domingo, 20 de julho de 2014

Das aventuras do Pato Donald







António, um rapaz de Lisboa





A cada semana, António Costa revoluciona a ciência económica. Primeiro foi a tese de que a riqueza é preferível à austeridade, inovadora aplicação na macroeconomia do princípio de Maria Antonieta. Depois, descobriu que o problema não é o excesso de licenciados, mas a falta de empregos para licenciados (criam-se os empregos e a chatice fica resolvida). Agora, explicou a uma embevecida plateia de sindicalistas que "não há crescimento sustentável com endividamento, mas também não há crescimento sustentável com empobrecimento", sentença que se comenta sozinha.

Se não se aproximassem as férias, o Dr. Costa ainda estaria a tempo de dizer que: 1) o investimento público é melhor do que o privado excepto nos casos em que o investimento privado é melhor do que o público; 2) o Estado social é sustentável desde que saia baratinho aos cidadãos; 3) Portugal não deve sair do euro enquanto os euros entrarem em Portugal; 4) pelo menos na perspectiva dos destinatários, os salários altos são preferíveis aos salários baixos; 5) o Pato Donald é um boneco.

Brincadeiras à parte, o que é isto? Não é de agora que Portugal não se pode queixar em matéria de produção de políticos absurdos. Mas entre as nulidades sem uma ideia na cabeça e o Dr. Costa, em cuja cabeça fervilham centenas de ideias desconchavadas, vai uma diferença considerável. Já nem falo da tentativa de vender o homem a título de salvador da pátria: falo do homem propriamente dito e da deprimente comparação com aqueles a quem sonha suceder. Ao pé do Dr. Costa, Passos Coelho passa por um modelo de estadista, Sócrates por um sujeito quase ponderado, Santana por um governante responsável, Barroso por um gigante do pensamento, Guterres por um paradigma da racionalidade financeira e Cavaco, ele sim, pelo salvador da pátria que nunca foi. Perante o Dr. Costa, até o jovem António José Seguro parece habitar o mesmo planeta que os restantes mortais.

Em suma, o Dr. Costa é um embaraço ambulante. Logo, provavelmente será depois do Verão o líder do PS e, se os amigos o mantiverem calado entretanto, hipotético primeiro-ministro no ano que vem. Um pessimista vê à distância e, na lógica do "depois de mim virá", tende a imaginar que espécie de calamidade pode aparecer ao País após o Dr. Costa. Um optimista desconfia que, após o Dr. Costa, é improvável haver País.



O BE que fica e o BE que parte




Em geral, tendemos a pensar no Bloco de Esquerda enquanto uma agremiação divertida. Dispõe bem contemplar à distância os movimentos de grupos, subgrupos e facções de um único indivíduo que diariamente abandonam esse partido moribundo a caminho do PS e das carreiras com que o PS, sobretudo o PS do Dr. Costa, lhes acena. O facto de todos os fugitivos se desculparem com a necessidade de "contribuir para convergências à esquerda" torna a brincadeira hilariante. O pormenor de todos se esconderem atrás de siglas, organizações, princípios e estatutos solenes eleva a brincadeira ao nível da grande comédia.

Ocasionalmente, porém, um pedacinho da realidade irrompe para nos lembrar da natureza do BE, e de que esta não é só galhofa. O Médio Oriente, por exemplo. Bastou Israel reagir aos constantes ataques sofridos a partir de Gaza para o BE vir falar em "banho de sangue" e propor as sanções económicas do costume. E o costume inclui o desprezo do BE face a um Estado civilizado e a simpatia pela barbárie mais à mão. O costume é o BE negar as "causas" que lhe valeram 15 minutos de fama em favor do seu exacto reverso.

O ódio aos ricos? Os líderes de Gaza passeiam-se em aviões de luxo e apascentam fortunas em contas offshore. Os direitos LGBT? Em Gaza a homossexualidade é punida por lei e os seus praticantes fogem da tortura rumo a uma certa nação vizinha. A igualdade de género? A islamização do território reduz as mulheres a um pechisbeque silencioso e reprodutivo. A violência doméstica? Calcula-se que mais de metade das mulheres locais seja espancada pelos maridos pelo menos uma vez por ano - tradicional e recatadamente. E há as restrições às artes e à internet. O racismo oficial. A imposição violenta da "virtude". As conversões forçadas de cristãos. E, numa prática que o BE lamentará não se usar por cá, o fuzilamento de dissidentes.

Sob o verniz da trupe burlesca e as mesuras progressistas para consumo dos simples, o BE, o que parte e o que resta, é essencialmente isto: criaturas avessas à democracia que usam o sistema democrático para ganhar a vida. Darmo-nos ao trabalho de as distinguir é tão inútil quanto perguntar-lhes porque é que a indignação que Gaza lhes suscita não se estende à Síria ou ao Egipto. Ou porque é que só nas recentes implosões eleitorais descobriram intolerante um partido que nunca foi outra coisa. Ou porque é que, em suma, se confere relevância pública a declarados ou dissimulados inimigos do público.



