segunda-feira, 10 de fevereiro de 2014

"Mais um passo para a abjecção"







Nunca pensei em ser polícia. Agora, o governo quer fazer de mim um polícia (ainda por cima à paisana) e também um denunciante.
O processo não é complicado. Quem pedir sempre a factura a quem lhe vende um café, um bife ou um casaco, chega ao fim do ano com um molho de bilhetes de lotaria para o sorteio de um carro “topo de gama”, que o governo oferece ao “bom cidadão”. Isto permite ao ministério das Finanças comparar o volume de negócios declarado de qualquer restaurante ou de qualquer loja com a documentação que lhe entregou a classe média à procura de um Audi ou de um Mercedes, que a faça brilhar na vizinhança e espicace a sempre viva inveja da família e amigos. Para animar as coisas, que, segundo consta, não andam bem, o Estado obriga toda a gente a pedir factura.
Como se compreenderá, o Estado transforma assim com habilidade e subtileza os portugueses numa corporação de espionagem encarregada de se espiar a si mesma, sem gastar mais do que um carro apreendido a um criminoso ou contrabandista. Vivendo perto da falência, o comércio e a restauração tendem a subtrair uma factura ou outra à tosquia fiscal a que estão submetidos. Esta prática irrita os peritos que aconselharam ao sr. primeiro-ministro este método democrático. A Espanha acha o estratagema “pitoresco”. Por mim, que não sou a Espanha, acho a ideia tenebrosa: vexatória, indigna, irresponsável, excessivamente parecida com episódios conhecidos da Ditadura e dos regimes que ela imitava e venerava. E, no fim do ano, gostava de ver a cara do meu compatriota que ganhou esse glorioso concurso.

Estou daqui a imaginar a cena. O indivíduo gordo e triunfante que atrapalhou a vida a centenas de pessoas, que tinham cometido o erro de confiar nele. O sr. Passos Coelho, seguido da sua trupe e da sua inconsciência. O automóvel cintilando ao longe. O premiado começará por apertar a mão a S. Exa. com uma grande vénia. E, a seguir, S. Exa. retribuirá com um pequeno discurso sobre as vantagens da coesão social, do enorme esforço que se espera do conjunto da Pátria e dos milhões que a operação angariou para os pobrezinhos, que ele particularmente estima. Um secretário entregará a chave do carro ao polícia e denunciante do ano e essa virtuosa personagem tornará a apertar com respeito a mão do sr. Passos. A sociedade portuguesa avançou um novo passo para a abjecção.

Da justa luta para poder guiar os contribuintes...


(imagem obtida aqui)

... perdão!, o proletariado - ou "Tem pai que é invisual".

sábado, 8 de fevereiro de 2014

Passagens de nível e Iniciações




 Introdução

…E eis senão quando, a pouco e pouco e ao ritmo dos relatos paulatina e sabiamente doseados pelos “órgãos de comunicação” (capitaneados pelos tabloides), o país que ainda lê e que muito vê televisão e lateralmente ouve a rádio, acordou para um epifenómeno que se habituara a simplesmente relancear ou, quando muito, a contemplar em diagonal: a brutalidade ou o desaforo das chamadas “praxes” académicas.

Brutalidade e desaforo esses, exercidos não em todos os lugares, não em todos os “estabelecimentos de ensino” (como reza a novilíngua do luso neo-liberalismo primário e queirosiano por essência), é claro. Mas encrespados em todos eles, seja numa versão soft e controlada pelo provincianismo e a timidez dos “jovens”(como se tornou clássico dizer nos textos governativos ou nos relatórios policiesco-judiciais) com a complacência mais ou menos paternalista (oportunista?) das direcções, seja num tom mais marcado embora sem atingir, como parece ter sido o caso do Meco, proporções criminais e absurdamente envoltas em negrume.

As ditas praxes académicas constituem, encaradas apropriadamente, um meio-termo específico entre a “iniciação” e a “passagem de nível” e são um epifenómeno circunstancial nas sociedades de sedimentação ocidentalizada, de conformação mais ou menos democratizante (ou partidocratizante, como é o caso da nossa sociedade onde vigora o denominado tecnicamente cripto-fascismo - ou ur-fascismo ou, ainda, fascismo doce – serve dizer, aquele onde a população não é constrangida pela repressão mas mediante manipulação por meios específicos naturais e consentidos) de tendência cleptocrata e judicialmente desqualificada a nível ético.

São, digamo-lo com adequação e lucidez, um verdadeiro ersatz daqueles dois fenómenos aludidos, pois não visam uma qualificação  (como entre os artesãos medievais, que tinham de efectuar determinadas práticas e trabalhos até se verem aceites nas corporações respectivas) ou uma iluminação, assim dita (tal como se pratica nas maçonarias ou irmandades herméticas diversas).

Mas que tipo de integração visam atingir? Que tipo de conformidade fundacional essa “integração” procura, se é que procuram alguma?

Veremos isso a seguir, mas primeiro detenhamo-nos um pouco sobre o tipo de iniciações e passagens de nível entre determinadas etnias – onde aqueles dois fenómenos tinham foros de necessidade civilizacional ou grupal pois buscavam uma subida de estatuto prático e operativo e constituem exemplos acabados e profundamente colectivos: os índios norte-americanos, os africanos da região centro-sul e os esquimós.




