terça-feira, 19 de março de 2013

SÍRIA: IMPASSE À BEIRA DO ABISMO



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No contexto do nacionalismo árabe e do pan-arabismo dos anos 1960, os alauítas, ramo do xiismo francamente minoritário na população síria (10%), saiu de uma posição histórica de subserviência, na qual vegetara durantes séculos de domínio turco-otomano (sunita), em busca da igualdade política e social sob um Estado moderno que definiria todos os sírios, fundamentalmente, como sírios. Na prática, à sombra do partido Baath sob a liderança do grupo de Hafez al Assad, os alauítas tomaram o poder no novo Estado, dominando desde então o poder executivo, além do exército, da polícia, da justiça e da economia, na figura do próprio ditador e depois de seu filho, Bashar Assad. A inversão histórica foi completa: ex-excluídos, os alauítas eram agora os novos senhores e excluíram do poder a maioria sunita.
Isso deu ao regime sírio uma feição particular, difícil de compreender sob a ótica clássica do Estado-nação ocidental. Neste, mesmo em situações extremas, como a de uma ditadura, a repressão é feita segundo linhas ideológico-políticas. Ou seja, trata-se ainda de disputa política, apesar dos métodos não-civis nem civilizados, e de alvos individuais, aqueles comprometidos com a oposição política. No caso sírio, a lógica não é política, pois se trata de uma “pólis”, de uma nação, fraturada dentro de um Estado uno. O regime de Assad é uma etnocracia, em que um grupo, tribo ou confissão governa sobre outro. O que se passa, então, é mais semelhante à situação de ocupação de um Estado por outro.
Em 1975, a Indonésia invadiu o Timor Leste para anexá-lo. O governo militar indonésio e as forças armadas indonésias não estavam ali, portanto, para oferecer à população os serviços fundamentais do Estado, como segurança e justiça. Ao contrário, sua presença invertia a lógica do Estado, tornando-o um inimigo da população local, que dele tinha de se proteger, ou seja, a ele se opor e se recusar. O caso sírio é semelhante. O Estado, sequestrado pela minoria alauíta, é um Estado alauíta governando uma nação sunita (80% da população síria). A luta da população não é, portanto, contra um líder ou mesmo contra seu regime, como nos demais casos da “primavera árabe”. A luta é contra o Estado sírio, ou seja, o Estado alauíta.
Isso explica algumas coisas de outro modo incompreensíveis. Por exemplo, o genocídio como método de repressão. A palavra, criada após a Segunda Guerra Mundial para dar conta do assassinato de um povo (gene), seria depois mal utilizada tanto por excesso e facilitação quanto por timidez e negação, a depender do caso. Mas isso não condena seu uso a priori. Se o conjunto da população de uma cidade pode, com pertinência, ser dito o povo daquela cidade, então o extermínio deliberado de uma cidade pode ser chamado de genocídio. Isso aconteceu na Síria, em 1982, quando o governo cercou, bombardeou e destruiu a cidade de Hama, então centro da oposição sunita. Numa situação como a síria, se o Estado é o Estado de uma nação dentro de outra nação, a nação excluída, porque nação e porque excluída, só pode ser governado pela força. Ao mesmo tempo, quando se insurge, não se trata de oposição política, mas de um ato de guerra, pois fora do Estado (porque fora da política, ou vice-versa) e contra ele. Daí a repressão militar, e daí a repressão genocida: o Estado sírio não estava, sob sua própria lógica, atacando seu próprio povo ao destruir Hama.
Prova disto é que Hama, longe de ser um caso isolado, tornou-se uma regra, a “regra de Hama”, explicitada pelo próprio Assad pai: o que aconteceu em Hama seria o modelo de repressão do regime a qualquer oposição. Como não havia a possibilidade de uma oposição “síria” senso lato, pois os alauítas se identificam com um Estado por eles dominado (na verdade, por eles construído) e que a eles serve, toda oposição, necessariamente sunita, seria tratada como ameaça ao regime e ao Estado.
Daí não existir solução política para a atual crise síria. Como todas as instituições do Estado são dominadas pelos alauítas, todas as instituições do Estado têm de ser, na prática, refeitas. A oposição síria tem por objetivo lógico a refundação do Estado sírio.

