradição e na linhagem de Pedro, o Grande e de Catarina, a Grande, na Rússia, ou do marquês de Pombal. Se Pombal chegou a proibir a Companhia de Jesus, Ataturk foi mais longe: tentou virtualmente eliminar o islã da cultura turca. Pois o considerava necessário como uma das etapas principais, senão a principal, na construção do novo país. Maior líder militar turco moderno e pai-fundador da República (ataturk significa “pai dos turcos”), ele talvez soubesse o que estava fazendo. E dizendo.

Afirma-se que a unidade religiosa é um fator na formação das nações. No entanto, vemos o oposto na nação turca. Os turcos eram uma grande nação antes de adotarem o islã. Essa religião não ajudou os árabes, iranianos, egípcios e outros a se unirem aos turcos para formar uma nação. Ao contrário, ela enfraqueceu as relações nacionais turcas, e anestesiou os sentimentos e o entusiasmo nacionais turcos.
[2]


Ataturk é considerado pelos islâmicos militantes o maior inimigo do islã em toda a história. Basta fazer uma pesquisa na internet com as palavras ataturk e islam: aparecerão então incontáveis sites islâmicos, que se referem ao primeiro termo da busca como “o grande inimigo”. Por isso mesmo, muitas afirmações atribuídas a Ataturk não são confiáveis. Além de questões específicas de fontes, elas são agressivas demais ou sutis de menos, e isto simplesmente não faz sentido em se tratando da vitoriosa trajetória política de Ataturk (elas são adotadas tanto por militantes sem qualquer critério quanto por anti-islâmicos com muito critério, para pintar Ataturk com as cores mais “negras”). Portanto, ele não deve ter afirmado isto, apesar de normalmente a ele atribuído:

Durante mais de cinco séculos, as regras e teorias de um velho xeique árabe e as más interpretações de gerações de sacerdotes ignorantes se fixaram, na Turquia, em todos os detalhes da lei civil e criminal. Elas determinaram cada movimento da vida de cada indivíduo, sua comida, suas horas de vigília e de sono, a forma de sua roupa, o estudo na escola, os costumes, os hábitos e até os pensamentos mais íntimos. O islã, essa teologia absurda de um beduíno imoral, é um cadáver putrefato que envenenou nossas vidas.
[3]
 
Mas tenha ou não dito isto, disse comprovadamente outras coisas claras o bastante:
 
Estamos tentando não misturar assuntos religiosos com os negócios da nação e do Estado, e evitando ações reacionárias baseadas em más intenções.[4]

Não consideramos nossos princípios como dogmas contidos em livros vindos do céu. Nossa inspiração vem não do céu, ou de um mundo invisível, mas diretamente da vida.
[5]

Temos que ser independentes do ponto de vista da religião.
[6]
 
Também foi claro em questões de costumes:

A humanidade é feita de dois sexos, homem e mulher. É possível que um povo se desenvolva pelo desenvolvimento de apenas uma de suas partes enquanto a outra parte é ignorada?
[7]

Muito antes da França, Ataturk coibiu o véu feminino. Como o marquês de Pombal proibiu a ordem dos jesuítas, ele fechou as ordens de dervixes, espécies de mulás místicos. Também fechou as escolas religiosas, as madrassas, onde se estudava o Corão – e onde tudo o que se estudava era o Corão. Ao mesmo tempo, instituiu o ensino universal e laico. Mudou o alfabeto turco, que utilizava caracteres árabes, para um novo alfabeto, baseado nos caracteres latinos. Como Lutero e o rei James da Inglaterra traduziram a Bíblia, respectivamente, para o inglês e o alemão, Ataturk encomendou, pela primeira vez, a tradução do Corão do árabe para o turco, a fim de que os fiéis não ficassem reféns das interpretações dos mulás. Determinou o domingo como dia de descanso, em lugar da sexta-feira. Anulou a legislação religiosa, incluindo as leis sobre casamento, divórcio e herança, baseadas na lei islâmica, a shariá, e instituiu uma legislação civil. Proibiu a poligamia. Substituiu o calendário muçulmano pelo gregoriano. Fechou inúmeras mesquitas, e transformou a principal delas, a de Sófia, em Istambul, em um museu. A lista é interminável. Entre outras coisas, Ataturk também aboliu o califado.

O Império Otomano era, ao mesmo tempo, o sultanato, o império do sultão turco, e o califado, pois o sultão era também o califa, ou sucessor de Maomé, portanto, o “Defensor do islã” e sua máxima autoridade religiosa. Algo assim como se o imperador romano fosse simultaneamente o papa. Ataturk, além de destituir e exilar o último sultão, acabou com o papado – digo, com o califado.

Ataturk não criou apenas um novo estado, a Turquia, dos escombros do Império Otomano. Também criou uma república laica e institucionalmente moderna no lugar de um estado religioso. Além disso, e acima de tudo, tentou mudar e remoldar a cultura do país, a fim de que a racionalidade e o empirismo modernos substituíssem as crenças e as práticas religiosas. Ele foi o único reformador a fazê-lo com relativo sucesso em todo o mundo muçulmano.


Primeira conclusão: as reformas modernizantes e democratizantes de Ataturk, se não foram implementadas à força, pois ele não criou um regime totalitário, mas uma democracia tutelada por um exército secularista,  foram tuteladas pelo exército (ele próprio era um brilhante militar de carreira, herói da Primeira Guerra Mundial). Essa tutela foi necessária para mudar tanto as instituições quanto as práticas e as mentalidades, e assim criar tanto um novo país quanto uma sociedade civil razoavelmente moderna. Daí a falácia dos islâmicos “moderados” que evocam o “modelo turco” a fim de defender sua subida ao poder nos países da "Primavera Árabe". Trata-se, de fato, de uma falaciosa inversão da relação de causa e efeito. Pois a imperfeita democracia turca não foi construída por um partido islâmico “moderado” no poder, mas pelas forças políticas anti-islâmicas lideradas por Ataturk (e centralizadas na elite do exército, que tomara consciência da necessidade de rápidas e radicais mudanças no novo país ao se confrontar, literalmente, com a modernidade ocidental, na forma da enorme produção industrial e dos já mecanizados exércitos de massa europeus da Primeira Guerra Mundial, da qual o Império Otomano saiu completamente esfacelado – o que criou não apenas a necessidade como a possibilidade de reconstrução da nação e da sociedade turcas). 

Segunda conclusão: se o kemalismo serve de exemplo de algo, é que o caminho da reforma do islã passa ao largo da reforma do islã, mesmo porque, este é uma religião, mas não uma Igreja, ou seja, uma estrutura institucionalizada por onde operar. Esta não existe.  Não há poderes centrais, hierarquia eclesiástica, concílios, códigos canônicos etc. Mas há, em compensação, divisões como sunismo, xiismo, sufismo etc. O islã é, então, seguindo o modelo kemalista, reformável como resultado de mudanças reais e radicais das sociedades em que é a principal referência sociocultural e mesmo jurídica (através da shariá, a lei islâmica). Como consequência, o islã resulta reformado naquilo que mais importa, a retirada de sua tóxica posição central e centralista na sociedade muçulmana – restando aos fiéis que ainda o desejarem a "privatização" de sua prática, mesmo porque o novo modelo de sociedade, inclusive pela retirada do islã de sua posição central, inclui a liberdade religiosa (além das liberdades civis, como a de expressão) e a separação das instâncias religiosas das políticas.

