sábado, 18 de maio de 2013

ELES SÃO OS MESTRES… DA CULINÁRIA!





   Um dos casos mais interessantes de todos os séculos, mas principalmente da modernidade e da época contemporânea (dada a emersão da consciência histórica assinalada, entre outros, por Pérec, Simmel, Sidney Hook…) é o das modas comportamentais que, sendo um verdadeiro fenómeno societário, circulam através dos anos de forma indiscernível.

   Na nossa “democracia tendencial”, protagonizada por uma classe dominante geralmente sacrista e hipócrita cujo provincianismo estrutural a faz efectuar cá, em cópia alfacinhista ou regional, ritmos naturais (ainda que nefandos) dos granjolas de lá; e que uma classe média de “fraque roto” tenta imitar em sucedâneo, a imagem de tal facto é uma coisa típica e aflitiva.

   Quem não se lembra das conversas - fosse nos mídia ou nas escritas - a que se entregavam “emissores de opinião” representativos da sua classe, forcejando por estatuir que a culinária e a gastronomia era cultura fundamental (o que sempre se soube…) como se estivessem a descobrir a pólvora?

   O que essa gente visava era, claro, poderem encher o bandulho sem má-consciência, enfrascarem-se divinalmente sem se sentirem mecos tabernículas, exibirem o charuto sem se antolharem exibicionistas meio-freudianos…

   Nos últimos tempos tem tido largo curso aquilo a que chamam, com potência e desenfado (?) erotismo, livre comportamento, etc. E multiplicam feiras, exposições…

  E isto curiosamente num país que acima dos outros pares segue fazendo a vénia às sacristias e às entidades do perímetro sacral – veja-se a referência  escabulhada – e que provocou na colectividade ora o gáudio ora a irrisão - do mais alentado magistrado da nação, o nosso estimado Prof. Cavaco que Noss’Senhora de Fátima proteja.

  Fará pois sentido dar um novo olhar ao texto já publicado neste blog, o qual, infelizmente, parece ganhar novos perfumes e novos volteios… lusitanamente falando.

Musicalmente falando, do pai de tudo:

J. S. Bach.

A martelo:

É disparate? Espeta-lhe a palavra "solidariedade" e tudo ficará bem.

quinta-feira, 16 de maio de 2013

RAP BRANCO

 
 
 
Nota: “Rap branco”, não porque feito por um branco, mas porque sem rimas sistemáticas. E “rap” porque criado para o público, com o público na alça de mira, ao contrário da poesia atual em geral (e a brasileira em particular), geralmente feita para nada e ninguém além do espelho barato da vaidade do poeta. Na direção e no sentido contrários, aqui foi utilizado o Twitter, para o qual as frases que compõem o poema foram originalmente criadas. Com três vantagens ou objetivos: o Twitter exige que as frases tenham um mínimo de interesse público potencial; determina uma medida, uma “métrica”, em função do limite de 140 toques; e induz uma temática não descolada do mundo imediato. O material bruto da coleção de frases foi então recolhido e retrabalhado, sem que seu paralelismo, sua autonomia original, fossem totalmente apagados ou mesmo muito diluídos, pois a coerência, a integridade, a inteireza, não são mais deste mundo. Outro motivo para o uso do Twitter: a fragmentariedade congênita do futuro poema, impedido de nascença de apresentar qualquer ilusória e ociosa organicidade. Enfim, melhor talvez um rap branco do que um poema pálido.
 
 
 

Lágrimas são salgadas porque não há doçura na dor.


Pompeia também era assim.
Velha vila a salvo
à sombra morna
da montanha sólida
que por acaso
desabrochou a grande flor do caos.

Pequenas flores
de calor
bocetas são agridoces.

Não há doçura pura.

A pura aspereza da dor.

Telefone então para a farmácia:
tudo se entrega na cidade.
Cidade-delivery.
Cidade entregue.

Aberta sobre o inseto do planeta
a noite é uma grande flor negra.
Ao menos seus grãos de pólen
parecem estrelas.

Janelas acesas.
Vidas apagadas.

É melhor se render aos fatos
antes que eles atirem em você.

Bala abstrata
entranhada na carne
a dor
sangra no cérebro.

Em mar aberto
japoneses matam

os mais magníficos animais
que jamais existiram
soberbas baleias
para que logo se tornem
merda humana.

Tanta gente insana:
porque foram crianças
nas mãos de gente um tanto insana.

O que se quer
de uma mulher
é algum alívio para a dor
tantas vezes por ela excitada.

Where is God
when I´m making love?


As asperezas da crença
não aparam as rugosidades do caos.

Se o mundo não parece mais
poder ser mudado
mude-se a si mesmo.
Foi um chamado à cirurgia plástica.

Minha libido foi pro saco.

Não há mais como ser como Rimbaud
repudiar a poesia
e a Europa.
Pode-se repudiar a Europa
e a poesia
mas grande porcaria.

Não tenho nada contra a poesia contemporânea.
Se acaso achar algo nela, aviso.

Perigo.
Risco de explosão do não-sentido.

Nas esquinas, mendigos
fazem um malabarismo distraído
com as moedas e os dias
enquanto malabaristas mendigam
centavos de atenção.
 
A esponja do cérebro
não pode mais absorver
o dilúvio de loucura líquida.

Quando chove
a cidade alaga
seu caos seco.

A computação em nuvem é o melhor reflexo
da cultura-espuma.

A poesia contemporânea levou a obsolescência programada ao estado de arte.

A renúncia do papa não me interessa
mas a dos poetas.

"Fora da Igreja não há salvação".
Dentro também não
principalmente para menores.
 
"Nenhum livro é tão ruim
que dele nada se aproveite"
disse Santo Agostinho.
Naturalmente
ele não conhecia a poesia contemporânea.

Só há um mandamento:
"Não faça a ninguém
o que não quer que lhe façam".
Não exige Deus
mas decência.

A poesia brasileira vai muito pior que a Igreja.

O sexo é a melhor coisa do mundo depois das preliminares.

Flores sem caule
não se colhem com cortes
mas com sementes.

Laranjeiras têm flores brancas.
Tão brancas quanto a luz do sol
no branco solar da pele branca
como pétala de flor de laranjeira.

Xoxotas têm pétalas roxas.

Se não existe poesia abstrata
ela que trate de dizer coisa com coisa.

A líquida luz quente do sol
sobre o veludo frio da sombra.

Não há mais nada a dizer sobre o amor
além de que tudo
o que ainda seja dito
sobre o amor é bendito.

