domingo, 6 de outubro de 2013
sexta-feira, 4 de outubro de 2013
António Victorino de Almeida ou Da subtilíssima ironia e do profundo nojo
(Texto e foto aqui)
Victorino d'Almeida afirma que o repertório musical
mais apreciado é fraco
O maestro António Victorino d'Almeida, autor da
mensagem da Sociedade Portuguesa de Autores para Dia Internacional da Música,
que se celebra na terça-feira, afirma que o repertório musical mais apreciado é
o mais fraco.
O maestro e compositor disserta sobre "os
diversos graus de qualidade [da música] que vão do bom ao muito bom, do óptimo
ao genial", afirmando que "não será tão desejável chafurdar numa
pesquisa entre o mau e o muito mau, o péssimo e o horrendo".
"E eu estaria ainda tentado a citar o nada, que
julgo ser um repertório cada vez mais promovido e mesmo apreciado, fenómeno que
se reveste de uma lógica de mercado perfeitamente inatacável: os autores desse
alegado nada podem desaparecer sem quaisquer problemas, de forma trágica ou
prosaica, por falecimento ou entrada para a função pública, pois haverá sempre
material em stock pronto a substituir o seu esforço criativo", escreve o
maestro.
Numa mensagem de cerca de 4.000 caracteres, o músico
realça que "antes de mais nada", é "necessário que se levante
[...] o problema do subjectivismo que terá infalivelmente que presidir a um
julgamento da qualidade" e questiona: "Haverá, com efeito, um
critério rigoroso que possa de algum modo garantir que esta música é boa ou má,
transcendente ou... até nada?!".
O compositor defende que "será correcto que se
valorize a harmonia de um trecho em que o acorde sobre a qual assenta todo o
discurso musical, a chamada tónica, apenas se desloca para o acorde do quinto
grau, a chamada dominante, regressando logo de seguida ao ponto de partida,
depois de um curta e prudente passagem pela subdominante, que fica quatro notas
acima".
Autor de mais de 50 obras eruditas, como "Páscoa
no Minho", para Victorino d'Almeida "os termos erudito ou sério
sempre significaram alguém que 'sabe muito' ou alguém que cumpre o elementar
preceito de ser honesto".
Ao longo da mensagem, o autor do "Fado do Campo
Grande", desmonta os diversos conceitos em torno da música e a dado passo
afirma: "eu nunca atribuí ao adjetivo ligeiro um sentido pejorativo, pois
também sempre considerei que comer uma refeição ligeira não significa comer
mal".
O maestro crítica "o vício de classificar e de
qualificar [que] ainda se torna mais penoso quando as pessoas se esquecem de
que há diversas situações em que uma certa música, seja qual for o estilo, pode
tornar-se desejável ou aberrante, pois o sentido do Belo também se insere na
eterna questão do Bom Senso e Bom Gosto".
A terminar, Victorino d'Almeida refere que "a
sociedade portuguesa, ignora quase completamente todo um vastíssimo património
de obras de arte geniais.
"É possível viver sem se conhecer nenhuma peça de
Shakespeare, de Tchekov, muito confundido com Tchaikowsky em meios alegadamente
mais cultos, pois os ignorantes puros nunca ouviram falar de tal gente, de
Brecht ou de Samwel Becket", questiona.
"É possível, em suma, viver sem o Belo?",
interroga o maestro para responder ele próprio: "Claro que é possível! É
evidente que é possível, pois as pessoas podem inclusivamente viver castradas e
encontrar formas mais ou menos divertidas de passar o tempo, [...] sem dúvida
que é possível viver assim. Mas não é a mesma coisa...".
NOTA - Repare-se no preciosismo e rigor jornalístico, que não só nos informa sobre o número de caracteres do texto escrito por Victorino de Almeida como nos dá conta da inestimável descoberta literária por ele feita: a de um tal Samwel Becket, que eclipsará a obra e a memória do outro Becket, Samuel.
NOTA - Repare-se no preciosismo e rigor jornalístico, que não só nos informa sobre o número de caracteres do texto escrito por Victorino de Almeida como nos dá conta da inestimável descoberta literária por ele feita: a de um tal Samwel Becket, que eclipsará a obra e a memória do outro Becket, Samuel.
quarta-feira, 2 de outubro de 2013
O POETA E OS ISLAMISTAS
(imagem obtida aqui)
Um tiro na cabeça da poesia:
Kofi Awoonor
último adeus no Quénia
Uma perda
para o mundo das letras: O professor, poeta e diplomata Kofi Awoonor, um dos
mais famosos escritores do Gana, foi morto dia 21 de Setembro no Quénia no
ataque ao Centro Comercial Westgate em Nairobi, no Quénia. O professor Awoonor
ia participar como orador no Storymoja Hay Festival do centro comercial, que
visava aumentar as taxas de literacia entre as crianças quenianas, quando foi
morto no ataque.
Foi
assim que no CULTURA, excelente jornal cultural angolano dirigido por José Luís
Mendonça, se noticiou o assassinato - perpetrado por terroristas islâmicos - do
grande poeta e romancista africano que por seu mal estava nesse dia num local
condenado pelos bandidos.
Os islamitas abatem
indiscriminadamente quem lhes caia nessa rede de acaso que o fascismo verde
coloca aleatoriamente nos seus planos sanguinários.
Não passa pois duma falácia a narrativa brutalizadora de
pseudo-esquerdistas que, de forma cruel e cobarde, justificam os actos dos
fascistas verdes com o pretexto de que são dirigidos contra imperialistas
brancos ou ocidentais em vista a “vingarem” o que estes teriam feito há
séculos.
O terrorismo islamita é inimigo de todos os que não aceitam o fanatismo
nem partilham a “justificação” ou “compreensão” dos seus actos
pró-totalitários.
É, na expressão mais lídima, inimigo da
Humanidade. Urge ser combatido sem temor ou intermitências.
Como homenagem a todos os que tombam assassinados pelos terroristas
corânicos, aqui fica um poema de Kofi Awoonor também colhido no CULTURA, a quem
agradecemos a notícia veiculada pois é em si uma legítima acção democrática.
Canção de Lamento
Dzogbese Lisa tratou-me assim
Conduziu-me por entre as asperezas da floresta
Voltar não é possível
E avança-se com grande dificuldade
Os negócios deste mundo são como as fezes do
camaleão
Nas quais pisei
Não as consigo limpar
Estou no extremo do mundo,
Não estou sentado na fila com os eminentes
Mas os afortunados
Sentam-se no meio e esquecem
Estou no extremo do mundo
Só consigo ir mais além e esquecer
Meu povo, estive algures
Se me viro para cá, sou fustigado pela chuva
Se me viro para lá o sol queima-me
A lenha deste mundo
É só para os que têm coragem
É por isso que nem todos podem apanhá-la.