Terceira conclusão: o caminho kemalista, por se dar de cima para baixo, não é hoje realista, ainda que possa haver exceções, como a Argélia depois da eliminação da Frente Islâmica de Salvação (FIS), hoje com um governo laico eleito e tutelado por um exército secularista. Mas exceções são exceções. Como regra, a reforma do islã depende, enfim, das forças políticas realmente secularistas nos vários países muçulmanos – que hoje, infelizmente, em geral não são de fato uma força, mas uma fraqueza política.

Quarta conclusão: quanto às comunidades muçulmanas estabelecidas em países onde já vigora a moderna sociedade aberta, elas têm de ser vencidas e convencidas no sentido de compreender que tal sociedade não será, em nenhum grau ou sentido, islamizada, mas que suas comunidades islâmicas devem se modernizar na direção da "privatização" da crença. A crença de cada um não importa, assim como sua opção sexual, desde que viva sua vida, deixe os outros viverem as suas e respeite as leis, que são republicanas ("coisa comum"). A tolerância com a intolerância serve à intolerância. A intolerância com a intolerância serve à tolerância. Neste sentido, ao contrário dos que se autoproclamam "tolerantes" com as "especificidades culturais", os verdadeiros tolerantes são os intolerantes. Nenhum valor ou argumeno evocável para defender, preservar ou proteger a intolerância é maior ou melhor do que a própria tolerância. 


[1] Agradeço de antemão qualquer ajuda dos amigos portugueses para tentar publicar o livro em Portugal. Num país "tropical" e lulopetista como o Brasil, seu tema não desperta muito interesse nem é considerado relevante.
[2] Yurttaslik Bilgileri, Yenigun Haber Ajansi (1997), p. 18 (acessível em http://en.wikiquote.org/wiki/Mustafa_Kemal_Atat%C3%BCrk [tradução de minha autoria]).
[3] Há várias referências a esta citação na internet (em que me baseei para a tradução). Uma das melhor embasadas, pois cita a fonte, é http://www.bismikaallahuma.org/archives/2005/mustafa-kemal-ataturk-the-enemy-of-islam/#footnote_2_62 (H. C. Armstrong, The Grey Wolf , Capricorn Books, New York, 1961, pp. 199-200). Cf. “Attribuée à Mustapha Kémal Atatürk / 1881-1938 / in ‘Mustapha Kemal ou la mort d'un empire’, Jacques Benoist-Méchin”, acessível em http://atheisme.free.fr/Citations/Ataturk.htm, e “Durante más de 500 años, las normas y las teorías de un jeque árabe anciano...”, acessível em http://yahel.wordpress.com/2010/06/28/ataturk-esa-teologia-absurda-de-un-beduino-inmoral.
[4] Acessível em http://tekadamdevrimi.com/tekadamdevrimi/tad_ingilizce/tad_ingilizce_02.htm.
[5] “Statement” (1 November 1937), as quoted in Atatürk: The Biography of the founder of Modern Turkey (2002), by Andrew Mango (acessível em http://en.wikiquote.org/wiki/Mustafa_Kemal_Atat%C3%BCrk).
[6] Acessível em http://tekadamdevrimi.com/tekadamdevrimi/tad_ingilizce/tad_ingilizce_02.htm.
[7] Acessível em http://www.goodreads.com/author/quotes/2793859.Mustafa_Kemal_Atat_rk.

Da superioridade cultural do cristianismo




G. K. Chesterton


A propósito do texto anterior do Luís Dolhnikoff, "É tudo verdade", e dos comentários e respostas que suscitou até agora, lembrei-me deste, que publiquei, pouco mais de um ano atrás, no Fiel Inimigo:


A nossa época é uma época profundamente obscurantista. E tanto mais obscurantista quanto mais se arroga a representação exclusiva e definitiva de um pensar objectivo, laico e humanista, isento de anteriores superstições impeditivas do acesso à verdade e à liberdade, às liberdades, espelho de uma imparável evolução da Humanidade.

Uma das ideias nela muito difundida é a de que todas as religiões se equivalem:


 - ou porque todas elas resultam de um apelo do e a um Transcendente comum e que, pela parcialidade e correspondente sectarismo de cada uma dessas visões, todas elas comungam de iguais virtualidades e culpas nos seus efeitos sociais e políticos - sobretudo culpas;


- ou porque se limitam a reflectir o temor e o tremor da humanidade, e benefícios em busca de uma protecção na luta contra os elementos hostis e ameaçadores da sua existência, antes deste dealbar da sua libertação pelo pensamento científico e respectivas conquistas;


- ou porque não passam de uma artimanha destinada a que uns quantos cimentem o seu poder sobre os restantes, manobrando-os e explorando-os mais facilmente e a seu bel-prazer;


- ou porque resultam de uma síncrese de todos estes factores, próprios, uma vez mais, de uma espécie que não atingiu, e estará ainda muito longe, da sua maturidade - e ainda que, céus!, se dirige já para as estrelas, podendo contaminar todo o universo com a sua moléstia moral.


Neste papaguear generalizado entre os eruditos e disseminado superficialmente através de uma vulgata dos conceitos – entre a maioria dos políticos e a restante população da civilização ocidental (mas só desta!) – com a preciosa ajuda dos jornalistas, esses aprendizes da informação que tanto têm contribuído para a generalização da confusão e da degradação -   um dos pontos fortes da autoflagelação decadente da moda é que o cristianismo é uma religião como qualquer outra.

E não é.

Dizia Chesterton que os cristãos não são nem melhores nem piores do que os outros. Só são piores na medida em que teriam a obrigação de serem melhores.

Chesterton tinha toda a razão.

No cristianismo, e só no cristianismo, se encontra a raiz que levou ao surgimento do conceito de humanidade, de uma irmandade humana, pela ideia de uma cristandade universal – o budismo, ao dirigir-se a todos os homens mas ao fazer da salvação individual a sua pedra de toque, nunca foi capaz de o gerar.


E, mais ainda do que no budismo, é no cristianismo, e só no cristianismo, que a violência é condenada. Porque o é mesmo que em favor de Deus, quando Pedro é repreendido por Cristo ao puxar da espada para defender o Mestre. Porque Deus só é Deus de alguém enquanto for resultante do seu livre reconhecimento enquanto tal.

É no cristianismo, e só no cristianismo, que o estádio de desenvolvimento humano a que chamamos infância é valorizado pela boca do próprio divino, conferindo assim dignidade à totalidade da existência humana, dois mil anos antes do nosso tempo.

É no cristianismo, e só no cristianismo, como também Chesterton põe em relevo, que da boca do Enviado de Deus, um mero carpinteiro, saem não impropérios, ameaças, condenações e afirmações de grandeza, mas coisas do mais elementar bom senso, como um “que atire a primeira pedra quem ainda não pecou”. E em que, acrescento eu, o corpo é declarado como o Templo dos templos a Deus.

