segunda-feira, 23 de junho de 2014

Sobre a pátria do cão de Obama...





... mais três crónicas de Alberto Gonçalves:



O pensamento mágico

Após o heróico 0-4 com a Alemanha, as televisões foram naturalmente à cata de transeuntes frustrados. Encontraram imensos, cada um com a sua justificação para a derrota. Algures em Lisboa, à porta de um daqueles antros que congregavam os militantes do falecido BE, uma rapariga com ar de militante do falecido BE explicava que o pior nem era a goleada: era a goleada perante os alemães e, evidentemente, a sra. Merkel.

Apesar do profundo e até certo ponto indescritível absurdo da opinião, esta esteve longe de ser isolada e circunscrita ao Bairro Alto. Contaram-me que, na Sport TV, o ex-futebolista Carlos Manuel, com um sorriso onde em tempos medrava farto bigode, dissertava antes do jogo sobre a necessidade de vencer a chanceler alemã. O também funcionário da casa Pedro Henriques, que não conheço de lado nenhum e que é o único comentador televisivo que, no futebol e no resto, escapa ao ridículo, informou o sr. Manuel que a sra. Merkel trata de defender os interesses dos seus eleitores, e que teria sido preferível os nossos governantes destes 40 anos procederem de forma idêntica em vez de alimentar bodes expiatórios para a inépcia e a trafulhice.

Do que o País precisava era de um Pedro Henriques em cada esquina. Infelizmente, tal não se vislumbra possível, pelo que convém aceitar a realidade: muitos portugueses não aceitam a realidade. O tipo de cerebelo que julgava vingar as frustrações pátrias num jogo da bola é o mesmo que atribui a terceiros a responsabilidade pelos erros próprios. Por improvável que pareça, havia gente que ansiava por ver no relvado uma compensação face à "arrogância" da sra. Merkel. Sem surpresas, é a mesma gente que decidiu unilateralmente a obrigação da sra. Merkel em patrocinar-nos sem condições. Trata-se, sem tirar nem pôr, daquilo que os antropólogos designam por "pensamento mágico".

O pensamento mágico estabelece nexos de causalidade entre acções ou eventos independentes entre si. Imaginar que a queima de uma madeixa de cabelos implica que o seu antigo proprietário irrompa em chamas é igual a imaginar que um remate certeiro de Cristiano Ronaldo afectaria a economia alemã. Ou a imaginar que a prosperidade da economia alemã é que maldosamente impede o Estado indígena de gastar tudo o que gostaria. Estamos no reino, ou na república, do puro vudu, típico em sociedades primitivas e, pelos vistos, na portuguesa.

A má notícia é que o pensamento mágico é obviamente irrelevante para o mundo exterior. A boa notícia é que pode ser exercido com absoluta liberdade. Se o confronto em Salvador da Bahia não correu bem, nada impede a menina do BE de humilhar a Alemanha numa partida de poker com o Franz do InterRail, ou o ex-futebolista Carlos Manuel de exibir mestria nos dardos contra um retrato do ministro Schauble. Claro que o ideal seria um país capaz de escolher a racionalidade e lidar com as coisas como elas são. Mas isso já entra no domínio do sonho, e convém deixar o pensamento mágico aos especialistas.


O sexo e a idade

Uma Sociedade Portuguesa de Psicologia da Saúde realizou um estudo sobre a implementação da educação sexual nas escolas. Os resultados são dúbios. Por um lado, de acordo com o Jornal de Notícias, "os alunos do ensino secundário gostariam ainda de estar mais envolvidos nas atividades relativas à educação sexual nas escolas, manifestando disponibilidade para serem "mentores, em atividades informativas e formativas com colegas mais novos"". Por outro lado, os alunos em geral sentem-se desmotivados - sempre uma maçada nestas questões - e "criticaram a forma "idêntica e sem progressão" de apresentação" dos assuntos. Vamos por partes.

Desde logo, é bom sinal que os petizes mais crescidos pretendam ser "mentores" (um óbvio eufemismo) dos mais pequenitos no que toca ao sexo. Sempre indicia que a existência dos adolescentes contemporâneos não se esgota na PlayStation e no Facebook conforme se chegou a temer. Pelo menos alguns percebem que, em matéria de possibilidades reais, a Patrícia do 8.º G é preferível a Lara Croft.

Em contrapartida, talvez não se aconselhe ouvir as recomendações de crianças a propósito das disciplinas a sério. No caso da Educação Sexual, que não serve para nada, excepto para preencher horários e convencer pedagogos da sua própria modernidade, o problema não se põe. Mas imagine-se que se passa a ouvir os meninos e as meninas acerca dos conteúdos e dos processos de ensino em Matemática, Física e coisas assim: na perspectiva optimista, arrasa-se num ápice com o que resta da exigência educativa. Na perspectiva pessimista, essa exigência faleceu há muito, pelo que ouvir crianças, pais, tios, sindicatos, professores, tutelas ou os órgãos sociais da Associação Recreativa de Massarelos não faz diferença nenhuma.


