... e que também nunca é igual a eles?
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terça-feira, 13 de janeiro de 2015
sábado, 13 de dezembro de 2014
A Instituição José Sócrates
Um dos fundadores do PS, António Campos, em visita ao seu amigo José Sócrates, disse aos jornalistas, à porta do Estabelecimento Prisional de Évora, que "a política é a política e a Justiça é a Justiça" e que, nesse caso, sendo um ex-primeiro ministro quem ali se encontrava detido, é a própria instituição democrática que está em causa.
Ora, segundo aquilo para que tudo aponta, é por
ter querido pôr em causa a instituição, aprisionando-a em proveito próprio
enquanto primeiro-ministro, que José Sócrates foi preso preventivamente para
libertar a instituição da sua eventual acção criminosa enquanto aguarda pela
conclusão das investigações.
Acrescento, assim, ao
que aqui disse:
Sócrates deveria, até, haver procedido e continuar a proceder de modo contrário ao que fez e faz. Em defesa
do Estado de direito, inocente do que o acusam, enquanto
ex-primeiro-ministro e democrata convicto vítima de uma cabala
tenebrosa, deveria ter-se apresentado voluntariamente para ser preso, convocando a
Comunicação Social e exigindo, ao mesmo tempo, uma investigação completa ao seu
caso. De modo a proteger-nos desse polvo que começara por querer aprisioná-lo.
E, já agora, pedido contenção pública nas
emoções aos amigos.
Acho eu.
Um comentário interessante
Achei que deveria dar relevo ao comentário de um leitor, Heitor Cavaleiro, ao post anterior:
Vejamos: o que Soares fez, no seu desbragado
acinte junto à prisão de Évora, foi praticar um acto antidemocrático como os
muitos que tem protagonizado. Soares não deseja que o seu pupilo seja julgado,
com todas as garantias de defesa como é de uso num Estado de Direito. O que
Soares quer é eximi-lo a julgamento! Ou seja e em bom português, manipulando as
massas e tentando intimidar os juizes, "safar o couro" ao antigo
governante. Recordemos como Soares foi tão propício para Betino Craxi, Ceausescu,
Andreotti, Sadam e outros que tais, tudo em nome da piedade formal...E o mesmo
faria se outros notórios tipos, como Lula e Maduro, tivessem de responder pelos
seus desmandos. Soares estará sempre do lado dos que abusam do Povo, como ele
tantas vezes fez disfarçadamente.
sexta-feira, 12 de dezembro de 2014
Sobre a culpa da presunção intencional
Diz ainda José António Saraiva, neste outro editorial:
Da
presunção de inocência à presunção de culpa
Nestes tempos de completa loucura têm-se dito
imensos disparates e passado para a opinião pública muitas ideias erradas.
Destaco oito questões, que merecem um comentário.
DETENÇÃO
Afirmou-se que Sócrates foi detido “com grande aparato mediático”.
Não é verdade.
Não existe nenhuma imagem da detenção de
Sócrates, nem sequer do seu trajecto através do aeroporto acompanhado por
agentes, depois de detido.
A única coisa que existe é o vídeo de um carro
avançando na noite - aparentemente filmado com um telemóvel -, que não se sabe
quem leva lá dentro.
Se fosse nos EUA, Sócrates teria sido detido
dentro do avião e algemado.
Porém, os agentes esperaram por ele à saída da
manga e conduziram-no por um percurso discreto, em que não houve contacto com
jornalistas.
A detenção não poderia ser mais recatada do que
foi.
POLÍTICOS
SÃO IGUAIS?
Alguns comentadores disseram que uma das
consequências desta prisão seria consolidar a ideia de que “os políticos são
todos iguais”.
Todos iguais, como?
Alguma vez na História de Portugal (e não
apenas na democracia) um ex-primeiro-ministro foi preso?
Alguma vez houve um caso sequer parecido com
este?
Esta prisão pode ter o efeito exactamente
contrário: começar a separar o trigo do joio, a boa moeda da má moeda, para não
serem todos metidos no mesmo saco.
Uma justiça independente e eficaz contribuirá
para estabelecer diferenças entre os políticos - e não, como se pretendeu fazer
crer, para os tornar 'todos iguais'.
CARTA
DE SÓCRATES
Noticiou-se
que, no 'comunicado' enviado à TSF e ao Público, Sócrates “desmentia as
acusações de que era alvo”.
