domingo, 14 de abril de 2013

PARA COMEÇAR BEM A SEMANA





 Para uma semana que vos desejo excelente em todos os aspectos ("felizes no jogo e no amor", parafraseando a frase célebre de Stendhal a rebours e contrariando fadários) nada melhor que contemplarmos, por um par de minutos, qualquer coisa bela e suscitadora. Excitante dum ponto de vista vital, não sei se me entendem.




 E assim sendo, neste caso aponto para a Mostra que abriu anteontem na Sala de exposições temporárias do castelo de Portalegre e protagonizada por Rui Real - cinéfilo encartado, agricultor, cultor de leituras muitas vezes heterodoxas que vão de Lovecraft a Lauro António, passando por Bradbury, Philip José Farmer, Ridley Scott, etc.




 E, já agora, uma estorinha real para ilustrar (digamos assim, que ilustrações mesmo, tiradas na "vernissage", vão em anexo):




 - Anos atrás, não estando eu em cheiro de santidade no bestunto de um sector que de forma atribiliária semi-dominava pelos meios e com a velhacaria que lhes é hábito o ranço político alentejano/portalegrense, um dos controladores dessa agremiação sugeriu/lançou a ideia de que seria bom arranjarem forma de me processarem, visando o corolário de me prenderem ou, no mínimo, me "darem cabo da vida", como disse com doçura um dos artilhadores. (Isto tem sua piada, pois se nos tempos da "velha senhora" me levaram de cana (digamos desta maneira justamente rasca) por duas vezes - foi precisamente por dar ajuda e protecção a membros dessa agremiação). Mas bom. O ambiente ficara um pouco...nublado. Nas terras pequenas Vs. calculam como é. E foi então que, num dia, me chegou um desenho carreando o trombil - muito melhorado, confesso - deste que vos fala; e uma semana depois era-me dito pelo seu autor que, para a minha peça de teatro ("Passagem de Nível") que eu buscava dar a lume por esse tempo, ele teria muito gosto em ilustrar a página de rosto.




  retrato tenho-o, encaixilhado, na Casa da Muralha (Arronches) junto de outros da mão de Mário de Oliveira, Cesariny, Juan Ribeyrolles, Carlos Texera, Miquel Elías, etc. que com generosidade me frequentaram o frontispício. O desenho está no livrito que de facto semanas depois saíu, também valorizado com capa de António Luís Moita e introdução de João Garção).




 Pronto, vendi meu peixe neste domingo ensolarado. Fica, com a estima que sabem, os proverbiais abrqs e bjh deste vosso confrade.

sexta-feira, 12 de abril de 2013

Nova canção do emigrante com provérbio afim (recebido por e-mail)





Voltei, voltei

Voltei de lá
Ainda ontem estava em França
E agora já estou cá

Vale mais um mês aqui
Do que um ano inteiro lá

Ainda ontem eu pensava
E sonhava cá voltar
Ai, eu já não suportava
Ficar longe do meu lar

Agora já estou aqui
Já me passou esta dor
Tanto, tanto que eu pedi
Este milagre ao Senhor



A democracia portuguesa parece padecer geneticamente de falta de vergonha?



De um humor delicioso...!




"Excelente e certeiro senso de humor. E, desta forma inteligente, mostra a realidade que só os boquinhas-tortas e os lellos com dois éles não podem (não querem) ver: o parisiense simulado é já uma figura caricatural, um sujeito e objecto de charlotada.
  Começou como tragédia, vai acabar como comédia, como se diz da História chula. Um clown que a pouco a pouco todos verão na sua real dimensão pindérica.
  Prematuramente embranquecida."