Pequeno enfoque histórico

Nas sociedades vivendo conceptualmente no neolítico, ainda que inscritas no tempo moderno ou contemporâneo, como era o caso das tribos de índios norte-americanos, dos esquimós, dos pigmeus do Congo e dos masai do Grande Rift, para nos referirmos apenas a estas etnias, as passagens de nível bem como as iniciações correspondiam e eram efectivadas visando uma qualificação prática de subsistência ou de sociabilidade encarada dum ponto de vista lato. Assim, entre os índios, cumpriam-se ritos de passagem tais como suportar a dor pendurados por ganchos de madeira presos na pele do peito (entre os Lakotas e os Pawnees), irem para o campo – bosques, pradarias, montanhas, desertos – só com uma tanga e apenas com um “tomahawk”(machado) ou uma faca e sem comida, devendo voltar passados dias sãos e salvos (Cheyennes, Kiowas…) ou, ainda, isolarem-se numa serra, monte, rio, sem comer ou dormir até terem uma visão iluminadora à qual seguidamente ficariam ligados por esta passar a ser o seu totem ou definição. Noutras tribos (hopi, apaches, navajos) tinham de se submeter por vezes a ritos que incluíam o uso do peyotl ou da mescalina, em circunstâncias específicas, para poderem ascender ao estatuto de guerreiros; ou de roubar cavalos, sem portarem armas, a tribos adversárias ou inimigas ou aos “white eyes” (brancos)  - e não “rostos-pálidos”, invenção holiúdesca.

Todas estas passagens de nível/iniciações se envolviam numa razoabilidade compreensível e actuante: ter fibra de guerreiro ou de caçador capaz, de saber tomar conta dum agregado tribal e de estar nuclearmente inserido na boa condução dos assuntos ou ritmos do respectivo grupo ou etnia.

Assim era entre os bosquímanos do Calaári, os inuit/esquimós ou entre os masai e os pigmeus da África central, como já se referiu, que efectuam passagens de nível para serem caçadores e pastores experientes ou, como nas caçadas às grandes feras, poderem proteger quando necessário o conjunto da comunidade.

E nas chamadas confrarias ocidentais, maçonarias ou carbonárias, ou outras irmandades (rosas-cruz, “agricultores celestes” ou “irmãos do orvalho”) o procedimento é semelhante, tendo apenas graus de selectividade que lhe são próprios.

O que se visa é uma adequação peremptória ou uma iluminação funcional.

Actuação bem diferente é a existente nas denominadas, grosso-modo, mafias ou seitas criminais, sejam elas laicas ou fideístas: a passagem de nível decorrente do estatuto criminal próprio e intrínseco, acentuo e sublinho, tem sempre um cariz ora obnóxio ora retintamente perverso e criminal senão criminoso: entre, por exemplo, os traficantes mexicanos/sul americanos, a obrigatoriedade de eliminar uma ou mais pessoas para ascender ao grau de “soldado” (conforme a terminologia da Mob norte-americana ou italiana…) ou efectivar outros sinistros actos que não só “iniciam” como jungem o oficiante a uma eventual pressão ulterior. É o mesmo procedimento feito noutras associações criminosas como, por exemplo, a dos yakuza nipónicos.

Como explicar, entretanto, o ordálio das praxes académicas ou militares (pois também acontecem entre nós e noutros locais)? Uma vez que não visam adequação para ascensão de mérito ou crescimento específico (ou seja, um estudante de física por ser praxado não se torna melhor cientista, um de matemática não passa a entender melhor a teoria de Einstein ou a do “conjunto de grupos” de Evariste Galois…).

Para que servem ou, ainda mais esclarecedoramente, o que visam os ritos praxistas como os do nefando Meco?


João Garção, Colagem


Do Meco e outras malas-artes

Segundo é dito por membros praxistas ou observadores tendenciais como alguns especialistas em “sacudir a água do capote” ou partidários das “expectativas de milagre”, as praxes dest’arte visam integrar(?) o novo aluno (vulgarmente denominado caloiro pelos trintanários). Mas integrar como e onde ou em que partis pris regimental? Uma vez que o aluno, enquanto aluno, está já integrado e mesmo submetido às disposições em código, legal ou consuetudinário, que regulamentam o estatuto do discente?

Se analisarmos as premissas com uma liminar penetração ou suficiente informação e perspicácia, dando com bonomia de barato que as praxes são sucessos/actos decorrentes de uma tradição, vazando-as desta forma num território de festejo ou de emanação lúdica, meio-goliarda meio-turística propiciada, mantida e acatitada por mancebos e mancebas ad corda, nada haveria a antepor. Tratar-se-ia duma mensagem, duma comunicação pró-imergível numa alegria de viver característica de grupos etários, de gente à entrada dos posteriores e sérios assuntos adultos.

No entanto, o caso aqui fia mais fino. A talhe de foice trazemos à colação, respigada com vénia dum escrito a nós dirigido por uma profunda conhecedora de certas classes de hermetismos, a grã-senhora carbonária Maria Estela Guedes, uma indicação esclarecedora.

E o que ela nos diz é que, e cito, é que “Afinal a última Carbonária Portuguesa, a mais importante, fundou-a Luz de Almeida com estudantes da Maçonaria Académica. Praxes e iniciações maçónicas estão interligadas”. Sem dúvida.

Então, assim sendo e chamando a atenção para certas passagens do seu lúcido texto publicado no TriploV, a explicação que enquadra e faz luz sobre o porquê das “narrativas brutalizadoras” (como agora se diz na senda dum conhecido uomo publici …) uma vez que as irmandades são de jure ou de facto “gente de bem”, opostas pois a turiferárias, terá de ser procurada noutro plano. E qual? Precisamente no plano do societário e, dentro deste, dentro do que se sabe ou convencionou ser o imaginário português, um imaginário dominado (mais grave – determinado!) por um tipo de continente social e colectivo de índole não democrática, onde faz lei o compadrio, os sentidos de casta e de família (como se dizia em Espanha, de cunhadismo), de classe e de privilégio, no limite de corrupção moral, ética e conceptual e da exacção cleptocrata.