Um mundo de fantasia




Desde os 10 ou 11 anos que não leio banda desenhada, incluindo aquelas de super-heróis. Se lesse, não as reconheceria. Ao que consta, Thor (o semideus escandinavo com martelo de São João) é agora uma mulher. E o Capitão América vai ser preto, perdão, afro-americano. Mas, informam os autores da mudança, não será um afro-americano qualquer, e sim "um homem moderno em contacto com os problemas do século XXI". Isto é, o novo Capitão América "terá uma maior empatia com os mais desprivilegiados" já que, cito, "foi assistente social". Apetecia-me deixar um comentário sobre a terminal idiotia do nosso tempo. Porém, enquanto o Homem-Aranha não for "transgénero" e Hulk não acumular as aventuras com a presidência de um observatório, julgo ainda haver esperança.


quinta-feira, 17 de julho de 2014

Ventos político-financeiros




Não consigo perceber a insistência histérica do PCP em exigir a nacionalização do BES.

Ou será que percebo...?

terça-feira, 15 de julho de 2014

Portugal por...






Contracultura

Não vou mentir: houve um momento em que quase duvidei da capacidade de António Costa para regenerar o País. A culpa não é minha. Sucede apenas que, de tanto se habituar a políticos medíocres, uma pessoa sente dificuldade em distinguir a grandeza à primeira vista. Porém, à segunda não falha.

A minha epifania com o Dr. Costa aconteceu no dia em que li o manifesto "A Cultura apoia António Costa", e reforçou-se no dia em que o Dr. Costa se reuniu com "centenas de intelectuais" disposto a demolir convenções caducas. Em situação de crise, o populista comum falaria do desemprego e prometeria trabalho, falaria da dívida e prometeria crescimento, falaria dos pobres e prometeria compaixão. E melhor saúde e justiça mais equitativa, e educação mais capaz. O Dr. Costa ignorou estas palermices, foi directo ao que de facto importa e prometeu um Ministério da Cultura. A casa, no caso o Mercado da Ribeira, em Lisboa, veio abaixo - felizmente em sentido figurado.

Confesso que me rendi naquele momento. Não faz sentido pensar em distribuir benesses aos pobres ou à classe média sem antes assegurar que os intelectuais recebem a sua parte do bolo. Nas palavras, sempre belas, da escritora Lídia Jorge, "o sector cultural é um pulmão do corpo social", e ninguém de boa-fé deseja que Portugal sufoque. De que serviria uma economia pujante (as pernas da sociedade) ou o equilíbrio das contas públicas (os cotovelos) se a Cultura, com gigantesco C, agoniza com enfisema por falta de intervenção estatal? Dito de outra maneira, de que nos vale uma nação próspera em que a dona Lídia carece dos estímulos necessários à respectiva obra?

E quem diz a dona Lídia diz qualquer um dos intelectuais empenhados em consagrar o Dr. Costa, os quais, por definição, sabem aquilo que nos convém a todos. Se Virgílio Castelo recomenda o Dr. Costa, para mim chega. E se Luís Represas também o faz, para mim sobra. Eu quero estar onde estão Paco Bandeira e Tomás Taveira, Io Apolloni e Maria do Céu Guerra, Nicolau Breyner e Isabel Alçada, o Sr. Júlio do cavaquinho e António Mega Ferreira, Diogo Infante e Júlio Pomar. Por que carga de água duvidaria da superior percepção, face aos mortais, do realizador João Canijo e da fadista Mísia? Haverá alguém suficientemente burgesso para questionar o caminho apontado por Ana Zanatti e Alice Vieira?

Agora a sério. O ódio da "Cultura" à independência e à liberdade, passe a redundância, talvez não seja tão grande quanto o desprezo pela sociedade que diz ajudar a respirar. Ainda assim, não sei o que é pior, se a desmesurada presunção dos vultos citados, se a possibilidade de no eleitorado haver uma quantidade significativa de gente influenciável pelos vultos. Caso a haja, merece tudo de mau, incluindo a Cultura dos simples e o Dr. Costa.


O regresso das caravelas

Antes do jogo do Brasil com a Alemanha, um colunista do jornal Globo acusou a Presidente indígena de usar o Mundial de futebol como indicador do sucesso do seu Governo. Não sei quem vive mais fora da realidade, se o colunista se a dona Dilma. Em matéria de "projecção" internacional, realizar um evento daquelas dimensões no Brasil foi uma ideia tão luminosa quanto fazer um filme promocional de Dresden em 1945. Ao começar por chamar a atenção para a bola, o Mundial acabou a chamar a atenção para o resto: a miséria, a violência, a repressão, o caos, o atraso, a corrupção e uma economia que, há um par de meses, o responsável de um banco dinamarquês considerou a pior entre as dezenas de países que visita anualmente.

Aparentemente, a ideia, típica dos populismos latinos e de dois ou três regimes do hemisfério norte, era a de que o êxito desportivo disfarçaria o desastre fora do desporto. Ao que consta, o Brasil levou com sete golos e cada um ajudou a realidade a aproximar-se da superfície: o campeão mundial dos fracassos (cito de novo o Sr. Steen Jakobsen) conquistou mais um triunfo. E, se reeleger uma criatura com o esclarecimento e a seriedade da dona Dilma, não ameaça perder o título nos próximos tempos. Os tumultos e as lágrimas posteriores à goleada sugerem que a realidade local, submersa em doses variáveis de ressentimento e sentimentalismo, continua a ser um mistério para os autóctones.

