quarta-feira, 23 de maio de 2012
O adivinho
Constâncio diz que não antecipa saída da Grécia da zona euro. Claro que não, se há coisa que o caracteriza é precisamente o não saber antecipar nada. Se não conseguiu acertar no elefante do BPN, como é que poderia prever seja o que for para a Grécia? Constâncio é daquelas pessoas que, tendo em conta o seu passado, mais valia estarem caladas.
Excelente imprensa
O novo presidente francês ainda não aqueceu o lugar, mas já dispõe de um excelente imprensa. Por todos os órgãos de comunicação social florescem parangonas com Hollande isto, Hollante aquilo. A notícias sobre a cimeira da NATO em Chicago são disso exemplo, parece que só lá estiveram dois presidentes: Hollande, e claro Obama.
terça-feira, 22 de maio de 2012
BONS PRINCÍPIOS…MELHORES FINS!
“O
Presidente francês, François Hollande, manifestou, num primeiro encontro com o
homologo turco, Abdullah Gul, na segunda-feira em Chicago, a vontade de
reativar as relações bilaterais, indica hoje a imprensa turca.
"Relancemos
as relações entre a Turquia e a França. Reparemos o que está danificado",
respondeu Hollande ao Presidente turco, que se mostrou inquieto com a
"hostilidade francesa" face à Turquia.
Hollande
encontrou-se com Gul na segunda-feira, à margem da cimeira da NATO em Chicago,
refere a imprensa turca.
Segundo o
jornal turco Hurriyet, Gul referiu a Hollande que os dois países têm
"interesses comum na generalidade dos assuntos".
"Abramos
um página em branco, uma nova página. Darei instruções aos meus ministros neste
sentido", afirmou Hollande a Gul, segundo o jornal turco pró-governamental
Sabah.
As ligações
bilaterais entre Paris e Ancara degradaram-se devido à oposição do anterior
presidente francês Nicolas Sarkozy à entrada da Turquia na União Europeia e à
votação, em França, de um texto que penaliza a negação do genocídio arménio,
que a Turquia não reconhece.
(in Diário de Notícias)”
***
A mentalidade "politicamente
correcta" (ou seja, levar bofetadas para não apanhar pontapés) deste
senhoreco já começou a dar frutos: agora é a Turquia, em breve será a burka
livre e a seguir a construção de minaretes.
Grão a grão enche o Islão o papo.
Aliás,
foi isso o que Hollande prometeu à comunidade de mullahs que o apoiou: para quê
a v/ violência, se podem ter tudo com mansidão? Hoje já é conhecida a aliança
entre o "socialismo" rosa ou escarlate com o proselitismo muçulmano.
Ambos são capazes de tudo para possuírem o Poder.
Pois não...!
O rendez-vous do troglodita - 4
(...)
A
cortesia, na tacanhez da lógica positivista mais estrita ignoradamente
subjacente ao quadro mental de múltiplos “cientistas sociais”, é apenas uma
manhosa convenção destinada a evitar os conflitos entre os humanos. Nada mais
falso porque superficial, mas que, no entanto, ganhou foros de freudiana
sabedoria de café ou de bar, depois das doze badaladas e outros tantos copos.
Na realidade, a cortesia que, nos animais, é mera regra comportamental
padronizada pelo instinto de conservação individual e do grupo, é, entre os
homens, um salto qualitativo dessa necessidade de preservação, pela capacidade,
que só eles possuem, de se colocarem na pele do seu semelhante. Por isso
dizemos que alguém cometeu um acto “desumano”, isto é, um acto que não teve em
conta o sofrimento ou a humilhação de alguém em cujo lugar conseguimos
colocar-nos por golpe de imaginação.
Podemos
encontrar erotismo em todo o lado, repito. E, naturalmente, nas mais
elementares regras de cortesia quando entre duas pessoas de sexo diferente. Os
actos adquirem significados diferentes, conforme o contexto, mas há uma
gramática erótica institucional. Quando um homem abre cortesmente a porta a
outro homem, na maioria dos casos não está subjacente a isso, se se tratar de
um acto meramente formal, mais do que o simbolismo respeitante à consideração
que o semelhante nos merece, a exemplo do que sucede com a vénia oriental; mas,
se for a uma mulher, ao gesto acrescenta-se, implícita e inevitavelmente, uma
dimensão erótica que nada tem a ver com o tão falado “assédio” nem com a famosa
“compra”. Reconhecer a diferença, inclusive a da maior fragilidade física
feminina em geral (mesmo que se trate de uma campeã olímpica do lançamento do
peso) e agir de acordo com essa diferença é algo natural no homem. E, além do
mais, é giro,
porque é a diferença o que dá sabor à vida, não a igualdade; se houver Inferno,
a condenação deve consistir em passarmos a ser todos iguais e mantidos vivos no
meio desse horroroso e infindável tédio. As mulheres inteligentes sempre souberam
perfeitamente que a sua fraqueza é a sua maior força e, por isso, nunca se
queixaram; sempre acharam que isso é
giro que se farta — é que a inteligência está ligada ao sentido de humor e não
à graçola.
Nenhuma
relação se mantém, ou, melhor, existe sem a cortesia como expressão de respeito
mútuo; e, quando a relação inclui o sexo, sem que ela se transforme em
erotismo. É difícil manter o interesse mútuo, manter o nível de erotismo? Não
se esquecer de dizer, todos os dias, à mulher que o jantar que ela fez estava
bom ou, se nem por isso, dizer que sim… mas sugerir que não está com ela por
causa disso, em vez de o engolir sem qualquer referência de apreço pelo
trabalho que teve, é exprimir respeito por ela através de um acto de cortesia
que é também um acto erótico. O erotismo é o que transforma a sexualidade
humana em arte e, como toda a arte, inspira-se nos mais ínfimos pormenores do
quotidiano para os transmutar em espírito humano. Seduzir e ser-se seduzido dá
cor, sabor e movimento à existência, seja qual for o sexo de quem seduz e de
quem é seduzido. Não a sedução que empata, mas a que aumenta o desejo da sua
tradução em forma de união carnal, para utilizar uma expressão proscrita pelo
irracionalismo ateu devido àquilo para que serviu ao irracionalismo religioso.
O
erotismo é feito quotidianamente, mas é feito também de ocasiões especiais, da
mesma forma que é imprescindível fazer uma festa de vez em quando para
revitalizar o dia-a-dia. O erotismo pode gerar mesmo uma relação ocasional,
feita de olhares, de sugestões significativas, de adereços mais ou menos
teatrais… até de uma troca de ideias. A expressão “química entre os dois ” é
mais um exemplo da persistência do ferrete do primarismo boçal positivista, que
viu a Luz nas feromonas. Nem nos animais existem feromonas suficientes para que
o macho salte logo para cima da fêmea, saltando por cima de um elementar ritual
de acasalamento que nada serve para a reprodução em si mesma. Até os bichinhos
gostam de ser um pouco mais do que bichos. E, na nossa espécie, na sua natureza
mesma, o erotismo encontra-se, como já disse, por todo o lado. Gozar com um
sexy sotaque tripeiro por cima da mesa pode ser uma sugestão erótica tão forte
como a que um pé sábio pode dar por debaixo dela. Da mesma maneira que só nos apercebemos
integralmente da paisagem em que estamos quando dela nos distanciamos, também
só nos apercebemos do significado da pele quando nos distanciamos da sua
mediatidade. O erotismo é a distância que refaz a proximidade porque
permite senti-la de outra maneira.
