segunda-feira, 24 de junho de 2013

BRASIL: TUDO FALSO, TUDO FARSA

 
 
Publiquei o texto abaixo em 21-12-2011 (no site Sibila). Acredito que, dois anos antes do "surpreendente" terremoto anual, ele explica, premonitoriamente, algumas coisas.



O Brasil é um BRIC. Ou seja, faz parte do “luminoso” e ominoso grupo dos superemergentes, ao lado, literalmente (ou literamente), de Rússia, Índia e China. Portanto, também é um bric, um tijolo que arrima o futuro do mundo... Lula pode ter perdido a voz e a barba, mas o Brasil não tinha perdido a pose de país da “nova classe média”,que compra feliz e febril nos crediários sem fim ofertados a toda a imensa multidão de novos e velhos otários. Qual o problema de pagar por uma Mercedes e levar um Gol, se antes não se conseguia sequer ter um Fusca? Mas acabou.
As compras podem continuar febris, porém o comprador não é feliz. Nunca foi. E isto não é uma opinião.
A organização
Legatum Institute, que pesquisa o Legatum Prosperity Index, índice de prosperidade relativa entre os países de todo o mundo, acaba de publicar a sua pesquisa de 2011. A lista dos primeiros dez não surpreende: Noruega, Dinamarca, Austrália, Nova Zelândia, Suécia, Canadá, Finlândia, Suíça, Holanda e EUA. O que talvez surpreenda sejam as variáveis envolvidas: economia, oportunidade, governo, educação, saúde, segurança, liberdade pessoal e capital social. E tudo isso se traduz no grau de “life satisfaction”, satisfação com a vida, ou sensação de bem-estar, de cada população – o que o Prosperity Index, enfim, mensura. Ou seja, os noruegueses, aqueles pálidos nórdicos frios, são os mais satisfeitos da vida. E os americanos não fazem nada feio, apesar das cassandras canhotas que vivem a decretar e redecretar sua infelicidade. E onde fica, afinal, o Brasil varonil com seu céu de anil e seu alegre povo mestiço, sambista, futebolista, carnavalesco e tropical? Em um triste, insatisfeito e insatisfatório 42º lugar...

Economia: a do Brasilzão é uma das maiores do mundo, mas isso não muda nossos preços estratosféricos, nossos impostos insanos, nossos juros obscenos, nosso capitalismo primitivo e parasita etc.;
Oportunidade: não é muito difícil imaginar que a vida de um norueguês médio oferece oportunidades de todos os tipos maiores e melhores que as de um brasileiro médio em sua mediania provinciana;
Governo: a ineficiência e a corrupção do Estado brasileiro, em todos os níveis, estão além da capacidade de imaginação do norueguês menos satisfeito;
Educação: ocioso comentar;
Saúde: idem;
Segurança: idem idem;
Liberdade pessoal: qual a verdadeira liberdade de quem vive preso pela necessidade de enfrentar dia a dia pequenos, médios e grandes problemas evitáveis que a inépcia, a incúria e a ignorância nacionais oferecem em doses mais do que satisfatórias?;
Capital social: em meio à deseducação, à insegurança, ao desperdício etc., muito pouco resta. Resta concluir que o mito do povo alegre e brejeiro não passa de renomada besteira.
 
Trata-se, afinal, tão-somente de aparência. No Brasil se sorri e se ri muito fácil. Também se abraça muito facilmente. Tudo falso, tudo farsa. O sorriso é a arma maior contra o “horror à distância” (Sérgio Buarque) que caracteriza a brutalidade e a caipirice social do bravo povo brasílico. O abraço idem. Encurtada a distância, nem se apanha nem se acanha.
O fácil sorriso dos brasileiros é uma promessa facial de uma felicidade não dificultosa, mais do que a tradução muscular de uma satisfação conquistada. E tem tanto valor quanto qualquer promessa feita com um sorriso fácil. A seriedade norueguesa é, na verdade, mais verdadeiramente alegre. Apesar do samba, dos bambas, dos bambambans e de todos os balangandãs. Ou por causa deles.

SUPER SÍNTESE BRASILIANA

 
 
Trata-se de uma fala do jornalista carioca Ricardo Boechat, no calor do momento, que é talvez a melhor e mais forte síntese espontânea feita até agora sobre o terremoto popular que está fazendo o Brasil institucional tremer. Não consegui copiar o aúdio diretamente para o blogue, então posto o link. Quem ouvir verá (não precisa copiar; basta clicar, que se abre sozinho, abrindo uma visão imediata mas clara do que se passa em Santa Cruz [o melhor está no fim, como no caso do terremoto em curso]):
 

domingo, 23 de junho de 2013

E do Brasil?

Lamento, mas vejo mais sombras que razões para respirar. Não acredito que os marxistas não façam o tiverem que fazer para manter as rédeas do poder.

É verdade que muito nas manifestações vai por dar à justiça o que é da justiça, mas também sei que isso não aplacará os mensalões. Eles não se coibirão de legislar o que tenha que ser legislado para manter o fulcral, mesmo que sacrifiquem um ou outros dos seus. No marxismo, a causa tudo justifica.

