sexta-feira, 28 de junho de 2013

E agora, a pedido de várias famílias...

A AURORA BOREAL DAS “DEMOCRACIAS FELIZES” ou DE COMO O ESCRITOR TEM RAZÃO ANTES DO TEMPO





A PROPÓSITO DE “EXTERMÍNIO NO 31º ANDAR”, DE PETER WAHLÖÖ


  Sem comentários – para quê? – aqui fica o texto que dei a lume em páginas culturais do Brasil, de França e de Portugal em 2007/2009.
  O livro, por seu turno, foi escrito em 1964 (‼!) e publicado entre nós em 1990.
 …e é assim que se faz a Estória. E a História também…



                    “Porque vos ensinam eles a amá-los, se é para vos tratar assim? Porque não vos deixam eles em paz?” – William Irish



     Há livros assustadores. Uns pelo espírito, como por exemplo o “Lázaro” de Andreiev, que nos coloca de chofre e sem complacências em frente do facto de que uma vida de ressuscitado seria, afinal, tão angustiante e repugnante como a degustação de uma refeição apodrecida. Outros pela letra, como o Drácula de Bram Stoker sobre o qual já se disse que só um leitor completamente destituído de sensibilidade conseguirá ler numa casa deserta e pelas horas mortas da noite.

   Outros, por seu turno – e é o caso desta “utopia negra” vasada nas luzes boreais que conformam as sociedades escandinavas – porque o que neles se encena está a acontecer paulatinamente. E não só naqueles rincões.

   O caso sucedido tempos atrás na politicamente correcta Noruega, onde os monstros particulares são produto de uma administração cuja tenaz cegueira é a prova do seu cinismo suave e perito em enterrar a cabeça na neve (e já não, como os avestruzes, na areia do deserto) para sagração de um oportunismo que finge supor que os cidadãos são um resíduo angélico para que se não vejam as partes demoníacas do seu poder governativo, mostra-o sem véus e sem disfarces.

Nicolau Saião, O grande guerreiro

    Nesta obra de entrecho quase linear, duma secura de estilo necessária para que a sugestão resulte, Peter Wahlöö (que com sua mulher Maj Sjowal deu na época a lume um belo punhado de polars bem inseridos no género, mas com um timbre de novidade que os distinguiu) segue passo a passo os sete dias duma investigação que um inspector da polícia efectua para que naquela sociedade pacífica e onde o Estado mais ou menos cordial procura que o cidadão viva sem traumas (e onde o único crime significativo e punido aliás sem muita violência expressa é a embriaguez, que entretanto se multiplica) tudo continue a ser sereno.

   Nesta sociedade o controle é exercido pela leitura: leitura de revistas e de jornais com visão positiva, onde o próprio fenómeno desportivo (fautor de paixões e frequentemente de conflitos) não recebe muita atenção a não ser a que possibilita que se possa epigrafar televisivamente o sucesso das vedetas que o integram.

   O consórcio que o domina é constituído por gente esclarecida e de “boa formação” partidária e propugnadora de uma igualdade social estabelecida de maneira amena e que até quando despede dos empregos o faz cordatamente: o indivíduo ou indivídua em causa recebe uma reforma razoável e um diploma por bons serviços, assinado por altas individualidades. E o além está muito longe…mesmo quando ao virar da esquina.

    Mas há sempre alguém que, com impetuosidade maldosa, “sem olhar à felicidade social a que se conseguiu chegar” (sic), resolve meter um pauzinho na engrenagem. Por puro sadismo (como se diz neste ocidente cristão, civilizado e culto) ou por maldoso anarquismo (como há dias disse publicamente um comandante da polícia metropolitana inglesa, que ao mesmo tempo solicitou aos cidadãos britânicos que, e cito, denunciassem os vizinhos que soubessem que perfilhavam ideias anarquistas – o que quer que isto seja…)? Ou, ainda, por impiedade, como se diz naqueles países do oriente que têm a dita de existir em teocracias?

    Alguém, portanto, usando precisamente uma folha anexa não preenchida dum desses diplomas, (uma vez que o papel é pacificamente controlado), endereçou às autoridades uma carta inquietante, sugerindo que inquietantes acontecimentos iriam dar-se. E embora as forças vivas tenham essa carta por eventual simples brincadeira, tal como uma outra insistência significante, nunca fiando – a própria brincadeira indicaria já um escabroso, quiçá injusto, desvio e Jensen - polícia compenetrado e eficiente sofrendo no entanto de um doloroso e crónico desarranjo gástrico que nem a comida cientificamente confeccionada e posta à disposição dos cidadãos pelo ministério da saúde que tem a seu cargo as dietas racionais consegue tranquilizar – mergulha num universo de entrevistas e de encontros que pouco a pouco lhe patenteia os meandros do jornalismo, se jornalismo se lhe pode chamar, e da criação escrita quando a criação escrita é apenas um simulacro que ora leva ao suicídio dissimulado (ou assistido) ora à entrega a um ambiente de mundanidade, de sucesso e de notoriedade bastante semelhantes ao que usa utilizar-se nesta Europa das pátrias e, suspeito-o com alguns tremores relativos, nas sociedades alfabetizadas de outros continentes…