O mundo não é bom para ninguém
Mas estás tão feliz com a tua sorte;
Ai! os viajantes estão de regresso
Todos cobertos de dívidas.
Algo me aconteceu
Coisas tão grandes que não posso chorar;
Não tenho filhos que disparem a arma quando eu
morrer
Nem filhas que chorem quando eu fechar os lábios
Vagueei por lugares ermos
Pelo lugar ermo a que os homens chamam vida
A chuva fustigou-me,
E os cepos afiados cortam como facas
Vou mais além descansar.
Não tenho parente nem irmão,
A morte declarou guerra à nossa casa;
E a grande casa de Kpeti já não existe,
Só resta a cerca quebrada;
E os que não ousavam olhá-lo no rosto
Surgiram como homens.
Como o orgulho está com eles.
Que os que já partiram tomem nota
Trataram mal a sua descendência.
Porque estão a chorar?
Alguém morreu. O próprio Agosu
Ai! Fui mordido por uma cobra
O meu braço direito está partido,
E a árvore à qual me apoio está caída.
Agosi se lhes fores dizer,
Diz a Nyidevu, a Kpeti, e a Kove
Que nos fizeram mal;
Diz-lhes que a casa deles está a cair
E que as árvores da cerca
Foram comidas pelas térmitas;
Que os martelos os amaldiçoem.
Pergunta-lhes por que estão lá parados
Enquanto nós sofremos, e comemos areia.
E o corvo e o abutre
Pairam sobre as nossas cercas quebradas
E os estranhos caminham sobre o que é nosso.
(imagem obtida aqui)
segunda-feira, 30 de setembro de 2013
Mais umas quantas crónicas exemplares...
Sua Excelência, o autarca
Há dias,
li um jornalista jurar que a Lisboa actual está sempre em festa, cheia de
animação, eventos culturais, artes de rua e "iniciativas" em geral,
logo (sublinho o "logo"), o jornalista em causa apoia a reeleição de
António Costa. Ainda que não fosse essa a intenção, é difícil resumir melhor a
relação dos portugueses com o poder, e sobretudo com o poder local.
Para o
cidadão comum, aquilo que acontece numa cidade, Lisboa ou outra, é
necessariamente resultado das decisões - ou da falta delas - dos senhores que
ocupam a autarquia. Se a cidade é pródiga em bares, espectáculos musicais,
exposições e homens-estátua, o mérito é da câmara municipal. Se a cidade anda
mortiça, a culpa é da câmara municipal. Os munícipes, criaturas sem vontade
própria que seguem as decisões autárquicas como os zombies seguem mioleira
fresquinha, não são para aqui chamados, excepto para exaltar a sumidade que
espevitou a vida urbana ou criticar a nulidade que deixa a vida urbana
desligar-se às sete da tarde. Aparentemente, ninguém é capaz de se instalar a
servir copos, organizar concertos ou espirrar três vezes sem o aval, e talvez o
patrocínio, de Sua Excelência, o autarca. A ausência de vida para além dos
Paços do Concelho não só é uma concepção absurda: se calhar, é verdadeira.
Em países
civilizados, é possível visitar uma cidade, ler sobre uma cidade ou espreitar
um documentário alusivo a uma cidade e nem sequer notar a existência do senhor
presidente da câmara. Em Portugal, isso seria tão estranho quanto um vereador
balbuciar uma frase que não inclua a palavra "valências". Não há
"apontamento de reportagem" acerca de qualquer lugarejo sem
depoimento do senhor presidente. Não há jornal local sem 37 fotografias do
senhor presidente. Não há procissão de Nossa Senhora dos Aflitos sem a presença
do senhor presidente junto da protagonista. Não há instalação instalada em
galeria sem autorização do senhor presidente. Não há garrafa de vodca aberta às
duas da madrugada sem uma vénia ao senhor presidente, que afinal criou as
"condições" para que os súbditos se embriagassem com galhardia. O
senhor presidente, emanação do Estado, encontra-se por toda a parte, numa
consumação assustadora das "políticas de proximidade" que o jargão da
classe promete "incrementar".
Puro
Terceiro Mundo? Obviamente. Ou, se não apreciarem a expressão, herança de séculos
de pobreza e dependência, que mantêm o povo petrificado, à espera das migalhas
largadas por quem manda. Se a "festa" lisboeta se deve de facto ao
dr. Costa, a "festa" é uma exibição do nosso permanente atraso, hoje,
aliás, celebrado em eleições.
Uma
fraude e uma ofensa
Antes de
mais, a boa notícia: um estudo da universidade inglesa de East Anglia confirmou
que a Terra um dia se aproximará demasiado do Sol e nenhuma forma de vida
sobreviverá. A má notícia é que esse dia só ocorrerá daqui a 1,75 mil milhões
de anos, no mínimo, ou 3,25 mil milhões de anos no máximo. Ou seja, por um lado
Keynes tinha razão quando sugeria que gastássemos à tripa forra, já que
"no longo prazo", cito, "estaremos todos mortos". Por
outro, teremos muito tempo para suportar as consequências de tão desvairada
filosofia e a retórica de gente como António José Seguro.
Num discurso
em Coimbra, durante a campanha das "autárquicas", o dr. Seguro
explicou pela enésima vez que "O Estado social não é um capricho dos
socialistas, mas uma necessidade dos portugueses para combater as desigualdades
sociais". E acrescentou: "Quem defende um Estado mínimo, a única
coisa que está a dizer é que os portugueses ficam entregues à sua sorte."
A primeira frase é uma demonstração de iliteracia económica, a segunda um
insulto pouco velado à população.
Vamos por
partes. Mesmo sem perceber o que é que o "Estado mínimo" tem que ver
com o Governo em funções e mesmo sem discutir as hipotéticas virtudes do Estado
dito "social", no fundo uma maneira de submeter recursos aos
critérios redistributivos de quem manda e, com frequência, um sistema de
perpetuação da desigualdade, a verdade é que até as necessidades dos
portugueses, ou pelo menos as necessidades decretadas pelo dr. Seguro, dependem
dos meios existentes para financiá-las. Prometer maravilhas sem acautelar o
dinheiro que as paga talvez excite a ala esquerda do PS e algum eleitorado, mas
constitui de qualquer modo uma burla.
E a
segunda frase acima constitui, repito, uma ofensa. Qual é o mal de os
portugueses ficarem entregues à sua sorte? Salvo casos excepcionais de miséria
ou invalidez, a posse do próprio destino é uma bênção e uma prerrogativa da
liberdade. Infelizmente, os senhores que passeiam superioridade moral e
preocupação para com o povo entendem que o povo padece de rematada estupidez.