Também não me parece que nas manifestações esteja, mesmo que superficialmente presente, qualquer reivindicação no sentido da libertação da país face à presença tentacular do estado (parece-me até o contrário). Mesmo que o governo venha a mudar de mãos (nem me atrevo a perguntar quando ou para quem), os militantes entretanto entrincheirados no sistema continuarão a "revolução" de uma forma ou outra. Em Portugal, numa posição que nesta matéria me parece ser tremendamente menos grave, os militantes de esquerda obrigam qualquer governo que não veja os seus propósitos com bons olhos a tropeçar sistematicamente neles.

Como diz Reinaldo Azevedo:
E, acreditem, o Brasil avançou nesse período. Nos últimos anos, o registro mudou e a marginalidade social e a exclusão passaram a ser vistas como uma nova cultura, com valores afirmativos, de resistência. No que isso vai dar? Está aí mais uma coisa que não sei. Mas sei outras tantas. Sei, por exemplo, que isso não gera renda, não distribui renda, não resulta em ganhos coletivos, não resulta em ganhos individuais, não resulta em nada. 
 O que se passa no Brasil tem muita pinta de "primavera árabe". Oxalá me engane.

sexta-feira, 21 de junho de 2013

quinta-feira, 20 de junho de 2013

Palestra Prof. Ricardo Felicio


Palestra proferida no evento "Paisagem, cidade e mudanças climáticas: por uma discussão no ensino médio". Realizada na Faculdade de Arquitetura e Urbanismo da Universidade de São Paulo (FAU-USP).

Um "Olhos nos Olhos", do passado Abril, que julgo muito interessante


Petição pela FENPROF

Quem percebe desta coisa de petições?

Quem avança com uma para que sejam cedidas à FENPROF uma quantidade de escolas proporcional ao seu peso sindical, em pé de igualdade com as escolas públicas de propriedade privada (as tais das rendas obscenas), trabalhando com os seus associados (que se desvincularão da função pública) e recebendo de acordo com o nº de alunos que optarem pelas escolas da FENPROF?

Brasil: vai ou não vai?




- Os manifestantes organizam-se para denunciar e prender os desordeiros e assaltantes;

- Alguns desses desordeiros e assaltantes são também denunciados como PTetistas;

- A polícia agradece aos manifestantes por estas iniciativas para repor a ordem;

- Os manifestantes denunciam a tentativa de controlo do movimento por parte dos partidos;

- Os manifestantes exigem combate definitivo à corrupção e melhoria de condições de vida condizentes com um estado democrático moderno, falando do regime político brasileiro como sendo uma ditadura;

- O movimento alastra e reforça-se, com a social-comunicação sem saber já muito bem para onde se virar, não vá ter que mudar de dono.


Pode ser que me engane, porém estou convencido de que, tal como na Turquia, a coisa há-de ir. Com avanços e recuos, com mais ou menos tempo. Mas que nada voltará a ser igual.

quarta-feira, 19 de junho de 2013

"Revolta popular"

Condena a violência mas a culpa é do perfeito. Nããã ... isto não augura nada de bom (negrito meu).
O MPL (Movimento Passe Livre) disse condenar a violência, mas classificou como "revolta popular" os atos de vandalismo e saque ocorridos ontem em São Paulo.

Marcelo Hotimsky, um dos líderes do MPL, disse que os episódios registrados ontem são a prova de que "o prefeito vai ter que baixar a tarifa".

"Tudo o que aconteceu é a revolta popular. Se quiser manter a cidade em ordem, vai ter que mudar para conter esse sentimento de revolta", afirmou Hotimsky em entrevista à Folha.

Ele afirmou que não há o que comentar sobre os saques. Hotimsky afirmou que o grupo condena a violência, mas entende que o que ocorreu é fruto da revolta.

Divulgação





As elites, novas e velhas

No Blasfémias, algo que todos devem colocar na mesa de cabeceira, na mesa de trabalho e pendurado no retrovisor. Algo que todos os políticos e sindicalistas devem obrigatoriamente ler 10x antes de abrirem a boca (mesmo para arrotar, exactamente para evitarem iluminados arrotos).
Agora que se sente no ar alguma descompressão e se aproxima a saída da Troika vale a pena seguir as soluções propostas pelas velhas e novas elites. Estas soluções serão de vários tipos:

Soluções “culto da carga”: A ideia será sempre simular os sintomas de desenvolvimento imitando-os. Por exemplo, países ricos têm taxas de juro baixas, a solução para Portugal é taxas de juro baixas. Os países ricos têm elevados níveis de educação, a solução para Portugal é aumentar o número de licenciados e gastar dinheiro em educação. Os países ricos têm um número elevado de patentes, sai um subsídio para promover o registro de patentes.

Soluções “políticas”: São as soluções em que um passe de mágica político resolve um complexo problema económico. O grande exemplo desta categoria de soluções é a proposta já quase unânime entre as elites de demitir Vitor Gaspar. Mas podia ser demitir o governo, fazer um governo de salvação nacional, eleger um líder alternativo etc.

Aposta nas “apostas”: Algumas palavras chave para reconhecer más ideias: “aposta”, “prioridade”, “designio”, “cluster”, “crescimento”. Mal se sintam libertas de constrangimentos, as nossas elites vão começar a debitar mais vezes estas palavras.

Soluções “mandem dinheiro”: Eurobonds, orçamentos europeus, subsídios de desemprego europeus, juros mais baixos, perdões de dívida. Também conhecida pela solução “Pai Natal”, as nossas elites adoram dinheiro caído do céu.

