quarta-feira, 25 de abril de 2012

Portugal, 25 de Abril de 2012



Não o conheço, mas teve a amabilidade de me enviar um texto seu, ontem aqui publicado. E que eu, pela minha parte, divulgo com a devida vénia a quem o escreveu.



MILITARES DE ABRIL QUEREM SAIR DE NOVO PARA A RUA
O Protagonismo político camuflado na A25A

A “Associação 25 de Abril” (A25A) fiel à ideologia inicial do seu “Abril não desarma” declara que “não participará nos actos oficiais nacionais evocativos do 38.º aniversário do 25 de Abril” mas sim em comemorações populares, traduzido isto em texto claro: participará em comemorações arruaceiras. A A25A quer ver os militares abrilistas na rua antes que o povo os chame à responsabilidade. Nestes festejos, a sociedade portuguesa deve estar atenta não só aos que comemoram a oficialidade como também aos mais populistas, aos “conscientes das obrigações patrióticas que a nossa condição de Militares de Abril nos impõe…”, aos que, oportunamente abandonam as bancadas, como faz agora Soares. Só assim, os portugueses poderão concluir do conluio entre irresponsabilidade política e popular para se tornar imune contra o oportunismo de ideologia e de rectórica alienante.
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Aproveitando-se do mal-estar português, a A25A torna-se porta-voz de recalcados anseios dos seus “Militares de Abril” por um novo Golpe Militar. A A25A apoia descaradamente a opção militarista como solução para os problemas de Portugal, como Portugal fosse uma república das bananas interessada na solução árabe para Portugal. De facto, a A25A confessa, para quem lê nas entrelinhas: “declaramos ter plena consciência da importância da instituição militar, como recurso derradeiro nas encruzilhadas decisivas da História do nosso Portugal”. Portugal “nosso” deles…


Continua-se com a mesma oratória de há 200 anos para cá, como se os problemas políticos e sociais das sociedades modernas pudessem ser solucionados com uma rectórica irresponsável. Têm ainda a insolência de afirmar: “a nossa atitude não visa as Instituições de soberania democráticas”, como se esta acção demagógica não partisse de pessoas ligadas às instituições de soberania como é o caso de Militares e não fosse apoiada como pessoas como M. Soares.


Afinal, quem são os “Militares de Abril”? Uma aparição salvadora? O protagonismo político, que a A25A cobre, é irresponsável, num momento em que Portugal ferve e deveria reflectir sobre si mesmo e sobre estratégias isentas para sair da crise. Fala-se do Militares de Abril como se na terceira república não tivéssemos também os militares de Novembro. Será que as forças militares se sentem obrigadas a ideologias ou a facção abrilista está interessada em criar o caos em Portugal?


Os interesses da facção dos “Militares de Abril” e seus aliados, em tempos de crise descobrem a rua e muitas autarquias locais como campo de acção, para, por trás do mito de Abril (Primavera) poderem continuar a vestir a pele de cordeiro e poderem, no ribeiro popular, afirmar que quem “suja” a água não são eles mas os outros, os maus. Camuflados dos ideais de liberdade, justiça e libertação enganam o povo dizendo “A A25A participará nas Comemorações Populares e outros actos locais de celebração do 25”.


É cinismo verificar como “Militares de Abril”, que, com os seus cúmplices de partido, atraiçoaram os interesses de Portugal, a nível internacional, se querem agora aproveitar da crise e das insatisfações do momento bem como correspondente descarga de culpas no estrangeiro. A culpa morreu solteira, sabia o povo de antigamente! Em nome de Abril, a terceira república meteu a carroça da nação na lama e os seus beneficiados querem-se agora ilibar, armando-se em libertadores da nação. Coisa semelhante aconteceu na primeira república que depois deu origem à do Estado Novo. A Nação portuguesa já está habituada a ser o bombo da festa de oportunistas à espera do momento para assaltar o Estado. Quem provou os seios do Estado foge do povo para se alimentar dele.


Na sua ética e moral jacobínias atiram pedras escondendo-se por trás de palavrinhas mágicas como liberdade, cidadania. Do alto do barranco do protagonismo político da A25A, pretendem a sua “Integração plena na sociedade portuguesa” como se eles não se tivessem de integrar na sociedade portuguesa. Esta mentalidade tem sido o cancro da nação: em vez de se pretender integrar as partes no todo pretende-se reduzir o todo à parte!


Que as condições mercantilistas impostas a Portugal devam ser contestadas é lógico mas que o movimento republicanista se lave as mãos da lixeira por ele criada, ultrapassa os limites do tolerável.

O que falta em Portugal é o sentido dum trabalho produtivo, um voltar à terra e ao povo deixando a ideologia que apenas serve os privilegiados, os tais de “corpo inteiro”, já que turbo-capitalismo e esquerdismo só valorizam o trabalho à custa da dignidade humana. 
Os quadros da ideologia e da economia, esses, os senhores da ética (que enriqueceram à custa do 25 falam agora de “ética como “palavra vã”) são os novos-ricos alimentados à custa da exclusão social e de dinheiros da UE. Senão observe-se a excrescência que o 25 de Abril tem produzido: gente esfomeada do dinheiro e da ideologia a viver seus nichos e uma pobreza cada vez mais envergonhada. Enriqueceram à custa da revolução e à sombra da revolução atiram pedras sabendo bem que quem paga a crise não são eles, os encostados à Nação mas sim o povo que a alimenta.


