terça-feira, 5 de junho de 2012

Aconteceu-me ou Hoje, eu sei que sou feliz!




Uns seis anos atrás. Numa situação familiar algo complicada, enviei dois sms a uns amigos. Hoje, já não me recordo dos termos exactos que neles utilizei; mas cerca de uns dez meses depois, quando aquilo aconteceu, lembrava-me de todos eles, a ponto de poder reproduzir integralmente essas mensagens que, entretanto, apagara, na sequência das limpezas que costumo fazer regularmente às caixas de entrada e de saída.

E o que aconteceu foi que, estando eu a tentar avaliar do estado de maturação das peras (que eu tenho uma pereira no meu quintal!) ouvi o telemóvel assinalar a chegada de dois sms. Quem será? O que será?

Abro e — oh, espanto! — vejo as duas mensagens que enviara e de que tão bem me recordava, arrumadinhas na caixa de entrada. Sem qualquer outro remetente além de mim próprio.

Passados os primeiros minutos de estupefacção, pus-me a pensar no que raio se passaria. Apresentaram-se-me várias hipóteses, da mais elaborada à mais simples, a saber:

— que estaria casualmente envolvido numa conspiração cósmica ou que o estaria voluntariamente, como a personagem principal do filme Total Recall — mas, hélas! sem a Sharon Stone nem a Rachel Ticotin a fazerem-me companhia, algo que eu recusaria liminarmente aceitar;

— que o sr. eng.º Belmiro de Azevedo, proprietário da operadora, se interessava particularmente pela minha pessoa, no sentido de vir a oferecer-me um lugar de administrador ou mesmo de me nomear herdeiro único dos seus bens, e, por isso, desejaria certificar-se ao pormenor do meu merecimento — algo que, embora ilegal, muito me lisonjearia, mas que julguei ser talvez ainda mais inverosímil do que a primeira hipótese;

— que, finalmente, estaria em presença de uma falha de funcionamento de alguma obscura engenhoca (talvez adquirida em segunda mão) de um qualquer organismo de segurança do Estado, no qual se arquivariam todas as conversas, orais e escritas, de todos os cidadãos portugueses para eventual futura utilização contra eles — já que, à data, nem sequer blogue tinha, limitando-me à pacatez cívica de uma acção diária dirigida para conversas telefónicas com amigos após o jantar, ou para um ou outro vizinho que costuma aparecer no café quando eu também por lá estou.

Era-me evidente que nunca poderia saber qual dessas três era a correcta, apesar de, a estar de acordo com Popper, a mais simples ser a que mais possibilidade teria de ser verdadeira. A terceira era, sem dúvida, achei eu também por esse motivo, a mais verosímil. E, em conjunto com a segunda, as mais próximas e fáceis de investigar. Apesar de tudo.

Comecei, assim, por ligar para os serviços da Optimus. A assistente, uma moçoila contratada para dar o tímpano aos clientes, ficou, genuinamente, tão surpreendida como eu e, no desempenho das suas funções e em defesa do seu salário, afiançou-me e trejurou-me que a empresa não tinha qualquer divisão desse tipo. Passou-me, no entanto, a uma colega da secção de reclamações que procurou convencer-me de que com certeza eu não apagara as mensagens, de que o problema talvez tivesse origem no próprio aparelho, de que nem sequer sabia a que departamento poderia ser dirigida uma exposição desse tipo… Tentei, depois, alguns conhecimentos que tinha no Ministério do Interior. Nada. Ninguém sabia de nada.

Desisti. Até que, como não há duas sem três, para aí uns quatro meses depois me surgiu um terceiro sms antigo, posterior aos dois anteriores, de que também me recordava por constituir um comentário irónico que fizera a uma situação vivida por um outro amigo. Novamente tentei descortinar a razão desse “reenvio”, novamente acabei por desistir. Mas guardei as três mensagens. Até que tanto o telemóvel como o cartão sofreram um acidente e eu fiquei sem qualquer prova do que acabei de relatar.

As peripécias espiónico-jurídicas em Portugal com que a social-comunicação nos inunda até ao arregaçar das calças dão, a meu ver, razão a Popper. E, atendendo ao que vamos julgando saber do que em todo o mundo se passa, tais peripécias são bastante menos portuguesas do que o cozido. Desiludamo-nos, além disso, porque — como dizia no domingo a Ana Mesquita, a propósito do assunto, no programa do Herman “Moeda de Troika” — “não há retorno”. Ninguém jamais conseguiu ou conseguirá impedir a utilização indevida de algo, sobretudo quando esse algo é uma arma tão poderosa, determinante e privilegiada para tanto interesse e ambição, inclusive e, talvez, principalmente, em defesa do “bom povo”.