O embate não é
entre fé e razão
mas entre fé e lucidez.

O islã é uma religião de paz.
Para quem duvidar
há a guerra santa.

Há uma guerra civil sutil no país.

São Paulo não é uma cidade
mas uma esperança, uma espera e um desespero.

Suicidas vegetarianos usam herbicidas.

Flores caídas nas calçadas
nunca recolhidas.

O sal da saudade só se tempera
com o açúcar do tato.

O amor é o sexo abstrato.
O sexo não é o amor concreto.
O amor é concretamente líquido.

A internet é uma máquina de liquefazer a timidez dos idiotas.

Entre a liberdade e a igualdade
a esquerda escolhe a segunda
a direita, a primeira.
Uma prefere a ilusão
a outra, a mentira.

A prosa pode ser ruim
e ainda conter uma história bem contada.
Um poema ruim é uma conquista da física:
puro punhado de nada.

A tristeza é uma dor descarnada.

Não há mais contra o que se bater
ser beat, hippie, punk, dark
anarquivanguardicomunista:
o ácido da realidade
derrete tudo.

Atenção: chão escorregadio.

Atentos pombos pedestres
partem dos prédios-pombais
fazem o que têm de fazer
incluindo muita merda
e logo retornam.

A cidade teme
até a doçura da chuva.

A chuva é o sêmen de Deus.
A Terra, sua boceta aberta.

Com 7 bilhões de humanos no planeta
a solidão
é o animal mais ameaçado de extinção.

O islã é a maior ameaça à paz dos muçulmanos.

Com 7 bilhões de humanos no planeta
a solidão
é o segundo animal que mais prolifera.

Madrugada. O silêncio da cidade é áspero.

O Brasil poderia ser um grande país
não fosse sua pequenez.

"Somos feitos da matéria dos sonhos" (Shakespeare).
A mesma dos pesadelos.

Se o inferno são os outros
o céu sou eu ou a solidão
que são, afinal, a mesma coisa
e igualmente infernal

Don't matter where you are
everybody gonna
need some kind of ventilator
.

Algum que ventile a dor.

A poesia parou.

Se não há Deus
só a vida importa.


Bitches.

A "europa" do ouroboros

Relativamente à "europa" considerações minhas deixadas no Facebook de Ramiro Marques:

"provando que não somos todos iguais, nem as pessoas nem os países."

Pois. A "europa" é uma 'construção' ideológica absolutamente artificial e contra-natura. É uma 'construção' equivalente à URSS sem utilização explícita de força mas com implícita utilização, por via legal, da mesma força, pela mesmo tipo de gente em posição fundamentalmente anti-democrática.

A história resulta das 'gentes' serem diferentes. O que daqui e da "europa" resulta, é o seringamento dos mais incipientes e/ou menos numerosos pelo pensar dos mais significativos. A "integração" é uma falácia para assimilação.

Estas coisas nunca foram discutidas porque o politicamente correcto tornou este assunto absoluto tabu. A livralhada da escola está cheia desta seringada. A "europa" pretende não apenas sem implantada 'de facto' mas implantada 'in cerebrum'.

A hegemonia deste "pensamento" deixou a direita sem massa crítica para, sequer, respingar. Era o "desígnio de todos os povos da europa".

Internamente a esquerda via um filão de dinheiro sem fim .... A direita (parte dela) ia-se, aqui e ali, mostrando céptica, a restante ia alinhando pensando poder pôr água na fervura!! A "europa" comprava as consciências alimentando a teta que a esquerda reclamava. Entretanto, regulava, sufocava, regulamentava, sufocava, legislava, provocava a debandava de postos de trabalho e investimento. Lançava alcatrão sobre o que ainda mexia "defendendo o ambiente" com eólicas e disparates afins.

Tudo foi parando começando pelos elos mais fracos. Todos devem a todos e todos devem muito, muitíssimo a gente que está fora da "europa", os pobres devem muito mais a toda a gente.

A esquerda, suspira em, e, por convulsões pelo "é agora!". Querem a revolução proletária! Nutrem os descontentes com mais descontentamento amestrando-os em técnicas de lamentação, pedinchice, vitimização, ... por culpa dos que já não estão dispostos a alimentar a teta-canal de manutenção de dependentes para os quais ela se auto-institui de guardiã, salvadora, orientadora .... enfim, neo-escravatura.

Estas coisas foram sendo paulatinamente implementadas da maneira como se cozem sapos: devagarinho até estejam cozidos sem disso se aperceberem. Com graveto a escorrer, não há travão que funcione nem realismo que se afirme. O social é irresistível para o que recebe e para o que se mantém no canal ... que vai tentando segurar eternamente.

O corte do crédito faz a esquerda ver periclitar o sonho eterno e ela estrebucha como uma barata tonta tentando manter as rédeas já não do canal mas de um virtual canal, em jeito de esperança eterna, ressuscitável mal chegue ao poder.

As pessoas, aturdidas pela marreta da realidade e pelo divórcio entre a anunciada expectativa e o dinheiro que lhes sobra, .... bom, aqui temos duas importantes nuances: o partido do estado e quem o alimenta. O estado tem muito mais dependentes que contribuintes líquidos. É a receita pata o ouroboros.

A democracia só se aguenta caso possa ser paga. À excepção dos regimes de esquerda, muito regime não democrático permitiu aumento bem-estar social e de riqueza ao ponto de acabar em democracia (Chile de Pinochet - o Chile de Allende era equivalente à Venezuela de Chavez, apesar das rosnadelas da esquerdalha). A mesma coisa por regime esquerdalho nunca aconteceu. Acaba sempre tudo à porrada e com muitas valas comuns quer de fome quer de porradaria generalizada.

"A banca hipervalorizou o imobiliário (avalia agora por 25 aquilo que avaliava por 100 há 5 anos)."

A banca valorizou, porque a procura era monumental e o dinheiro 'aparecia'...!!! É a receita para o desastre. Não 'aparecesse' o dinheiro e a banca não valorizaria. Essa aparição de graveto fazia parte da "construção europeia".

Os tentáculos de Cuba na América do Sul

Na Venezuela a todo o gás e, na calha, o Brasil.








O Reino Unido pretende sair da "europa"?

Parece que sim, ontem, e o debate é já um tumulto:

segunda-feira, 13 de maio de 2013

A EXPO FEZ 15 ANOS!






    Lembra-se caro leitor e confrade? Propunham-se os nossos maiores fazer coisa luzida, com os estrangeiros todos embasbacados, de olhos em alvo perante a magnificência do talento dos portuguesinhos valentes, bem dignos dos navegadores de antanho…!