Foi este o comentário que deixei no post seguinte:

Sócrates: Alors, pá. Mostra lá os resultados das audiências. Deve ter sido um massacre.
Silva Pereira: Lá isso foi.
Sócrates: Deixa cá ver... Va te faire Paulô Futre!!!!
Silva Pereira: Tentei avisar-te…
Sócrates: Isto é do Car…rilhô. Plus une semaine comme ça e ainda acabo a apresentar o Preço Certo. Em escudos.
Silva Pereira: Deixa lá, Zé. A culpa não é tua.
Sócrates: Claro que não. Il te donne para cada uma. De quem é que achas que é?
Silva Pereira : É da apresentadora.  Não é que as pessoas prefiram os comentários do Marcelo. Gostam é da Judite.
Sócrates: Pois é. De qualquer maneira, temos de fazer quelque chose.
Silva Pereira : Podias aconselhar uns livros.
Sócrates: Não te armes em crétin. Ganhei aversão à leitura desde os tempos dos parâitres do Tribunal de Contas.
Silva Pereira : E se fizesses uns números de ilusionismo.
Sócrates: Isso dos números e do ilusionismo era com o Teixeira dos Santos… e não vou dar ao gajô o gosto de me deslier o telefone dans la trombe.
Silva Pereira : Sim, até porque o gajo era capaz de o fazer literalmente… Podias serrar um gajo ao meio em directo.
Sócrates: Tinha de ser um gajô sem colomne vertebral para ser mais fácil…
Silva Pereira : O Lello?
Sócrates: Est capable de donner… E se depois não conseguir colar o gajô outra vez?
Silva Pereira: Isso é o menos. Ninguém ia reclamar…
Sócrates:  Hmm. Vamos tomar nota dessa. Portanto, quero uma coisa com mais impacto.
Silva Pereira: Já te disse que só em francês é que pourtant vale como adversativa, certo?
Sócrates: De efeitos imediatos. E sucesso garantido.
Silva Pereira: Distribuir magalhães?
Sócrates: Melhor ainda.
Silva Pereira : Não, não estás a pensar em…
Sócrates: Estou.
Silva Pereira : Não eras capaz…
Sócrates: Sabes que sou… No próximo Domingo vou distribuir aumentos aos funcionários públicos. O Marcelo vai ficar a ver bateaux.

quinta-feira, 11 de abril de 2013

Exposição de Pintura - Rui Real




"É já amanhã, sexta-feira dia 12, que será inaugurada na Sala do Castelo de Portalegre - mantendo-se aberta até 17 de Maio - a Exposição "Visões paralelas" de Rui Real, sob o patrocínio do município alto-alentejano.


 Pintor desde a extrema juventude e, de há uns anos a esta parte, agricultor na sua herdade situada nas planuras após os contrafortes da Serra da Penha, o artista portalegrense que excursionou pela ilustração, pela banda-desenhada e pelo design e apresentou os seus quadros em diversos lugares expressos do país e se deu também a conhecer no estrangeiro, mostra-nos agora um acervo da sua produção mais recente.



 Grande cinéfilo, Real deixa espelhar nos seus quadros muitos referentes cinematográficos, sempre sob a égide de um olhar que encontra no fantástico os seus mais intensos motivos e se multiplica, noutra face da Mostra, em revisitações da Natureza e dos seus cambiantes maiores.



 Jorge Loeb Guelvada"


Só há dores de calos quando há calos

Quando começaram a desconfiar que os portugueses se estavam a endividar descontroladamente, os "especuladores" apertaram a torneira e esperaram a reacção. O arremesso espertalhaço de mocas foi de tal ordem que eles ficaram a saber que já nem por arames a economia de Portugal estava presa.

O ministro Gaspar fez o mesmo à máquina do estado e ficou a saber que havia camiões de dinheiro a desaparecer pela porta do cavalo.

