sexta-feira, 5 de julho de 2013

O Discurso do filho-da-puta segundo o Correio da Manhã


(imagem obtida aqui)


Estendo a mão para o jornal acabado de chegar à mesa do café. Na página 2, na rubrica do sobe-e-desce, vejo a foto de Nuno Crato com setinha vermelha para baixo, ao lado. Aponta a setinha para o facto de uma avaria no sistema informático do Ministério da Educação ter deixado os registos clínicos de 271 professores ao léu por uns minutos. A setinha aponta isso ao ministro.

Lembro-me do Discurso do filho-da-puta, de Alberto Pimenta. Mas não, não é bem isso. Teria que ser Discurso filho-da-puta tosco do tosco pequeno filho-da-puta. Ou... Fecho cuidadosamente o jornal e ponho-o de novo a jeito de quem passe. Talvez alguém se lembre ainda de outros títulos mais... exactos.

quinta-feira, 4 de julho de 2013

O EGITO E O FRACASSO CIVILIZACIONAL DO ISLÃ



1.

O óbvio será dito e redito sobre o recente golpe militar no Egito: que um golpe é um golpe, e que todo golpe contra um governo democraticamente eleito é antidemocrático. É óbvio, mas não necessariamente verdadeiro.
Um governante não recebe um selo de qualidade democrática de validade automática e perene. Para ser democrático, um governo deve ser constituído de forma democrática e governar de forma democrática. Mas a segunda parte da equação é sempre convenientemente esquecida pelos defensores abstratos da democracia, ou pelos defensores da democracia abstrata, sem nexos com os fatos. É então enfadonho mas necessário relembrar que Hitler foi eleito.
Se a eleição não é suficiente para garantir o caráter democrático de um governo, chega-se à conclusão lógica, apesar de aparentemente paradoxal, de que nem todo golpe contra um governo democraticamente eleito é antidemocrático. Na Turquia, por exemplo, durante o século XX, o exército deu uma série de golpes visando proteger a república e a democracia de ameaças teocráticas. E aqui adentra um complicador a mais. Pois dependendo das circunstâncias ou dos fatos políticos, não só a democracia pode estar ameaçada, como também a república.
A república é uma forma de organização do Estado, a democracia, um modo de instituir o governo representativo. As duas não são xifópagas: podem existir uma sem a outra. A Inglaterra é uma monarquia (portanto, não uma república) e uma democracia; a Espanha de Franco era uma república, mas não uma democracia. Mas estas são exceções. Na história moderna, a república como forma de organização do Estado e a democracia como modo de instituir o governo representativo andam juntas desde seus nascimentos, nas revoluções Americana (1776) e Francesa (1789). Faz sentido: pois na república, ao contrário da monarquia, o soberano é o próprio povo, que por isso mesmo exerce o poder através de seus representantes democraticamente eleitos.
A grande ameaça atual à república é a teocracia, em que o clero detém a soberania. E se o clero é o soberano, não o é o povo. Portanto, de modo claro e simples, não pode haver democracia numa teocracia. Daí a farsa e a falácia do caso iraniano.
Nos demais países muçulmanos, incluindo o Egito, trata-se, diferentemente, de tentar fazer conviver a república e, em tese, a democracia, com governos islâmicos eleitos. Teoricamente é possível: a soberania republicana não deve ser ameaçada por um governo democraticamente eleito. Mas apenas se se acreditar, ou se iludir, que modelos político-institucionais são universais ou universalizáveis, a despeito de histórias, culturas e sociedades específicas.
Um governo islâmico, não importa a forma como chegue ao poder, é um governo movido não por um programa, mas por uma ideologia. Neste sentido, é como um governo comunista ou fascista. Não se é fascista ou comunista para não se ser comunista ou fascista. Nem se é islâmico para não sê-lo. Ou seja, um governo islâmico existe, por definição, para impor leis islâmicas, não leis republicanas ou democráticas. Só não o faz completa ou radicalmente por falta de poder. Daí a falácia dos governos islâmicos “moderados”, cuja moderação não passa de fraqueza frente às instituições republicanas e democráticas, como na Turquia. Não por acaso, como na mesma Turquia, as necessárias tentativas do “moderado” Erdogan de testar os limites de sua “moderação” levaram à atual revolta popular contra sua busca de islamizar a política, a cultura e a sociedade turcas.
De forma mais aguda, foi exatamente o que aconteceu no Egito de Morsi e da Irmandade Muçulmana. Se a teocratização por um governo eleito leva, no limite, à teocracia, e se a teocracia é a morte da república, mesmo aceitando a abstração ideal de que todo golpe é antidemocrático, isso não impede que alguns sejam republicanos.
O golpe do exército argelino em 1995, por exemplo, contra o governo eleito da Frente Islâmica, que pretendia explicitamente impor a teocracia no país, foi antidemocrático para ser republicano. E ao ser republicano, e, portanto, defender a soberania popular, se não de forma imediata, de maneira mediata, é afinal um golpe democrático, ao abortar a teocracia. Pois a teocracia não é instituída por prazo determinado, mas ao contrário: por pretender-se de direito divino, concebe-se como instituição supra-histórica, e tão perene quanto a própria divindade que representa.
Em suma, nem todo governo democraticamente eleito é a priori democrático (isto depende do modo como age e do que almeja), portanto, nem todo golpe é necessariamente antidemocrático, por mais que isto seja de difícil compreensão para ocidentais incapazes de conceber o real significado de uma teocracia, e assim também sua antinomia com a república, em primeiro lugar, e com a democracia, em segundo. O mesmo vale para o fato de que governos islâmicos são governos islâmicos, pouco importando, a priori, se eleitos ou não (pois se sabe o que almejam).