A terceira via em "collants"

Ainda haverá alguém com vontade de rir das pantominices de "Tozé" Seguro? Bastou espevitar as ambições do dr. Costa para o ainda secretário-geral parecer, por comparação, um paradigma de sensatez. No início da sua caminhada triunfal rumo ao poder, o dr. Costa, que, segundo artigo biográfico no Público, praticou ballet com os "filhos de operários e de prostitutas", começou por adoptar o exacto vazio retórico do seu concorrente. A estratégia motivou, entre a escassa opinião publicada que não venera o antigo bailarino, acusações diversas, ou sobretudo a acusação de que, salvo pela tez de um e as sobrancelhas do outro, era impossível distinguir o dr. Costa do dr. Seguro.

Alarmado, o ex-colega dos filhos de operários e de prostitutas convocou o staff a fim de adoptar novo plano: se a emissão de vacuidades comuns não funcionava, havia que passar a emitir vacuidades absolutamente tresloucadas de modo a elevar-se acima da concorrência - ou, na pior das hipóteses, abaixo.

O primeiro fruto desta visão revisionista surgiu sob a forma de uma pérola de economia alternativa. De acordo com o dr. Costa, o primeiro-ministro "ou aumenta os impostos para aumentar a receita ou faz corte dos salários para baixar a despesa. Ora, nós não podemos viver neste quadro de opções tão limitado e temos que dizer ao primeiro-ministro que percebemos que ele não sabe sair dessa receita". Por felicidade, "há uma outra receita", "uma terceira via" que Passos Coelho "não sabe, nem quer aprender", mas há que "lhe ensinar": "aumentar a riqueza".

Repito, para que não restem dúvidas: num demi plié arrebatador, o dr. Costa propõe aumentar a riqueza. E é isto que distingue os eleitos. Enquanto a comum cavalgadura se debate com um cobertor que ora cobre a cabeça ora cobre os pés, os que desenvolveram o génio junto da descendência de proletários e marginais arranjam um cobertor maior. Desde a Maria Antonieta da lenda e dos brioches que não se via rasgo assim: para não sermos pelintras basta que sejamos milionários, evidência cujas aplicações são ilimitadas. O cidadão hesita entre a bicicleta e os transportes públicos? É melhor comprar um Mercedes. Férias em Tenerife ou no Algarve? Quinze dias no Sandpiper em Barbados. T0 em Campo de Ourique ou T2 no Cacém? T4 tangencial a Washington Square.

A continuar neste ritmo, o dr. Costa já não irá a tempo de ensinar a terceira via ao pobre dr. Passos Coelho. Mas arrisca-se a conquistar a chefia do PS, a liderança do Governo, um ou dois Nobel e um lugar de solista no Bolshoi.

domingo, 15 de junho de 2014

Modelo de Acta de Conselho de Turma (recebido por e-mail)




Só quem não está por dentro das situações poderá pensar que isto haja sido escrito como quem escreve uma piada:

“Relativamente ao aproveitamento, o Conselho de Turma caracterizou-o como hilariante, uma vez que os níveis atribuídos pouco têm a ver com o desempenho dos alunos, mas sim com outros fatores, nomeadamente: o desejo de nunca mais os ver na sala de aula, o que se conseguirá se transitarem todos para o ciclo seguinte; a necessidade de cumprir as anedóticas metas de sucesso, de forma a evitar o paleio justificativo no relatório de avaliação de desempenho e demais documentação; a vontade de evitar recursos por três ou quatro encarregados de educação, previamente referenciados pelo conselho de turma como "carraças parentais obcecadas com a entrada dos descendentes para o curso de medicina" [soou uma gargalhada geral].------------

Os docentes de Expressões acrescentaram que também não têm vontadinha nenhuma de aturar os comentários infelizes de vários quadrantes sobre a importância das suas áreas curriculares, pelo que o nível mínimo que atribuíram foi quatro, este para penalizar o Zezinho por nunca ter levado sapatilhas para Educação Física, nem papel e lápis para Educação Visual.-----------------------------------------------------------------------------

A docente de Inglês esclareceu que mais de metade da turma não distingue ainda “yes” de “no”, mas que lhe é impossível chumbar toda essa gente, com medo do que poderá acontecer [nesse momento, fez-se silêncio temeroso].---------------------------------------------------------------