2

Isso implica, do ponto de vista alauíta, não apenas a perda de poder, mas a perda da segurança, além da riqueza. Pois não se trata, num primeiro momento (ao menos, há um grande e real temor de que não se trate), de tentar refundar um Estado sírio, ou seja, para todos os sírios, entendidos como uma cidadania nacional, mas de extinguir o Estado alauíta comandado pela família Assad a fim de em seu lugar instituir um Estado sunita. As razões disso são principalmente três: a história profunda, da qual os alauítas emergem como um grupo separado dos e subalterno aos sunitas, numa relação de separação e subserviência históricas que teria sido subvertida pelas circunstâncias políticas recentes; as circunstâncias políticas recentes, vistas pela maioria sunita como uma degradação e uma injustiça histórica, ao que se soma o ódio irreconciliável gerado pela repressão genocida; a ausência de um conceito de nacionalismo e de cidadania modernos na cultura árabe, que historicamente conheceu apenas a vassalagem sob o império turco ou sob reinos árabes que, na prática, eram o domínio de uma tribo sobre as demais.
Não há, portanto, caminho para uma solução negociada, ou seja, política. A troca do governo de Bashar Assad por outro coloca a questão da troca ou manutenção de um grupo por outro. Se um novo governo pós-Assad for ainda alauíta, não será aceito pela maioria sunita. Se for sunita, não será aceito pela minoria alauíta, pois significaria a perda definitiva do poder e a perspectiva de ser submetida a um Estado que vingaria ou não impediria a vingança por parte da maioria sunita. Um governo integrando governo e oposição, como tantos pleiteiam ingenuamente no Ocidente, seria, na verdade, um governo que integrasse sunitas e alauítas. Mas na presente situação síria, essas grupos não são conciliáveis. Os alauítas têm tudo a perder, portanto, lutarão até o fim para manter-se no poder. Fala-se inclusive de, no limite, se criar um cantão, um enclave alauíta em regiões próximas ao Líbano, ou seja, de uma divisão do Estado sírio, como aconteceu na Índia com a criação do Paquistão para a sua população muçulmana, após a independência. Os sunitas, por outro lado, têm tudo a ganhar, portanto, lutarão até o fim para tomar o poder e o Estado, e para vingar seus mortos passados e presentes.

3 

Mas apesar de tudo, a oposição síria é fragmentada, ou mesmo fraturada. Não apenas pela existência de outras minorias, como cristãos e curdos, cujo alinhamento com governo e oposição não tem a clivagem clara dos sunitas versus alauítas. Mas porque se trata, justamente, não de derrubar o governo para pôr em seu lugar um outro, talvez mais democrático ou representativo, mas de refundar o Estado. Daí que os diferentes projetos de Estado não esperarão pela luta política após uma eventual queda de Assad, como se deu nos demais casos da “primavera árabe”. A construção de um novo Estado pós-alauíta começa na destruição do Estado alauíta. A situação é, deste ponto de vista, mais semelhante a uma verdadeira revolução do que o foi em outros países da região. O objetivo comum imediato de derrubar o governo, confundido com o de destruir o regime e suas relações sociopolíticas, é então sobrepujado pelo objetivo último de garantir o domínio do novo Estado já a partir do início de sua construção, ou seja, da derrubada do “Antigo Regime”.
No caso dos sunitas sírios, dois grupos têm projetos completamente distintos: um grupo laico, centrado nas cidades e na classe média, pretende a construção de um Estado laico e moderno, segundo o modelo turco; um grupo religioso, centrado no campo e liderado pela forte Irmandade Muçulmana síria, tem por objetivo instituir uma teocracia, ou ao menos um Estado tutelado pelo e atrelado ao clero, segundo o modelo saudita. Daí a oposição sunita não ser uma nem una, o que resulta em não ter ainda podido fazer frente à unidade alauíta, apesar de esta ser minoritária.

4

A Síria não é a Líbia. Tampouco o Egito. Mas dizer isso não aclara em que ela não é nem o Egito nem a Líbia. Fundamentalmente, trata-se de um poder incomparavelmente maior de envolver e desestabilizar toda a região.
Ao contrário do Egito, a Síria mantém um contencioso militar com Israel, com o qual está oficialmente em estado de guerra, em função da ocupação israelense das colinas de Golã. A Síria é, também, a última ou principal fiadora da instável estabilidade libanesa. A Síria ocupou o Líbano por décadas, após a guerra civil libanesa doa anos 1970-80, e ao sair do país deixou como preposto o fortíssimo grupo xiita Hezbolah, ao mesmo tempo um partido político, um grupo religioso e uma milícia, constituindo, na prática, um Estado dentro do estado libanês. Um governo sunita na Síria não daria ao xiita Hezbolah o mesmo apoio de um governo alauíta (os alauítas são um ramo do xiismo). O Hezbolah se aproximaria ainda mais do Irã, seu segundo grande aliado, tornando-se, se não mais radical, pois isso é impossível, mais imprevisível. O Irã, país xiita governado por um clero idem, perderia com a queda do regime alauíta sírio seu único grande aliado na região. Por fim, o governo saudita, que se considera o guardião da ortodoxia sunita, tem muito a ganhar em influência com a troca de regime sírio. Resta ainda a Turquia, que faz fronteira ao sul com a Síria, e têm suas próprias demandas sectárias internas, como as dos curdos locais.