 2.

Mas nada disso fala do título deste artigo. O que fala é esta imagem:


           

 
O fracasso civilizacional do islã foi exposto em carne viva, para quem quisesse ver, num fato ainda mais contraditório do que um golpe democrático. Trata-se de que, durante a “primavera egípcia”, ou seja, durante uma revolução popular contra uma ditadura (republicana), mulheres foram estupradas em massa. O absurdo cósmico contido neste fato corteja a incompreensibilidade: se a população está nas ruas enfrentando uma ditadura por sua liberdade, como pode, ao mesmo tempo, impor a mais brutal perda de liberdade e de dignidade a um indivíduo sem qualquer motivação/explicação política? Porém não se trata de um indivíduo: “Ao menos 91 mulheres foram estupradas nos últimos quatro dias em meios aos protestos na praça Tahrir, no Cairo, disse ontem em relatório a ONG Human Rights Watch” (http://www1.folha.uol.com.br/mundo/2013/07/1305808-praca-no-cairo-tem-ao-menos-91-casos-de-estupro-em-4-dias-diz-human-rights-watch.shtml). A notícia é de 03/07/2013, sobre os eventos que levaram à queda do governo islâmico eleito de Morsi, não sobre a queda da ditadura laica de Mubarak dois anos atrás. Portanto, não faz diferença. Mas como não faz? E por que não faz?
Porque o abuso de mulheres no Egito nada tem a ver com circunstâncias políticas, mas com instâncias culturais.

En los 18 días de manifestaciones que provocaron la caída de Hosni Mubarak, las mujeres que salieron a las calles no sólo luchaban contra un dictador, sino que se enfrentaban a los impulsos más bajos de su propia sociedad. En su lucha por la libertad, se mezclaron a una multitud en un país donde, en 2008, el 83% de las mujeres confesaba haber sufrido algún tipo de abuso sexual y el 62% de los hombres admitía haber cometido alguno, según los datos del
Centro Egipcio para los Derechos de las Mujeres (ECWR). (Bárbara Ayuso, “El infierno de ser mujer en Egipto”, http://www.marthacolmenares.com/2013/05/07/el-infierno-de-ser-mujer-en-egipto).

O inferno de ser mulher no Egito é, portanto, claro e claramente quantificável: se 83% das mulheres sofrem algum tipo de abuso sexual, o abuso sexual é a norma, é normal. E uma sociedade em que o abuso sexual é normal não é e não pode ser considerada civilizada.
Nenhum argumento multiculturalista ou politicamente-correto é capaz de sequer ameaçar perfurar a dura espessura desse número: 83% das mulheres. 83% das mulheres. 83% das mulheres abusadas no país. Raríssimas epidemias chegam perto desse porcentual. Não é, de fato, uma epidemia, que tem, por definição, caráter episódico. E aqui se trata necessariamente da manifestação de um aspecto fundamental da cultura e da sociedade egípcias: o desrespeito completo pela condição feminina como fato conceitual, e pelas mulheres reais como fato empírico, sem o qual esse fenômeno não existiria nem poderia existir.
Quanto à origem do fenômeno, não é preciso ir longe na busca de hipóteses histórica ou sociologicamente sutis ou complexas, se não se quiser buscar hipóteses como forma de ocultar os fatos. Essa origen é o islã, e seu mais que notório e notoriamente profundo desrespeito teológico pelas mulheres. Não aceitar aqui a evidente relação de causa e efeito é um gesto de obscurantismo.

“Las mujeres que van a protestar en Tahrir son prostitutas que buscan ser violadas’, bramó el clérigo Abú Islam en la televisión.” (idem)

 “El Comité de Derechos Humanos del Consejo de la Shura mantiene que la responsabilidad por los abusos sexuales en las manifestaciones recae enteramente sobre las mujeres.” (idem)


A Shura acima referida é a máxima instancia religiosa oficial do Egito, espécie de assembleia de grandes mulás: “A responsabilidade pelos abusos sexuais nas manifestações recai inteiramente sobre as mulheres”. De fato. Porque, como dito aqui, não se trata de circunstâncias, mas de uma norma. Pois o mesmo vale, segundo a interpretação normal dos tribunais islâmicos, para todo caso de abuso. A culpa é da vítima, porque a vítima é uma mulher.
O islã não é apenas incompatível com o conceito ocidental moderno de democracia. Ele também é incompatível com o conceito de civilização, que apesar de plural, não é amorfo – e sempre antinômico à barbárie.

quarta-feira, 3 de julho de 2013

O QUE NÓS QUEREMOS É FUTEBOL…





    Lembram-se? Se calhar não, pois tal frase, doce como um covilhete de marmelada, foi nos tempos do doutor Salazar, o tal que só se parecia com ele mesmo pois foi inimitável ainda que alguns, mesmo doutros quadrantes, tentem para mal dos nossos alguns pecados ficar parecidos.

   A Europa desse tempo andava em trancos e Portugal era um oásis de paz… Ou seja, se não fossem alguns problemazitos como a saúde meio morta, a educação meio torta e as finanças seguras por cordéis excepto para alguns privilegiados.

  Como agora, dirá o leitor mais expedito. Sim, está bem. Mas ao contrário.

  Porque agora é por cá que se anda aos trancos, com gente “indignada” a vociferar, os do partidão a perorar com raiva nos rostinhos, os outros a fingir que isto vai com a dança das cadeiras.

  Fala-se no Portas e no Seguro. Os tais que foram, como sambenitos, à reunião do Bilderberg, uma dessas em que se congeminam coisas de que nem será bom falar. Mesmo se soubéssemos. Porque os bilderbergs não brincam em serviço.