E, quando lhes confia a vida, o povo dá-lhes certa razão.
A
carteira e a vida
É costume
os media divulgarem extasiados que uma publicação ou um site quaisquer
distinguiram Lisboa, ou o Porto, ou o Douro, ou o Algarve, ou o Cacém como o
"melhor destino turístico" da Terra, ou da Europa, ou da Península
Ibérica, ou dos países mediterrânicos cujo nome começa pela letra pê.
O êxtase
foi menor quando um teste da Reader"s Digest colocou Lisboa no último
lugar em honestidade entre 16 cidades. Ou no primeiro lugar em desonestidade.
Eis o teste: espalharam-se 12 carteiras recheadas com documentos pessoais e 30
euros (ou o equivalente) por cada uma das cidades. E depois esperou--se a
devolução. Em Helsínquia, 11 carteiras regressaram ao dono. Em Bombaim, nove.
Em Nova Iorque e em Moscovo, oito. Em Lisboa, uma. Uma, abaixo de Madrid,
Praga, Rio de Janeiro e Bucareste, os lugares seguintes na tabela da pilhagem
de ocasião.
Conclusões?
A dimensão e a aleatoriedade do teste não chegam para tanto. No máximo, o teste
ajuda a desmontar o mito de que os pobres são menos propensos à rectidão.
Curiosamente, trata-se de um mito tão propagado pela direita
"darwinista" quanto pela esquerda "conscienciosa". Uma acha
que a pobreza reflecte os traços de inferioridade dos que a sofrem, incluindo a
preguiça ou a tendência para a trapaça. A outra sonha com uma multidão de
pobres que subverta o "sistema" através do crime. No mundo real, naturalmente,
as condições económicas não influenciam o carácter.
Mas isso
já se sabia. E, no resto, o alcance da brincadeira do Reader"s Digest é
limitado. Será que, por coincidência, o teste encontrou os únicos 11 indivíduos
malformados a operar na capital? Será que no Porto, em Braga, em Faro ou em
Coimbra os resultados mudariam ou o problema é nacional? Será que os turistas
que confessam deixar cá um pedacinho de si estão a elogiar a hospitalidade
pátria ou literalmente a constatar um facto?
Falar
sobre o tempo
Parece-me
que os peritos procuram novidades da crise económica internacional nos
indicadores errados. A maior evidência de que o pior já terá passado está no
regresso em força do Painel Intergovernamental para as Alterações Climáticas
(IPCC), que anda outra vez a alertar para o Apocalipse.
Nos
últimos cinco anos, em parte pelas falcatruas que desacreditaram o organismo,
em parte pelo facto de as pessoas terem coisas mais sérias com que se ocupar, o
IPCC praticamente sumiu do que agora se chama "espaço mediático". O
"aquecimento global", e sobretudo o "aquecimento global"
com origem na actividade humana, afinal o evangelho do IPCC, viu-se trocado na
atenção pela "bolha" imobiliária, as complexas operações da alta
finança, os resgates da banca, os gastos dos governos e, principalmente, os
apertos das populações, mais preocupadas em chegar ao fim do mês do que em
assegurar que o Pólo Norte chegue ao fim do século.
Assistir,
em 2013, às manchetes sobre o clima que faziam furor em 2007 é, além de um
consolo nostálgico, um sintoma de que a economia internacional se encontra em
recuperação e de que, não tarda, poderemos voltar a consumirmo-nos com
ninharias especulativas. As promessas do fim do mundo são sempre uma garantia
de que o mundo vai benzinho, obrigado.
Novidades
literárias
Não sei o que é mais engraçado, se o anúncio de que o eng. Sócrates escreveu um livro, se o facto de o livro versar a tortura, se a circunstância do prefácio ser assinado por Lula da Silva, esse fenómeno de integridade e rectidão que assolou - e, por interposta gente, ainda assola - o Brasil. Por este andar, assistiremos em breve ao lançamento da "Nova Gramática da Língua Portuguesa", obra de Manuel Almeida, candidato do PTP à autarquia de Gaia. Com prefácio de Jorge Jesus.
domingo, 29 de setembro de 2013
sexta-feira, 27 de setembro de 2013
As Verdades que a Imprensa Brasileira Omite - Bolsonaro
Um cheirinho do nosso futuro, temporariamente travado mas "aproveitado" para desenvolvimento de teses sobre "tortura".
Jornalismo de excelência
Teresa Caeiro chega à ação de campanha
Não conheço a senhora deputada Teresa Caeiro. Nem me inspira especial simpatia. Quanto ao seu consorte, a quem também nunca fui apresentado, provoca-me irreprimível repugnância intelectual e de carácter. Feitios...
Ao ler, porém, esta notícia, publicada no sábado passado pelo DN...
por Valentina Marcelino, 21 setembro 2013
A deputada Teresa Caeiro esteve na feira
de artesanato de Porto Salvo a dar apoio à campanha de Paulo Freitas do Amaral.
Deixou sorrisos nos rostos que a conheceram
A chegada de Teresa Caeiro não podia ter sido mais
notada. De boleia no Mini-cooper descapotável de um dos elementos da comitiva
("o meu carro é um 'Golf' com mais de 15 anos", apressou-se a informar),
calças brancas, blusa de seda preta, óculos clássicos Ray Ban e os seus cabelos
louros brilhantes. Ao lado Paulo Freitas do Amaral, o candidato do CDS à câmara
de Oeiras e um grupo com cerca de duas dezenas de apoiantes.
A versão feminina do tradicional "Paulinho das
feiras" (do tempo em que o presidente do CDS fazia campanhas na rua, o que
não aconteceu ainda nestas eleições autárquicas) chegou e deixou, pelo menos,
um sorriso, em cada banca por onde passava. A "Teresinha das feiras"
é envolvente. Pára, conversa, pega no rosto da pessoas e dá beijos sentidos e
abraços apertados. A meio da visita ouviu-se a voz aguda de Flora Varela, uma
das feirantes: "ninguém me compra carteiras, não há dinheiro, quem me
compra qualquer coisa?" perguntava. Teresa Caeiro aproximou-se "De
que se queixa esta querida senhora?", questionou. Flora respondeu
"Queixo-me da falta de emprego, de falta de dinheiro, de filhos a mais e
de abonos a menos". A deputada acenou com a cabeça, "compreendo a senhora".
E abraçaram-se. "Tão simpática", sorria Flora.