As praxes de que nos ocupamos, no seu sentido mais exacto, visam pois adequar o praxado, depois praxante quase sempre, a adquirir o sentido da humilhação e da prepotência, signo maior da tardo-sociedade lusa onde os proverbiais “doutores e engenheiros” - que serão os presuntivos futuros governantes ou “assessorantes” – em todo o caso a casta que tem dominado de forma geralmente espúria a intendência e o armazém luso de há dois séculos a esta parte, verdadeiros vagomestres que em grande parte se certificam na sociedade de que decorrem.

(É esta, ainda, a formulação que explica ou descripta o esforço quase heróico de certos mandantes partidários que, a todo o custo, tentam a colação de grau engenheiral ou doutoral sem esforço ou suor mensuráveis…)

É esta pois a integração a que, (ora com inadequação ora com cinismo), certa gente bem determinada onde até avultam governantes mais ou menos nauseabundos – para usar esta expressão grata a Tomás de Figueiredo – alude  com não despicienda maneira de ser onde se nota o desplante.

Daqui se infere que é lançar poeira nos olhos do vulgo pecus, ainda que o façam apenas por tolice e não por maldade, vir ejacular-se a ideia de que uma legislação repressiva podia melhorar o tema…a questão. Não! As praxes existem desta forma nefanda porque à sociedade portuguesa, melhor, aos mandantes grupais portugueses interessa instilar nos mansos cérebros juvenis – e por osmose em todos os outros – que há o dono (que foi submetido a sofrimentos que lhe caucionam o instalado bem-estar académico ou outro) e há o futrica, sendo o povo, todo o povo que não recebe prebendas nem benesses, futrica potencial ou de facto.

A praxização em estilo meco, usemos este neologismo irónico-magoado, é verdadeiramente a antecâmara do sentimento-acto de domínio sobre este povo macerado, desprezado pelos diversos condottieris que num outro plano privilegiam os interesses dos argentários enquanto esmifram o zé-povinho até às fezes.

Os estilos e as acções estilo Meco terminarão quando não houver espaço para bosses autoritários ou conceptualmente cavernícolas, quando em suma vigorar na sociedade lusa academizada ou geral, capturada de há décadas a esta parte pela apagada e vil tristeza em que sobrevivemos, uma real, digna e limpa democracia – não um arremedo de carnaval seja nas ruas ou nas academias do reino… destes barões “republicanos”.

quarta-feira, 5 de fevereiro de 2014

MIRÓ, GRAVURAS E "COLTURA"

A propósito do Miró, o meu amigo Francisco Coelho referiu o caso de Foz Côa.
É uma excelente referência.
Na altura, com os cofres cheios do dinheiro cavaquista, Guterres, devidamente tocado à vara pela malta da "coltura" (a malta que pretende que os restantes cidadãos paguem, mesmo que não queiram, as mediocridades que produzem ou gostam), largou uma quantia pornográfica do nosso dinheiro para suspender uma barragem já em construção, porque "as gravuras não sabem nadar".
Ui, as gravuras, ia ser um ror de gente a desaguar ali, resmas de turistas iam transformar o vale do Coa numa Rupestrelândia, e não sei quê. Amanhãs cantariam, as gravuras iam ancorar o desenvolvimento da região, tudo para todos, todos ganham, todos têm prémio, como promete a Alice no seu país das maravilhas.
Calhei na altura ir lá ver as famosas gravuras e o melhor que posso dizer é que só as vi porque um dos arqueólogos que lá andavam, apontava para as pedras e explicava que aquelas sombras e entalhes eram as famosas gravuras. Contornava aquilo com os dedos e a gente via coisas, mais ou menos como o Maduro, da Venezuela, vê o Chavez nos entalhes dos túneis do metro.
E pensei para mim mesmo que só nos sonhos húmidos destes malucos é que aquilo atrairia turistas a sério.
A realidade está ai para provar este ponto.
Enfim, pagou-se principescamente para destruir uma barragem, pagou-se majestosamente para institucionalizar as gravuras e o resultado está à vista: só alguns nerds da arqueologia sairam a ganhar. Os mesmos da "coltura" que berram pelo dinheiro dos contribuintes mas que não metem o dinheiro deles no negócio. Se todos aqueles que berraram desalmadamente pelas gravuras tivessem pagado para as irem ver, se calhar até o prejuizo teria sido mínimo.
O mesmo com o Miró. Se os da "coltura" estão tão empenhados, porque não compram eles as pinturas e instalam um museu?

terça-feira, 10 de dezembro de 2013

Da estrutura da fome




Poderia ser um título comum a estas três crónicas de Alberto Gonçalves:


A fome e a vontade de comer


O universo dos blogues recuperou um extraordinário texto do ordinário (no sentido não pejorativo do termo) Paulo Pedroso, antigo ministro da Solidariedade. O texto, velho de um ano na prática e de décadas na teoria, é um excelente exemplo dos argumentos por detrás do ódio ao Banco Alimentar (BA) em geral e à sua presidente, Isabel Jonet, em particular.