E para muitos estrangeiros também. Numa daquelas rajadas de inanidades que alegram o dia de qualquer um, o sociólogo Boaventura de Sousa Santos apareceu a explicar que a União Europeia "morreu com a crise grega" e que Portugal e a Europa devem procurar "alternativas, olhando para o Sul global". Ao cuidado dos que já desataram a rir, informo que o melhor ainda vem aí. Ei-lo: é urgente um "regresso das caravelas", com uma "política renovadora de conhecimento", em busca da "inovação e das experiências de luta e de resistência do Sul".

Traduzido em português menos alucinado: a Grécia (e Portugal) arruinou-se, logo há que encobrir as causas da ruína - em suma o excesso de estatismo, a inépcia e a trafulhice - e proclamar a falência do projecto europeu, que por sua vez abre as portas à aprendizagem com calamidades em forma de nação, do Brasil à Venezuela, da Bolívia ao Uruguai. Num ápice, os gregos (e os portugueses) ficariam com saudades da penúria vigente, mas sofreriam uma penúria terminal arquitectada pelo Dr. Boaventura, obviamente um consolo. No fundo, dado que o prestígio dos idiotas aumenta em função da desgraça alheia, trata-se de convencer os alcoólicos a acrescentar ao currículo os prazeres do jogo e da cocaína.

Em princípio, é improvável que um adulto diga estas coisas a sério. Sucede que, no Sul das "alternativas", milhões de adultos não só dizem coisas similares: pensam-nas e votam em conformidade. Não admira que o Sul desperte a inveja da Terra. E não admira que, numa prolongada vénia ao absurdo, o Dr. Boaventura arrisque um comentário sobre a selecção portuguesa, que acha "o espelho do País: sem soberania e sem aspirações". Miremo-nos, pois, no Brasil. As caravelas estão prontas?


O que é preciso é saudinha

Só um coração empedernido não se comoveria face à greve dos médicos, sempre a zelar pelo bem-estar dos utentes. No Telejornal, um utente particularmente felizardo explicava que fizera 70 quilómetros para uma consulta que, afinal, não houve. Como ele, muitos viram as consultas adiadas ou canceladas. Aos mais afortunados aconteceu o mesmo com as cirurgias.

Em Portugal, morrem por ano cerca de três mil pessoas por negligência médica ou, para usar um termo brando, por "evento adverso". A Deco calcula que 60% dos portugueses receiam ser vítimas de erros médicos e que 58% já se queixaram formalmente dos ditos. Não é preciso ser sobredotado para perceber que um simples dia de greve reduz em 1/365 semelhante flagelo, que um mês e pouco de greve reduziria o flagelo em 10% e que uma greve permanente e ininterrupta acabaria com o flagelo de vez.

Quando se acusa a classe médica de corporativismo, esquece-se que nenhuma outra corporação assumiria com tamanha frontalidade as próprias limitações e falhas. E quando os médicos dizem que a sua "luta" é em defesa da nossa saúde, não estão a brincar. Até porque, é sabido, com a saúde não se brinca.

domingo, 13 de julho de 2014

E não é que ela descobriu a pólvora?!

Esplendor socialista

Tudo junto: cronies, amigos de cleptocratas, defensores de coisas verdes, reconstrutores do mundo.

Corrupção é isto.

"Actualmente, Manuel Pinho lecciona na School of International and Public Affairs, na Universidade de Columbia, numa cátedra sobre energias renováveis patrocinada pela EDP. Paralelamente, mantém-se vice-presidente do BES África."

...

"Este sábado o semanário Expresso fez manchete sobre o BES desconhecer beneficiários de 80% da carteira de crédito do banco. Segundo o Expresso, o BES Angola terá perdido o rasto a 5,7 mil milhões de euros."

A EDP é hoje o verdadeiro Ministério da Cultura "patrocinando" tudo quanto é artista. A "arte" e a "cultura" de braço dado à mais pura e dura corrupção. Eles acham bem, é uma empresa "boa" de regime.

Corrupção, como diz um amigo meu do centro do país, não é o tosco negócio de ganhar a custas de outro, pela calada. É pura corrupção a que nem permite perceber-se que se entregou a alma ao diabo.

sábado, 5 de julho de 2014

Rui Tovar por Nuno Rebocho





Recordando um amigo – Rui Tovar


Há anos que o não via nem com ele falava, mas tinha por ele uma longa amizade – desde que, em 1974, pouco antes da revolução, o conheci na redacção do velho “República”, onde então trabalhava, como revisora, a minha mulher. Desde essa época aprendi a respeitar o bom Rui Tovar e manter com ele amizade enquanto a vida o ia atirando de redacção para redacção, tantas vezes ao sabor das ondas do amor pela liberdade e democracia que nos unia – o antigo “Século”, o “Dia”, as bancas da “Rádio Comercial”.

Morreu o Rui Tovar. Ele, que abominava colocar-se em bicos de pés, foi notícia em todos os jornais e poderia ter falecido com a consolação de que até aqueles que o criticavam e ferozmente o perseguiram, afinal, o admiravam… até quando o procuravam isolar. Vamos descobrindo tais coisas à medida que envelhecemos.