Estou a ouvir quem leia o que acabei de escrever a ripostar-me de imediato: “Mas, ó meu caro, não tem sido a história do cristianismo a negação de tudo isso ou, pelo menos, a sua negação quase total, a negação da vida? As crianças, por exemplo, não foram elas tantas vezes utilizadas, mal tratadas ou mortas no meio do fanatismo da cristandade? Não foram os não-cristãos tantas vezes perseguidos e aniquilados?”.

Sim.

Mas há nisso tudo uma diferença essencial, crucial.

É que os princípios nos quais dizem firmar-se os que o fizeram, os condenam sem equívocos, tal como Chesterton faz notar.

A cristandade terá, tal como os muçulmanos e outros o têm feito recentemente e por diversas vezes, sacrificado crianças e jovens para fins políticos e ambições pessoais, apresentando-os como “mártires do Reino de Deus”. Mas, ao contrário dos restantes, que nisso são sancionados pelos seus textos sagrados, o Evangelho faz desses cristãos mentirosos e condena-os a um julgamento divino inexorável.

A cristandade poderá ter sofrido poderes discricionários e prepotentes em nome de uma Cidade de Deus governada por iluminados de todos os matizes. Mas é nos textos cristãos – no “quem não é contra nós é por nós” (astutamente invertido pelo ditador Salazar) e no episódio da Paixão de Cristo que referi – que estão as sementes e as raízes da argumentação de John Locke em prol de uma sociedade democrática. A democracia ocidental tem a sua origem no cristianismo, não na “democracia” grega, assassina de Sócrates, o único democrata de Atenas, como ele sabia e disse aos seus juízes, incomodando-os e irritando-os.

A cristandade poderá ter depreciado o corpo como Templo de Deus, como o laboratório da Vida, criada por Deus. Mas essa depreciação e mesmo a sua mortificação é fruto (como qualquer estudante de Filosofia ou de Cultura Clássica o sabe) da infiltração dos misticismos grego e oriental, que consideravam o corpo como o túmulo da alma, logo no cristianismo dos primeiros séculos (“soma”, corpo, e “sema”, túmulo, têm a mesma raiz). Porque a sua glorificação vem, no Evangelho, na boca do próprio Cristo.

De facto, os valores que – ateus, crentes ou nem por isso – dizemos contemporâneos e as características que atribuímos aos seres humanos da futura humanidade diferente, tudo isso se encontra no Evangelho. Porque o cristianismo é diferente de tudo o mais.

Este o sentido da frase de Chesterton, para quem ele é a única religião que celebra a Vida, na acepção mais fundante do termo.

Defender os valores cristãos é, portanto, como se vê, defender e incentivar a evolução da espécie humana na própria óptica dos ateus e dos indiferentes e não o oposto, como o venenosamente prepotente obscurantismo reinante na nossa era pretende. E isto leva-me a um último aspecto não menos importante, o qual, em profunda relação com os anteriormente apontados, se torna também não menos decisivo.

O cristianismo é, enquanto religião do corpo, uma religião do finito e, por consequência, do limite. O mundo, qualquer mundo, é “o lugar” e por lugar entende-se algo de-limitado, de-finido. Donde se infere, por tabela, dois planos distintos inter-relacionados – tal como a pele é, em simultâneo, o que, separando-nos, nos liga inevitavelmente a tudo o mais. O mundo é o plano do limite, é “o caso”, na deliciosa expressão de Wittgenstein, o que faz com que tudo o que nele acontece tenha, necessariamente, limites.

O Cristo que toca os corações das boas almas de todos os credos e continentes, que anda na boca dos cantores de rock, nos discursos e cerimónias do correcto humanismo do Ocidente de todos os quadrantes políticos e que eu próprio pus em destaque, até agora, nas suas implicações mais profundas, é o Cristo compassivo, manso, misericordioso. A sua firmeza é a firmeza da resistência, de certo modo passiva, à barbárie, firmeza que afirma o que a esta se opõe.


O Cristo de que não falei e que todos eles, por diferentes motivos, procuram ignorar o mais possível é o outro, o que expulsou os comerciantes do Templo, chamando-lhes ladrões, virando-lhes as mesas e mesmo chicoteando-os. Coisa estranha, já que aparentemente contraditório não apenas com o fundamental da sua atitude e mensagem mas também com o facto de ser uma característica da Antiguidade que todos os actos fundamentais da vida humana, do comércio ao acto sexual que consumava o casamento, tivessem lugar no templo, assim ligando o mundo profano ao mundo sagrado, com o Templo no lugar de “pele” do profano.

Ironicamente, é a esquerda, na sua superficialidade, a que menos vira a cara e mais se aproxima de um enquadramento lúcido ao que é narrado. Na época, essa relação entre o profano e o divino estaria – dizem-nos os documentos que nos dão conta do ambiente religioso entre os judeus da época, divididos entre o judaísmo tradicional e o judaísmo helenizado, o ascetismo orientalizado e outras tendências que incluíam elementos das diferentes religiosidades presentes na região, num crescente clima de relativismo – muito desvirtuada pelo pendor para o mero comércio a pretexto do religioso.


Se Pessoa, na Mensagem, diz que no Portugal em que vive, “ninguém sabe que coisa quer/ninguém sabe que alma tem/ nem o que é mal nem o que é bem”, isto é, que Portugal, não tendo limites, não existe por falta de limite, por inexistência de de-finição que o faça existir, pela separação que o torne dinâmico (e note-se que definir-se é o oposto de tornar-se rígido), que o torne significativo, sinal da presença de algo vivo, Cristo age no mesmo sentido.

Cristo age e, pela acção, marca o limite a partir do qual deixa de ser possível estabelecer a ligação e a interacção entre o homem, a sua acção e o seu destino, isto é, deixa de ser possível criar vida entre o sentido e o valor que a serve e a mede. Ao expulsar os mercadores do Templo, não está a condenar os exploradores do povo mas a travar o esvaziamento da existência humana para o nível da mera sobrevivência animal, mais aperfeiçoada e sofisticada, a afirmar um conjunto de valores vitais.


Porque não é possível transigir sem que isso implique o desaparecimento e a morte de quem transige. E se são os vendilhões quem representa e concretiza tal degradação e perigo, cristianismo significa não unicamente resistência activa, mas acção clara de repúdio.

Este é um Cristo que estraga os “arranjinhos” sempre possíveis de serem feitos com o lado que fica melhor na “fotografia”, publicada pela comunicação social com a conveniente regularidade. É um Cristo inconveniente, incómodo, não contextualizável na hipocrisia funda que vivemos. É um Cristo que não serve ao farisaísmo humanista, porque é um Cristo afirmativo.


E se há algo que faz guinchar os vampiros da cultura ocidental da nossa praça, que vivem do esgotamento da sua vitalidade, mistificando-o sem escrúpulos para servir os seus fins, é uma afirmação de cristianismo.