Nada disto, aliás, é novo. Se qualquer rei, par do reino ou rico burguês pôde misturar-se com o povo, passeando ou frequentando lugares menos recomendáveis até quase ao final do século XIX, a invenção, divulgação e expansão da fotografia, tornaram-lho a partir daí muito mais difícil e, por vezes, absolutamente impossível. Desde então, nenhuma lei conseguiu anular a actividade dos paparazzi porque a indústria que servem se serve a si mesma servindo para os mais diversos fins, a pretexto da liberdade de informação própria de um sistema democrático. Os lobos comem-se uns aos outros e nem os poderosos estão a coberto dos efeitos e do alcance das armas que utilizam em seu proveito.

Posto o que presentemente, por tudo isto, me considero um cidadão muito mais feliz, porque me sei debaixo do mesmo chapéu usado pelos grandes deste mundo. Antes sabia que a PIDE e só a PIDE me poderia controlar os passos. Depois, comecei a desconfiar de que alguns pretendiam controlar-me mais pormenorizada e apertadamente do que a mera polícia política do Botas (o António de Oliveira, claro, não o Mário). Agora sei que todos estamos permanentemente sob vigilância, o que me deixa muito mais descansado sobre o que posso e o que tenho a fazer. Não se tornou tudo, afinal, muito mais claro e seguro? Hmmm...?

ALGUNS POETAS BRASILEIROS (2)




DUAS PALAVRAS SOBRE FLORIANO MARTINS

  Nestes poemas de FM sente-se pairar a sombra de Arshile Gorky. Ou melhor, talvez: FM revisita esse grande pintor excursionando pela sua própria rota interior, a que possui os sinais de um país transterreno. O Arshile Gorky das noites e das manhãs onde as coisas e os seres, os objectos e os espíritos bem materiais cobram a sua figura mais real e exacta. Assim, é natural que ali também  esteja Milton e todos os seus paraísos achados e perdidos.

  Está ali a escrita, que é signo maior lavrado nas paredes de um amor deliberadamente posto em equação. E está ali a interrogação do homem que escreve. Por isso também Prometeu ali comparece - esse Prometeu que Gorky encenou nos seus quadros diurnos, pois que o fogo da sabedoria ele o acalentava a cada pincelada, a cada retrocesso, a cada nova inflexão.

  Arshile Gorky, Milton, Prometeu: o mistério das coisas e dos seres, a sua representação virtual e a chegada ao conhecimento. Ou pelo menos à  busca do conhecimento - como claramente acontece nestes poemas de memórias e de presenças e de sangue espiritual, secretos e luminosos, do poeta sem jaça que é Floriano Martins.


                                    TRÊS POEMAS





O TABELIÃO

Um nome para as partes de teu corpo que emitem fogo,
outro para o rosto que se guarda de tais chamas.
Um nome que seja para o guia de tuas pernas flutuantes,
e outro mais para os campos que evitam tua morada.
Todos estarão felizes com seus nomes. Uns com mais de um,
outros a ponto de perdê-lo. O nome os torna quase perfeitos.
Aponta-me um deus sem nome e disto me encarrego.
Serão belos ou tristes, enfaixados ou traídos pela corte,
violentos ou angustiados. Há os que se sentem únicos
e julgam-se renascidos a cada vez que o nome é pronunciado.
Mesmo sendo iguais, os nomes também são distintos.
Distribuo-os carregados de ilusões. Fábulas ou decretos,
rubrica de tudo o que somos ou rejeitamos. Não te protege
o inferno do nome certo, traje com que entras em cena.






OS MISERÁVEIS TORMENTOS DA LINGUAGEM E AS SEDUÇÕES DO INFERNO NOS INSTANTES TRÁGICOS DO AMOR DE BARBUS & LOZNA | 3.