    E foi coisa luzida, com efeito e sem defeito. Só que, como os tempos eram já outros diferentes do das caravelas, o que parece ter “ido à vela” foi outra cousinha. Creio que me faço entender, decerto todos se lembram mais ou menos…da coisata bem artilhada.


    Mas adiante. O que vos apresentamos de seguida, p’ra festejar essa moçoila bonitona e fermosa de quinze aninhos vicejantes, foram as obrinhas (um poeminha e um quadrinho) com que o autor destas regras participou numa Mostra de Arte Postal acontecida, na horinha, nas franças e araganças do nosso devir poético-estrutural-comercial.


    Com estima e desejos de bon apétit memorialista e os proverbiais abraqson e bjh, aqui vo-las deixamos.




"UMA REALIZAÇÃO DOS PORTUGUESES"

   Fartaram-se de nos dizer que a "última exposição mundial do século" era, se calhar como a tropa, o "espelho da Nação" - e falavam verdade! Muitos de nós, por lucidez ou ingenuidade, ou teimosia, não queríamos acreditar. Podia lá ser!

    E, vai-se a ver - afinal era mesmo! Confessemos, no entanto: era difícil de engolir. Mas a rapaziada esmerou-se. E fez-nos curvar a cabeça, inda que a custo.

   Um milhão e trezentos mil, para já. A verba faz-me sonhar...E outros ainda sonharão mais, mas deixemos esse detalhe por agora. Ah! valente João Caldeira!

    Na TV, dois homens sérios e de discurso eficiente (entre eles o talentoso doutor Eduardo, o grande estruturalista), propõem-nos um raciocínio eficaz: são coisas da vida, pois então! E se os italianos ou os espanhóis pensam que se podem rir do "affaire", eles que olhem para os lares: também por lá anda uma bendita corrupção. E é verdade.

   Embora os corruptos, pobres deles, estejam sempre do mesmo lado. Experimente o leitor ser corrupto - vai ver que não consegue! Porque é preciso andar-se no sector certo: chefe de contabilidade, um (deus me perdoe!) director-geral, por aí as hipóteses são várias e aliciantes por cá. E viva a modéstia - olhem se fôsse em estilo Balzac...

   Ainda que já entradote (do lado dizem-me mesmo que até já morto) o poeta Castilho, que tinha experiência de poderosos, deu-se ao trabalho de elaborar uma nova versão do seu famoso poema que tem como quadra bem marcada "Da parte, madrinha/de Deus vos requeiro/Casai-me hoje mesmo/com Pedro Gaiteiro.". E segue a peça:





Madrinha, senhora
sabei que também
eu lá fui à Expo*. E vi, vi as gentes
o Oceanário, garotos em fila, polícias
e reis. Um tipo pernalta Inglês, me disseram
pessoal fardado: generais, ministros
e muita alegria
e melancolia
alguns alentejanos para dar cor local
e Vasco da Gama
e Álvares Cabral
a fingir que estavam ali a férias. Madrinha
da parte
de Deus vos requeiro: casai-me hoje mesmo
com João Caldeira.
Madrinha, não quero
não quero o Cavaco
nem o Engenheiro
nem o Marques Mendes
que é muito onzeneiro (aqui, se calhar
devia haver outro adjectivo, mas
faz-me falta à rima)
e então é assim: não quero o ministro
(Costa) que dança em terreiro
nem quero o banqueiro (a não ser
que seja masoquista, o que sempre dá jeito)
com seu gibão largo
de arminho e cordeiro
nem o conselheiro (Espada)
rostinho trigueiro
que faz tanta inveja
a muito vaqueiro
Já não sou Anita
sou executiva (secretária, dactilógrafa)
bailando ao pandeiro
sou a senhor ´Ana
que mora no oiteiro
(ou seja, numa das
sete colinas da feliz Lisboa, mas
o poema tem de sair com ritmo e então
é assim)
já sou mulherzinha
já trago sombreiro
quer seja manhã
quer seja ao serão
e sei deitar contas à vida, portanto
da parte, madrinha, de Deus
vos requeiro
casai-me com o doutor tantos de tal e se não
puder ser
dai-me ao menos a subida honra de apertar a mão
ao Mega Ferreira
ou então
permiti-me um ósculo nas barbas venerandas
do Prado Coelho
mas se inda assim não fôr viável, madrinha
ao som do tambor (digamos, a pança do doutor)
vos requeiro
casai-me assim que o conseguirdes
com João Caldeira
Casai-me no monte
casai-me no mar
casai-me na serra
ou até mesmo numa igrejinha em Sintra, com flores
de laranjeira, que eu sou de boas famílias, mas
marido pretendo
de humor galhofeiro
que saiba como é
o som do dinheiro
que viva por festas
co´o tamborileiro
que não seja pobre (ou sequer remediado, que a vida
apesar do Euro não está para graças)
secretário de Estado
herói marinheiro
(não o Torres Campos, coitado
que é sério, careca e, segundo dizem
nem é filiado na Maçonaria), com ar sobranceiro
e com belo cargo
que sempre é melhor, que em ele assomando
logo se alvorote
o lugar inteiro, madrinha
comigo romeiro e romeira
casai-me já hoje
ou então, podendo ser e não dando muito trabalho
amanhã ou depois

com João Caldeira

                                    *NOTA - O A. não foi à Expo. Trata-se pois
                                                             da chamada "liberdade poética".




Este país é um colosso: tá tudo janado, tá tudo janado!




Enquanto não encontro um tempinho para iniciar o meu lado da discussão do tema da superioridade cultural do Cristianismo, deixo aqui mais duas crónicas certeiras de Alberto Gonçalves:


A liberdade sob Cavaco

Não me interpretem mal: acho que o grau de liberdade experimentado numa dada sociedade é directamente proporcional à dimensão do enxovalho infligido em público aos respectivos líderes. Dito de outra maneira, quanto mais achincalharmos quem manda em nós, mais livres somos. Não falo de tecer reparos, criticar construtivamente, satirizar com bom gosto, opormo-nos através do fatídico sentido de Estado. Falo de insultar com à-vontade e baixeza, à semelhança do programa televisivo americano que mostrava George W. Bush como um símio (as tentativas de mostrar Barack Obama de igual forma mereceram o epíteto de "racistas" e a condenação quase geral) e do papel higiénico britânico que ostentava o rosto de Isabel II.