Mas a banca que mereceu o maior tempo de Teresa Caeiro
foi a de Inês, uma jovem, com trissomia 21. Ali a 'estrela' Teresinha
demorou-se. Falou com a mãe de Inês, Manuela, que se queixou da falta de
projetos para a sua filha e a falta de apoios para os jovens com necessidades
especiais. Inês manifestou o seu descontentamento com os políticos e disse que
ia votar em branco. Teresa disse-lhe que compreendia, "mas não podia
deixar de dizer que era "muito injusto, porque nem todos o políticos são
iguais. Era a mesma coisa que agora dizer que todos os feirantes são
aldrabões", explicou. Inês aquiesceu e baixou os olhos. Numa banca ao lado
Teresa não resistiu a comprar mas rifas. "Sou viciada em rifas",
admitiu e questionada pelo DN sobre que políticos gostaria de "rifar"
nesta campanha, respondeu: "todos os que andam a denegrir a política e a
democracia a tentar comprar votos com porcos, dinheiro ou promessas
inacreditáveis que nunca vão cumprir". Não quis "fulanizar", mas
Paulo Feitas do Amaral não pode deixar de recordar que a "campanha do PSD
anda a dar porco assado nos bairros sociais".
Já de saída da feira, a caminho do mini-cooper ouve-se
uma voz a chamar Teresa. É Inês, que vem ofegante. Oferece-lhe um quadrado de
bolo de chocolate, embrulhado em celofane, com um laço azul. "Fui eu que
fiz. É isto que eu faço", declarou, emocionando Teresa. Há tempo que nunca
é perdido. Nem em campanha eleitoral.
... fico a pensar se a jornalista a teria redigido da mesma forma caso Teresa Caeiro houvesse chegado ao local num veículo familiar, como, por exemplo, o popular Citroën Picasso, cujo preço é superior ao do Minicooper. Descapotável.
Pressinto, não sei porquê, que tal lhe diminuiria a excelência da prosa e o desafio que esta faz à argúcia do leitor. O que constituiria uma perda lamentável para a qualidade do jornalismo que demonstra ser sua intenção oferecer aos compatriotas.
Adenda (às 15:08)
Ligou-me mesmo agora um amigo dizendo-me que dois candidatos, de diferentes partidos de esquerda, aos cargos autárquicos locais ou municipais de onde ele reside, também possuem automóveis descapotáveis. Mas nunca, nunca andam neles durante as eleições.
Que pena! O colorido que nos fazem perder estas renúncias...!
Adenda (às 15:08)
Ligou-me mesmo agora um amigo dizendo-me que dois candidatos, de diferentes partidos de esquerda, aos cargos autárquicos locais ou municipais de onde ele reside, também possuem automóveis descapotáveis. Mas nunca, nunca andam neles durante as eleições.
Que pena! O colorido que nos fazem perder estas renúncias...!
Da tribunalícia governação
Parece que estamos no filme de António Gramsci.
Segundo ele, a esquerda manter-se-ia eternamente no poder se
conseguisse ir lentamente penetrando as instituições, todas elas, e
fossem quais fossem os sapos que tivesse que engolir. Olavo de Carvalho bem o explica.
Já bem agarrada às instituições, caberia a cada militante servir de agente de dinamização do que a ela interessasse ou de agente de resistência passiva ao que não lhe interessasse.
A recente mania de tudo se enviar para tribunal (providências cautelares, etc) vai nessa linha. A recente recusa da AR em clarificar o que pretende com a lei das incompatibilidades de autarcas, idem. Este imiscuir do TC em assuntos de governação em geral, ibidem.
Esta é a esquerda de Lula, do mensalão, de que Sócrates é pupilo. É a esquerda do perfeito idiota útil sul-americano tendo Cuba como exemplo inspirador.
Com as instituições já bem tomadas por dentro, pode parece haver uma democracia, mas quem for eleito governa apenas na parte que conseguir furar à esquerda-das-instituições.
Já bem agarrada às instituições, caberia a cada militante servir de agente de dinamização do que a ela interessasse ou de agente de resistência passiva ao que não lhe interessasse.
A recente mania de tudo se enviar para tribunal (providências cautelares, etc) vai nessa linha. A recente recusa da AR em clarificar o que pretende com a lei das incompatibilidades de autarcas, idem. Este imiscuir do TC em assuntos de governação em geral, ibidem.
Esta é a esquerda de Lula, do mensalão, de que Sócrates é pupilo. É a esquerda do perfeito idiota útil sul-americano tendo Cuba como exemplo inspirador.
Com as instituições já bem tomadas por dentro, pode parece haver uma democracia, mas quem for eleito governa apenas na parte que conseguir furar à esquerda-das-instituições.
quinta-feira, 26 de setembro de 2013
QUEM FALA ASSIM NÃO É GAGO
O
ministro do Interior francês, Manuel Valls, reiterou hoje as polémicas
declarações contra os ciganos e que estão a provocar grande polémica em França,
incluindo no Governo e no Partido Socialista, que sustenta o executivo.
"A maioria (dos ciganos)
deve ser levada até à fronteira (...) o nosso papel não é acolher estas
populações", disse à estação de televisão BFMTV o responsável pelo
Ministério do Interior.
As declarações foram proferidas
um dia depois de Valls ter provocado polémica política ao afirmar que os
"ciganos devem regressar à Roménia ou à Bulgária", onde têm que
"fazer esforços para se integrarem".
Várias figuras do Partido
Socialista e do próprio Governo já criticaram as palavras do ministro do
Interior, que "estigmatizam os ciganos".
O ministro da Indústria, Arnaud
Montebourg, afirmou que as declarações de Manuel Valls foram
"excessivas" e que devem ser "corrigidas".
Mesmo assim, o ministro do
Interior já respondeu diretamente ao colega de Governo, ao afirmar que não há
nada para corrigir e que as declarações que fez sobre os ciganos "só
incomodam aqueles que não conhecem o assunto".
(Dos jornais)
***
O meu comentário:
Sectores bem
determinados, com intenções tristemente bem conhecidas, têm sistemática e
matraqueantemente tentado estabelecer esta regra absurda: criticar certos
grupos, díscolos ou mesmo brutalizadores, é racismo e é xenofobia.
Essa ação destina-se a paralisar os ditos críticos, oficiais ou não, criando a impunidade alvar no seio desses grupos.
Dá-se isso hoje em relação a sectores islâmicos ou gitanos - como dantes se dava em relação a comunistas.
Eles visam viver numa espécie de limbo
branqueado, inimputável.
É uma ação concertada, ilegitimamente subversiva!
E o resto é conversa...
