segunda-feira, 26 de maio de 2014

Das estufas da proclamação

Nem os fascistas cripto-comunas da CGTPCP nem os do BE têm ainda uma posição-marabunta oficial para aplicar em blogs e Facebook? Ainda estarão a pensar se é apropriado ou contraproducente chamar à "nova ordem europeia" tudo aquilo que eles próprios são?

E as zenitais Edite Estrela e Ana Gomes, ainda não proclamaram a ressurreição do Maio de 68 na França dos luminescentes desígnios?

sábado, 24 de maio de 2014

Da "europa" do social .... fascismo

Do ponto de vista da liberdade (ou falta dela) de se exercer uma profissão ou uma actividade, o regime "europeu" é fascista e Portugal não escapa. O regime é fascista e este fascismo é uma "conquista" dos socialistas com envergonhado protesto da direita.

Existe uma figura chamada via pública. A via pública é usável por todos, todos são dela guardiões cabendo ao estado, por cobrar impostos para esse fim, cuidar dela especialmente. A via pública tem vindo a ser paulatinamente estatizada, passando a ser um recurso do estado cobrável ao cidadão.

Soube recentemente que um caramelo foi multado pela Câmara Municipal de Lisboa por estar a tocar guitarra na via pública. Não era um problema de ruído, não era um problema de estar a estorvar ou a atrapalhar alguém, era um problema de taxas. Não tinha pago a devida taxa de ocupação de espaço.

Voltando às profissões em geral, a GNR pergunta hoje, paulatinamente, onde estão as guias de circulação ou as facturas de um saco de ração para coelhos que seja transportado num carro particular de quem tenha uma coelheira*. É, evidentemente, uma intromissão de um estado fascista na vida de cada um e, neste caso, a GNR é a ferramenta de aplicação do ideal fascista.

O curioso é que o esquerdalho gosta de referir frequentemente que no tempo de Salazar, para se ter isqueiro era preciso ter-se uma licença. Pois, a esse respeito, o estado fascista de hoje ultrapassa por uma montanha o fascismo de Salazar.

Para quando a aplicação de impostos directos sobre a actividade de um particular que resolve cuidar do seu jardim? Fácil será "argumentar" que ele está a fugir de pagar os impostos que um jardineiro contratado teria que pagar. Quando faltará para se ter que trazer constantemente as facturas de compra do vestuário que se usa?

Para quando a proibição de troca de sementes entre pessoas que cultivam abóboras? Para quando? Essa já está na legislação.

Para quando a cobrança de taxas por se estar a conversar na via pública? Ou ... a pensar na via pública. Virá esse acto de conversar ou pensar na via pública poder a ser "indiciado" como crime de actividade económica por ser exercida ao arrepio de impostos?

Já não chega controlar-se todo o transporte de sacos de ração, desde a fábrica até ao lojista, será também necessário "provar-se" que o que o lojista comprou e vendeu, cobrando e pagando impostos, será utilizado para se alimentar galináceos, cujos ovos ... comidos pelo dono dos galináceos, terão que ser objecto de estatística susceptível da aplicação de impostos por poder ser coisa encarável como manobra para fuga ao pagamento dos impostos que o estado arrecadaria se os ovos fossem comprados no supermercado?

O marxismo está hoje a ser implementado por uma simbiose entre cozedura lenta de sapos e implementação de medidas fascistas. O estado em tudo manda, em particulares ou empresas, até que tudo fique abafado ao ponto de se tornar "necessário" que o estado actue ainda mais directamente em tudo. Toda a actividade é regulada e controlada pelo estado, estando a chegar-se ao ponto em que trabalhar-se ou não é irrelevante, por se ficar com exactamente o mesmo: a assistência "propiciada" pelo estado galopantemente falido.

=================================

* No caso em questão, a pessoa referiu que já tinha comprado antes o saco, que por já não precisar dele o ia oferecer a um familiar, mas que o familiar não estava em casa. A GNR torceu o nariz, mas comeu. Havia facturas, mas a intromissão fascista era tão evidente que houve que usar uma apropriada técnica.

sábado, 10 de maio de 2014

ELES QUE FALEM COM AS FORMIGAS!


Nicolau Saião, Monstrinhos lusitanos

Por um abstencionismo criativo

Segundo a tese de Alain Lancelot,  professor catedrático de Sociologia no Colégio de França, normalmente os abstencionistas exercem quase sempre papéis sociais subordinados, são indivíduos mal integrados, correndo-se com eles o risco de as eleições se transformares num debate entre privilegiados. O abstencionismo é, assim, a não participação no sufrágio ou em actividades políticas, equivalendo a apatia ou indiferença.