Felizmente o bicho estatal de torrar dinheiro nunca e nada aprende.

terça-feira, 9 de abril de 2013

segunda-feira, 8 de abril de 2013

Portugal, Política, Economia, Finanças, António Borges, Álvaro Santos Pereira e por aí fora

... e a voz do dono fez-se ouvir:

A Comissão Europeia espera que o governo "identifique rapidamente" as medidas que permitam "adaptar" o orçamento de 2013 por forma a garantir o cumprimento das metas orçamentais negociadas com a troika e que obrigam Portugal a atingir um défice orçamental de 5,5% do PIB este ano.
Que tal começar por vender a TAP, o Palácio Ratton, a RTP a CP e mandar demolir as eólicas?

domingo, 7 de abril de 2013

Outras quatro crónicas exemplares...


(imagem obtida aqui)




Donzelas e galdérias

Sem pompa nem circunstância, encerraram os Centros Novas Oportunidades. As NO responderam às carências do País em matéria de certificações sem responder às carências do País em matéria de aprendizagem. Ou seja, as pessoas entravam formal e tecnicamente desqualificadas nos espaços de formação e, decorridos meses, deles saíam apenas tecnicamente desqualificadas. Pelo meio, a troco de "histórias de vida" e conversa fiada, ganhavam um papel que lhes garantia a posse do 9.º ou do 12.º ano. Mil e oitocentos milhões de euros depois, 400 mil portugueses são os confusos proprietários do tal papel e os candidatos ao desemprego ou a profissões desvalorizadas que sempre haviam sido. Ao contrário do que alguns charlatães chegaram a afirmar, criticar as NO não significava insultar os incautos que por elas passaram: ao arregimentar incautos para efeitos de propaganda, as NO eram o insulto. E a abolição de um insulto é uma boa notícia.

Estranhamente, essa notícia não mereceu os festejos suscitados por uma segunda notícia feliz e quase simultânea, a da demissão do ministro Miguel Relvas, que obtivera uma licenciatura à custa do exacto tipo de equivalências imaginárias que fundamentavam as NO. Mais estranho é que muitos dos que defendiam as NO sejam os mesmos que, com alguma razão e escassa legitimidade, acharam o processo do "dr." Relvas um atentado à democracia. Se o processo do "dr." Relvas é misterioso, não se compara ao mistério das reacções que fomentou.

Uma reacção típica consistiu em afirmar que a demissão pecou por tardia. Nada a obstar: por lealdade, necessidade ou pura dependência, o dr. Passos Coelho deixou que os estragos provocados pelo currículo "académico" do "dr." Relvas se prolongassem indefinidamente, com custos que o Governo dispensava. Apesar disso, o "dr." Relvas lá acabou por sair, o que nem sempre se pode dizer de governantes com licenciaturas igualmente duvidosas que se agarraram ao poder e sobreviveram à revelação das trapalhadas universitárias.

Outra reacção à saída do "dr." Relvas indigna-se com Nuno Crato, que alegadamente guardou por dias ou semanas o relatório da Inspeção-Geral da Educação e Ciência acerca do famoso canudo. Os indignados esquecem-se de que é inédito um ministro concordar com uma decisão que coloca em causa um seu colega. Sobretudo esquecem-se de que o antecessor desse ministro contemplou indiferente uma aldrabice similar à do "dr." Relvas (indiferente, vírgula: fechou a universidade em questão sem beliscar os respectivos beneficiados).

Uma terceira reacção trata de esclarecer que o "dr." Relvas não era, cito, "um ministro qualquer", logo a confirmação das habilidades praticadas na Lusófona abala gravemente o Governo. Acho óptimo que abale, ainda que ache esquisito o facto de governos anteriores escaparem ilesos à revelação de habilidades semelhantes praticadas por um membro que também não era um ministro qualquer: era o primeiro.
Entre as donzelas ofendidas com a novela do "dr." Relvas há inúmeras galdérias em novelas passadas. Hoje, puxam da virtude com o zelo com que ontem disfarçavam o vício. Levá-las a sério é reduzir Portugal a uma anedota. Como o "dr." Relvas, mas não só o "dr." Relvas.