Concordo com Montesquieu quando aconselha a que não se pretenda dizer tudo no que se escreve, para que também o leitor possa completar assumir o texto e as suas conclusões, pela compreensão e pelos raciocínios que com ele aproveitou para fazer. Limitar-me-ei, portanto, por esse motivo e por escassez de tempo, a sugerir a quem teve a paciência de me acompanhar até aqui, que imagine o que eu poderia dizer quanto ao que provavelmente seria, a meu ver, a acção de Cristo no caso do juiz que sobrepôs a sharia à lei americana, referido no post d’O Lidador.

Peço desculpa pelas gralhas que possa haver no texto, inclusive as de ligação, mas já não tive tempo para o rever.

sexta-feira, 10 de maio de 2013

Lá saiu furado mais um radioso socialismo ...

... e muito mais gente sairá literalmente furada.

[Post em estilo moca de Rio Maior]:

Quantos dirigentes luso-esquerdalhos se vão agora demitir?

Do socialismo-bem, o moderno, socretino, muito bem afinadinho, magalhónico, resplandecente, cantante e cantarolante.

Procuram-se coiros para exportação de gulags-vilas-morenas. Paga-se em géneros, tipo género cachaporrada:
Em sua primeira visita ao Brasil turno presidente da Venezuela, Nicolás Maduro pediu ajuda à presidente Dilma Rousseff para abastecer seu país. Com a grave escassez que ameaça a estabilidade do governo venezuelano, Maduro pediu vendas emergenciais de alimentos ao Brasil e ajuda para desenvolver a agricultura no país, além de apoio para enfrentar a crise no setor elétrico que tem provocado constantes apagões.

É TUDO VERDADE




Eis a síntese do resultado de uma ampla pesquisa sobre a população muçulmana mundial:

"Um em cada quatro habitantes do planeta é muçulmano, mas em 40 anos será um em cada três. Diante da evolução demográfica, para nós seria mais útil que o islã e a democracia fossem se encaixando, mesmo que lentamente, porque, caso contrário, como não param de prever as cassandras do choque de civilizações, as coisas ficarão feias quando chegarmos ao zênite do século 21. Os sinais para preocupação não surgem de meras intenções. O prestigioso Centro Pew terminou na semana passada um amplo estudo sobre os muçulmanos no mundo, com entrevistas individuais a uma amostra de 38 mil pessoas em 39 países [...]. Do trabalho surge o retrato falado do devoto muçulmano do século 21, que combina um amplo apoio à democracia com sua adesão à xariá (ou lei islâmica), incluindo castigos corporais; sua adesão à modernidade tecnológica e inclusive à cultura ocidental com o rigor moral e a submissão da mulher. Os dados sobre paquistaneses são especialmente relevantes, pois ali aparecem os crentes mais devotos e dogmáticos. Para 81% deles, a xariá é a palavra revelada de Deus -- o número mais elevado dos 39 países consultados --, e para 84% deve ser a lei oficial do país. [...] Também são os mais fervorosos partidários da aplicação de castigos físicos como a flagelação ou a amputação, com 88%, seguidos pelos afegãos (81%) e palestinos (76%). O mesmo ocorre com o apedrejamento por adultério, que 89% aprovam. E são um pouco mais moderados na hora de aplicar a pena de morte aos que repudiam o islã: 76% a favor, 10 pontos a menos que no Egito."
(
http://noticias.uol.com.br/midiaglobal/elpais/2013/05/10/o-muculmano-do-seculo-21-e-democrata-e-moderno-mas-quer-mulher-submissa.htm)

Resumo da ópera: a barbárie da shariá é proporcional à sua popularidade. A primeira parte da equação era sabida e ressabida, mas a segunda ganha aqui uma inquestionável robustez estatística. Os que acusam aqueles que criticam o islã de "islamofóbicos" o fazem por ignorância ou má-fé.

Na verdade, nada disso surpreende. Por isso a passagem mais curiosa do reproduzido acima é, com certeza, esta: "Do trabalho surge o retrato falado do devoto muçulmano do século 21, que combina um amplo apoio à democracia com sua adesão à xariá (ou lei islâmica), incluindo castigos corporais; sua adesão à modernidade tecnológica e inclusive à cultura ocidental com o rigor moral e a submissão da mulher". "Combinar" democracia com adesão à barbárie da shariá é como "combinar" água com óleo. O resultado é que a água não pode ser bebida nem o óleo utilizado. Portanto, na verdade, o típico "devoto muçulmano do século 21" sequer tem ideia do que seja a democracia. O mesmo vale para o par absurdo "adesão à cultura ocidental com submissão da mulher". Como a cultura ocidental moderna rejeita radicalissimamente a submissão feminina (na verdade, nem se trata mais de rejeitar, pois a submissão feminina é simplesmente incompatível com a moderna sociedade aberta), mais uma vez, o típico "devoto muçulmano do século 21" sequer tem uma pálida ideia do que essa cultura significa. Tudo somado, como esse "devoto muçulmano do século 21" imagina que uma democracia possa funcionar com metade da população submetida à outra, além de estar sempre ameaçada  pela "justiça" islâmica, da qual é o alvo preferencial?!
O fosso cultural é ainda mais largo, profundo e escuro do que os pessimistas costumam pensar.

PARA UM FIM DE SEMANA SALUBRE...



(imagem obtida aqui)

     …nada melhor que um poema (intemporal, hélas!) dos que nos abrem a alma à delícia de sabermos e podermos ler (ainda) sem sermos obrigados a mote (pseudo-prafrentex).

   Agora que, em certos sectores, de forma mui discreta (ou seja, descarada) se tenta solapar – a pretexto de um novo PREC que mais não visa que colocar em epígrafe gente tão nefasta como alguma que ora nos rapa a paciência e os tostões – quem mostre veleidades de pensar pela própria cabeça e não embarque em demagogias que só procuram que saltemos da frigideira para cairmos no lume, vozes e escritos de gente livre fazem cada vez mais sentido.
   Desta feita é António Luís Moita (há meses falecido mas que, para nosso gosto, continua muito presente e cujos poemas, desde os de recorte lírico e alquímico aos mais interventivos estão perfeitamente potáveis) que nos fará companhia por uns minutos… ou talvez mais que isso.

(imagem obtida aqui)

                                                
MONÓLOGO DO ELEITOR

Acabaram-se as Direitas?
Dissiparam-se no Centro?
Serão as Direitas feitas
de esquerdino movimento?

Sendo as Esquerdas sujeitas
ao mesmo vaivém do vento,
vão, com as nuvens, direitas
à parte esquerda do Centro?

E o Centro? O que é o Centro?
Em que centro se situa?
No centro do Centro-Centro
de um satélite da lua?

É um Centro direitista
para a Esquerda cor-de-rosa?
Ou a tendência sinistra
da dextra silenciosa?

Que Centro é esse? Um sinal
de não comprometimento?
Ou, ao contrário, um invento:
manobra do Capital?

Será o Centro a Direita?
Fascismo com meiga fala?
Medo? Angústia? Um olho à espreita
com raiva de não ser bala?