  E eu não percebo porque é que certa gente se admira de que o perspicaz Portas tenha dado agora com a perna na escudela. Com o Seguro a fazer de homenzinho de fato e gravata com o seu discurso de geniaço de sociedade recreativa.

  Poderia esperar-se outra coisa?

  Só um ingénuo como Passos ficou azabumbado. Mais uns comentadores da ordem a estrafegarem fingindo-se surpresos. Então mas não tinham ainda percebido que o denominado “fascismo doce” (ou seja, envolto em bailaradas, cantorias, talk shaws idiotas, etc) precisa de durante algum tempo lançar a confusão mais solerte para depois tomar conta do apartamento?

  A Nova Ordem internacional necessita de chumaceiras novas. O Seguro e o Portas aí estarão, com os coleguinhas, para tratarem na nova decoração da loja.


  Mesmo que a seguir não haja nada para vender ou para comprar.

Paulo Portas ...



... voltou a ter um período difícil.

terça-feira, 2 de julho de 2013

O ARTISTA EM PLENA ATUAÇÃO




Comentários para quê? É um artista orgânico em plena atuação.
A liberdade orgânica nas suas obras vivas.

   O ex-consultor da Agência de Segurança Nacional (NSA) dos EUA Edward Snowden solicitou pedidos de asilo em 21 países, incluindo a Rússia, Islândia, Equador, Cuba, Venezuela, Brasil, Índia, China, Alemanha e França, indicou na segunda-feira o "site" WikiLeaks.

   Esses pedidos foram feitos em nome de Snowden por Sarah Harrison, uma funcionária britânica do WikiLeaks, que acompanhou Snowden no dia 23 de junho na sua viagem de Hong Kong para Moscovo.
   "Os pedidos foram submetidos a um responsável do consulado russo do aeroporto de Moscovo no final da noite" de segunda-feira, indica um comunicado divulgado no sítio de Internet da WikiLeaks.

(Dos jornais)

segunda-feira, 1 de julho de 2013

O MAL E A CARAMUNHA






O Mal e a Caramunha


   Regressado do estrangeiro, do Extremo Oriente e concretamente dum lugar onde não me chegavam notícias do mundo, reentro na Europa e apanho um susto, que é como quem diz.

  Então o ímpeto islamita, nomeadamente no Egito, está a dar de si?

  Já o esperava. Tenho-o afirmado com alguma insistência. Mais tarde ou mais cedo tinha de ser.

  Felizmente é mais cedo do que todos nós esperávamos.

  Primeiro foi o Irão, com os rapazes do tosco Amadinejad a ficarem de culotes na mão.

  Agora é o Morsi e a sua Irmandade muçulmana a sentirem como isso da rua de que tanto gostavam os vai deixar a ver navios.

  Depois do comunismo vai ser outra espécie de fascismo, este verdinho, a desaparecer pelo cano de esgoto.

  O que é preciso é joelho. Ou joelhada. E Alá está a perder o sumo. Pensava que iria em breve ser tudo dele e eis que os ratos começam a abandonar a barca.

  E, creiam, em breve será outra coisinha de fazer tremer os legumes a um cidadão politicamente e religiosamente correto. Mas não nos antecipemos.

  Este Verão vai estar de ananases.

  O fanático do Morsi que o diga. A caramunha saiu-lhe ao contrário…

UM POEMA DE JOSÉ JAGODES



(Flash do Dr. José Jagodes em patriótica atitude)



  Recebemos do Sr. Prof. Doutor José Jagodes, com pedido de publicação, uma carta que passamos a transcrever sem quaisquer comentários mas muita satisfação.

  Com efeito e se nos é permitido o detalhe jubiloso, há muito que o grande homem público não se nos dirigia. Correram mesmo boatos de que teria viajado para o Equador, para dar aulas na Universidade Livre de Quito, nomeadamente para investigar se era mesmo fatual o célebre poema cesarinyano "Tudo está eternamente escrito (Spinoza)/Tudo está eternamente em Quito (uma rosa)". Podemos asseverar que tal não corresponde à realidade, uma vez que o autor de O bocejo nos tempos do Segundo Império continua a reger na Sourbonne a sua já famosa unidade curricular "Metafísica Objetual, Macânica Supra-Nominal e Inteletiva", hoje incontornável no pensamento por exemplo de Hollande e alguns outros mas estes lusitanos.

  Segue a peça:


 "Caro diretor

    Estando fortuitamente em momento de descanso, venho saudá-lo cordialmente e, por extensão, aos milhares de meus leitores através desse espaço que neticamente assegura.

    Apenas para dar uma pequena explicação, obviamente sucinta e de poucas palavras, o contrário é que seria estranho, de modo aos meus/minhas admiradores/as ficarem cientes de que continuo vivo e ao alto (isto não é piada brejeira) e que o bem da Pátria, incluindo a nação e mesmo o país neste vocábulo expressivo, continua a nortear o meu pensamento - o que não se estranhará pois a minha cabeça, e peço indulgência para uma auto-citação "é uma verdadeira caldeira de motor em contínua ebulição".

  Dest'arte, estou neste momento - correspondente a um intervalo nas aulas e nos passeios proverbiais no parque Monceau, para manter a forma que como sabe continua assinalável, a dar à luz uma série de textos em jeito proto-biográfico com que, em breve, abrilhantarei as páginas que proficientemente alinda, e terão iluminação fotográfica do meu habitual colaborador de que nem necessito dizer o nome.

  Sem mais por ora e sempre a considerá-lo bem como aos inúmeros e fiéis leitores/fãs, fica estrenuamente o


  José Jagodes (Esquire)


  PScriptum - Como mimo à guisa de brinde, perdoe-se-me a imodéstia, outrossim lhe envio um poemazito que congeminei num dos meus passeios e me parece de cunho retintamente patriótico.