Soluções “não sei fazer contas”: Tudo o que envolva resolver um problema de milhares de milhões de euros com soluções de milhares de euros. Do tipo, “temos que acabar com as mordomias dos políticos”. Outra variante é pagar o défice com dinheiro virtual, seja da economia paralela, seja dos off shores seja da Taxa Tobin.

Soluções “back to 2007″: Estas soluções envolvem recuperar o modelo de Estado e de economia pré-crise. Inclui sempre mais despesa, mais défice, mais dívida, mais obra e mais projectos sem procura.

Haverá sempre algo de comum a estas soluções: não envolverão nem trabalho, nem esforço, nem poupança.

REVOLTA CIVIL NO BRASIL. POR QUÊ? POR QUE AGORA?







O que de repente mudou no Brasil na semana passada, para que o Brasil parecesse de repente mudado? A pergunta, algo circular, reflete a dificuldade generalizada em compreender o que se passa e mesmo por que se passa, pois o Brasil é, historicamente, caracterizado por uma cidadania débil, que em momentos de exceção se manifesta para, como regra, viver mergulhada na apatia política. Trata-se, então, de mais uma exceção. Ou será o começo de uma mudança histórica?
Estou em São Paulo, e, pela TV, parece Istambul. Mas os manifestantes logo respondem a isso: “Não é a Turquia / Não é a Grécia / É o Brasil / que saiu da inércia.” Em mais uma exceção, ou como início de uma mudança histórica?
Se em Istambul o estopim foi um parque, em São Paulo foram vinte centavos de aumento na passagem do ônibus. Mas logo isso foi rapidamente ultrapassado: “Não são os centavos, são os direitos!”. E esses direitos todos sabem quais são.
Eles são, simplesmente, os direitos básicos de uma sociedade moderna, como saúde pública de qualidade, educação pública de qualidade, transporte público de qualidade, segurança pública que mereça o nome e uma administração democrática, republicana ou transparente da coisa pública. Nada disso jamais existiu no Brasil, mas o contrário, sim. Saúde pública abjeta, educação pública indigente, transporte público infame, segurança pública nenhuma, administração corrupta e autista da coisa pública.
Mas se sempre foi assim, por que agora?
A questão, então, não é de fato por que, mas por que agora.
O Brasil sempre viveu em meio ao binônio anomia (política) e apatia (pública). Quando terminou a ditadura militar, a vitória das forças democráticas lhe foi roubada. Enquanto em todos os demais países da América Latina o fim do governo militar foi o fim do governo militar, com sua substituição pelos líderes e partidos da oposição, no Brasil foi feito um arranjo pelo qual um nome palatável aos militares, Tancredo Neves, foi indicado presidente por uma “eleição indireta” dentro do Congresso controlado pelos mesmos militares. Ele morreu sem tomar posse. Assumiu seu vice, o notório José Sarney, oligarca nordestino e líder notório do partido de sustentação do regime militar... Depois houve, por fim, eleições diretas. Mas num quadro político-institucional e midiático tal que o eleito foi outro membro do partido de sustentação do regime militar, além de também oligarca nordestino, Fernando Collor.
Collor levou seu voluntarismo oligárquico de Fortaleza para Brasília, onde pretendeu governar com sua camarilha, além de tentar impô-la à grande camarilha oligárquica que tocava seus negócios habituais no Congresso. Daí nasceu seu processo de impeachment, que foi abraçado pelas massas nas ruas, num súbito surto de participação política. 
Assume então seu vice, Itamar Franco, afinal egresso da oposição ao regime militar, mas político mineiro provinciano e sem envergadura, que convoca para apoiá-lo o “príncipe da sociologia brasileira”, Fernando Henrique Cardoso, a quem designou primeiro para o ministério do exterior, depois para a economia, quando dá cabo da hiperinflação histórica e cria uma nova moeda, o real. FHC então se elege sucessor de Itamar e abre o mercado, libera o câmbio e institui as agências reguladoras dos serviços públicos, além do primeiro programa de inclusão social, o bolsa-escola. Então FHC foi substituído por Lula. E agora estamos perto da atual revolta civil.
Pois resultou que Lula e o PT eram uma farsa (uns poucos o perceberam de imediato; muitos o estão percebendo agora). Farsa porque passaram vinte anos afirmando ser a socialdemocracia brasileira, que realizaria as reformas históricas jamais realizadas (para além das reformas da conjuntura econômica de FHC), cujo adiamento adiava a entrada do país na modernidade e da população na cidadania moderna. Mas era farsa e era mentira. O PT não tinha um programa de governo, quanto mais um projeto de reformas de base. Era uma máquina de subir ao poder. Uma vez lá, não teve alternativa além de se integrar e se entregar à velha política brasileira, agora na condição de líder. 