Diz
o meu caro CdR que nunca falou em superioridade do velho sobre o novo e muito
menos em progresso ou progressismo. E, no entanto, é disso mesmo que não pára
de falar. Por exemplo, quando compara, noutro comentário que fez entretanto,
algures, O Pátio das Cantigas e O
sexo e a Cidade, entendendo a série como sintoma de um
avanço na libertação (sexual e não só) das mulheres registado desde há 70 anos.
Ou quando apresenta aquele pequeno filme brasileiro com que pretende ilustrar o
que às mulheres não era permitido sequer sonhar anteriormente. Segundo o
dicionário, designa-se por “progresso” entre dois estados qualquer mudança que
resulte numa melhoria registada no segundo em relação ao primeiro. O contrário
chama-se “retrocesso”. Se quiser inverter o dicionário, faça favor; mas avise
primeiro, que é para eu e os restantes habitantes do planeta podermos ler e
pensar em conformidade. Porque eu digo-lhe: há mais erotismo e consequentes
promessas de incomparáveis gozos físicos e espirituais (porque é isso que o
erotismo possibilita) na franja de Beatriz Costa e nas redondezas abdominais do
Vasquinho do que em toda a série urbantronga das deprimentes desventuras
quecais da Sarah Jessica Parker e suas irmãs de permanentes desencontros.
É
que, repare, quando diz, ainda num comentário jocoso, que a sua mãe achou o
filme uma pouca-vergonha, eu também concordo consigo, que aquilo não é
pouca-vergonha nenhuma. De facto, aquilo não é uma pouca-vergonha, é uma
vergonha insuportável para qualquer animal. Porque aquela triste está reduzida
a algo abaixo de macaco, abaixo de cabra, abaixo de aranha, abaixo mesmo da
feromona: ela já só quer dentro dela a moca positivista, tal a degradação a que
está sujeita; é tanto o seu desespero, que ela come raivosamente o veneno que a
mata. O orgasmo que ela exige não é terapêutico, é o punhal da tristeza com que
ela mata ambos, o “já que queres que assim seja, assim será!”. Porque à pobre,
nem um ritual que qualquer outra fêmea curte, nem sequer a vigarice de uma
atençãozinha feita de porrada, lhe é dado! Não é de fazer chorar as pedras da
calçada, é de fazer explodir em lágrimas a Vida no planeta inteiro. Ela
suicida-se de solidão e de inumanidade e você diz: “Assim mesmo é que é, o
progresso que há no suicídio por tortura! O extraordinário humor que há neste
filme!”.
O
que é de facto espantoso para mim, aquilo que eu não compreendo de todo, é que
se o filme fosse sobre a situação inversa, se fosse dele a brutalidade verbal e
física com que ela o trata, você, como qualquer de nós, repugnar-se-ia com ela
e falaria do asco que aquilo lhe havia provocado. Ainda admito que o filme lhe
pudesse provocar alguma hilaridade enquanto explorasse uma simbólica inversão
de papéis, embora para mim isso fosse, por tudo o que disse, de humor mais do
que duvidoso. Agora apregoar como progresso aquela visão da morte implosiva de
uma civilização, Carmo da Rosa…
Não
foi por acaso que utilizei a expressão “morte implosiva”. Quando, em resposta
ao Lidador, disse, por mais que uma vez, que ele poderia manter-se no passado,
mas o certo é que nos países da Europa civilizada, a Europa mais a norte, a
coisa se passa assim, nos “vamos lá à queca! e prontes!”, e que isso, afinal,
até é bom, veio-me à memória um pormenor de não pequena importância, relacionado
com uma pós-graduação que fiz em Estudos Clássicos. E agora, de repente, uma
história passada comigo. Começo por esta.
Uns
trinta e tal anos atrás, conheci um casal de gente muito-à-esquerda, daqueles
que hoje devem andar muito indignados, com aspirações a guerrilheiros… de café
do centro da capital, e uma casa na aldeia de sãos costumes comunitários. Ele
queria, no porte e na postura, fazer jus ao que julgava que era: um verdadeiro
inconformista e revolucionário, em suma, um homem à séria, capaz de pegar numa
arma e ir-se a “eles”; ela era esganiçada, feiúca, desenxabida, quase
insignificante mas inefavelmente intelectual, como todas as suas irmãs de
género deveriam ser. Dizia ela, a propósito já não sei de quê, com um ar
libertadérrimo: “Ah, nós somos assim, não estamos com grandes coisas: queres?
vamos a isso, e pronto…”. E ele, com ar pràfrentex e algo gingão, tipo Vital
Moreira: “Pois, é assim mesmo…”. Julgo não precisar de lhe explicar porque me
lembrei disto. Garanto-lhe: foi-me impossível aceitar um segundo convite para
ir jantar lá a casa. Que enjoo!
Quanto
aos gregos de antanho, a tradição, devo dizer, que ao contrário do que pretende
impingir a comunidadegay, a tradição nunca foi o que era. Exemplifico
com duas obras de Platão: no (se a memória não me falha) Cármides, temos
uma imagem de Sócrates, corado de excitação por imaginar o que poderá estar por
baixo da túnica do mancebo que lhe é apresentado; no Górgias, quase ao final, o sofista passa de súbito, sem que
consigamos compreender porquê, na tradução portuguesa, a concordar com o que
Sócrates lhe diz. Quando se sabe ler um pouco de grego, vê-se que Sócrates
lançou mão de um “argumento” muito pouco dialéctico: sugere que Górgias é, além
de estrangeiro (o que, para um grego, é um factor depreciativo), sexualmente
pervertido, amante de rapazinhos, e, portanto, implicitamente, não tem o
direito de falar sobre política. É que a relação sexual com efebos, que, para
um ateniense, é um dever cívico enquanto o amor do mais velho tem por justificação
ensinar o mais novo a ser um verdadeiro cidadão (e não vou entrar aqui no que
isto possa ter de cultural no que respeita aos hábitos sexuais dos gregos de
etnia dória nem da sua relação com a guerra), não pode ser motivado pela mera
concupiscência, que é uma degradação do carácter. Daí a proibição que, a partir
de certa altura, as autoridades decretaram de os (não me lembro se todos, mas
pelo menos uns quantos, assinalados) cidadãos mais velhos assistirem aos jogos
que se realizavam com adolescentes.
