quinta-feira, 26 de setembro de 2013

Autárquicas, Isabel A Endocrinologista, Marco Mouro na Costa





Alberto Gonçalves dixit:





Clima de festa

Parece que o presidente da Câmara Municipal de Esposende (CME), João Cepa, gastou 5266,80 euros dos cofres do município para oferecer dois mil terços a outros tantos idosos do concelho. Não satisfeito, acrescentou 16560 euros, naturalmente públicos, para alugar 32 autocarros e enviar os ditos idosos numa peregrinação a Fátima. Na página do Facebook da CME, conclui-se que a viagem foi um sucesso, com direito a missa, piquenique junto ao santuário e, cito, "a partilha dos farnéis e o convívio entre os participantes, em clima de festa e alegria". Os que defendem o social-democrata João Cepa, leia-se o próprio, explicam que o homem não é candidato nas próximas eleições autárquicas. Os que o atacam evocam a separação entre o Estado e a Igreja.

É evidente que concordo com os segundos, embora me pareça que a restrição não baste. Além de se separar o Estado da Igreja, proeza que, aliás, já foi razoavelmente consumada há décadas, convinha com urgência separar o Estado do dinheiro alheio. A menos que se ache que o único problema desta história passa pelo carácter religioso das prendas e do destino. Se o sr. Cepa tivesse oferecido ao povo duas mil garrafas de espumante e um passeio à Bairrada, o caso seria diferente? Suponho que não.

Limitar a generosidade dos autarcas apenas nas matérias da fé é continuar a dar-lhes livre trânsito para estraçalharem o rendimento de quem trabalha em pândegas sem eucaristia, rotundas sem evangelho, "multiusos" sem sacerdote, "requalificações" de "envolventes" sem redenção. E isto para ficarmos pela iconografia mais representativa do entusiasmante "poder local".

Se quisermos ir um bocadinho além, consultar o portal base.gov.pt é descobrir todo um universo de despesas peculiares em que as autarquias também se especializaram. Há os cinco mil euros gastos pela CM de Faro nos serviços de "manutenção e suporte" de um "software de gestão desportiva", os sete mil euros gastos pela CM de Miranda do Corvo em bilhetes de avião para a Turquia, os 42 mil euros gastos pela CM de Barcelos num misterioso "compressor Nitrox", os 24 mil euros gastos pela CM da Amadora na "concepção de um desdobrável para as eleições", os dez mil euros gastos pela CM de Sousel num espectáculo com "o artista "Quim Barreiros"" (curiosamente, "artista" aparece sem aspas), os quatro mil euros gastos pela CM de Loulé em máquinas de musculação ("e stepper"), os 54 mil euros gastos pela CM de Serpa na "aquisição de serviços para a direcção do Centro Musibéria", os 6500 euros gastos pela CM de Aljustrel num "monobloco em betão", os 50 mil euros gastos pela CM de Vila Pouca de Aguiar na "tradicional Feira das Cebolas" e, para não cansar e terminar em grande, as largas dezenas de milhares de euros gastos pela CM de Lisboa em incontáveis passagens aéreas para Dublin, Odense, Belfast, Luxemburgo, Helsínquia e onde calha.

Tudo isto, acreditem ou não, são exemplos colhidos na semana agora finda, em suposta época de crise. Multipliquem-nos pelas cerca de duas mil semanas de municipalismo democrático e não se esqueçam: no dia 29, corram às urnas. O voto é um direito e um dever. E, para eles, uma festa e uma alegria.




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Bombocas à noite

O jornal i entrevistou Isabel do Carmo, a endocrinologista que, pelo aspecto, possui a legitimidade de um alcoólico que é cirurgião hepático, e a ex-terrorista que lutou à bomba pelo tipo de sociedade que admirava. Podia ter sido pior: em vez de uma entrevista amável, o i podia ter concedido uma comenda à senhora. Mas disso o antigo presidente Jorge Sampaio já se encarregara.

Ainda assim, a referida entrevista é suficientemente comovente. Desde logo, pela preocupação que a dra./camarada Isabel dedica ao futuro do SNS, regime que acha merecer a exclusividade total dos médicos. E se a dra./camarada Isabel acumulava há décadas o serviço público com o privado, isso deveu-se apenas a razões logísticas. Ou, como ela explica: "A certa altura, é um caminho irreversível." Porquê? Porque "a pessoa ganha uma certa notoriedade que torna difícil voltar atrás". E porque o Estado só é bom quando rouba os outros: "Ando a trabalhar no privado para pagar os impostos do público." Muitos andamos, minha senhora.

Espantosamente, a entrevista consegue melhorar. Não é todos os dias que uma jornalista faz uma questão tão pertinente quanto: "É o jeito para mobilizar que liga a Isabel do Carmo de 73 anos à jovem das Brigadas Revolucionárias?" Porém, o segundo grande momento da História da Imprensa Ocidental é a pergunta: "Sendo médica, como é que se gere a defesa da luta armada?" O primeiro momento é a resposta: "Gere-se bem."

O resto da peça mantém este nível. A dra./camarada Isabel conta que se reunia em hospitais com "Zeca" Afonso (um excelente aproveitamento de recursos), invoca a aprovação de Otelo (esse baluarte do juízo), informa que se limitava a colocar "bombas à noite" (e que a classificação de bombista é uma calúnia "da direita e da extrema-direita") e garante que hoje não voltaria à luta armada na medida em que não lhe "apetecia ir para a cadeia [risos]" (a moral é uma mariquice que não a detém). A terminar, a jornalista exibe extraordinária coragem: "Tem algum doce preferido?" "Bombocas?"




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A renegociação a 500 euros/mês

Marco António (Costa) é daquelas coisinhas tão pequeninas e engraçadas que apetece levar para casa. Mas não para a minha. Um destes dias, para que não parecesse que o CDS era o único membro da coligação a alinhar nos clichés contra o Fundo Monetário Internacional, Marco António (Costa), todo lampeiro, insurgiu-se: o FMI padece de "hipocrisia institucional", já que os seus responsáveis terão afirmado num alegado relatório que a austeridade aplicada a Portugal é excessiva. E depois os malvados "mantêm-se inflexíveis" nas negociações.