A tese, se tamanha infantilidade merece o nome, é a de que o BA não passa de um sistema de escoamento dos excedentes dos supermercados, o qual alivia "as consciências sem resolver nenhum problema estrutural". Através de evidências, meias-verdades e cabeludas mentiras (os que doam os serviços ao BA não se reduzem a "escuteiros e toda a rede de voluntários ligada à Igreja Católica"), só falta ao dr. Pedroso reproduzir a linda rábula do peixe, da cana e do pescador para concluir, cito, que prefere dedicar a sua "energia" a "perguntar-se" o que pode "fazer para que diminua este tipo de procura de bens alimentares enquanto a senhora Jonet escoa a oferta".

Talvez seja altura de questionar o dr. Pedroso sobre se a energia que dedica e as perguntas que se faz já deram frutos e respostas. Aposto que não deram: pensar "estruturalmente" a pobreza é tarefa de uma vida e, à semelhança de matutar acerca do destino desta, não leva a lado nenhum. Ou leva a cargos em governos, universidades, fundações, observatórios e empresas "públicas" empenhadas em não suprir as necessidades de nenhum desgraçado até que se possa satisfazer todos os desgraçados da Terra em simultâneo. A "caridade" que tanto repugna o dr. Pedroso compõe a barriga de mil, dez mil ou cem mil famintos, mas isso de nada serve quando não se resolve os problemas que tornam a fome possível, ainda que o processo demore séculos. E se, no entretanto, o pessoal continua à míngua, trata-se de um pormenor que não afecta a cósmica generosidade do dr. Pedroso, corajosamente indiferente a casos individuais e apenas interessado no "conceito". Em tempos, os ricos tinham, e alimentavam, o "seu" pobrezinho. Gente como o dr. Pedroso chama a si os pobrezinhos em peso - desde que não precise de alimentar nenhum.

Não acredito na bondade "pura". Não me custa aceitar que Isabel Jonet também se mova por ambições íntimas, incluindo desejos de notoriedade ou outros. A questão é que, no processo, há pessoas que infelizmente precisam do trabalho da senhora e dele aproveitam. Em contrapartida, abro uma excepção para o dr. Pedroso e similares, que possivelmente são guiados pelas melhores intenções e pelo mais cristalino altruísmo sem que daí resulte qualquer benefício para alguém - excepto, vejam lá a ironia, os benfeitores.

Agora a sério, mesmo que o dr. Pedroso dificulte a tarefa: não me esqueci do autor da maior acção de caridade da história do regime. Falo, evidentemente, do "rendimento mínimo", proeza de propaganda que incluía a "superficialidade" inconsequente que o dr. Pedro critica no Banco Alimentar sem incluir o voluntariado que, em prol da coerência, o dr. Pedroso continua a detestar: no RSI (eufemismo actual), os donativos são arrancados à força.


O reino dos céus


Perante as críticas do Papa Francisco ao capitalismo e aos "mercados", as pessoas que gostam do Vaticano recordam que isso não é mais do que a costumeira doutrina social da Igreja. As pessoas que abominam o Vaticano acham que a retórica é novidade e não só vai arrasar o capitalismo e os "mercados" como, se a coisa correr pelo melhor, arrasará a Igreja. Eu, neutro na matéria, prefiro notar que, apesar do aparente embaraço de uns e do evidente entusiasmo dos outros, o próprio Papa talvez fizesse melhor em começar por comentar o desemprego, a pobreza e a fome nos felizardos países sem inclinações capitalistas e nos quais os mercados se limitam aos lugares onde o povo compra, quando consegue comprar, hortaliças e galinhas. Se a devoção materialista tem muitos defeitos, uma virtude ninguém lhe nega: não se confunde com nenhuma das maravilhosas alternativas disponíveis.


Um caso



O Governo prepara o agravamento do IRC para as empresas com lucros superiores a 50 milhões. O PS defendia a subida da taxa para 7%, o Governo ficou-se pelos 6%, mesmo assim prova suficiente de que, entre nós, o crescimento económico é severamente castigado por lei. As empresas exemplares, dignas de comendas e carinhos fiscais, são as muito pequeninas ou as muito inviáveis. O resto, que felizmente já é pouco, é corrido a toque de impostos, às vezes literalmente e para lá da fronteira. Dado que nos contribuintes particulares a dimensão do saque é ainda maior, a mensagem de quem manda é claríssima: não prosperem. O "neoliberalismo" de sabor português é de facto um caso, não sei se de estudo se de polícia.

quinta-feira, 5 de dezembro de 2013

Burros e sindicalistas (ou vice-versa)





Eis do que se fala em duas crónicas de Alberto Gonçalves:



E o burro somos nós


Já quase toda a gente foi informada de que a edição europeia do New York Times cedeu boa parte da primeira página ao burro mirandês, um animal doce cuja preservação depende de subsídios e que o autor do artigo usou como metáfora para a situação portuguesa, ou pelo menos do interior português. Em vez de nos resignarmos à galhofa e a outras, e evidentes, metáforas, convinha ler o artigo com atenção e notar as palavras de Orlando Vaqueiro, ex-presidente da Junta de Freguesia de Ifanes (160 habitantes), que declarou ao NYT: "Os subsídios são necessários para manter os burros, mas sucede que todos se tornam completamente dependentes deles, logo não existe espírito de inovação nem vontade de modernizar ou produzir mais." Aqui, já nada é metafórico, mas a pura verdade, e é curioso que tenha sido um político a resumi-la. É natural tratar-se um político obscuríssimo e sem sombra de carreira. Para os hábitos caseiros e as vulgares perspectivas de ascensão, o homem é (preencham o resto com o nome de um animal da vossa, ou nossa, predilecção).