   Homem sério e bom profissional, ético tanto quanto as circunstâncias peculiares o permitem, nesta viagem iniciática de uma semana nem sequer negra em que a desesperança do protagonista é irmã colaça da desesperança sentida pelo leitor enquanto mergulha na naturalidade do relato, a regra da “detective novel” é subvertida, ou melhor: invertida. Os chefes que o comandam preferiam não saber e a demanda de Jensen dirige-se não à descoberta mas à ocultação. Nas sociedades racionalmente policiadas, como por exemplo a sociedade lusa, o polícia, (que funciona como Némesis justiceiro) age preferencialmente como aquele que camufla o enigma ou, dizendo ainda mais esclarecedoramente, faz com que o enigma seja uma camuflagem que garante ou sustenta o “equilíbrio” entre as classes, para que a paz e o progresso coabitem salutar e airosamente…

    No entanto, nem nestas mansões quase celestiais as coisas são como deviam ser (ou se esperava que fossem).

   Dizia António Maria Lisboa, numa frase bem respigada por Cesariny, que “Todo o acto premeditado ou todo o acto leviano tem a sua guilhotina própria”.

    A mim sempre me pareceu que ele tinha razão ao cunhar este conceito. E, se o pudesse ter lido, creio que Jensen – e muito mais os seus chefes – teriam dolorosamente entendido a verdade que assistia ao infausto poeta surrealista lusitano.


    À sua deles própria custa – mas isso seria já uma outra estória…   

terça-feira, 25 de junho de 2013

De volta de Arronches com passagem por Espanha





Caros/as confrades

  Ontem, depois de um fim-de-semana em Arronches acompanhado a sardinhada e a Monte do Rei - dado que não consegui mercar por fraqueza no stock o benquisto e sapientíssimo Reynolds Tinto (que só se apanha por preço mais módico precisamente no market daqui, na terra onde fica a quinta do prudente criador desta iguaria sem par) - fui cumprir num salão em Espanha uma promessa já com algum tempo de "repouso": efectuar uma palestra com tema a meu gosto.

 Lá fui e lá orei.

 Eu escolhera uma coisita potável, "As Metamorfoses de Ovídio na pintura moderna", o que deu ensejo a que com ardil creio que puro e justificado pudesse excursionar por autores do meu prazer: Renoir, Picasso, Saura e, the last but not the least como gosta de dizer um certo crítico luso com a mania dos monstros, Pedro Moro e os seus touros surpreendentes transfigurados em cavalheiros espanhóis provavelmente de boas famílias.

 Dentre o público, como depois vim a saber vários professores assistiam amavelmente. Um deles, no fim do cavaco (se assim o digo...), teve a fineza de se me dirigir para, revelou-mo, concretizar alguns pontos nomeadamente sobre a maravilhosa edição que Albert Skira artilhou um dia com os buris e os carvões do fogoso malaguenho.

 Palavra puxa palavra, veio-nos à baila a questão do professorado. Na Ibéria.

 Durante alguns momentos apenas, porque se fazia tarde, ouvi-o encantado pelo bom-senso que se soltava do que dizia, pela justeza dos conceitos que explanava. O seu falar não tinha qualquer sabor a rolha nem aquele jargão que, de certas bocas amoráveis, se solta com chavões politicões à mistura. (Não havia necessidade...).

 Tempos atrás, de um outro professor que é também confrade triplóvico e para mim muito querido (claro!) recebi um textinho que, sendo de pequena talha, me calou fundo pela justeza singela do que nele era dito. E tenho para mim que muito do que de mais acertado se vai dizendo, afinal, é fácil de dizer e fácil de entender - se, é claro, estivermos e lhe dermos a direcção adequada...

 Poderá, igualmente, com outro grau de robustez e profundidade devido aos temas que os enformam (Hieronymus Bosch, a construção de novas sociabilidades mediante a Arte, enfoques sobre Raul Proença, entre outros), ler textos (e ver pinturas) deste confrade na Revista Sibila, no preclaro TriploV e na acerada Agulha, da Fortaleza que é também a minha debilidade.

  Bom Verão e boa semana vos desejo.


...................§§...................


          "É com muito gosto que aqui vos deixo umas palavras que expressam, enquanto vosso Professor e Coordenador do Curso de Animação Sociocultural, o apreço que temos por vós.

         Na verdade, ao longo destes anos sempre fostes alunos interessados, de trato afável e cordial, nunca mostrando estar dependentes de preconceitos e modas, de superstições espúrias e de desonestidades intelectuais, que maculam o espírito humano e enegrecem a sua liberdade interior, inevitavelmente limitando o seu florescimento na comunidade em que nos foi dado viver.