Na antiga
civilização grega, porque encontrou na democracia política um ponto de
organização que só viria a ter semelhanças com o que o Ocidente encontrou a
partir do século XIX, encontra-se problemas curiosa e assustadoramente
parecidos com os que temos hoje. Como acho que já disse mais do que uma vez,
aqui pelo blogue, sabe-se que se escreveu “A terra a quem a trabalha” nas
paredes de Atenas. Os gregos acabaram por perder a independência, conquistados
pelo pai de Alexandre. E o que é mais interessante para o que tenho vindo a
querer dizer-lhe, é que a decadência política e cultural grega foi acompanhada
de, no plano da arte, um retrocesso em cujo final se encontra o erotismo
degradado ao plano do boçal, do puramente ordinário, mesmo do simplesmente
malcriado. Tire as conclusões que achar por bem, quanto à libertadora mocada
troglodita eleita pelo progressista norte da Europa.
Olhe,
vou terminar. Creio que não tenho mais nada a dizer, por agora. Mas sou capaz
de lhe dar razão, talvez às vezes me alargue demais nas respostas. Talvez,
perante o filme que decidiu apresentar como um avanço civilizacional me
bastasse ter dito: Aquilo, aquilo, é um avanço cultural e civilizacional…?! Oh
Carmo da Rosa,
F…OOODAA-SSSE!!!
E
pronto, cada um iria à sua vida.
segunda-feira, 21 de maio de 2012
UM POUCO DE PARAÍSO (3)
Às vezes chegam
cartas…
…e outras vezes chegam mails. Que hoje
por hoje, modernos q.b. que somos, jogamos no mapa interactivo com mais ou
menos vivacidade, menor ou maior pertinácia e, frequentemente, com salubres
resultados.
Desta vez foi dum rincão africano, a cidade
da Praia desse Cabo Verde onde se mesclam sinais de melodias singulares e um
solo que o não é menos por diversas circunstâncias específicas, que me chegou
um texto dum confrade de há largos anos que, após ter cumprido sua função
profissional na nossa RDP, para lá se transportou a outros tratos paralelos.
Refiro-me ao Nuno Rebocho, que quis endossar-nos este trecho memorialista com
marcadas referencias à “terra grande” e que aqui vos deixo para uns minutos de
degustação.
Lembrando
Manuel Ferreira
O português como uma só língua, com
vertentes derivadas (a falada em Portugal e no Brasil, a falada em cada um de
cinco países africanos) foi tese defendida por Manuel Ferreira muito antes que os
ventos da descolonização soprassem, de maneira irremediável, a partir de 1974.
Quando, com parte da sua obra escrita, conheci o autor de “Hora di Bai” (o
“africanista”, como era geralmente então apontada) nas mesas heterogéneas da
desaparecida leitaria “Paço”, no lisboeta Rossio – onde abancavam, em volta de
Armando Ventura Ferreira (o “patriarca”), escritores como Manuel da Fonseca,
Palla e Carmo (Sesinando), Baptista Bastos, António Borga, Costa Mendes, Júlio
Salgueiro, Hugo Beja, Fernando Grade, João Carreira Bom e muitos outros –
Manuel Ferreira era um tanto menosprezado, por quanto entendiam,
preconceituadamente, como “menores” as literaturas portuguesas de África,
“donzelas” pelas quais ele galhardamente já se batia. Esses eram tempos de
tertúlia pelos “cafés” e leitarias de Lisboa, em que intelectuais – em
conversas fluidas – iam desafiando a PIDE (polícia política) e a censura
salazarentas e se ergueram as bases da resistência à vilania que foi o
encerramento compulsivo da Associação Portuguesa de Escritores, por ter
atribuído prémio a Luandino Vieira. Eram tempos de franco e amistoso combate de
ideias diversas, e por vezes bem opostas, e que tanta falta fazem nos nossos
dias, se bem que houvesse também a tendência para o alinhamento por ideologias,
como era o caso dos neo-realistas que, por volta das 18 horas, juntavam as suas
armas nas caves do Martinho da Arcada, ao Rossio, ou da geração 61 que se
encontrava num “café” das Avenidas Novas: o “Paço dos Conjurados” (como nós lhe
chamávamos) era lugar de confluências no trânsito de alguns que não desdenhavam
de uma boa conversa antes de prosseguir para outra “freguesia”.
As ideias expressas por Manuel Ferreira
caíam em ouvidos moucos. Já então ele começava a advogar a necessidade da
língua portuguesa encontrar uma matriz comum (acordo ortográfico) que
unificasse as divergências criadas pela separação dos continentes. Só mais
tarde me apercebi dos contributos desta tese, à medida que fui (re)conhecendo a
realidade linguística de cada um dos novos países africanos fraccionados entre
jovens que estudaram em Portugal e jovens que estudaram no Brasil. Havia quem
se opusesse a esta senha renovadora – era o exemplo de Vasco da Graça Moura – e
que, aos poucos, foi merecendo o meu apoio e entendimento.
Nicolau Saião, África
Por essa época de incontidas raivas contra a
mordaça de Salazar – anos 60 do século passado -, Manuel Ferreira era um
“simples” autor de um romance, “Hora di Bai” (que dificilmente traduzíamos por
Hora de Partida), o qual merecia a curiosidade de então jovens, como Carreira
Bom, mal chegado a Lisboa vindo de Aldeia Nova de S. Bento, ou de mim mesmo.
Era o “Sargentanas”, como eu fraternalmente lhe chamava, em galhofa pelo seu
passado no exército colonial, embora tivesse o dever de o escutar com mais
atenção, mordido que estava pelo anúncio de novas aragens trazidas por “Nós
Matámos o Cão Tinhoso”, de Luís Bernardo Honwana, que foi meu colega em
Lourenço Marques, nome que recebia a cidade que é hoje conhecida por Maputo,
Moçambique. Mas só mais tarde, anos 70, viriam a surgir “Voz de Prisão” ou “No
Reino do Caliban”… e a grande dimensão, e importância, de Manuel Ferreira se
patentearia a meus olhos: Ferreira se tornaria no grande propulsionador dos
estudos africanos na Universidade portuguesa e referência actual das
literaturas africanas de língua portuguesa. Foi ele que, com olhos de ver,
primeiro conclamou os estudiosos para as novas literaturas que iam aparecendo
nas Áfricas, complementando o labor que ia sendo feito pelo angolano Mário
Pinto de Andrade (que eu conhecia de leituras várias na saudosa Casa de
Estudantes do Império, em Lisboa, alfobre de anti-colonialismos múltiplos e
nacionalismos díspares). De certo modo, foi um precursor e como tal deve ser
honrado, hoje em dia, o seu toque a parada.
É verdade que, como se costuma dizer, “a
ocasião faz o ladrão”: há sempre o momento em que as pessoas se revelam, para o
bem e para o mal, à verdadeira dimensão da sua grandeza. Serão nuns momentos o
que noutros não são ou ainda não o são. Estão sempre em interacção com o meio,
em constante mudança, numa roda-viva de constantes mutações e evoluções. Como
se diz: nunca aprendem. Portanto, nada é definitivo… nem mesmo a morte – vide o
“terrível” Fernando Pessoa. Pelo que é apressado e injusto julgar, em absoluto,
qualquer indivíduo – ele pode sair da sua aparente concha e tornar-se
gigantesco aos olhos do vulgo, ganhando um recanto da história.