Construíram um Portugal dos oportunos (somos dos países com mais cargos em instituições internacionais e vêm agora queixar-se que “Portugal não tem sido respeitado entre iguais”. Precisam dum Portugal vítima para não terem de ser chamados à responsabilidade. Os delinquentes são sempre os de fora! Para si só importam o marisco!...


Falam de barriga cheia porque sabem que a crise, seja ela qual for, só ajuda os das margens da esquerda e os das margens da direita. A terceira república fomentou a irresponsabilidade, o medo sub-reptício, o conformismo e o oportunismo; tudo isto em nome do combate ao fantasma de Salazar, pensando que se pode viver à custa do trabalho dos outros. O povo não come moral nem ideologia e neste momento o que tem é fome, fome de justiça e de trabalho digno e de honra ganha com o próprio esforço.


Os Militares revolucionários de Abril queriam-nos um protectorado de Cuba, Pequim e Moscovo e, agora, no seu camuflado de libertadores abrilistas, acusam-nos de sermos um “protectorado”. Protectorado não é porque Portugal conhece bem o sol do oportunismo e a sua situação de terra maninha, a terra do que é mais forte. A nossa História dos últimos séculos só dá razão aos fracos no momento em que servem de plinto para os mais fortes subirem.


No manifesto da A25A, incapazes (a situação em que nos encontramos é disso a prova) acusam Portugal de ter “dirigentes sem capacidade autónoma de decisão” como se não tivessem sido eles, também, quem na altura abdicou de Portugal para se deixar ir na corrente mais forte.


O regime da terceira república configurou a Constituição Portuguesa e o povo na afirmação dos seus ideais e valores ideológicos e numa estratégia de derrube de tudo o que cheirasse a tradição ou a ética da responsabilidade pessoal e institucional. O povo dançou e dança nele ao toque das bandas políticas deles e da moda; agora sofre as consequências e os organizadores da festa têm o desplante de se armarem em homens bons. Porque “Abril não desarmou”, Portugal chegou onde chegou. Há 38 anos os militares de Abril na “convicta certeza „ de só eles serem os porta-vozes do povo, quando, o que fizeram foi substituir um regime autoritário por outro, e permanecer na “convicta certeza” de só terem certezas para oferecer, esquecendo que o que faz um povo crescer é a dúvida metódica. Se “Abril não desarma” o povo encontra em guerra: a guerra do oportunismo só serve os tais que sempre vivem encostados à “convicta certeza” como quer a A25A.


Ontem como hoje os portugueses gritaram e gritam por liberdade; ontem como hoje os responsáveis falam da culpa dos outros e o mesmo povo entra no jogo não notando que está sempre a canto! O que Portugal precisa não é de revolução, o que o precisa é de responsabilidade. Quem aposta na culpa dos outros precisa de um inferno para eles! Esquece que o paraíso que tem para oferecer é o inferno dos outros também!


Viva Portugal, termina o manifesto. Os mercenários internacionalistas de outrora camuflam-se agora de patriotas e gritam a palavra oportuna do momento: Viva Portugal!

António da Cunha Duarte Justo

terça-feira, 24 de abril de 2012

TEXTOS DIVERSOS (1)




  A DEMOCRACIA DELES…



“Mário Soares, no seguimento de declarações de Vasco Lourenço, diz que não participará nas celebrações oficiais do 25 de Abril” – dos jornais
  
  Soares, que de acordo com observadores bem colocados sempre foi um perito em camuflar a sua vaidade e videirice política amparado em activistas da mesma lavra como os almeidas santos da sua "entourage", nesta última fase da sua vida destapa-se e mostra a sua verdadeira face de prepotente (caso da multa), de insensato (não teve uma palavra para exautorar Sócrates ou Constâncio) e de, finalmente, antidemocrata quando contrariado no seu querer.

 Não apela à sedição, parece assumir já a própria face desta; alegadamente rancoroso e falso irmão, talvez julgue pôr na balança prestígio para tombar um prato - mas prestígio já não terá, o Povão agora já o conhece, já o situou: o ex-político eventualmente capaz de tudo, simbolicamente falando, para destroçar os adversos, mesmo que tal prejudique a Nação que votou de maneira que lhe não agrada.

   Um caso lamentável de aparente pedantice, perigosa e mesmo ridícula. Este indivíduo, na opinião de muitos, um dos responsáveis, por acção e omissão posterior, do estado a que chegámos, agora parece postular uma verdadeira golpada, bem como outras figuras reumáticas do mesmo jaez. 




 Nicolau Saião, Eles


   É a democracia que estes benjamins entendem? Seria triste, se não fosse simplesmente um exemplo de como, perdido o poder de que disfrutaram, perdem também a noção da dignidade democrática e verdadeiramente cidadã.

segunda-feira, 23 de abril de 2012

ALGUNS POETAS BRASILEIROS (1)




C. Ronald ou os fogos da noite

  Para iniciar esta secção - dada a lume nestes tempos curiosos (surpreendentes?) em que poetinhas d’ aquém e d’além mar por obra e graça de “fazedores administrativos” são postos numa epígrafe de talento que de facto não merecem e só tem o intuito da mera propaganda para escarafunchar cabeças – nada melhor que a voz de um verdadeiro poeta, um poeta sem complacências e rodriguinhos de escrita e de que a Terra de Santa Cruz se pode e deve orgulhar ser dela e viver nela.
  Com simplicidade, mas com aquela atitude varonil e digna dos altos talentos, Carlos Ronald Schmidt vem de há décadas sustentando nas mãos o fogo da poesia, que é tão natural nele como um objecto familiar e que nos garante a todos na realidade quotidiana das melhores horas e dos melhores momentos.
 Aqui deixo quatro poemas que seleccionei da sua vasta Obra.