Ora, o texto não desmentia nada, nem podia
desmentir, pois aí Sócrates teria de reproduzir as suspeitas que existem contra
ele e depois rebatê-las.
Mas isso seria uma violação grosseira do
segredo de Justiça.
O comunicado de Sócrates limitou-se a seguir a
sua velha receita: sempre que é acusado, apresenta-se como vítima de uma
cabala.
Quando saíam notícias que o comprometiam,
Sócrates fazia-se de vítima, virava os acontecimentos a seu favor e partia para
o contra-ataque.
Foi
assim no caso do diploma, no Freeport, no Face Oculta, no Taguspark, etc. - e é
assim agora.
Esta carta foi o remake de um filme velho, numa linguagem gasta: “infâmia”, “abuso”, “falsidade”, “prepotência”, “imputações absurdas”, “humilhação gratuita”, etc.
Esta carta foi o remake de um filme velho, numa linguagem gasta: “infâmia”, “abuso”, “falsidade”, “prepotência”, “imputações absurdas”, “humilhação gratuita”, etc.
Mas, em certo sentido, a carta de Sócrates era
uma carta desesperada.
O grito de alguém que sabe que dificilmente
fugirá a ser condenado e se apresenta ao povo como um D. Quixote que desafia
sozinho a Justiça (“o processo é comigo e só comigo”).
MÁRIO
SOARES
Disse-se que Mário Soares foi a Évora prestar
“solidariedade ao amigo José Sócrates”.
Ora, não foi bem isso.
Sem se aperceber, Soares viajou no tempo até à
época da ditadura, em que, na qualidade de advogado, defendia presos políticos
e ia visitá-los à prisão.
Na cadeia de Évora, Soares não tinha Sócrates
na sua frente: tinha um oposicionista do passado, preso pela PIDE por razões
políticas.
Foi por isso que Soares disse, por exemplo, que
Sócrates estava preso “sem ter sido julgado” (frase que só faz sentido no
contexto de um regime ditatorial).
BAGÃO
Bagão Félix achou que o caso dos Vistos Gold é
“mais importante do que as suspeitas de corrupção de Sócrates”.
Francamente, dr. Bagão!
Então a detenção de funcionários públicos por
facilidades na obtenção de vistos de residência, por mais altos que sejam os
seus cargos, é mais importante do que a prisão de um ex-primeiro-ministro por
suspeitas de corrupção, em proveito próprio, no exercício de funções?
O alegado suborno de um chefe de Governo para
adjudicar obras de construção civil em muitos casos desnecessárias - obras
essas que também contribuíram para levar o país à bancarrota - é menos
importante do que uns vistos, por mais dourados que sejam?
Na sua ânsia de atacar o Governo, Bagão perde a
noção da realidade.
VISTOS
GOLD
Foi chocante o modo diferenciado como
muitas pessoas reagiram perante dois casos separados apenas por oito
dias.
No caso dos Vistos Gold, elogiou-se o trabalho
da investigação, ninguém criticou as fugas de informação nem invocou o segredo
de Justiça, deram-se logo os suspeitos como culpados, falou-se de corrupção ao
mais alto nível do Estado, considerou-se “inevitável” a demissão de Miguel Macedo
e todos concordaram que o escândalo afectava o Executivo de Passos Coelho, ao
ponto de António Costa considerar que a partir daí o Governo ficava “ligado à
máquina”.
No caso Sócrates, criticou-se asperamente a
magistratura, invocou-se o segredo de Justiça e atacaram-se os jornais que o
desrespeitaram, considerou-se a detenção “desnecessária e humilhante”,
repetiu-se até à exaustão que os suspeitos são “presumivelmente inocentes”, não
se exigiu a demissão de ninguém, garantiu-se que o escândalo não afecta muito o
PS e que António Costa deve prosseguir o seu caminho como se nada fosse.
Há pessoas que não têm uma réstia de pudor.
CORRUPÇÃO
A defesa de Sócrates afirma que no inquérito
“não existem quaisquer indícios de corrupção”.
Será que anda a dormir?
Durante o consulado de Sócrates, o Grupo Lena
passou de pequena empresa regional a grande potentado da construção civil, com
fabulosos contratos no estrangeiro (designadamente na Venezuela). Até aqui, não
se pode dizer nada.