João Garção, Sabedoria


         Não procurámos, somente, dar-vos informações e transmitir-vos métodos e técnicas, visando cumprir meros formalismos académicos. Tentámos, sobretudo, criar conjuntamente um estimulante ambiente relacional, assente em princípios éticos irrenunciáveis, que permitisse que pensamentos e práticas mostrassem a sua beleza e a sua utilidade e onde, afinal, pudesse ter lugar o ‘jogo’ da construção, destruição e reconstrução que é intrínseco à maravilhosa aventura que constitui a edificação do Saber.

         ‘Liberdade cor de Homem’, escreveu um dia, apropriadamente, André Breton. Em Educação (como nos demais domínios da Vida, assim o cremos), a exaltação da Liberdade, da Coragem e da Dignidade humana é tão importante como os apelos ao estudo dedicado, ao trabalho árduo e à responsabilidade individual. De outra forma, não haverá quem volte a roubar o fogo aos Deuses nem quem insista em saber ‘o que está para lá da montanha’, para parafrasear Rudyard Kipling…


João Garção, Pintura


         É esta atitude perante a Vida que deixamos nas vossas mãos, esperando que a acarinhem e a façam brilhar pelos anos vindouros. Sabemos que não será em tempos difíceis - como estes que estamos a viver – que os ‘heróis’ se forjam; mas acreditamos que é neles que os ‘heróis’ se revelam. Por isso, fazemos votos para que não vacilem, não cedam nem abdiquem dos vossos sonhos, dos vossos direitos (e deveres!) e da vossa dignidade, como seres humanos irrepetíveis que são - e com os quais, para nosso privilégio, temos tido o gosto de conviver.

        Bem hajam e obrigado por aquilo que nos têm dado. E muitas felicidades, é claro!

                               O Coordenador do Curso de Animação Sociocultural
                                                                                                         
João Garção
                                              
(Docente do Instituto Superior de Ciências Educativas de Felgueiras, onde leciona diversas Unidades Curriculares a cursos de Licenciatura e de Mestrado e onde é Coordenador do Curso de Animação Sociocultural.
 Pequeno texto escrito em junho deste ano, a solicitação de alunos, para ser incluído num álbum de caricaturas de finalistas daquele Instituto).

...............

 PSCriptum - Em próximos envios: "As Paredes de C.Ronald", "Imagens que me chegaram pelo Tempo", "Louvor de Cruzeiro Seixas"," António Salvado, simplesmente", etc. 

 Nota - Neste, como em qualquer texto de sua autoria (incluindo os falados...) o autor não segue os preceitos do chamado Acordo Ortográfico.

segunda-feira, 24 de junho de 2013

AS PALAVRAS-DE-ORDEM NAS MANIFESTAÇÕES BRASILEIRAS (ATÉ AGORA)


 
 
Olha que legal, o Brasil parou e nem é carnaval

o povo acordou

Ah, mas que vergonha, o ônibus está mais caro que a maconha

Vem pra rua, vem, contra a tarifa!

Odeio bala de borracha, joga um Halls

Ô motorista, ô cobrador, me diz aí se seu salário aumentou

Copa do Mundo eu abro mão, quero dinheiro pra saúde e educação

Ei, perua, sai do shopping e vem pra rua

Era um país muito engraçado, não tinha escola, só tinha estádio!

Não é mole não! Dormir com fome pra pagar a condução!

Ô, Fifa! Paga a minha tarifa!

Brasil! Vamos acordar, o professor vale mais que o Neymar!

Se a passagem não baixar, olê, olê, olá, eu vou protestar!

Ia ixcrever augu legau, maix fautô edukssão

O povo unido não precisa de partido!

Sem demagogia, R$ 0,20 foi o início da guerrilha!

Vem pra rua, vem! Ficar em casa não ajuda a ninguém!

Eu quero: ( ) tchu ( ) tcha (x) 10% do PIB para a educação

Ei, qual é a sua? Vai depredar o muro da sua rua!

Hoje eu tô feliz! Saí na rua pra mudar o meu país!!!!

Ô seu prefeito, governador! A sua batata já assou!

Haddad, seu bocó, o preço da passagem tá mais caro que o pó

Parasita, otário! Não percebeu que o movimento é apartidário?!

Zé Dirceu, pode esperar, tua hora vai chegar

Ão, ão, ão, vem pra rua, Felipão!

Se a Dilma não acordar, olê, olê, olá, Brasil Vai Parar!

Vai ser tão legal! Ver partido sem poder com o voto distrital!

Não é mole, não! Tem dinheiro pra estádio e cadê a educação

Catracas vão rolar!