Normalmente… Quase sempre…

Mas pode não ser assim…

Nos Estados Unidos, na Grécia, na Suécia, no Reino Unido, etc., cresce cada vez mais um movimento espontâneo, consciente, a que chamaremos Abstencionismo Criativo.
As pessoas, os cidadãos, cada vez percebem melhor que são, de facto, desenquadrados, desintegrados, desprezados pelo sistema de castas políticas, verdadeiros malandrins sociais, que ocuparam os cinzentos corredores da actividade governativa ou de poder.


Em suma, o poder está a fazer, e por vezes descaradamente, de nós todos pessoas e cidadãos supranumerários.



A melhor forma de lhes mostrarmos o nosso repúdio e oposição é deixarmos de lhes ligar meia. Não como objectos de análise do professor francês, mas como cidadãos conscientes e que se respeitam. Que é isso de fazerem pouco de nós, de nos prejudicarem a cada passo? Com as suas mentiras ou, dito de forma politicamente correcta (risos), inverdades?


Como somos pessoas dignas, mandemo-los à fava, deixemo-los a falar com as formigas.

Mostremos que somos possuidores de espinha dorsal e não meros bonecos que eles manipulam a seu bel-prazer.


Não votemos. Deixemo-los o mais possível sós e mergulhados nos seus sujos joguinhos de interesse. Mandemo-los bugiar.
Vamos à praia, vamos até ao campo, vamos passar umas belas horinhas com a amada e vice-versa, vamos ao museu ou a uma biblioteca – caso os encerrem, fiquemos em casa a ouvir Cimarosa, Mozart, Schubert, o Ennio Morricone…

Gustave Courbet, A origem do mundo

A pouco e pouco, crescendo o nosso desprezo por eles, crescerá também o justo ressalto, numa cidadania atenta, exigente, que não vai mais em cantigas de vigarista encartados.

Pratiquemos um Abstencionismo Criativo!

Nicolau Saião, Representante Europeu


Nicolau Saião / Manuel Caldeira
(Portalegre / Londres)

Nota – Os autores deste texto não seguem os preceitos do chamado Acordo Ortográfico. Em escrita ou mesmo a falar…


sexta-feira, 25 de abril de 2014

Passatempo revolucionário

Para além da instituição de liberdades individuais, sistematicamente tentadas pôr em causa pela eterna esquerdalha, que viragem se produziu de 74 para cá?

As sufocantes corporações do velho regime desapareceram? O que não faltam são sufocante e fascistas ASAEs (incluindo aquela coisa chamada "komissão de komissários europeus") para que toda e qualquer iniciativa de cidadãos (os do bicho estatal tresandam a anti-cidadão) seja arrasada.

Para que "Abril se cumpra" falta que Portugal se liberte do paquidérmico e anquilosante monstro chamado estado, seja ele o nacional ou o soviete dos komissários.

quarta-feira, 23 de abril de 2014

UMA CERTA MANEIRA DE NOS DAREM O FARDO…




    Diz o ditado, com doses se calhar consideráveis de realismo... ou de cinismo, que “todo o burro come palha, o que é preciso é saber dar-lha”.

   Talvez seja assim… Mas há também a frase, que se tornou famosa por ter sido um celebérrimo agente desportivo a proferi-la, que rezou: “E o burro sou eu??”.

    De há uns dias para cá, ao ver na perturbante TV os spots publicitários (ou deveria dizer propagandísticos – e propagandísticos entre o descaramento e a demagogia, a não ser que sejam ingénuos mas de uma ingenuidade roçando o impudor alvar) referentes ao 25 de Abril, caio na sensação de viver num filme de humor negro. Aquela gente não as pensará? Ilusionistas…

  Porque os protagonistas que ali nos dão como formais exemplos – estando os capitães, como se sabe, a viver agora numa espécie de limbo para onde os lançaram porque já não precisam deles – são quase exactamente os mesmos que nos mergulharam através dos tempos na “apagada e vil tristeza”, na repelente encanação em que agora vivemos: primeiro os que, com intenção totalitária, quiseram fazer da revolução dos cravos uma antecâmara dum “paraíso de Leste”, à semelhança desse lugar mirífico onde o povo de lá (em encenação filha duma ideologia mentirosa) mandaria tanto que não mandava nada… E que, a seu tempo, implodiu como um edifício apodrecido, um castelo de cartas de batota risível e realmente ignóbil; depois os que, tendo arteiramente conseguido camuflar o que de facto eram e sentiam, paulatinamente tiveram artes de herdar os bragais do regime anterior em que aliás os seus pares e, muitas vezes, os seus ascendentes, tinham mesa farta e benesses de se lhe tirar o chapéu.