O Grupo Lena foi, nesse mesmo período,
contratado pelo Estado sem concurso público em obras de centenas de milhões de
euros. Mas isto também não prova nada.
Carlos Santos Silva, o amigo de Sócrates, foi -
igualmente no período de que estamos a falar - administrador do Grupo Lena e, a
seguir, de uma empresa criada por este (a Lena Management & Investments SA,
depois chamada XMI). Até aqui, ainda não se pode garantir nada.
Carlos Santos Silva passou para a conta de
Sócrates (ou deu-lhe em dinheiro vivo) muitas centenas de milhares de euros ou
mesmo milhões, comprou-lhe casas por um preço muito superior ao seu valor, e
cedeu-lhe um luxuoso apartamento em Paris para viver (ou o apartamento
pertencia mesmo a Sócrates e estava no nome do amigo?).
Ora, aqui já a porca torce o rabo.
Santos Silva deu tanto dinheiro a Sócrates
porquê?
Por ser amigo dele e querer ajudá-lo num
momento difícil da sua vida, quando vivia exilado em Paris sem meios de
subsistência, com o risco de passar fome e ter de dormir ao relento, como os
clochards, em cima das grelhas do Metro?
Não brinquemos!
A partir daqui, não pode dizer-se que não
existem indícios…
PRESUNÇÃO
DE INOCÊNCIA?
Toda a gente, sem excepção, diz que Sócrates
goza da “presunção de inocência”.
E diz bem.
A presunção de inocência é uma figura jurídica
(importantíssima) que existe para que um indivíduo não perca os seus direitos
antes de ser condenado.
Mas, em linguagem corrente, a situação de
Sócrates já não é exactamente essa.
E isto porque o juiz, depois de ver os
resultados da investigação, considerou provável que Sócrates tenha praticado
mesmo os crimes de que é suspeito, mantendo-o em prisão preventiva.
Não quer dizer, evidentemente, que Sócrates
venha a ser condenado.
Pode vir a ser inocentado.
Mas, neste momento, a presunção que sobre ele
existe já não é de inocência mas de culpa.
quinta-feira, 11 de dezembro de 2014
Polvo à portuguesa
Assino por baixo este editorial de José António Saraiva, no jornal Sol.
DO QUE NOS LIVRÁMOS!
Em
2008, o BPN foi nacionalizado contra a vontade dos seus accionistas. Na altura,
poucas vozes contrárias se fizeram ouvir, até porque a nacionalização tinha o
aval do governador do Banco de Portugal, Vítor Constâncio.
Após
este acto, o Governo designou como administrador do BPN Francisco Bandeira, um
homem da confiança pessoal de Sócrates.
Entretanto,
no ano seguinte, na sequência de convulsões internas, o BCP seria
'governamentalizado', entrando para a administração Carlos Santos Ferreira e
Armando Vara, notórios amigos de Sócrates.
O
BES, por seu lado, era governado por Ricardo Salgado, cuja cumplicidade com
Sócrates se tornou a partir de certa altura evidente, ao ponto de - quebrando a
sua proverbial contenção nas referências ao poder político - elogiar por
diversas vezes o primeiro-ministro em público.
Quanto
à CGD, era tutelada pelo Governo.
Em
conclusão, exceptuando o BPI (de Fernando Ulrich), a partir de 2009 toda a
banca ficou 'nas mãos' de Sócrates ou dos seus amigos: CGD, BCP, BPN e BES -
para não falar do BdP, onde pontificava Constâncio.
Na
comunicação social a situação também não era famosa.
No
início do consulado de José Sócrates, o grupo Controlinvest (DN, JN e TSF), de
Joaquim Oliveira, foi logo identificado pelo primeiro-ministro como um
potencial aliado (até pela sua dependência da banca).
O
grupo Cofina (Correio da Manhã e Sábado), de Paulo Fernandes, também se
mostrava cauteloso nas referências ao Governo.
O
grupo Impresa (SIC, Expresso e Visão) mantinha-se na expectativa.
O
grupo RTP (RTP e RDP) pertencia ao Estado e mostrava-se dócil.
O
grupo Renascença não se metia em sarilhos.
Restava
o quê?
A
TVI e o Público - este dirigido por José Manuel Fernandes, considerado por
Sócrates persona non grata.