Durante anos, e anos teoricamente democráticos, gozámos dessa liberdade a propósito de quase todas as personagens do poder. Quase. A excepção era o presidente da República (PR), ao qual se reservava no máximo uma discordância respeitosa. Salvo nas mesas dos cafés e nas paragens de autocarro, beliscar o PR constituía uma actividade praticada com moderação, ainda que o titular do cargo inventasse um partido para anexar o regime, fizesse campanha declarada contra o Governo em funções ou congeminasse uma estratégia tortuosa para favorecer activamente os seus camaradas.

Sob Cavaco, soltaram-se as amarras. De repente, comentadores, humoristas e diletantes habitualmente comedidos desataram a atacar com inusitada violência o alegado mais alto magistrado da nação. Alguns até transformaram os ataques numa rotina semanal, tenham ou não razão, tenham ou não pretexto. E embora talvez também não tenham consciência, a verdade é que abriram o caminho para que, de futuro, nenhum PR volte a suscitar as mesuras de antigamente. Mesmo, note-se, que seja apoiado pelo exacto PS que nunca deixou de achar um usurpador o actual inquilino de Belém, por acaso duplamente eleito por decisão popular. Cavaco é um PR fraquinho? Com certeza, mas pelo menos muitos constroem uma carreira a gritar que é péssimo, enquanto de outros, que eram de facto péssimos, insinuava-se em receosa surdina que eram fraquinhos


Sinais de fumo

O Bloco de Esquerda (BE) é um acérrimo opositor da iniciativa privada em quase tudo, excepto no que lhe cheirar a "transgressão". Ou a haxixe. Num momento em que o País está mais para lá do que para cá, o BE fez o que se impõe a um partido responsável e apresentou no Parlamento uma proposta que visava legalizar o cultivo doméstico da canábis e a sua venda em clubes da especialidade.

Por mim, acho óptimo que cada cidadão tenha o direito a plantar e a vender o que quiser e acho encantador que o BE tome, enfim, uma posição amiga do livre-arbítrio. Mas também acho tontinho que o faça motivado por um desejo pueril de confrontar um imaginário "sistema". Que idade tem o dr. Semedo? Se a resposta for dezassete anos, tudo bem. Acima disso, a coisa começa a resvalar para o ridículo.

Em qualquer dos casos, tudo isto poderia ser uma iniciação do BE e do eleitorado do BE às agruras do ramo empresarial. Em circunstâncias ideais, esses hippies requentados saltariam da exploração da canábis para a produção têxtil ou o sector dos transitários e, num ápice, estariam a rebelar-se contra o que importa, leia-se o peso do Estado. Infelizmente, da canábis não se salta para nada, excepto para o sofá entre risinhos. Aliás, a proposta parlamentar acabou rejeitada e os interessados provavelmente nem notaram...

domingo, 12 de maio de 2013

Novílingua: um bicho persegue a roubolução bolivariana

[Já não me lembro onde pesquei isto]

"grave escassez que ameaça a estabilidade do governo venezuelano, Maduro pediu vendas emergenciais de alimentos ao Brasil e ajuda para desenvolver a agricultura no país, além de apoio para enfrentar a crise no setor elétricoque tem provocado constantes apagões.

http://www.valor.com.br/internacional/2681698/escassez-de-energia-ameaca-crescimento-da-venezuela-apontam-analistas

http://venezueladecristo.blogspot.pt/2011/11/escassez-de-alimentos-ameaca-venezuela.html

http://www1.folha.uol.com.br/folha/mundo/ult94u365645.shtml
O governo da Venezuela se vê atingido pela escassez de alimentos básicos, como leite e pão, e ameaça expropriar aqueles que não obedeçam à regulação de preços, apontada pelos produtores como a principal causa do desabastecimento.

http://online.wsj.com/article/SB10001424127887324485004578422642701930934.html

Os defensores de Nicolás Maduro, o sucessor escolhido a dedo por Chávez e forte favorito, tendem a acreditar no governo quando este põe a culpa da escassez de bens nos supermercados e empresas que eles acumulam produtos para criar instabilidade e derrubar o governo.

http://www1.folha.uol.com.br/mundo/1235859-dilma-pede-calma-em-relacao-a-novo-pacote.shtml

O desabastecimento é o maior no país ao menos desde 2009, quando o Banco Central da Venezuela começou a mapear a "escassez" de produtos da cesta básica no país. Em janeiro, o índice bateu o recorde de 20,4%, isto é, de cada cem produtos procurados, 20 não estão disponíveis para compra.
Os mais escassos são justamente os produtos do dia a dia do venezuelano: açúcar, leite, farinha de milho, frango e azeite.
"Se não estão em falta os produtos, há apenas uma marca disponível. Para conseguir comprar tudo, tenho que ir em até quatro supermercados", conta a dona de casa Maria González, 42, com poucas sacolas na mão.


Podia-se escrever assim:

Política despesista da Venezuela afunda o país;
Corrupção destrói um país;
Comunismo afunda mais um país bastante rico;
Maduro não acerta uma previsão;
Fome em Venezuela;
Terrorismo social do governo chavista de Maduro;
Ministro da economia venezuelana falha e está isolado no governo;
Políticas económicas erradas na roubolução chavista;
Uma espiral de recessão afecta a economia;
Políticas destinadas ao fracasso afundam Venezuela;

Em vez disso culpam esse bicho invisível Escassez, dão-lhe vontade própria e capacidades de maldade anti-bolivariana sem fim! Extraordinário este linguarejar de trapos do jornalismo marxista da sarjeta.

sábado, 11 de maio de 2013

ISLAMISMO VERSUS KEMALISMO (ELOGIO DE ATATURK)




Nota introdutória

A propósito da complexa e premente questão da "reformabilidade" ou não do islã, recente objeto de aguda discussão neste venerável blogue, através de vários posts e comentários, copio abaixo um capítulo de meu livro inédito As asperezas da crença: a religião no mundo contemporâneo [1], obra que não trata apenas das questões do islã com a modernidade, mas também delas. Neste pequeno capítulo em particular (apenas uma parte da seção dedicada ao islã), discuto de forma sucinta a experiência inédita do kemalismo, ou seja, a criação da moderna República da Turquia sobre os escombros do Império Otomano, liderada por Kemal Mustafá Ataturk, um anti-islamista radical, talvez o mais radical da história.
 