O GAROTO STRAVINSKY

Lendo Carl Spitteler numa primavera horrível.
Não é possível ser grande
com tamanha tagarelice.
Stravinsky (o certo) descobriu isso
despindo-se (noutra). Passa a língua nas notas.
Dia maravilhoso nesse bar de praia e dizer:
estou em falta contigo, "a tragédia
não tem nada a haver com a sujeira que
deixa". Uma volta nos arrabaldes (lavam as
máquinas matricidas) póstumos entre colunas
gregas. Ah, nunca, antes
de estremecer no horário o ano vindouro com
novela numa TV idiota.
E parturientes de acéfalos
já desligados da casca. Ora!
Igor sustenta nosso futuro. Por aqui, tudo bem. Então discutem sem
definição alguma, encolhidos na alcova. Especialistas de
cemitério tampouco vi. Claro, somente coveiros,
mas estes nunca levaram a sério uma cova
e tampouco a própria.

  (in Como Pesa!, 1993)


Eis a porta que range com aquele que entra:
domínio da incerteza para mais de um corpo
e o silêncio desfeito. A terra depois disto
e o tamanho inexato daquele que a tenta

como parente estranho que nem era homem
entregue ao acaso com a visão atiçada
no acúmulo de cartas quando pesa o nada
na permanência inútil e no lugar dos nomes.

Mãos em coisas pequenas só alargam a morte
no que consomem do outro. Mas o verbo firma-se
em cada grito de antes sendo ainda mais forte.

Ai, meus Senhores, funde-se o pressentimento.
Não sois nada, nem há folha fora dessa bíblia
que não seja virada e lida cada noite...

(in Gemônias, 1982)


NA CANTINA DO BOSQUE

Recebendo o presente dos amigos, começo
uma idade nova sem mudar os hábitos.
Eu, animal ainda não notado na natureza.
Pronunciem um nome que a identidade se apresenta.
Não é um local apropriado para a alma
a realidade que os adultos inventam.

Qualquer lugar deste país, embrutece.
As aves choram o vermelho da terra esfolada.
Ah, regato perfeito, a voz humana
só é percebida depois de perdidas as palavras.
A sordidez é toda a História e ali
qualquer lembrança pode ser rival dos sentidos.

De certo há muita coisa a nos integrar.
Uma bela italiana a nos servir.
A alma rústica não sabe o que é pensar
antes que nos roubem, rápido, sua essência.
No cardápio o avesso foi escrito por alguém:
“Temos que comer o que nos é dado olhar”.

(in A Cadeira de Édipo, 1993)


PARA ESTAR NA PAISAGEM

Assim que entro, a casa estabelece as regras,
o apoio da terra, as mãos como duas naturezas
juntas e algo que não fui quando chego à cozinha:
algoz e vítima, alimento e gosto, amor e ódio
sobre o mesmo fogo. Tu estavas distante
dessa história, iluminada e nua. Débil eco
para quem precisa do encanto, das coisas antigas
e das novas. Ainda uma vez mais os sonhos tentam
o existido com o que fica dos mortos. O hábito
com que provo o tempo nessa noite de chuva.
Acima de nós, beleza e verdade confundem
a liturgia das raízes, o manancial dos enigmas
a graduar o acaso por tudo que tivemos juntos
entre frutos e flores.

(in As coisas simples, 1986) 



sexta-feira, 20 de abril de 2012

O que está a acontecer?



Já olharam com olhos de ver à vossa volta?
Já viram que quem governa afirma que não há futuro?
Que de agora em diante será um continuo afundar na austeridade?
Que há países europeus onde governantes eleitos são substituídos por tecnocratas nomeados do estrangeiro?
Que o enriquecimento ilícito é permitido e legal?
Que os Juízes não aplicam a Justiça aos poderosos (Isaltino, Portucale, ...)?
Que a Procuradoria se recusa a investigar assuntos dos poderosos (submarinos, etc.)?
Que os juízes do T Constitucional andarão a ser escolhidos pelas garantias que dão de respeitarem as decisões do Governo e não a Constituição?
Que a polícia anda a ser preparada para lutar contra os cidadãos?
Que a maior ameaça para a sociedade passaram a ser... os cidadãos???

Que mudança é esta? O que está a acontecer aqui? O que se prepara?

Sabem?

quarta-feira, 18 de abril de 2012

Delicioso!


Ora leiam este email que recebi de uma amiga:


Da crónica de João Quadros no Negócio On-Line:


"Os dados mais recentes do Instituto Nacional de Estatística (INE) demonstram que o Pingo Doce (da Jerónimo Martins) e o Modelo Continente (do grupo Sonae) estão entre os maiores importadores portugueses."