Maconha: R$ 5; ir e voltar do trabalho: R$ 6,40

Sem partido! Fora, militante

Todos contra a corrupção

Menos vândalos no Congresso Nacional

Você aí de gravata, vem pra passeata

Não é a Grécia, não é Turquia, é o Brasil que sai da letargia

Desculpem o transtorno, estamos tentando mudar o país

V for Vinegar

A tarifa abaixou, mas o povo não calou

Isso é só o começo, espera chegar a eleição

Futebol, que nada, acabou a palhaçada

O importante não é vencer todos os dias, mas lutar sempre!

Saímos do Facebook, quem falou que era impossível?

Seja a mudança que você quer ver no mundo

Não sou bacon para morrer queimado

Foda-se o Brasil, nacionalismo é coisa de imbecil

6ª maior economia do mundo, então cadê nosso dinheiro

Quando seu filho ficar doente, leve ele ao estádio

Seu gás de recalque bate no meu vinagre e volta

Ideias são à prova de bala

Se não baixar, a cidade vai parar

Prefiro ser confundido com um vândalo a ser comparado a um político

Meu partido é um coração partido

Professor, te desejo o salário de um deputado e o prestígio de um jogador de futebol

Copa pra quem?

Fora todos os partidos

Os bandidos de verdade estão em Brasília

Fifa, go home

Ei Neymar, a Copa é pra roubar

Ora, ora, ora, cadê a Dilma agora?

O povo unido não precisa de partido

Me chama de Copa e investe em mim. Ass.: Saúde e Educação

Queremos hospitais padrão Fifa

Tem tanta coisa errada que nem cabe em um cartaz

País desenvolvido não é onde pobre tem carro, é onde rico usa transporte público

Eu represento você aí sentado no sofá

O país do futuro chegou

E ainda nem é primavera

Nossa vitória não será por acidente

Saímos do coma

Ei, governo!! Por que vocês merecem mais que a gente?

Ô, soldado, você também é explorado!

Não é Turquia, não é a Grécia, é o Brasil saindo da inércia!

Governador, pode escolher, cai a tarifa ou cai você

Mãos ao alto! R$ 3,20 é um assalto

Paz sem voz é medo!

Somos a rede social

O Congresso é nosso!

Polícia, seu juramento é para a pátria, e não para os governantes

Obrigado por lutarem pelo meu futuro!

Dilma, cadê você?

Afaste de mim esse cale-se

Oh Dilma, que papelão, foi guerrilheira e agora apoia a repressão

O povo unido não precisa de partido

Haddad, cu*, paga o meu busão

Ei, você aí, não vai deixar a prefeitura te engolir

Tira a gravata e vem para a passeata

Meus inimigos estão no poder!

Se você acordou agora, a periferia nunca dormiu

Esse protesto não é contra a seleção, mas sim contra a corrupção

Protesto NÃO é crime!

A borracha da polícia não apaga a minha ideologia

Enquanto você se ilude com a TV estamos mudando o país!
 
Desculpe o transtorno #OBRASILACORDOU

Se a tarifa não baixar, São Paulo vai parar

Stop police violence

Sem luta não há conquista

Liberté, Egalité, Fraternité, Vinagré

Não é por R$ 0,20, é por direitos

Japão, eu troco nosso futebol pela sua educação

Recalque de ditadura bate na minha geração e volta!

O inimigo não é a polícia, é o governo

Futebol: Brasil 3x0 Japão. Educação: Brasil 0x10 Japão

Prepara que agora é a hora que o gigante acorda

O meu futuro agradece a sua luta

Povo que não tem virtude acaba por ser escravo

Ei, polícia, vinagre é uma delícia

R$ 3,20 só por teletransporte

Closing streets to open ways

O povo não deve temer o governo, o governo deve temer o povo!

Uma cidade muda, não muda!

O povo unido é gente pra caralho Ih, fodeu, o povo apareceu

É muito motivo!!! Não cabe aqui!

Ceci n'est pas une transporte

Dilma, se você não mudar, eu trago minha avó pra cá

Queremos direitos, não direita!

Polícias, abaixem as armas e troquem carícias que a gente chegou

O movimento é sexy

Meu cu é laico [contra a atuação de parlamentares evangélicos]

A geração Coca-cola acordou

BRASIL: TUDO FALSO, TUDO FARSA

 
 
Publiquei o texto abaixo em 21-12-2011 (no site Sibila). Acredito que, dois anos antes do "surpreendente" terremoto anual, ele explica, premonitoriamente, algumas coisas.



