Recordando um amigo – Rui Tovar
Há anos que o não via nem com ele falava, mas tinha por ele
uma longa amizade – desde que, em 1974, pouco antes da revolução, o conheci na
redacção do velho “República”, onde então trabalhava, como revisora, a minha
mulher. Desde essa época aprendi a respeitar o bom Rui Tovar e manter com ele
amizade enquanto a vida o ia atirando de redacção para redacção, tantas vezes
ao sabor das ondas do amor pela liberdade e democracia que nos unia – o antigo
“Século”, o “Dia”, as bancas da “Rádio Comercial”.
Morreu o Rui Tovar. Ele, que abominava colocar-se em bicos de
pés, foi notícia em todos os jornais e poderia ter falecido com a consolação de
que até aqueles que o criticavam e ferozmente o perseguiram, afinal, o
admiravam… até quando o procuravam isolar. Vamos descobrindo tais coisas à
medida que envelhecemos.
Algumas vezes o visitei. Com alguma constância quando nos
uniu a mesma revolta contra a extinção da ANOP (de boa memória) ou quando eu
buscava colaborações para o “Novo Observador”, onde fui subchefe de redacção,
ou o Carlos Plantier mo invocava nas mesas do “Jornal Novo” e, depois, de “A
Tarde”. Tive então oportunidade de conhecer de perto as suas capacidades como
jornalista, dos melhores, sempre amplamente informado do assunto que, como
poucos, dominava – o desporto.
Foi com indignação que assisti à perseguição que os
sicofantas (que hoje vejo chorarem “lágrimas de crocodilo”) lhe moveram.
Tentaram arrasá-lo e hoje incensam-no. Muitas vezes por motivos politiqueiros
(porque o Rui não se vendia nem se bandeava e sempre recusou os acenos dos
inimigos da liberdade e rechaçou qualquer forma de censura), tantas vezes por
ciúme ou inveja: a verdade é que quantos o amesquinhavam pouco ou nada valiam.
Custa-me este comportamento de “duas caras” que se tornou
hábito de muita gente. Bem sei que “todos os mortos são bons”, sobretudo porque
já não pode directamente denunciar as infâmias. Todavia, o dever da amizade, do
respeito e solidariedade que, para com ele, tinha impele-me a condenar
veementemente a reles hipocrisia de certos sabujos que, infelizmente, cada vez
mais encharcam os meios de Comunicação Social.
Nuno Rebocho
Luís Morgadinho, No país dos lambe-botas
(imagem recolhida aqui)