Geração Portugal
 

Somos actores de coragem
com estilos empenachados
pátrio orgulho dos passados
como outrora nunca vi
E mal nos dá a aragem
ficamos ao mundo abraçados
- e à Angelina Jolie...

Para vencer desafios
também temos um soberano
um D. Duarte com brios
cronicado pelo Hermano
“- Abre a porta meu menino
que quer entrar um fulano
com muito jeitinho e arte!

Mas responde-lhe o destino
num tom bem republicano:
- Mandem-no àquela parte!

       (Estribilho)

Grita viva Portugal
tira a alma, fura o peito
dá um murro no sujeito
que não te der o sinal
de que vai andar direito
com um jeito
ocidental

Nós queremos mais Portugal
para encher bem o bandulho
e dar com o estadulho
no poviléu pequenino.
E incentivar o barulho
desse Marcelão mofino!...

Nova força para o mundo:
- meu jeitinho de animal
político, de quintal
na vanguarda do futuro
Ser politicão é um furo
para se andar mais feliz

Meu orgulho, meu país
meu lindo país profundo
- e mesmo se fores um imundo
levanta bem o nariz!

O Passos é quem conduz
de norte a sul todos nós
com a sua linda voz
de galã meio-rapazola

Quem refere que ele é um pachola
e não presta para governar
não sabe mesmo o que diz
e na prisa devia estar
- Meu Portugal, meu país
tão à beirinha do mar!
(E tu levas na carinha
se tornas a criticar...)

Do lado parla o Pinóquio
com voz de galo capão
- que a TV paga-a o povão
para ele lhe cantar o fado
de que foi um injustiçado
…e o povo tem de amargar!

Mas eis que chega um tal Gaspar
- o que fala aos solavancos
como um gago a silabar –
e com vontade de se rir
põe toda a malta a chorar
quando desata a referir:

- É tempo de acreditar,
de ter confiança em si
com o Portas a ajudar
com seu garbo militar.
Toca malta a trabalhar!

Como Portugal nunca vi!

Com ele vivo a sonhar
- e com a Angelina Jolie...

JOSÉ JAGODES

(Paris, Sourbonne, Maio de 2013)

sábado, 29 de junho de 2013

Carlos Reis: Nova Ordem Mundial e Foro de S. Paulo

"Análise da conjuntura atual e da estrutura, a qual revela o Foro de São Paulo como braço da Nova Ordem Mundial e origem da nossa desgraça.Carlos Reis, que cursou Medicina, História e Ciência Política em nível de mestrado na UFRGS (carlos alberto reis lima no facebook) mostra que FHC foi o precursor do caos no Brasil, introduzindo drogas, gayzismo, racismo, e uma péssima educação freireana com o objetivo de destruir a família cristã brasileira. O governo Dilma está desacreditado interna e externamente e se agarra em desespero a grupelhos revolucionários cheguevaras e a conselheiros LBGT (novo ministério petista) para aplicar uma ditadura comunista através de plebiscito e reformas políticas que o povo nas ruas nunca pediu antes de 22 de junho.O povo brasileiro ainda não conhece o Foro de São Paulo mantido em segredo pela mídia alinhada, mas reconhecido pelo próprio apedeuta Lula. Para ler sobre o Diálogo Inter Americano ver brasilsoberano.com de Marco Coimbra; ver Plano Global 2000 (Robert MacNamara, Eric Holden, Zbigniev Briezinsky). Sobre o Foro de São Paulo ver atas e história em Olavo de Carvalho. Para ver sobre comunismo, Farc, cocaina, Venezuela e Cuba ver Notalatina de Graça Salgueiro."

Os efeitos das manifestações nos três poderes

Augusto Nunes, Reinaldo Azevedo, Marco Antonio Villa e Ricardo Setti falam sobre as consequências dos protestos na presidência da República, no Congresso e no Judiciário.

"Brasil, o princípio do fim do embuste"





As televisões gostam muito de revoluções. A revolução, segundo parece, está em marcha no Brasil. O que eu disse de Lula, do PT e dos metralhas brasileiros defende-me. Dilma Rousseff não me interessa; é uma personagem secundária de opereta local, arrastada pelos acontecimentos e por Lula, o homem que «não sabia de nada». Por isso, devia rejubilar e pôr-me à espreita: vêem como eu tinha razão?, o povo está em armas nas ruas, protesta contra o PT, contra o aparelho que montou nos últimos dez anos, contra o desregramento da economia brasileira, contra a ignorância e a oligarquia, contra a corrupção. Mas, em vez disso, acho que vale a pena explicar.

A era de Collor de Mello, com aquele personagem trágico PC Farias, não foi nada comparada com corrupção engendrada pelo governo de Lula, completamente leninista: apoderou-se do aparelho de Estado, da polícia, das empresas estatais, dos bancos do Estado, fez circular dinheiro entre partidos, montou negócios entre as grandes corporações e os interesses do Estado que controla. E tudo isto deu no Mensalão e, agora, no escândalo da secretária de Lula, o homem que «não sabia de nada» e que tem uma coluna de opinião no New York Times, cujo correspondente no Brasil (Larry Rohter) quis expulsar, o que seria inédito desde lá atrás, muito lá atrás, logo depois do AI5.

Ora, os últimos dez anos foram anos do PT e de Lula no poder. Um poder tentacular e ambivalente, negociado com os partidos mais estranhos. Repare-se nos interesses que levam Lula e Dilma a desenhar, presentemente, com a colaboração do marketing de João Santana, uma grande coligação que vai do PC do B ao PP, passando pelo PMDB e pelos evangélicos. Porquê? Bom, para prolongar o poder a todo o custo.