As docentes de Matemática e de Português desataram em prantos, lembrando-se da discrepância que certamente existirá entre avaliação interna e notas dos exames nacionais, impedindo-as de se manterem camufladas na “bondade avaliativa” como os demais [soaram exclamações de compreensão e comiseração]. A docente de Matemática classificou ainda de “melgas inúteis” os pais e demais parentes que acompanham vários alunos na realização dos TPC e que os instruem no sentido de pôr em causa tudo o que acontece nas suas aulas, embora a maioria nem o nono ano tenha concluído [interjeições de concordância], ao passo que a docente de Português desabafou que às vezes tem ganas de imitar Espanca, só para não ter que voltar a ler a rambóia de disparates e facadas na bela Língua Lusitana. Nessa altura, a professora de Educação Visual contou que fora interpelada na rua pela mãe da Tikinha, que lhe explicara que a desconcentração da criança se devia à sua tendência artística e sonhadora [mais galhofa]. -------------------------------------------------
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Os docentes de Ciências Naturais e de Ciências Físico Químicas explicaram ao conselho que, no âmbito da interdisciplinaridade, tinham decidido uniformizar os critérios de avaliação, a saber: nível três para quem tivesse pulsação, nível quatro para quem também respirasse sozinho e nível cinco para quem emitisse cumulativamente sons [olhares de admiração]. -------------------------------------------------------------------------------

As docentes de História e Geografia declararam que não abdicavam dos seus princípios, pelo que tinham atribuído nível dois a um aluno que nunca compareceu [silêncio constrangedor]. O diretor de turma sugeriu que se alterasse para “dois mais”, o que mereceu concordância de todos, quanto mais não fosse para não terem que aturar os chiliques pedagógicos do Gabinete de Psicologia. ------------------------------------- (...)”


Os sapos cozem-se, vivos, devagar

O que os marxistas fazem hoje (BE, PCP, o escarro Os Verdes e o PS-BE) por onde podem e um pouco por todo o lado, especialmente nas democracias onde a todos convencem estar a dita bem sedimentada:

Numa primeira fase encrencam o regime ao ponto de conseguirem condicionar pelo menos uma legislatura. Com a colaboração de militantes (da ideologia, não necessariamente do partido) especialmente bem colocados (no TC, por exemplo), limitam a acção do governo para, "provarem" que não há alternativa.:

A seu tempo apresentam-se como salvadores da pátria.:

Entretanto, outras lutas internas, entre marxistas, limpam o caminho aos mais fascistas e, logo que possível, soltam a máscara de fascistas e revelam a de comunistas. Deixam de ser movimentos que toleram a iniciativa e propriedade privadas (fascistas), muito embora tudo façam para mandar em tudo quanto é privado (regulamentação e impostos), para se transmutarem em movimentos que 'prescindem' da propriedade privada transferindo, a decisão sobre a posse dessa propriedade para komités religiosamente mantidos pelo partido hegemónico que sobreviver à refrega.:

Ponham os olhos no Brasil e está lá tudo.

Leiam o que escreve Olavo de Carvalho e aprendam. Ou aprendem ou perderão por falta de comparência. Aquela gente, pestilenta, trabalha a longo prazo. É devagar que se cozem sapos vivos.

sexta-feira, 13 de junho de 2014

Do país da rataria...




... escrevia assim Alberto Gonçalves no passado domingo, no DN:


Um país à escala do Rato

Uma história engraçada a correr por aí é a do medo que António Costa suscita na direita. Em primeiro lugar, não sei o que se entende por "direita", se os partidos no Governo ou se as pessoas que não apreciam um Estado intrometido e salteador (ambas as instâncias parecem-me algo incompatíveis). Em segundo lugar, garantiram-me que uma sondagem "interna" coloca o portentoso "carisma" do Dr. Costa um ou dois pontos percentuais acima do pobre rival nos gostos do eleitorado em geral. Por conveniência, admitamos que PSD e CDS andam assustadíssimos e que as facções empenhadas em enxotar o Dr. Seguro têm razão.

Ainda assim, não é esse o ponto. O ponto é a tese que resume os apetites dos insurgentes no PS: trocar o líder A pelo líder B é vital na medida em que A não é capaz de devolver os socialistas ao poder (ou o poder ao partido) e B talvez o faça. Pelo menos a franqueza é louvável. Claro que todos os partidos actuam em benefício daquilo que os coloca próximos do mando, mas costumam disfarçar a cobiça sob o simulacro de um debate interno e vagamente ideológico. O PS do Dr. Costa, ou que se serve do Dr. Costa, não disfarça. Ali não existe a menor intenção de distinguir o pensamento do autarca lisboeta do pensamento do secretário-geral, tarefa de resto impossível na medida em que nunca qualquer deles revelou possuir semelhante excentricidade. B é preferível a A porque sim.