A política econômica de FHC foi, então, basicamente mantida, com controle de inflação via juros altos. Isso gerou certa estabilidade que permitiu algum crescimento econômico, e também algum aumento de consumo, tanto pelo crescimento econômico quanto pelo aumento da oferta de crédito subsidiado quanto, afinal, pela ampliação dos mecanismos de distribuição direta de renda, com o bolsa-escola de FHC agora transformado em bolsa-família. E isso é quase tudo.
Pois tudo o mais que era grave e grande carência histórica nacional, e que só poderia ser alcançado através de grande e grave conjunto de reformas, jamais foi sequer esboçado. Nada de reforma política, fiscal, previdenciária, educacional, jurídica, policial etc. Mas muitas reformas de estádios de futebol, para a Copa do Mundo vindoura, a um custo de dezenas de bilhões de reais (ou de euros).
Ao mesmo tempo, o país via o conjunto de sua infraestrutura ser sucateada. Hoje, estradas, portos, aeroportos, ferrovias, distribuição de energia, segurança pública, escolas públicas estão aos pedaços ou estressados e à beira do colapso. Mas há incontáveis novos estádios.
Quando a galinha de Lula afinal pousou, foi a gota d´água. A galinha é o crescimento da economia no Brasil. Pois aqui se diz que a economia brasileira, historicamente, quando cresce, cresce em “voo de galinha”. Ou seja, uma rápida subida para um ainda mais rápido tombo logo à frente. Lula jurou e berrou que desta vez a galinha voaria como uma águia. Mas galinhas são galinhas. A incapacidade do Estado, apesar dos níveis suecos de arrecadação de impostos, de melhorar a infraestrutura a fim de manter o voo explica sua não-manutenção, assim como a própria incapacidade se explica pela inépcia, pela corrupção generalizada, pelos objetivos particulares das lideranças políticas, pelas políticas erráticas, pelo cacoetes ideológicos e pela necessidade de agradar aos grupos de interesse. Mas, em compensação, o governo, agora com Dilma, foi eficiente na construção de dezenas de novos e modernos estádios de futebol, naturalmente superfaturados, pois ninguém é perfeito.
Quando a galinha desceu, a inflação subiu. Com ela, subiram as passagens de ônibus. Então um grupo de estudantes saiu às ruas em São Paulo para exigir a revogação do aumento. A truculenta e militarizada polícia estadual os atacou selvagemente, ferindo muitos e detendo muitos mais. Tudo somado, de repente a população saiu às ruas em todas as cidades do país, como formigas abandonando um formigueiro inundado, em reação a tudo isso.
A atual revolta civil no Brasil, que não para de se espalhar e de se intensificar (manifestações ainda maiores foram convocadas para a próxima quinta-feira, 20/06), não tem líderes e não tem reivindicações claras. É um movimento de indignação, que significa, em primeiro lugar, o fim da ilusão lulopetista do “novo Brasil” dourado, e marca também o fim de certa resignação histórica profunda, de uma sociedade sempre mantida distante do Estado muito além da distância normal ou aceitável numa democracia moderna.
Não há nenhum líder, e sequer há muitas palavras de ordem. A mais objetiva, até agora, é “Abaixo os impostos!”. E, claro, “Não são os centavos [das passagens], são os direitos [básicos]”.
Mas, afinal, por que exatamente agora?
Porque houve um recente crescimento econômico, antes de a galinha gorda de Lula e Dilma começar a adernar perigosamente as asas. Porque esse crescimento tirou da sombra parte da grande parte dos excluídos históricos. E também lhes levou mais informação, incluindo a internet.
A revolta brasileira deve ser a mais conectada de todas as recentes revoltas mundiais. Não existe um brasileiro fora dos berçários sem celular.
Portanto, apesar de ainda galináceo e manco, o país não é mais um país perfeitamente pobre. Mas se não é mais um país pobre, por que ainda é um país de merda? Em suma, pela primeira vez na história parece que os brasileiros, menos pobres e melhor informados, não aceitam mais viver num país fedido (o Brasil tem a 6a. maior economia do mundo, e é o 85o. no IDH [índice de desenvolvimento humano]: uma defasagem de mais de mil por cento).
Ninguém sabe ou pode saber em que tudo isso vai dar. Mas em algo já deu. Quebrou o autismo da classe política brasileira, que acreditava poder governar o país como se habitado por um bando de palhaços, a quem só interessam o carnaval e o futebol. Os brasileiros estão gritando “Fora Copa!”. Além disso, fez perder a virgindade política da sociedade civil, que rompeu o hímen de sua apatia histórica ante a anomia igualmente histórica do Estado. Portanto, não há volta. Não há mais virgens.
Ainda que essa revolta sem líderes nem demandas políticas claras, e, portanto, exigíveis, acabe por perder o ímpeto, e se desfaça como uma onda na praia da indiferença política, esse mar que se comportava como um lago sabe agora ser um mar, e que pode produzir ondas quando queira. Não importa tanto, portanto, ainda que agora importe tudo, o possível ou provável fim dessa onda, mas o fato de que, no futuro imediato, outras ondas se erguerão, assim que algum vento de través soprar. E eles sempre sopram no Brasil.