Este clima de imunidade e impunidade feriu lentamente a sociedade brasileira. Há aquela frase do «rouba mas faz», e há a fase em que o lulismo, toda a tralha do PT, incluindo Dilma, pode meter-se em negócios e em experimentalismos sociais, mas é absolvida porque é amiga dos pobres. Isso pegou durante a reeleição de Lula, pegou durante a eleição de Dilma, pegou durante o primeiro ano do governo de Dilma, em que a corrida de ministros se sucedia mês-sim-mês-não, pega de cada vez que a assembleia de mirones internacionais desata a canonizar Lula. Mas deixa de pegar quando a inflação aparece ao dobrar da esquina, quando o crescimento zero deixa de ser uma ameaça para passar a ser a realidade e quando o paraíso na terra passa a ser o inferno ao alcance da mão.

Ou seja, o caldeirão estava preparado. Bastava pôr ao lume. Está ao lume, e acrescido de outro problema, que é o da impunidade da violência e da ilegalidade com protecção política do Planalto, como aconteceu nos últimos dez anos (assisti a várias campanhas eleitorais no Brasil e recordo o inflamado Jacques Wagner, na Bahia, por exemplo, fazendo campanha contra a polícia para agradar «às massas»; resultado, a violência e a criminalidade dispararam em Salvador, e «as massas» estão sitiadas por uma elite de criminosos; o PT sabe do assunto). O MST, por exemplo, habituou os brasileiros aos seus actos de violência ao mesmo tempo que recebia a bênção de Lula e o dinheiro do Estado e dos seus aparelhos. O PT mais radical ainda não saiu verdadeiramente da clandestinidade e tem mesmo uma imprensa que defende a censura, a acção directa e violenta, a perseguição aos adversários – como se não estivesse no poder. A imprensa afecta ao PT é uma colecção de pérolas sobre a insurreição violenta – desde a linguagem usada até à substância que ali se defende.

Por isso, a primeira surpresa: o PT vê a rua voltar-se contra o PT. Só foi surpresa para alguns que o próprio ministro da Justiça aparecesse a condenar a polícia de S. Paulo diante da bandidagem. Não venham com a história da «explosão social». Ela existe, mas não tem nada a ver com a bandidagem. [Uma amiga dizia-me: «No Rio, tudo acordou como se não fosse nada.» Pudera: os pobres limparam tudo durante a noite.] Gilberto Carvalho (ministro da Presidência) disse anteontem que o governo está «a ser atropelado pela história» e tremeu meio mundo. Porque o PT sempre incentivou este género de protestos — o PT sempre esteve no poder e na rua ao mesmo tempo, nos últimos dez anos. E ficou surpreendido porque a rua, hoje, não é do PT – um partido, aliás, tão ruidoso como minoritário. E o rosto de Dilma, vestida de fantasia para um drama de segunda ordem, é esse: «Como é possível? Então a rua não era nossa? Não foi para isso que armámos a CUT, o MST e outros grupos de companheiros? Não foi para isso que tivemos os melhores do marketing? Não foi para isso que hostilizámos “as elites” e depositámos a nossa esperança no povo?» Mas Dilma não percebe. E por isso, quando se tratou de analisar «a questão das tarifas», Dilma reuniu com Lula, Aloíso Mercadante (ministro da educação e futuro director de campanha da própria) – e o homem do marketing, João Santana. Tudo se resolveria com uma contracampanha. Que está a ser organizada, descansem.

Sim, estes são sinais de insatisfação da sociedade brasileira. São sobretudo expectativas goradas. Só que houve um momento em que a guarda avançada do PT acusava todos os protestos de serem armados pela direita, pela tucanagem, por FHC... Mas acontece que esse discurso passou momentaneamente – mas vai voltar. E, enquanto não volta, «as massas» deram sinais de rebelião e de desconfiança radical. Acontece que essa fase já não pode desculpar-se com o governo de FHC — que aliás desenhou a maior parte das políticas públicas sustentáveis de redistribuição de riqueza na sociedade brasileira.

Recordo um dos pontos altos da gigantesca manifestação pacífica de São Paulo, anteontem: quando as pessoas cantaram «Dirceu pode esperar, a cadeia é o seu lugar». Isto é muito importante — porque o que José Dirceu representa, com aquele grupo onde entram José Genoíno, Marcos Valério, Delúbio Soares, a banda do Mensalão (todos condenados à prisão pelo Supremo), é o pior do lulismo. Lula sempre foi protegido (pelo PT, naturalmente; mas também por Sarney, por Maluf, por Calheiros, pelo PMDB, pelas grandes corporações...). Ele é o que não sabia de nada, o que estava na sala ao lado mas «não sabia de nada». E que, mesmo diante da condenação do gang do Mensalão, apareceu, como ele diz, «a defender os companheiros nesta hora difícil em que estão a ser perseguidos». Não estão a ser perseguidos: foram efectivamente condenados em tribunal. E toda a gente viu. Mesmo que o seu aparelho esteja ao serviço de Dilma, que foi, aliás, ministra da Casa Civil de Lula e que, portanto, não se sabe se «não sabia de nada» do Mensalão e dos outros casos afastados da cena política por serem «invenção das “elites”».

É isto – além da violência que não comanda – que o PT não percebe. É por isso que Fernando Haddad, o prefeito petista de São Paulo, está a ser odiado pelo próprio partido (se bem que o PT aprecie a desordem de SP, porque pode culpar Alckmin, o governador do PSDB e adversário de Lula na reeleição).