Humilhados e ofendidos

(imagem recolhida aqui)

Na falta de um povo que execute arruaças por eles, os próprios sindicalistas resolveram entreter o ócio e passar um dia a forçar a entrada em ministérios. Na falta de um Governo com vestígios de coragem, os sindicalistas não foram recebidos por uma ordem de detenção, conforme seria razoável, mas pelos governantes ou seus representantes, cheios de compreensão e agendas para marcar reuniões com os arruaceiros. Percebo a ideia. Se meia dúzia de larápios me invadirem a casa, a minha reacção natural é aprazar uma almoçarada com os ditos. E se, numa perspectiva diferente, o chefe da repartição de Finanças não me desempatar uma chatice qualquer com a brevidade desejada, furo-lhe dois pneus do carro e tudo terminará entre abraços. Ou não?

Se calhar, não. Num país em que as desigualdades são pasto da demagogia mas raramente preocupam mesmo alguém, é possível que o cidadão comum contemple este espectáculo e sinta que alguma coisa lhe escapa. Porque é que alguns são livres de violar a lei e outros não? Porque é que alguns são julgados instantaneamente após dirigirem uns remoques ao Presidente da República e outros incitam à violência popular sem que lhes aconteça nada? Porque é alguns vêem a vida a andar para trás a pretexto de uma mísera prestação à Segurança Social e outros vêem dívidas de 17 milhões "assumidas" pelos contribuintes em peso? Porque é que eu, você e o meu vizinho do lado devemos obediência à autoridade e um conhecido treinador da bola consegue tratar a autoridade ao tabefe sem consequências dignas do nome? Porque é que delinquentes sem posto são impedidos de trepar a escadaria do Parlamento e centenas de polícias em fúria não? Porque é que deputados recorrem à nostalgia revolucionária para montar "piquetes" e aos benefícios do cargo para evitar represálias?

A impunidade de que tanto se fala e que tanto se condena não se esgota no estereótipo do banqueiro anafado, de preferência com cartola e monóculo. Há imensos privilégios à solta, e cada um implica a humilhação dos que não os gozam. E um gozo a cada menção do lendário Estado de direito.

quarta-feira, 4 de dezembro de 2013

E viva o "combate" ao desemprego

Esta ideia genial do marxista Maduro de criar um ministério para aprovação dos preços e da margem de lucro de todos os produtos e de todos os comerciantes venezuelanos é "genial". Vai certamente ser uma forte medida de combate ao desemprego. Para desempenhar tal tarefa é provável que 50 milhões de funcionários públicos seja suficiente.

... nem quero imaginar o grau de corrupção que se vai instalar.

terça-feira, 3 de dezembro de 2013

E muito bem ...

... por Helena Matos.

Decálogo do português mediático

1. A Igreja é boa se for progressista. O Tribunal Constitucional é bom se for progressista. O Papa é bom se for progressista. Cavaco Silva nunca é progressista mas às vezes tem umas intermitências em que apoia os progressistas e nesses fugazes momentos deixa de ser "Cavaco" para ser senhor Presidente da República. Mas só nesses!

2. A ‘troika' até às eleições de 2011 era boa porque ia ajudar o País a entrar numa nova etapa de desenvolvimento que graças a um choque reformista colocaria Portugal na primeira linha das nações mais avançadas.

3. A ‘troika' a partir das eleições de 2011 é má porque nos impõe uma austeridade que impede o desenvolvimento económico e social que o País aliás registava até à sua chegada. Assim o fim da intervenção da ‘troika' em Portugal deve ser referido como libertação e todo o progressista acredita que após esse dia o Estado português não só pode como deve voltar a gastar como fez até 2011.


4. No passado as reformas não foram feitas porque os líderes políticos preferiram ganhar votos a salvar o País e o Estado social. No presente as reformas não podem ser feitas porque são feitas à bruta, com cortes cegos e sem tempo de adaptação. No futuro já não vamos a tempo de fazer as reformas porque no passado - que por sinal é o nosso presente - não houve homens que tivessem coragem de as fazer. Em resumo, o presente nunca é o tempo certo para fazer reformas (ou o que quer que seja) mas quando o presente se torna passado é óbvio que as reformas deviam ter sido feitas. Se houvesse homens, claro! (Confesso que esta conversa sobre a falta de homens me parece um pouco reacionária para não dizer mais!)

5. Quem pensa como os progressistas são pessoas muito inteligentes, muito amigas dos pobres e naturalmente com certificado de anti-fascismo e de lídimos defensores do Estado Social. Em certos graus de progressismo até se chega ao estatuto de pai da Constituição, do Estado Social ou da democracia. Quem não concorda com os progressistas são pessoas atrasadas, reacionárias e analfabetas porque mesmo que saibam ler não retiram a devida mensagem do que lêem e naturalmente são estéreis em matéria de paternidades honoris causa.


6. A desigualdade é um espinho cravado no coração dos progressistas. Se formos todos igualmente pobres não há problema algum. Mas haver pobres e ricos isso é uma afronta. Para alguns progressistas mais progressistas a pobreza resolve-se confiscando os bens dos ricos que uma vez espoliados ficavam igualmente pobres (ou, mais provavelmente ainda, iam ser ricos para outro lado). Outros progressistas mais pragmáticos propõem um regime alternado: às segundas, quartas e sextas diz-se mal dos ricos, às terças, quintas e sábados exige-se-lhes que invistam no País para criarem emprego. Aos domingos descansam, que o progressismo agora anda beato.


7.Todos os dias o progressista tem de falar de fome, acompanhando a palavra "fome" de uma espécie de movimento dos músculos faciais como se estivesse a pronunciar a palavra Guantanamo nos tempos de Bush (fazer esgar). Depois veio Obama, o homem que ia fechar Guantanamo (pausa para fazer ar sofredor) que por acaso não fechou mas isso não interessa nada. Até à eleição de um presidente republicano, claro.