Algumas vezes o visitei. Com alguma constância quando nos uniu a mesma revolta contra a extinção da ANOP (de boa memória) ou quando eu buscava colaborações para o “Novo Observador”, onde fui subchefe de redacção, ou o Carlos Plantier mo invocava nas mesas do “Jornal Novo” e, depois, de “A Tarde”. Tive então oportunidade de conhecer de perto as suas capacidades como jornalista, dos melhores, sempre amplamente informado do assunto que, como poucos, dominava – o desporto.


Foi com indignação que assisti à perseguição que os sicofantas (que hoje vejo chorarem “lágrimas de crocodilo”) lhe moveram. Tentaram arrasá-lo e hoje incensam-no. Muitas vezes por motivos politiqueiros (porque o Rui não se vendia nem se bandeava e sempre recusou os acenos dos inimigos da liberdade e rechaçou qualquer forma de censura), tantas vezes por ciúme ou inveja: a verdade é que quantos o amesquinhavam pouco ou nada valiam.


Custa-me este comportamento de “duas caras” que se tornou hábito de muita gente. Bem sei que “todos os mortos são bons”, sobretudo porque já não pode directamente denunciar as infâmias. Todavia, o dever da amizade, do respeito e solidariedade que, para com ele, tinha impele-me a condenar veementemente a reles hipocrisia de certos sabujos que, infelizmente, cada vez mais encharcam os meios de Comunicação Social.


Nuno Rebocho 

Luís Morgadinho, No país dos lambe-botas
(imagem recolhida aqui)

sábado, 28 de junho de 2014

CHAMAS DESPORTIVAS… NUM TEMPO SOB MEDIDA




   Este pequeno mas esclarecedor e creio que oportuno texto de Radovan Ivsic foi dado a lume pela primeira vez no catálogo da exposição internacional “L'ECART ABSOLU" (1965) e, depois, republicado no volume de ensaios do autor intitulado “CASCADES” (Editora Gallimard 2006).

    Agradecimentos são devidos a Laurens Vancrevel por mo ter enviado, bem como a Joaquim Simões que pulcramente o traduziu.


 “Estou firmemente convicto de que o desporto é o melhor meio de produzir uma geração de cretinos perniciosos”, escrevia Léon Bloy, sem suspeitar de que estas palavras proféticas poderiam em breve ser aplicadas a numerosas gerações de todos os continentes. Sob a máscara do jogo, de que é a caricatura senão mesmo a negação, ou, melhor ainda, do apolitismo e desta forma falaciosa do internacionalismo acerca do qual já Charles Maurras dizia: «esse internacionalismo não eliminará as pátrias, antes as fortificará», o desporto alastra desde há um século como uma elefantíase imunda. Nele não poupam os dirigentes de todos os países, não somente por o considerarem um complemento do serviço militar mas porque – denuncia-o também Benjamin Péret – enquanto «meio de embrutecimento» leva seguramente a palma aos demais. O célebre treinador americano Knut Rockne não imaginava até que ponto era certeiro quando afirmava: «Logo a seguir à Igreja, a melhor coisa é o futebol». Mais explícito ainda, o barão Pierre de Coubertin, promotor dos Jogos Olímpicos modernos, esclarece: «A primeira característica essencial do antigo olimpismo bem como do olimpismo moderno é o de ser uma religião. Ao cinzelar o corpo pelo exercício à semelhança do escultor modelando a sua estátua, o atleta antigo “honrava os deuses”. Copiando-o, o atleta dos nossos dias exalta a pátria, a raça, a bandeira». Esta passagem torna-se tanto mais significativa quanto é extraída de um prefácio à escandalosa olimpíada de 1936, inaugurada em Berlim por Hitler, onde o barão desportivo, promotor da «arte de criar o puro-sangue humano», saudará «um dos maiores espíritos construtores do nosso tempo», que «serviu magnificamente, sem o desfigurar, o ideal olímpico».

Os ensurdecedores espectáculos dos ringues e dos estádios retratam a organização da vida contemporânea, baseada na rivalidade e na concorrência, numa palavra, na competição, cujos efeitos não poderiam ser mais prejudiciais ao associativismo de Fourier. O campeão torna-se, em geral, graças a ela, num profissional, num trabalhador modelo que, à força de abstinência, paciência e suor, conquista o seu lugar ao sol poeirento das grandes provas. Far-se-á dele um homem-sanduíche à escala da grande imprensa e da televisão ou, melhor ainda, uma vedeta nacional, desde que, note-se, a sua vida em família seja exemplar. Quer para o adepto activo quer para o infame passivo, a suposta cultura física é habilmente erguida numa barragem aos excessos da vitalidade libertadora do indivíduo, que tenta escapar às garras do progresso técnico sem derramamento de sangue ou aos danos de uma educação esclerosada. De origem escolar, o desporto transforma-se numa dura escola onde, sob a orientação do instrutor técnico, se aprende «a paixão da docilidade». O estádio é a porta grande que leva ao mundo dos robots.