Manuel
Ferreira foi nisto um caso exemplar.
Nuno Rebocho
domingo, 20 de maio de 2012
Os muçulmanos Salafistas e a Europa
Um novo texto que me foi enviado por António Justo e que pode ser lido também aqui:
Muçulmanos Radicais à Conquista da Europa
Salafistas pregam a sua Hegemonia
Muçulmanos
salafistas usam uma estratégia de infiltração eficiente em diversos
meios, especialmente, na arte, Internet e juventude para uma islamização
sistemática na região dos “incrédulos” (“Kuffar). Com a sua guerra
santa pretendem fomentar o Islão com a Sharia (direito muçulmano) na
Europa, querendo que a Europa volte à idade Média. Querem, distribuir
gratuitamente na Alemanha, Áustria e Suíça, alegadamente 25 milhões de
livros do Corão. Esta inventiva Árabe visa radicalizar especialmente
muçulmanos moderados (na Alemanha há um número superior a 4 milhões de
muçulmanos) e recrutar principalmente jovens europeus desorientados.
Em
acções de dois fins-de-semana, em Zonas de peões da Alemanha, já
distribuíram 300.000 livros. Os resultados da agressão ideológica já se
fazem sentir no radicalismo de manifestações na rua.
Emigram para um mundo que consideram inimigo e vêem-no como sua zona de combate. “Lutam por uma espécie de califado europeu, onde não se deve aplicar o direito ocidental mas sim o da Sharia”(in
Der Spiegel n° 17/23.4.12); organizam-se em redes como a
“Millatu-Ibrahim” (Comunidade de Ibrahin) na Alemanha, fundada por
Mahmoud e pelo ex-rapper Cuspert; tornam-se muito eficientes através da
infiltração em mesquitas moderadas. Com os seus songs, Cuspert consegue
atingir os sentimentos da juventude em textos como “O teu nome corre no
nosso sangue” referentes a seus ídolos, entre eles, Bin Laden. Muitos
vivem da ajuda assistência social do estado como refere o Jornal
Stuttgarter Nachriten no caso do pregador salafista Ibrahim Abou-Nagie
que receberá para ele e família entre 2.300 e 2.500 euros por mês. Ele
terá sido, segundo afirmou, o iniciador da acção da distribuição dos
livros do Corão.
Os
Salafistas usam o âmbito da liberdade europeia para missionar uma
sociedade que consideram incompatível com a sua e em que a sua fronte de
guerra é o mundo cristão. “A nossa arma é a Internet” afirmam
salafistas que se consideram a elite da religião maometana. Na Alemanha
há entre 3.000 e 5.000 salafistas, recrutados geralmente da segunda e
terceira geração de emigrantes. Têm figuras ideais como o ex-pugilista
Pierre Vogel e personalidades ligadas à Al-Qaida. Tal como os
extremistas nazis encontram-se sob observação do Estado.
O
Estado sente-se de mãos atadas perante adversários da sociedade
ocidental, como os salafistas. Desde que saibam empacotar a sua mensagem
de maneira a não apelar directamente à violência, as autoridades não
podem fazer nada, embora conheçam a cena de extremistas que preparam
atentados como o de Frankfurt em que dois soldados americanos foram
mortos por um companheiro de Mahmoud. Der Spiegel cita Mahmoud, o qual
afirma que a diferença entre os seus inimigos e e os muçulmanos crentes,
é: “Eles amam a vida e nós a morte”.
Os
salafistas são a ponta de lança dos Wahabis da Arábia Saudita. Por toda
a parte se observa o aumento da radicalização de grupos islâmicos que
antes eram mais tolerantes.
O povo indonésio que antes tinha uma tradição pacífica tem sido influenciado por forças muçulmanas radicais árabes.
Tem-se observado, nas últimas décadas, uma radicalização da sociedade
indonésia em que muçulmanos que tinham nomes hindus abdicam do seu nome
de tradição hindu para assumirem nomes árabes, e aniquilam indígenas de
Papua, transplantando muçulmanos para esta região, seguindo a política
de colonos como faz a China no Tibet. É preocupante observar como
tradições culturais de zonas geográficas amenas abdicam da sua alma
afável para adquirirem a aspereza cultural nómada do deserto. Por todo o
mundo muçulmano se tem observado uma contínua radicalização. A Arábia
Saudita, o Irão, o Paquistão e o Afeganistão têm sido os maiores
incrementadores do extremismo árabe.
São
tendências que a História corrige mas a custo de grande tributo.
Segundo previsões do CBN, no ano 2030, a maioria da população de
Bruxelas será muçulmana. Aber Imran, chefe do grupo “Sharia 4 Belgium”
afirma: “Democracia é contrária ao Islão” e Allah é quem diz “o que é
proibido e o que é permitido”.
Grupos
moderados muçulmanos não se levantam contra os salafistas nem contra
terroristas muçulmanos porque estes se fundamentam no Corão e para os
contradizerem entrariam em contradição com o Corão.
Os
salafistas no Egipto (“Partido da Luz”) conseguiram 30% dos votos. Todo
o norte de África se encontra a caminho duma radicalização nunca vista.
As
diferentes civilizações ainda se encontram muito subdesenvolvidas e
primitivas no que toca ao seu estádio espiritual. Só uma atitude de
respeito de todo o Homem e de toda a cultura para com o Homem e para com
a natureza poderão levar à paz. De momento, o extremismo ideológico
político-religioso e o extremismo económico dominam os povos.
O rendez-vous do troglodita - 3
Henri Matisse, La danse
(...)
A
Mulher, tal como o Homem, como se sabe, não existe neste mundo. Quando muito,
padrões com uma raiz comum, por sua vez detectáveis em conjuntos de raízes
secundárias — todas elas, afinal, individualizáveis. Descontando os casos
claramente patológicos, há, nesse plano, diferentes tipos de indivíduos, homens
e mulheres: os sexualmente mais activos do que os outros; os mais espontâneos
na exteriorização dos seus afectos ou apetites do que os outros; os que
diversificam mais a prática com que os concretizam e na utilização do seu corpo
do que os outros. E um dos enormes problemas que hoje existe em termos de
coesão social, porque aliado à maior liberdade individual e a consequente menor
pressão social, é precisamente o facto de a noção de família não acompanhar
essa mesma realidade inegável e soberana, continuando a sua constituição a ser
regulada e controlada pelo Estado, seja em nome de uma moralidade resultante do
preconceito, da ignorância ou do receio, seja por meras questões de
fiscalidade. Se é imprescindível que a família constitua o garante de uma sã
continuidade da humanidade futura é necessário reinventá-la, sem, no entanto,
ao mesmo tempo poder por um momento esquecer os elementos que tornam o “átomo”
familiar no local por excelência de um desenvolvimento equilibrado dos membros
da espécie. E isso implica a presença imprescindível de membros de sexos
diferenciados, sem o que a escolha de modelos não funciona com a necessária
normalidade. Porque os padrões existem mesmo, não são apenas de natureza cultural.