terça-feira, 18 de junho de 2013

Vai uma boa gargalhada?

E aqui está ele de novo...








Ninguém ensina os professores?

A greve dos professores suscitou um manifesto de apoio por parte de 22 autodesignados artistas, do cançonetista Carlos Mendes ao filhote de Lucas Pires. O manifesto começa com uma relativa evidência: "Sem Educação não há país que ande para a frente." Infelizmente, prossegue com generalizações diversas, umas difíceis de provar, outras fáceis de desmentir. O tom geral é o de que a classe docente constitui uma entidade abstracta, sempre maravilhosa, incansável e esclarecida. Em Portugal, o sabujismo rende.

(imagem recolhida aqui)

Donde a proliferação dos sabujos. Além de subscrever o texto, o escritor José Luís Peixoto alinhavara, em 2011, um texto pessoal no qual desenvolveu os arrebatamentos líricos e que o site do Bloco de Esquerda agora resgatou: os professores, garante a promessa da ficção nacional, trazem consigo "todo o conhecimento do mundo que nos antecedeu". Além disso, os professores "não vendem o material que trabalham, oferecem-no", visto que "o trabalho dos professores é a generosidade". Os professores, com "as suas pastas de professores, os seus blazers, os seus Ford Fiesta com cadeirinha para os filhos no banco de trás" são, jura o sr. Peixoto, "os guardiões da esperança". Os professores "ensinaram-nos que existe vida para lá das certezas rígidas, opacas, que nos queiram apresentar". E quanto a nós, antigos alunos, "basta um esforço mínimo da memória, basta um plim pequenino de gratidão para nos apercebermos do quanto devemos aos professores".

(imagem recolhida aqui)

Bonito, porém improvável. Se me inclinar ao tal esforço mínimo, e máximo, da memória, não abundam os "plims" (?) pequeninos de gratidão. Ao contrário do sr. Peixoto, homem de sorte, nunca tive professores que trabalhassem de borla, tive poucos carregados de conhecimento, ignoro os modelos dos automóveis que conduziam e, ao que me lembro, a função da maioria consistia justamente em encher-nos de certezas rígidas e opacas. Comecei a espernear no dia em que me arrastaram para a "primária". Parei de espernear no dia em que concluí a licenciatura, de longe o maior alívio que senti na vida.

(imagem recolhida aqui)

É claro que, da primeira à quarta classe e à custa de salvíficas reguadas, a dona Julieta me ensinou a fazer contas (da leitura e da escrita os meus pais e avós trataram antes). É claro que, no liceu, recordo meia dúzia de almas competentes e uma dúzia de almas esforçadas. E é claro que não esqueço um certo professor de história económica na faculdade. O resto foi uma imensa perda de tempo, às vezes uma tentativa de desvitalização do cérebro e, muito por feitio meu, uma longa tortura, que nem as benesses escolares alheias às aulas resgataram. Levei com gente que nos forçava à escuta de "Zeca" Afonso, gente que presumia a familiaridade de adolescentes com Schrödinger, gente convencida de que Pierre Bourdieu era um pensador, gente parcialmente analfabeta, gente que corria para a janela a cada avião, gente que sumia o ano inteiro mediante "baixa" (juro que não me importava), etc. Fabricar uma imagem idílica da docência é equivaler as fraudes aos profissionais sérios - e caluniar estes.

(imagem recolhida aqui)

Pior: nivelar os professores por cima é uma burla idêntica à padronização por baixo que há décadas se aplica aos alunos e que, de resto, torna anacrónica a conversa acerca das virtudes e defeitos do ensino. A época em que, bem ou mal, os professores ensinavam morreu. Hoje, procuram sobretudo escapar das agressões verbais e físicas que alunos e famílias de alunos lhes dedicam. As criaturas que por oportunismo louvam em tons absurdos o papel dos professores são as mesmas que se calam quando um professor apanha uma sova por ousar sossegar a irreverência das criancinhas. Com frequência, o Ford Fiesta aparece sem pneus a título punitivo.

(imagem recolhida aqui)

E se não são delinquentes a humilhar os professores, os próprios tratam do assunto por via sindical: marcar uma greve que se pretende incómoda para as datas dos exames é assumir que já só são imprescindíveis nas funções de vigilância, tarefa que uma câmara de 50 euros ou um contínuo com o salário mínimo desempenhariam com brio similar. E o Governo, que não accionou a câmara nem o contínuo, dá-lhes razão fingindo não a dar. Para quem acumula todo o conhecimento do mundo, impressiona o desconhecimento que tantos professores têm do seu. Ninguém é capaz de os ensinar?



Os gregos

O fecho da televisão e da rádio públicas na Grécia está a provocar um "choque (...) na opinião pública grega e no resto da Europa". Pelo menos essa é a interpretação feita pelo jornalista da nossa RTP que redigiu a notícia, certo de conseguir interpretar o sentimento da humanidade. A Comissão de Trabalhadores da RTP é mais modesta e acha-se apenas capaz de interpretar o sentimento dos portugueses: "Somos todos gregos", afirma um comunicado da entidade, que apropriadamente compara o acontecimento à opressão comunista no Leste europeu e, não satisfeita, ainda lembra o silêncio dos emissores de Atenas durante a ocupação nazi. Do Gulag e do Holocausto ao fim do Preço Certo a diferença é residual. Mas seremos de facto todos gregos?

Duvido. Tirando os dois ou três amigos distantes que tenho nos canais do Estado, os quais defendem justificadamente o emprego, e um amigo próximo, aliás de esquerda, que passou por lá, não gostou do que viu e sonha com vingança, não conheço ninguém que sequer notasse o eventual sumiço da RTP. Salvo para coisas como a PBS americana, co-financiada por recolhas de fundos e centrada na transmissão de documentários sobre a desova do salmão, uma estação pública não faz sentido por princípio. Uma estação pública cuja programação sai cara e se confunde com a de largas dezenas de alternativas é um insulto ao bom senso.

Há quem discorde? A julgar pelos ecos na imprensa, parece que sim. Não faltam gritos de alerta a cargo de (chocadíssimos) patriotas que elevam a RTP a garante da liberdade, da democracia, da coesão, da soberania e, delírio por delírio, da independência nacionais. Seja. Dado que a mim me incomoda menos a existência da RTP do que ter de pagá-la, os patriotas que a paguem. No fim, ainda se sentirão mais falidos, mais gregos e, pelos vistos, mais felizes.