Ora, o que existe é uma explosão a três tempos. O protesto mais imediato tem a ver com as tarifas dos transportes — e foi esse que mais chamou a atenção das televisões e jornais, enquadrado pelo grupo Passe Livre. [Na verdade, um dos grupos foi lançado por um partido de esquerda, o PSOL, de Luciana Genro, filha de Tarso Genro, ex-ministro de Lula e actual governador do Rio Grande do Sul. E, na sua génese, foi financiado pelo próprio PT.] A sua última reivindicação é tarifa zero para os transportes, mesmo depois de as principais capitais terem baixado as tarifas (o que prova a natureza da sua agenda). O problema dos transportes é dramático num país em que os empregos estão no centro e os salários mínimos estão na periferia. Essa travessia, nas capitais, chega à centena de quilómetros. Os transportes urbanos vão entre 1 e 3 reais. Se multiplicarmos 2 reais por 26 dias de trabalho, vezes dois, temos 104 reais com um salário mínimo de 680 reais. Não é diferente da situação portuguesa, com a diferença de os transportes, no Brasil, serem muito piores e de estarem sujeitos a todo o tipo de violência. Mas, ao contrário do que pretendem mostrar as televisões portuguesas, inflamadas com o desejo de revolução desde que não seja ao pé da porta, são os pobres os principais prejudicados com essa violência, cujos detritos têm de limpar no dia seguinte. O que os orquestradores deste protesto não esperavam é que houvesse uma vaga de fundo que os ultrapassasse — e houve.

Portanto, há um segundo protesto, e esse teve início moderado em Brasília, quando as vaias a Dilma surgiram — um protesto inicial contra a Copa 2014, e que foi adquirindo cada vez mais notoriedade até chegar a São Paulo, muito mais geral, e que o PT olha como profundamente hostil, porque levou para a rua «manchas da classe média», habitualmente silenciosa (Dilma foi eleita com 56% dos votos, contra os 54% de Serra — com uma abstenção de 21,5% num país onde o voto é obrigatório, e que somados aos nulos dá 26,7%) mas devastada pelo anúncio da recessão que chegará logo depois da Copa. E esse protesto é o que dói mais, porque pode ter um efeito definitivo na campanha de reeleição, que está a ser preparada por Lula.

Vi, nesses ajuntamentos, um cartaz curioso: «Não cabem aqui...» Essas razões que «não cabem aqui» podem querer dizer que há um sector da sociedade brasileira que desperta para o embuste do petismo. E, pior, são manifestações pacíficas, tranquilas, de pura demonstração de um cansaço que estava anunciado – e de um desconcerto diante da enormíssima despesa pública de que a construção dos estádios da Copa (com a sua inevitável carga de suspeitas de corrupção) é apenas um exemplo. Estas são manifestações em que o PT é vaiado, em que Lula e Dilma são vaiados (alguém viu na televisão a manifestação diante da casa de Lula, por exemplo?), em que a CUT é expulsa, em que o gang do Mensalão é assobiado.

Finalmente, aquilo a que as televisões dão destaque, à procura de espectáculo: as cenas de bandidagem e de descontrolo. O PT, mais uma vez em sintonia com a sua tradição, ataca a polícia e envia grupos profissionais para se associar aos protestos — porque está encurralado e tem de manter o hábito de dançar com ruído na sua lógica de selvajaria. As franjas radicais estão lá, em pleno, tentando obter na rua aquilo que não podem fazer no Congresso, nos tribunais, nas eleições e na vida de todos os dias. Essas franjas são compostas por todos os «aliados históricos» do lulismo, desde os «companheiros» das ocupações selvagens até àqueles que querem impedir investigações do Ministério Público e condenações no Supremo (é curioso como o PT se tornou racista ao ponto de relembrar, em surdina, a cor do presidente do Supremo, Joaquim Barbosa, que desmontou o Mensalão e provou a cumplicidade do Planalto dos tempos de Lula). Essas franjas não só aprovam as cenas de bandidagem como reclamam a rua do Brasil. Nem que para isso tenham de «compreender» e de «fornecer uma explicação sociológica» para os assaltos, violência contra a imprensa, assalto ao Congresso e ao Itamaraty, etc. Desconsolem-se os que festejam a violência — o PT já se solidarizou com ela e deu-lhes as boas vindas, se bem que tenha sido recebido com apupos para já, e felizmente. Mas, fiel aos seus princípios, bem tentou festejar.

Parte do Brasil pode estar a arder. Talvez seja a agonia do petismo, do lulismo e da «imensa sabedoria» que o dr. Soares vislumbra em Dilma. Mas, entretanto, vem aí o marketing, e talvez nada fique por aqui.

sexta-feira, 28 de junho de 2013

Olavo de Carvalho: Análise da actual situação política brasileira


E agora, a pedido de várias famílias...

A AURORA BOREAL DAS “DEMOCRACIAS FELIZES” ou DE COMO O ESCRITOR TEM RAZÃO ANTES DO TEMPO





A PROPÓSITO DE “EXTERMÍNIO NO 31º ANDAR”, DE PETER WAHLÖÖ


  Sem comentários – para quê? – aqui fica o texto que dei a lume em páginas culturais do Brasil, de França e de Portugal em 2007/2009.
  O livro, por seu turno, foi escrito em 1964 (‼!) e publicado entre nós em 1990.
 …e é assim que se faz a Estória. E a História também…



                    “Porque vos ensinam eles a amá-los, se é para vos tratar assim? Porque não vos deixam eles em paz?” – William Irish



     Há livros assustadores. Uns pelo espírito, como por exemplo o “Lázaro” de Andreiev, que nos coloca de chofre e sem complacências em frente do facto de que uma vida de ressuscitado seria, afinal, tão angustiante e repugnante como a degustação de uma refeição apodrecida. Outros pela letra, como o Drácula de Bram Stoker sobre o qual já se disse que só um leitor completamente destituído de sensibilidade conseguirá ler numa casa deserta e pelas horas mortas da noite.