Os amores expõem sua nudez sob a luz do tempo, afiam suas páginas com um indestrutível ardor, ninguém pode julgar ou condenar o amor, a figueira sagrada de seus rituais, o latejo selvagem do universo, os lauréis do absoluto, ninguém pode tramar contra a pele do amor, a assombrosa claridade de seus desdobramentos e prejuízos, mesmo na vastidão de suas ruínas há um sentido de larga intempérie, uma diferença diante da morte, um brilho que fixa a astúcia do acaso, onde o esplendor do tempo é uma vertigem porém não o declínio absoluto, onde a memória é uma transparência do futuro, onde o mistério é um decifrar escuridões, a imagem de uns olhos refletida no próprio instante de seu desvanecimento, os amantes vão cobrindo o torvelinho de seus desastres passionais, os desenraizamentos de suas visões e o arroubo do esquecimento, enquanto apenas o vento sopra e o amor persiste.






ENTRADAS INVISÍVEIS | 5.

Meu pai envelhecido diante do fogo,
árvore não mais guardada em tremores.
Oh doce treva, tua idade se extingue
para sempre? Que obscuro cântico
afasta o homem do júbilo de sua morte?
Terra e homem diante do fogo, névoa
a voz das cinzas. A língua não pode
conter sua imagem derramada em cal.
Meu pai, com seu pesado corpo alheio
ao tempo, parece haver desnudado
o inferno, aprendido as palavras com que
se faz o abismo descarnar. Rodeado
por ávida quietude, o fogo, eterno súdito
de impiedades, rege o olhar do morto.

                                                                                
Nota 1 – FM: poeta, tradutor, ensaísta, operador cultural no sentido mais salubre do termo, tem presença marcada nas Américas e na Europa. Foi o curador da Bienal do Ceará (Fortaleza, 2008) e orientou seminários nos EUA. O seu poemário “Alma em chamas”, publicado em 1998, temo-lo como um dos melhores livros dados a lume no Brasil nos últimos 20 anos.

Nota 2 - As máscaras que encimam cada um dos poemas fazem parte de uma recente exposição feita no seu país pelo autor.

A lira europeia

Berlusconi, à semelhança de outros políticos dos encalacrados países do Sul da Europa, sente saudades do tempo em que a desvalorização da moeda fazia milagres, por isso quer que o BCE comece a imprimir dinheiro. O objetivo é ter um género de lira europeia para que todos fiquem com a carteira recheada de dinheiro e consequentemente passem a viver melhor. 
Por cá esta ideia berlusconiana já conta com muitos adeptos, dos quais se destaca o dr. Soares que é conhecido pelos seus vastos conhecimentos de economia e por dominar na perfeição o sistema de numeração decimal.

Um novo futuro

Os socialistas têm uma nova personagem a dar cara pelas posições do partido: Eurico Brilhante Dias. Agora é que o ramalhete fica completo. Entretanto aproveitaram para mudar também o slogan, de As pessoas estão primeiro, para Um novo futuro. Tendo em conta o buraco que deixaram, está-se mesmo a ver que futuro é esse.

segunda-feira, 4 de junho de 2012

Lisboa, o filme




Fotografia tirada pelo próprio Fonseca e Costa aos ferimentos provocados pelos assaltantes (Foto: DR)

O cineasta José Fonseca e Costa foi vítima de um assalto violento com tentativa de degolação numa rua do Bairro Alto, em Lisboa, quando se dirigia para o prédio onde mora, na madrugada de domingo.

O cineasta conta que “pouco passava da meia-noite” quando foi abordado a cerca de cem metros da sua casa na Rua Nova do Loureiro, por um homem que lhe encostou uma navalha à garganta. 

“Depois de um golpe de gravata feito com mão de mestre”, foi “atirado ao chão e pontapeado sem dó nem piedade”, descreve Fonseca e Costa, num texto de opinião enviado ao PÚBLICO e que será publicado na edição impressa e na edição exclusiva para assinantes de terça-feira.

A violência do assalto foi tal que o cineasta de 78 anos teve de ser assistido no Hospital de S. José, onde recebeu tratamentos a um corte feito na zona do pescoço. No domingo à tarde estava já em casa.

Falando de uma tentativa de “homicídio frustrado” , Fonseca e Costa culpa a Câmara de Lisboa pela insegurança que se vive naquela zona da cidade, que está transformada “numa lixeira, com ruas sujas, escusas e escuras que são uma tentação para os criminosos”. O cineasta lamenta ainda a ausência da Polícia Municipal na rua onde mora, que está “abandonada e triste”. 