O Brasil é um BRIC. Ou seja, faz parte do “luminoso” e ominoso grupo dos superemergentes, ao lado, literalmente (ou literamente), de Rússia, Índia e China. Portanto, também é um bric, um tijolo que arrima o futuro do mundo... Lula pode ter perdido a voz e a barba, mas o Brasil não tinha perdido a pose de país da “nova classe média”,que compra feliz e febril nos crediários sem fim ofertados a toda a imensa multidão de novos e velhos otários. Qual o problema de pagar por uma Mercedes e levar um Gol, se antes não se conseguia sequer ter um Fusca? Mas acabou.
As compras podem continuar febris, porém o comprador não é feliz. Nunca foi. E isto não é uma opinião.
A organização
Legatum Institute, que pesquisa o Legatum Prosperity Index, índice de prosperidade relativa entre os países de todo o mundo, acaba de publicar a sua pesquisa de 2011. A lista dos primeiros dez não surpreende: Noruega, Dinamarca, Austrália, Nova Zelândia, Suécia, Canadá, Finlândia, Suíça, Holanda e EUA. O que talvez surpreenda sejam as variáveis envolvidas: economia, oportunidade, governo, educação, saúde, segurança, liberdade pessoal e capital social. E tudo isso se traduz no grau de “life satisfaction”, satisfação com a vida, ou sensação de bem-estar, de cada população – o que o Prosperity Index, enfim, mensura. Ou seja, os noruegueses, aqueles pálidos nórdicos frios, são os mais satisfeitos da vida. E os americanos não fazem nada feio, apesar das cassandras canhotas que vivem a decretar e redecretar sua infelicidade. E onde fica, afinal, o Brasil varonil com seu céu de anil e seu alegre povo mestiço, sambista, futebolista, carnavalesco e tropical? Em um triste, insatisfeito e insatisfatório 42º lugar...

Economia: a do Brasilzão é uma das maiores do mundo, mas isso não muda nossos preços estratosféricos, nossos impostos insanos, nossos juros obscenos, nosso capitalismo primitivo e parasita etc.;
Oportunidade: não é muito difícil imaginar que a vida de um norueguês médio oferece oportunidades de todos os tipos maiores e melhores que as de um brasileiro médio em sua mediania provinciana;
Governo: a ineficiência e a corrupção do Estado brasileiro, em todos os níveis, estão além da capacidade de imaginação do norueguês menos satisfeito;
Educação: ocioso comentar;
Saúde: idem;
Segurança: idem idem;
Liberdade pessoal: qual a verdadeira liberdade de quem vive preso pela necessidade de enfrentar dia a dia pequenos, médios e grandes problemas evitáveis que a inépcia, a incúria e a ignorância nacionais oferecem em doses mais do que satisfatórias?;
Capital social: em meio à deseducação, à insegurança, ao desperdício etc., muito pouco resta. Resta concluir que o mito do povo alegre e brejeiro não passa de renomada besteira.
 
Trata-se, afinal, tão-somente de aparência. No Brasil se sorri e se ri muito fácil. Também se abraça muito facilmente. Tudo falso, tudo farsa. O sorriso é a arma maior contra o “horror à distância” (Sérgio Buarque) que caracteriza a brutalidade e a caipirice social do bravo povo brasílico. O abraço idem. Encurtada a distância, nem se apanha nem se acanha.
O fácil sorriso dos brasileiros é uma promessa facial de uma felicidade não dificultosa, mais do que a tradução muscular de uma satisfação conquistada. E tem tanto valor quanto qualquer promessa feita com um sorriso fácil. A seriedade norueguesa é, na verdade, mais verdadeiramente alegre. Apesar do samba, dos bambas, dos bambambans e de todos os balangandãs. Ou por causa deles.

SUPER SÍNTESE BRASILIANA

 
 
Trata-se de uma fala do jornalista carioca Ricardo Boechat, no calor do momento, que é talvez a melhor e mais forte síntese espontânea feita até agora sobre o terremoto popular que está fazendo o Brasil institucional tremer. Não consegui copiar o aúdio diretamente para o blogue, então posto o link. Quem ouvir verá (não precisa copiar; basta clicar, que se abre sozinho, abrindo uma visão imediata mas clara do que se passa em Santa Cruz [o melhor está no fim, como no caso do terremoto em curso]):
 

domingo, 23 de junho de 2013

E do Brasil?

Lamento, mas vejo mais sombras que razões para respirar. Não acredito que os marxistas não façam o tiverem que fazer para manter as rédeas do poder.

É verdade que muito nas manifestações vai por dar à justiça o que é da justiça, mas também sei que isso não aplacará os mensalões. Eles não se coibirão de legislar o que tenha que ser legislado para manter o fulcral, mesmo que sacrifiquem um ou outros dos seus. No marxismo, a causa tudo justifica.

Também não me parece que nas manifestações esteja, mesmo que superficialmente presente, qualquer reivindicação no sentido da libertação da país face à presença tentacular do estado (parece-me até o contrário). Mesmo que o governo venha a mudar de mãos (nem me atrevo a perguntar quando ou para quem), os militantes entretanto entrincheirados no sistema continuarão a "revolução" de uma forma ou outra. Em Portugal, numa posição que nesta matéria me parece ser tremendamente menos grave, os militantes de esquerda obrigam qualquer governo que não veja os seus propósitos com bons olhos a tropeçar sistematicamente neles.