5

Há hoje na Síria um impasse sangrento. A surda revolta histórica da maioria sunita encontrou afinal na “primavera árabe” o impulso para partir para a ação. Mas à diferença do caso egípcio, em que o próprio regime negociou uma solução política, e do caso líbio, cuja liderança não tinha força para resistir, por não representar grupo algum além dos próprios integrantes do regime, as condições sírias impedem uma saída negociada, além de explicarem a resistência e a brutalidade do regime alauíta. Esse impasse sangrento, se não pode se resolver por uma solução política, deve sê-lo pela ruptura, ou seja, pela extinção de qualquer possibilidade de solução política. A guerra civil síria terminará, necessariamente, pela destruição do Estado alauíta. A variável importante que resta incógnita, a ser verdadeiro esse quadro, é a duração da guerra civil, portanto, sua intensidade. Quanto mais rápida, menos brutal, quanto menos brutal, maiores as chances de minimizar os inevitáveis traumas e as incontáveis dificuldades e ameaças do período de reconstrução.
A conclusão é que se deve armar a oposição síria, não apenas para que não fique submetida à artilharia do governo como animais de caça num safári, mas também para abreviar a queda do regime e, assim, a dimensão e a duração da guerra civil.
O que parece uma contradição, ou seja, armar um lado de uma disputa para que tal disputa seja menos sangrenta, deixa de sê-lo ao se sair da teoria bélica para a prática da realidade imediata. Não há retorno na situação síria, pois os sunitas, uma vez entrevista a possibilidade histórica de tomar o poder, e uma vez tendo sacrificado por esse objetivo milhares de vidas nos últimos meses, não têm por que ou como desistir. Como tampouco pode desistir de resistir o governo alauíta, a situação atual, com seus mortos cotidianos, para não falar da tortura sistemática e da destruição de casas, arrastar-se-á até que a oposição consiga as armas para enfrentar militarmente as forças do regime, levando o que é agora uma guerra civil assimétrica a uma simetria maior. A negação de armas à oposição não evitará a guerra civil franca, apenas a adiará ao custo do atual morticínio. Ou seja, somará aos mortos futuros da guerra civil aberta os mortos de seu preâmbulo.
Encurtar esse preâmbulo sangrento e sanguinário, se não é possível pela via política, deve sê-lo pela via militar. A alternativa, a manutenção e a extensão do impasse, é a extensão e a manutenção do morticínio, sem dar às vítimas possibilidade de se defender.
Além disso, quanto mais o atual impasse cruento se prolongue, maiores as chances de os países vizinhos se envolverem na luta, aumentando também os riscos de sua internacionalização.
A queda do regime alauíta deve, por tudo isso, ser abreviada. A todos os temores imediatos, porém, soma-se o receio ainda maior da emergência de um regime teocrático, como se deu no Irã após a queda do xá. Mas, em primeiro lugar, os sunitas, ao contrário dos xiitas, não contemplam historicamente o Estado teocrático. Em segundo lugar, não há como evitar que os próprios sunitas decidam o tipo de Estado e de sociedade que querem para si, finda a era alauíta. Os secularistas sunitas terão de enfrentar amanhã a Irmandade Muçulmana e seus aliados jihadistas, tão certamente quanto enfrentam hoje, ao lado deles, o regime alauíta. E é da vitória dos sunitas na guerra civil, bem como da subsequente vitória dos sunitas secularistas no período pós-guerra-civil, que depende a muito improvável, mas não inteiramente impossível, emergência de uma futura democracia síria (incluindo a necessária normalização com a minoria alauíta).

segunda-feira, 18 de março de 2013

O estado tem de encolher

Comentário que deixei no FaceBook de Ramiro Marques:

RM:

"A crise da dívida pode levar décadas a ultrapassar. No caso português,o problema é tão grave que podemos ter de nos sujeitar a 15 anos de recessão e taxas de desemprego de dois dígitos. É bom que as pessoas tomem consciência da gravidade do problema e não apoiem "soluções" semelhantes às que nos conduziram à bancarrota. A questão é simples: o Estado andou uma década a gastar mais 10% ao ano do que o volume das receitas. Agora, o Estado precisa de voltar a gastar na proporção das receitas. Tem de encolher. E encolher significa prestar menos serviços e reduzir o número dos funcionários."