Segundo o jornal i, os autores do assalto, um casal, foram já detidos pela PSP. Fonte do Comando Metropolitano de Lisboa da PSP confirmou a este jornal que o assalto terá sido perpetrado “com o recurso à força física”.

Buraco Obama em 25 prestações

As 25 desculpas de Obama para a falência da economia e para o desemprego.


George W. Bush
Tax breaks
Arab Spring
Japanese earthquake
Globalization
George W. Bush
Automation technologies
Eurozone crisis
Republican House
ATM usage
George W. Bush
The Weather
Bad luck
Super PAC ad spending
Lack of stimulus money
George W. Bush
The Tea Party
Unmanned airport ticket kiosks
Oil speculators
Underestimation of economic crisis
George W. Bush
Businesses not expanding
Americans being soft and lazy
Fox News
Energy companies not getting behind…algae

É ASSIM QUE SE FAZ A ESTÓRIA (1)



Mário Cesariny, O papá que veio do Leste (Col. João Garção)

E, para começar bem a semana, digo eu:


  DUAS CARTAS MC/ns E UM QUADRO, RECORDANDO  CESARINY


A Francisco da Gália (*) envia Mário Ibericus

Saúde.

A morada da Maria Helena é 34, R. l’Abbé Carton, Paris 14 ème. Deves enviar – istové – o nome que é de pores no sobrescrito, é VIEIRA e SZÈNES. Vale.

Cá veio a tua carta com a tua tradução do Rosemont(1)que é a beleza, nenhum cheiro a tradução, e o teu poema de O Livro das Cidades e respectas duas colagens. Tudo do fino. Segue nesta o que a isso se junta para a Voz Anarquista (2).
De minha parte vão e estão:

o LUNÁRIO DO SURREALISMO PARA 1990. É uma secção a ser continuada e cujas características apanharás à primeira leitura. E é um presente bom que faço aos teus e nossos amigos porque título assim não vem todos os dias e eu tinha-o de lado para a edição de um livro grande gizado nos mesmos moldes. Aliás, não desisto de fazer tal livro (que está quase feito, aliás outra vez).

um NOTÍCIAS DA CULTURA que espero te regozijará bastante e servirá de aviso grave aos e às OKAPIS (3) de Lisboa e Horizontes.

uma  PEQUENA CONTRIBUIÇÃO AO PROGRESSO DO MITO “DEUS-PÁTRIA-FAMÍLIA”, que já conheces de vista.

um ENSAIO DE SIMULAÇÃO DA DISLEXIA PROFUNDA, do Miguel de Castro Henriques.

um FERNANDO PESSOA POETA, que é a minha comunicação para a base naval de Portland. (Congresso sobre pensamento libertário – Universidade de Portland-Oregon)

Penso que este material sublime, junto ao teu do Livro das Cidades e a tradução do Rosemont, dará darão as duas páginas requeridas e mesmo alguns sobres para continuados noutras páginas. E julgo ser importante que saia junto, por ficarem tocados os vários pontos-estrêlas gerais. A menos que ainda possa ser pouco e se lhes possa dar mais. Acrescentarias das tuas lavras. Caso contrário, e sendo absolutamente exigido “diminuir”, proponho que a “vítima” seja o Rosemont e se lhe diminua o texto. (…)
 As comunicações eu Botas (4) parecem-me comprometidas outra vez. Assim que te a ti mando, para que por tua vez sejas tu a mandar, como no princípio. Por fim, achava preferível que a esta página ou páginas se não apuzesse nenhum título especial. Apareceriam no que são como são. “Voz Anarquista” já é mais do que bom. Mas como há textos que não saem assinados (aqui vão três) poder-se-ia pôr, num cantinho, “página” (ou páginas) coordenada(s) por Fulano e Fulano”.

Como vão as tuas endoenças? Eu mantenho algumas. E as bodas do Ceia (5) quando são? Recita-lhe durante a cerimónia “O Casamento do Céu e do Inferno” do William Blake!

  Abraços para ti, para a Flora, e para o nubente

                                                                Mário (manuscrito)

Enfim, diz que recebeste, e o que achas do recebido.

                                                                                Abril 7 (manuscrito)

Magníficos, os “exemplares especiais” que fizeste das nossas comunicações Portland!! (6) (manuscrito)


Notas -   (*) Refere-se a NS, cujo nome civil é Francisco.
  