   E, os velhacos, querem que o zé povinho – como se vivesse nas sete quintas - festeje acefalamente uma festarola como se nada fosse, como se gozássemos de uma situação excelente, como se isto fosse um mar de rosas, tempo de vinho e rosas como diz a frase proverbial???

   A publicidade – propaganda, demagogia – deles é para nos manterem numa ilusão. Para nos iludirem. Chamava-se a isso, nos tempos da Inquisição, “a tortura pela esperança”.

   E os burros vamos ser nós??? Não lhes façamos a vontade!

   Para finalizar, creio que muitos se lembrarão de uma quadra que chegou a ser muito conhecida no tempo da velha senhora. Aqui vo-la deixo, seguida de uma outra referente, e creio que apropriadamente, aos tempos de agora.

 A primeira é esta:

 Meu Portugal tão bonito
ó meu Portugal tão belo:
metade é Jorge de Brito
e o resto é Jorge de Melo

  E eis a de agora, que vos deixo à consideração pois me parece adequada e justa:

Meu Portugal tão porreiro
de que a malta tanto gosta:
metade é João Banqueiro
e o resto é Oliveira e Costa.

  Saudações democráticas e firmes do vosso

 ns

quinta-feira, 17 de abril de 2014

Os vampiros nada podem contra bolos fintos e amêndoas



Caros/as confrades e amigos/as

   Na tradição, claro, eram flores de alho e rosas brancas. E os monstros tradicionais, literários ou doutra área incluindo a quotidiana, ficavam apardalados!

   Digamos desta forma. O que eles sentiam era um incómodo muito salutar (para os que eles queriam morder, claro, que para eles era uma apoquentação que, em geral, antecedia a picada da proverbial estaca de madeira bem no centro do meio do coração (que não tinham?).

  Mas os tempos, mesmo os literários ou de outras áreas...de retórica romba, mudaram. Ainda que não para melhor. E, vai daí, os antídotos contra a tropa vampiresca também diversificaram o seu cunho, a sua estrutura resistente.

  E é aí que entram as amêndoas, os bolos fintos, o coelho de cachafrio e o anho assado da minha região, as outras coisas todas, saborosas e delicadas, das regiões de cada um. 

 Festejando, fruindo, ora pois não, a Festa. A festa de cada um com aqueles que nos são queridos.

  E - querem crer?! - já que estamos em tempos de Páscoa e a alegria da confraternização nunca eles nos conseguirão tirar  (o que a vampiragem menos gosta é de gente determinada a não se quedar macambúzia, descoroçoada, inerme frente ao temporal destino duma pátria madrasta) insistamos em nos mantermos aprumados, vivos e ao alto pois, como dizia Teófilo, "não basta que se esteja na posição vertical, é preciso manter-se nela".

  Nesta altura, desta natural e específica maneira. E alma até Almeida!

  Muito Boas Festas vos deseja o vosso, com os proverbiais abrqs e bjh

ns


PÁSCOA


1.Vem dos tempos antigos a voz desse tempo - antigos para mim, do meu tempo e não da História: era eu que levava ao forno da padaria do senhor Júlio que fumava de boquilha e tinha um dente de ouro (padeiro fino, não sei se me entendem) as latas com os bolos-fintos e as "enxovalhadas" ou boleimas que a Mãe e a Mana artilhavam com saberes de magas.

  Eu não sabia que era feliz. Só sabia que naqueles dias, naquele tempo de férias da escola, me davam amêndoas, me davam bolinhos doces, me davam alegrias e o Pai até umas suaves moedinhas...

  Eu não sabia que era feliz - e na sexta-feira às 3 da tarde soava o apito da fábrica e isso assinalava que alguém, há muito tempo, morrera de morte triste numa terra do Oriente. E sentia-se um estranho silêncio enquanto o apito soava. E eu sentia um frémito porque eu gostava desse alguém que há muito tempo morrera - sem me preocupar se ele era isto ou aquilo.

  Era um estremecimento, digamos um abraço solidário que ia de mim para ele, porque eu era criança. Ou seja: tinha tantos séculos!

  E não sabia, nessa altura, muitas coisas - só um poucochinho, um poucochinho mais do que sei hoje.