No centro desta exposição, a máquina de lavar todos os jornais, de L’Aurore ao L’Humanité, e do New York Herald Tribune ao Quotidiano do Povo, de Pequim, terá de branquear, entre outras, uma profusão de omnipresentes páginas desportivas. Tanto pior para algumas raras e, por vezes, magníficas fotos de bólides em chamas invadindo arquibancadas a transbordar, antes de explodirem: tal flash solene é a única luz apropriada a estes locais sinistros. 

Radovan Ivsic



segunda-feira, 23 de junho de 2014

Sobre a pátria do cão de Obama...





... mais três crónicas de Alberto Gonçalves:



O pensamento mágico

Após o heróico 0-4 com a Alemanha, as televisões foram naturalmente à cata de transeuntes frustrados. Encontraram imensos, cada um com a sua justificação para a derrota. Algures em Lisboa, à porta de um daqueles antros que congregavam os militantes do falecido BE, uma rapariga com ar de militante do falecido BE explicava que o pior nem era a goleada: era a goleada perante os alemães e, evidentemente, a sra. Merkel.

Apesar do profundo e até certo ponto indescritível absurdo da opinião, esta esteve longe de ser isolada e circunscrita ao Bairro Alto. Contaram-me que, na Sport TV, o ex-futebolista Carlos Manuel, com um sorriso onde em tempos medrava farto bigode, dissertava antes do jogo sobre a necessidade de vencer a chanceler alemã. O também funcionário da casa Pedro Henriques, que não conheço de lado nenhum e que é o único comentador televisivo que, no futebol e no resto, escapa ao ridículo, informou o sr. Manuel que a sra. Merkel trata de defender os interesses dos seus eleitores, e que teria sido preferível os nossos governantes destes 40 anos procederem de forma idêntica em vez de alimentar bodes expiatórios para a inépcia e a trafulhice.

Do que o País precisava era de um Pedro Henriques em cada esquina. Infelizmente, tal não se vislumbra possível, pelo que convém aceitar a realidade: muitos portugueses não aceitam a realidade. O tipo de cerebelo que julgava vingar as frustrações pátrias num jogo da bola é o mesmo que atribui a terceiros a responsabilidade pelos erros próprios. Por improvável que pareça, havia gente que ansiava por ver no relvado uma compensação face à "arrogância" da sra. Merkel. Sem surpresas, é a mesma gente que decidiu unilateralmente a obrigação da sra. Merkel em patrocinar-nos sem condições. Trata-se, sem tirar nem pôr, daquilo que os antropólogos designam por "pensamento mágico".

O pensamento mágico estabelece nexos de causalidade entre acções ou eventos independentes entre si. Imaginar que a queima de uma madeixa de cabelos implica que o seu antigo proprietário irrompa em chamas é igual a imaginar que um remate certeiro de Cristiano Ronaldo afectaria a economia alemã. Ou a imaginar que a prosperidade da economia alemã é que maldosamente impede o Estado indígena de gastar tudo o que gostaria. Estamos no reino, ou na república, do puro vudu, típico em sociedades primitivas e, pelos vistos, na portuguesa.

A má notícia é que o pensamento mágico é obviamente irrelevante para o mundo exterior. A boa notícia é que pode ser exercido com absoluta liberdade. Se o confronto em Salvador da Bahia não correu bem, nada impede a menina do BE de humilhar a Alemanha numa partida de poker com o Franz do InterRail, ou o ex-futebolista Carlos Manuel de exibir mestria nos dardos contra um retrato do ministro Schauble. Claro que o ideal seria um país capaz de escolher a racionalidade e lidar com as coisas como elas são. Mas isso já entra no domínio do sonho, e convém deixar o pensamento mágico aos especialistas.


O sexo e a idade

Uma Sociedade Portuguesa de Psicologia da Saúde realizou um estudo sobre a implementação da educação sexual nas escolas. Os resultados são dúbios. Por um lado, de acordo com o Jornal de Notícias, "os alunos do ensino secundário gostariam ainda de estar mais envolvidos nas atividades relativas à educação sexual nas escolas, manifestando disponibilidade para serem "mentores, em atividades informativas e formativas com colegas mais novos"". Por outro lado, os alunos em geral sentem-se desmotivados - sempre uma maçada nestas questões - e "criticaram a forma "idêntica e sem progressão" de apresentação" dos assuntos. Vamos por partes.

Desde logo, é bom sinal que os petizes mais crescidos pretendam ser "mentores" (um óbvio eufemismo) dos mais pequenitos no que toca ao sexo. Sempre indicia que a existência dos adolescentes contemporâneos não se esgota na PlayStation e no Facebook conforme se chegou a temer. Pelo menos alguns percebem que, em matéria de possibilidades reais, a Patrícia do 8.º G é preferível a Lara Croft.

Em contrapartida, talvez não se aconselhe ouvir as recomendações de crianças a propósito das disciplinas a sério. No caso da Educação Sexual, que não serve para nada, excepto para preencher horários e convencer pedagogos da sua própria modernidade, o problema não se põe. Mas imagine-se que se passa a ouvir os meninos e as meninas acerca dos conteúdos e dos processos de ensino em Matemática, Física e coisas assim: na perspectiva optimista, arrasa-se num ápice com o que resta da exigência educativa. Na perspectiva pessimista, essa exigência faleceu há muito, pelo que ouvir crianças, pais, tios, sindicatos, professores, tutelas ou os órgãos sociais da Associação Recreativa de Massarelos não faz diferença nenhuma.