Autárquicas, Isabel A Endocrinologista, Marco Mouro na Costa
Alberto Gonçalves dixit:
Clima de festa
Parece
que o presidente da Câmara Municipal de Esposende (CME), João Cepa, gastou
5266,80 euros dos cofres do município para oferecer dois mil terços a outros
tantos idosos do concelho. Não satisfeito, acrescentou 16560 euros,
naturalmente públicos, para alugar 32 autocarros e enviar os ditos idosos numa
peregrinação a Fátima. Na página do Facebook da CME, conclui-se que a viagem
foi um sucesso, com direito a missa, piquenique junto ao santuário e, cito,
"a partilha dos farnéis e o convívio entre os participantes, em clima de
festa e alegria". Os que defendem o social-democrata João Cepa, leia-se o
próprio, explicam que o homem não é candidato nas próximas eleições
autárquicas. Os que o atacam evocam a separação entre o Estado e a Igreja.
É
evidente que concordo com os segundos, embora me pareça que a restrição não
baste. Além de se separar o Estado da Igreja, proeza que, aliás, já foi
razoavelmente consumada há décadas, convinha com urgência separar o Estado do
dinheiro alheio. A menos que se ache que o único problema desta história passa
pelo carácter religioso das prendas e do destino. Se o sr. Cepa tivesse
oferecido ao povo duas mil garrafas de espumante e um passeio à Bairrada, o
caso seria diferente? Suponho que não.
Limitar a
generosidade dos autarcas apenas nas matérias da fé é continuar a dar-lhes
livre trânsito para estraçalharem o rendimento de quem trabalha em pândegas sem
eucaristia, rotundas sem evangelho, "multiusos" sem sacerdote,
"requalificações" de "envolventes" sem redenção. E isto
para ficarmos pela iconografia mais representativa do entusiasmante "poder
local".
Se
quisermos ir um bocadinho além, consultar o portal base.gov.pt é descobrir todo
um universo de despesas peculiares em que as autarquias também se
especializaram. Há os cinco mil euros gastos pela CM de Faro nos serviços de
"manutenção e suporte" de um "software de gestão
desportiva", os sete mil euros gastos pela CM de Miranda do Corvo em
bilhetes de avião para a Turquia, os 42 mil euros gastos pela CM de Barcelos
num misterioso "compressor Nitrox", os 24 mil euros gastos pela CM da
Amadora na "concepção de um desdobrável para as eleições", os dez mil
euros gastos pela CM de Sousel num espectáculo com "o artista "Quim
Barreiros"" (curiosamente, "artista" aparece sem aspas), os
quatro mil euros gastos pela CM de Loulé em máquinas de musculação ("e
stepper"), os 54 mil euros gastos pela CM de Serpa na "aquisição de
serviços para a direcção do Centro Musibéria", os 6500 euros gastos pela
CM de Aljustrel num "monobloco em betão", os 50 mil euros gastos pela
CM de Vila Pouca de Aguiar na "tradicional Feira das Cebolas" e, para
não cansar e terminar em grande, as largas dezenas de milhares de euros gastos
pela CM de Lisboa em incontáveis passagens aéreas para Dublin, Odense, Belfast,
Luxemburgo, Helsínquia e onde calha.
Tudo
isto, acreditem ou não, são exemplos colhidos na semana agora finda, em suposta
época de crise. Multipliquem-nos pelas cerca de duas mil semanas de
municipalismo democrático e não se esqueçam: no dia 29, corram às urnas. O voto
é um direito e um dever. E, para eles, uma festa e uma alegria.
$%& $%& $%& $%&$%&$%&$%&$%&$%&$%&$%&$%&
Bombocas à noite
O jornal
i entrevistou Isabel do Carmo, a endocrinologista que, pelo aspecto, possui a
legitimidade de um alcoólico que é cirurgião hepático, e a ex-terrorista que
lutou à bomba pelo tipo de sociedade que admirava. Podia ter sido pior: em vez
de uma entrevista amável, o i podia ter concedido uma comenda à senhora. Mas
disso o antigo presidente Jorge Sampaio já se encarregara.
Ainda
assim, a referida entrevista é suficientemente comovente. Desde logo, pela
preocupação que a dra./camarada Isabel dedica ao futuro do SNS, regime que acha
merecer a exclusividade total dos médicos. E se a dra./camarada Isabel
acumulava há décadas o serviço público com o privado, isso deveu-se apenas a
razões logísticas. Ou, como ela explica: "A certa altura, é um caminho
irreversível." Porquê? Porque "a pessoa ganha uma certa notoriedade
que torna difícil voltar atrás". E porque o Estado só é bom quando rouba
os outros: "Ando a trabalhar no privado para pagar os impostos do
público." Muitos andamos, minha senhora.
Espantosamente,
a entrevista consegue melhorar. Não é todos os dias que uma jornalista faz uma
questão tão pertinente quanto: "É o jeito para mobilizar que liga a Isabel
do Carmo de 73 anos à jovem das Brigadas Revolucionárias?" Porém, o
segundo grande momento da História da Imprensa Ocidental é a pergunta:
"Sendo médica, como é que se gere a defesa da luta armada?" O primeiro
momento é a resposta: "Gere-se bem."
O resto
da peça mantém este nível. A dra./camarada Isabel conta que se reunia em
hospitais com "Zeca" Afonso (um excelente aproveitamento de
recursos), invoca a aprovação de Otelo (esse baluarte do juízo), informa que se
limitava a colocar "bombas à noite" (e que a classificação de
bombista é uma calúnia "da direita e da extrema-direita") e garante
que hoje não voltaria à luta armada na medida em que não lhe "apetecia ir
para a cadeia [risos]" (a moral é uma mariquice que não a detém). A
terminar, a jornalista exibe extraordinária coragem: "Tem algum doce
preferido?" "Bombocas?"
$%& $%& $%& $%&$%&$%&$%&$%&$%&$%&$%&$%&
A renegociação a 500 euros/mês
Marco
António (Costa) é daquelas coisinhas tão pequeninas e engraçadas que apetece
levar para casa. Mas não para a minha. Um destes dias, para que não parecesse
que o CDS era o único membro da coligação a alinhar nos clichés contra o Fundo
Monetário Internacional, Marco António (Costa), todo lampeiro, insurgiu-se: o
FMI padece de "hipocrisia institucional", já que os seus responsáveis
terão afirmado num alegado relatório que a austeridade aplicada a Portugal é
excessiva. E depois os malvados "mantêm-se inflexíveis" nas
negociações.
Coitadinho
do Marco António (Costa), que ainda não percebeu a enrascada pátria. Mesmo que
tal afirmação e tal relatório sejam verdadeiros, importam menos os estados de
alma de algum funcionário da entidade do que os factos, e estes mostram que a
intervenção local do FMI, acompanhado pelos dois terços não tão benignos da
troika, só existe porque a classe política a que Marco António (Costa) pertence
e o bom povo que a legitima criaram uma situação que tornou a intervenção
necessária: eles mandam; nós colocámo-nos a jeito de ser mandados. A
alternativa, de que pelos vistos ele não se lembra, era a bancarrota absoluta.