E a Esquerda? O que é a Esquerda?
Para a Direita, agonia?
Para o Centro, mesmo Esquerda?
Para a Esquerda mais esquerda
retrocesso à burguesia?

E a esquerda Extrema-Esquerda
- a que tudo desagrega –
o que será quando vemos
que a Direita se lhe pega?

Será mesmo Extrema-Esquerda
a pedir terra queimada?
Ou um braço que a Direita
manipula encapuçada?

Será cravo de pureza
ou goivo de gula grada?
Lirismo? Farsa? Utopia?
Concreta antropofagia,
fim do dia ou alvorada?

Ou nem sequer há Direitas
nem Esquerdas, nem mesmo Centro,
sendo isto ideias estreitas
em que aprendiz me concentro?

Serei eu, nascido outrora
quando só Direita havia,
que ga-ga-gaguejo a História
da De-de-democracia?


(imagem obtida aqui)

                                                           ALM
                                                           in “Poemas Temporais”
(Este poema foi-me enviado pelo A. para ser dito numa das emissões do programa “Mapa de Viagens” que eu então realizava numa das rádios portalegrenses).

quinta-feira, 9 de maio de 2013

Provedor de Justiça demonstra extrema incompetência

O provedor de Justiça, Alfredo José de Sousa, deveria demitir-se de imediato por manifesta incompetência em perceber a sua função.

O Provedor de Justiça existe para defender as pessoas das arbitrariedades do estado. O país está a sofrer horrores em resultado do enorme elefante branco que o estado se tornou. A economia não aguenta o estado que tem porque este gasta tanto que arrasa qualquer hipótese da economia de desenvolver.

O iluminado Provedor de Justiça, incapaz de compreender qual sua relação com a função e com o país que, de rastos, o sustenta, deve apresentar, de imediato, a sua demissão.

PALESTINA: HISTÓRIA E GEOPOLÍTICA DE UM NOME



1

Não há tema geopolítico contemporâneo mais complexo do que o conflito do Oriente Médio. Além da complexidade, o interesse político contribui para fazer de boa parte dos textos a respeito mera propaganda travestida de análise. Se isto vale para os argumentos pró-israelenses, não vale menos para os pró-palestinos.

Ao mesmo tempo, tornou-se senso comum a ideia de que o “excesso de história” não ajuda a compreensão do conflito. Creio, porém, que o excesso de propaganda sem respeito à história tampouco ajude. Retorno, então, a ela, tendo por guia a história de um nome.

Os povos que passaram pela região, ou nela viveram, são conhecidos: cananeus, judeus, filisteus, egípcios, babilônios, fenícios, gregos, romanos, bizantinos, árabes, turcos, ingleses. Um “povo palestino” não faz parte da história. Mas se não faz, por que o conflito é hoje chamado de “israelense-palestino”?


2

A explicação está no fato de que palestino é, na verdade, uma variação/derivação do nome de um daqueles povos antigos, os filisteus. O nome que os árabes da região hoje adotam (na forma filastin) tem, por ironia, uma origem hebraica: peleshet – que, em outra ironia, significa invasor e divisor.

O termo foi usado originalmente pelos antigos israelitas para se referir a um invasor que se estabeleceu, em torno de 1200 a. C., na região da faixa de Gaza. Tratava-se dos conhecidos “povos do mar”, de origem grega, cuja expansão, a partir de um epicentro no mar Egeu, foi registrada por inúmeros documentos da época, incluindo egípcios e fenícios.

O pouco que se pode afirmar com certeza sobre os “povos do mar”, incluindo os pelesht que se estabeleceram em Gaza, em função de palavras de sua língua incorporadas ao hebraico e de achados arqueológicos, é que, ao contrário dos demais povos do Mediterrâneo oriental, como fenícios, cananeus e judeus, eles não eram semitas, mas indo-europeus (como micênicos e gregos).

Quando da ocupação da região por Nabucodonosor, em 587 a. C., além do exílio dos israelitas e da famosa destruição de Jerusalém, as principais cidades flilisteias, Ashdod, Ashkelon, Ekrom, Gate e Gaza, também foram destruídas. O Império Babilônio seria em seguida tomado pelo rei persa Ciro, o Grande, em 539 a. C. Ciro, então, permitiu o retorno dos judeus a Israel, pondo fim ao chamado "Cativeiro Babilônio", enquanto a região da faixa de Gaza foi reocupada pelos fenícios. Os filisteus (e todos os demais “povos do mar”) desapareceram da história.

Porém a evolução de seu nome continuou através de referências gregas posteriores, que registram a forma Palaeistina (transliteração do hebraico Philistia). Do grego Palaeistina originou-se, por fim, o latim Palaestina.

3


A adoção do termo latino para se referir aos territórios dos antigos reinos de Israel e Judá se daria em torno do ano de 135 d. C., com o fim do longo período das “guerras judaicas” contra a ocupação romana, iniciadas em 66 d. C. Esmagada a revolta, com a destruição do segundo templo de Jerusalém e a expulsão dos judeus (início da Diáspora), Roma cria uma nova província, batizada de Palaestina, segundo muitos historiadores, a fim de dissociar a região das reivindicações judaicas. A Palestina original, que passaria à história moderna como Palestina Romana, é, portanto, o próprio reino de Israel. Com o fim do Império Romano, também se extinguem suas províncias, incluindo a de Israel-Palestina.

O território seria, ao longo dos séculos seguintes, subdividido entre províncias bizantinas, árabes e otomanas, sem readquirir o nome ou a definição geopolítica que tivera no tempo da Palestina Romana (com exceção de um curto período de reunificação pelos cruzados, no século 13). No período do Califado, por exemplo, em seguida à invasão árabe no século 7, o território seria divido em dois jund, ou distritos, o do norte e o do sul.

O mapa abaixo mostra a região conforme sua realidade geopolítica no fim do Império Otomano:


                                              

                                                                     [1]


As províncias turcas, ou vilayet, dividiam-se em unidades menores, os sanjaks. A maior parte do que fora o antigo reino de Israel e depois a Palestina Romana integrava, agora, a província ou Vilayet de Beirute, que englobava o atual Líbano e o norte de Israel e da Cisjordânia, e estava dividida em Sanjak de Beirute, Sanjak de Acre e Sanjak de Nablus. Ao sul, um sanjak foi separado da província: o Sanjak Autônomo de Jerusalém, englobando o sul de Israel e da Cisjordânia, Gaza e o nordeste do Sinai.

Tanto o traçado geopolítico quanto o nome Palestina seriam retomados somente em 1922, depois de quase dois mil anos de seu uso romano original. E somente pelos 25 anos que duraria a Palestina Britânica – cujo nome foi inspirado na antiga província romana –, até ela ser extinta pela ONU em 1947. Antes de 1922 e depois de 1947, portanto, não existiu Palestina alguma.

4


Em fins do século 19, os sionistas começaram a emigrar, então, não para a Palestina (é absurda a afirmação de que se possa estabelecer em terras de um Estado inexistente), sequer para qualquer território árabe, mas para o Império Turco-Otomano e suas províncias.