A terceira via em "collants"

Ainda haverá alguém com vontade de rir das pantominices de "Tozé" Seguro? Bastou espevitar as ambições do dr. Costa para o ainda secretário-geral parecer, por comparação, um paradigma de sensatez. No início da sua caminhada triunfal rumo ao poder, o dr. Costa, que, segundo artigo biográfico no Público, praticou ballet com os "filhos de operários e de prostitutas", começou por adoptar o exacto vazio retórico do seu concorrente. A estratégia motivou, entre a escassa opinião publicada que não venera o antigo bailarino, acusações diversas, ou sobretudo a acusação de que, salvo pela tez de um e as sobrancelhas do outro, era impossível distinguir o dr. Costa do dr. Seguro.

Alarmado, o ex-colega dos filhos de operários e de prostitutas convocou o staff a fim de adoptar novo plano: se a emissão de vacuidades comuns não funcionava, havia que passar a emitir vacuidades absolutamente tresloucadas de modo a elevar-se acima da concorrência - ou, na pior das hipóteses, abaixo.

O primeiro fruto desta visão revisionista surgiu sob a forma de uma pérola de economia alternativa. De acordo com o dr. Costa, o primeiro-ministro "ou aumenta os impostos para aumentar a receita ou faz corte dos salários para baixar a despesa. Ora, nós não podemos viver neste quadro de opções tão limitado e temos que dizer ao primeiro-ministro que percebemos que ele não sabe sair dessa receita". Por felicidade, "há uma outra receita", "uma terceira via" que Passos Coelho "não sabe, nem quer aprender", mas há que "lhe ensinar": "aumentar a riqueza".

Repito, para que não restem dúvidas: num demi plié arrebatador, o dr. Costa propõe aumentar a riqueza. E é isto que distingue os eleitos. Enquanto a comum cavalgadura se debate com um cobertor que ora cobre a cabeça ora cobre os pés, os que desenvolveram o génio junto da descendência de proletários e marginais arranjam um cobertor maior. Desde a Maria Antonieta da lenda e dos brioches que não se via rasgo assim: para não sermos pelintras basta que sejamos milionários, evidência cujas aplicações são ilimitadas. O cidadão hesita entre a bicicleta e os transportes públicos? É melhor comprar um Mercedes. Férias em Tenerife ou no Algarve? Quinze dias no Sandpiper em Barbados. T0 em Campo de Ourique ou T2 no Cacém? T4 tangencial a Washington Square.

A continuar neste ritmo, o dr. Costa já não irá a tempo de ensinar a terceira via ao pobre dr. Passos Coelho. Mas arrisca-se a conquistar a chefia do PS, a liderança do Governo, um ou dois Nobel e um lugar de solista no Bolshoi.

domingo, 15 de junho de 2014

Modelo de Acta de Conselho de Turma (recebido por e-mail)




Só quem não está por dentro das situações poderá pensar que isto haja sido escrito como quem escreve uma piada:

“Relativamente ao aproveitamento, o Conselho de Turma caracterizou-o como hilariante, uma vez que os níveis atribuídos pouco têm a ver com o desempenho dos alunos, mas sim com outros fatores, nomeadamente: o desejo de nunca mais os ver na sala de aula, o que se conseguirá se transitarem todos para o ciclo seguinte; a necessidade de cumprir as anedóticas metas de sucesso, de forma a evitar o paleio justificativo no relatório de avaliação de desempenho e demais documentação; a vontade de evitar recursos por três ou quatro encarregados de educação, previamente referenciados pelo conselho de turma como "carraças parentais obcecadas com a entrada dos descendentes para o curso de medicina" [soou uma gargalhada geral].------------

Os docentes de Expressões acrescentaram que também não têm vontadinha nenhuma de aturar os comentários infelizes de vários quadrantes sobre a importância das suas áreas curriculares, pelo que o nível mínimo que atribuíram foi quatro, este para penalizar o Zezinho por nunca ter levado sapatilhas para Educação Física, nem papel e lápis para Educação Visual.-----------------------------------------------------------------------------

A docente de Inglês esclareceu que mais de metade da turma não distingue ainda “yes” de “no”, mas que lhe é impossível chumbar toda essa gente, com medo do que poderá acontecer [nesse momento, fez-se silêncio temeroso].---------------------------------------------------------------