2. Ao longe a serra, ao longe como os tempos que passaram. Tempos de páscoa, serras de páscoa, recordações de momentos que depois preencheriam dias e lembranças.

    Amêndoas, bolos desta terra e daquela, festarolas tradicionais? Sim, isso tudo. E o mais que a emoção dá, que é ir-se vivendo com um resto de inocência e de fraternidade vital.

    Dentro de nós, fora de nós: para nós e para os outros - que também tiveram/terão o seu tempo de maravilhamento e nostalgia.

Nicolau Saião, Ecce Homo, vitral


terça-feira, 25 de março de 2014

O fardo bancário




Não existem crises financeiras sem culpas avassaladoras da banca. Conceptualmente a possibilidade é admissível mas na realidade, para mais numa tão devastadora como esta, é quase impossível. A banca portuguesa tem alimentado o mito de que, apesar da convulsão mundial, o seu balanço está livre de lixo tóxico e portanto imune aos problemas das congéneres, nomeadamente espanholas. Surge assim como inocente da euforia que gerou o desastre, pretendendo-se apenas vítima dos apertos da recessão. Essa ideia, credível e conveniente durante a fase mais negra, começa a constituir um obstáculo à recuperação.

Deve dizer-se que esse mito foi-nos muito útil a todos. Ele tinha uma base de verdade, pois o sistema financeiro português esteve, por várias razões, bastante afastado do sub-prime americano, razão directa do colapso de 2008. Isso constituiu um bom argumento para manter a reputação dos nossos bancos, precisamente no período em que uma suspeita seria fatal. Em época de tanto tumulto e desconfiança, era crucial manter a credibilidade das instituições bancárias. A base desse negócio, como aliás de toda a moeda, é apenas a confiança; quando ela desaparece, tudo se dissolve em fumo, com resultados socioeconómicos catastróficos. É por isso que abalar a imagem da banca é sempre irresponsável, em especial em momentos de turbulência. Nada do que este artigo diga pretende criar a menor dúvida acerca a solidez dos nossos bancos, que são sólidos e credíveis. Mas isso não deve servir para esconder problemas e evitar ajustamentos dolorosos.

É verdade que a banca portuguesa esteve, na sua maioria, imune ao contágio financeiro global de há seis anos. Mas existiu também uma euforia financeira doméstica, que usou irresponsavelmente crédito interno e externo (este último canalizado através de instituições nacionais) em projectos vácuos e mirabolantes. É bom não esquecer a nossa década perdida do crescimento, desde a viragem do milénio, que paradoxalmente acompanhou o inflar da bolha de dívida. O mundo viveu um período de crescimento artificialmente alimentado por crédito; em Portugal aconteceu o mesmo, só que sem crescimento.

Quando no fim de 2008 as empresas privadas portuguesas atingiram um valor de endividamento de 172% do PIB e as famílias de 101%, a culpa principal é evidentemente delas; mas os bancos não se podem dizer inocentes. Eles tinham de saber que era irresponsável distribuir o dinheiro a tais fins, e que grande parte desses empréstimos iria dar mal, mais cedo ou mais tarde. Um crédito malparado desta dimensão nunca é erro apenas de um dos lados, e o seu custo tem de ser repartido.

É indubitável que existem muitos negócios desvalorizados, se não mesmo moribundos, no activo dos bancos. A segunda metade dos anos 1990 e primeiros anos do milénio foram férteis em projectos optimistas que realmente nunca chegaram a lado nenhum. Os mais conhecidos são as sagas públicas do TGV e o novo aeroporto de Lisboa, mas houve miríades de privados. Pior, muitos igualmente mirabolantes chegaram mesmo a ser criados, para depois nunca terem os efeitos pretendidos. Nesses de novo a fama recobre os exemplos estatais, como o Magalhães e as PPP, mas muitas empresas se meterem em tolices equivalentes, a todos os níveis. Tudo, público ou privado, acaba sempre a apodrecer na banca.

Quando se verifica um caso destes o que há a fazer é estripar o cancro e lavar a ferida. Isso é sempre doloroso mas inevitável. O pior é negação e ocultação, que só aumentam o tumor. Isso podia fazer sentido na época em que o estado geral do doente era tão frágil que a cirurgia era impensável. Agora parece ter chegado a altura de tratar desse assunto.

A economia precisa de crédito para se levantar. Existem até investidores interessados em comprar e recuperar os monos dos balanços bancários, desde que cotados a desconto. Quando a banca se recusa a vender para não assumir perdas, que são evidentes, ela surge como sabotadora da economia que devia servir. Só admitindo a verdade se sai da crise.

domingo, 23 de março de 2014

A geração dos 70...