Novas da Primavera

No Egipto, que desde a deposição de Mubarak é uma terra devotada à democracia e à liberdade de expressão, em dois dias a justiça local acusou dois comediantes por blasfemarem contra o islão. Não só é uma óptima média como um sinal da saúde da Primavera Árabe, que ao contrário da europeia não traz chuva nem favorece o voto em palhaços. A propósito de palhaçadas, imagino a cara daqueles que duvidavam do sucesso das revoluções no Médio Oriente e, ainda mais ridículo, profetizavam a troca de ditaduras "habituais" pela tirania de transtornados religiosos. Muito me tenho rido à custa deles, embora sempre no maior respeito pelo islão.


A natalidade não é quando o Estado quiser

Solidário como lhe compete, o ministro da Solidariedade mostra-se aflito com a baixíssima natalidade em Portugal: "Uma mulher que pretenda ser mãe, mais do que a disponibilidade financeira, reclama por disponibilidade para uma maior dedicação. Se tempo tivesse para os acompanhar teria mais filhos", jura Pedro Mota Soares, que propõe o trabalho em part-time da mãe ou do pai a fim de promover a disponibilidade. O Estado, claro, subsidiaria os 50% restantes.

Não percebi se a isenção parcial do trabalho seria atribuída apenas após o parto, para aumentar o período de dedicação, ou também antes do parto, para aumentar as hipóteses de fecundação. Neste último caso, convinha que ambos os progenitores beneficiassem do referido subsídio, excepto na hipótese remota de o dr. Mota Soares querer incentivar o adultério. Em qualquer dos casos, convinha apurar quem tomaria conta do bebé durante a metade do expediente cumprida pelos pais.

Muitas dúvidas, uma só certeza: a de que o voluntarismo do dr. Mota Soares não encontra eco no mundo real. Até há 70 anos, as portuguesas não gozavam de licença de maternidade. Em 1945, um contrato colectivo concedeu às trabalhadoras dos lanifícios, uma minoria no sector "feminino" dos têxteis, 30 dias de férias de parto pagas pela metade do salário. Na década de 1960, uma funcionária pública dispunha de 15 dias de licença, duplicados no início da década seguinte. Depois dos anos revolucionários de 1974 e 1975, a licença passou para 90 dias. Hoje, anda pelos 120 ou 150. Progresso? É evidente, salvo na quantidade de nascimentos propriamente ditos, os quais, indiferentes ao progressismo, vêm diminuindo com notável regularidade. Se existisse uma relação causal entre as políticas de estímulo à natalidade e a natalidade, seria fácil concluir que tudo o que as primeiras conseguiram foi reduzir a segunda a valores de facto irrisórios.

Sucede que a relação causal não existe. Ainda que os burocratas julguem o contrário, as pessoas não desenham a intimidade de acordo com leis, regulamentos ou portarias. A procriação depende da época, do meio, da cultura e sobretudo da vontade dos protagonistas crescidos da mesma - não depende da vontade do Estado. No máximo, é possível que, se o Estado desimpedisse o caminho, as circunstâncias económicas favoreceriam o nascimento de criancinhas. Mas nem isso está garantido. Garantida, só a morte. E os impostos que atrapalham a vida.


A bancarrota é constitucional

Num país em que ninguém parece acreditar na Justiça, na política e nos partidos, é interessante verificar a estrita devoção de tantos às decisões do Tribunal Constitucional, guardião de um documento ideológico e cujos membros resultam de nomeação partidária. Por mim, tudo bem. Mas não é inconsequente o respeito do TC por uma Constituição que desrespeita a realidade.

Ao contrário do que alguns pensam e tal como outros desejam, os "chumbos" do TC ao Orçamento não acabarão por correr apenas com o Governo: por este andar, arriscam-se a enxotar a troika mais o dinheiro que nos ajuda a fingir que ainda somos uma nação soberana e cheia de rigor legalista. Para cúmulo, nem os senhores juízes pagam a diferença do bolso deles nem a bancarrota é inconstitucional. Quando o dr. Seguro diz que quem criou o problema dos 1300 milhões deve resolvê-lo, falhou o destinatário e, sem surpresas, não acertou no resto.