O projeto sionista era o de constituir uma nação judaica numa região do multiétnico Império, região que, apesar de habitada majoritariamente por árabes, nem era exclusivamente árabe (mas também turca, curda, persa, armênia) nem se constituía num Estado árabe. E que, entre seus habitantes, sempre contara com uma significativa população judaica, por ser o antigo território de Israel-Palestina.

Cabe observar que, no fim do século 19, não era possível prever o desaparecimento do Império Otomano. Mas ele aconteceu, em 1920, com seus antigos territórios e províncias sendo então refundidos, alguns, em novas províncias europeias (como a Palestina Britânica), outros, em novos Estados árabes, no contexto do fim da Primeira Guerra Mundial, em que o Império Otomano, que se aliara à Alemanha, foi derrotado e desfeito.

Quando, em 1947, um Estado árabe tornou-se possível na Palestina Britânica por determinação da ONU, os árabes o recusaram. Os árabes, não os “palestinos”. Na própria resolução que estabeleceu a partilha da Palestina Britânica não há qualquer referência a “palestinos”; os únicos nomes usados são “judeus” e “árabes”: “Os [futuros] Estados independentes judeu e árabe...” (Resolução 181, I, 3).
[2] Nem poderia ser diferente, pois todos os habitantes do território da Palestina Britânica, árabes, judeus e ainda armênios, turcos, etc., eram então igualmente chamados de palestinos, como se pode comprovar nos documentos da época (o nome original do jornal hebraico Jerusalem Post, por exemplo, era Palestine Post).

5

A relevância da questão do nome reside no fato de ele não ser árabe em qualquer aspecto: etimológico, histórico, cultural ou geopolítico. Mas se o termo palestino não tem originalmente qualquer relação com os árabes, por que, hoje, designa a mais célebre causa nacional árabe?

Em meados do século 20, sob a liderança do Mufti de Jerusalém, os árabes locais não reconheciam nem a definição britânica do território nem o nome Palestina, de utilização colonial. Defendiam, então, o pan-arabismo, segundo o qual os árabes constituem um único povo, dividido primeiro pela fragmentação política do antigo Califado de Maomé, depois pelas províncias otomanas, em seguida pelas províncias britânicas e francesas. Seu objetivo era, portanto, a criação de uma unidade geopolítica que englobaria, de início, os atuais territórios do Líbano, da Síria, da Jordânia e de Israel – daí recusarem a partilha determinada pela ONU.

Seria apenas com a derrota histórica do pan-arabismo, face à consolidação das ex-províncias inglesas e francesas em novos Estados-nação, que os árabes da ex-Palestina Britânica viram-se, pouco a pouco, forçados a caminhar para uma solução individual, ou seja, um projeto nacional próprio.

Uma vez afinal criado, nos anos 1960, um movimento nacionalista dos árabes da Palestina (a OLP seria fundada em 1964), ele manteria, porém, como referência geopolítica a antiga colônia britânica de 1922, e não o traçado legalmente determinado pela ONU em 1947. A recusa árabe da partilha se torna, então, o conflito israelense-palestino, pois os árabes da antiga Palestina Britânica, junto à antiga referência territorial, adotam, afinal, também o antigo nome colonial (os refugiados palestinos não eram, ainda nos anos 1950, referidos como refugiados palestinos, mas como refugiados da Palestina).

6

Nos distúrbios do fim do império inglês, incluindo, entre outros, a partilha da Índia entre Índia, Paquistão e Bangladesh em 1947, e também a guerra árabe-israelense de 1948, o destino dos árabes da Palestina dividiu-se, grosso modo, em cinco. Uma parte foi para a ex-província francesa do Líbano, onde não seriam reconhecidos como cidadãos; uma parte foi para a Transjordânia, atual Jordânia, ex-colônia britânica, onde foram reconhecidos como cidadãos (constituindo, hoje, a maioria da população); outra parte ficou em Israel, onde igualmente adquiriu cidadania; outra parte se dispersou pelo mundo; outra, enfim, permaneceu em partes dos territórios da antiga Palestina Britânica destinadas pela ONU para constituir um “Estado árabe”, ou seja: Gaza e Cisjordânia.

Entre 1948 e 1967 não havia, em tais territórios, nenhum soldado israelense. Eles estavam, na verdade, sob domínio árabe: respectivamente, do Egito e da Jordânia. Não obstante, os árabes de Gaza e da Cisjordânia não exigiram do Egito nem da Jordânia que lhes entregassem tais territórios para constituírem ali seu Estado. Porque seu objetivo político não era construir um Estado nesses territórios – daí jamais o terem feito entre 1948 e 1967 –, mas destruir o Estado de Israel, visando reconstituir a antiga Palestina Britânica na forma de uma Palestina Árabe.

Em 1964, sob auspícios de Nasser, seria criada no Cairo a Organização para a Libertação da Palestina, ou OLP. Não para a libertação dos territórios de Gaza e da Cisjordânia da ocupação israelense, naturalmente, pelo simples motivo de que tais territórios não estavam sob ocupação israelense em 1964. Mas, então, para a “libertação” do restante da ex-Palestina Britânica: Israel. O verdadeiro nome da organização deveria ser, portanto, Organização para a Destruição de Israel, ou ODI.

Ironicamente, seria o Estado de Israel que daria afinal legitimidade à OLP e ao próprio movimento palestino, originalmente ilegítimo, ao demandar não a construção de um Estado, mas a destruição de outro. Pois ao ocupar, em 1967, Gaza e a Cisjordânia, Israel forçou a substituição do objetivo original de destruí-lo pelo de libertar a Cisjordânia e Gaza. Havia, enfim, uma causa palestina legítima.

7


O objetivo original do movimento palestino, porém, não foi esquecido. Não somente porque foi seu único objetivo político por 20 anos (entre 1948 e 1967), ou seja, por toda uma geração, mas também porque o novo objetivo não foi escolhido pelos palestinos, e sim imposto por Israel. É por isso que, na verdade, a partir de 1967, jamais houve uma causa palestina, mas duas: construir o Estado palestino em Gaza e Cisjordânia e destruir o Estado de Israel. O que pressupõe o massacre da população israelense, em cujo quadro ideológico se explica a opção histórica por atentados contra civis, em vez de soldados. Explica-se grandemente, também, o próprio fracasso histórico da “causa” palestina.