Marx, o bom e velho Groucho, esclarecia: estas são as minhas convicções; se não gostarem, arranjo outras. No PS não há convicções nenhumas, excepto a certeza de que se está mais confortável a decidir orçamentos do que a votar contra eles, a satisfazer clientelas do que a pedir-lhes paciência, a afundar a economia do que a acusar Pedro Passos Coelho do mesmo. Não ocorre aos socialistas que à margem das intrigas há alguns milhões de cidadãos, certamente cansados de austeridade e provavelmente abismados com o brutal egoísmo dos que lhe prometem o fim da austeridade. Em suma, discute-se o melhor para o PS como se se discutisse o melhor para o País. Por acaso, e por norma, costuma funcionar ao contrário. Nesse sentido, e só nesse, o Dr. Costa mete medo.

segunda-feira, 2 de junho de 2014

Azulejos para Madagáscar


Jules Morot


 Com a delicadeza típica dos grandes espíritos, das pessoas de razão e coração que temos por vezes a sorte de ter por amigos, dias atrás recebi uma carta do Jules Morot - há dois anos a leccionar em Madagáscar - na qual o excelente autor de "Récits du parc" me solicitava se eu não poderia vender-lhe (vender-lhe!) um cartão para azulejo para ele ornamentar a sua casa de La Jolle. No género dum daqueles que, pouco mais que há um par de anos, eu lhe dera para o seu entreposto (adega e salão de provas) bem situado nos campos perto de Tours. Sugeria mesmo se não poderia ser um igual ao que eu mesmo tenho na sala de cima da minha cabana de Arronches. É que quando ele me visitara - e que visita mais ou menos helénica foi aquela!, pois se fizera acompanhar, para além da sua esposa Julienne, de uma boa dúzia de garrafas do seu afamado tintol "Pérouse", aquele de se dar estalos co'a língua bem colocada - dizia eu, gostara do maroto do painelzito (bondade dele).

   Com fraternal sadismo, disse-lhe que não. Com efeito, porque não vendo os meus quadros (surrealista que sou, tenho este hábito, confesso que mau, de os fazer para meu próprio gozo...e de alguns amigos que iam a mostras que dantes fazia mas já não faço). Manias. Mas bom: que a seguir disse-lhe que, como me sentia ligeiramente pachorrento não lho vendia mas...lho dava. E, como me empolgara, que ia executar uma versão um pouco diferente do outro, embora seguisse o mesmo figurino e estilo. E, num exagero de doçura, que lhe ia mandar não um...mas quatro. (É que não me esquecera da semana que há 3 aninhos passei na sua mansão, onde petisquei do fino e engorlipei do bom, sempre tudo posto num ambiente fraternal com que os franciús que se prezam, acho eu, gostam de acatitar convivas).

  Foi nessa altura que ele me deu, para que eu o traduzisse, um dos seus poemas, que em anexo apresento aos caros confrades para aquilatarem da categoria real deste criador de vinhos doublé de professor, de gastrónomo e de poeta em pleno. 

  E fiz seguir os cartões. No fundo o privilégio era meu. E não digo isto a reinar!



   (... Em meados do próximo ano lá os irei contemplar, estes filhos emigrados (como muitos portugueses dest'época algo surpreendente...).



     E, o que será muito melhor, enquanto ambos os dois, mais a Julienne anfitriã de brios, degustarmos calmamente assim umas coisinhas deliciosas. Evohé!


   
O URSO GANIMEDES
Ele levanta-se
coitado dele
e nós sentimos aquele arrepio inquietante
da sexta-feira ligeiramente escura
Cristãos comunistas desportistas consumidores de alcachofras
e mesmo outros de crânio em silhueta contra a luz da lua
no meio do frio glacial do continente antártico
se bem me entendo  financistas agentes de câmbio
comerciantes  ruidosos alunos de artes polícias
personagens que fazem navegar os barquinhos nos tanques dos seus
jardins da infância
Velhos capões
Notamos dizia eu  ou melhor    notam vocês os que
ainda por aí têm sonhos
a sua poderosa silhueta de comedor de bagas de zimbro
de fruta da época se a conseguia apanhar   
de uma perna descarnada de montanhês
nos tempos da grande solidão feliz
 O urso que outrora ia de Somner Valley a Livington pelo meio
das gramíneas das faias das nogueiras até às primeiras encostas
da grande montanha verde e negra

                                  ***
O meu urso
suave como um lilás
como um carvalho das Ardenas
sem saber ler sem saber escrever
O de muito perto da terceira subida nas Rochosas
ou mesmo da quinta ou da sétima
lá onde havia entre os abetos seculares um pequeno
lago sonolento
e se dizia que por ali emigrantes antigos tinham rebentado
no inverno coloquial de Wyoming evocado em Toulouse

Aquela senhora conferencista de boa perna dava-me volta ao miolo
Até me fazia sentir câmbrias

de Santa Fé a Colorado Springs
o meu urso  meu é claro ainda que de mil transeuntes contentinhos
Aquele que virando a cabeça   erecto   nos faz recordar o Quaternário
na sua imensa estrutura de velha fera indolente.