Coitadinho do Marco António (Costa), que ainda não percebeu a enrascada pátria. Mesmo que tal afirmação e tal relatório sejam verdadeiros, importam menos os estados de alma de algum funcionário da entidade do que os factos, e estes mostram que a intervenção local do FMI, acompanhado pelos dois terços não tão benignos da troika, só existe porque a classe política a que Marco António (Costa) pertence e o bom povo que a legitima criaram uma situação que tornou a intervenção necessária: eles mandam; nós colocámo-nos a jeito de ser mandados. A alternativa, de que pelos vistos ele não se lembra, era a bancarrota absoluta. Assim, estamos numa bancarrota assistida, na qual uns senhores emprestam (a juros) o suficiente para que isto possa fingir que é uma nação soberana e inúmeras figuras gradas da nação querem mandar os senhores pentear macacos (embora por palavras mais viris). O patriotismo é muito lindo.


Infelizmente, os patriotas não explicam onde arranjaríamos o crédito caso os credores decidissem abandonar-nos à nossa sorte. Ou explicam, o que é igual. A ideia consiste em preservar a troika só que em versão boazinha: eles continuam a mandar-nos o dinheiro; nós dispensámo-nos de condições aborrecidas como a de ter de pagá-lo. Ou, no máximo, obrigamo-nos a pagar em suavíssimas prestações, semelhantes à que a autarquia de Vila Nova de Gaia, que contou durante anos com os brilhantes préstimos de Marco António (Costa), cobra ao FC Porto pelo centro de treinos ou lá o que é. O centro custou aos contribuintes 16 milhões. O clube abate 500 euros mensais. Daqui por 2666 anos - por extenso: dois mil, seiscentos e sessenta e seis -, aquilo estará pago. A Câmara Municipal de Gaia é generosa com o que não é seu. O FMI é cioso do que é. Vá-se lá compreender o mundo. Não admira que Marco António (Costa) nem tente.



terça-feira, 24 de setembro de 2013

SOBRE JULES MOROT




      Jules Morot, francês de fio a pavio, não podia deixar de ser um poeta que raciocina sobre a questão da escrita e da literatura que se organiza sobre aquela e, naturalmente, sobre a vida que lhe reside em torno, antes ou depois do acto.
      Sendo originário do Loire, essa - e cito - “região pacífica da exuberante paisagem, vinhas, longas praias arenosas e sapais, salpicada de castelos, solares e zonas de caça e na qual os prazeres bucólicos se misturam com a fruição de cidades fascinantes”, um pouco desse rincão encantado lhe percorre o que pensa, o que escreve, o que inventa.
      Assim sendo, é natural que se detecte nele um fundo mágico que o lança em composições nas quais tenho percebido duas coisas fundamentais: o amor à natureza e ao pensamento especulativo (o que se me oferece, por exemplo, nos seus poemas “O besouro” e “Mozart” dados a lume na DiVersos nº 7 -  revista de poesia e tradução).
   Creio que o trecho que aqui vai, extraído do seu “La chambre engloutie” (inserido na sua obra mais recente) do mesmo modo explicita o seu mundo interior, vazado numa afirmação que afinal é interrogação sistemática mediante os ítens que o enformam e que, ao cabo, reflectem o homem e o autor fascinado ante os mundos de baixo e de cima – que o mesmo é dizer os do espírito e os da luminosa materialidade.
                                                                                                                         
INTRODUÇÃO - O Regresso

    Eu chegava de Besançon.
  Era um dia de chuva miudinha de meados de Março e no largo da estação tomei um táxi da fila que aguardava passageiros. A imagem de “O marido da cabeleireira” perpassou-me na mente ao efectuar o acto tão simples de entrar no automóvel. Logo a seguir recordei o que a personagem dizia antes de morrer: “Todo o meu passado desapareceu contigo”. E toca, brrrr!, de se lançar às águas do rio.
  Mandei seguir para a Praça Lebrun, que fica perto da rua Lepic onde se situa o meu sóbrio apartamento de solteiro. O motorista era magro, de cabelo escuro, bigode à inglesa, tipo de  belo tenebroso.  Notei que  depositara  no  banco do lado um livro qualquer – mais me parecera um caderno - que pude relancear fugazmente. Tanto mais estranho consoante ostentava na capa uma ilustração que me intrigou.
   Ao passarmos nas imediações do parque Monceau soltei uma pequena imprecação. E disse de imediato: “Esqueci-me dos cigarros, raios!”. Então, num gesto entendível, debrucei-me ligeiramente e passei-lhe uma notinha de 20 francos. Ele encostou o carro perto do espaço dos jogadores de bolas deserto àquela hora, pois percebera que a demasia lhe estava destinada. Enquanto ele se dirigia ao quiosque, num gesto rápido e decidido peguei no livro-caderno. E compulsei-o sem demoras.
  Era um manuscrito. Com entradas, que me pareceram reflexões. Li um par de linhas. Vi que o nome posto ao alto da primeira página correspondia ao do taxista na pequena placa identificativa do “tablier”. Sem alardes, como faria o Arsène Lupin, meter o manuscrito no bolso interior da gabardina e recostar-me serenamente foi uma naturalidade que não me levou 3 segundos. Um taxista escrevente! E o par de linhas mostrara-me que o meu rapinanço (pois se tratava dum delicioso roubo) fazia sentido. Aconcheguei mais ao queixo a gola da sebosa, para disfarçar melhor o meu trombil. Ele durante uns minutos não notaria a volatilização da sua menina-dos-olhos, pensaria talvez que caíra para o espaço intermédio entre o banco e a porta. E quando despertasse do engano já seria tarde.
   Ele regressou, passou-me o maço de “gauloises” e com um gesto dei-lhe a demasia.
   Nos minutos que levou a trajectória até à Praça Lebrun amodorrei sem má consciência. Ali apeei-me, paguei-lhe generosamente para compensar o amargo despertar e comecei a andar como se fôsse para a rua Vosges.
  Passei por cima da relva, no separador arborizado com que o município nos mimoseia e num cavalgar harmonioso voltei para trás em passo estugado. O coração batia-me um pouco, como se tivesse acabado de cometer um assassinato. Mas a alma entoava uma pequenina melodia.
  Levar-me-ão a mal? Chegarão mesmo a chamar-me ladrão, a cobrir-me de adjectivos pouco próprios? Eu, contudo, vejo o assunto de modo bem diferente.
  Já em casa, depois das abluções e dos momentos de nostálgica retoma do ambiente familiar, despi-me calmamente e enverguei um pijama confortável. E enquanto degustava uma colação leve mas saborosa, deitei-me à leitura.
  Estive nisto mais duma hora, entre o irritado, o seduzido, o admirado.
  Eram, com efeito, reflexões ora sobre isto, ora sobre aquilo. Coisas do dia a dia, artes, literaturas, o que se esperaria em quem tem muito tempo para locubrar nas horas de uma vida de solteiro e com uma profissão pouco compaginável, pensei, com o trabalho do pensamento. No entanto enganara-me e creio que ficara de parabéns.
  Entre esses exercícios de pensamento e, mesmo, de crítica com certa penetração, ia contudo assomando, mesmo ressaltando, uma espécie de história delineada pelos breves diálogos entre duas personagens identificadas apenas pelos apelidos: Barre e Cibaljet.