Porque é que estes dados não me causam admiração? Talvez porque, esta semana, tive a oportunidade de verificar que a zona de frescos dos supermercados parece uns jogos sem fronteiras de pescado e marisco. Uma ONU do ultra-congelado. Eu explico. 


Por alto, vi: camarão do Equador, burrié da Irlanda, perca egípcia, sapateira de Madagáscar, polvo marroquino, berbigão das Fidji, abrótea do Haiti… Uma pessoa chega a sentir vergonha por haver marisco mais viajado que nós. Eu não tenho vontade de comer uma abrótea que veio do Haiti ou um berbigão que veio das exóticas Fidji. Para mim, tudo o que fica a mais de 2.000 quilómetros de casa é exótico. Eu sou curioso, tenho vontade de falar com o berbigão, tenho curiosidade de saber como é que é o país dele, se a água é quente, se tem irmãs, etc.


Vamos lá ver. Uma pessoa vai ao supermercado comprar duas cabeças de pescada, não tem de sentir que não conhece o mundo. Não é saudável ter inveja de uma gamba. Uma dona de casa vai fazer compras e fica a chorar junto do linguado de Cuba, porque se lembra que foi tão feliz na lua-de-mel em Havana e agora já nem a Badajoz vai. Não se faz. E é desagradável constatar que o tamboril (da Escócia) fez mais quilómetros para ali chegar que os que vamos fazer durante todo o ano. Há quem acabe por levar peixe-espada do Quénia só para ter alguém interessante e viajado lá em casa. Eu vi perca egípcia em Telheiras… fica estranho. Perca egípcia soa a Hercule Poirot e Morte no Nilo. A minha mãe olha para uma perca egípcia e esquece que está num supermercado e imagina-se no Museu do Cairo e esquece-se das compras. Fica ali a sonhar, no gelo, capaz de se constipar. 


Deixei para o fim o polvo marroquino. É complicado pedir polvo marroquino, assim às claras. Eu não consigo perguntar: "tem polvo marroquino?", sem olhar à volta a ver se vem lá polícia. "Queria quinhentos de polvo marroquino" - tem de ser dito em voz mais baixa e rouca. Acabei por optar por robalo de Chernobyl para o almoço. Não há nada como umas coxinhas de robalo de Chernobyl. 


Eu, às vezes penso: o que não poupávamos se Portugal tivesse mar.

terça-feira, 17 de abril de 2012

PEQUENO MOSTRUÁRIO PARA VAMPIROS (1)




SCIENCE FICTION

- Pois bem, meu senhores - disse o mais velho, que parecia ter ascendente sobre os outros - Façamos então o ponto de situação...o ponto em que estamos de momento. Pode começar você, Lestat...
- De momento, meu caro Vlad - disse repuxando a boca bem desenhada o jovem louro e atlético - temos gente nossa bem motivada em todas as cidades do globo. O discurso que lhes é comum insiste num ponto: o nosso direito a dispormos dos nossos ritmos místicos, da nossa… "ideologia" se assim me posso exprimir. É a tecla em que temos batido sem desfalecimentos. A questão de sermos uma comunidade vilipendiada, perseguida... discriminada... ofendida. Creio que me faço entender!
- Bem visto! - ronronou Vlad Tepes com um luzir nos olhos ardentes - E a nível de jornais, de gente que faz a diferença... como páram as modas? Você, Sagramor, pode elucidar-nos?
- É p'ra já, meus amigos - preambulou o negro de estatura elevada e de musculoso recorte na sua voz cantante e fascinadora - Para já, os homens de negócios que estão à frente desse sector já se juntaram em grande parte a nós. Intuíram que têm de ser compreensivos, modernos, que tem de haver tolerância com o nosso… colectivo. E na classe política e intelectual também existe um equilíbrio paralelo...Alguns dos homens de topo e mesmo outros medianos já entenderam a razão dos nossos… direitos. E são partidários do diálogo: já se começaram a desobstruir reuniões… O próprio Jorge, o próprio Soa…
- Não me venha com esses nomes! – cortou do lado a mulher de estatura coleante, sensual, de cabelos e olhos negros retintos, agitando a mão de unhas longas e pintadas de vermelho - Esses estão para onde lhes dá a brisa, Sagramor!






- Não seja exagerada, Carmilla... - disse Vlad Tepes censurando-a com algum vigor - Esse tipo de operadores sociais pode ser bem útil à nossa causa. Os fala-baratos também têm lugar na nossa demanda, não se esqueça. Tornam as massas maleáveis, compreendeu? E quanto ao seu sector? Isso é que interessa, o resto... é fantasia!
- Bom - disse Carmilla von Karnstein - O elemento feminino vai-se portando como se espera... Um pouco de moda, um pouco de tratamento televisivo, um bocado de romantismo e de doçura para adequar as meninges... Tem sido, posso dizê-lo, uma festa para o país… Percebem?
   O jovem Lestat riu com gosto, pondo à mostra os dentes brancos e fortes como os de um lobo viril. 
 - Certo, cara Carmilla, certo. Boa jogada! As senhoras também terão um grande papel nesta opereta... A paz, a brandura de coração...O idealismo… Também o usei com esmero lá nos lindos Estados do meu sul natal. Parece que foi há três dias…e já lá vai uma eternidade!
- Porque bem vêem, meus amigos - disse Vlad Tepes com discernimento - O importante é levar isto, por enquanto, com mansidão e equilíbrio. O que se ganha com violências bruscas junto do grosso da opinião pública? Isso devemos deixar, quando fizer falta, para as unidades de combate... Elas sabem como agir. Quanto a nós é irmos pela diplomacia. De contrário ainda nos aparece aí de novo esse metediço, esse violento do Van Helsing e as suas exagerações. Não acham?
(E na sala mergulhada em amena penumbra criada por pesados reposteiros de veludo escarlate, em volta da magnífica mesa de carvalho escuro, as cabeças dos confrades acenaram afirmativamente, como se fossem uma só).