Por enquanto e porque estamos e emergência. Depois, há que dar uma cajadada na despesa do estado para permitir que os impostos venham abaixo. Só desta forma se poderá potenciar o crescimento e só então, começar um híbrido de pagamento de dívida e subida do PIB para que o pagamento dos juros não tenha tanto peso.

Que os portugueses não se voltem a esquecer que de cada vez que o estado "dá" vai sair-lhes do bolso. De cada vez que o estado "dinamiza" vai sair-lhes do bolso.

A mais importante missão deste ou qualquer outro governo consiste em fazer encolher o estado, a bem ou a mal. Os promitentes trabalhadores da coisa pública (e muitos dos actuais) terão que se capacitar que terão que encontrar (ou ficar à espera comendo couves) que empresas privadas surjam no sector de bens transaccionáveis para que o futuro possa fica mais desanuviado.

O que digo é coisa bruta que nem casas? Pois é. É assim desde há 10 anos e deviam ter-me ouvido há mais tempo.

E qual é o papel da "europa" nesta coisa? Neste momento é um estorvo e tudo indica que não vai melhorar. Bruxelas continua em roda livre fora de qualquer controlo democrático e o parlamento europeu parece uma horda de cachopos.

domingo, 17 de março de 2013

Brasil: petróleo

Espero que o Brasil não se estampe na maldição dos recursos.

O maravilhosos sistema de saúde cubano, ...

... em versão para indignácaros:

... "faça alguma coisa" ...!!!

Comentário meu a uma leitora do Prof. Ramiro Marques:

Portugal é um país sentado à espera que o estado "faça alguma coisa", também pelos filhos. Portugal é uma país de dependentes do estado. Portugal é um país onde a larga maioria da população depende directamente do estado. Em boa verdade, é um "estado" sem país.

Vive-se hoje um relampejo, um momento de verdade em que as pessoas começam a perceber dolorosamente que há mais vida, há mais mundo para além do estado.

A Grâce vê os sintomas mas não não diagnostica a doença. A doença chama-se "estado", chama-se falta de amor-próprio, falta de orgulho-próprio, falta de afirmação do 'eu' por ... vergonha.

Da federação-maravilha



Sabrina Vlaskalic Concert Gitaarsalon in Enkhuizen, Holland


sábado, 16 de março de 2013

A PROPAGANDA, A ALMA DO NEGÓCIO E O PÚBLICO-ALVO

 
 
 
 

À LUZ DA ANDALUZIA

                                     



não tenho interesse pelo islã

quando acordo de manhã
penso no meu trabalho
na roupa que irei vestir
no tempo que vai fazer
no que comer no café
mas não em maomé

a direção do vento me afeta
muito mais que a de meca

se ao longo do dia
penso no islã
é porque o islã
ao longo do dia
entra em minha casa
pelas mãos de uma notícia

nunca é positiva

puro preconceito da mídia
rezam os muçulmanos

isto considerando
em momentos de ócio
pus-me a pensar com minúcia
nos muitos afazeres humanos

não nos mais cotidianos
como comer, dormir, defecar
mas nos que pedem a mediação
do pensamento e da ação

em suma
o que se costuma chamar de cultura

fiz então uma pequena lista:
leis inovadoras
inovações artísticas
novidades tecnológicas
descobertas científicas
organização política
história olímpica
montagens de ópera
comédias teatrais
artes gráficas
crítica literária
estudos de filosofia
novos materiais
novas arquiteturas
viagens espaciais
necessidades especiais
pesquisa agrícola
design de automóveis
adestramento de cães
mapeamento da flora
indústria da moda
estudos de geologia
previsão meteorológica
previsão de terremotos
prevenção de acidentes
tratamento dos dentes
cirurgia estética
renovação da ética
novidades da ótica
inovações náuticas
astronáuticas
ou internáuticas

não importa quantos itens
se acrescentem à lista
a parte do islã
é bem específica:
encher o mundo de mesquitas
escolas corânicas
e mulheres mal-vestidas

porém na andaluzia
mil anos atrás
a estrela do islã reluzia
dizia-me uma tia

ao que eu, infiel e infeliz
respondia:
mas, titia
o mundo é maior que a andaluzia
e mil anos não são pouca porcaria

verdade, meu filho:
porém é mais polido
apontar nos demais suas qualidades
principalmente as raras

sim, titia:
mil anos atrás
na bela andaluzia
a estrela do islã reluzia...