O voto e a vergonha

Não tinha idade para votar Eanes e, na medida em que não sou masoquista, nunca votaria Soares ou sequer nesse monumento à candura chamado Jorge Sampaio. Votei em Cavaco Silva para a presidência. Duas vezes. Dadas as alternativas, ainda não me arrependi. Convinha era que o prof. Cavaco não forçasse a nota. Mesmo que os seus antecessores não fossem estetas da língua, as recentes inovações lexicais do "fazerei" e dos "cidadões" confundem. Mesmo que os seus antecessores não descurassem as artimanhas de conveniência e sobrevivência política, o discurso do Dez de Junho, voltado para a justificação dos actos próprios enquanto primeiro-ministro, deprime. Já o julgamento sumário do exaltado que chamou chulo a Sua Excelência e a mandou trabalhar assusta: mesmo que pelo menos um dos seus antecessores mandasse suprimir um livrinho incriminatório e o respectivo autor, eu, repito, não votei nele nem nos demais. Votei neste, e se o confesso sem orgulho, não tarda escondo-o com vergonha.

Quem é Mário Nogueira?

Ramiro Marques:
Há 22 anos que o MEC lhe paga para combater o MEC e fazer política a favor do PCP. Supondo que ganha em média 2000 euros brutos por mês, apesar de não dar aulas, este senhor já custou ao contribuinte português um pouco mais de 500 mil euros ao longo dos 22 anos que leva como dirigente sindical.

Henrique Raposo:
Um professor dá aulas e Mário Nogueira não dá aulas há mais de 20 anos. Parece mentira, mas este senhor está num perpétuo horário zero há duas décadas. A sua "carreira" docente conta com 32 anos de serviço, mas, na verdade, o Glorioso Líder da Fenprof só deu aulas nos primeiros 10 anos de vida profissional. Os últimos 22 anos foram dedicados ao sindicalismo profissional. Não, Mário Nogueira não é professor, é sindicalista. O que me leva a uma pergunta óbvia: como é que alguém que não dá aulas há vinte anos pode representar com realismo as pessoas que dão aulas todos os dias? 

E esta comédia sindical não se fica por aqui. Por artes burocráticas impenetráveis, Mário Nogueira tem sido avaliado como professor: recebeu o "Bom" correspondente à classificação de 7,9 obtida no agrupamento de escolas da Pedrulha, Coimbra (Correio da Manhã, Dezembro 2011). Mais uma vez, um camião de perguntas bate à porta: se não dá aulas, como é que este indivíduo pode ser avaliado como professor? Como é que se opera este milagre da lógica? Entre outras coisas, parece que conferências e artigos de jornal contam para a avaliação de Mário Nogueira. Fazer propaganda da Fenprof, ora essa, é igual ao confronto diário com turmas de vinte e tal garotos. Justo, justíssimo, justérrimo. 

Se não é professor, quem é afinal Mário Nogueira? Na minha modesta opinião de contribuinte assaltado por horários zero e afins, Mário Nogueira é o verdadeiro ministro da educação. A cadeira do ministério vai mudando de dono, mas Mário Nogueira está lá sempre. Os governos sucedem-se, mas a Fenprof está lá sempre. E, com menor ou maior intensidade, as políticas educativas são determinadas pela Fenprof e não pelos governos democraticamente eleitos. A força das eleições nunca chega à tal escola pública, que é auto-gerida há décadas pela Fenprof. Curiosamente, TVs e jornais nunca fazem fogo sobre este sindicato. O poder da educação está ali, mas as redacções só sabem queimar ministros atrás de ministros. Nunca ouvi ou li uma entrevista a Mário Nogueira. Só vi e ouvi tempos de antena. Quem é Mário Nogueira? Um dos inimputáveis do regime.

Mais um marxismo se esboroa em marxismos

No Brasil, começa a guerra entre facções marxistas. Há muito Porco e pouco espaço no poder.

Evidentemente que se pressente que Dilma fechou a porta a Maduro quando este foi ao Brasil tentar obter a comida que a revolução marxista bolivariana fez desaparecer.

Os tentáculos das várias facções do Foro de S. Paulo começam a inquietar-se. Cuba está a jogar forte para entrar no Brasil.

Entretanto, já não há proventos do petróleo (ja foram gastos) que cheguem para as colossais despesas inerentes às encrencas desportivas em que o Brasil se meteu.

segunda-feira, 17 de junho de 2013

“EU SOU A LUZ, A VERDADE E A VIDA”


Cristo da Paciência - colecção da Casa-Museu José Régio

     
     Nem preciso dizer, a serem reais os Evangelhos e a terem algum poder operativo, quem disse estas palavras. E creio que não será necessário, de igual modo, apontar quem referiu a asserção de que “só a verdade salva”.

    No entanto, no universo dos interesses infames, das circunstâncias pervertidas e do cinismo tout court, mesmo que a verdade se meta pelos olhos adentro – é sempre conspiração, maldade para bloquear inocentinhos, malandrice de incréus e de potenciais habitantes do Inferno, em que aliás grande parte dos altos cargos nâo crêem, assim como não crêem no resto. Se cressem como podiam continuar a agir com nefanda intenção, mergulhados na mentira e na roubalheira e no abuso até ao pescoço? Lobos com pele de cordeiro, apenas visam o domínio, a crueldade para com o próximo mediante a avidez, a hipocrisia e a exacção.