***

   


(...)

 "Cibaljet repôs o livro na prateleira de cima duma das altas estantes em madeira encerada de cerejeira. Com um sorriso ameno disse para Barre, enquanto vertia nos copos uma generosa porção do líquido contido na garrafa de cristal facetado: - Na adolescência fui muito suscitado pelo catorze. Era um número que, não sei porquê, me despertava curiosos pensamentos. O sete duas vezes, o sete para um par de enamorados ou de companheiros, ou de inimigos...  
  Quando me tornei adulto, foi o quarenta e seis...
  É um número de grande poder, o quarenta e seis - disse Barre suavemente.Tem razão - redarguiu Cibaljet com um sorriso - É o sete multiplicado seis vezes e, depois, adicionado do quatro. Ou seja: da terra, da água, do ar e do fogo. "


***

  "Senti isso uma vez perto de Claremorris, no País de Gales, quando se começa já a descer até aos prados de Ballinrobe - disse Cibaljet entre duas puxadelas do havano - A sensação de que estamos longe, muito longe...como se fôssemos outros e nada nos prendêsse ao que fômos.
  Entendo! - redarguiu Barre com uma expressão sonhadora - Tive a mesma experiência certa noite junto ao Bósforo, quando ainda não me decidira a deixar a velha Europa...
  Você acha que a sensação é muito habitual, pelo menos em viajantes experimentados e decididos, com uma boa qualidade de conhecimento de estradas e lugares? - tornou Cibaljet passando-lhe o frasco viajeiro de aço recoberto de couro onde a bela aguardente das Cevènnes esperara a sua vez.
 Ora... - disse Barre na sua voz de baixo a que um leve tom de barítono emprestava um timbrezinho peculiar - Tenha em conta que a maior parte dos mortais com ou sem qualidades próprias de caminheiros se limitam, a não ser que haja milagre, a deslocar-se para aqui ou para acolá como se um vento os levasse..."


***

  “Já não me recordo quem teria dito a frase “Foge de alguns, foge de um, foge de todos” - disse Cibaljet passando a Barre a tábua onde um belo naco de Brie exalava o seu perfume sedutor para gastrónomos encartados – E quem teria dito, diabos levem a memória, “O companheiro Deus se quiser existir que exista” ? Puxo pela cabeça e por mais que tente não me consigo recordar...
  Sim, esses lapsos são apoquentadores em extremo – redarguiu Barre com um fino sorriso, untando a fatia de pão com deleite e vasando nos copos um Chandelle que estava mesmo a pedi-las – No meu caso, há anos que tento encontrar pistas do poeta que escreveu “Cuco, és tu uma presença errante ou apenas uma voz indagadora?”. Tenho procurado em antologias, em selectas liceais, em alfarrábios...e nada! E quem teria dito “É uma cidade soturna e desencorajante. Certas pessoas deviam entrar directamente do hall para o páteo e nunca lhes deveria ser franqueada a sala” ?
  Por mim sou um homem confiante – tornou Cibaljet entre duas mastigadelas – Ainda não perdi a esperança de conseguir lembrar-me de quem foi que disse “A vida é um mistério e não um delírio”.
 Barre pousou o copo. “Sabe - soprou de mansinho – quando era garoto um parente meu dizia que a memória atraiçoa frequentemente os que comem muito queijo...
  E talvez seja verdade... – disse Cibaljet servindo-se de outra generosa porção do Brie que restava na tábua – Será um caso de sabedoria popular...
  Mas nenhum deles sorriu.”