segunda-feira, 16 de abril de 2012

A mentira da Educação



Diz Ramiro Marques, no ProfBlog (via Fiel Inimigo):



A nossa Educação Pública vive há décadas sobre uma mentira: a ideia romântica e inquestionável de que todas as crianças e adolescentes são capazes de chegarem até onde elas ou os pais delas quiserem.

Toda a gente finge que acredita neste axioma. Na verdade, ninguém acredita nele mas todos fingem que este axioma é uma verdade inquestionável.
Quem ousa manifestar dúvidas, apontando exemplos de crianças e adolescentes que, por mais que os professores se esforcem, não conseguem chegar onde os pais querem que elas cheguem, é estigmatizado de diversas maneiras. A mais comum é levar com a etiqueta de conservador.

Chegámos a uma situação em que é de mau tom afirmar aquilo que todos conhecem: há crianças muito inteligentes, outras que o são medianamente e outras ainda que são muito lentas a aprender. E há crianças que se esforçam muito, outras que se esforçam pouco. E há algumas que adoram aprender e outras que se cansam facilmente.

E, por fim, há crianças que adoram a escola e outras que a detestam.

A falácia da escolaridade obrigatória e de uma via única para todos é aceite de forma inquestionável. O resultado está à vista: os gastos com a Educação não cessam de subir e os resultados não passam da mediocridade.

Todos nós sabemos isso mas fingimos que não é verdade. E vamos repetindo até à exaustão o contrário. Fazê-mo-lo em todo o lado: nos relatórios que elaboramos, nos planos que desenhamos, nos trabalhos que redigimos.

quinta-feira, 12 de abril de 2012

Paragem de autocarro




Concelho limítrofe do de Lisboa. Hoje, de manhã. Junto ao portão de uma escola secundária. Um automóvel que pára.
Sai um adolescente dos seus 17 anos. Despede-se da condutora.
— Até logo!
— …
— Não, não é preciso vires buscar-me.
— …
— Não, não tenho passe.
— …
— ‘Tão, fasse cmózoutros…
— …
— O motorista deixa-os entrar todos no autocarro. Senão, quando o autocarro passa no bairro é apedrejado.
— …
— É, é sempre assim. Há bué! Desde que eu cá estou, na escola.
— …
— Os motoristas pensam que eu também vivo lá no bairro…
— …
— Acchh… Se eu tivesse o passe, começavam logo a chamar-me betinho e tal… Não vale a pena. Pagar pra quê? Eu conheço os motoristas fixes e tudo…
— …
— Tchau!
— …
— Acchh… Não há crise! A setôra já não marca falta, já sabe que eu chego atrasado à primeira hora. Senão, tinha que chumbar uma data deles…

quarta-feira, 11 de abril de 2012

Foi bonita a festa

Depois de ter ajudado a arruinar o país e de ter enterrado os professores e o ensino, a insuportável ex-ministra da educação Lurdes Rodrigues vem agora gabar-se que a Parque Escolar é um exemplo de boa prática de gestão, chegando ao ponto de declarar que a construção de escolas foi uma grande festa. Grande e cara, que o digam os contribuintes portugueses que terão de arcar com os 3 mil milhões de dívidas deixados pelo grande salto em frente que decretou para o ensino.
O nível de descaramento dos ex-governantes não tem limites e está mais que visto que voltariam a fazer tudo outra vez.

Do descaramento

Fernanda Câncio está na TVI24 a conferir totoloto: compara palavra por palavra as anteriores declarações do ministro das Finanças com as actuais. Pelo meio utiliza várias vezes as palavras mentirosos e mentiroso. Se  alguém fosse à televisão fazer o mesmo exercício em relação a ela, o que lhe chamaria? Distraída era o mínimo, pois durante 6 anos Câncio nunca abriu a boca acerca das constantes inverdades do anterior governo e agora todos os dias debita uma indignada sentença sobre o actual.