   Foi há dias que o novel Papa Francisco, numa via de seriedade e de arroubo cristão, confirmou que havia no Vaticano uma verdadeira quadrilha de malandrins tonsurados e não tonsurados, apostados em, através da perfídia e da desvergonha, afundarem de vez a barca de Pedro.
    E tira-se esta conclusão assustadora, uma vez que tudo o que até então os desmascarava era, em jeito de contra-informação, atribuído a indivíduos diabólicos: se eles pudessem, defenestravam este Papa para o calarem, como hoje é patente que defenestraram o bom pastor Albino Luciani.

   Sem mais comentários, por desnecessários, vejamos o artigo recentemente dado a lume num dos mais importantes periódicos sul-americanos (argentinos), pelo jornalista Eduardo Febbro – correndo o risco de que a influência daqueles quadrilheiros (com ramificações em diversos países), o deixasse com a vida estragada.
   Mas dar testemunho é inegociável.
  Ainda que isso não quadre aos que, para empregar a frase justa do Abade Janin, “Batem com a mão no peito enquanto usam os pés para bater no próximo”.





Renúncia de Bento XVI expõe 'ninho de hienas enlouquecidas' no Vaticano


Paris – Os especialistas em assuntos do Vaticano afirmam que o Papa Bento XVI decidiu renunciar em março passado, depois de regressar de sua viagem ao México e a Cuba. Naquele momento, o papa, que encarna o que o diretor da École Pratique des Hautes Études de Paris (Sorbonne), Philippe Portier, chama “uma continuidade pesada” de seu predecessor, João Paulo II, descobriu em um informe elaborado por um grupo de cardeais os abismos nada espirituais nos quais a igreja havia caído: corrupção, finanças obscuras, guerras fratricidas pelo poder, roubo massivo de documentos secretos, luta entre facções, lavagem de dinheiro. O Vaticano era um ninho de hienas enlouquecidas, um pugilato sem limites nem moral alguma onde a cúria faminta de poder fomentava delações, traições, artimanhas e operações de inteligência para manter suas prerrogativas e privilégios a frente das instituições religiosas.


Muito longe do céu e muito perto dos pecados terrestres, sob o mandato de Bento XVI o Vaticano foi um dos Estados mais obscuros do planeta. Joseph Ratzinger teve o mérito de expor o imenso buraco negro dos padres pedófilos, mas não o de modernizar a igreja ou as práticas vaticanas. Bento XVI foi, como assinala Philippe Portier, um continuador da obra de João Paulo II: “desde 1981 seguiu o reino de seu predecessor acompanhando vários textos importantes que redigiu: a condenação das teologias da libertação dos anos 1984-1986; o Evangelium vitae de 1995 a propósito da doutrina da igreja sobre os temas da vida; o Splendor veritas, um texto fundamental redigido a quatro mãos com Wojtyla”. Esses dois textos citados pelo especialista francês são um compêndio prático da visão reacionária da igreja sobre as questões políticas, sociais e científicas do mundo moderno.

O Monsenhor Georg Gänsweins, fiel secretário pessoal do papa desde 2003, tem em sua página web um lema muito paradoxal: junto ao escudo de um dragão que simboliza a lealdade o lema diz “dar testemunho da verdade”. Mas a verdade, no Vaticano, não é uma moeda corrente. Depois do escândalo provocado pelo vazamento da correspondência secreta do papa e das obscuras finanças do Vaticano, a cúria romana agiu como faria qualquer Estado. Buscou mudar sua imagem com métodos modernos. Para isso contratou o jornalista estadunidense Greg Burke, membro da Opus Dei e ex-integrante da agência Reuters, da revista Time e da cadeia Fox. Burke tinha por missão melhorar a deteriorada imagem da igreja. “Minha ideia é trazer luz”, disse Burke ao assumir o posto. Muito tarde. Não há nada de claro na cúpula da igreja católica.




A divulgação dos documentos secretos do Vaticano orquestrada pelo mordomo do papa, Paolo Gabriele, e muitas outras mãos invisíveis, foi uma operação sabiamente montada cujos detalhes continuam a ser misteriosos: operação contra o poderoso secretário de Estado, Tarcisio Bertone, conspiração para empurrar Bento XVI à renúncia e colocar em seu lugar um italiano na tentativa de frear a luta interna em curso e a avalanche de segredos, os vatileaks fizeram afundar a tarefa de limpeza confiada a Greg Burke. Um inferno de paredes pintadas com anjos não é fácil de redesenhar.



Bento XVI acabou enrolado pelas contradições que ele mesmo suscitou. Estas são tais que, uma vez tornada pública sua renúncia, os tradicionalistas da Fraternidade de São Pio X, fundada pelo Monsenhor Lefebvre, saudaram a figura do Papa. Não é para menos: uma das primeiras missões que Ratzinger empreendeu consistiu em suprimir as sanções canônicas adotadas contra os partidários fascistóides e ultrarreacionários do Monsenhor Lefebvre e, por conseguinte, legitimar no seio da igreja essa corrente retrógada que, de Pinochet a Videla, apoiou quase todas as ditaduras de ultradireita do mundo.