***

  “Meu caro Barre: ontem, na rua do Tivoli, encontrei um alquimista. Não se ria, essa qualidade existe. Acontece que por uma subtil concatenação de factos esse homem é meu vizinho e tive oportunidade de lhe prestar um pequeno obséquio que o dispôs a meu favor. É um indivíduo inteligente e desembaraçado, com um vago ar de distância indefinível que, contudo, não o apouca.
   Após vários anos de contacto fortuito, eis que confiou em mim. Contou-me uma história surpreendente.
  Como não saberá, mas aqui fica a revelação, os adeptos que atingem a iluminação não precisam daí em diante de comer ou beber e consequentemente de eliminar os resíduos líquidos ou sólidos. Habitando vinte anos atrás um solar isolado das redondezas, entregou-se a uma curiosa actividade: esteve 4 meses sem sair do seu quarto, imóvel numa poltrona e lendo incessante e interessadamente as obras de Vítor Hugo. Entre um e outro livro, dormia a sono solto para se distrair com os sonhos. Depois, recomeçava.  
  Os músculos não se atrofiavam pois as células corporais, nessas pessoas, mantêm a elasticidade. Quando chegava ao fim dos tomos, reflectia sobre as qualidades e defeitos da Obra do mestre. Adquiriu assim a certeza de que a leitura roda no espírito humano como um planeta o faz à volta do Sol.
  Vai dentro em breve recomeçar o mesmo périplo, desta vez com as obras de Balzac. Para isso isolar-se-á numa vivenda que descobriu nos arredores do Languedoc, no cimo duma colina e no meio de um bosque fora dos circuitos de quem quer que seja. Estará nisto, segundo prevê, 8 meses seguidos. Depois, será a vez de Homero, de Dante, de Borges, de John O'Hara, de outros mais. Dará aí para coisa de 4 anos. No entanto, desta vez acompanhará as leituras com intervalos durante os quais, cozinheiro emérito em que se tornou por gosto e sensibilidade gastronómica, preparará pratos sumamente apetitosos conforme a sua disposição do momento.
  Disse-me que um dia, em meio às suas leituras futuras, já os homens terão chegado a um planeta habitado fora do nosso sistema solar. Sairá então, com o intuito de renunciar à leitura dos clássicos e votar-se a passeios incessantes durante os quais ordenará na sua cabeça todas as páginas que leu.
   A solidão não o assusta. A única coisa que parece preocupá-lo um pouco é que, entrementes, uma catástrofe nuclear aniquile a nossa velha Terra. Eu disse-lhe que deveria começar a pensar em manobrar de forma a que os governos que se interessam pela aquisição atómica não tivessem esse ensejo.  
  Uma vez que dispõe de incomensuráveis possibilidades, já de tempo já de sabedoria, isso ser-lhe-á possível a meu ver.
  Ele olhou-me fixamente durante uns segundos e depois respondeu: “Saiba que mesmo a nós é extremamente difícil inflectir a loucura dos homens. Já outros antes de mim o souberam. Confiemos antes nas leis do acaso”.
  Despedimo-nos à porta do edifício que ambos habitamos, em andares diferentes.
   Agora  estou sentado a ouvir uns trechos de Brahms, enquanto lhe escrevo.  Jantei costeletas grelhadas com um fiozinho de molho inglês para acertar a preparação. Sinto, contudo, uma leve inquietação que não consigo definir se vem da conversa ou do leve zumbido que algures soa vindo do apartamento do lado, onde reside aquela morena de que não sei se já lhe falei.
  Até que nos encontremos.
  Cibaljet”

 ***

  “De cada vez que ouço Stravinsky ou leio Maupassant sinto sempre que alguém foi demasiado longe. Há autores que nos deslumbram e outros que nos sufocam. E o mais grave é que ambas as coisas podem ser suplementares.  Nunca consegui ler mais do que três contos de Maupassant de uma vez só. E nunca consegui ouvir Stravinsky durante um inteiro quarto de hora. O pássaro de fogo põe-me todo a tremer. Tal como sucede com O colar de Maupassant. A meu ver existe algures, perdida no meio dos séculos e das coisas, dos acontecimentos e das descobertas, uma lógica inquietante que ainda não foi avaliada. Algo para além das frases e dos sons. Tem-se a impressão que certos autores tocaram com o dedo nu o mistério da espécie... - regougou Barre em voz cava
   Junto da janela, Cibaljet olhava atentamente para fora. Traçava, distraidamente, figurinhas no vidro embaciado com a mão direita, enquanto a esquerda levava aos lábios, intermitentemente, o charuto já meio fumado.
   Vem aí uma forte pancada de chuva... - disse enquanto se virava e apanhava o cálice de “Napoléon” da mesinha de mogno envernizado - O céu está negro ali para Norte...Vai ser de escachar!
   Barre inclinou-se e, duma pequena taça de cerâmica com arabescos, tirou uma boa porção de amêndoas torradas.
   Gosto da chuva quando cai numa tarde assim de princípios de primavera, como esta – afirmou com um leve suspiro.”


***

  “Lacordaire ultrapassa em muito a sua própria lenda. Nisso está nos antípodas de Stevenson, cuja lenda é do tamanho da sua vida vivida. Não é fantasia e sim realidade o facto de que escreveu “O médico e o monstro” de rajada, horas depois de ter tido um sonho onde lhe foi oferecida a imorredoira história. - E, dizendo isto, Barre estugou o passo ao longo da álea que bordejava o canteiro de flores diversas e multicoloridas.
  Sim, mas só até à segunda transformação. Daí em diante teve ele de inventar – retorquiu Cibaljet com um leve sorriso enquanto, tomando Barre pelo braço, o encaminhava na direcção da pérgola um pouco mais adiante.”