Assim, estamos numa bancarrota assistida, na qual uns senhores emprestam (a
juros) o suficiente para que isto possa fingir que é uma nação soberana e
inúmeras figuras gradas da nação querem mandar os senhores pentear macacos
(embora por palavras mais viris). O patriotismo é muito lindo.
Infelizmente,
os patriotas não explicam onde arranjaríamos o crédito caso os credores
decidissem abandonar-nos à nossa sorte. Ou explicam, o que é igual. A ideia
consiste em preservar a troika só que em versão boazinha: eles continuam a
mandar-nos o dinheiro; nós dispensámo-nos de condições aborrecidas como a de
ter de pagá-lo. Ou, no máximo, obrigamo-nos a pagar em suavíssimas prestações,
semelhantes à que a autarquia de Vila Nova de Gaia, que contou durante anos com
os brilhantes préstimos de Marco António (Costa), cobra ao FC Porto pelo centro
de treinos ou lá o que é. O centro custou aos contribuintes 16 milhões. O clube
abate 500 euros mensais. Daqui por 2666 anos - por extenso: dois mil,
seiscentos e sessenta e seis -, aquilo estará pago. A Câmara Municipal de Gaia
é generosa com o que não é seu. O FMI é cioso do que é. Vá-se lá compreender o
mundo. Não admira que Marco António (Costa) nem tente.
terça-feira, 24 de setembro de 2013
SOBRE JULES MOROT
Jules Morot, francês de fio a pavio, não
podia deixar de ser um poeta que raciocina sobre a questão da escrita e da
literatura que se organiza sobre aquela e, naturalmente, sobre a vida que lhe
reside em torno, antes ou depois do acto.
Sendo originário do Loire, essa - e cito
- “região pacífica
da exuberante paisagem, vinhas, longas praias arenosas e sapais, salpicada de
castelos, solares e zonas de caça e na qual os prazeres bucólicos se misturam
com a fruição de cidades fascinantes”, um
pouco desse rincão encantado lhe percorre o que pensa, o que escreve, o que
inventa.
Assim sendo, é natural que se detecte
nele um fundo mágico que o lança em composições nas quais tenho percebido duas
coisas fundamentais: o amor à natureza e ao pensamento especulativo (o que se
me oferece, por exemplo, nos seus poemas “O besouro” e “Mozart” dados a lume na
DiVersos nº 7 - revista de poesia e
tradução).
Creio que o trecho que aqui vai, extraído do
seu “La chambre engloutie” (inserido na sua obra mais recente) do mesmo modo
explicita o seu mundo interior, vazado numa afirmação que afinal é interrogação
sistemática mediante os ítens que o enformam e que, ao cabo, reflectem o homem
e o autor fascinado ante os mundos de baixo e de cima – que o mesmo é dizer os
do espírito e os da luminosa materialidade.
INTRODUÇÃO - O Regresso
Eu chegava de Besançon.
Era um dia de chuva miudinha de meados de
Março e no largo da estação tomei um táxi da fila que aguardava passageiros. A
imagem de “O marido da cabeleireira” perpassou-me na mente ao efectuar o acto
tão simples de entrar no automóvel. Logo a seguir recordei o que a personagem
dizia antes de morrer: “Todo o meu passado desapareceu contigo”. E toca,
brrrr!, de se lançar às águas do rio.
Mandei seguir para a Praça Lebrun, que fica
perto da rua Lepic onde se situa o meu sóbrio apartamento de solteiro. O motorista
era magro, de cabelo escuro, bigode à inglesa, tipo de belo tenebroso. Notei que depositara no banco
do lado um livro
qualquer – mais me parecera um caderno - que pude relancear fugazmente. Tanto
mais estranho consoante ostentava na capa uma ilustração que me intrigou.
Ao passarmos nas imediações do parque
Monceau soltei uma pequena imprecação. E disse de imediato: “Esqueci-me dos
cigarros, raios!”. Então, num gesto entendível, debrucei-me ligeiramente e
passei-lhe uma notinha de 20 francos. Ele encostou o carro perto do espaço dos
jogadores de bolas deserto àquela hora, pois percebera que a demasia lhe estava destinada.
Enquanto ele se dirigia ao quiosque, num gesto rápido e decidido peguei no
livro-caderno. E compulsei-o sem demoras.
Era um manuscrito. Com entradas, que me
pareceram reflexões. Li um par de linhas. Vi que o nome posto ao alto da
primeira página correspondia ao do taxista na pequena placa identificativa do
“tablier”. Sem alardes, como faria o Arsène Lupin, meter o manuscrito no bolso
interior da gabardina e recostar-me serenamente foi uma naturalidade que não me
levou 3 segundos. Um taxista escrevente! E o par de linhas mostrara-me que o
meu rapinanço (pois se tratava dum delicioso roubo) fazia sentido. Aconcheguei
mais ao queixo a gola da sebosa, para disfarçar melhor o meu trombil. Ele
durante uns minutos não notaria a volatilização da sua menina-dos-olhos,
pensaria talvez que caíra para o espaço intermédio entre o banco e a porta. E
quando despertasse do engano já seria tarde.
Ele regressou, passou-me o maço de “gauloises”
e com um gesto dei-lhe a demasia.
Nos minutos que levou a trajectória até à
Praça Lebrun amodorrei sem má consciência. Ali apeei-me, paguei-lhe
generosamente para compensar o amargo despertar e comecei a andar como se fôsse
para a rua Vosges.
Passei por cima da relva, no separador
arborizado com que o município nos mimoseia e num cavalgar harmonioso voltei
para trás em passo estugado. O coração batia-me um pouco, como se tivesse
acabado de cometer um assassinato. Mas a alma entoava uma pequenina melodia.
Levar-me-ão a mal? Chegarão mesmo a chamar-me
ladrão, a cobrir-me de adjectivos pouco próprios? Eu, contudo, vejo o assunto
de modo bem diferente.
Já em casa, depois das abluções e dos
momentos de nostálgica retoma do ambiente familiar, despi-me calmamente e
enverguei um pijama confortável. E enquanto degustava uma colação leve mas
saborosa, deitei-me à leitura.
Estive
nisto mais duma hora, entre o irritado, o seduzido, o admirado.
Eram, com
efeito, reflexões ora sobre isto, ora sobre aquilo. Coisas do dia a dia, artes,
literaturas, o que se esperaria em quem tem muito tempo para locubrar nas horas
de uma vida de solteiro e com uma profissão pouco compaginável, pensei, com o
trabalho do pensamento. No entanto enganara-me e creio que ficara de parabéns.
Entre
esses exercícios de pensamento e, mesmo, de crítica com certa penetração, ia
contudo assomando, mesmo ressaltando, uma espécie de história delineada pelos
breves diálogos entre duas personagens identificadas apenas pelos apelidos:
Barre e Cibaljet.