A AVEZINHA DO SENHOR… PASSARÃO




Nicolau Saião, O passarão  


MADURO AFIRMOU EM CARACAS QUE CHAVEZ LHE APARECEU quando orava numa capela para que as eleições lhe fossem favoráveis
(dos jornais)


   Das duas, uma: ou Maduro é um louco (veja-se a estória que conta de Chávez lhe ter aparecido sobre a forma dum passarinho) ou é um manipulador deliberado, abusando das superstições e debilidade dos pobres paisanos.

    Como se pode confiar num tipo destes?

    E foi este inqualificável indivíduo que chamou, no funeral do antecessor, "irmão Sócrates" ao estudante parisiense. Ou seja, chegou-se ao degrau mais baixo da demagogia... bolivariana.

    Tenhamos medo, muito medo!

sexta-feira, 5 de abril de 2013

O estranho caso da escrivaninha ribatejana





Lê-se aqui:

Um agricultor no Ribatejo fez um achado insólito: mais de mil cheques da família de Sócrates, 263 do próprio, escondidos numa escrivaninha que pertenceu a um primo do ex-primeiro-ministro.


Na entrevista à RTP, Sócrates assegurou aos portugueses nunca ter tido acções nem offshores e de ser, precisamente há 25 anos, senhor de «uma única conta, na Caixa Geral de Depósitos». E, uma vez que nunca fez poupanças, foi obrigado a contrair um empréstimo na Caixa para fazer um mestrado em Paris.

No percurso de uma vida, há quem deixe pelo caminho espólios inéditos. Esta é a circunstância que liga Sócrates a Nuno Caçador, que no último Natal fez uma descoberta inusitada: num móvel abandonado na sua quinta do Ribatejo, encontrou dezenas de livros de cheques por usar, de José Sócrates e de outros familiares.


Na gaveta fechada à chave de uma velha escrivaninha, que teve de abrir a martelo, o agricultor descobriu 1.273 cheques, todos em branco e guardados ainda nos respectivos envelopes de origem, a maioria por abrir.

À medida que corria as cadernetas, saltavam-lhe à vista os nomes de José Sócrates Carvalho Pinto de Sousa, do tio, da irmã e de três empresas da família, nos mais variados bancos: BES, Fonsecas e Burnay, Totta & Açores e Banco Português do Atlântico.


Dos 1.273 cheques, 263 são de uma conta de José Sócrates no Totta, 110 são de uma conta do tio, António Pinto de Sousa, e 75 de uma conta da irmã, Ana Maria. À época (1991), Sócrates era deputado e cortara o vínculo à Sovenco, empresa na área dos combustíveis, na Amadora, que fundara com Armando Vara, entre outros sócios.

Nuno Caçador interrogou-se: «Qual é o banco que entrega tantos cheques de uma vez só a uma pessoa? Isto não é normal!».


quarta-feira, 3 de abril de 2013

OUTRA DE NUNO REBOCHO



João Garção, Portugal romântico


  Este nosso confrade e amigo, que depois de se alijar da Antena 2 rumou a Cabo-Verde para ser uma presença cidadã na comunicação social desse país, volta às nossas páginas com outra reminiscência saborosa do seu multifacetado percurso de vida.


                   Experiência cabo-verdiana


   Não há apertos que desmotivem um cabo-verdiano. De facto, há que esperar tudo deste gente que aprendeu aquilo que o dianho amassou e que fica horrível desejar a quem quer que seja. Sobretudo, há que o reconhecer, o cabo-verdiano aprendeu a esperar, dizendo entre dentes a expressão muito crioula: “ave-maria, paxenxa”. Isto, de resto, foi das primeiras coisas que aprendi mal pus os pés no arquipélago. Eu conto.