***

   “Caro Cibaljet: Contaram-me ontem que Marcel Proust deixou algures, de acordo com um dos seus melhores exegetas, dois livros inéditos. A meu ver trata-se de não mais que um boato vago, talvez incrementado por um editor voraz e arteiro com o intuito de despertar uma nova curiosidade pelas obras já existentes. Mas e se fôr verdade? Que novas visões isso despertará, não acha? Críticos, leitores, simples observadores, andarão à porfia durante sei lá que tempo em roda da obra do aristocrata mais socialista de França. E já me revelaram que se trata de um diário e de cartas confidenciais.  Que bico de obra, que bela jornada para duas ou três épocas!
   Gostaria de ouvir a sua opinião. Até domingo próximo e os meus respeitos à senhora sua Mãe.
   Barre”


***

   “Meu caro Barre: A meu aviso trata-se de um boato, desses que surgem ciclicamente na nossa sociedade hiper-literária. Ou, melhor dizendo, sofisticada pelos piores motivos. Mas sempre lhe digo que, a ser verdade, teria importancia apenas nas vendas e nos fins-de-mês das livrarias. E daria durante um lustro pano para mangas aos batalhões académicos da especialidade, mas nada mais. Quando um autor está morto, fisicamente morto e várias décadas passaram sobre a sua desaparição da cena, transforma-se em História com todas as consequencias que se conhecem. Nada mais modifica, quando muito suscita um arrepio intelectual e algumas paixões de segunda ordem.
   Assim, se por exemplo um autor, trinta anos passados sobre o seu último livro, anunciar que vai publicar um tomo de inéditos que lhe haviam escapado, arriscar-se-á a passar por velho relho à guisa de plagiador da sua própria obra.Tanto mais que, entretanto, apareceram novos ritmos, novas maneiras de indagar os séculos e o século, um novo olhar sobre a escrita.
   Infelizmente e creio que digo bem, a literatura é um pouco como as bananas, que devem ser consumidas na hora. A novidade, tanto quanto me parece, advém-lhe sempre de novos relances, de leitores sucessivos, não de descobertas materiais.
   Seja como fôr, a ser verdade, creia que estarei como um dos primeiros compradores dessa iguaria, tanto mais que a frequentação das velhas glórias é uma das características de que não abdico. E, além disso, qualquer página de Proust é no fundo como se tivesse sido escrita mesmo agora, o que contradiz absolutamente tudo o que lhe disse atrás.
   Até domingo, pois. E uma saudação respeitosa a seu Tio.
  Cibaljet”


***

   “E esta é uma das peças que me chegaram ontem – disse Barre assim que entrou, sustendo cuidadosamente nas mãos uma peça de cerâmica de côr esverdeada, com pequenos elementos abstractos, que Cibaljet logo se apressou a contemplar tão-logo foi deposta sobre a toalha que cobria a mesa no centro da pequena sala -  Ainda nem sequer a coloquei junto de outras irmãs de outras civilizações. Não é uma beleza?
   Cibaljet, sem a levantar, rodou-a cuidadosamente, quase com ternura. Olhava-a como que extasiado. Virou-se e olhou Barre com unção.
   Tão simples e no entanto tão bela! - afirmou - Olha-se para isto e quase se ouvem os sons do passado em que esta peça foi um elemento do dia a dia. Posso quase ver os que dela se serviam, o camponês comendo nela o seu alimento enquanto olhava os filhos e a mulher, ou enquanto sentado à porta de casa olhava os longes da floresta na tardinha que chegava. Os sons dos animais que começavam a ouvir-se na noite nascente...
   Neste caso – disse Barre com um trejeito, contudo assaz delicado – temo que se engane: é um exemplar, muito bem conservado, das taças ou tigelas, conforme queira, em que os participantes no rito maia bebiam o sangue da vítima propiciatória que o sacerdote acabara de degolar.”
                                                      
  (...)

in O quarto submerso, de Jules Morot
Trad. nicolau saião



sexta-feira, 20 de setembro de 2013

O Islão e as 11.000 virgens do Paraíso




Será um adiantamentozito?



O ministro do Interior da Tunísia, Lofti ben Jeddou, afirmou hoje, no parlamento, que mulheres tunisinas foram para a Síria para fazer a "jihad [guerra santa] do sexo", aliviando as necessidades sexuais dos combatentes islamitas.

"Elas têm relações sexuais com 20, 30, 100" jihadistas, acrescentou o governante perante o parlamento, sem precisar se estes números são diários, noticiou a agência AFP.

"Após as relações sexuais, em nome da 'jihad al-nikah' [guerra santa do sexo], elas regressam grávidas", disse.

A 'jihad al-nikah' é considerada por certos dignatários salafistas como uma forma legítima de guerra santa.

O ministro não precisou o número de mulheres que partiram para a Síria com esse fim.

Alargando horizontes


Um dos microorganismos encontrados (texto e foto aqui, no DN)

Cientistas britânicos acreditam ter encontrado vida extraterrestre na atmosfera. Estão convencidos de que uma série de microorganismos voadores na estratosfera, a 27 quilómetros de altura, não podem ser provenientes do planeta Terra.

Um grupo de investigadores da Universidade de Sheffield, no Reino Unido, afirma ter encontrado formas de vida extraterrestre na atmosfera do nosso planeta depois de analisados os dados recolhidos por uma sonda enviada à estratosfera. Os resultados desta investigação foram publicados no Journal of Cosmology.

Milton Wainwright, do Departamento de Biologia Molecular e Biotecnologia da Universidade de Sheffield e diretor do estudo, está convencido de que uma série de microorganismos voadores existentes na estratosfera, a 27 quilómetros de altura, no podem proceder do nosso planeta.

"A maioria das pessoas dirá que estas partículas biológicas devem, forçosamente, ter proveniência da Terra mas é sabido que uma partícula das que encontrámos não pode elevar-se desde a Terra até tal altitude. A única exceção seria ter ocorrido uma violenta erupção vulcânica (que empurra essas partículas para cima), mas nada disso sucedeu durante os três anos em que recolhemos as nossas amostras", explicou.