***
(...)
"Cibaljet repôs o livro na prateleira de
cima duma das altas estantes em madeira encerada de cerejeira. Com um sorriso
ameno disse para Barre, enquanto vertia nos copos uma generosa porção do
líquido contido na garrafa de cristal facetado: - Na adolescência fui muito
suscitado pelo catorze. Era um número que, não sei porquê, me despertava
curiosos pensamentos. O sete duas vezes, o sete para um par de enamorados ou de
companheiros, ou de inimigos...
Quando
me tornei adulto, foi o quarenta e seis...
É um
número de grande poder, o quarenta e seis - disse Barre suavemente.Tem razão - redarguiu Cibaljet com um sorriso
- É o sete multiplicado seis vezes e, depois, adicionado do quatro. Ou seja: da
terra, da água, do ar e do fogo. "
***
"Senti isso uma vez perto de
Claremorris, no País de Gales, quando se começa já a descer até aos prados de
Ballinrobe - disse Cibaljet entre duas puxadelas do havano - A sensação de que
estamos longe, muito longe...como se fôssemos outros e nada nos prendêsse ao
que fômos.
Entendo! - redarguiu Barre com uma expressão
sonhadora - Tive a mesma experiência certa noite junto ao Bósforo, quando ainda
não me decidira a deixar a velha Europa...
Você acha que a sensação é muito habitual,
pelo menos em viajantes experimentados e decididos, com uma boa qualidade de
conhecimento de estradas e lugares? - tornou Cibaljet passando-lhe o frasco
viajeiro de aço recoberto de couro onde a bela aguardente das Cevènnes esperara
a sua vez.
Ora... - disse Barre na sua voz de baixo a que
um leve tom de barítono emprestava um timbrezinho peculiar - Tenha em conta que
a maior parte dos mortais com ou sem qualidades próprias de caminheiros se
limitam, a não ser que haja milagre, a deslocar-se para aqui ou para acolá como
se um vento os levasse..."
***
“Já
não me recordo quem teria dito a frase “Foge de alguns, foge de um, foge de
todos” - disse Cibaljet passando a Barre a tábua onde um belo naco de Brie
exalava o seu perfume sedutor para gastrónomos encartados – E quem teria dito,
diabos levem a memória, “O companheiro Deus se quiser existir que exista” ?
Puxo pela cabeça e por mais que tente não me consigo recordar...
Sim, esses lapsos são apoquentadores em
extremo – redarguiu Barre com um fino sorriso, untando a fatia de pão com
deleite e vasando nos copos um Chandelle que estava mesmo a pedi-las – No meu
caso, há anos que tento encontrar pistas do poeta que escreveu “Cuco, és tu uma
presença errante ou apenas uma voz indagadora?”. Tenho procurado em antologias,
em selectas liceais, em alfarrábios...e nada! E quem teria dito “É uma cidade
soturna e desencorajante. Certas pessoas deviam entrar directamente do hall
para o páteo e nunca lhes deveria ser franqueada a sala” ?
Por mim sou um homem confiante – tornou
Cibaljet entre duas mastigadelas – Ainda não perdi a esperança de conseguir
lembrar-me de quem foi que disse “A vida é um mistério e não um delírio”.
Barre
pousou o copo. “Sabe - soprou de mansinho – quando era garoto um parente meu
dizia que a memória atraiçoa frequentemente os que comem muito queijo...
E
talvez seja verdade... – disse Cibaljet servindo-se de outra generosa porção do
Brie que restava na tábua – Será um caso de sabedoria popular...
Mas
nenhum deles sorriu.”
***
“Meu
caro Barre: ontem, na rua do Tivoli, encontrei um alquimista. Não se ria, essa
qualidade existe. Acontece que por uma subtil concatenação de factos esse homem
é meu vizinho e tive oportunidade de lhe prestar um pequeno obséquio que o
dispôs a meu favor. É um indivíduo inteligente e desembaraçado, com um vago ar
de distância indefinível que, contudo, não o apouca.
Após
vários anos de contacto fortuito, eis que confiou em mim. Contou-me uma
história surpreendente.
Como
não saberá, mas aqui fica a revelação, os adeptos que atingem a iluminação não
precisam daí em diante de comer ou beber e consequentemente de eliminar os
resíduos líquidos ou sólidos. Habitando vinte anos atrás um solar isolado das
redondezas, entregou-se a uma curiosa actividade: esteve 4 meses sem sair do
seu quarto, imóvel numa poltrona e lendo incessante e interessadamente as obras
de Vítor Hugo. Entre um e outro livro, dormia a sono solto para se distrair com
os sonhos. Depois, recomeçava.
Os músculos não se atrofiavam pois as células
corporais, nessas pessoas, mantêm a elasticidade. Quando chegava ao fim dos
tomos, reflectia sobre as qualidades e defeitos da Obra do mestre. Adquiriu
assim a certeza de que a leitura roda no espírito humano como um planeta o faz
à volta do Sol.
Vai dentro em breve recomeçar o mesmo
périplo, desta vez com as obras de Balzac. Para isso isolar-se-á numa vivenda
que descobriu nos arredores do Languedoc, no cimo duma colina e no meio de um
bosque fora dos circuitos de quem quer que seja. Estará nisto, segundo prevê, 8
meses seguidos. Depois, será a vez de Homero, de Dante, de Borges, de John
O'Hara, de outros mais. Dará aí para coisa de 4 anos. No entanto, desta vez
acompanhará as leituras com intervalos durante os quais, cozinheiro emérito em
que se tornou por gosto e sensibilidade gastronómica, preparará pratos
sumamente apetitosos conforme a sua disposição do momento.
Disse-me que um dia, em meio às suas leituras
futuras, já os homens terão chegado a um planeta habitado fora do nosso sistema
solar. Sairá então, com o intuito de renunciar à leitura dos clássicos e
votar-se a passeios incessantes durante os quais ordenará na sua cabeça todas
as páginas que leu.
A
solidão não o assusta. A única coisa que parece preocupá-lo um pouco é que,
entrementes, uma catástrofe nuclear aniquile a nossa velha Terra. Eu disse-lhe
que deveria começar a pensar em manobrar de forma a que os governos que se
interessam pela aquisição atómica não tivessem esse ensejo.
Uma vez que dispõe de incomensuráveis
possibilidades, já de tempo já de sabedoria, isso ser-lhe-á possível a meu ver.
Ele olhou-me fixamente durante uns segundos e
depois respondeu: “Saiba que mesmo a nós é extremamente difícil inflectir a
loucura dos homens. Já outros antes de mim o souberam. Confiemos antes nas leis
do acaso”.