 

Toda a discussão sobre a relação do islã com os graves e agudos problemas contemporâneos do mundo muçulmano é, de certa forma, ociosa. Pois ela se dá deixando de lado um dado histórico fundamental – o que, portanto, a falseia. Falsa e ociosa, a discussão se mantém (sem na verdade avançar) ao desconsiderar algo do tamanho do Império Otomano – mais exatamente, da moderna República da Turquia. Se este dado é inserido na discussão, ela muda tanto quanto se clarifica. Pois se dá uma resposta, ou ao menos um exemplo histórico, do que pode ser feito, ou do que já foi feito, em um caso específico, para resolver a questão do islã na difícil equação "mundo muçulmano versus modernidade".

Depois de um longo período de lenta decadência, com o império sendo literalmente comido pelas bordas pelas novas e ascendentes potências europeias, e apenas não se desfazendo antes por haver certo interesse dessas mesmas potências em preservá-lo, ainda que – e na verdade porque – enfraquecido (na segunda metade do século XIX, o Império Britânico utilizava o decadente Império Otomano como um tampão contra a expansão do Império Russo para o sul e para a região estratégica do Mar Negro), o Império Otomano afinal se desfez ou foi desfeito logo após sua derrota na Primeira Guerra Mundial, na qual se aliara à Alemanha. A própria existência de qualquer estado turco ficou então em suspenso – até a reação chefiada pelo coronel Mustafá Kemal Ataturk, líder da Revolução Turca de 1919 e fundador, em seu rastro, da atual Turquia.

Portugal já foi um império. Também a Espanha, a Rússia e, mais recentemente, a Inglaterra. Porém o mais correto seria dizer que esses países tiveram um império. Ao perderem suas colônias, voltaram, de certa forma, a ser o que haviam sido antes de conquistá-las. O Império Otomano era diferente. Não houve uma Turquia que depois conquistou um império. Houve, primeiro, o império turco, nascido da lenta expansão militar de um pequeno núcleo tribal. Esse núcleo tribal, de cultura centro-asiática, era originário da região de Altai (Mongólia), e fizera parte das várias levas de invasores nômades que, historicamente, se deslocavam do centro da Ásia para o oeste, como mongóis e hunos (estes também de etnia turca). Essa tribo turca em particular, cujo líder se chamava Osman, ou Otman, e daí o seu nome, estabeleceu-se na Anatólia (atual Turquia) em torno do ano 900. Nos séculos seguintes, os turcos otomanos incorporariam regiões e estruturas – físicas, culturais, religiosas e políticas – de estados árabes nascidos do esfacelemanto do Califado de Maomé, assim como do Império Bizantino, incluindo sua própria capital, Constantinopla. Quando, mais tarde, o Império Otomano se desfez, no início do século XX, não havia um antigo centro nacional a preservar, ou para o qual retornar, como havia, no centro do Império Britânico, a Inglaterra. Para haver uma Turquia depois do fim do Império Otomano, era preciso criá-la.

Na lista dos maiores estadistas do século XX, Roosevelt e Churchill têm um lugar natural por sua vitória na Segunda Guerra Mundial. Porém há uma outra lista, não menor do que a primeira, apenas diferente, ou seja, não a dos grandes líderes político-militares, mas a dos grandes construtores de nações, em que se destacam Gandhi e Mandela. E na qual o primeiro lugar, o de maior estadista do século XX em sua acepção mais ampla, cabe a um coronel turco, Kemal Ataturk, o criador, no sentido mais puro da palavra, da atual República da Turquia a partir dos escombros do Império Otomano.

Ataturk foi um déspota esclarecido, o último e o maior deles, na tradição e na linhagem de Pedro, o Grande e de Catarina, a Grande, na Rússia, ou do marquês de Pombal. Se Pombal chegou a proibir a Companhia de Jesus, Ataturk foi mais longe: tentou virtualmente eliminar o islã da cultura turca. Pois o considerava necessário como uma das etapas principais, senão a principal, na construção do novo país. Maior líder militar turco moderno e pai-fundador da República (ataturk significa “pai dos turcos”), ele talvez soubesse o que estava fazendo. E dizendo.

Afirma-se que a unidade religiosa é um fator na formação das nações. No entanto, vemos o oposto na nação turca. Os turcos eram uma grande nação antes de adotarem o islã. Essa religião não ajudou os árabes, iranianos, egípcios e outros a se unirem aos turcos para formar uma nação. Ao contrário, ela enfraqueceu as relações nacionais turcas, e anestesiou os sentimentos e o entusiasmo nacionais turcos.
[2]


Ataturk é considerado pelos islâmicos militantes o maior inimigo do islã em toda a história. Basta fazer uma pesquisa na internet com as palavras ataturk e islam: aparecerão então incontáveis sites islâmicos, que se referem ao primeiro termo da busca como “o grande inimigo”. Por isso mesmo, muitas afirmações atribuídas a Ataturk não são confiáveis. Além de questões específicas de fontes, elas são agressivas demais ou sutis de menos, e isto simplesmente não faz sentido em se tratando da vitoriosa trajetória política de Ataturk (elas são adotadas tanto por militantes sem qualquer critério quanto por anti-islâmicos com muito critério, para pintar Ataturk com as cores mais “negras”). Portanto, ele não deve ter afirmado isto, apesar de normalmente a ele atribuído:

Durante mais de cinco séculos, as regras e teorias de um velho xeique árabe e as más interpretações de gerações de sacerdotes ignorantes se fixaram, na Turquia, em todos os detalhes da lei civil e criminal. Elas determinaram cada movimento da vida de cada indivíduo, sua comida, suas horas de vigília e de sono, a forma de sua roupa, o estudo na escola, os costumes, os hábitos e até os pensamentos mais íntimos. O islã, essa teologia absurda de um beduíno imoral, é um cadáver putrefato que envenenou nossas vidas.
[3]
 
Mas tenha ou não dito isto, disse comprovadamente outras coisas claras o bastante:
 
Estamos tentando não misturar assuntos religiosos com os negócios da nação e do Estado, e evitando ações reacionárias baseadas em más intenções.[4]

Não consideramos nossos princípios como dogmas contidos em livros vindos do céu. Nossa inspiração vem não do céu, ou de um mundo invisível, mas diretamente da vida.
[5]

Temos que ser independentes do ponto de vista da religião.
[6]
 
Também foi claro em questões de costumes:

A humanidade é feita de dois sexos, homem e mulher. É possível que um povo se desenvolva pelo desenvolvimento de apenas uma de suas partes enquanto a outra parte é ignorada?
[7]