A sonda - uma espécie de balão concebido para ir até à estratosfera - possuía lâminas de microscópio que só foram expostas à atmosfera a 27 quilómetros de altura.

sexta-feira, 13 de setembro de 2013

Memória dos grandes e gloriosos exemplos de sensibilidade social





(via 31 da Armada)


PÚBLICO, terça-feira, 14 Setembro 2010, às 00h00

O Governo de Cuba vai avançar com o despedimento de "pelo menos" 500 mil funcionários dos quadros estatais durante os próximos seis meses e permitir que esses trabalhadores se dediquem a outras actividades no sector privado, anunciou ontem a Central de Trabalhadores de Cuba (CTC), a federação oficial de sindicatos do país.


quarta-feira, 11 de setembro de 2013

"Dívida e perdão" - mesa-redonda na Universidade Católica




Começará dentro de 25', na UCP de Lisboa, uma mesa-redonda sobre o tema, com as participações de

– João César das Neves (Faculdade de Ciências Económicas e Empresariais - UCP)
– António Cortês (Faculdade de Direito - UCP)
– Vitor Bento (SIBS; Mestre em Filosofia Moral pela FCH - UCP)
– Pe. Jerónimo Trigo (Faculdade de Teologia - UCP)
– Mendo Henriques (Filosofia - Faculdade de Ciências Humanas da UCP)

e apresentação e moderação de Isabel Capeloa Gil (Vice-Reitora da UCP)

É possível assistir e participar on-line no debate, através da inscrição feita a partir desta ligação:





sexta-feira, 6 de setembro de 2013

Ter um carro em Portugal



 (imagem obtida aqui)


(recebido por e-mail)

Contribuinte: Gostava de comprar um carro.


Estado: Muito bem. Faça o favor de escolher.

Contribuinte: Já escolhi. Tenho que pagar alguma coisa?

Estado: Sim. Imposto sobre Automóveis (ISV) e Imposto sobre o Valor Acrescentado (IVA)

Contribuinte: Ah... Só isso.

Estado: ... e uma ?coisinha? para o pôr a circular. O selo.

Contribuinte: Ah!..

Estado: ... e mais uma coisinha na gasolina necessária para que o carro efectivamente circule. O ISP.

Contribuinte: Mas... sem gasolina eu não circulo.

Estado: Eu sei.

Contribuinte: ... Mas eu já pago para circular...

Estado: Claro!..

Contribuinte: Então... vai cobrar-me pelo valor da gasolina?

Estado: Também. Mas isso é o IVA. O ISP é outra coisa diferente.

Contribuinte: Diferente?!

Estado: Muito. O ISP é porque a gasolina existe.

Contribuinte: ... Porque existe?!

Estado: Há muitos milhões de anos os dinossauros e o carvão fizeram petróleo. E você paga.

Contribuinte: ... Só isso?

Estado: Só. Mas não julgue que pode deixar o carro assim como quer.

Contribuinte: Como assim?!

Estado: Tem que pagar para o estacionar.

Contribuinte: ... Para o estacionar?

Estado: Exacto.

Contribuinte: Portanto, pago para andar e pago para estar parado?

Estado: Não. Se quiser mesmo andar com o carro precisa de pagar seguro.

Contribuinte: Então pago para circular, pago para conseguir circular e pago por estar parado.

Estado: Sim. Nós não estamos aqui para enganar ninguém. O carro é novo?

Contribuinte: Novo?

Estado: É que se não for novo tem que pagar para vermos se ele está em condições de andar por aí.

Contribuinte: Pago para você ver se pode cobrar?

Estado: Claro. Acha que isso é de borla? Só há mais uma coisinha...

Contribuinte: ...Mais uma coisinha?

Estado: Para circular em auto-estradas

Contribuinte: Mas... mas eu já pago imposto de circulação.

Estado: Pois. Mas esta é uma circulação diferente.

Contribuinte: ... Diferente?

Estado: Sim. Muito diferente. É só para quem quiser.

Contribuinte: Só mais isso?

Estado: Sim. Só mais isso.

Contribuinte: E acabou?

Estado: Sim. Depois de pagar os 25 euros, acabou.

Contribuinte: Quais 25 euros?!

Estado: Os 25 euros que custa pagar para andar nas auto-estradas.

Contribuinte: Mas não disse que as auto-estradas eram só para quem quisesse?

Estado: Sim. Mas todos pagam os 25 euros.

Contribuinte: Quais 25 euros?

Estado: Os 25 euros é quanto custa o chip.

Contribuinte: ... Custa o quê?

Estado: Pagar o chip. Para poder pagar.

Contribuinte:: Não perc...

Estado: Sim. Pagar custa 25 euros.

Contribuinte: Pagar custa 25 euros?

Estado: Sim. Paga 25 euros para pagar.

Contribuinte: Mas eu não vou circular nas auto-estradas.

Estado: Imagine que um dia quer? tem que pagar.

Contribuinte: Tenho que pagar para pagar porque um dia posso querer?

Estado: Exactamente. Você paga para pagar o que um dia pode querer.

Contribuinte: E se eu não quiser?

Estado: Paga multa!


terça-feira, 3 de setembro de 2013

O Bloco já não é bom como o milho


(imagem obtida aqui)


É o que diz Henrique Raposo no Expresso on line do segundo dia do mês de Setembro do Ano da Graça de 2013:

Na última década e meia, o Bloco foi a gaja boa do pedaço, o mulherão mediático que toda a gente queria mimar com piropos, que clube tão sexy, sei lá. Esta confederação radical apresentava uma agenda de costumes que encaixava no ambiente de Lisboa e tinha figuras que passavam bem na TV. Louçã e demais vigários de cabeção vermelho eram bons marketeiros, quais metralhadoras de frases de efeito que faziam as delícias do repórter preguiçoso. Para sublinhar esta sensualidade política, recorde-se ainda que a agremiação tinha miúdas giras numa versão óbvia e felliniana (Joana Amaral Dias) e numa versão ínvia e timburtoniana (Ana Drago).