As docentes de Matemática e de Português desataram em prantos, lembrando-se da discrepância que certamente existirá entre avaliação interna e notas dos exames nacionais, impedindo-as de se manterem camufladas na “bondade avaliativa” como os demais [soaram exclamações de compreensão e comiseração]. A docente de Matemática classificou ainda de “melgas inúteis” os pais e demais parentes que acompanham vários alunos na realização dos TPC e que os instruem no sentido de pôr em causa tudo o que acontece nas suas aulas, embora a maioria nem o nono ano tenha concluído [interjeições de concordância], ao passo que a docente de Português desabafou que às vezes tem ganas de imitar Espanca, só para não ter que voltar a ler a rambóia de disparates e facadas na bela Língua Lusitana. Nessa altura, a professora de Educação Visual contou que fora interpelada na rua pela mãe da Tikinha, que lhe explicara que a desconcentração da criança se devia à sua tendência artística e sonhadora [mais galhofa]. -------------------------------------------------
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Os docentes de Ciências Naturais e de Ciências Físico Químicas explicaram ao conselho que, no âmbito da interdisciplinaridade, tinham decidido uniformizar os critérios de avaliação, a saber: nível três para quem tivesse pulsação, nível quatro para quem também respirasse sozinho e nível cinco para quem emitisse cumulativamente sons [olhares de admiração]. -------------------------------------------------------------------------------

As docentes de História e Geografia declararam que não abdicavam dos seus princípios, pelo que tinham atribuído nível dois a um aluno que nunca compareceu [silêncio constrangedor]. O diretor de turma sugeriu que se alterasse para “dois mais”, o que mereceu concordância de todos, quanto mais não fosse para não terem que aturar os chiliques pedagógicos do Gabinete de Psicologia. ------------------------------------- (...)”


Os sapos cozem-se, vivos, devagar

O que os marxistas fazem hoje (BE, PCP, o escarro Os Verdes e o PS-BE) por onde podem e um pouco por todo o lado, especialmente nas democracias onde a todos convencem estar a dita bem sedimentada:

Numa primeira fase encrencam o regime ao ponto de conseguirem condicionar pelo menos uma legislatura. Com a colaboração de militantes (da ideologia, não necessariamente do partido) especialmente bem colocados (no TC, por exemplo), limitam a acção do governo para, "provarem" que não há alternativa.:

A seu tempo apresentam-se como salvadores da pátria.:

Entretanto, outras lutas internas, entre marxistas, limpam o caminho aos mais fascistas e, logo que possível, soltam a máscara de fascistas e revelam a de comunistas. Deixam de ser movimentos que toleram a iniciativa e propriedade privadas (fascistas), muito embora tudo façam para mandar em tudo quanto é privado (regulamentação e impostos), para se transmutarem em movimentos que 'prescindem' da propriedade privada transferindo, a decisão sobre a posse dessa propriedade para komités religiosamente mantidos pelo partido hegemónico que sobreviver à refrega.:

Ponham os olhos no Brasil e está lá tudo.

Leiam o que escreve Olavo de Carvalho e aprendam. Ou aprendem ou perderão por falta de comparência. Aquela gente, pestilenta, trabalha a longo prazo. É devagar que se cozem sapos vivos.

sexta-feira, 13 de junho de 2014

Do país da rataria...




... escrevia assim Alberto Gonçalves no passado domingo, no DN:


Um país à escala do Rato

Uma história engraçada a correr por aí é a do medo que António Costa suscita na direita. Em primeiro lugar, não sei o que se entende por "direita", se os partidos no Governo ou se as pessoas que não apreciam um Estado intrometido e salteador (ambas as instâncias parecem-me algo incompatíveis). Em segundo lugar, garantiram-me que uma sondagem "interna" coloca o portentoso "carisma" do Dr. Costa um ou dois pontos percentuais acima do pobre rival nos gostos do eleitorado em geral. Por conveniência, admitamos que PSD e CDS andam assustadíssimos e que as facções empenhadas em enxotar o Dr. Seguro têm razão.

Ainda assim, não é esse o ponto. O ponto é a tese que resume os apetites dos insurgentes no PS: trocar o líder A pelo líder B é vital na medida em que A não é capaz de devolver os socialistas ao poder (ou o poder ao partido) e B talvez o faça. Pelo menos a franqueza é louvável. Claro que todos os partidos actuam em benefício daquilo que os coloca próximos do mando, mas costumam disfarçar a cobiça sob o simulacro de um debate interno e vagamente ideológico. O PS do Dr. Costa, ou que se serve do Dr. Costa, não disfarça. Ali não existe a menor intenção de distinguir o pensamento do autarca lisboeta do pensamento do secretário-geral, tarefa de resto impossível na medida em que nunca qualquer deles revelou possuir semelhante excentricidade. B é preferível a A porque sim.


Marx, o bom e velho Groucho, esclarecia: estas são as minhas convicções; se não gostarem, arranjo outras. No PS não há convicções nenhumas, excepto a certeza de que se está mais confortável a decidir orçamentos do que a votar contra eles, a satisfazer clientelas do que a pedir-lhes paciência, a afundar a economia do que a acusar Pedro Passos Coelho do mesmo. Não ocorre aos socialistas que à margem das intrigas há alguns milhões de cidadãos, certamente cansados de austeridade e provavelmente abismados com o brutal egoísmo dos que lhe prometem o fim da austeridade. Em suma, discute-se o melhor para o PS como se se discutisse o melhor para o País. Por acaso, e por norma, costuma funcionar ao contrário. Nesse sentido, e só nesse, o Dr. Costa mete medo.