O Ganimedes
calmo empregado entre funcionários engravatados
pensa que pelas ruas faria dar gritinhos às raparigotas sem cuecas
a moda mais na moda de agora   imaginem vocês
a sua companheira ursa perdida com a barriga ao léu
                                    
                                          ***

Ganimedes
No Zoo parisiense ele é um senhor cheio de categoria
mau-grado o seu silêncio habitual
chegam a atirar-lhe maçãs   muitos lhe lançam
amendoins ou nozes de Agosto
e avelãs e até um maço de cigarros amarfanhado

O meu urso
Primo do meu primo Ribonard e dum grandalhão
mais tosco que a rocha Tarpeia
taberneiro merceeiro em La Jolle  onde eu ia com o tio Lenôtre
comprar botas de caçador de perdizes
de cigarrinho mais que malcheiroso sempre ao canto da bocarra
sempre ensopado em branco e aguardente barata.
Ganimedes

sob o luar e os planetas libertos aguarda o momento de estoirar.


segunda-feira, 26 de maio de 2014

Das estufas da proclamação

Nem os fascistas cripto-comunas da CGTPCP nem os do BE têm ainda uma posição-marabunta oficial para aplicar em blogs e Facebook? Ainda estarão a pensar se é apropriado ou contraproducente chamar à "nova ordem europeia" tudo aquilo que eles próprios são?

E as zenitais Edite Estrela e Ana Gomes, ainda não proclamaram a ressurreição do Maio de 68 na França dos luminescentes desígnios?

sábado, 24 de maio de 2014

Da "europa" do social .... fascismo

Do ponto de vista da liberdade (ou falta dela) de se exercer uma profissão ou uma actividade, o regime "europeu" é fascista e Portugal não escapa. O regime é fascista e este fascismo é uma "conquista" dos socialistas com envergonhado protesto da direita.

Existe uma figura chamada via pública. A via pública é usável por todos, todos são dela guardiões cabendo ao estado, por cobrar impostos para esse fim, cuidar dela especialmente. A via pública tem vindo a ser paulatinamente estatizada, passando a ser um recurso do estado cobrável ao cidadão.

Soube recentemente que um caramelo foi multado pela Câmara Municipal de Lisboa por estar a tocar guitarra na via pública. Não era um problema de ruído, não era um problema de estar a estorvar ou a atrapalhar alguém, era um problema de taxas. Não tinha pago a devida taxa de ocupação de espaço.

Voltando às profissões em geral, a GNR pergunta hoje, paulatinamente, onde estão as guias de circulação ou as facturas de um saco de ração para coelhos que seja transportado num carro particular de quem tenha uma coelheira*. É, evidentemente, uma intromissão de um estado fascista na vida de cada um e, neste caso, a GNR é a ferramenta de aplicação do ideal fascista.

O curioso é que o esquerdalho gosta de referir frequentemente que no tempo de Salazar, para se ter isqueiro era preciso ter-se uma licença. Pois, a esse respeito, o estado fascista de hoje ultrapassa por uma montanha o fascismo de Salazar.

Para quando a aplicação de impostos directos sobre a actividade de um particular que resolve cuidar do seu jardim? Fácil será "argumentar" que ele está a fugir de pagar os impostos que um jardineiro contratado teria que pagar. Quando faltará para se ter que trazer constantemente as facturas de compra do vestuário que se usa?

Para quando a proibição de troca de sementes entre pessoas que cultivam abóboras? Para quando? Essa já está na legislação.

Para quando a cobrança de taxas por se estar a conversar na via pública? Ou ... a pensar na via pública. Virá esse acto de conversar ou pensar na via pública poder a ser "indiciado" como crime de actividade económica por ser exercida ao arrepio de impostos?

Já não chega controlar-se todo o transporte de sacos de ração, desde a fábrica até ao lojista, será também necessário "provar-se" que o que o lojista comprou e vendeu, cobrando e pagando impostos, será utilizado para se alimentar galináceos, cujos ovos ... comidos pelo dono dos galináceos, terão que ser objecto de estatística susceptível da aplicação de impostos por poder ser coisa encarável como manobra para fuga ao pagamento dos impostos que o estado arrecadaria se os ovos fossem comprados no supermercado?

O marxismo está hoje a ser implementado por uma simbiose entre cozedura lenta de sapos e implementação de medidas fascistas. O estado em tudo manda, em particulares ou empresas, até que tudo fique abafado ao ponto de se tornar "necessário" que o estado actue ainda mais directamente em tudo. Toda a actividade é regulada e controlada pelo estado, estando a chegar-se ao ponto em que trabalhar-se ou não é irrelevante, por se ficar com exactamente o mesmo: a assistência "propiciada" pelo estado galopantemente falido.