  1. Refere-se ao ensaísta americano Franklin Rosemont
  2. Jornal que se propusera publicar um suplemento literário orientado por MC e NS. Atarantados com a qualidade das colaborações (que não tinham nada a ver com “militâncias”) abandonaram a ideia, borregando.
  3. Referência irónica à ensaísta sul-americana Maria Lucia Lepecki, que na altura dispunha na praça lusa de bastante notoriedade.
  4. Refere-se ao pintor e poeta Mário Botas, nessa altura bastante doente.
  5. Refere-se ao confrade que escrevia textos sobre música moderna com o pseudónimo de A.J.Silverberg.
  6. Refere-se ao Congresso organizado pela Univ. de Portland (Lewis & Clark College), em que ambos apresentaram comunicações – MC sobre Fernando Pessoa, NS sobre  as Religiões Reveladas

***


26 Set. 84

Mário:

   Apresso-me a escrever-te para te dizer que, com efeito, o papel do Rosemont é de facto de mais. É, pelo menos, um bom serviço prestado aos kgb e companhia, sob a sua capa anarcaqueirante.
   Não alinho nisso; seria bom compreender-se que, também eu, não concordo com a sua inclusão no Catálogo; o fantástico e o maravilhoso, sendo a inteligência e a poesia em funcionamento prático, não se compadecem com a vizinhança de pistolinhas de Chicago. Aquilo não é revolucionarismo, é politiquice às três matracadas.
   Creio que é urgente mandares dizer a Rosemont que a Exposição nada tem a ver com anarquistas federados ou só de chapelinho; para que tudo não se complique e comece a ficar macacal. E dê merda.
   Por outro lado, importa dizer de uma vez por todas: eu não sou anarquista, explicando: sou libertário porque surrealista. A minha estadia junto dos anarquistas ibéricos foi um equívoco provocado pelo facto de eu julgar que as pessoas que se dizem livres têm poesia na cabeça e no corpo, trocando: que são a própria poesia.
 Quem são a própria poesia são os Poetas. (…). Os outros podem sê-lo eventualmente, mas não se tem notado nada. São anarquistas de aviário ou pistoleiros puros e simples. A Anarquia, para mim, teria de ser a poesia em movimento. Mas aqui (ou em todo o lado? Espero que não) é só a politiquice duma dada extrema. Que vão para a pôrra, definitivamente. O único anarquista verdadeiro é o homem criativo, o Poeta, que não se curva a cores e traquitanas. E disse, caraças!
  Concordo pois contigo e Carlos que importa levar a Rosemont as “actas de Niceia” (passe a piada!). O texto dele parece-me menos surrealista que exaltado. E a exaltação assim é meia-mantença de um outro conformismo. Prefiro os índios e os esquimós, mais que os americanos em (pseudo?) rebeldia. Tenho a ver com os Dogons (assim como com Basile Valentim) nada tenho a ver com Marx e Lenine. E pronto, punheta!
  Cago tanto na LSD como nos manifestos eleitoralistas. Tanto me urino nas bombas de compra ou de fabrico próprio como nos artefactos dos cabrões dos militares e estados-maiores. E acabei.

  Amanhã te mandarei o resto da tradução do Calas. Acredito no valor do livro dele se o dizes. Aliás estes textos dele não são maus, são só horrivelmente ingénuos (embora necessários, e além disso a inteligentsia de cá é tão estúpida que não irá dar por nada). Depois um dia falaremos disso.
  Os meus textos que apontas não estão publicados em nada a não ser as cópias fotocopiadas que te mandei – com excepção do Picasso.
  Agrada-me que tenhas colocado esses para publicação no catálogo.
  Talvez dentro deste tempo eu tenha dinheiro para editar um livro (que dizes a “Objectos inquietantes” ou outro?) Fala disto. Procura por favor uma tipografia que faça BARATO, PÁ. Davas capinha? Então vê lá isto. Estou um bocado melhor, depois falaremos de viva voz.
  E viva a Poesia, a revolta e a beleza sem amarras nenhumas.
  E vejam lá isso sobre o Rosemont. Se não, qualquer dia estão a fabricar bombas atómicas de bolso. O que é tão mau como o resto.