Um
dos erros dos sixties foi inferir que, como a
maioria se encontrava impedida de expor livremente a dimensão da sua
sexualidade (subliminarmente identificada com a imagem da sexualidade
abrutalhada com que a “ciência” positivista quis indrominar até os
animaizinhos) todos estávamos reprimidos sexualmente e que todos desejávamos a
mesma medida de actividade sexual. Quem não aceitasse um convite estaria
certamente com bloqueios na cabecinha devido à influência da ssciedade. Essa
atitude ajudou, de facto, muita gente a assumir melhor a sua vida, mas como
nada é perfeito, ajudou também a gerar mais confusão. Nas mulheres como nos
homens. É o problema da esquerda, mesmo da mais liberal, o do pronto-a-vestir.
Tanto mais desejariam que o mundo fosse e se comportasse à sua medida, tanto
mais absolutizam o que não é absolutizável.
Em
si mesmo você encontra esses resquícios, quando, por exemplo, ainda
recentemente, num comentário que fez já não me lembro de a quê, dizia que há
(como, aliás, toda a gente saberá desde o tempo das cavernas, nisso não deu
nenhuma novidade) raparigas que se fazem aos homens mais velhos; mas que as que
não o fazem — sugeria — era porque ainda tinham macaquinhos no sótão. Meu
caro, se há mulheres, jovens ou menos jovens, que gostam de homens mais velhos,
há outras a quem o pezinho não foge para aí — e você tem que o aceitar. Em
primeiro lugar, porque não cabem na vertente erótica que lhes agrada e as
motiva, preferem o vigor à experiência, que esta logo se ganha; em segundo
lugar, porque, ao contrário das outras, o sabor da pele menos fresca ou o ranço
que o tabaco e o álcool acrescentaram a essa menor frescura de pele e de
hálito, por exemplo, as desmotivam; em terceiro lugar, porque a visão de um par
de bochechas, agora flácidas, balouçando por cima do seu rosto, não é
propriamente uma visão que ajude ao clímax — e nem sempre lhes apetece estar
por cima; em quarto lugar… e por aí fora. O mesmo para os rapazes, é claro.
Descontando estasnuances, confesso-lhe que, pelo que me toca, as
mulheres abaixo da quarta década, com raras excepções, não me motivam por aí
além: faz-lhes falta a experiência necessária a uma dimensão de erotismo que só
as vivências de um maior tempo de curtição pela vida proporcionam. Diria quase,
como não sei quem que outro não sei quem citava noutro dia: mulheres, só com
certificado de menopausa. Mas já cá volto, à questão do erotismo.
Continuando:
há poucos dias, fazendo zapping,
apanhei num telejornal qualquer, creio que o da TVI, uma peça sobre a crescente
expansão do modo de vida swinger em Portugal e os
problemas psicológicos que algumas mulheres apresentavam devido a ele. A
sexóloga de serviço da comunicação social cá do jardim, Marta Crawford, a quem
o jornalista perguntou o que sabia do assunto, respondeu: “Eu acho que sim, que
traz problemas, pelo menos esses são os casos que me chegam. Mas o facto é que
está em expansão, portanto parece que as pessoas não se sentirão tão mal,
senão…”. Por outro lado, tempos atrás, novamente fazendozapping, desta
vez na SIC Radical, uma habitante do Bunny Ranch, respondeu à pergunta do
entrevistador sobre se as raparigas que ali estavam se mantinham lá a
contra-gosto, respondeu: “Sabes, isto é como em todas as profissões: quem não
se sente bem com o que faz, anda contrariado, acaba por ir-se embora, mais
tarde ou mais cedo…”. A enfermagem não é vocação de toda a gente, mas só de
alguns, que o diga a enfermeira-chefe Nightingale. Por mim, nada tenho contra a
diversidade desde que ela não seja resultante do arbítrio de alguém sobre
outrem.
A
propósito, já reparou que uma das fantasias mais populares entre os clientes
das prostitutas é vê-las vestidas de enfermeiras? Pelo menos, sugerem-no muitos
dos anúncios “eróticos” dos nossos jornais diários. Não é apenas a Grande Mãe
da espécie, é a mulher que cura, pelo carinho, aquilo que está subjacente na
fantasia. E é mais: é algo que Georges Bataille muito bem ressalta num dos
contos que li numa edição em livro de bolso, que juntava Madame
Ewarda e Histoire de l’oeil a
um outro, de cujo título não me recordo. Como se o doente no seu leito
parecesse ter um efeito desinibidor e catalisador da pulsão sexual, como se o
instinto de sobrevivência, de “persistência no ser”, como diria Espinosa, se
levantasse contra a morte não só da parte dele como dos que dele estão
próximos. É verdade. Soube-o, ainda criança, quando estive perto de morrer. E
isso leva-me à questão — vital! — do erotismo.
Não
foi arbitrariamente que os historiadores relacionaram o início da História da
humanidade com a presença de monumentos funerários. O animal assusta-se com a
morte, não se espanta porque não tem instrumentos mentais para reflectir sobre
ela. Um primata, como o chimpanzé, é capaz de operar sobre os dados fornecidos
com um nível de eficácia igual à de uma criança entre os seis e os dez anos,
mas é incapaz de um da auto-reflexão a que se liga a linguagem humana desde o
ano e meio de idade. Apesar de ter um aparelho vocal que lhe permitiria falar,
o animal não fala, sinaliza situações, tal como um trovão é um aviso de que
estamos em presença de uma trovoada. A noção de tempo é-lhe estranha: um cão é
capaz de se aperceber do ritmo e, por isso, continuará a ir mecanicamente
esperar o dono à mesma hora durante anos, após a sua morte; mas não se
conseguirá fazê-lo compreender ordens do tipo “daqui a dois dias, vais
buscar-me os sapatos” ou “amanhã, levas as ovelhas para ali”. A noção abstracta
do tempo — do ontem, do hoje e do amanhã —, isto é, a capacidade de nos
projectarmos no futuro, de nos planearmos, apenas se nos desenvolve, aliás, a
partir dos sete anos. E a capacidade de nos pormos no lugar do outro, de
imaginarmos o que sentiríamos se nos encontrássemos na pele de outrem, isso só
a partir dos onze. A capacidade de avaliarmos o prazer e a dor do outro, de nos
identificarmos com ele, ainda mais inacessível é ao animal, porque incapaz da
operação que o poria ao nível de se distanciar de si mesmo, de se pôr em causa
a si próprio.