Despedimo-nos à porta do edifício que ambos
habitamos, em andares diferentes.
Agora estou sentado a ouvir uns trechos de Brahms,
enquanto lhe escrevo. Jantei costeletas
grelhadas com um fiozinho de molho inglês para acertar a preparação. Sinto,
contudo, uma leve inquietação que não consigo definir se vem da conversa ou do
leve zumbido que algures soa vindo do apartamento do lado, onde reside aquela
morena de que não sei se já lhe falei.
Até que nos encontremos.
Cibaljet”
***
“De
cada vez que ouço Stravinsky ou leio Maupassant sinto sempre que alguém foi
demasiado longe. Há autores que nos deslumbram e outros que nos sufocam. E o
mais grave é que ambas as coisas podem ser suplementares. Nunca consegui ler mais do que três contos de
Maupassant de uma vez só. E nunca consegui ouvir Stravinsky durante um inteiro
quarto de hora. O pássaro de fogo põe-me todo a tremer. Tal como sucede com O
colar de Maupassant. A meu ver existe algures, perdida no meio dos séculos e
das coisas, dos acontecimentos e das descobertas, uma lógica inquietante que
ainda não foi avaliada. Algo para além das frases e dos sons. Tem-se a
impressão que certos autores tocaram com o dedo nu o mistério da espécie... -
regougou Barre em voz cava
Junto
da janela, Cibaljet olhava atentamente para fora. Traçava, distraidamente,
figurinhas no vidro embaciado com a mão direita, enquanto a esquerda levava aos
lábios, intermitentemente, o charuto já meio fumado.
Vem
aí uma forte pancada de chuva... - disse enquanto se virava e apanhava o cálice
de “Napoléon” da mesinha de mogno envernizado - O céu está negro ali para
Norte...Vai ser de escachar!
Barre inclinou-se e, duma pequena taça de
cerâmica com arabescos, tirou uma boa porção de amêndoas torradas.
Gosto
da chuva quando cai numa tarde assim de princípios de primavera, como esta –
afirmou com um leve suspiro.”
***
“Lacordaire ultrapassa em muito a sua própria
lenda. Nisso está nos antípodas de Stevenson, cuja lenda é do tamanho da sua
vida vivida. Não é fantasia e sim realidade o facto de que escreveu “O médico e
o monstro” de rajada, horas depois de ter tido um sonho onde lhe foi oferecida
a imorredoira história. - E, dizendo isto, Barre estugou o passo ao longo da
álea que bordejava o canteiro de flores diversas e multicoloridas.
Sim, mas só até à segunda transformação. Daí
em diante teve ele de inventar – retorquiu Cibaljet com um leve sorriso
enquanto, tomando Barre pelo braço, o encaminhava na direcção da pérgola um
pouco mais adiante.”
***
“Caro Cibaljet: Contaram-me ontem que Marcel
Proust deixou algures, de acordo com um dos seus melhores exegetas, dois livros
inéditos. A meu ver trata-se de não mais que um boato vago, talvez incrementado
por um editor voraz e arteiro com o intuito de despertar uma nova curiosidade
pelas obras já existentes. Mas e se fôr verdade? Que novas visões isso
despertará, não acha? Críticos, leitores, simples observadores, andarão à
porfia durante sei lá que tempo em roda da obra do aristocrata mais socialista
de França. E já me revelaram que se trata de um diário e de cartas
confidenciais. Que bico de obra, que
bela jornada para duas ou três épocas!
Gostaria de ouvir a sua opinião. Até domingo
próximo e os meus respeitos à senhora sua Mãe.
Barre”
***
“Meu caro Barre: A meu aviso trata-se de um
boato, desses que surgem ciclicamente na nossa sociedade hiper-literária. Ou,
melhor dizendo, sofisticada pelos piores motivos. Mas sempre lhe digo que, a
ser verdade, teria importancia apenas nas vendas e nos fins-de-mês das
livrarias. E daria durante um lustro pano para mangas aos batalhões académicos
da especialidade, mas nada mais. Quando um autor está morto, fisicamente morto
e várias décadas passaram sobre a sua desaparição da cena, transforma-se em
História com todas as consequencias que se conhecem. Nada mais modifica, quando
muito suscita um arrepio intelectual e algumas paixões de segunda ordem.
Assim,
se por exemplo um autor, trinta anos passados sobre o seu último livro, anunciar
que vai publicar um tomo de inéditos que lhe haviam escapado, arriscar-se-á a
passar por velho relho à guisa de plagiador da sua própria obra.Tanto mais que,
entretanto, apareceram novos ritmos, novas maneiras de indagar os séculos e o
século, um novo olhar sobre a escrita.
Infelizmente e creio que digo bem, a
literatura é um pouco como as bananas, que devem ser consumidas na hora. A
novidade, tanto quanto me parece, advém-lhe sempre de novos relances, de
leitores sucessivos, não de descobertas materiais.
Seja
como fôr, a ser verdade, creia que estarei como um dos primeiros compradores
dessa iguaria, tanto mais que a frequentação das velhas glórias é uma das
características de que não abdico. E, além disso, qualquer página de Proust é
no fundo como se tivesse sido escrita mesmo agora, o que contradiz
absolutamente tudo o que lhe disse atrás.
Até
domingo, pois. E uma saudação respeitosa a seu Tio.
Cibaljet”
***
“E esta é uma das peças que me chegaram ontem – disse Barre assim que
entrou, sustendo cuidadosamente nas mãos uma peça de cerâmica de côr
esverdeada, com pequenos elementos abstractos, que Cibaljet logo se apressou a contemplar
tão-logo foi deposta sobre a toalha que cobria a mesa no centro da pequena sala
- Ainda nem sequer a coloquei junto de
outras irmãs de outras civilizações. Não é uma beleza?
Cibaljet, sem a levantar, rodou-a
cuidadosamente, quase com ternura. Olhava-a como que extasiado. Virou-se e
olhou Barre com unção.
Tão simples e no entanto tão bela! - afirmou
- Olha-se para isto e quase se ouvem os sons do passado em que esta peça foi um
elemento do dia a dia. Posso quase ver os que dela se serviam, o camponês
comendo nela o seu alimento enquanto olhava os filhos e a mulher, ou enquanto
sentado à porta de casa olhava os longes da floresta na tardinha que chegava.
Os sons dos animais que começavam a ouvir-se na noite nascente...
Neste caso – disse Barre com um trejeito,
contudo assaz delicado – temo que se engane: é um exemplar, muito bem
conservado, das taças ou tigelas, conforme queira, em que os participantes no
rito maia bebiam o sangue da vítima propiciatória que o sacerdote acabara de
degolar.”
(...)
in O quarto submerso, de Jules Morot
Trad.
nicolau saião
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