                   Abraço grande do     Francisco   (nome de NS,  também manuscrito)

domingo, 3 de junho de 2012

PEQUENO MOSTRUÁRIO PARA VAMPIROS (5)




Um email que enviei há dias:


Como disse Leucipo, na frase canónica que muitas vezes é dita de outro modo mais "moderno", o azeite, como é mais leve que a água, fica sempre por cima, tal como a verdade, pois é mais leve que a mentira.

 E é de facto assim.

 Embora, por vezes, se sinta que ela demora a chegar - muito mais quando é entravada por sistemas lentos ou capturados em parte por sectores pervertidos, estimulados por mídias corrompidos eticamente ou decididamente canalhas.

 Refiro-me ao embuste que durante anos rodeou os portugueses, muitos dos quais ingenuamente e de boa-fé, quero crer, atacavam e caluniavam e difamavam quais autómatos (mas a pressão infame era muita...!) Fátima Felgueiras - anteontem como decerto terá visto nos órgãos de informação TOTALMENTE ABSOLVIDA em sentença confirmada pela Relação e vinda na sequência da absolvição em primeira instancia.



Salvador Dali, La main monstrueuse


 Como decerto saberá, por razões familiares eu tive conhecimento directo deste caso: assisti às calúnias que eram lançadas sistematicamente, vi tudo dum ponto privilegiado, por diversas vezes tomei posição contra os que - ora ingenuamente ora nefandamente - lançavam lama tentando aniquilar um ser humano, assassinar-lhe o carácter por razões pérfidas. E a maior parte nem sequer o conhecia, apenas "emprenhava pelos ouvidos" como sói dizer-se, manipulados por periódicos que tentavam o sensacionalismo e a "verdade de pacotilha".

 Também a mim me coube ser caluniado, enxovalhado e difamado nomeadamente, em acção, por um blogue e, por omissão, por um indivíduo que deu, nessa medida, certa "credibilidade" ao acto.

 Não pode estranhar-se que em breve o meu advogado avance com processos-crime, pois como diz o povo "quem não se sente não é filho de boa gente". E certas coisas não podem passar-se por alto! Para onde tentaram que fosse a verdade honrada nesta Nação à beira da desgraça económica?

 E passando a outro assunto: hoje em dia, em certos meios, a impostura pedante está a tentar aproveitar-se da inocência dos cidadãos. É isso que se releva, com frontalidade e ironia, no bloco que junto vos deixo (também em linha no Ablogando), com o velho abraqs de estima.

O novo estatuto do aluno

Foi anunciado mais um estatuto do aluno, com as habituais promessas de penalizações para os alunos e de benesses para os professores, vulgo, reforço da sua autoridade. No essencial trata-se do repetir os sound-bites do passado, que todos os governos já fizeram, e que até hoje não tiveram qualquer impacto positivo nas escolas. E com maioria de razão porque desde que Nuno Crato é ministro nada de substancial mudou  no ensino.
As medidas agora anunciadas voltam a repetir os erros dos estatutos anteriores. Onde antes estava um burocrático PIT, que só servia para castigar o diretor de turma, aparecem agora umas tarefas a favor da comunidade, que soam a benaventês do mais retinto. Nem se imagina a quantidade de papeis que o pobre diretor de turma terá de preencher antes de conseguir colocar um dos alunos mal comportados a varrer o pátio. Já para não falar das inúmeras comunicações que terá de fazer para a CPCJ e para o SASE. As novas intenções ministeriais ficarão paralisadas na imensa cultura de burocracia que impera nas escolas. É quase inacreditável que a atual equipa governativa não saiba que é isto que vai acontecer.
Se o ministério da educação quiser realmente tratar da indisciplina, deve primeiro reconhecê-la como o principal problema do ensino português, depois deve dar mais ouvidos aos professores para realmente saber o que se passa no terreno, e por fim adotar algumas medidas para diminuir a balbúrdia generalizada:  1 - tornar os atuais processos disciplinares hiper-burocratizados em processos disciplinares sumários e simplificados, onde a aplicação de sanções seja fácil, rápida e barata; 2 - incluir o comportamento dos alunos no seu registo de avaliação, classificando-o de um a cinco e contabilizando-o para efeitos de aprovação/reprovação como se de uma disciplina se tratasse; e 3 - criar um cargo de professor-instrutor a tempo inteiro, unicamente para tratar dos casos de indisciplina da escola. Para começar chegava. Basta quererem.