Como diz Reinaldo Azevedo:
E, acreditem, o Brasil avançou nesse período. Nos últimos anos, o registro mudou e a marginalidade social e a exclusão passaram a ser vistas como uma nova cultura, com valores afirmativos, de resistência. No que isso vai dar? Está aí mais uma coisa que não sei. Mas sei outras tantas. Sei, por exemplo, que isso não gera renda, não distribui renda, não resulta em ganhos coletivos, não resulta em ganhos individuais, não resulta em nada. 
 O que se passa no Brasil tem muita pinta de "primavera árabe". Oxalá me engane.

sexta-feira, 21 de junho de 2013

quinta-feira, 20 de junho de 2013

Palestra Prof. Ricardo Felicio


Palestra proferida no evento "Paisagem, cidade e mudanças climáticas: por uma discussão no ensino médio". Realizada na Faculdade de Arquitetura e Urbanismo da Universidade de São Paulo (FAU-USP).

Um "Olhos nos Olhos", do passado Abril, que julgo muito interessante


Petição pela FENPROF

Quem percebe desta coisa de petições?

Quem avança com uma para que sejam cedidas à FENPROF uma quantidade de escolas proporcional ao seu peso sindical, em pé de igualdade com as escolas públicas de propriedade privada (as tais das rendas obscenas), trabalhando com os seus associados (que se desvincularão da função pública) e recebendo de acordo com o nº de alunos que optarem pelas escolas da FENPROF?

Brasil: vai ou não vai?




- Os manifestantes organizam-se para denunciar e prender os desordeiros e assaltantes;

- Alguns desses desordeiros e assaltantes são também denunciados como PTetistas;

- A polícia agradece aos manifestantes por estas iniciativas para repor a ordem;

- Os manifestantes denunciam a tentativa de controlo do movimento por parte dos partidos;

- Os manifestantes exigem combate definitivo à corrupção e melhoria de condições de vida condizentes com um estado democrático moderno, falando do regime político brasileiro como sendo uma ditadura;

- O movimento alastra e reforça-se, com a social-comunicação sem saber já muito bem para onde se virar, não vá ter que mudar de dono.


Pode ser que me engane, porém estou convencido de que, tal como na Turquia, a coisa há-de ir. Com avanços e recuos, com mais ou menos tempo. Mas que nada voltará a ser igual.

quarta-feira, 19 de junho de 2013

"Revolta popular"

Condena a violência mas a culpa é do perfeito. Nããã ... isto não augura nada de bom (negrito meu).
O MPL (Movimento Passe Livre) disse condenar a violência, mas classificou como "revolta popular" os atos de vandalismo e saque ocorridos ontem em São Paulo.

Marcelo Hotimsky, um dos líderes do MPL, disse que os episódios registrados ontem são a prova de que "o prefeito vai ter que baixar a tarifa".

"Tudo o que aconteceu é a revolta popular. Se quiser manter a cidade em ordem, vai ter que mudar para conter esse sentimento de revolta", afirmou Hotimsky em entrevista à Folha.

Ele afirmou que não há o que comentar sobre os saques. Hotimsky afirmou que o grupo condena a violência, mas entende que o que ocorreu é fruto da revolta.

Divulgação





As elites, novas e velhas

No Blasfémias, algo que todos devem colocar na mesa de cabeceira, na mesa de trabalho e pendurado no retrovisor. Algo que todos os políticos e sindicalistas devem obrigatoriamente ler 10x antes de abrirem a boca (mesmo para arrotar, exactamente para evitarem iluminados arrotos).
Agora que se sente no ar alguma descompressão e se aproxima a saída da Troika vale a pena seguir as soluções propostas pelas velhas e novas elites. Estas soluções serão de vários tipos:

Soluções “culto da carga”: A ideia será sempre simular os sintomas de desenvolvimento imitando-os. Por exemplo, países ricos têm taxas de juro baixas, a solução para Portugal é taxas de juro baixas. Os países ricos têm elevados níveis de educação, a solução para Portugal é aumentar o número de licenciados e gastar dinheiro em educação. Os países ricos têm um número elevado de patentes, sai um subsídio para promover o registro de patentes.

Soluções “políticas”: São as soluções em que um passe de mágica político resolve um complexo problema económico. O grande exemplo desta categoria de soluções é a proposta já quase unânime entre as elites de demitir Vitor Gaspar. Mas podia ser demitir o governo, fazer um governo de salvação nacional, eleger um líder alternativo etc.

Aposta nas “apostas”: Algumas palavras chave para reconhecer más ideias: “aposta”, “prioridade”, “designio”, “cluster”, “crescimento”. Mal se sintam libertas de constrangimentos, as nossas elites vão começar a debitar mais vezes estas palavras.

Soluções “mandem dinheiro”: Eurobonds, orçamentos europeus, subsídios de desemprego europeus, juros mais baixos, perdões de dívida. Também conhecida pela solução “Pai Natal”, as nossas elites adoram dinheiro caído do céu.