A ternura dos setenta


Não é novidade que o Governo apenas pareça sofrível por comparação com a empenhada toleima da oposição, mas não convém exagerar. Pôr o sr. Marco António às vezes Costa a reagir aos manifestos pela "reestruturação" da dívida - o indígena e o estrangeiro - já é forçar a nota.

Não sei se devido ao assombroso currículo do cavalheiro, se devido à respectiva envergadura (moral), ou se devido à convicção geral de que daquela cabecinha nunca sairá nada vagamente semelhante a um pensamento aproveitável, a verdade é que ver o sr. Marco António às vezes Costa refutar as críticas à governação do País não difere muito de promover o treinador Jorge Jesus a crítico literário. Por algum motivo, ou por inúmeros motivos, há a tendência para suspeitarmos que, quando o Governo de Portugal se deixa representar pelo sr. Marco António às vezes Costa, o Governo é uma anedota e Portugal está perdido. O sr. Marco António às vezes Costa quase inverte a ordem natural e, por contraste, transforma os opositores em gente ponderada e responsável. A sorte do Governo é que depois os opositores contra-atacam e devolvem a harmonia ao universo.

Atente-se, por exemplo e se não for pedir demasiado, em João Cravinho. O promotor do manifesto caseiro considera que o manifesto não caseiro "revela", cito, "que o que dizemos não é nenhum disparate". Tamanha franqueza comove. Sem o notar, o dr. Cravinho admite que a opinião dele e das outras 69 alminhas subscritoras do panfleto nacional importa pouco - pelo menos até que 70 e tal economistas "internacionais" assinem um panfleto a corroborá-la.

Nem vale a pena perder tempo com a evidência de que não custaria encontrar 70 ou 700 economistas de gabarito mundial capazes de ridicularizar o manifesto do dr. Cravinho. Se nas ciências exactas o consenso já é precário, nas artes de prestidigitação como a Economia, o consenso é por definição absurdo. Porém, o que aqui salta à vista é a ancestral submissão ao juízo de valor que chega de além-fronteiras: temos razão na medida em que "lá fora" nos dão razão.

Trata-se de um pequeno tique, infelizmente com consequências de gravidade diversa. Uma coisa é convencermo-nos de que precisamos de um Teatro Nacional porque "lá fora" existem teatros nacionais. Coisa diferente é acreditar no carácter essencial do "investimento" público porque "lá fora" é assim, na imortalidade do Estado "social" porque "lá fora" é assim ou, conforme o dr. Cravinho se lembrará, no sucesso das PPP porque "lá fora" as PPP são assado. E acreditar na "reestruturação" da dívida porque o sucesso do precedente grego salta à vista.

Brincadeiras à parte, o facto é que o Governo, coitado, tem vindo a renegociar a dívida dentro do possível e do aceitável pelos credores. O que os campeões da "reestruturação" pretendem é algo assaz diferente: um milagre que nos dispense de reformas, obrigações e maçadas afins. Um Estado irreformável e intocável. No fim de contas, uma falência colectiva apesar de tudo sem grandes precedentes locais. No fundo, é isto, embora isto soasse mais convincente se não fosse o sr. Marco António às vezes Costa a dizê-lo.


Decretar a prosperidade

Há pouco tivemos o manifesto pela "reestruturação" da dívida. Agora temos o BE, o PCP e o relevantíssimo pingente chamado PEV a pedir que as eleições europeias constituam um voto de protesto contra a austeridade. Sendo partidos parlamentares e pouco admiradores da democracia, não sei o que os leva a esperar pela decisão popular, inevitavelmente incerta e ambígua: a extrema-esquerda podia muito bem cortar caminho e submeter o voto de protesto à Assembleia da República. Com alguma sorte, e a abstenção ou a distracção de meia dúzia de deputados da maioria, talvez se conseguisse proibir a austeridade mediante decreto.

Aliás, é difícil perceber porque é que a austeridade, e não só a austeridade, ainda não foi abolida. Uma nação tão virtuosa e legalista já devia ter interditado por lei a austeridade, a dívida, o défice, a crise, a sra. Merkel, o FMI, a gripe sazonal e a família Carreira. Em contrapartida, urge considerar obrigatório: a felicidade; o salário médio luxemburguês; o crédito externo sem juros nem prestações; a solidariedade europeia; o direito às trufas; o Mercedes; o spa no jardim de casa; o jardim de casa; a casa e a abundância em geral.