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* No caso em questão, a pessoa referiu que já tinha comprado antes o saco, que por já não precisar dele o ia oferecer a um familiar, mas que o familiar não estava em casa. A GNR torceu o nariz, mas comeu. Havia facturas, mas a intromissão fascista era tão evidente que houve que usar uma apropriada técnica.

sábado, 10 de maio de 2014

ELES QUE FALEM COM AS FORMIGAS!


Nicolau Saião, Monstrinhos lusitanos

Por um abstencionismo criativo

Segundo a tese de Alain Lancelot,  professor catedrático de Sociologia no Colégio de França, normalmente os abstencionistas exercem quase sempre papéis sociais subordinados, são indivíduos mal integrados, correndo-se com eles o risco de as eleições se transformares num debate entre privilegiados. O abstencionismo é, assim, a não participação no sufrágio ou em actividades políticas, equivalendo a apatia ou indiferença.




Normalmente… Quase sempre…

Mas pode não ser assim…

Nos Estados Unidos, na Grécia, na Suécia, no Reino Unido, etc., cresce cada vez mais um movimento espontâneo, consciente, a que chamaremos Abstencionismo Criativo.
As pessoas, os cidadãos, cada vez percebem melhor que são, de facto, desenquadrados, desintegrados, desprezados pelo sistema de castas políticas, verdadeiros malandrins sociais, que ocuparam os cinzentos corredores da actividade governativa ou de poder.


Em suma, o poder está a fazer, e por vezes descaradamente, de nós todos pessoas e cidadãos supranumerários.



A melhor forma de lhes mostrarmos o nosso repúdio e oposição é deixarmos de lhes ligar meia. Não como objectos de análise do professor francês, mas como cidadãos conscientes e que se respeitam. Que é isso de fazerem pouco de nós, de nos prejudicarem a cada passo? Com as suas mentiras ou, dito de forma politicamente correcta (risos), inverdades?


Como somos pessoas dignas, mandemo-los à fava, deixemo-los a falar com as formigas.

Mostremos que somos possuidores de espinha dorsal e não meros bonecos que eles manipulam a seu bel-prazer.


Não votemos. Deixemo-los o mais possível sós e mergulhados nos seus sujos joguinhos de interesse. Mandemo-los bugiar.
Vamos à praia, vamos até ao campo, vamos passar umas belas horinhas com a amada e vice-versa, vamos ao museu ou a uma biblioteca – caso os encerrem, fiquemos em casa a ouvir Cimarosa, Mozart, Schubert, o Ennio Morricone…

Gustave Courbet, A origem do mundo

A pouco e pouco, crescendo o nosso desprezo por eles, crescerá também o justo ressalto, numa cidadania atenta, exigente, que não vai mais em cantigas de vigarista encartados.

Pratiquemos um Abstencionismo Criativo!

Nicolau Saião, Representante Europeu


Nicolau Saião / Manuel Caldeira
(Portalegre / Londres)

Nota – Os autores deste texto não seguem os preceitos do chamado Acordo Ortográfico. Em escrita ou mesmo a falar…


sexta-feira, 25 de abril de 2014

Passatempo revolucionário

Para além da instituição de liberdades individuais, sistematicamente tentadas pôr em causa pela eterna esquerdalha, que viragem se produziu de 74 para cá?

As sufocantes corporações do velho regime desapareceram? O que não faltam são sufocante e fascistas ASAEs (incluindo aquela coisa chamada "komissão de komissários europeus") para que toda e qualquer iniciativa de cidadãos (os do bicho estatal tresandam a anti-cidadão) seja arrasada.

Para que "Abril se cumpra" falta que Portugal se liberte do paquidérmico e anquilosante monstro chamado estado, seja ele o nacional ou o soviete dos komissários.

quarta-feira, 23 de abril de 2014

UMA CERTA MANEIRA DE NOS DAREM O FARDO…




    Diz o ditado, com doses se calhar consideráveis de realismo... ou de cinismo, que “todo o burro come palha, o que é preciso é saber dar-lha”.

   Talvez seja assim… Mas há também a frase, que se tornou famosa por ter sido um celebérrimo agente desportivo a proferi-la, que rezou: “E o burro sou eu??”.