Amanhã ainda é domingo!

sexta-feira, 1 de junho de 2012

Pequeno mostruário para vampiros (4)




   Em Lisboa como na província magna costumam aparecer, aproveitando-se da ingenuidade de disponíveis assistentes e dos pequenos velhacos organizativos, certos “mestres-escolas de tudo e oficiais de nada” conferencistas, que com o descaramento que a mediocridade e a petulância lhes facultam ousam perorar sobre assuntos que gostariam de ter próximos e fecundos, mas que lhes estão tão longe como Vega ou Canis Minor…

  Pesporrentes e à guisa de vendedores de banha da cobra, esses caramelos estabelecem maior confusão ainda nas orelhas dos que os ouvem, capturados pela sua audácia de pequenos jogadores das artes & letras.

  Em “homenagem” a esses sujeitos atravancadores, aqui se deixa um poema sobre uma figura singular, existente e de que maneira apesar de artilhado nos plainos da imaginação, o grande Pitta Raposo, o magnificente e sem par…



Nicolau Saião, Um Pitta Raposo



Perfil de um grande homem

É arteiro como um cigano                  
elegante e donairoso                           
- um magnífico fulano                        
o grande Pitta Raposo!
                       
Melífluo e insinuante                          
dá de si boa impressão                       
e com voz tonitruante                
é um belo cidadão!  
                            
É real homem de bem
nada há que lhe não valha
pois seguro prestígio tem
entre outros da mesma igualha.

Sabe aguentar a parada                      
para levar tudo a eito                           
 entra em qualquer titarada               
que lhe dê justo proveito.                   

Um fidalgote fogoso                             
mexido até dizer basta                         
- o grande Pitta Raposo                      
como ele gosta da pasta!                 

Com a mão esquerda arrebanha
com a direita arrebata.                                                                                                   
O que faz falta é ter manha,
o que é preciso é ter lata! 
   
Mesmo sem obra imponente
que o venha a cobrir de louros
deixará um nome ingente
aos lusitanos vindouros

E a Estória registará
o seu nome valoroso
mesmo sendo a escrita má.
- E viva o Pitta Raposo!

Preparem-se: vêm aí os coristas do humanismo!


A proposta para o novo estatuto do aluno, aprovada hoje em conselho de ministros, prevê que os pais de alunos faltosos ou indisciplinados possam ser punidos pelo comportamento dos filhos através do pagamento de multas ou da redução dos apoios sociais.
De acordo com a proposta, que terá ainda de ser discutida e aprovada no Parlamento, as escolas passarão a ter de comunicar obrigatoriamente à Comissão de Proteção de Crianças e Jovens em Risco ou ao Ministério Público sempre que o aluno, depois de ultrapassar o limite de faltas, continuar a não ir às aulas ou tiver uma suspensão superior a cinco dias. Nestes casos, os encarregados de educação poderão ter de frequentar programas de "educação parental", por exemplo.



As famílias mais carenciadas, cujos filhos são apoiados pela Ação Social Escolar, poderão perder os apoios relativos à compra de manuais escolares, em substituição do pagamento da multa.



Já os alunos poderão ser obrigados a reparar e indemnizar os danos causados na escola ou às pessoas. Filmagens e difusão de vídeos ou fotos captados sem autorização no estabelecimento de ensino terão de ser punidos. 


Trabalho comunitário 




Para reforçar a autoridade dos professores, o diploma alarga de um para três dias a possibilidade de o diretor suspender um aluno, sem  ter de abrir um processo mais formal, bastando, para isso, a audição do estudante ou do encarregado de educação, no caso daquele ser menor.



O Governo quer ainda tornar mais rígido o atual regime de faltas. Se um aluno é expulso da sala de aula, terá obrigatoriamente marcação de falta injustificada. Até aqui, cabia ao professor a decisão de assinalar ou não essa falta. Também os atrasos e o esquecimento do material escolar vão ser equiparados às faltas de presença.
A proposta põe fim à realização obrigatória de planos individuais de trabalho - que contemplavam provas avaliadas pelos professores - por parte dos alunos faltosos. Caberá à escola decidir quais as medidas a aplicar a estes estudantes, que poderão passar por "tarefas socialmente úteis" para a escola ou para a comunidade, após o período de aulas.



O novo "Estatuto do Aluno e Ética Escolar" confirma o agravamento das penas em 1/3 em relação a crimes praticados contra professores.