8. Se o povo não faz aquilo que os progressistas mandam tal deve-se ao facto de o povo estar cheio de fome e já não conseguir mover-se ou de estar aterrorizado e não vir para a rua por medo. Mas nunca, jamais, em tempo algum por discordar dos progressistas, pois a essência do progressismo radica na transmigração das almas: a alma do povo comunica com as mentes progressistas (e apenas com estas) e diz-lhes o que quer, sente e deseja. Quanto às outras almas, a sua natureza não progressista condena-as à partida ao inferno da bruteza, embora algumas consigam redimir-se, particularmente se tiverem sido salazaristas pois nesse caso basta-lhes repetir o que na década de 50 do século passado diziam sobre os partidos e ficam automaticamente progressistas.


9. Estão momentaneamente autorizados a celebração do 1º de Dezembro e o uso da expressão protectorado que noutros tempos seriam coisa de gente muito reacionária mas agora ficam assim a meio caminho entre a direita pita shoarma e a esquerda patriótica que trocou o caviar pelo pão com chouriço.


10. Discordar dos princípios atrás enunciados é sinal inequívoco de anti-progressismo, atitude que em Portugal equivale a pecado mediaticamente mortal. Amen.

quinta-feira, 28 de novembro de 2013

Dos iluminados encandeados






Só mais esta de Alberto Gonçalves:


A fava

Enquanto a polícia procurava o psicopata que andou aos tiros por Paris (e pelo jornal de esquerda Libération), inúmeros jornalistas preparavam os teclados para uma história-tipo do solitário de extrema-direita que abomina imigrantes em geral e árabes em particular, além de manter conversas no Facebook com organizações protonazis. Acrescentavam-se dois parágrafos acerca do perigo dos nacionalismos e o artigo estaria pronto. Azar. Saiu-lhes Abdelhakim Dekhar, com um interessante dinamismo em grupos de extrema-esquerda e participação em acções de "okupas", aliás já envolvido em diversos homicídios nos anos 1990. Para cúmulo, é árabe. E, surpresa das surpresas, muçulmano. Não se faz.

Alguém duvida de que isto seja inaceitável e escandaloso?




Alguém duvida de que isto seja inaceitável e escandaloso para os pedagogos "igualitários" que sufocam o ensino em Portugal desde os tempos de Roberto Carneiro?

Dois a dizerem o óbvio





Por um lado, Helena Cristina Coelho:



A má memória de Soares

"O principal para que o Governo tenha êxito é saber persistir. Ter a coragem de não mudar de rumo, independentemente dos acidentes de percurso. Recomeçar, pacientemente, quantas vezes forem necessárias. Tomar decisões. Não se deixar perturbar por agressões verbais, por incompreensões ou por injustiças. Aguentar de pé. Para os homens de convicção e de recta consciência, o que conta é sempre - e só - o futuro". O texto foi-me recordado por uma amiga de boa memória, que se lembra de quem o escreveu há 29 anos. 

E foi igualmente repescado por outras figuras, como José Manuel Fernandes, que o replicaram para recordar as palavras e, sobretudo, o seu autor: Mário Soares, em Maio de 1984, quando era primeiro-ministro. O país não estava como agora, estava bem pior. Havia empresas a fechar portas e os salários em atraso tornaram-se uma chaga social, havia bolsas de fome e protestos irados nas ruas, os preços dispararam, a moeda desvalorizou, o crédito acabou.E o que fez o governo de bloco central? Acabou a estender a mão para assinar um memorando de entendimento e receber dinheiro do FMI. Foi então o tempo de ouvir pequenas pérolas de austeridade como a de que "Portugal habituara-se a viver, demasiado tempo, acima dos seus meios e recursos" ou que "a única coisa a fazer é apertar o cinto" ou ainda que "não se fazem omoletas sem ovos, evidentemente teremos de partir alguns". O autor? Acertou: Mário Soares.

Não há notícia de que alguém na altura tenha partido as pernas ao primeiro-ministro como represália por estas declarações ou pela dureza das medidas - nem mesmo quando teve de enfrentar manifestantes violentos na Marinha Grande, na campanha de 1986. Aliás, foi premiado por essa valentia e acabou por ganhar as eleições.

A política não tem a virtude (nem sequer a presunção) de ser coerente. E, se faltarem provas, Mário Soares está a encarregar-se disso. Aquilo que usou como sua defesa enquanto governante, é exactamente aquilo que hoje ataca sem pudor. Não pode ser apenas um problema de memória e a idade não pode ser desculpa para algo que não é só irresponsável:é inflamável. Com o país ainda de garrote apertado, polícias a escalaram o Parlamento para darem sinais do que são capazes, sindicalistas a invadirem ministérios para expressar indignação, uma simples palavra pode ser incendiária e deitar tudo a perder.

Independentemente de se gostar ou não da figura ou do seu passado, Mário Soares teve um papel relevante na história do país. Só por isso, e porque pelos vistos continua a reclamar a paternidade da democracia (que ninguém quer aniquilar) e de uma ideologia de esquerda (com óbvias crises de identidade), devia ser o primeiro a preservá-la. Mas não é isso que está a acontecer: ao atacar o presente (leia-se, quem hoje governa o país) de uma forma tão agressiva e estéril, Soares está a destruir um passado que passou por si e a hipotecar um futuro que devia ajudar a construir. E um país sem memória não pode ter grande futuro. Soares devia ser o primeiro a lembrar-se disso.