A
necessidade que o ser humano tem de mudar sem, para isso, ser forçado pelas circunstâncias,
é resultante dessa capacidade de autoconstrução. Fazemos vários tipos de casas,
de diversíssimos padrões estéticos, independentemente das necessidades
específicas que todas elas, no seu conjunto, procuram satisfazer. Da mesma
maneira que não existe apenas um ritual de acasalamento para toda a humanidade
ou sequer para cada cultura, não existem dois de nós com os mesmos exactos
gostos e desgostos amorosos. Mas é esta mesma diversidade que acaba por
construir uma outra unidade, intrínseca à espécie humana. Espécie, note-se, que
tem a particularidade, rara no reino animal, de os atributos de chamariz sexual
estarem concentrados predominantemente na fêmea e não no macho. Uma coisa,
porém, é o ritual de acasalamento, mais padronizado enquanto, até certo ponto,
biologicamente condicionado; outra, o erotismo, que é algo muito mais
simultaneamente lato e individualizado e que permeia o acasalamento humano.
Atribuir
um significado à vida e, em geral, ao que nos acontece e fazemos, discutindo-o
e partilhando-o com os nossos semelhantes, é o que essa mesma capacidade de
viver para lá do momento e da circunstância imediatas nos permite. Fora do
tratar do preço das bananas na mercearia e do comê-las em maior ou menor
quantidade, é isso que nos transforma em homens e nos distingue dos macacos. O
erotismo assenta nisto mesmo, na capacidade de conferir significado e, logo, de
reinventar e estimular o acto amoroso numa gama quase infinita de modos. Nesse
sentido, acrescentaria eu ainda, da mesma forma que a criança humana se prepara
para a vida brincando ao faz-de-conta e, assim, ao desenvolver a imaginação,
multiplicando as soluções e as possibilidades de sucesso de vir a ter mais
prazer na vida do que dor, também o sexo se muda, no adulto, na brincadeira em que
a autoconsciência, a consciência da finitude da existência (o amor e a morte
desde sempre se ligaram estreitamente nas nossas mentes, conforme o testemunha
abundantemente a arte em geral), a necessidade de atribuição de sentido às
coisas e a capacidade de nos imaginarmos na pele alheia constituem um aspecto
fundamental do salto qualitativo (e não de mera quantidade) que a nossa
inteligência constitui em relação à restante inteligência animal. O erotismo é
o que nos torna humanos.
Podemos
encontrar erotismo em todo o lado. Matisse, um dos pintores por excelência do
erótico, confessava-se apaixonado por uma cadeira que encontrara nos mares do
Sul. E, quando nos esquecemos da moca positivista, achamos risível e amacacado
o tipo que firma o pé na parede a fim de melhor ganhar balanço para “lhes
saltar para a cueca” — lembro-me, a este propósito, de um empregado de mesa
“engatatão” e que “não perdia uma”, mas que, quando eu, em conversa, brincava
com ele por causa de um dos seus “engates” mais recentes, me dizia, entre o
irónico e o quase melindrado, que não iria “levar uma mulher para a casa de
banho, há um mínimo que se deve a uma mulher”. Até ele, meio analfabeto e, por
isso, supostamente por muitos meio-bruto, tinha essa noção do que às mulheres
se deve, de um “significado” por mais tosco que seja. F…, f… todos, mais ou
menos, homens, animais e plantas. Mas eróticos, só nós, mais nenhuns, porque só
nós saltámos da cueca para o significado — da cueca inclusive.
sábado, 19 de maio de 2012
O economista e o beijo
João César das Neves, jornal Destak, 17-05-2012:
A lei do beijo
Problema sério nas relações sociais é o número de beijos em
encontros amigáveis. Felizmente não é habitual por cá que os homens se beijem,
como na Rússia e Arábia. Isso reduz o problema a contactos entre mulheres e
mistos mas, mesmo assim, é bastante vasto. Optar por um beijo implica a
probabilidade de a outra pessoa ficar com a cara à banda, à espera do segundo.
A alternativa arrisca a nossa cara a sair em falso. O mal está na falta de
doutrina estabelecida.
Cada alternativa, um ou dois beijos, tem os seus defensores
convictos, mas a maior parte da população é agnóstica no assunto. Tentou-se uma
explicação social, teorizando que as classes altas se limitam a um beijo e o
povo prefere os dois, mas a tese tem falhas. Por isso existe tanta confusão e
hesitação quando as pessoas se encontram. Pior, só decidir a ordem de passagem
diante de uma porta aberta.
Este é um campo em que é urgente que o Estado legisle. O Governo
deveria fazer uma lei do beijo (e também da porta), determinando com clareza os
ósculos a dar em encontros ocasionais e punindo severamente os violadores.
Alguns podem achar isto uma intromissão inaceitável do poder
público na vida privada. Mas o Estado já se mete em tudo e mais alguma coisa,
do bolo-rei à colher de pau, bofetadas parentais, aborto, locais de fumo. Porque
não os beijos? Grave problema administrativo impede a legislação: decidir o
departamento responsável. Uma sugestão válida é o Ministério da Agricultura. Afinal
beijar é tão agrícola quanto a saúde e segurança alimentar, temas da nova taxa.
sexta-feira, 18 de maio de 2012
Uma luz ao fundo do túnel
Dois emails que enviei hoje:
UMA
LUZ AO FUNDO DO TÚNEL 1
De acordo com fontes bem informadas e que têm
estado a dar sinal do sucedido, os noticiários de hoje, a partir das 8 horas da
manhã, têm registado um número record
de ouvintes.
Ou seja, as pessoas têm estado muito atentas
ao que tem estado a ser noticiado.
É natural, até, que o confrade seja uma
dessas pessoas.
Mas o que se tem estado a passar?
É simples: por investigação dum dos "periódicos de combate", que já por
diversas vezes meteu pauzinhos na engrenagem dos bafientos salões do quotidiano
nacional que muitos têm querido rebaixar ainda mais, o sr. dr. Duarte Lima -
ornamento brilhante da nossa casta de homens públicos e um dos mais recentes e
notáveis "pensionistas" dos
calabouços da Polícia Judiciária - parece que "deu com a língua nos dentes" como diz a expressão popular e o
resultado começou a aparecer: já foram detidos diversos cavalheiros (e
concerteza mais irão a seguir...) na sequencia da descoberta de uma das maiores
redes mafiosas de "fuga ao fisco", “manipulação de capitais" e
outras amenidades em que sectores argentários relapsos são peritos.
De acordo com os observadores, tal facto está
a causar ondas de choque pois muito boa gente, até então "pura como a neve", estará implicada
na marosca - e corre mesmo que muitos outros, ainda indetectados, estarão de
"calças na mão" à espera da
pancada que, em sociedades civilizadas, não deixaria de os atingir no cachaço.
Como referi anteriormente, as coisas começam
a suceder...É preciso que nós, portugueses de bem, "malhemos o ferro enquanto está quente", como sói dizer-se. É
necessário, através dos mídias, EXIGIRMOS que o Sistema Judicial não abafe nem
deixe esfumar-se a possibilidade de se fazer uma limpeza nos díscolos que têm
pouco a pouco destruído o imaginário colectivo e societário nacional. Cabe-nos
deixar uma nação melhor aos vindouros, iluminando ao mesmo tempo o quotidiano.
Os "chefes
da banda" têm de ir para a enxovia, não por vingança mas por Justiça.