Soluções “não sei fazer contas”: Tudo o que envolva resolver um problema de milhares de milhões de euros com soluções de milhares de euros. Do tipo, “temos que acabar com as mordomias dos políticos”. Outra variante é pagar o défice com dinheiro virtual, seja da economia paralela, seja dos off shores seja da Taxa Tobin.

Soluções “back to 2007″: Estas soluções envolvem recuperar o modelo de Estado e de economia pré-crise. Inclui sempre mais despesa, mais défice, mais dívida, mais obra e mais projectos sem procura.

Haverá sempre algo de comum a estas soluções: não envolverão nem trabalho, nem esforço, nem poupança.

REVOLTA CIVIL NO BRASIL. POR QUÊ? POR QUE AGORA?







O que de repente mudou no Brasil na semana passada, para que o Brasil parecesse de repente mudado? A pergunta, algo circular, reflete a dificuldade generalizada em compreender o que se passa e mesmo por que se passa, pois o Brasil é, historicamente, caracterizado por uma cidadania débil, que em momentos de exceção se manifesta para, como regra, viver mergulhada na apatia política. Trata-se, então, de mais uma exceção. Ou será o começo de uma mudança histórica?
Estou em São Paulo, e, pela TV, parece Istambul. Mas os manifestantes logo respondem a isso: “Não é a Turquia / Não é a Grécia / É o Brasil / que saiu da inércia.” Em mais uma exceção, ou como início de uma mudança histórica?
Se em Istambul o estopim foi um parque, em São Paulo foram vinte centavos de aumento na passagem do ônibus. Mas logo isso foi rapidamente ultrapassado: “Não são os centavos, são os direitos!”. E esses direitos todos sabem quais são.
Eles são, simplesmente, os direitos básicos de uma sociedade moderna, como saúde pública de qualidade, educação pública de qualidade, transporte público de qualidade, segurança pública que mereça o nome e uma administração democrática, republicana ou transparente da coisa pública. Nada disso jamais existiu no Brasil, mas o contrário, sim. Saúde pública abjeta, educação pública indigente, transporte público infame, segurança pública nenhuma, administração corrupta e autista da coisa pública.
Mas se sempre foi assim, por que agora?
A questão, então, não é de fato por que, mas por que agora.
O Brasil sempre viveu em meio ao binônio anomia (política) e apatia (pública). Quando terminou a ditadura militar, a vitória das forças democráticas lhe foi roubada. Enquanto em todos os demais países da América Latina o fim do governo militar foi o fim do governo militar, com sua substituição pelos líderes e partidos da oposição, no Brasil foi feito um arranjo pelo qual um nome palatável aos militares, Tancredo Neves, foi indicado presidente por uma “eleição indireta” dentro do Congresso controlado pelos mesmos militares. Ele morreu sem tomar posse. Assumiu seu vice, o notório José Sarney, oligarca nordestino e líder notório do partido de sustentação do regime militar... Depois houve, por fim, eleições diretas. Mas num quadro político-institucional e midiático tal que o eleito foi outro membro do partido de sustentação do regime militar, além de também oligarca nordestino, Fernando Collor.
Collor levou seu voluntarismo oligárquico de Fortaleza para Brasília, onde pretendeu governar com sua camarilha, além de tentar impô-la à grande camarilha oligárquica que tocava seus negócios habituais no Congresso. Daí nasceu seu processo de impeachment, que foi abraçado pelas massas nas ruas, num súbito surto de participação política. 
Assume então seu vice, Itamar Franco, afinal egresso da oposição ao regime militar, mas político mineiro provinciano e sem envergadura, que convoca para apoiá-lo o “príncipe da sociologia brasileira”, Fernando Henrique Cardoso, a quem designou primeiro para o ministério do exterior, depois para a economia, quando dá cabo da hiperinflação histórica e cria uma nova moeda, o real. FHC então se elege sucessor de Itamar e abre o mercado, libera o câmbio e institui as agências reguladoras dos serviços públicos, além do primeiro programa de inclusão social, o bolsa-escola. Então FHC foi substituído por Lula. E agora estamos perto da atual revolta civil.
Pois resultou que Lula e o PT eram uma farsa (uns poucos o perceberam de imediato; muitos o estão percebendo agora). Farsa porque passaram vinte anos afirmando ser a socialdemocracia brasileira, que realizaria as reformas históricas jamais realizadas (para além das reformas da conjuntura econômica de FHC), cujo adiamento adiava a entrada do país na modernidade e da população na cidadania moderna. Mas era farsa e era mentira. O PT não tinha um programa de governo, quanto mais um projeto de reformas de base. Era uma máquina de subir ao poder. Uma vez lá, não teve alternativa além de se integrar e se entregar à velha política brasileira, agora na condição de líder. 