Por outro, Alberto Gonçalves:


Cabeças perdidas

Manuel Alegre (poeta). Vítor Ramalho (soarista). Carlos do Carmo (fadista). Boaventura Sousa Santos (latinista). Vasco Lourenço (abrilista). Marisa Matias (bloquista). Ruben de Carvalho (comunista). Pedro Silva Pereira (socrático). Jorge Sampaio (sampaísta). António Capucho e Pacheco Pereira (embaixadores do "centro-direita"). Pinto Ramalho (general). Helena Roseta. Maria de Belém. Carlos Zorrinho. Alberto Martins. Ferro Rodrigues. Jorge Lacão. João Semedo. António Costa. Manuel Tiago. Domingos Abrantes. Almeida Santos.

Estas são algumas das personalidades que, através de mensagem de apoio ou presença corpórea, disseram "sim" à convocatória de Mário Soares e iluminaram a Aula Magna a fim de alegadamente defender a Constituição e o Estado "social". Na verdade, o exercício versou mais o ataque ao Governo e ao presidente da República, a quem se exige imediata demissão a bem ou posterior remoção a mal. As sugestões de violência, os apelos à violência e as ameaças de violências foram tantos e tão explícitos que apenas a transmissão televisiva do evento nos lembrou não se tratar de uma reunião da Carbonária a conspirar o regicídio. O Dr. Soares "aconselhou" os governantes (e Cavaco) a regressar a casa pelos próprios pés enquanto podem. Vasco Lourenço incitou que os corressem, cito, "à paulada". Helena Roseta defendeu que "a violência é legítima para pôr cobro à violência". E, visto que as camisas de força nunca chegaram, um longo etc.

Talvez não valha a pena notar que, em 2013, a "família real" em causa foi eleita pela maioria dos cidadãos. Vale a pena notar que ninguém elegeu os revolucionários em questão. Sobretudo ninguém lhes passou procuração. Os amiguinhos do Dr. Soares falam em nome de um "povo" que, abençoadamente, não existe. O "povo" que existe pode não gostar do Governo e lamentar o Prof. Cavaco, mas boa parte da população é capaz de abominar com maior empenho o bando de privilegiados da Aula Magna, que no entender de muitos devia estar na cadeia pelo que outrora fez ao país ou pelas desmioladas soluções que agora propõe.

Sou avesso a excessos. É claro que umas centenas de malucos fechados numa sala (de que infelizmente não se perdeu a chave) não definem o espírito do tempo. O que o define é a importância que se dá à coisa. Assim de repente, os augúrios não são simpáticos: sem discernível ironia, os media dedicaram ao encontro a seriedade que se dispensaria a um encontro de gente séria, e quando se vê comentadores solenes interpretarem as palavras do Dr. Soares como interpretariam as de alguém digno de atenção, é lícito constatar que a democracia não atravessa um período radioso. Não discuto que o Governo não seja um paradigma de incompetência. Digo que enquanto a alternativa reconhecida implicar múltiplas exibições de demência, aliás em nítido desrespeito pelo Código Penal, isto não vai longe.

De resto, não imagino se o "povo" um dia pegará em armas e varrerá a tiro ou à paulada os poderosos. Porém, tenho a certeza de que o "povo" não berra a uma só voz e sem dúvida não pensa pelos cerebelos do Dr. Soares e respectivo séquito de parasitas: o trágico caos que se seguiria à hipotética sublevação varreria também a estirpe de poderosos que inflama as massas por diletantismo ou preservação de regalias. Os Robespierres de trazer por casa já perderam a cabeça no sentido figurado. Vê-los perdê-la no sentido literal seria, para os menos piedosos, o único alívio cómico do caos.

Do Estado com carácter...



... e do jornalismo da ignorância e do veneno.

sábado, 23 de novembro de 2013

Nada de novo?




Disse assim Alberto Gonçalves:


O socialismo que não ousa dizer o seu nome

O socialismo tem imensas faces. Na Venezuela, por exemplo, persegue os comerciantes que vendem produtos acima dos preços que os senhores no poder consideram aceitáveis (esta semana, o Imperador Maduro incitou os clientes a invadirem as lojas a fim de obter o "reembolso"). Em Portugal, multa os comerciantes que vendem produtos abaixo dos preços que os senhores no poder consideram aceitáveis (há tempos, a ministra da Agricultura e da UDP em exercício assim procedeu).

A vantagem venezuelana é a sinceridade. Lá, o socialismo, às vezes chamado de "revolução bolivariana", orgulha-se de o ser e é reconhecido como tal. Aqui é envergonhado e passa inexplicavelmente por "neoliberalismo". Dito de outra maneira, o nosso querido Governo disfarça as verdadeiras convicções sob retórica de sinal contrário. É por isso que quando, há dias, o ministro da Economia defendeu a obrigatoriedade de uma disciplina escolar dedicada ao "empreendedorismo", a primeira coisa que apetece é recomendar ao Dr. Pires de Lima e respectivos colegas que a frequentem.

À semelhança de tantos crimes passionais, o amor do Governo pela iniciativa privada é de uma intensidade que termina invariavelmente com o homicídio desta a golpes de faca. Ou de lei: quase em simultâneo às arrebatadas declarações do Dr. Pires de Lima, um secretário de Estado adjunto do ministro da Saúde anunciou, muito contentinho, que para o ano será proibido fumar em todos, todos, todos os espaços "públicos", conceito que no peculiar "neoliberalismo" indígena inclui os espaços particulares dos restaurantes, bares e discotecas.