Durante
demasiado tempo, entremeado por golpes adequados (criação de bodes expiatórios
para distrair as atenções, manobras de intimidação para calar os mais afoitos e
incorruptíveis, uso de associações para perpetrarem golpes criminais, etc. ) os
"quadrilheiros camuflados"
que tanto nos têm prejudicado têm conseguido escapar impunes - o que o Sistema
Judicial, se acaso ainda vivemos em país de Direito, não pode permitir sob pena
de "cumplicidade" com bandidos mais que situados.
O tempo é
de perigo, decorrente da Crise mas também de videirinhos que, nos últimos
tempos não se têm furtado a pedir insistentemente sedição, senão mesmo golpe de
Estado, em suma: desgraça nas ruas para o Povo Português.
Não
será isso que a Nação e todos nós precisamos. O que faz falta é Justiça,
hombridade e respeito pelos direitos humanos da população portuguesa!
UMA LUZ AO FUNDO DO TÚNEL 2
Hoje foi, digamos com certo humor, um dia
não para "díscolos".
Um
deles, super-olheiro de tratos...reservados, viu mais um prego cravado no seu
"caixão" de desmascarado vigarista e alegado prostituído a quem mais
massaroca dava.
(O tom é, no meu discurso, muito avacalhado.
Creio que é o timbre que cabe a esse tipo de alegados patifórios. E é por causa
deles que estamos como estamos. "Quem não se sente não é filho de boa
gente", lá diz o ditado popular).
Ora
sucede que um ou outro amigo, ferido pela excessiva bandalheira em que o país
foi mergulhado, escreveu-me com algum desespero inquirindo como se poderia
obstar a que estes e outros assuntos que estão a destruir Portugal não atinjam
os seus fins.
Tendo conversado com o nosso confrade
especialista Jorge Gaillard Nogueira, ele deu-me elementos que me permitiram
responder como segue a esses amigos:
Pelo menos impõe-se que cumpramos o nosso
dever: por exemplo, dirigir cartas ao Presidente da República, que perante isso
não poderá calar-se e ser cúmplice.
Paralelamente e se for caso disso, dirigir
cartas ou mesmo petições ao TPI. Não podemos esquecer que abafamentos
produzidos por magistrados caem sob a alçada do TPI, como sucedeu na
Argentina,Itália e Nigéria. E como se sabe, os do TPI AINDA não estão
corrompidos pela nova ordem internacional a que alguns têm dado o melhor da sua
esperança mafiosa.E condenam mesmo, como se tem visto.
Nem podem os mafiosos lusos mandar assassinar
toda a gente. Se tivermos coragem e determinação, sem nos deixarmos flectir
pelo desespero, venceremos a cartada contra estes bandidos.
Eles jogam tb no nosso desespero. Não lhes
façamos a vontade
.
Abrqs do ns
O rendez-vous do troglodita - 2
(...)
Os
chamados “grandes primatas” dividem-se em quatro grupos: os orangotangos, os
gorilas, os chimpanzés e os bonobos. Dos três primeiros, todos ouvimos falar
frequentemente e conhecemos a maioria das suas características e hábitos; não
dos últimos, que, no entanto, apresentam aspectos interessantíssimos e mesmo
mais aproximados aos humanos do que os restantes. Um deles é a utilização do
sexo como modo e instrumento de coesão social, de saneamento de conflitos. “Make
love, not war” e “peace and love” são, neles, não uma ideologia ou
preceitos de um catecismo mas prática fundamental para a sua existência,
individual e de grupo. O contacto homossexual nela incluído. Ao contrário das
habituais lutas pelo poder, da disputa das fêmeas, das guerras de grupos e por
aí fora, observáveis entre os outros, entre os bonobos o que é comum
observar-se é que tudo f…, minha gente. Se desconhecia o que eu disse e quiser
um pouco mais de informação sem ter que ir a correr à biblioteca, veja aqui . Dá para se ficar com uma ideia.
Os
bonobos estão mais próximos de nós porque, entre outras coisas, deram uma
função à sexualidade que ultrapassa a da reprodução e a da simbologia da
submissão ao macho vencedor; os bandos têm, até, uma estrutura matriarcal. Mas,
admitindo, como o faziam ainda os antropólogos darwinianos alguns anos atrás,
que o ser humano provém de uma evolução do estado macacal, onde está a
violência dos macacos para com as fêmeas enquanto preliminar de conquista? Não
se observa nos bonobos, como não se observa nos restantes primatas nem em
nenhuma espécie conhecida. O que pretendo eu dizer com isto? Vou tentar ligar
as peças do que parece um puzzle,
acrescentando-lhe uma outra.
O
século XIX é, como todos sabemos e eu já lembrei vezes que cheguem, um século
cheio de profetas e messias. Um deles foi Augusto Comte, o patriarca da ciência
que investiga as leis de formação e consolidação das sociedades humanas bem
como as que permitem prever a sua evolução, com vista a formar a sociedade
perfeita e definitiva: a Sociologia. Marx nunca reconheceu a influência que
nele teve Comte (talvez porque este considerasse a propriedade privada como
indispensável para formar o carácter do cidadão da Humanidade Nova, ao nível do
desenvolvimento do sentido e do sentimento de solidariedade), mas certamente
que a sua juventude não o desconheceria já. É que a “filosofia positivista”
teve um papel decisivo em muito do que aconteceu nos 100 anos que se seguiram à
morte de Comte, em 1857, e a sua influência perdura em grande medida já neste
novo milénio graças a um conjunto de circunstâncias que lhe foram propícias e
ao facto de, por ser conceptualmente primária, facilmente haver seduzido os
sequiosos de poder de horizontes estreitos em todas as áreas. Não por acaso, a
sua obra de referência chama-seCatecismo Positivista.
Não
entrarei em pormenores sobre o positivismo, como filosofia. Assinalarei apenas
o fundamental:
- Para Comte, a humanidade evolui ao longo de três estádios: o
religioso, assente na superstição, próprio de sociedades arcaicas; o
metafísico, em que já se procura especular racionalmente sobre o tema das
origens do mundo e de um seu Criador, como foi o caso da Idade Média (cá está
ela, de novo); e, finalmente, o estádio positivo, no qual, desprezando tais
questões como menores, insolúveis e mesmo sem sentido, a humanidade considera o
conhecimento científico, o conhecimento do que se lhe apresenta aos sentidos,
como o único válido. O ateísmo, aliás, enquanto movimento exclusivamente
ocidental e do século XIX, fundamenta-se nestes princípios; passa-se, deste
modo — contraditoriamente com o primado estabelecido da racionalidade —, da fé
que afirma a existência de um nível divino, absoluto, do ser, para uma fé que
afirma o seu oposto.