O
SOL só apareceria mais tarde.
Quando rebenta o caso Freeport, em 2009, as
coisas vão aquecer.
A
TVI estabelece um acordo com o SOL para a investigação daquele tema e torna-se
para Sócrates um inimigo declarado.
Manuela
Moura Guedes, a pivô do jornal televisivo de sexta-feira (que antecipa as
notícias do Freeport), é o primeiro alvo a abater - e Sócrates empenha-se em
afastá-la por todos os meios; mas tal não se mostra fácil, dado ser mulher do
director da estação, José Eduardo Moniz.
Em
desespero, Sócrates tenta usar a PT para comprar a TVI, mas o negócio borrega.
Também
há tentativas para fechar o SOL, através do BCP (que era accionista de
referência do jornal), comandadas por Armando Vara.
No
que respeita à Impresa, apesar de não fazer grande mossa ao socratismo, sofre
vários ataques, designadamente por parte de Nuno Vasconcellos e Rafael Mora,
líderes da Ongoing e próximos de Sócrates, que tentam encostar Balsemão à
parede.
Finalmente,
sem se perceber porquê, Belmiro de Azevedo aceita a saída de Fernandes da direcção
do Público, e Moura Guedes e Moniz deixam a TVI (indo este estranhamente para a
Ongoing…).
O
SOL fica isolado - e só se salvará por ser adquirido por accionistas não
envolvidos na política interna.
Visto
o controlo substancial de Sócrates sobre a banca e a comunicação social,
olhemos para o poder político.
Sócrates
dominava naturalmente o Governo, de que era o chefe, e o Parlamento, onde o PS
tinha maioria absoluta - só lhe escapando a Presidência da República.
Por
isso, voltou contra Cavaco Silva todas as baterias.
O
PS e o Governo tentaram tudo para implicar Cavaco no caso BPN, por deter acções
do banco (embora as tenha vendido antes de ir para Belém).
Esta
campanha contra o Presidente da República ressuscitaria com estrondo nas
eleições presidenciais de 2011, com a cumplicidade - diga-se - de muita
comunicação social.
Outro
momento alto da guerra contra Cavaco foi o aproveitamento de uma gafe de um seu
assessor, Fernando Lima - que tinha falado a um jornalista sobre a possível
existência de escutas a Belém -, para tramar o Presidente.
Usando
uma técnica nele recorrente, Sócrates armou-se em vítima, virou os
acontecimentos a seu favor e tentou destruir Cavaco Silva, acusando-o de montar
uma cabala.
Outra
vez com a ajuda de muitos jornalistas, os socratistas exploraram o caso à
exaustão e o assunto foi objecto de intermináveis debates televisivos - onde se
chegou a dizer que o PR tinha de renunciar ao cargo!
A
campanha não matou Cavaco mas fez mossa, fragilizando o único bastião que não
era dominado por Sócrates na esfera do poder político.
Talvez
hoje alguns jornalistas percebam melhor o logro em que caíram.
Passando
finalmente à Justiça, Sócrates tinha no procurador-geral da República, Pinto
Monteiro, e no presidente do Supremo Tribunal de Justiça, Noronha do
Nascimento, não propriamente dois cúmplices, como alguns disseram, mas duas
pessoas que pareceram sempre empenhadas em protegê-lo, fossem quais fossem as
razões.
Nesta
área, Sócrates contava ainda com um bom aliado: Proença de Carvalho, pessoa
influente nos meios judiciais (incluindo junto de Pinto Monteiro).
E
teve sempre o apoio do bastonário da Ordem dos Advogados, Marinho e Pinto.
Portanto,
também aqui, o primeiro-ministro estava bem acolchoado.
Governo,
Parlamento, Justiça, comunicação social, banca: Sócrates controlava os três
poderes do Estado - executivo, legislativo e judicial - e estendia os seus
tentáculos ao quarto poder (os media) e ao poder financeiro (os bancos).
Talvez
muita gente não se tenha apercebido na época deste cenário aterrador.
Mas
olhando para trás - e sabendo-se o que hoje se sabe - temos noção do perigo que
o país correu: um homem sobre o qual pesam suspeitas tão graves chegou a deter
um poder imenso, que se alargava a todas as áreas de influência.