   Foi por volta de 2001. Estava desesperado, aguardando que o Ministério das Finanças liberasse um cheque que fora obrigado a fazer na convicção de que o Governo me pagaria conforme prometeu. Mas os dias passavam e desse pagamento, nada. Eu desesperava. E mais desesperava por sempre me faltar alguém no Ministério que pudesse ser meu interlocutor. Até que um dia, furioso, desencabrestei pelo jardim em frente em busca de um graxate que cuidasse dos meus sapatos. Reparando no meu semblante, o sujeito descalçou a proverbial “morabeza”: o que eu tinha, o que não tinha. Lá me descosi. Que estava sem dinheiro (situação a que os cabo-verdianos estão habituados), que o Ministério arrastava o tempo, fingia que andava, mas não andava, e eu estava farto: aquilo eram “más contas”.

   O sujeito sorriu. E, no esgar, desembrulhou: “Minin, má Kao Berdi é tera di speransa, enton nu spera”, o que, traduzido, significa: “menino (assim me tratou), mas Cabo Verde é terra de esperança, portanto a gente espera”. Guardei sofregamente a máxima que tem servido de norte na minha bússola. E quando um dia tomei conhecimento do que Eugénio Anacoreta Correia, então embaixador de Portugal na cidade da Praia, afirmou a uma entrevista, percebi o desabafo. Disse ele que Cabo Verde era “a única terra do mundo onde havia tempo para ter tempo”. Então larguei em “aaah”, que ainda hoje perdura.

Vou-me habituando.
                                                                                        Nuno Rebocho 

Toma, embrulha y manda pò Norte, cu Sul já tá cheio!

segunda-feira, 1 de abril de 2013

Da crise do excesso de falta de abundância





Pode-se ler aqui.


Investigadores alemães concluíram que o aquecimento global contribuiu para um Inverno mais chuvoso e prolongado e que o Verão este ano não vai ser muito quente.


Filipe Duarte Santos, professor catedrático especialista em alterações climatéricas, disse, em entrevista ao Correio da Manhã, que o aquecimento global contribui para Invernos mais severos.
«No Ártico, existe uma grande quantidade de gelo a flutuar que, de ano para ano, está a perder extensão e espessura devido ao aquecimento global. Com menos gelo, há mais água a absorver radiação e a aquecer», explicou.
No entanto, o que está a surpreender os investigadores é o facto de o ar polar Ártico estar a ficar mais quente e a alterar a circulação global da atmosfera, empurrando o ar polar frio para latitudes mais baixas.
«Nas nossas latitudes (o ar polar do ártico), provoca um acréscimo de precipitação, apesar de a tendência ser para maiores períodos de seca. Estamos com uma Primavera com muita chuva, mas para o ano já poderá ser de muito calor. O certo é que teremos fenómenos mais extremos», disse  Filipe Duarte Santos

domingo, 31 de março de 2013

"A entrevista"


(imagem obtida aqui)

Diz assim Alberto Gonçalves:

A única justificação plausível para a longa entrevista do eng. Sócrates à RTP passaria pela apresentação formal de um pedido de desculpas pelos erros cometidos em seis anos de desmiolada governação. Passou-se exactamente o contrário: o homem continua impermeável à realidade, não admitiu um só erro e distribuiu culpas por tudo o que se movia e move em seu redor. Portugal está como está graças à crise internacional, à Lehmann Brothers, a Cavaco Silva, ao actual Governo, ao "Correio da Manhã" e aos biltres sortidos que teimam em difundir "narrativas" (sic) mentirosas sobre a excelsa competência e personalidade do ex-primeiro-ministro. Ele acerta sempre, logo, por definição, os que dele discordam falham sempre.