ALÁ EM BEVERLLY HILLS



 
maomé é melhor profeta
que seus pares
judeus e cristãos
 
pois o melhor profeta
é o que mais fala à alma
e também ao coração
 
e seus pares judeus
e cristãos
falam, ou de um belo israel

ou de uma belíssima
eternidade no céu
sem que se saiba ao certo o que sejam
 
o paraíso muçulmano
ao contrário
é claro como a luz do sol:
 
viver como um milionário
aposentado
num jardim apascentado
 
de mulheres nuas
sem nada a fazer
além de se satisfazer:
 
em suma, todos hão de ser
sem que a festa tenha fim
um novo hugh hefner

PECADOS DO ECUMENISMO


 

os pobres judeus
desde bem antes dos macabeus
lutam todo dia
o dia todo
para nunca perder a esperança
de esperar pelo messias
das velhas profecias
que viria, viria, virá
contemplar os justos
e condenar os vis:
viria, viria, viria
antes não tivesse vindo
auschwitz

ao menos já veio outro messias
para os cristãos
e vem voltando um pouco desde então
todo santo dia
durante a missa

a suprema ironia
é que o messias tendo vindo
em nada se diferencia
a via crucis dos cristãos
daquela dos que não o viram

a dor é nossa igreja universal

mas, ressaltam os cristãos
ele voltará, voltará, voltará
no dia em que o último pagão
se converter à verdadeira religião:
até lá, não

o problema está, então
apenas em que os velhos judeus
mesmo com a reconstrução de israel
e a retomada (amém)
de sua amada jerusalém
(pois dia do fim da diáspora
se não da aspereza da espera)
ainda esperam
o messias que viria, viria, virá
contemplar os justos
e condenar os vis

enquanto ele não vem
os cristãos ainda esperam pela conversão
dos judeus
que ainda esperam
enquanto o islã espera
impaciente
pela conversão dos cristãos
dos judeus, dos ateus
dos pigmeus e de toda a lista
de descrentes
entre meca e os selenitas

OS ISLÃS




segundo o sagrado alcorão
deus enviou moisés e abraão
aos judeus
para revelar a religião
verdadeira, a submissão
(islam) a deus
 
porém o povo judeu
a perdeu
a perverteu
lhe deu adeus
 
deus, então
enviou cristo aos cristãos
(na verdade aos judeus
outra vez
pois não havia cristãos
antes de cristo)
para rerrevelar a religião
verdadeira, a submissão
(islam) a ele

porém os cristãos
a perderam
a perverteram
e se perderam
 
deus, de sua parte
enviou maomé aos árabes
para rerrerrevelar a religião
verdadeira, a submissão
etc.
 
portanto, pobre leitor
se você não é muçulmano
uma coisa é certa:
falsa é sua religião
 
falta somente saber
a qual islã, então, se converter
pois como bem dizem
os multiculturalistas
é longa a lista
de islãs
 
(sunitas, xiitas, alauítas e sufis
são insuficientes
para sequer iniciá-la
por alá)
 
o islã certamente seria
a única religião verdadeira
se a verdadeira religião única
pelo menos existira

NO GRANDE CANIL


 

quase não há cães
nas casas islâmicas:
o profeta
não lhes tinha afeto
e além disso, explícito
decreta: animais impuros
bons para ficar além dos muros
 
(pior que um cão
só mesmo uma cadela)
 
aleluia, então
por eu não ser muçulmano
e ser assim condenado
a viver cercado só de humanos
que comumente se comportam
– é cotidiano –
como um cão danado