Prometo não voltar a discutir os "perigos" do fumo passivo e o direito de cada um a arruinar a sua saúde da forma que entender. Limito-me a notar uma fulminante banalidade, a de que os proprietários dos estabelecimentos em causa deviam decidir sozinhos aquilo de que a casa gasta - e os potenciais clientes apreciariam ou não. Desde que não promova actividades criminosas, género sacrifício de virgens, parece-me natural que o dono de um restaurante, afinal o sujeito que investiu no dito, possa escolher a comida que serve, os comensais que atende e os hábitos que tolera. É tão absurdo abolir o fumo quanto forçar uma casa de pasto minhota a servir chop suey no lugar de sarrabulho. Por azar, sendo o Governo o que finge não ser e o país o que é, esse dia também não tardará. E ninguém se manifestará na rua. Em Portugal, a liberdade, palavra linda, assusta mais do que o enfisema pulmonar.


Em defesa dos trabalhadores

Os trabalhadores que confiam na CGTP para expressar o seu descontentamento deveriam acompanhar com maior assiduidade a forma como o descontentamento dos trabalhadores de outras paragens é tratado nos regimes com que a CGTP simpatiza.

A proeza está longe de ser inédita, mas segundo jornais da Coreia do Sul a vizinha do norte acabou de fuzilar oitenta infelizes por suspeita de subversão das regras da casa. E não, os trabalhadores em causa não fizeram greve, não marcharam aos berros contra o comunismo na Avenida da Liberdade lá do sítio nem organizaram um protesto contra a remoção de "direitos adquiridos" - até porque não têm direito nenhum. Os trabalhadores em causa, que frequentemente ganham um ou dois euros mensais (lá, a classe média aufere cerca de 20 euros e os empresários ricos a exorbitância de 70 euros), acabaram assassinados por crimes tão graves quanto a contemplação de programas televisivos sul-coreanos ou filmes proscritos (essencialmente, todos) e lerem, ou pelo menos possuírem, um exemplar da Bíblia. Alguns viram-se acusados de espalhar pornografia, esse palpitante instrumento da decadência ocidental. De acordo com as fontes citadas, decerto ao serviço do imperialismo americano, milhares de pessoas foram obrigadas a testemunhar as execuções e os familiares das vítimas enviados para campos de concentração (ou reeducação, de modo a poupar os espíritos sensíveis).

Nada disto pretende concluir que os portugueses não se devem manifestar. Apenas que conviria repararem nas companhias em que o fazem. Se, por absurdo, os sonhos mais profundos do Sr. Arménio Carlos se realizassem um dia, para milhões de criaturas a troika haveria de tornar-se uma saudade, e a austeridade uma lembrança de tempos felizes. E se, numa democracia europeia do século xxi, é um bocadinho primário usar a Coreia do Norte como termo de comparação, mais primária é a democracia que torna a comparação legítima.


Casos de miséria

Pelo menos um jornal diário conta a história, presumivelmente trágica, de um rapaz que paga um euro e tal pelo almoço na cantina da escola para depois queixar-se da qualidade da comida e, cúmulo dos cúmulos, de o impedirem de repetir a dose. Os responsáveis da escola negam. O pai do rapaz garante que o filho tirou fotografias com o telemóvel a comprovar os factos. Suspeito que nenhuma foto explicaria o resto, a saber: que espécie de refeição "gourmet" se espera obter a troco de trezentos escudos? Se a refeição é péssima, porque é que os comensais desejam repeti-la? O que faz com telemóvel um adolescente de 14 anos, membro de uma família que quer parecer necessitada? O mistério permanece.

Porém, o mistério não se compara com o da indignação dos juízes portugueses, os quais, com vasta repercussão na imprensa em geral, se queixam dos "ataques" ao Tribunal Constitucional, do número de empregos previstos no novo mapa judiciário e, muito principalmente, dos cortes salariais. As críticas ao TC, órgão de derivação partidária, deveriam constituir uma portentosa trivialidade em democracias adultas. As vagas disponíveis para o cargo são aquelas que, correcta ou erradamente, quem de direito acha indicadas (e a ministra Paula Teixeira da Cruz até jura que serão mais do que as actuais). E os lamentos da classe acerca da quebra nos rendimentos são um insulto a todos os infelizes que ganham misérias ou não ganham nada de nada.

A propósito: se o jornalismo ambiciona a suprema redundância de mostrar que a crise fomenta apertos e casos dramáticos, o jornalismo que esteja à vontade. Mas convém limitar os relatos a situações aflitivas de facto, sob pena de reduzir a aflição a uma anedota e a crise a um pretexto para a rematada estupidez.


Tal como era de prever...


(imagem obtida aqui)

... entre muitas outras coisas, as que já vieram e as que ainda hão-de vir...

domingo, 17 de novembro de 2013

DO SURREALISMO COMO PONTAPÉ-DE-CANTO





Deco tem dificuldade em encontrar adjetivos para qualificar o muito criticado comportamento de Joseph Blatter para com Cristiano Ronaldo.


Nicolau Saião, O sedutor


Nota 1– Não sei quem é este Blatter, mas temo pelos penalties dos dois talentosos craques.

Nota 2 – Agora que vai acontecer, levado a efeito e muito bem por diversas entidades culturais, um Colóquio Internacional sobre o surrealismo, será de colocar a ênfase no facto de que Portugal – república de timbre cripto-fascista cleptocrata judicializado de fachada democrática – é um entreposto onde na verdade e na realidade vigora um tipo de surrealismo específico centrado no absurdo e na irrisão mais fagueira e desportivista.

In hoc signo vincis…