- De qualquer modo, a humanidade necessita de uma religião — se o
quisermos: de um horizonte. Há, pois, por este motivo, que criar uma nova
religião, a que é própria desses Amanhãs que Cantam visionados por Augusto
Comte: a religião positivista. Além dos templos em que se presta culto à
Humanidade, as estátuas que representam os ídolos da superstição e da
irracionalidade de outrora deverão ser substituídas pelas dos grandes
benfeitores da grei, dos cientistas… E, sobre todas as outras ciências, como
sua síntese útil e orientadora, aquela que visa a felicidade humana definitiva:
a Sociologia.
Basta
lembrar que, a este segundo nível, Comte foi o guru de múltiplos movimentos
republicanos, incluindo o português e da I República lusa; que a frase “Ordem e
Progresso”, inscrita na bandeira brasileira, se refere à visão comteana da
sociedade perfeita do futuro sob a égide da ciência sociológica; que, a Igreja Positivista do Brasil se mantém desde
há 120 anos… Tão ou mais importante, porém, do que os aspectos político
directos, são os que dizem respeito ao caldo cultural de “cientismo” que ajudou
a formar e a disseminar mesmo dentro do próprio meio científico, assente na
autoridade dos novos conhecimentos e das novas tecnologias, chegando a travar
uma investigação séria e a ostracizar quem o queria fazer. A doutrina
positivista e os seus conscientes e inconscientes esbirros serviram poderes
políticos de todos os matizes, nas universidades e fora delas. Por cá serviram
Salazar depois de terem servido a I República, anulando tudo o que fosse
tentativa de renovação e alargamento de estudos fora das suas perspectivas.
O
primarismo conceptual do positivismo, maior ainda do que o do materialismo
histórico, marxista, não o deixou reinar por muito tempo no que respeita às
chamadas ciências humanas; quatro décadas bastaram para a contestação adquirir
teorização e metodologia próprias e eficazes. Mas, uma vez mais, tal como
sucedeu com o marxismo, as fragilidades do positivismo transformaram-se na sua
maior força. O positivismo constituiu um veneno muito mais insidioso porque
contava com um princípio fundamental na sua fé, irresistivelmente lisonjeiro
para qualquer membro da tecnologicamente triunfante civilização ocidental: o
homem europeu ou, mais latamente, o de qualquer cultura de raiz europeia, seria
aquele que se superiorizara a todos os restantes homens do planeta, ao
conseguir furtar-se às trevas religiosas e metafísicas. Constituindo o cume
inultrapassável de uma evolução histórica, constituía igualmente a referência
para tudo o que o antecedera. E o que antecedera o homem positivista, como não
podia deixar de ser, pelos pressupostos do seu catecismo, fora o mundo da
superstição e da barbárie que o pensamento, enfim iluminado e esclarecido,
naturalmente deixava adivinhar. A estratégia que já servira aos Renascentistas,
reutilizável, serviu, quatro séculos depois, às novas mistificações.
Nem
todas as imagens se podem gabar, como esta, de tão grande, espontânea e
duradoura aceitação simultânea por mundos tão diversos como a rua e o gabinete
do estudioso académico: refiro-me à consequente grande ilustração positivista
do acasalamento troglodita. Nela, para estarrecimento e gozo das massas e
afirmação do superior saber da instituição universitária que as elevava, por
fim, ao verdadeiro conhecimento, passava o filme do brutamontes apenas quase
humano, empunhando, triunfante, a moca com que espancara a fêmea que agora
arrastava pelos cabelos, vencida, não interessa se convencida. E duas
convicções contraditórias se firmaram, subliminarmente, no inconsciente de
ambos os sexos, com tal imagem de grande sucesso sapiencial e comercial: a de
que o nosso tempo era incomensuravelmente superior às épocas anteriores; e a de
que o natural e legitimamente desejado sexo às claras era o sexo bruto,
que, com ou sem a mocada preliminar, pouco mais era do que a “mocada” praticada
por pura pulsão. Ainda hoje vemos, por tudo quanto constitui o mundo da
social-comunicação, a constante mas indecisa valorização quanto à
essencialidade sexual, o balanço entre uma sexualidade “animal” e uma outra
que, por mais humana, deixou de se ter a certeza sobre se é “natural”,
“cultural” ou simplesmente disfarce para preservação do indivíduo e da
sociedade.
A
imagem era sublimadora de tantas pulsões que ninguém, ao início, questionou o
óbvio. Em primeiro lugar, uma vez que ninguém alguma vez se cruzara com um
troglodita, como se podia saber serem aqueles os seus hábitos? Não existindo
documentos que o comprovassem; nunca se tendo observado nada de parecido em
qualquer das tribos arcaicas conhecidas nem vestígios de antigas tradições que
o sugerissem — antes, nas mais arcaicas, predominando o matriarcado; sendo o
comportamento do macho, em todas as espécies existentes na natureza, o oposto
do afirmado sobre o do abominável homem das cavernas: em que homem
comprovadamente existente se poderia encontrar tal comportamento? Nos
camponeses, esses excluídos da alfabetização? Não, respondia Chesterton, um
século atrás, mexendo, divertido, os dedinhos dos pés dentro das botas,
transformando como ninguém a inteligência e o riso em ironia incomparável: os
antropólogos confundiram o homem “primitivo” com o homem dos bas-fonds das
grandes cidades europeias. O “homem primitivo” da antropologia, dizia ele, não
é mais do que o chulo que bate na sua pêga e a arrasta pelo chão, antes de lhe
arrear de outra maneira para consumar o seu domínio — porque esse “homem
primitivo” nunca existiu fora da degradação das ruas escusas e do aviltamento
humano que nelas se acoita. Um macho estranho e repugnante para qualquer
bonobo, acrescentaria eu.
Meu
caro Carmo da Rosa, veja agora como o nosso cérebro, e com o nosso, o de
milhões e milhões de homens e mulheres das gerações seguintes, foi formatado
por uma patranha simplória mas de altíssima eficácia manipulatória, concebida
por um conjunto de estúpidos “positivos”, ávidos de poder. Deixe lá, o que está
debaixo do nosso nariz é o que mais dificilmente conseguimos ver, tão
dificilmente que na maioria das vezes morremos sem ter conseguido fazê-lo. É
nas pedras que tropeçamos, não nas montanhas.
E
repare agora, também, nas consequências. Porque tal imagem, repito, se
constituiu um acicate no processo de transformação social ao nível da definição,
papel e do estatuto de cada um dos sexos que se verificava e se acelerou e
pelas duas guerras, também foi em grande medida a origem da grande bagunça hoje
existente tanto no que respeita à caracterização da sexualidade como à sua
prática. Primeiramente porque ajudou a criar uma divisão interior entre qual o
“verdadeiro sexo”, o que se deve praticar, para atingir o verdadeiro gozo: o
“animal”, entendido como a tradução de uma pulsão num mecânico truca-truca; ou
o “humano”, cheio de variantes mais ou menos desejadas e bem vistas,
predominantemente de raiz cultural. Depois, e em consequência, porque pôs no
caminho do feminino em processo um escolho extra e de tratamento nada fácil. Um
escolho sem palavras que o caracterizem e que actua directamente por sugestão,
não é nada fácil de resolver.
(...)
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