É verdade que a Constituição já não anda longe de semelhantes desígnios, mas carece de uma ou duas revisões para consagrá--los. Excepto a realidade, o que nos impede?


A miséria

Não costumo alongar-me nas citações. E certamente não costumo alongar-me nas citações de José Sócrates. Mas corre pelos blogues liberais (não são muitos) um pequeno e esclarecedor vídeo extraído do debate entre o ex-secretário-geral do PS e o ex--chefe do Bloco de Esquerda durante a campanha eleitoral de 2011. O debate é moderado por Clara de Sousa. A certa altura, o eng. Sócrates propõe-se esmiuçar um tema hoje relativamente em voga:

"- Vamos ao essencial da sua proposta: o que é que Francisco Louçã propõe para resolvermos o problema? Diz assim: vamos reestruturar a dívida. O que é que significa reestruturar a dívida? Reestruturar a dívida é um termo técnico. Isto significa não pagar parte da nossa dívida.

- Isso seria trágico para Portugal, eng. José Sócrates?
- Absolutamente trágico!
- Quais eram as consequências para o País?
- Vou responder. Isso significa calote aos credores. Isso significaria, em primeiro lugar, Portugal passar imediatamente a fazer parte do lote de países que não cumprem, da lista negra. Isso significaria desde logo o colapso do sistema financeiro, porque nenhum dos nossos bancos, nenhuma das nossas grandes empresas se poderia, digamos assim, financiar. E isso teria consequências gravíssimas na nossa economia, nas empresas e nos trabalhadores. Pagaríamos isso com desemprego, com falências e com miséria, Francisco Louçã. É por isso que essa proposta é absolutamente irresponsável."

Por irresponsável que também tenha sido a governação do eng. Sócrates, houve momentos em que, por comparação com os delírios dos partidos comunistas, o homem passava por um estadista sensato (principalmente se esquecermos que a dívida em questão fora, em larga medida, criada por ele). Este é um desses momentos, por um lado abonatório para o antigo primeiro-ministro, por outro desanimador para Portugal, cujas alegadas elites, alegadamente de todas as cores políticas, exigem agora de modo oficioso a reestruturação da dívida, leia-se o tal calote, o tal colapso e a tal miséria.

Ou seja, à esquerda, à direita e ao centro, hoje existe pior do que o eng. Sócrates, incluindo o próprio, que um destes dias se declarou de acordo com o célebre manifesto dos 70, logo em desacordo consigo após meros 3 anos. Por cá, o pessimismo é uma aposta segura.

terça-feira, 25 de fevereiro de 2014

"Adeus tristeza"


(imagem obtida aqui)


Com "uma guitarra na mão", Fernando Tordo emigrou para o Brasil. Até aqui, descontada a louvável tolerância da TAP na bagagem de cabina, nada de especial: embora por regra mais jovens, muitos portugueses também emigram e, se atendermos à história, sempre emigraram. A circunstância de se tratar de um cantor e compositor popular não torna o gesto de Fernando Tordo diferente do gesto de tantos enfermeiros, biólogos e serralheiros, mesmo que estes raramente mereçam reportagens televisivas. É típico dos países pobres que as pessoas sem trabalho, ou com trabalho mal remunerado ou, como se afirmou no caso, com reformas pequeninas, procurem uma vida melhor. A culpa? É de todos e não é de ninguém, se me permitem o cliché. Não vale a pena apontar o dedo a quem votou no Governo da "austeridade". Nem a quem votou nos governos que forçaram a "austeridade". Por muito que nos custe, a "austeridade" é o nosso valor facial, o melhor que conseguimos se nos deixarem entregues a nós próprios e aos "fundos" e "tranches" que continuam a cair por aí. Sem os "fundos" e as "tranches", o valor facial será ainda menor. E, salvo um milagre, a "austeridade" maior.

Fujo do assunto. O interessante na partida de Fernando Tordo começa no pormenor de ele a ter anunciado no Facebook, em texto cheio de pretenso entusiasmo que as lamúrias em entrevistas posteriores (sim, teve direito a entrevistas) comprometeram. O interesse cresce quando o filho de Fernando Tordo publica no seu Facebook uma "carta-aberta" e terna ao seu pai, lamentando o ódio nas "caixas" de comentários online (ai, ai, que haveria imenso a dizer sobre o ódio nas "caixas" de comentários online). Por fim, a coisa atinge o sublime no momento em que Fernando Tordo responde ao filho - adivinhem - através de "carta-aberta" no Facebook.