A política econômica de FHC foi, então, basicamente mantida, com controle de inflação via juros altos. Isso gerou certa estabilidade que permitiu algum crescimento econômico, e também algum aumento de consumo, tanto pelo crescimento econômico quanto pelo aumento da oferta de crédito subsidiado quanto, afinal, pela ampliação dos mecanismos de distribuição direta de renda, com o bolsa-escola de FHC agora transformado em bolsa-família. E isso é quase tudo.
Pois tudo o mais que era grave e grande carência histórica nacional, e que só poderia ser alcançado através de grande e grave conjunto de reformas, jamais foi sequer esboçado. Nada de reforma política, fiscal, previdenciária, educacional, jurídica, policial etc. Mas muitas reformas de estádios de futebol, para a Copa do Mundo vindoura, a um custo de dezenas de bilhões de reais (ou de euros).
Ao mesmo tempo, o país via o conjunto de sua infraestrutura ser sucateada. Hoje, estradas, portos, aeroportos, ferrovias, distribuição de energia, segurança pública, escolas públicas estão aos pedaços ou estressados e à beira do colapso. Mas há incontáveis novos estádios.
Quando a galinha de Lula afinal pousou, foi a gota d´água. A galinha é o crescimento da economia no Brasil. Pois aqui se diz que a economia brasileira, historicamente, quando cresce, cresce em “voo de galinha”. Ou seja, uma rápida subida para um ainda mais rápido tombo logo à frente. Lula jurou e berrou que desta vez a galinha voaria como uma águia. Mas galinhas são galinhas. A incapacidade do Estado, apesar dos níveis suecos de arrecadação de impostos, de melhorar a infraestrutura a fim de manter o voo explica sua não-manutenção, assim como a própria incapacidade se explica pela inépcia, pela corrupção generalizada, pelos objetivos particulares das lideranças políticas, pelas políticas erráticas, pelo cacoetes ideológicos e pela necessidade de agradar aos grupos de interesse. Mas, em compensação, o governo, agora com Dilma, foi eficiente na construção de dezenas de novos e modernos estádios de futebol, naturalmente superfaturados, pois ninguém é perfeito.
Quando a galinha desceu, a inflação subiu. Com ela, subiram as passagens de ônibus. Então um grupo de estudantes saiu às ruas em São Paulo para exigir a revogação do aumento. A truculenta e militarizada polícia estadual os atacou selvagemente, ferindo muitos e detendo muitos mais. Tudo somado, de repente a população saiu às ruas em todas as cidades do país, como formigas abandonando um formigueiro inundado, em reação a tudo isso.
A atual revolta civil no Brasil, que não para de se espalhar e de se intensificar (manifestações ainda maiores foram convocadas para a próxima quinta-feira, 20/06), não tem líderes e não tem reivindicações claras. É um movimento de indignação, que significa, em primeiro lugar, o fim da ilusão lulopetista do “novo Brasil” dourado, e marca também o fim de certa resignação histórica profunda, de uma sociedade sempre mantida distante do Estado muito além da distância normal ou aceitável numa democracia moderna.
Não há nenhum líder, e sequer há muitas palavras de ordem. A mais objetiva, até agora, é “Abaixo os impostos!”. E, claro, “Não são os centavos [das passagens], são os direitos [básicos]”.
Mas, afinal, por que exatamente agora?
Porque houve um recente crescimento econômico, antes de a galinha gorda de Lula e Dilma começar a adernar perigosamente as asas. Porque esse crescimento tirou da sombra parte da grande parte dos excluídos históricos. E também lhes levou mais informação, incluindo a internet.
A revolta brasileira deve ser a mais conectada de todas as recentes revoltas mundiais. Não existe um brasileiro fora dos berçários sem celular.
Portanto, apesar de ainda galináceo e manco, o país não é mais um país perfeitamente pobre. Mas se não é mais um país pobre, por que ainda é um país de merda? Em suma, pela primeira vez na história parece que os brasileiros, menos pobres e melhor informados, não aceitam mais viver num país fedido (o Brasil tem a 6a. maior economia do mundo, e é o 85o. no IDH [índice de desenvolvimento humano]: uma defasagem de mais de mil por cento).
Ninguém sabe ou pode saber em que tudo isso vai dar. Mas em algo já deu. Quebrou o autismo da classe política brasileira, que acreditava poder governar o país como se habitado por um bando de palhaços, a quem só interessam o carnaval e o futebol. Os brasileiros estão gritando “Fora Copa!”. Além disso, fez perder a virgindade política da sociedade civil, que rompeu o hímen de sua apatia histórica ante a anomia igualmente histórica do Estado. Portanto, não há volta. Não há mais virgens.
Ainda que essa revolta sem líderes nem demandas políticas claras, e, portanto, exigíveis, acabe por perder o ímpeto, e se desfaça como uma onda na praia da indiferença política, esse mar que se comportava como um lago sabe agora ser um mar, e que pode produzir ondas quando queira. Não importa tanto, portanto, ainda que agora importe tudo, o possível ou provável fim dessa onda, mas o fato de que, no futuro imediato, outras ondas se erguerão, assim que algum vento de través soprar. E eles sempre sopram no Brasil.