Muito antes da França, Ataturk coibiu o véu feminino. Como o marquês de Pombal proibiu a ordem dos jesuítas, ele fechou as ordens de dervixes, espécies de mulás místicos. Também fechou as escolas religiosas, as madrassas, onde se estudava o Corão – e onde tudo o que se estudava era o Corão. Ao mesmo tempo, instituiu o ensino universal e laico. Mudou o alfabeto turco, que utilizava caracteres árabes, para um novo alfabeto, baseado nos caracteres latinos. Como Lutero e o rei James da Inglaterra traduziram a Bíblia, respectivamente, para o inglês e o alemão, Ataturk encomendou, pela primeira vez, a tradução do Corão do árabe para o turco, a fim de que os fiéis não ficassem reféns das interpretações dos mulás. Determinou o domingo como dia de descanso, em lugar da sexta-feira. Anulou a legislação religiosa, incluindo as leis sobre casamento, divórcio e herança, baseadas na lei islâmica, a shariá, e instituiu uma legislação civil. Proibiu a poligamia. Substituiu o calendário muçulmano pelo gregoriano. Fechou inúmeras mesquitas, e transformou a principal delas, a de Sófia, em Istambul, em um museu. A lista é interminável. Entre outras coisas, Ataturk também aboliu o califado.

O Império Otomano era, ao mesmo tempo, o sultanato, o império do sultão turco, e o califado, pois o sultão era também o califa, ou sucessor de Maomé, portanto, o “Defensor do islã” e sua máxima autoridade religiosa. Algo assim como se o imperador romano fosse simultaneamente o papa. Ataturk, além de destituir e exilar o último sultão, acabou com o papado – digo, com o califado.

Ataturk não criou apenas um novo estado, a Turquia, dos escombros do Império Otomano. Também criou uma república laica e institucionalmente moderna no lugar de um estado religioso. Além disso, e acima de tudo, tentou mudar e remoldar a cultura do país, a fim de que a racionalidade e o empirismo modernos substituíssem as crenças e as práticas religiosas. Ele foi o único reformador a fazê-lo com relativo sucesso em todo o mundo muçulmano.


Primeira conclusão: as reformas modernizantes e democratizantes de Ataturk, se não foram implementadas à força, pois ele não criou um regime totalitário, mas uma democracia tutelada por um exército secularista,  foram tuteladas pelo exército (ele próprio era um brilhante militar de carreira, herói da Primeira Guerra Mundial). Essa tutela foi necessária para mudar tanto as instituições quanto as práticas e as mentalidades, e assim criar tanto um novo país quanto uma sociedade civil razoavelmente moderna. Daí a falácia dos islâmicos “moderados” que evocam o “modelo turco” a fim de defender sua subida ao poder nos países da "Primavera Árabe". Trata-se, de fato, de uma falaciosa inversão da relação de causa e efeito. Pois a imperfeita democracia turca não foi construída por um partido islâmico “moderado” no poder, mas pelas forças políticas anti-islâmicas lideradas por Ataturk (e centralizadas na elite do exército, que tomara consciência da necessidade de rápidas e radicais mudanças no novo país ao se confrontar, literalmente, com a modernidade ocidental, na forma da enorme produção industrial e dos já mecanizados exércitos de massa europeus da Primeira Guerra Mundial, da qual o Império Otomano saiu completamente esfacelado – o que criou não apenas a necessidade como a possibilidade de reconstrução da nação e da sociedade turcas). 

Segunda conclusão: se o kemalismo serve de exemplo de algo, é que o caminho da reforma do islã passa ao largo da reforma do islã, mesmo porque, este é uma religião, mas não uma Igreja, ou seja, uma estrutura institucionalizada por onde operar. Esta não existe.  Não há poderes centrais, hierarquia eclesiástica, concílios, códigos canônicos etc. Mas há, em compensação, divisões como sunismo, xiismo, sufismo etc. O islã é, então, seguindo o modelo kemalista, reformável como resultado de mudanças reais e radicais das sociedades em que é a principal referência sociocultural e mesmo jurídica (através da shariá, a lei islâmica). Como consequência, o islã resulta reformado naquilo que mais importa, a retirada de sua tóxica posição central e centralista na sociedade muçulmana – restando aos fiéis que ainda o desejarem a "privatização" de sua prática, mesmo porque o novo modelo de sociedade, inclusive pela retirada do islã de sua posição central, inclui a liberdade religiosa (além das liberdades civis, como a de expressão) e a separação das instâncias religiosas das políticas.

Terceira conclusão: o caminho kemalista, por se dar de cima para baixo, não é hoje realista, ainda que possa haver exceções, como a Argélia depois da eliminação da Frente Islâmica de Salvação (FIS), hoje com um governo laico eleito e tutelado por um exército secularista. Mas exceções são exceções. Como regra, a reforma do islã depende, enfim, das forças políticas realmente secularistas nos vários países muçulmanos – que hoje, infelizmente, em geral não são de fato uma força, mas uma fraqueza política.

Quarta conclusão: quanto às comunidades muçulmanas estabelecidas em países onde já vigora a moderna sociedade aberta, elas têm de ser vencidas e convencidas no sentido de compreender que tal sociedade não será, em nenhum grau ou sentido, islamizada, mas que suas comunidades islâmicas devem se modernizar na direção da "privatização" da crença. A crença de cada um não importa, assim como sua opção sexual, desde que viva sua vida, deixe os outros viverem as suas e respeite as leis, que são republicanas ("coisa comum"). A tolerância com a intolerância serve à intolerância. A intolerância com a intolerância serve à tolerância. Neste sentido, ao contrário dos que se autoproclamam "tolerantes" com as "especificidades culturais", os verdadeiros tolerantes são os intolerantes. Nenhum valor ou argumeno evocável para defender, preservar ou proteger a intolerância é maior ou melhor do que a própria tolerância. 