    De há uns dias para cá, ao ver na perturbante TV os spots publicitários (ou deveria dizer propagandísticos – e propagandísticos entre o descaramento e a demagogia, a não ser que sejam ingénuos mas de uma ingenuidade roçando o impudor alvar) referentes ao 25 de Abril, caio na sensação de viver num filme de humor negro. Aquela gente não as pensará? Ilusionistas…

  Porque os protagonistas que ali nos dão como formais exemplos – estando os capitães, como se sabe, a viver agora numa espécie de limbo para onde os lançaram porque já não precisam deles – são quase exactamente os mesmos que nos mergulharam através dos tempos na “apagada e vil tristeza”, na repelente encanação em que agora vivemos: primeiro os que, com intenção totalitária, quiseram fazer da revolução dos cravos uma antecâmara dum “paraíso de Leste”, à semelhança desse lugar mirífico onde o povo de lá (em encenação filha duma ideologia mentirosa) mandaria tanto que não mandava nada… E que, a seu tempo, implodiu como um edifício apodrecido, um castelo de cartas de batota risível e realmente ignóbil; depois os que, tendo arteiramente conseguido camuflar o que de facto eram e sentiam, paulatinamente tiveram artes de herdar os bragais do regime anterior em que aliás os seus pares e, muitas vezes, os seus ascendentes, tinham mesa farta e benesses de se lhe tirar o chapéu.

   E, os velhacos, querem que o zé povinho – como se vivesse nas sete quintas - festeje acefalamente uma festarola como se nada fosse, como se gozássemos de uma situação excelente, como se isto fosse um mar de rosas, tempo de vinho e rosas como diz a frase proverbial???

   A publicidade – propaganda, demagogia – deles é para nos manterem numa ilusão. Para nos iludirem. Chamava-se a isso, nos tempos da Inquisição, “a tortura pela esperança”.

   E os burros vamos ser nós??? Não lhes façamos a vontade!

   Para finalizar, creio que muitos se lembrarão de uma quadra que chegou a ser muito conhecida no tempo da velha senhora. Aqui vo-la deixo, seguida de uma outra referente, e creio que apropriadamente, aos tempos de agora.

 A primeira é esta:

 Meu Portugal tão bonito
ó meu Portugal tão belo:
metade é Jorge de Brito
e o resto é Jorge de Melo

  E eis a de agora, que vos deixo à consideração pois me parece adequada e justa:

Meu Portugal tão porreiro
de que a malta tanto gosta:
metade é João Banqueiro
e o resto é Oliveira e Costa.

  Saudações democráticas e firmes do vosso

 ns

quinta-feira, 17 de abril de 2014

Os vampiros nada podem contra bolos fintos e amêndoas



Caros/as confrades e amigos/as

   Na tradição, claro, eram flores de alho e rosas brancas. E os monstros tradicionais, literários ou doutra área incluindo a quotidiana, ficavam apardalados!

   Digamos desta forma. O que eles sentiam era um incómodo muito salutar (para os que eles queriam morder, claro, que para eles era uma apoquentação que, em geral, antecedia a picada da proverbial estaca de madeira bem no centro do meio do coração (que não tinham?).

  Mas os tempos, mesmo os literários ou de outras áreas...de retórica romba, mudaram. Ainda que não para melhor. E, vai daí, os antídotos contra a tropa vampiresca também diversificaram o seu cunho, a sua estrutura resistente.

  E é aí que entram as amêndoas, os bolos fintos, o coelho de cachafrio e o anho assado da minha região, as outras coisas todas, saborosas e delicadas, das regiões de cada um. 

 Festejando, fruindo, ora pois não, a Festa. A festa de cada um com aqueles que nos são queridos.

  E - querem crer?! - já que estamos em tempos de Páscoa e a alegria da confraternização nunca eles nos conseguirão tirar  (o que a vampiragem menos gosta é de gente determinada a não se quedar macambúzia, descoroçoada, inerme frente ao temporal destino duma pátria madrasta) insistamos em nos mantermos aprumados, vivos e ao alto pois, como dizia Teófilo, "não basta que se esteja na posição vertical, é preciso manter-se nela".

  Nesta altura, desta natural e específica maneira. E alma até Almeida!

  Muito Boas Festas vos deseja o vosso, com os proverbiais abrqs e bjh

ns


PÁSCOA


1.Vem dos tempos antigos a voz desse tempo - antigos para mim, do meu tempo e não da História: era eu que levava ao forno da padaria do senhor Júlio que fumava de boquilha e tinha um dente de ouro (padeiro fino, não sei se me entendem) as latas com os bolos-fintos e as "enxovalhadas" ou boleimas que a Mãe e a Mana artilhavam com saberes de magas.

  Eu não sabia que era feliz. Só sabia que naqueles dias, naquele tempo de férias da escola, me davam amêndoas, me davam bolinhos doces, me davam alegrias e o Pai até umas suaves moedinhas...

  Eu não sabia que era feliz - e na sexta-feira às 3 da tarde soava o apito da fábrica e isso assinalava que alguém, há muito tempo, morrera de morte triste numa terra do Oriente. E sentia-se um estranho silêncio enquanto o apito soava. E eu sentia um frémito porque eu gostava desse alguém que há muito tempo morrera - sem me preocupar se ele era isto ou aquilo.