Em suma, a internet é um refúgio de mal-intencionados, por isso vamos lá trocar intimidades na internet que as chamadas telefónicas estão pela hora da morte e os e-mails "fechados" não suscitam notícias de rodapé. À primeira vista, o maior problema da família Tordo não é a falta de dinheiro: é a falta de noção de privacidade, a falta de noção da sua insignificância. O problema da família Tordo é, afinal, o problema de incontáveis artistas caseiros, com e sem aspas: a lata. Dado que Fernando Tordo gosta de "cartas-abertas", cá segue outra.

Caro senhor (que não tenho o prazer de conhecer), emigrar não é um drama obrigatório. É uma decisão pessoal que, por definição, convém mantê-la assim ou limitá-la a círculos restritos. E se não é proibido espalhá-la aos ventos, é ridículo apresentarmo-nos ao público enquanto exemplo de sofrimento. Principalmente se o sofrimento é bastante relativo. É que também não é proibido que o público ache o exercício pretensioso e responda em conformidade. Além disso, já se sabe que quem abusa do acesso aos media arrisca-se a levar com os media em cima. Era escusado provocar a manchete do jornal i, que divulgou os 200 mil euros amealhados desde 2008 pela empresa que o senhor possui - só em concertos encomendados pelo Estado, com as autarquias à cabeça. Para quem se queixa dos "agentes públicos que desprezam as Artes (com maiúscula)", não está mal. Para quem insiste na relevância da Arte que produz, está péssimo: não haverá multidões ansiosas por encher auditórios de modo a assistir, sem patrocínios camarários, à enésima interpretação de Tourada? Pelos vistos, não. Por isso, o senhor rumou ao Brasil, onde decerto o aguardavam impacientes. E, ao que li, regressa em Abril. O senhor é um emigrante breve, mas o tempo que nos rouba já vai longo.

Adenda (26-02-2014) - Um esclarecimento de Fernando Tordo.

terça-feira, 18 de fevereiro de 2014

De um país que é um sorvedouro de paciência...





...disse Alberto Gonçalves, aqui:



Perder na secretaria

Ou porque o seu presidente andou com problemas de saúde ou porque a equipa de futebol não anda a jogar bem, é voz corrente que o FC Porto está em fim de ciclo. Talvez esteja, talvez não, para mim tanto faz: fui do Benfica na idade em que liguei ao assunto, sou completamente neutro desde que deixei de ligar. De qualquer modo, se o fim do ciclo é discutível, o ciclo não é.

Nos últimos 35 anos, o FC Porto largou a irrelevância que o marcava e começou a discutir a hegemonia com os clubes da capital. Nos últimos 20, assumiu a hegemonia sozinho e deixou a irrelevância aos outros. Os processos utilizados não interessam muito e, sobretudo, não me interessam nada. À semelhança dos fundamentos do sucesso do Benfica de há meio século e, em menor escala, no sucesso do Sporting de há três quartos, suponho que o FC Porto é melhor dentro do campo e fora dele, incluindo-se aqui matéria lícita e, apesar do falso pudor das virgens que dominaram o sector em 1950 e em 1970, ilícita. Nestas coisas não há acasos: sem "ajudas" provadas, Lance Armstrong teria sido igualmente superior aos adversários, tal como antes o fora Merckx, evidentemente com "ajudas" por provar. Salvo pormenores ocasionais, nem o Benfica de Eusébio nem o FC Porto de, por exemplo, Deco, careciam de favores para humilhar a concorrência. Os adeptos, maioritariamente do Norte e ainda mais do Grande Porto, agradeceram a proeza e tomaram-na a título de desagravo do centralismo lisboeta. Fizeram mal.

Ao mesmo tempo em que celebravam as vitórias nos estádios, os portistas, portuenses e nortenhos viam-se derrotados no mundo real. As glórias do FC Porto coincidem com o período em que a região que o clube pretende representar perdeu influência nos destinos do País, peso no respectivo PIB e riqueza proporcional dos seus cidadãos. Trata-se, justamente, de uma coincidência, já que as mudanças devem-se menos às cabeçadas de Gomes e Jardel do que a factores um bocadinho alheios. A globalização desmantelou boa parte da estrutura produtiva do Norte, assente na indústria e nas exportações. Portugal tornou-se um lugar de serviços, crescentemente sediados a Sul. O desenvolvimento nacional passou a fazer-se a expensas dos "fundos" europeus, cuja distribuição, por fintas e mergulhos dignos de Paulo Futre, teima em concentrar-se nas imediações do proverbial Terreiro do Paço. Enquanto o FC Porto reinava, o Porto, cidade e área metropolitana, secava. Entretida com os remates certeiros, e orgulhosa de um clube caracterizado pela organização eficaz, taças em abundância e, por comparação aos rústicos rivais, um genérico ar "moderno", a população não reparou que, no que importa, Lisboa começava a golear o Porto.