[1] Agradeço de antemão qualquer ajuda dos amigos portugueses para tentar publicar o livro em Portugal. Num país "tropical" e lulopetista como o Brasil, seu tema não desperta muito interesse nem é considerado relevante.
[2] Yurttaslik Bilgileri, Yenigun Haber Ajansi (1997), p. 18 (acessível em http://en.wikiquote.org/wiki/Mustafa_Kemal_Atat%C3%BCrk [tradução de minha autoria]).
[3] Há várias referências a esta citação na internet (em que me baseei para a tradução). Uma das melhor embasadas, pois cita a fonte, é http://www.bismikaallahuma.org/archives/2005/mustafa-kemal-ataturk-the-enemy-of-islam/#footnote_2_62 (H. C. Armstrong, The Grey Wolf , Capricorn Books, New York, 1961, pp. 199-200). Cf. “Attribuée à Mustapha Kémal Atatürk / 1881-1938 / in ‘Mustapha Kemal ou la mort d'un empire’, Jacques Benoist-Méchin”, acessível em http://atheisme.free.fr/Citations/Ataturk.htm, e “Durante más de 500 años, las normas y las teorías de un jeque árabe anciano...”, acessível em http://yahel.wordpress.com/2010/06/28/ataturk-esa-teologia-absurda-de-un-beduino-inmoral.
[4] Acessível em http://tekadamdevrimi.com/tekadamdevrimi/tad_ingilizce/tad_ingilizce_02.htm.
[5] “Statement” (1 November 1937), as quoted in Atatürk: The Biography of the founder of Modern Turkey (2002), by Andrew Mango (acessível em http://en.wikiquote.org/wiki/Mustafa_Kemal_Atat%C3%BCrk).
[6] Acessível em http://tekadamdevrimi.com/tekadamdevrimi/tad_ingilizce/tad_ingilizce_02.htm.
[7] Acessível em http://www.goodreads.com/author/quotes/2793859.Mustafa_Kemal_Atat_rk.

Da superioridade cultural do cristianismo




G. K. Chesterton


A propósito do texto anterior do Luís Dolhnikoff, "É tudo verdade", e dos comentários e respostas que suscitou até agora, lembrei-me deste, que publiquei, pouco mais de um ano atrás, no Fiel Inimigo:


A nossa época é uma época profundamente obscurantista. E tanto mais obscurantista quanto mais se arroga a representação exclusiva e definitiva de um pensar objectivo, laico e humanista, isento de anteriores superstições impeditivas do acesso à verdade e à liberdade, às liberdades, espelho de uma imparável evolução da Humanidade.

Uma das ideias nela muito difundida é a de que todas as religiões se equivalem:


 - ou porque todas elas resultam de um apelo do e a um Transcendente comum e que, pela parcialidade e correspondente sectarismo de cada uma dessas visões, todas elas comungam de iguais virtualidades e culpas nos seus efeitos sociais e políticos - sobretudo culpas;


- ou porque se limitam a reflectir o temor e o tremor da humanidade, e benefícios em busca de uma protecção na luta contra os elementos hostis e ameaçadores da sua existência, antes deste dealbar da sua libertação pelo pensamento científico e respectivas conquistas;


- ou porque não passam de uma artimanha destinada a que uns quantos cimentem o seu poder sobre os restantes, manobrando-os e explorando-os mais facilmente e a seu bel-prazer;


- ou porque resultam de uma síncrese de todos estes factores, próprios, uma vez mais, de uma espécie que não atingiu, e estará ainda muito longe, da sua maturidade - e ainda que, céus!, se dirige já para as estrelas, podendo contaminar todo o universo com a sua moléstia moral.


Neste papaguear generalizado entre os eruditos e disseminado superficialmente através de uma vulgata dos conceitos – entre a maioria dos políticos e a restante população da civilização ocidental (mas só desta!) – com a preciosa ajuda dos jornalistas, esses aprendizes da informação que tanto têm contribuído para a generalização da confusão e da degradação -   um dos pontos fortes da autoflagelação decadente da moda é que o cristianismo é uma religião como qualquer outra.

E não é.

Dizia Chesterton que os cristãos não são nem melhores nem piores do que os outros. Só são piores na medida em que teriam a obrigação de serem melhores.

Chesterton tinha toda a razão.

No cristianismo, e só no cristianismo, se encontra a raiz que levou ao surgimento do conceito de humanidade, de uma irmandade humana, pela ideia de uma cristandade universal – o budismo, ao dirigir-se a todos os homens mas ao fazer da salvação individual a sua pedra de toque, nunca foi capaz de o gerar.


E, mais ainda do que no budismo, é no cristianismo, e só no cristianismo, que a violência é condenada. Porque o é mesmo que em favor de Deus, quando Pedro é repreendido por Cristo ao puxar da espada para defender o Mestre. Porque Deus só é Deus de alguém enquanto for resultante do seu livre reconhecimento enquanto tal.

É no cristianismo, e só no cristianismo, que o estádio de desenvolvimento humano a que chamamos infância é valorizado pela boca do próprio divino, conferindo assim dignidade à totalidade da existência humana, dois mil anos antes do nosso tempo.

É no cristianismo, e só no cristianismo, como também Chesterton põe em relevo, que da boca do Enviado de Deus, um mero carpinteiro, saem não impropérios, ameaças, condenações e afirmações de grandeza, mas coisas do mais elementar bom senso, como um “que atire a primeira pedra quem ainda não pecou”. E em que, acrescento eu, o corpo é declarado como o Templo dos templos a Deus.

Estou a ouvir quem leia o que acabei de escrever a ripostar-me de imediato: “Mas, ó meu caro, não tem sido a história do cristianismo a negação de tudo isso ou, pelo menos, a sua negação quase total, a negação da vida? As crianças, por exemplo, não foram elas tantas vezes utilizadas, mal tratadas ou mortas no meio do fanatismo da cristandade? Não foram os não-cristãos tantas vezes perseguidos e aniquilados?”.

Sim.

Mas há nisso tudo uma diferença essencial, crucial.

É que os princípios nos quais dizem firmar-se os que o fizeram, os condenam sem equívocos, tal como Chesterton faz notar.

A cristandade terá, tal como os muçulmanos e outros o têm feito recentemente e por diversas vezes, sacrificado crianças e jovens para fins políticos e ambições pessoais, apresentando-os como “mártires do Reino de Deus”. Mas, ao contrário dos restantes, que nisso são sancionados pelos seus textos sagrados, o Evangelho faz desses cristãos mentirosos e condena-os a um julgamento divino inexorável.

A cristandade poderá ter sofrido poderes discricionários e prepotentes em nome de uma Cidade de Deus governada por iluminados de todos os matizes. Mas é nos textos cristãos – no “quem não é contra nós é por nós” (astutamente invertido pelo ditador Salazar) e no episódio da Paixão de Cristo que referi – que estão as sementes e as raízes da argumentação de John Locke em prol de uma sociedade democrática. A democracia ocidental tem a sua origem no cristianismo, não na “democracia” grega, assassina de Sócrates, o único democrata de Atenas, como ele sabia e disse aos seus juízes, incomodando-os e irritando-os.

A cristandade poderá ter depreciado o corpo como Templo de Deus, como o laboratório da Vida, criada por Deus. Mas essa depreciação e mesmo a sua mortificação é fruto (como qualquer estudante de Filosofia ou de Cultura Clássica o sabe) da infiltração dos misticismos grego e oriental, que consideravam o corpo como o túmulo da alma, logo no cristianismo dos primeiros séculos (“soma”, corpo, e “sema”, túmulo, têm a mesma raiz). Porque a sua glorificação vem, no Evangelho, na boca do próprio Cristo.