terça-feira, 10 de abril de 2012

A Comunicação Social e a Fé



Não sei se quem venha a ler isto já se deu conta de que desde que a ministra da Agricultura-e-poraífora disse que tinha fé em que chovesse, a sempre-esclarecida-mas-que-se-quer-também-sempre-politicamente-correcta comunicação social portuguesa não perde uma oportunidade, em qualquer das ocasiões em que noticia algo referente ao triângulo agricultores-chuva-ministra, para inserir um dardo embebido na fina e subtil ironia que se lhe conhece, no sentido de espicaçar a atenção do pobre e enganado povo, perdão!, público para o carácter parolo, reacionário, perdão!, retrógrado e risível de quem nos governa e de que ela é símbolo. Ainda hoje o fez, num qualquer telejornal da hora do almoço.
A mesma comunicação social que transmitiu, dois ou três dias atrás, uma peça jornalística sobre o que deverá ter sido um aspecto por ela não divulgado até à data — eu, pelo menos, ignorava-a — da personalidade de Hugo Chávez: a profunda religiosidade cristã de tão grande defensor dos fracos e oprimidos, desse modelo da luta contra o imperialismo americano. Chávez, como todo o mundo teve oportunidade de ver e ouvir, em discurso inflamado e comovente, aplaudido pela nata dos seus camaradas, agradeceu a Cristo a protecção que lhe está a dar na doença e manifestou a sua fé em que o faz e em que continuará a fazê-lo para que possa levar a cabo sua tarefa. Sem que, no caso, ninguém tivesse detectado qualquer dardo.
A mesma comunicação social, aliás, que se regozijou com a subtileza do caudillo, quando ele, em plena ONU — pouco tempo após esse monumento à imbecilidade, ao fanatismo religioso e à corrupção que dava pelo nome de Bush ter levantado os olhos ao céu (coisa impensável no homem comum) em resposta à pergunta do entrevistador sobre com quem se aconselhava nas grandes decisões sobre os problemas trazidos pelo combate ao terrorismo, perdão!, à justa luta dos povos islâmicos —, disse: “Ontem, esteve aqui o Diabo.” Sem que, também aí ou posteriormente, alertasse o pobre povo desinformado com qualquer dúvida quanto ao carácter progressista esclarecido do camarada Hugo.
A mesma comunicação social que não sugere qualquer carácter parolo, retrógrado ou perverso no islamismo, por este ser, como qualquer outra religião (menos a cristã!), respeitável, ao menos como tradição de um povo. A mesma comunicação social que não sugere qualquer carácter parolo, retrógrado ou perverso nos governantes e nos militantes islamistas, pobre gente que, embora não seja gente pobre, se vê obrigada a matar os que vivem pior do que eles; ou nos próprios islamitas emigrados, que se auto-segregam ou proferem impropérios contra os contribuintes que lhes pagam os subsídios de rendimento social. A mesma comunicação social que não sugere qualquer carácter parolo, retrógrado ou perverso no facto de quem trabalha ou visita os países islâmicos ser obrigado a observar regras ou preceitos religiosos que gerariam a sua “vigorosa denúncia” se detectadas na Europa ou nos USA, mas antes o considera como progressistamente respeitosa e cordata atitude da parte dos ocidentais.
Parola, retrógrada e perversa é a comunicação social que temos. Uma comunicação social em que qualquer pessoa, com um mínimo de inteligência e sentido de honestidade e honra, não pode nem deve fazer qualquer fé. 

Três para o cruzeiro

A pouco e pouco, para tentar combater a sensação de enfartamento que sobressai desta república às três pancadas, vou-me lembrando de coisas que talvez tenham piada.
Por exemplo, estas três secções que ciclicamente irão ocupar espaço nesta estância em que nos articulamos. Vão ser elas:




“Alguns poetas brasileiros” onde darei a lume autores daquele país - vivinhos todos inda que alguns já estejam mortinhos da silva - que me têm empolgado pela sua qualidade e, mesmo, pelo seu contacto fortuito ou mais marcado; 




“Pequeno mostruário para vampiros” na qual, como se deixa adivinhar, desfilarão coisas levemente infames, vidências estranhas cotée escada-abaixo e outras inanidades vitoriosas por enquanto de nefando recorte nacional e estrangeiro; 




por último, para que o ambiente fique temporalmente salubre, a “Um pouco de paraíso” onde se arrolarão substâncias amoráveis ou susceptíveis de nos reconciliarem com a existência que alguns pretendem, os velhacos, que nos seja adversa e é dizer pouco.

Os bonecos com os quais serão iluminadas são estes que aqui vedes. E alma até Almeida, como eu e mais uma meia-dúzia bem contada costumamos dizer…

sexta-feira, 6 de abril de 2012

FUI AO NORTE VIM AO NORTE...


Têm os protagonistas da bambochata andado por aí em bolandas, muito preocupados ainda que razoavelmente tafuis tecendo comentários, alguns inegavelmente inteligentes, sobre as escaramuças do nosso Marcelo com o não menos nosso A.J.Seguro – que com postura alevantada e mesmo varonil veio dizer-se magoado (xingado?) pelo arqui-comentador que mais uma vez, com a malícia de bom porte que se lhe reconhece, resolveu fazer das suas para lançar a confusão nas hostes que tentam vicejar-se pós-socráticas.
   Dá-me a impressão que Seguro foi no bote. Se calhar teria sido melhor, desenfastiadamente, dar de ombros e dizer com cinismo encenado “Deixem lá… É mais uma das pirraças do comentador-geral…”, arrumando provisoriamente o antigo e apreciado “Maquiavel à moda do Minho” como, com chiste, em tempos já não sei quem lhe chamou. O líder da facção não-socrática, contudo, embandeirou em arco e pôs-se fero seguido por um punhado de correligionários donde estava ausente, claro, o inefável Lello e outros parceiros da mesma lavra.
  Marcelo deve-lhe ter caído um dente de satisfação, pois o seu objectivo eventual teria sido atingido: cascar mais uma no partido que não o deverá apoiar na sua sonhada subida a Belém, pondo mais uma acha na fogueira do derby “Lisboa versus Paris” em que os órfãos do Pai Soares andam enfronhados.
  Batalhas de alecrim e manjerona bem portuguesas ou a nobre fatalidade em que os nossos homens públicos nos mergulham sistematicamente?
  Bom, adiante…
  Para carrear as Boas Festas que vos desejo a todos, amigos, inimigos e confrades de destino sulista, aqui vos deixo este poeminha em tom luso feito depois de viagem para os belos lugares onde uso gozar a Páscoa.
  O abraqson proverbial, pascalino, do vosso et nunc et semper
  ns