Entretanto, as coisas mudaram. A agenda fracturante esgotou o espaço da razoabilidade. Resultado? Os bloquistas têm de esticar a corda até ao absurdo, até ao humor involuntário. Por exemplo, já vi gente a namorar um "estudo científico" que garante que os gays são melhores pais do que os heterossexuais. Que estudo tão científico, tão progressista, tão sexy. Ora, a ideia de proibir legalmente os piropos encaixa como uma luva neste fim de linha simultaneamente cómico e totalitário. Sim, à primeira vista, isto parece piada. Proibir piropos? Se ouvir um pedreiro derramar um "és tão boa" sobre uma cidadã curvilínea, um polícia deve autuar o pedreiro de imediato? E o pedreiro loquaz paga a multa com multibanco? Mas debaixo deste humor involuntário encontramos algo mais sério: a velha pulsão totalitária dos comunismos que fundaram o Bloco, o desejo de controlar todos os aspectos da vida quotidiana, de padronizar todos os indivíduos segundo uma cartilha, de extirpar todas as pequenas imperfeições que não seguem essa cartilha.

Por outras palavras, o Bloco já não é bom como o milho. É uma velha com buço. Sem a agenda sexy, sem marketeiros e sem fellinianas, este partido ostenta um buço igualzinho ao do PCP. Sim, claro, é um buço muito progressista, muito de esquerda, sei lá, mas não deixa de ser um buço. E, buço por buço, prefiro o da Odete Santos.


(imagem obtida aqui)

sexta-feira, 23 de agosto de 2013

Egipto, para onde vais? - Militares como força moderadora






A 3 de Julho 2013, Mohamed Morsi, presidente egípcio, foi detido e deposto pelo Exército, encontrando-se agora, talvez na mesma prisão onde se encontra o antigo-Presidente Mubarak, deposto em 2011. Morsi foi vítima do golpe de estado e da própria intolerância contra quem não servisse o radicalismo islâmico.

A revolução árabe levou os extremistas ao poder sob uma aparência democrática. Aqueles que pensavam ser possível um estado moderno com islamistas sentem-se agora frustrados. A Irmandade Muçulmana, apoiante de Morsi reagiu com barricadas e com ataques aos cristãos. Estes (5 a 10% da população) favoreciam um Estado mais tolerante. Na constelação política concreta são os militares que oferecem maior possibilidade de tolerância civil. As forças militares são mais abertas ao diálogo, por razões de formação e por interesses pragmáticos e pessoais; estão mais interessados numa economia que funcione. Os militares pensam em termos de identidade nacional enquanto o povo, que se expressa, pensa mais em termos de solidariedade religiosa (Umma).

O Ocidente não está interessado num islamismo extremista e por isso opta pela hipocrisia de, em nome da democracia, aceitar a eliminação dum governo democraticamente eleito pelo povo islamita. Continua a fingir não saber que o islão mais genuíno é dogmaticamente hegemónico, antidemocrático e alérgico a uma sociologia que não seja a maometana. Como doutrina permite a contradição mas apenas dentro dela. Daí a incompatibilidade entre uma democracia de cunho ocidental que inclui o dentro e o fora no seu sistema e um regime islâmico que se afirma contra o que se encontre fora dele. Por isso a Irmandade Muçulmana e outros radicais islâmicos não são contrariados pelos outros irmãos muçulmanos moderados. O inimigo e o mal consideram-se fora dos muros da sociedade islâmica. Culpados são sempre os de fora. O Ocidente, como representante da modernidade, será sempre tido como cúmplice das desordens nas sociedades islâmicas que se encontram, a nível de doutrina, com 500 anos de atraso em relação às sociedades modernas. Em geral, os partidos ditos democráticos, pouco têm a ver com democracia, dado, para eles, democracia consistir em impor os interesses da maioria governante aos outros. Grupos jovens, mais esclarecidos, devido à Internet, constituirão o Cavalo de Troia, que permitirá desenvolver um espírito crítico dentro do islão.

Encontramo-nos perante uma democracia sui generis, dum lado os radicais islâmicos e do outro, uma aliança problemática de forças da segurança, partidos seculares e da média estatal. Muita da população está do lado dos militares; talvez aqueles de espírito mais democrático, o que parece contraditório mas não o é, numa sociedade ambígua e por isso impossível de analisar por categorias democráticas rotineiras. Uma sociedade baseada em princípios hegemónicos e com o monopólio de Deus não cede direito ao adversário. Por outro lado, os militares sabem que nenhum governo está interessado na reforma das unidades paramilitares nem da polícia. Ao aparato de segurança todo-poderoso opõe-se um extremismo religioso todo-poderoso também. Esta situação relativiza qualquer comentário de jornalistas bem-intencionados e desejosos de democracias gratuitas, à margem do medo. Fala-se impropriamente duma sociedade civil que não existe em estados islâmicos. Existe propriamente a força religiosa e a força militar (Por isso os radicais islâmicos combatem consequentemente a organização de instituições policiais e militares coesas nos estados islâmicos). Fala-se de democracia dum estado que só reconhece súbditos e dum povo que só aceita devotos de Alá. Uma sociedade em que a pessoa não vale por si, mas pelo grupo a que pertence ou pela ideologia que professa, aliena a pessoa, fomenta a inveja, não se desenvolve e cria relações de subjugação, de medo e de conflito. O estado moderno baseado nos direitos individuais do cidadão e na sua liberdade tem-se mostrado incompatível com o islão.

A democracia é sublime e pode ser forte mas os interesses religiosos, políticos e militares (económicos) são mais fortes e têm o poder de obstruir qualquer sublimidade. O diálogo pressupõe a cedência mas onde todos se sentem com Alá na cabeça e a razão na barriga não há lugar para o diálogo nem para a diversidade que a natureza perpetua e defende. A razão e as argumentações políticas, quer a nível interno quer a nível externo, servem, muitas vezes, os interesses obtidos à custa do sangue e da opressão dos mais fracos. Em Estados instáveis, o Ocidente está interessado numa atitude de apoio ao mesmo tempo do governo e da oposição para assim se manterem as portas abertas ao negócio no caso de vencerem uns ou outros. Por isso se apoiam os revoltosos e se toleram os opressores independentemente dos interesses dos povos vítimas da violência.