Não falo apenas de política. Ou de economia. Ou, descontada a ridícula dimensão pátria, de cultura. Basta ver televisão, onde as referências sortidas ao Porto ou ao Norte, com frequência a cargo de criaturas nadas e criadas no Porto ou no Norte, crescentemente não dispensam a distância imposta pelo advérbio "lá": lá em cima, lá para aquelas bandas, lá no Porto, lá no Norte. De forma oficiosa, quase oficial, o Porto é província, quase ultramar (o Norte nem isso). Hoje, Lisboa só precisa do Porto na medida em que o Porto precisa do interior nortenho: para simular carências e açambarcar os apoios de "convergência". E o bom povo lá de cima (ou cá de cima, na minha perspectiva) convenceu-se de que os êxitos na bola, erguidos a símbolo e a orgulho regionais, compensam o resto. Não compensam, pelo que fica a esperança de que o alegado fim de ciclo do FC Porto aconteça e sirva para recordar que um esboço de equilíbrio geográfico não se alcança aos pontapés no famoso esférico.

Convém, para evocar um cliché, que o Porto - os cidadãos, não as autarquias, delegações e pechisbeques afins - desvie os olhos da baliza e veja o essencial. E o Norte, que cavalgou sem retribuição o apogeu do FC Porto e, repito, sofre em benefício do Porto o exacto desprezo que o Porto sofre em prol de Lisboa, também. O bairrismo é cretino, mas a demografia conta.


Escravos

"É cada vez maior o número de portugueses sujeitos a trabalho escravo no seu próprio país", lia-se num título do Público. No corpo da notícia, procurei as senzalas, os feitores, os chicotes, o sofrimento de sol a sol. Nada. Afinal, tratava-se apenas de sujeitos que, no Alentejo e no Douro, trabalham nas colheitas a troco de 30 euros diários, não declarados ou através de, cito, "falso recibo verde". Enquanto averiguo o que é um recibo verde autêntico (explico na próxima semana), adianto que, conforme reconhece a Autoridade para as Questões de Trabalho num momento de maior serenidade, a questão é sobretudo grave para o fisco e a Segurança Social. Que me lembre, não era esse o principal drama nos campos do Mississippi ou de Minas Gerais.

Podemos achar, e eu por acaso acho, que a profissão de assalariado agrícola não é das mais confortáveis, que 600 euros mensais é um rendimento curto e que desempenhar funções clandestinamente impede o acesso às prodigiosas reformas que aguardam a maioria dos nossos compatriotas. Porém, daqui à escravatura vai um salto tão grande quanto comparar a larica das seis da tarde com a fome em África ou o bullying (sic) nas escolas ao Holocausto.

Uma coisa é o Público apreciar espalhafato, outra é presumir que essa é a função de uma reportagem. Não é. Se o leitor não for irremediavelmente estúpido, a descrição rigorosa dos factos basta-lhe para formar uma opinião. Haverá leitores a considerar a "escravatura" alentejana e duriense uma vergonha; haverá leitores, principalmente entre os que procuram emprego em vão, a invejá-la. Por azar, vivemos numa época em que alguma imprensa (na televisão não vale a pena falar) tende a desaprender as regras básicas do ofício e, como um cómico que avisa que a piada seguinte é particularmente engraçada, a incluir no relato da realidade os sentimentos que a realidade nos deve inspirar. E isso não é jornalismo, mas uma ofensa, maior do que os portugueses "escravos" em Portugal. Uma dúvida: no estrangeiro a escravatura é tolerável?


Perigoso, porque ambicioso e utópico

"O ex-primeiro-ministro José Sócrates defendeu hoje que o Estado social libertou o indivíduo, numa intervenção em que fez um ataque cerrado ao neoliberalismo, advertindo que se trata de um sistema perigoso, porque "ambicioso e utópico"." O texto é da Lusa, que não se esqueceu de notar que o engenheiro Sócrates se apresentou "sem gravata e de calças de ganga". E apresentou onde? Ora essa: "Perante um auditório cheio no ISCTE." Ainda mais do que as "praxes", eis a prova de que o ensino superior vai pelas ruas da amargura.

Bobby McFerrin & Maria João