 ... lá do Sul que longe fica.
 Fiquei mais perto de Espanha
 mais pertinho da Galiza.
 E num recanto da Serra
 lá na curva duma estrada
 vi uma aldeia no fundo
 para ser fotografada
 Ficou aqui a presença
 - a presença e a figura -
dum lugar de muito enlevo
e de muita formosura
Aldeia que tens na serra
no vale onde cresce a urze
tuas casas teu perfil
que ninguém de ti abuse
Que nunca o mal te destrua
- nem a água nem as chamas -
que sejas sempre gentil
mesmo pobre e quase nua
mesmo sem riqueza ou famas
Estava sol fazia sol
para seres fotografada
numa curva do caminho
mesmo à beirinha da estrada.

terça-feira, 3 de abril de 2012

Saco de gatos

O Partido Socialista é um autêntico saco de gatos que quando não se esgadanham uns aos outros, fazem uma oposição delirante ou desdobram-se em declarações ridículas a propósito de tudo e de nada. 
Tem uma certa graça vê-los a degladiarem-se, mas já não tem tanta piada ver a figura do secretário-geral na televisão a responder aos comentários de um comentador, ou quando as acusações que fazem entram no domínio da psiquiatria. É confrangedor.

As greves são assim mesmo

O líder coordenador do Bloco de Esquerda está retido em Munique devido a uma greve dos controladores aéreos franceses. Louçã viajava para Atenas a fim de participar no comício da coligação Syriza, em Atenas. 
Que chatice, mas as greves são assim mesmo. Se Louçã andasse menos de avião e mais de metropolitano, saberia os inconvenientes que as paralisações podem causar.

ALENTEJO É NOME DE MUNDO



Nicolau Saião, Grande interior alentejano

   Tenho seguido com algum interesse, alguma curiosidade e certa nostalgia as notícias e demais parafernália que vai rodeando o tentame, absolutamente correcto e bastante justificado, de conseguir que o “cante alentejano” seja considerado património cultural da humanidade.
  Creio que o é já, independentemente de as entidades oficiais darem de maneira formal o seu assentimento. Tal como o flamenco, maravilha musical maior de “nuestros hermanos”, o cante alentejano é indubitavelmente uma das fórmulas vocais e poéticas mais belas que a imaginação, caldeada por anos de adequação intrínseca, deu à voz humana organizada num jeito peculiar.
  Gostaria de pensar, de concluir e finalmente certificar que este movimento não está nem estará orientado – e muito menos capturado – por intenções de sectores que, por radical conceptualidade que pelos anos lhe tem sido própria, usam tentar colonizar todas as coisa que pareçam, ou se lhes antolhem, fazer aumentar a sua influência na manobra política e social.
  O que no Alentejo, pelo tempo fora, tem sido por vezes demasiado usual…

PScriptum - O poema que vem a seguir foi escrito nos idos de 72 e publicado por Mário Cesariny num dos boletins do Bureau Surrealista em 1978. Tinha sido cortado pela Censura quando busquei dá-lo a lume no “Distrito de Portalegre”, então dirigido por José Heitor Patrão, algumas semanas após a sua efectivação.
  A obra que ilumina este bloco, “Grande Interior Alentejano” - cartão para painel de azulejo (210 cm X 200 cm) faz parte da colecção do engº Vítor Lemos Julião e foi elaborado por Trepal Ldª.



POEMA ALENTEJANO

Nascer no Alentejo é engraçado
- com a morte debaixo e a fome ao lado.

Planta-se uma couve regada de urina
- colhe-se um maneta com viola e menina

É-se jovem e airoso como um deus antigo
- com sorriso rasgado da garganta ao umbigo

Esvoaça na rua da aldeia velha
A canção do pirata de brinco na orelha

(História contada no caminho
dos que estão
com a raiva ou o carinho
dos que vão.
História terrível
do Bem e do Mal
alentejanamente
convencional)

E o sol ao tombar doura as arcas de ouro
fugindo das trevas, vagalume mouro.

E o suão é suor de romance barato
- p’ra ter bem depressa toucinho no prato.

Saudades saudades saudades irmão
- natureza morta com cego e bordão.

Ai terra do Alentejo
corda de guitarra cigana
flor de lua ao entardecer
caranguejo de face humana
no dia negro a morrer.

(E o pastor que guardava o gado
jaz dolorido e enforcado)

Tudo está errado e tudo está certo
a oliveira ao longe e o borrego ao perto.
E balança a estrela da madre pendente
o silêncio da infância e a voz do poente.