Convém reconhecer que, apesar de intrinsecamente tontas, na prática estas alucinações funcionam. Não obstante a brutal inépcia de que já deu provas, o eng. Sócrates continua a dispor de um número considerável de seguidores fervorosos. Pior: mesmo entre os adversários há quem lhe atribua o tipo de características que constituem o chamado "carisma", virtude exaltada em sociedades primitivas e que quando não suscita veneração suscita uma espécie de asco respeitoso. Ou medo. Donde as expectativas de índole diversa fomentadas pelo regresso da criatura e o sucesso de audiências do regresso propriamente dito.

Perante isto, impõe-se uma questão: as pessoas andarão maluquinhas? Bem espremido, o eng. Sócrates merece tanta consideração quanto o título que precede o nome. Em matéria de ridículo, demonizá-lo equivale a beatificá-lo, no sentido de se lhe dar a importância que ele evidentemente não possui. O mito do "animal feroz", que o próprio mitómano inventou a ver se colava, colou de facto e tornou-se um dado adquirido a fiéis e a inimigos, os quais deveriam parar para pensar no exagero em que incorrem.

Descontado o folclore alusivo, a que se resume afinal o eng. Sócrates? A pouquito, uma mediocridade arrogante e uma calamidade política que subiu na carreira à custa de manha, sorte e atraso de vida. Foi justamente o atraso de vida que proporcionou o típico encanto de alguns face à prestação televisiva da passada quarta-feira.

Não importa que o eng. Sócrates tenha passado a entrevista a exprimir-se em língua-de-trapos (repetiu em 57 ocasiões a palavra "narrativa", nenhuma no contexto adequado), a contar mentirolas cabeludas, a desfilar desfaçatez e a exibir impertinência perante jornalistas aliás meigos. Não importa que compare uma dívida pública agravada em prol da propaganda eleitoral com os empréstimos necessários para atenuar os efeitos da bancarrota que a propaganda provocou. Não importa que explique o luxo de Paris com uma dívida privada e hilariante. Não importa que, com a discutível excepção do ataque às trapalhadas do PR, a prestação do eng. Sócrates roçasse o patético. Importa insistir que o "animal feroz" se mostrou preparadíssimo e mantém uma relação privilegiada com as câmaras. Mário Soares considerou a entrevista "brilhante" e, notoriamente excitado, um antigo funcionário do portento proclamou: "Sócrates ama a televisão e a televisão ama Sócrates."

Seria cruel interromper o idílio, que de resto prosseguirá em doses semanais a partir de Abril. Os fiéis do eng. Sócrates aproveitarão para se deliciar com o exercício e os que vêem no sujeito a origem do Mal poderão entreter-se a exorcizá-lo. Pelo meio, é possível que, programa após programa, laracha após laracha, uns tantos ganhem bom senso e comecem a reduzir aquela lamentável figura à sua verdadeira dimensão, a de um vendedor de patranhas que, orientado pela vaidade, fundamentado na inépcia e sustentado por pasmados e oportunistas, ajudou mais do que qualquer outro a arruinar o país. Sendo certo que os estudos em Paris não ensinaram nada ao eng. Sócrates, talvez os portugueses que por cá pagam a factura do seu intelecto aprendam uma ou duas coisinhas.

Das Testemunhas da Constituição




Do PREC* que ainda por aí anda, de pedras na mão e saído debaixo delas











PREC.

UDP

MRPP (hoje denominado PCTP-MRPP)

sexta-feira, 29 de março de 2013

E começou a discussão...!