Não é por acaso que a “causa” palestina seja a única, de todas as grandes causas nacionais da segunda metade do século 20 (excluindo somente a curda), a ter fracassado. Argelinos, sul-africanos e africanos em geral, indianos e timorenses, chineses e vietnamitas, todos venceram. O caso vietnamita é exemplar: lutaram contra as mais poderosas forças armadas da história. Não é, portanto, nenhum poderio militar israelense que explica a derrota histórica palestina. Os vietnamitas, na verdade, jamais venceram as forças armadas americanas. Os EUA foram derrotados por sua própria opinião pública, que passou a considerar injusta a intervenção militar no país asiático, forçando a retirada. Se isso jamais aconteceu em Israel, não é porque a população israelense seja pérfida, como acreditam os anti-israelenses e os antissemitas. Nem porque os grupos políticos israelenses que querem manter a ocupação sejam irresistíveis, como não foram irresistíveis os grupos americanos que queriam continuar a guerra do Vietnã. O motivo é que, ao contrário da causa vietnamita, que não incluía a destruição dos EUA, a “causa” palestina, desde 1967, sempre hesitou, oscilou e se dividiu entre duas causas, entre dois objetivos, um legítimo e um ilegítimo: o que não ajuda a clareza do discurso e dos objetivos, a concentração e a objetividade das forças políticas nem a solidariedade internacional. A recente eleição do Hamas em Gaza não foi um acidente histórico. Ela é a expressão política de uma dessas causas.

8

O projeto sionista, nascido no século 19, não tinha um mapa definido (mas vários). Esse mapa afinal emergiu em 1922, e foi traçado, não pelos sionistas, mas pelo Império Britânico: a Palestina Britânica, criada pela fusão de antigas províncias otomanas. Assim, quando em 1947 a ONU a dividiu, destinando uma parte a Israel e outra a um Estado árabe, dividiu igualmente o movimento sionista. A parte dominante do movimento, liderada por Ben Gurion, foi a que aceitou a partilha, fundando o Estado de Israel (a outra parte, naturalmente, era a dos que sonhavam em incorporar Gaza e a Cisjordânia, e que ganhariam um novo impulso com as ocupações de 1967). No lado árabe, ao contrário, a parte amplamente dominante de seu espectro político, liderada pelo Mufti de Jerusalém, foi a que recusou a partilha, criando o objetivo geopolítico original de destruir o Estado de Israel.

Além da ironia de Israel afinal dar legitimidade à OLP e ao próprio movimento palestino em 1967, outra grande ironia é o fato de que a causa palestina original, reconstituir a antiga Palestina Britânica numa Grande Palestina, de certa forma legitimaria aqueles grupos políticos israelenses que, desde a aceitação da partilha por Ben Gurion, sempre quiseram a mesma coisa. A diferença é o meio: os palestinos, para consegui-lo, devem destruir Israel, enquanto esses grupos israelenses apenas precisam impedir que se construa o Estado palestino. Para isso, contam com o apoio involuntário dos próprios grupos palestinos que ainda querem destruir Israel e, deste modo, atrapalham as forças políticas palestinas que afinal escolheram construir um Estado palestino – além de impedir que a população israelense possa vir a apoiar maciçamente sua criação.

quarta-feira, 8 de maio de 2013

STEPHEN HAWKING E OS LIMITES DA INTELIGÊNCIA


 
Considerado um dos maiores físicos da atualidade, o britânico Stephen Hawking acaba de aderir à infame campanha internacional de boicote acadêmico contra as instituições acadêmicas israelenses. Além de infame, a coisa é tão absurda que precisa ser explicada: trata-se de acadêmicos individuais e, em alguns poucos casos, de instituições acadêmicas que boicotam, não o governo ou o Estado de Israel, mas seus pares acadêmicos israelenses.

 A decisão de Hawking marca uma importante vitória na campanha internacional para boicote, desinvestimento e sanções contra instituições acadêmicas israelenses. Outras adesões importantes ocorreram em abril, com o sindicato dos Professores na Irlanda e a Associação de Estudos Americanos e Asiáticos, nos EUA (“Stephen Hawking adere ao boicote acadêmico a Israel”,
http://operamundi.uol.com.br/conteudo/noticias/28774/stephen+hawking+adere+ao+boicote+academico+a+israel.shtml)
 
Não creio que o Sindicato dos Professores irlandeses seja uma “importante adesão”, e duvido que a Associação de Estudos Americanos e Asiáticos norte-americana seja um de seus centros de excelência, dominada que deve estar por multiculturalistas em particular e antiocidentalistas em geral, ou seja, por antimodernistas e obscurantistas de todos os tipos e matizes. O certo é que tal campanha é parte de uma campanha maior, de deslegitimização de Israel, a fim de impor ao país a condição de pária entre as nações, o que por sua vez abriria caminho para ações mais drásticas, incluindo boicote econômico e político-institucional, tendo por alvo final o enfraquecimento do país a fim de abrir as portas da possibilidade de sua extinção, seja política ou militar, o que jamais saiu da agenda tanto dos grupos políticos palestinos quanto dos islamitas quanto dos esquerdistas em geral. O fim de Israel seria uma espécie de vingança histórica contra o fim da URSS para uns, e uma desforra para a mediocridade geral em que o mundo muçulmano patina há séculos para outros. Além disso, faria a alegria desmesurada de todos os antissemitas do planeta.

Não é de surpreender que isso esteja vingando na academia ocidental, pois há muito grande parte dela se tornou reduto de irracionalistas, anticientificistas (nas ciências humanas) e toda uma extensa fauna que não tem mais vergonha de expor sua face, seja de antimodernistas ou de simpatizantes do islamofascismo.

Durante anos, fomos ficando escandalizados e angustiados com a tendência intelectual de certos círculos da academia americana. Vastos setores das ciências sociais e das humanidades parecem ter adotado uma filosofia que chamaremos, à falta de melhor termo, de "pós-modernismo": uma corrente intelectual caracterizada pela rejeição mais ou menos explícita da tradição racionalista do Iluminismo, por discursos teóricos desconectados de qualquer teste empírico, e por um relativismo cognitivo e cultural que encara a ciência como nada mais que uma "narração", um "mito" ou uma construção social entre muitas outras (Alan Sokal e Jean Bricmont, Imposturas intelectuais, Rio de Janeiro, Record, 1999, p. 15)
 
Mais adiante, questionam os dois autores, ambos também físicos renomados:

O que virá após o pós-modernismo? Uma vez que a principal lição a ser aprendida do passado é que prever o futuro é arriscado, podemos apenas listar os nossos temores e as nossas esperanças. Uma possibilidade é uma reação que conduza a alguma forma de dogmatismo, misticismo (por exemplo, Nova Era) ou fundamentalismo religioso. Isto poderia parecer pouco provável, pelo menos em círculos acadêmicos, mas a perda da razão foi suficientemente radical para pavimentar o caminho para um irracionalismo mais extremado (p. 228) [grifo nosso]

Tais afirmações são dos anos 1990. Hoje, esse “irracionalismo extremado” que vem insidiosamente tomando conta, há décadas, de boa parte das ciências humanas ocidentais (que de ciência mantêm apenas o nome, presa que são da ideologia e do referido irracionalismo), além de ter se tornado coisa “natural”, pois corriqueira, começa a extrapolar para as ciências naturais, como o demonstra o caso de Stephen Hawking.