   Outros, por seu turno – e é o caso desta “utopia negra” vasada nas luzes boreais que conformam as sociedades escandinavas – porque o que neles se encena está a acontecer paulatinamente. E não só naqueles rincões.

   O caso sucedido tempos atrás na politicamente correcta Noruega, onde os monstros particulares são produto de uma administração cuja tenaz cegueira é a prova do seu cinismo suave e perito em enterrar a cabeça na neve (e já não, como os avestruzes, na areia do deserto) para sagração de um oportunismo que finge supor que os cidadãos são um resíduo angélico para que se não vejam as partes demoníacas do seu poder governativo, mostra-o sem véus e sem disfarces.

Nicolau Saião, O grande guerreiro

    Nesta obra de entrecho quase linear, duma secura de estilo necessária para que a sugestão resulte, Peter Wahlöö (que com sua mulher Maj Sjowal deu na época a lume um belo punhado de polars bem inseridos no género, mas com um timbre de novidade que os distinguiu) segue passo a passo os sete dias duma investigação que um inspector da polícia efectua para que naquela sociedade pacífica e onde o Estado mais ou menos cordial procura que o cidadão viva sem traumas (e onde o único crime significativo e punido aliás sem muita violência expressa é a embriaguez, que entretanto se multiplica) tudo continue a ser sereno.

   Nesta sociedade o controle é exercido pela leitura: leitura de revistas e de jornais com visão positiva, onde o próprio fenómeno desportivo (fautor de paixões e frequentemente de conflitos) não recebe muita atenção a não ser a que possibilita que se possa epigrafar televisivamente o sucesso das vedetas que o integram.

   O consórcio que o domina é constituído por gente esclarecida e de “boa formação” partidária e propugnadora de uma igualdade social estabelecida de maneira amena e que até quando despede dos empregos o faz cordatamente: o indivíduo ou indivídua em causa recebe uma reforma razoável e um diploma por bons serviços, assinado por altas individualidades. E o além está muito longe…mesmo quando ao virar da esquina.

    Mas há sempre alguém que, com impetuosidade maldosa, “sem olhar à felicidade social a que se conseguiu chegar” (sic), resolve meter um pauzinho na engrenagem. Por puro sadismo (como se diz neste ocidente cristão, civilizado e culto) ou por maldoso anarquismo (como há dias disse publicamente um comandante da polícia metropolitana inglesa, que ao mesmo tempo solicitou aos cidadãos britânicos que, e cito, denunciassem os vizinhos que soubessem que perfilhavam ideias anarquistas – o que quer que isto seja…)? Ou, ainda, por impiedade, como se diz naqueles países do oriente que têm a dita de existir em teocracias?

    Alguém, portanto, usando precisamente uma folha anexa não preenchida dum desses diplomas, (uma vez que o papel é pacificamente controlado), endereçou às autoridades uma carta inquietante, sugerindo que inquietantes acontecimentos iriam dar-se. E embora as forças vivas tenham essa carta por eventual simples brincadeira, tal como uma outra insistência significante, nunca fiando – a própria brincadeira indicaria já um escabroso, quiçá injusto, desvio e Jensen - polícia compenetrado e eficiente sofrendo no entanto de um doloroso e crónico desarranjo gástrico que nem a comida cientificamente confeccionada e posta à disposição dos cidadãos pelo ministério da saúde que tem a seu cargo as dietas racionais consegue tranquilizar – mergulha num universo de entrevistas e de encontros que pouco a pouco lhe patenteia os meandros do jornalismo, se jornalismo se lhe pode chamar, e da criação escrita quando a criação escrita é apenas um simulacro que ora leva ao suicídio dissimulado (ou assistido) ora à entrega a um ambiente de mundanidade, de sucesso e de notoriedade bastante semelhantes ao que usa utilizar-se nesta Europa das pátrias e, suspeito-o com alguns tremores relativos, nas sociedades alfabetizadas de outros continentes…

   Homem sério e bom profissional, ético tanto quanto as circunstâncias peculiares o permitem, nesta viagem iniciática de uma semana nem sequer negra em que a desesperança do protagonista é irmã colaça da desesperança sentida pelo leitor enquanto mergulha na naturalidade do relato, a regra da “detective novel” é subvertida, ou melhor: invertida. Os chefes que o comandam preferiam não saber e a demanda de Jensen dirige-se não à descoberta mas à ocultação. Nas sociedades racionalmente policiadas, como por exemplo a sociedade lusa, o polícia, (que funciona como Némesis justiceiro) age preferencialmente como aquele que camufla o enigma ou, dizendo ainda mais esclarecedoramente, faz com que o enigma seja uma camuflagem que garante ou sustenta o “equilíbrio” entre as classes, para que a paz e o progresso coabitem salutar e airosamente…

    No entanto, nem nestas mansões quase celestiais as coisas são como deviam ser (ou se esperava que fossem).

   Dizia António Maria Lisboa, numa frase bem respigada por Cesariny, que “Todo o acto premeditado ou todo o acto leviano tem a sua guilhotina própria”.

    A mim sempre me pareceu que ele tinha razão ao cunhar este conceito. E, se o pudesse ter lido, creio que Jensen – e muito mais os seus chefes – teriam dolorosamente entendido a verdade que assistia ao infausto poeta surrealista lusitano.