Lê-se aqui:
Um estudo do Bundesbank concluiu que o património das famílias alemãs é inferior ao das espanholas ou ao das italianas.
Um estudo do Bundesbank conclui que o património das famílias alemãs é inferior ao das espanholas ou ao das italianas e foi muito criticado na Alemanha, por se basear numa metodologia considerada pouco fiável.
A edição do Spiegel Online, citada hoje pela AFP, estimava na sexta-feira que o estudo do banco central alemão tem uma série de problemas metodológicos, nomeadamente no que se refere ao universo abrangido, ao património considerado e às datas de referência.
De acordo com o Bundesbank, as famílias alemãs detêm, em média, 195.200 euros, enquanto as francesas têm 229.300 euros e as espanholas 285.800 euros.
O património mediano (o nível acima do qual se situa a média das famílias) seria apenas de 51.400 euros na Alemanha, ou seja, duas a três vezes menos do que em França (113.500), em Espanha (178.300) e em Itália (163.900).
Face a estes números, que suscitaram espanto, a principal explicação apontada pelo Bundesbank é a baixa proporção de alemães proprietários de casa por comparação aos outros países da Europa.
Apenas 44,2% dos alemães é dono da sua habitação, contra 57,9% dos franceses e 82,7% dos espanhóis, de acordo com o banco central alemão, que estima que os proprietários imobiliários são, em média, mais ricos do que os outros.
O estudo foi amplamente mediatizado na Alemanha, numa altura em que a chanceler alemã, Angela Merkel, está sob pressão para defender os interesses dos contribuintes germânicos, embora seja criticada pelos outros países do euro por falta de solidariedade.
O relatório foi também muito criticado pelas datas de referência consideradas: por exemplo, o património detido pelos espanhóis refere-se a dados de 2008, sendo que os preços das casas caíram depois da bolha imobiliária em Espanha.
Além disso, o estudo também não considera os direitos à reforma nem as prestações sociais, que representam a quase totalidade da riqueza das famílias mais pobres.
Comparar o património das famílias, e não das pessoas individuais, coloca também um problema, na medida em que a dimensão média é maior nos outros países europeus do que na Alemanha, que tem muitas pessoas que vivem sozinhas.
Interrogado na sexta-feira, um porta-voz do Bundesbank escusou-se a fazer comentários, mas esclareceu que o estudo incide sobre as famílias alemãs e que, "para as comparações internacionais, é preciso esperar pelos números do Banco Central Europeu".

quinta-feira, 28 de março de 2013

A SIMPLICIDADE DA SITUAÇÃO SÍRIA


 

O que está acontecendo na Síria é, de fato, muito simples: um governante e seu grupo se recusam a deixar o poder, e para isso massacram seu próprio povo, o verdadeiro soberano do país. Nada pode ser mais ilegítimo, infame e obsceno. Por que, então, aviões ocidentais simplesmente não bombardeiam os palácios de Assad e acabam com a obscenidade, a infâmia e a ilegitimidade? Porque a guerra civil não cessaria, até que alguém emergisse com força bastante para impor-se como novo governante. Nesse momento, se o Ocidente quisesse influir na escolha (e certamente teria de fazê-lo, tendo em vista a experiência do Afeganistão, de cuja guerra civil emergiu o Taleban, sunita como a maioria síria), o único modo seria se envolver na luta. E isto, depois do próprio Afeganistão e do Iraque, não acontecerá. Há, porém, uma alternativa: o apoio em armas, informações e logística para os rebeldes, a fim de que estes destruam Assad e tomem ao mesmo tempo o poder, encerrando a guerra. Acontece que os rebeldes são muitos. Muitos grupos diferentes unidos pela causa comum contra o ditador genocida. O risco, então, é uma repetição agravada da Líbia, que após a queda de Kadafi se encontra, na prática, dividida entre senhores da guerra. Mais uma vez, volta-se ao fantasma do prolongamento da guerra civil, com resultados imprevisíveis, a não ser que haja uma intervenção ocidental... O que acontece na Síria não é uma mera guerra civil, mas uma tragédia na acepção da palavra, em que o herói luta porque tem de lutar, enquanto o próprio fato de lutar é a realização de sua destruição, não a chance, como acredita, de se livrar de seus infortúnios. O herói, aqui, naturalmente é o próprio povo sírio. A frase de Brecht (“Triste do país que precisa de heróis”) poucas vezes foi tão real e tão amarga.