Bento XVI não foi o sumo pontífice da luz que seus retratistas se empenham em pintar, mas sim o contrário. Philippe Portier assinala a respeito que o papa “se deixou engolir pela opacidade que se instalou sob seu reinado”. E a primeira delas não é doutrinária, mas sim financeira. O Vaticano é um tenebroso gestor de dinheiro e muitas das querelas que surgiram no último ano têm a ver com as finanças, as contas maquiadas e o dinheiro dissimulado. Esta é a herança financeira deixada por João Paulo II, que, para muitos especialistas, explica a crise atual.

Em setembro de 2009, Ratzinger nomeou o banqueiro Ettore Gotti Tedeschi para o posto de presidente do Instituto para as Obras de Religião (IOR), o banco do Vaticano. Próximo à Opus Deis, representante do Banco Santander na Itália desde 1992, Gotti Tedeschi participou da preparação da encíclica social e económica Caritas in veritate, publicada pelo papa Bento XVI em julho passado. A encíclica exige mais justiça social e propõe regras mais transparentes para o sistema financeiro mundial. Tedeschi teve como objetivo ordenar as turvas águas das finanças do Vaticano. As contas da Santa Sé são um labirinto de corrupção e lavagem de dinheiro cujas origens mais conhecidas remontam ao final dos anos 80, quando a justiça italiana emitiu uma ordem de prisão contra o arcebispo norte-americano Paul Marcinkus, o chamado “banqueiro de Deus”, presidente do IOR e máximo responsável pelos investimentos do Vaticano na época.

João Paulo II usou o argumento da soberania territorial do Vaticano para evitar a prisão e salvá-lo da cadeia. Não é de se estranhar, pois devia muito a ele. Nos anos 70, Marcinkus havia passado dinheiro “não contabilizado” do IOR para as contas do sindicato polonês Solidariedade, algo que Karol Wojtyla não esqueceu jamais. Marcinkus terminou seus dias jogando golfe em Phoenix, em meio a um gigantesco buraco negro de perdas e investimentos mafiosos, além de vários cadáveres. No dia 18 de junho de 1982 apareceu um cadáver enforcado na ponte de Blackfriars, em Londres. O corpo era de Roberto Calvi, presidente do Banco Ambrosiano. Seu aparente suicídio expôs uma imensa trama de corrupção que incluía, além do Banco Ambrosiano, a loja maçônica Propaganda 2 (mais conhecida como P-2), dirigida por Licio Gelli e o próprio IOR de Marcinkus.





Ettore Gotti Tedeschi recebeu uma missão quase impossível e só permaneceu três anos a frente do IOR. Ele foi demitido de forma fulminante em 2012 por supostas “irregularidades” em sua gestão. Tedeschi saiu do banco poucas horas depois da detenção do mordomo do Papa, justamente no momento em que o Vaticano estava sendo investigado por suposta violação das normas contra a lavagem de dinheiro. Na verdade, a expulsão de Tedeschi constitui outro episódio da guerra entre facções no Vaticano. Quando assumiu seu posto, Tedeschi começou a elaborar um informe secreto onde registrou o que foi descobrindo: contas secretas onde se escondia dinheiro sujo de “políticos, intermediários, construtores e altos funcionários do Estado”. Até Matteo Messina Dernaro, o novo chefe da Cosa Nostra, tinha seu dinheiro depositado no IOR por meio de laranjas.



Aí começou o infortúnio de Tedeschi. Quem conhece bem o Vaticano diz que o banqueiro amigo do papa foi vítima de um complô armado por conselheiros do banco com o respaldo do secretário de Estado, Monsenhor Bertone, um inimigo pessoal de Tedeschi e responsável pela comissão de cardeais que fiscaliza o funcionamento do banco. Sua destituição veio acompanhada pela difusão de um “documento” que o vinculava ao vazamento de documentos roubados do papa.

Mais do que querelas teológicas, são o dinheiro e as contas sujas do banco do Vaticano os elementos que parecem compor a trama da inédita renúncia do papa. Um ninho de corvos pedófilos, articuladores de complôs reacionários e ladrões sedentos de poder, imunes e capazes de tudo para defender sua facção. A hierarquia católica deixou uma imagem terrível de seu processo de decomposição moral. Nada muito diferente do mundo no qual vivemos: corrupção, capitalismo suicida, proteção de privilegiados, circuitos de poder que se autoalimentam, o Vaticano não é mais do que um reflexo pontual e decadente da própria decadência do sistema.

Eduardo Febbro

Até no sindicalismo a maldita e burguesa oferta e procura.

Segundo se diz, os professores não terão tempo para organizar uma luta em condições e acabam por se juntar a quem está organizado.

É uma teoria interessante. Os professores, a nata da sociedade, o grupo mais bem formado e informado, tem por calcanhar de Aquiles ser vítima do mercado sindical. O furibundo mercado "impõe" um sindicato estalinista como a melhor máquina de "luta".

sábado, 15 de junho de 2013

Da problemática da seleccionança

A escola estatal selecciona as crianças como nenhum colégio privado alguma vez o fez.

Vem de zona "problemática"? É de família "desestruturada"? É "preto"? Então aplica-se-lhe o direito de aprender apenas metade para que possa vir a usufruir do direito ao sucesso.

As 3 hipóteses em conjunto são mortais. Chegará ao 9º ano sem saber ler, escrever ou contar pelos dedos.