    À sua deles própria custa – mas isso seria já uma outra estória…   

terça-feira, 25 de junho de 2013

De volta de Arronches com passagem por Espanha





Caros/as confrades

  Ontem, depois de um fim-de-semana em Arronches acompanhado a sardinhada e a Monte do Rei - dado que não consegui mercar por fraqueza no stock o benquisto e sapientíssimo Reynolds Tinto (que só se apanha por preço mais módico precisamente no market daqui, na terra onde fica a quinta do prudente criador desta iguaria sem par) - fui cumprir num salão em Espanha uma promessa já com algum tempo de "repouso": efectuar uma palestra com tema a meu gosto.

 Lá fui e lá orei.

 Eu escolhera uma coisita potável, "As Metamorfoses de Ovídio na pintura moderna", o que deu ensejo a que com ardil creio que puro e justificado pudesse excursionar por autores do meu prazer: Renoir, Picasso, Saura e, the last but not the least como gosta de dizer um certo crítico luso com a mania dos monstros, Pedro Moro e os seus touros surpreendentes transfigurados em cavalheiros espanhóis provavelmente de boas famílias.

 Dentre o público, como depois vim a saber vários professores assistiam amavelmente. Um deles, no fim do cavaco (se assim o digo...), teve a fineza de se me dirigir para, revelou-mo, concretizar alguns pontos nomeadamente sobre a maravilhosa edição que Albert Skira artilhou um dia com os buris e os carvões do fogoso malaguenho.

 Palavra puxa palavra, veio-nos à baila a questão do professorado. Na Ibéria.

 Durante alguns momentos apenas, porque se fazia tarde, ouvi-o encantado pelo bom-senso que se soltava do que dizia, pela justeza dos conceitos que explanava. O seu falar não tinha qualquer sabor a rolha nem aquele jargão que, de certas bocas amoráveis, se solta com chavões politicões à mistura. (Não havia necessidade...).

 Tempos atrás, de um outro professor que é também confrade triplóvico e para mim muito querido (claro!) recebi um textinho que, sendo de pequena talha, me calou fundo pela justeza singela do que nele era dito. E tenho para mim que muito do que de mais acertado se vai dizendo, afinal, é fácil de dizer e fácil de entender - se, é claro, estivermos e lhe dermos a direcção adequada...

 Poderá, igualmente, com outro grau de robustez e profundidade devido aos temas que os enformam (Hieronymus Bosch, a construção de novas sociabilidades mediante a Arte, enfoques sobre Raul Proença, entre outros), ler textos (e ver pinturas) deste confrade na Revista Sibila, no preclaro TriploV e na acerada Agulha, da Fortaleza que é também a minha debilidade.

  Bom Verão e boa semana vos desejo.


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          "É com muito gosto que aqui vos deixo umas palavras que expressam, enquanto vosso Professor e Coordenador do Curso de Animação Sociocultural, o apreço que temos por vós.

         Na verdade, ao longo destes anos sempre fostes alunos interessados, de trato afável e cordial, nunca mostrando estar dependentes de preconceitos e modas, de superstições espúrias e de desonestidades intelectuais, que maculam o espírito humano e enegrecem a sua liberdade interior, inevitavelmente limitando o seu florescimento na comunidade em que nos foi dado viver.


João Garção, Sabedoria


         Não procurámos, somente, dar-vos informações e transmitir-vos métodos e técnicas, visando cumprir meros formalismos académicos. Tentámos, sobretudo, criar conjuntamente um estimulante ambiente relacional, assente em princípios éticos irrenunciáveis, que permitisse que pensamentos e práticas mostrassem a sua beleza e a sua utilidade e onde, afinal, pudesse ter lugar o ‘jogo’ da construção, destruição e reconstrução que é intrínseco à maravilhosa aventura que constitui a edificação do Saber.

         ‘Liberdade cor de Homem’, escreveu um dia, apropriadamente, André Breton. Em Educação (como nos demais domínios da Vida, assim o cremos), a exaltação da Liberdade, da Coragem e da Dignidade humana é tão importante como os apelos ao estudo dedicado, ao trabalho árduo e à responsabilidade individual. De outra forma, não haverá quem volte a roubar o fogo aos Deuses nem quem insista em saber ‘o que está para lá da montanha’, para parafrasear Rudyard Kipling…


João Garção, Pintura


         É esta atitude perante a Vida que deixamos nas vossas mãos, esperando que a acarinhem e a façam brilhar pelos anos vindouros. Sabemos que não será em tempos difíceis - como estes que estamos a viver – que os ‘heróis’ se forjam; mas acreditamos que é neles que os ‘heróis’ se revelam. Por isso, fazemos votos para que não vacilem, não cedam nem abdiquem dos vossos sonhos, dos vossos direitos (e deveres!) e da vossa dignidade, como seres humanos irrepetíveis que são - e com os quais, para nosso privilégio, temos tido o gosto de conviver.

        Bem hajam e obrigado por aquilo que nos têm dado. E muitas felicidades, é claro!

                               O Coordenador do Curso de Animação Sociocultural
                                                                                                         
João Garção
                                              
(Docente do Instituto Superior de Ciências Educativas de Felgueiras, onde leciona diversas Unidades Curriculares a cursos de Licenciatura e de Mestrado e onde é Coordenador do Curso de Animação Sociocultural.
 Pequeno texto escrito em junho deste ano, a solicitação de alunos, para ser incluído num álbum de caricaturas de finalistas daquele Instituto).

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 PSCriptum - Em próximos envios: "As Paredes de C.Ronald", "Imagens que me chegaram pelo Tempo", "Louvor de Cruzeiro Seixas"," António Salvado, simplesmente", etc. 

 Nota - Neste, como em qualquer texto de sua autoria (incluindo os falados...) o autor não segue os preceitos do chamado Acordo Ortográfico.