A ciência é e sempre foi universalista. O boicote às instituições acadêmicas de um país inteiro, condenando-as a priori, assim como seus membros, além de um ato da mais grave e infame injustiça, é um ataque brutal não só à liberdade de pensamento como à própria ciência, aqui jogada na lata de lixo dos preconceitos ideológicos pelos próprios acadêmicos ocidentais. Trata-se, enfim, de um gesto fascista e de caráter totalitário, que faria inveja ao camarada Mao da “Revolução Cultural” e ao camarada Pol Pot da perseguição sistemática à intelectualidade cambojana. Que esse tipo de fascismo acadêmico seja capaz de seduzir um homem da grandeza intelectual de Stephen Hawking não espanta quem conhece a história, pois homens como Werner Heisenberg, um dos criadores da física quântica, aderiram alegremente ao nazismo. Ainda assim, é assustador o poder duradouro de convencimento do obscurantismo.

Do alfinete e dos encalacrados

A Comissão Europeia resolveu anunciar que pretende integrar e uniformizar o sistema de energia da "europa".

A "europa" caracteriza-se hoje pela bizarra bitola em que ninguém pode ter qualquer espécie de vantagem endógena relativamente aos restantes membros. Se o país A é bom produtor de trigo, há que o regulamentar para que a sua vantagem desapareça face ao país B, onde o trigo não cresce tão bem. Se o país B tem uma qualquer vantagem do ponto de vista dos recursos energéticos há que lha retirar para garantir igualdade de patamar em relação a um outro país A.

O resultado é que todos se vêm encalacrados no voluntarismo de aproveitar decentemente as vantagens próprias, e o que se torna prevalecente são as desvantagens comuns. O resto do mundo, em particular o oriental, ri-se a bom rir com a pacovice dos iluminados do 'comum' e, pouco a pouco, a "europa" vai-se tornando uma coisa esquisita, inviável, cheia de gente com a mania que o resto do mundo lhe deve loas.

Nigel Farage é um dos pouquíssimos deputados que tem o discernimento que se esperaria da generalidade. Este discurso é de referência.



Buraco Obama: Pilha de 2m de regulamentação contendo 140.000 codigos

Apenas os gambozinos ficaram de fora.


Os 13 mil códigos vão ser substituídos por ... 140 mil códigos que os médicos têm que seleccionar.

Exemplo: Não confundir atacado por um pato com mordido por um pato. E se for um desmaio provocado por uma grasnadela de pato? E se for uma cagadela de pato? E se o pato não morder mas aplicar uma unhada?

Há 5 códigos para diferentes tipos de incidente com perus.

Viva a infinita regulamentação socialista.

terça-feira, 7 de maio de 2013

O fim do mundo em 'sim', 'não' ou 'talvez'

Quando por volta do ano 2000 os marxistas alarmistas do aquecimento global perceberam que a teoria estava furada, tentaram metamorfosear o "fenómeno" em "alterações climáticas" (posteriormente em rupturas climáticas e outros também alternativos disparates).

 Anteriormente, todos os "voluntaristas" estudos apontavam para aquecimento, mas posteriormente as coisas começaram a complicar-se sem que, aparentemente, tal tivesse sido antecipado. De facto, "alterações climáticas" nada quer dizer e o resultado foi o aparecimento de estudos contraditórios, todos devidamente propagandeados apontando o mesmo armagedão: o fim do mundo em "alterações". Chegou ao pondo de se anunciar que a maior e mais garantida prevista alteração climática seria a ...excessiva estabilidade.

Foi recentemente revelado mais um desses casos.


segunda-feira, 6 de maio de 2013

O ATAQUE DE ISRAEL E A SOBREVIVÊNCIA DA TRAGÉDIA SÍRIA

 
 
Os ataques de Israel neste domingo a instalações militares sírias do regime genocida de Bashar Assad não terão outros efeitos imediatos além dos pretendidos por Israel, defender-se da transferência de armas, possivelmente de destruição em massa, como as químicas, para o grupo terrorista libanês Hezbolah, xiita como o regime etnocrático de Assad (isto é, como os alauítas, grupo que domina o estado sírio). O Hezbolah tem participado ativamente da guerra civil síria, enviando combatentes e armas através das porosas fronteiras entre Síria e Líbano. A entrega de armas ao grupo libanês pelo regime de Assad cumpriria ao menos três funções: proteger esses estoques, pagar o grupo por seu apoio e estender a luta pela manutenção no poder dos xiitas sírios, que têm no Hezbolah libanês uma reserva estratégica (além do não desprezível "efeito colateral" de aumentar gravemente a ameaça a Israel). Por outro lado, no plano internacional, os ataques escancaram o óbvio: o regime é mais vulnerável do que se pretende, suas “famosas” defesas antiaéreas não são o que se propagandeia, e ele não resistiria a uma ação maciça de bombardeio aéreo que visasse ao mesmo tempo suas instalações militares e políticas, como as sedes do Partido Baath e dos serviços de segurança, além dos palácios de Assad. Israel agiu porque não pode se omitir: o aumento do poder bélico do Hezbolah é uma ameaça direta à sua segurança. Já as potências ocidentais não agem porque, sem controle do terreno, o que implicaria na invasão terrestre, o que nenhum governo ocidental tem hoje condições políticas de bancar, o fim repentino do regime não poria um fim à guerra civil, mas provavelmente a intensificaria, com os diversos grupos étnicos e religiosos lutando desesperadamente para tomar o poder, com o respectivo apoio de poderes regionais, como Irã, Arábia Saudita e Turquia, sem falar no próprio Hezbolah. O presente do povo sírio é trágico, seu futuro, um prolongamento sangrento desse presente. De certa forma, trata-se da cruel e cruenta guerra civil da Bósnia em escala ampliada. Na Bósnia foi possível chegar a um modus vivendi, depois de muita protelação e muita carnificina, porque se tratava da Europa, e porque houve intervenção da OTAN e dos EUA. Mas na grande Bósnia que é a Síria, a escala, a região, o poder de fogo dos envolvidos e a presença de grupos jihadistas cada vez mais fortes condenam o povo sírio a sangrar até que a oposição demonstre ter força para tomar o poder assim que Assad cair, além de estar controlada por grupos seculares politicamente razoáveis e confiáveis. Como isto está longe de acontecer, longe está o dia de o povo sírio reencontrar a paz.

P.S. Novas informações acrescentam que, além de armas químicas, os recentes ataques também visaram carregamentos de mísseis Fateh 110, de fabricação iraniana, que estariam na Síria de passagem, para ser entregues ao Hezbolah. Tais mísseis, precisos e com alcance de 300 km, poriam Israel inteiro sob a mira do Hezbolah, e deveriam servir de dissuasão ou retaliação em caso de um ataque israelense às instalações nucleares iranianas. Neste caso, trata-se de um lance do explosivo xadrez israelense-iraniano jogado no sangrento tabuleiro sírio.

Ilegítimo?

O PCP considera ilegítimo o Governo que os portugueses escolheram há menos de dois anos em eleições democráticas, limpas e válidas. É este o partido que anda constantemente com as palavras democracia e constituição na boca.

sexta-feira, 3 de maio de 2013

No Brasil, a sovietização das forças armadas?

No Brasil, a sovietização das forças armadas. O assalto final das forças revolucionárias do PT contra a nação.

Um novo avanço do Brasil rumo ao totalitarismo onde a Venezuela definitivamente chegou.