ALEIKUM SALAM


 
 
não há um papa muçulmano
porque uma igreja muçulmana
não há
 
o que existe é a religião
cuja autoridade é o corão
 
ninguém tem portanto o poder
de dizer que um fiel
é infiel ao livro
ao ler no livro o que lê
 
tudo que ali está
logo, tudo que ali é lido
é obra de alá
 
os que leem seus versículos
mais pacíficos
não são mais nem melhores muçulmanos
do que os que recitam
os mais agressivos

sexta-feira, 15 de março de 2013

O DESVELO



as mulheres se escondem
no islã porque, moderno
ele as condena à responsabilidade
 
elas, portanto, respondem
pelas ações dos homens
que são, então, inimputáveis

não se trata de serem todas putas
em essência, mas, em potência
serem todos estupradores

daí se manterem ocultas
pelo manto da casa
ou pela sombra do manto
 
pois sua presença muda
transmuda
em predador quem as estupra:
 
ao tornar em agressor a vítima
de sua presença agressiva
respondem por sua agressão –
 
para prevenir, então, o crime
de se fazerem agredir, as mulheres devem
proteger de sua presença os homens:
 
se a ausência, presença feminina ideal
não é possível, que sua presença
se ausente: por isso o véu
 
por isso o véu
cai na segurança da casa
onde sua vítima está precavida
 
sabendo não haver saída
o homem, na defesa mais legítima
ataca-a antes, ataca-a todo dia
 
o que se passa então nas casas-manto
onde se ignora tudo o que se passa
com as mulheres livres para a agressão
 
oculta-se dos olhos, não da imaginação:
os homens, protegidos pelo espaço privado
não se privam, enfim, de serem fortes

SABEDORIA DE BOLSO



 
trinta e dois milhões de livros
sessenta e um milhões de manuscritos
congregam-se no acervo
da biblioteca do congresso:
em várias centenas de línguas
versam sobre o universo
 
os muçulmanos, mais sabidos
não necessitam nada disso:
tudo que precisam saber
está em um único livro

é enormemente prático, ao menos:
alá é grande
mas o corão é pequeno

OLD NEWS FROM THE EAST


 

palavras citadas pelo papa
“agridem o islã”
ao relacionar a religião de alá
com a desrazão e a violência

portanto o mundo muçulmano
mais uma vez se inflama
e ante tais palavras vis ameaça
com a desrazão e a violência

O DEUS DOS PUROS


                                                                                Toda criança nasce muçulmana, independente da religião da família,
                                                                                porque“ser muçulmano” significa “ser submisso” à vontade de Deus.



todos os humanos
nascemos muçulmanos
querem os mesmos

quase os mesmos
desejos
têm os cristãos

com alguma variação:
o mundo inteiro ainda será
convertido a cristo

(significa
que eu não existo
ou, no mínimo

que não sou humano:
nascido de mãe judia
sou judeu à minha revelia

e cristão jamais serei:
adorar um homem
pregado a uma cruz

não me seduz):
mas se já fomos muçulmanos
por que depois cristãos?

por que não mais o somos?
comprem panos, senhores
porém não gastem com barbeadores:

saibam ouvir o muezim
e cofiar a barba ajeitando o kafieh
mas encomendem, outrossim

um fino crucifixo
enquanto treinam o sinal da cruz:
rezem ao menos cinco vezes

para alá a cada dia
e entrementes
duas para jesus:

restará eventualmente pouco tempo
para quaisquer outros eventos
como o desenvolvimento

da ciência e da arte
mas quem se abate?
seremos fiéis a deus, e adeus

sabe-se lá a qual
é bem verdade: talvez alá
talvez o homem de nazaré

talvez também toda a ala
dos orixás baianos
que foram bons muçulmanos

além de "filhos de santos"
e dos ótimos cristãos
que são:

salve são salvador
senhor do bonfim:
o senhor do bom começo

sabemos
é alá
o único

problema
será convencer os esquimós
que se chamam inuits

serem inúteis
seus esforços em explicar
ser a verdadeira humanidade:

inuit
em língua inuit
significa “os homens”

o que traduzido
para o ianomami
diz-se ianomami:

os ianomamis, portanto
são os humanos
que são inuits

que nasceram muçulmanos
mas um dia ainda serão
cristãos

quanto aos pigmeus
do gabão
não é problema meu

que sempre fui ateu:
quanto a ter sido também muçulmano
não creio: por não crível que pareça

meus ancestrais já eram judeus
muito antes de maomé
pôr o primeiro turbante na cabeça

(eles dizem que alá é deus
os cristãos, jesus, os judeus, javé
mas uma coisa é certa:

alá os protege
de ter chulé
e de sofrer de gases:

senão, como manter a fé
numa mesquita repleta
de homens descalços acocorados

rezando longamente para meca?
alá é grande
e maomé o seu profeta)

PAISAGEM IRANIANA



mulas e mulás
marcham em caravana
por uma trilha radioativa
em pleno deserto
das ideias mortas

pés de pedra
pisam os corpos
de mulheres nuas
miúdas
passo a passo
feitas carne moída