Só
de pensar nisto ficamos assustados - e é muito estranho que alguns dos que
privavam com ele não se tenham apercebido de nada.
Foi
lamentável ver pessoas de bem - como Ferro Rodrigues ou Correia de Campos -
fazerem tão tristes figuras, defendendo-o encarniçadamente até ao fim.
É
certo que, como bem disse José António Lima, a democracia venceu-o, afastando-o
do cargo.
Mas
também foi a democracia que permitiu que um homem como este chegasse a reunir
um poder tão grande em Portugal.
Isso
mostra a vulnerabilidade do sistema democrático.
P.
S. - No caso dos vistos gold, logo a seguir às detenções, deu-se por adquirido
que os arguidos eram culpados, considerou-se “inevitável” a demissão de Miguel
Macedo, e António Costa disse que o Governo ficava “ligado à máquina”. Uma semana
depois, as mesmas pessoas contestam a prisão de Sócrates, invocam a “presunção
de inocência” e acham “absurdo” falar na hipótese de demissão de António Costa.
Palavras para quê?
terça-feira, 2 de dezembro de 2014
"Devias ter feito uma fundação, pá..." ou De convicções está o inferno cheio
(imagem obtida aqui)
Dias
atrás, nos telejornais da hora do almoço, pudemos ver um Mário Soares
envelhecido, de saúde claramente debilitada, alterado, destrambelhado tanto nos
modos como no discurso, à saída do Estabelecimento Prisional de Évora, afirmar fora
de qualquer dúvida a inocência de José Sócrates bem como a existência de uma
conspiração, apoiada no aparelho de Justiça e na Comunicação Social, que visa
destruir a reputação desse ex-“primeiro-ministro exemplar”, de cuja seriedade ninguém
duvidará. Hoje, um familiar meu mostrou-me a frase que dá título a este post, posta
na boca de Soares dirigindo-se a Sócrates na foto acima, a circular na
internet.
A
frase insinua e a insinuação é algo que me repugna, a não ser quando visa o
óbvio, assim se mudando em subtileza do humor. Aproveitei-a, porém, porque, se
relacionada com o que se seguirá, reforça a compreensão do que, quanto a mim, a
detenção e prisão preventiva de José Sócrates trouxeram à superfície do
Portugal profundo, de um Portugal mais esquecido do que a mais recôndita das
suas aldeias.
Alguns
amigos, militantes do PS, perguntaram-me o que achava eu do ex-ministro do
Ambiente de António Guterres, à época em que ele se candidatou pela primeira
vez a secretário-geral do partido. Respondi-lhes – e, desde então, tenho-os
lembrado disso várias vezes – que seria uma péssima escolha não só para os
socialistas como para o país, uma vez que não encontrava nele nem perfil nem
capacidade quer para desempenhar as funções a que se propunha quer, muito
menos, para o cargo de primeiro-ministro que, em breve, com certeza viria a
ocupar. Agressivo, prepotente e, o que é pior, o paradigma, no plano político,
de um mestre d’obras com a correspondente visão sobre o desenvolvimento de
Portugal e os meios para o concretizar. Um “caudillo” maquilhado de europeu que
nada traria de bom, era o que me davam a entender as suas tiradas e acções
governativas e públicas. Riram-se.
Foi,
afinal, muito mas mesmo muito pior do que eu poderia esperar. José Sócrates
governou Portugal como um velho regedor de aldeia: berrando do alto do varapau
da maioria; fazendo descer o debate de ideias (desde sempre escasso) ao nível
da ausência; reinando, vingativo, pela divisão de todos e deste modo inibindo
em todos, por ressentimento ou medo, a livre expressão; impondo, com meios à
toa, medidas avulsas a que pomposamente chamou reformas, com elas
esfrangalhando a eito a estrutura do Estado sem critério nem dó. A meu ver,
foi, depois de Salazar, a catástrofe que o país mais poderia ter temido.
Durante
o período em que mandou no país, tive no blog Portugal e outras touradas, que criei em Maio de 2007 e encerrei,
de facto, em Julho de 2011, o meio de aliviar um pouco o sufoco que senti nesse
atoleiro quotidiano. Nele fui falando de tudo isto, à medida dos despautérios e
desastres consecutivos. Não o apaguei, continua online, e qualquer um pode verificar que foi sempre nos planos
político e social que me referi a Sócrates e ao seu governo, tal como a quem o secundou,
de perto ou de longe. Mesmo tendo em conta, entre outras coisas, o que aqui diz José Gomes
Ferreira, atento, tal como eu e muitos outros, aos sinais equívocos que emergiam
sobre o carácter do primeiro-ministro.