  Era um estremecimento, digamos um abraço solidário que ia de mim para ele, porque eu era criança. Ou seja: tinha tantos séculos!

  E não sabia, nessa altura, muitas coisas - só um poucochinho, um poucochinho mais do que sei hoje.


2. Ao longe a serra, ao longe como os tempos que passaram. Tempos de páscoa, serras de páscoa, recordações de momentos que depois preencheriam dias e lembranças.

    Amêndoas, bolos desta terra e daquela, festarolas tradicionais? Sim, isso tudo. E o mais que a emoção dá, que é ir-se vivendo com um resto de inocência e de fraternidade vital.

    Dentro de nós, fora de nós: para nós e para os outros - que também tiveram/terão o seu tempo de maravilhamento e nostalgia.

Nicolau Saião, Ecce Homo, vitral


terça-feira, 25 de março de 2014

O fardo bancário




Não existem crises financeiras sem culpas avassaladoras da banca. Conceptualmente a possibilidade é admissível mas na realidade, para mais numa tão devastadora como esta, é quase impossível. A banca portuguesa tem alimentado o mito de que, apesar da convulsão mundial, o seu balanço está livre de lixo tóxico e portanto imune aos problemas das congéneres, nomeadamente espanholas. Surge assim como inocente da euforia que gerou o desastre, pretendendo-se apenas vítima dos apertos da recessão. Essa ideia, credível e conveniente durante a fase mais negra, começa a constituir um obstáculo à recuperação.

Deve dizer-se que esse mito foi-nos muito útil a todos. Ele tinha uma base de verdade, pois o sistema financeiro português esteve, por várias razões, bastante afastado do sub-prime americano, razão directa do colapso de 2008. Isso constituiu um bom argumento para manter a reputação dos nossos bancos, precisamente no período em que uma suspeita seria fatal. Em época de tanto tumulto e desconfiança, era crucial manter a credibilidade das instituições bancárias. A base desse negócio, como aliás de toda a moeda, é apenas a confiança; quando ela desaparece, tudo se dissolve em fumo, com resultados socioeconómicos catastróficos. É por isso que abalar a imagem da banca é sempre irresponsável, em especial em momentos de turbulência. Nada do que este artigo diga pretende criar a menor dúvida acerca a solidez dos nossos bancos, que são sólidos e credíveis. Mas isso não deve servir para esconder problemas e evitar ajustamentos dolorosos.

É verdade que a banca portuguesa esteve, na sua maioria, imune ao contágio financeiro global de há seis anos. Mas existiu também uma euforia financeira doméstica, que usou irresponsavelmente crédito interno e externo (este último canalizado através de instituições nacionais) em projectos vácuos e mirabolantes. É bom não esquecer a nossa década perdida do crescimento, desde a viragem do milénio, que paradoxalmente acompanhou o inflar da bolha de dívida. O mundo viveu um período de crescimento artificialmente alimentado por crédito; em Portugal aconteceu o mesmo, só que sem crescimento.

Quando no fim de 2008 as empresas privadas portuguesas atingiram um valor de endividamento de 172% do PIB e as famílias de 101%, a culpa principal é evidentemente delas; mas os bancos não se podem dizer inocentes. Eles tinham de saber que era irresponsável distribuir o dinheiro a tais fins, e que grande parte desses empréstimos iria dar mal, mais cedo ou mais tarde. Um crédito malparado desta dimensão nunca é erro apenas de um dos lados, e o seu custo tem de ser repartido.

É indubitável que existem muitos negócios desvalorizados, se não mesmo moribundos, no activo dos bancos. A segunda metade dos anos 1990 e primeiros anos do milénio foram férteis em projectos optimistas que realmente nunca chegaram a lado nenhum. Os mais conhecidos são as sagas públicas do TGV e o novo aeroporto de Lisboa, mas houve miríades de privados. Pior, muitos igualmente mirabolantes chegaram mesmo a ser criados, para depois nunca terem os efeitos pretendidos. Nesses de novo a fama recobre os exemplos estatais, como o Magalhães e as PPP, mas muitas empresas se meterem em tolices equivalentes, a todos os níveis. Tudo, público ou privado, acaba sempre a apodrecer na banca.

Quando se verifica um caso destes o que há a fazer é estripar o cancro e lavar a ferida. Isso é sempre doloroso mas inevitável. O pior é negação e ocultação, que só aumentam o tumor. Isso podia fazer sentido na época em que o estado geral do doente era tão frágil que a cirurgia era impensável. Agora parece ter chegado a altura de tratar desse assunto.

A economia precisa de crédito para se levantar. Existem até investidores interessados em comprar e recuperar os monos dos balanços bancários, desde que cotados a desconto. Quando a banca se recusa a vender para não assumir perdas, que são evidentes, ela surge como sabotadora da economia que devia servir. Só admitindo a verdade se sai da crise.