Intervenções e influências directas de fora revelam-se contraproducentes no processo interno de desenvolvimento político e social que precisam de muito tempo de amadurecimento entre as partes em conflito. O islão tem sido uma cultura belicosa e não descansa enquanto, nas regiões onde chega, não vir tudo reduzido a uma monocultura islâmica. Neste sentido trabalhava o presidente Morsi, em nome duma democracia que o levava a considerar o Egipto como espaço reservado apenas para islamitas. A ditadura religiosa e a ditadura militar têm sido as perspectivas das culturas de cariz muçulmano. O problema não vem das pessoas mas do ideário. A ideologia só reconhece um Deus que não deixa espaço para o Homem nem para a diferença. Daí o seu eterno conflito com tudo o que não seja islâmico.

Os apoiantes do presidente deposto apostam nos mártires radicais islâmicos convictos que o sangue de “mártires” é o melhor combustível na propaganda contra o adversário e assegura, ao mesmo tempo, a solidariedade de radicais dentro e fora do país.

Os “mártires “ da escuridão são os arautos do radicalismo.

A emoção, sem o efeito moderador da razão, move as energias escuras. A Irmandade Muçulmana apelou para uma ”sexta-feira de raiva” depois das orações. Quando a religião apela à raiva, o que não farão os raivosos?

A violência interior (a raiva) e a violência externa são expressão consequente da mesma mentalidade e duma filosofia islâmica paradoxa que designa a sua guerra como santa e os assassínios como mártires. Usam cinicamente a palavra mártir, designando como mártir não a vítima da fé mas o assassino que leva consigo outros em nome da sua fé. Dão às energias negativas uma aura de santidade, reduzindo a religião a uma mera estratégia da lei selectiva natural em que o mais forte é que tem razão. O Ocidente esforça-se hipocritamente por um diálogo que a Irmandade Muçulmana e os militares não querem. Condenar a violência exterior sem ter em conta a violência interior (imanente ao sistema) torna-se ingénuo e só serve de desculpa e para adiar a situação. As intervenções do Ocidente no mundo muçulmano revelar-se-ão como erro histórico e prejudicial para o Ocidente. É uma catástrofe o que se passa no Afeganistão, norte de África, Kosovo, etc. No fim só resta povo vítima e cínicos.

O islão, na sua qualidade de religião política, coordena as suas acções a partir das mesquitas nos seus encontros de oração às sextas-feiras. Os fundamentalistas islâmicos são os que se encontram em maior conformidade com o Corão e com a sharia islâmica, como afirmava o mestre islâmico Khomeini. Os Mujahideen (ao serviço da jihad- guerra santa) e os mártires-bomba islâmicos são personalidade de mais-valia na sociedade maometana. O islão encontra-se numa luta cultural dentro das suas fileiras e em disputa com o que não for islâmico. Qatar e Arabia Saudita incentivam economicamente a fundação de califados por todo o mundo.

Uma sociedade munida de ideologia e de armas até aos dentes está interessada na escalação dos conflitos. O golpe militar que queria impedir a ditadura religiosa democrática revela-se também ditador no seu ataque violento contra o acampamento de protesto da Irmandade Muçulmana.

O facto dos militares se apoderarem do poder constitui uma ameaça para outros regimes políticos islâmicos como é o caso da Turquia, Tunísia, etc. Conservadores e extremistas do mundo árabe foram os que mais protestaram contra o golpe de estado. Para países como a Turquia, o país de primeiro-ministro Erdogan, o facto de o Ocidente não ter reagido mais fortemente contra o golpe de estado, constitui uma ameaça dado o Ocidente, no caso de risco, apoiar as forças militares que são mais permeáveis à modernidade pelo facto de constituírem uma casta que usufrui privilegiadamente dos bens terrenos enquanto a maioria dos crentes têm que se contentar com os bens que a fé promete e como não têm nada a perder também só lhes resta defender a própria fé.

Na Alemanha de Hitler as vítimas eram as sinagogas e os judeus, nas sociedades islamistas são as igrejas e os cristãos.

Actualmente só haverá a alternativa de escolha entre peste e cólera, entre ditadura militar e ditadura religiosa; das duas é mais suportável a militar. Esta, apesar de tudo, garante um certo pluralismo, e uma certa defesa das minorias.

Segundo informação da conferência dos bispos alemães, no Egipto nas últimas semanas “foram incendiadas e destruídas mais de 40 igrejas cristãs e instalações eclesiásticas, muitos cristãos foram assassinados e muitas das suas lojas saqueadas. Na Alemanha de Hitler as vítimas eram as sinagogas e os judeus, nas sociedades islamistas são vítimas as igrejas e os cristãos.

A irmandade muçulmana está interessada em provocar os cristãos não só por razões de crença e de fé mas para dar a impressão que há uma luta entre religiões e assim mover islamistas no estrangeiro. Tradicionalmente os cristãos coptas apoiam em parte os partidos seculares. Os militares, porém, não empreendem nada na defesa dos cristãos porque deste modo podem justificar as suas investidas contra islamistas e apregoá-las como “luta contra o terror”. Os ataques dos extremistas muçulmanos aos cristãos tornam-se oportunos para o general Abdel Fattah al-Sissi, que assim legitima a sua violência contra a Irmandade Muçulmana (Movimento revolucionário sunita também activo na Síria e no Líbano que desde 1928 usa da violência para conseguir os seus objectivos no sentido de fortalecer o islão como nação universal (Umma). Em geral, os cristãos são vítimas duma parte da sociedade islâmica radical e da outra parte conivente com a violência.

Segundo declarações oficiais até (19.08.2013) morreram "mais de 800 pessoas".

A ditadura militar será apoiada pelo Ocidente para que a situação se pacifique. A crise não é dos países do norte de África mas do islão. O islão parece não querer sair da era das trevas e em vez de reconhecer os sinais dos tempos endurece ainda mais.


As notícias sobre o mundo árabe estão, por vezes, mais interessadas em transmitir imagens e informações que poupam os revoltosos contra as forças do poder causando no público uma avaliação errada da situação.