Saudade saudade saudade perdida
na morte na morte na morte
da vida.

in Poemas perdidos

A 'limpeza étnica'

O presidente da Autoridade Palestiniana foi hoje para a reunião da Liga Árabe em Bagdad repetir as mentiras do costume. Diz Abbas que Israel está a fazer uma limpeza étnica em Jerusalém e que as suas forças de ocupação estão a usar meios sem precedentes para remover o carácter islâmico e cristão da Cidade Santa. Sublinhou também que  a AP não vai retomar as negociações com Israel até que pare a construção de habitações, principalmente em Jerusalém.
A expressão 'limpeza étnica´ tem sido repetida até à náusea pelos dirigentes palestinianos, pelo Hamas e pela extrema-esquerda palestinianista, mas não passa de uma tremenda mentira. Desde 1967 que a população árabe de Jerusalém mais do que quintuplicou:
A proporção de árabes na população da cidade também aumentou: 26% em 1967, 28% em 1980 e 35% em 2008. Já a população judaica esteve sempre a cair: 74% em 1967, 72% em 1980 e 65% em 2008. Via Elder of Zion.

Da democracia árabe

Professora universitária palestiniana foi presa por ter criticado o presidente da AP no Facebook. Ismat Abdul-Khaleq acusou Abbas de ser um traidor e exigiu a sua renuncia. Imediatamente alguém deu com a língua nos dentes e Ismat foi presa. Parece que a monitorização do Facebook é uma das actividades preferidas do Governo de Abbas.

domingo, 1 de abril de 2012

O apóstolo e o coelho (fábula contemporânea sobre a honra)


Na antevéspera, salvo erro, do dia em que foi oficializada a entrada da China na EDP, assistiu o país, pela televisão, à intervenção do sr. deputado Francisco Louçã (para sempre louvado seja o seu nome!), interpelando Passos Coelho sobre  - tal como no velho e inefável spot publicitário -  uma sensação de absorção, mas ao contrário, que lhe  provocara algo assim como uma encoberta e enevoada manobra primo-ministerial. A ele, é como quem diz, a Portugal inteiro (o que não rescende a pexum, entenda-se…), tão grande deverá ser a alma de um representante do povo e, por isso, tantos os olhos e os ouvidos com que sofre a realidade. Por amor a uma nação que não teve oportunidade de obter boa formação política recorrente, à noite, no Bairro Alto.
A sensação do sr. deputado, por vezes referido também como São Francisco da Avenida, seria a de que o primeiro-ministro, no decorrer de mais uma jornada de prestação de vassalagem ao regaço da Grande Mãe Germana, haveria recebido o director de uma empresa alemã, facto que, mais do que pressagiar, confirmaria negociata obscura já selada, verdadeiro Alcácer-Quibir da tramoia de indignos vendilhões das energias lusas. Bem lhe afiançou serenamente Passos Coelho que não recebera ninguém e que, inversamente, se deslocara a essa empresa a convite da respectiva direcção, no intuito de poder observar e avaliar in loco aspectos técnicos e administrativos da sua actividade. Mas o cenho franzido, as semi-rotações na postura do pescoço e os dedos a repuxarem a pele do rosto reforçavam o sorriso sardónico de quem não só não tem dúvidas nem nunca se engana como a quem ninguém engana. Porque ninguém engana o bom povo, muito menos aquele em que o seu espírito se encontra consubstanciado. E toda a gente sabe que ninguém, além do povo, é gente honrada ou cuja honra mereça qualquer consideração, cuidado ou preservação.
Vai ser tão bom, quando os portugueses sentirem a consistência e o saber da nossa acção, era o que se lia no rosto de Louçã (para sempre louvado seja o seu nome!)... Mas não foi! A orientação de Coelho, afinal, fora outra, nada parecida com a que o Apóstolo da Bica (uma sua segunda designação) maldosamente insinuara.
O povo, porém, nunca perde a face, muito menos o seu mais legítimo, logo honorável, representante. O BE, no seu conjunto, aliás, nunca a perde, limita-se a não se olhar ao espelho, o que é, afinal, sinal de virtude, de que não é vaidoso. Pelo que não se reconhece na obrigação, intrínseca a qualquer democrata, de se retractar lá porque denegriu e ofendeu a honra alheia. O comum homem sério sentir-se-ia acanalhado por lançar lama sobre o nome de outrem, seria incapaz de voltar a sair à rua antes de apresentar publicamente desculpas àquele que ofendera. Não Louçã (para sempre abençoado seja o seu nome!), detentor da honra do Povo Sagrado que transcende a História, a quem ninguém ouviu depois uma palavra de reparação. Não Louçã (para sempre louvado seja o seu nome!), que, como o lobo da fábula, diz ao cordeiro que se não foi agora foi antes ou será depois, e que, se não foste tu, foi ou há-de ser um da tua família — a fazer o que quer que seja, isso agora não interessa nada.
Lembrei-me disto anteontem, ao ouvi-lo erguer a voz, na AR, sobre a venda do BPN. E, para que fique claro, eu não concordo com as decisões dos governos sobre o caso, quer o do inqualificável eng. Sócrates quer o actual. Mas não consigo deixar de me sentir ultrajado pelo facto de gente que, pela sua acção política na Assembleia da República, se mostra indigna de qualquer cargo, público ou privado, ser paga por mim e pelos restantes contribuintes para pavonear impunemente a pobreza mental da sua vaidade e a sua indigência conceptual sobre o que deve constituir o comportamento de um representante político maduro.