segunda-feira, 2 de junho de 2014

Azulejos para Madagáscar


Jules Morot


 Com a delicadeza típica dos grandes espíritos, das pessoas de razão e coração que temos por vezes a sorte de ter por amigos, dias atrás recebi uma carta do Jules Morot - há dois anos a leccionar em Madagáscar - na qual o excelente autor de "Récits du parc" me solicitava se eu não poderia vender-lhe (vender-lhe!) um cartão para azulejo para ele ornamentar a sua casa de La Jolle. No género dum daqueles que, pouco mais que há um par de anos, eu lhe dera para o seu entreposto (adega e salão de provas) bem situado nos campos perto de Tours. Sugeria mesmo se não poderia ser um igual ao que eu mesmo tenho na sala de cima da minha cabana de Arronches. É que quando ele me visitara - e que visita mais ou menos helénica foi aquela!, pois se fizera acompanhar, para além da sua esposa Julienne, de uma boa dúzia de garrafas do seu afamado tintol "Pérouse", aquele de se dar estalos co'a língua bem colocada - dizia eu, gostara do maroto do painelzito (bondade dele).

   Com fraternal sadismo, disse-lhe que não. Com efeito, porque não vendo os meus quadros (surrealista que sou, tenho este hábito, confesso que mau, de os fazer para meu próprio gozo...e de alguns amigos que iam a mostras que dantes fazia mas já não faço). Manias. Mas bom: que a seguir disse-lhe que, como me sentia ligeiramente pachorrento não lho vendia mas...lho dava. E, como me empolgara, que ia executar uma versão um pouco diferente do outro, embora seguisse o mesmo figurino e estilo. E, num exagero de doçura, que lhe ia mandar não um...mas quatro. (É que não me esquecera da semana que há 3 aninhos passei na sua mansão, onde petisquei do fino e engorlipei do bom, sempre tudo posto num ambiente fraternal com que os franciús que se prezam, acho eu, gostam de acatitar convivas).

  Foi nessa altura que ele me deu, para que eu o traduzisse, um dos seus poemas, que em anexo apresento aos caros confrades para aquilatarem da categoria real deste criador de vinhos doublé de professor, de gastrónomo e de poeta em pleno. 

  E fiz seguir os cartões. No fundo o privilégio era meu. E não digo isto a reinar!



   (... Em meados do próximo ano lá os irei contemplar, estes filhos emigrados (como muitos portugueses dest'época algo surpreendente...).



     E, o que será muito melhor, enquanto ambos os dois, mais a Julienne anfitriã de brios, degustarmos calmamente assim umas coisinhas deliciosas. Evohé!


   
O URSO GANIMEDES
Ele levanta-se
coitado dele
e nós sentimos aquele arrepio inquietante
da sexta-feira ligeiramente escura
Cristãos comunistas desportistas consumidores de alcachofras
e mesmo outros de crânio em silhueta contra a luz da lua
no meio do frio glacial do continente antártico
se bem me entendo  financistas agentes de câmbio
comerciantes  ruidosos alunos de artes polícias
personagens que fazem navegar os barquinhos nos tanques dos seus
jardins da infância
Velhos capões
Notamos dizia eu  ou melhor    notam vocês os que
ainda por aí têm sonhos
a sua poderosa silhueta de comedor de bagas de zimbro
de fruta da época se a conseguia apanhar   
de uma perna descarnada de montanhês
nos tempos da grande solidão feliz
 O urso que outrora ia de Somner Valley a Livington pelo meio
das gramíneas das faias das nogueiras até às primeiras encostas
da grande montanha verde e negra

                                  ***
O meu urso
suave como um lilás
como um carvalho das Ardenas
sem saber ler sem saber escrever
O de muito perto da terceira subida nas Rochosas
ou mesmo da quinta ou da sétima
lá onde havia entre os abetos seculares um pequeno
lago sonolento
e se dizia que por ali emigrantes antigos tinham rebentado
no inverno coloquial de Wyoming evocado em Toulouse

Aquela senhora conferencista de boa perna dava-me volta ao miolo
Até me fazia sentir câmbrias

de Santa Fé a Colorado Springs
o meu urso  meu é claro ainda que de mil transeuntes contentinhos
Aquele que virando a cabeça   erecto   nos faz recordar o Quaternário
na sua imensa estrutura de velha fera indolente.

O Ganimedes
calmo empregado entre funcionários engravatados
pensa que pelas ruas faria dar gritinhos às raparigotas sem cuecas
a moda mais na moda de agora   imaginem vocês
a sua companheira ursa perdida com a barriga ao léu
                                    
                                          ***

Ganimedes
No Zoo parisiense ele é um senhor cheio de categoria
mau-grado o seu silêncio habitual
chegam a atirar-lhe maçãs   muitos lhe lançam
amendoins ou nozes de Agosto
e avelãs e até um maço de cigarros amarfanhado

O meu urso
Primo do meu primo Ribonard e dum grandalhão
mais tosco que a rocha Tarpeia
taberneiro merceeiro em La Jolle  onde eu ia com o tio Lenôtre
comprar botas de caçador de perdizes
de cigarrinho mais que malcheiroso sempre ao canto da bocarra
sempre ensopado em branco e aguardente barata.
Ganimedes

sob o luar e os planetas libertos aguarda o momento de estoirar.