De facto, os valores que – ateus, crentes ou nem por isso – dizemos contemporâneos e as características que atribuímos aos seres humanos da futura humanidade diferente, tudo isso se encontra no Evangelho. Porque o cristianismo é diferente de tudo o mais.

Este o sentido da frase de Chesterton, para quem ele é a única religião que celebra a Vida, na acepção mais fundante do termo.

Defender os valores cristãos é, portanto, como se vê, defender e incentivar a evolução da espécie humana na própria óptica dos ateus e dos indiferentes e não o oposto, como o venenosamente prepotente obscurantismo reinante na nossa era pretende. E isto leva-me a um último aspecto não menos importante, o qual, em profunda relação com os anteriormente apontados, se torna também não menos decisivo.

O cristianismo é, enquanto religião do corpo, uma religião do finito e, por consequência, do limite. O mundo, qualquer mundo, é “o lugar” e por lugar entende-se algo de-limitado, de-finido. Donde se infere, por tabela, dois planos distintos inter-relacionados – tal como a pele é, em simultâneo, o que, separando-nos, nos liga inevitavelmente a tudo o mais. O mundo é o plano do limite, é “o caso”, na deliciosa expressão de Wittgenstein, o que faz com que tudo o que nele acontece tenha, necessariamente, limites.

O Cristo que toca os corações das boas almas de todos os credos e continentes, que anda na boca dos cantores de rock, nos discursos e cerimónias do correcto humanismo do Ocidente de todos os quadrantes políticos e que eu próprio pus em destaque, até agora, nas suas implicações mais profundas, é o Cristo compassivo, manso, misericordioso. A sua firmeza é a firmeza da resistência, de certo modo passiva, à barbárie, firmeza que afirma o que a esta se opõe.


O Cristo de que não falei e que todos eles, por diferentes motivos, procuram ignorar o mais possível é o outro, o que expulsou os comerciantes do Templo, chamando-lhes ladrões, virando-lhes as mesas e mesmo chicoteando-os. Coisa estranha, já que aparentemente contraditório não apenas com o fundamental da sua atitude e mensagem mas também com o facto de ser uma característica da Antiguidade que todos os actos fundamentais da vida humana, do comércio ao acto sexual que consumava o casamento, tivessem lugar no templo, assim ligando o mundo profano ao mundo sagrado, com o Templo no lugar de “pele” do profano.

Ironicamente, é a esquerda, na sua superficialidade, a que menos vira a cara e mais se aproxima de um enquadramento lúcido ao que é narrado. Na época, essa relação entre o profano e o divino estaria – dizem-nos os documentos que nos dão conta do ambiente religioso entre os judeus da época, divididos entre o judaísmo tradicional e o judaísmo helenizado, o ascetismo orientalizado e outras tendências que incluíam elementos das diferentes religiosidades presentes na região, num crescente clima de relativismo – muito desvirtuada pelo pendor para o mero comércio a pretexto do religioso.


Se Pessoa, na Mensagem, diz que no Portugal em que vive, “ninguém sabe que coisa quer/ninguém sabe que alma tem/ nem o que é mal nem o que é bem”, isto é, que Portugal, não tendo limites, não existe por falta de limite, por inexistência de de-finição que o faça existir, pela separação que o torne dinâmico (e note-se que definir-se é o oposto de tornar-se rígido), que o torne significativo, sinal da presença de algo vivo, Cristo age no mesmo sentido.

Cristo age e, pela acção, marca o limite a partir do qual deixa de ser possível estabelecer a ligação e a interacção entre o homem, a sua acção e o seu destino, isto é, deixa de ser possível criar vida entre o sentido e o valor que a serve e a mede. Ao expulsar os mercadores do Templo, não está a condenar os exploradores do povo mas a travar o esvaziamento da existência humana para o nível da mera sobrevivência animal, mais aperfeiçoada e sofisticada, a afirmar um conjunto de valores vitais.


Porque não é possível transigir sem que isso implique o desaparecimento e a morte de quem transige. E se são os vendilhões quem representa e concretiza tal degradação e perigo, cristianismo significa não unicamente resistência activa, mas acção clara de repúdio.

Este é um Cristo que estraga os “arranjinhos” sempre possíveis de serem feitos com o lado que fica melhor na “fotografia”, publicada pela comunicação social com a conveniente regularidade. É um Cristo inconveniente, incómodo, não contextualizável na hipocrisia funda que vivemos. É um Cristo que não serve ao farisaísmo humanista, porque é um Cristo afirmativo.


E se há algo que faz guinchar os vampiros da cultura ocidental da nossa praça, que vivem do esgotamento da sua vitalidade, mistificando-o sem escrúpulos para servir os seus fins, é uma afirmação de cristianismo.

Concordo com Montesquieu quando aconselha a que não se pretenda dizer tudo no que se escreve, para que também o leitor possa completar assumir o texto e as suas conclusões, pela compreensão e pelos raciocínios que com ele aproveitou para fazer. Limitar-me-ei, portanto, por esse motivo e por escassez de tempo, a sugerir a quem teve a paciência de me acompanhar até aqui, que imagine o que eu poderia dizer quanto ao que provavelmente seria, a meu ver, a acção de Cristo no caso do juiz que sobrepôs a sharia à lei americana, referido no post d’O Lidador.

Peço desculpa pelas gralhas que possa haver no texto, inclusive as de ligação, mas já não tive tempo para o rever.

sexta-feira, 10 de maio de 2013

Lá saiu furado mais um radioso socialismo ...

... e muito mais gente sairá literalmente furada.

[Post em estilo moca de Rio Maior]:

Quantos dirigentes luso-esquerdalhos se vão agora demitir?

Do socialismo-bem, o moderno, socretino, muito bem afinadinho, magalhónico, resplandecente, cantante e cantarolante.

Procuram-se coiros para exportação de gulags-vilas-morenas. Paga-se em géneros, tipo género cachaporrada:
Em sua primeira visita ao Brasil turno presidente da Venezuela, Nicolás Maduro pediu ajuda à presidente Dilma Rousseff para abastecer seu país. Com a grave escassez que ameaça a estabilidade do governo venezuelano, Maduro pediu vendas emergenciais de alimentos ao Brasil e ajuda para desenvolver a agricultura no país, além de apoio para enfrentar a crise no setor elétrico que tem provocado constantes apagões.