A
prisão preventiva de José Sócrates continua a não permitir, por agora, desfazer
ou confirmar as suspeitas que o levaram ao Estabelecimento Prisional de Évora.
Aguarda-se o resultado das investigações e, até lá, ao contrário de muita
gente, demasiada gente, pelo respeito devido a qualquer ser humano não me
permito o luxo de ter convicções num sentido ou noutro. Mas, por isso mesmo,
gostaria de deixar um pouco do que venho a reflectir acerca aqueles que vivem
acima das suas possibilidades de crença e certeza, e do nível de ostentação que
disso se permitem. Bem como da possível origem desse seu capital lógico e
ético.
Em
particular, o dos que se revoltaram em público quer com a detenção de José
Sócrates quer com o modo como ela ocorreu. Pois confesso que as operações
mentais utilizadas nesse seu empreendimento de indignação edificante são para
mim um mistério. Parecem-me de todo obscuras e, por isso, carentes de uma
investigação impeditiva de que os seus eventuais reflexos causem maiores
prejuízos na frágil economia moral da nação.
Com
um aviso prévio, porém. Dizia Sartre que se o nosso objectivo for
consciencializar uma família burguesa do horror que a sua vida constituiu não
bastará simplesmente gravá-la ou filmá-la e mostrar-lhe o resultado, porque, como
é natural, continuaria a nada estranhar no que visse e ouvisse. Teremos que
ampliar, acentuar os pormenores decisivos que lhe escapam ou que contribuem
para o seu torpor, numa palavra: até certo ponto, caricaturar. Não gosto de
Sartre por aí além, mas dou-lhe razão quanto a isto. O mesmo farei, portanto,
em relação a esses meus compatriotas indignados, e as imagens que utilizar
seguidamente assim deverão ser entendidas.
Consideram
eles, em primeiro lugar, que nem a detenção nem o modo como foi realizada são
compatíveis com o cidadão que a sofreu; que constituiu um procedimento
vergonhoso, por humilhante, para quem ocupou o mais alto cargo governativo. Mas
imaginemos (e, relembro-o, irei exagerar, caricaturar para melhor me fazer
entender) que Al Capone, no intuito de lograr um maior enriquecimento e poder
pessoais, ao invés de enveredar pela actividade criminosa explicitamente
violenta, mas local, se propusesse alcançar a presidência dos Estados-Unidos,
deitando mão de influências. E que, havendo-o conseguido, reforçasse e cimentasse
a rede de corrupção, valendo-se de favorecimentos e promoção de obras e
políticas públicas, apresentando-as como fazendo parte de um plano
desenvolvimento dos USA, mas que, na realidade, visariam apenas concretizar os
seus intentos e alargar em definitivo a sua riqueza e esfera de acção pessoais.
E que não tivesse pejo nem escrúpulos de, para tal, levar o país à beira da
bancarrota. O facto de ter ocupado a mais alta posição do Estado reverteria na
dignificação do seu carácter? Ou, antes, isso sim, em perversidade acrescentada,
que o próprio Estado, enquanto instrumento do bem-comum, deveria repudiar e
banir com maior vigor ainda?
Porque estaríamos num
plano onde criminalidade e política não se distinguiriam uma da outra, e a
extensão do delito se estenderia não somente a todo o país como também a mais
de uma geração – acusação, aliás, infelizmente muito pouco inédita, tantas
vezes ouvimos fazê-la a muitos dos chefes de Estado africanos e da América
Central e do Sul…
Relembrando-o
de novo: ninguém sabe se é este o caso (mitigado) de José Sócrates. Ninguém se
pode arrogar a emitir juízos que lhe sejam favoráveis ou acusatórios antes de
se apurar a verdade. Mas também ninguém, muito menos os que enaltecem
constantemente a igualdade dos cidadãos perante a lei, pode invocar o argumento
de que, por o havermos tido como governante, a Justiça e a polícia procederam
mal (criminosamente, nas palavras subentendidas de alguns) não lhe atribuindo
um tratamento de excepção, ao invés de procederem com ele como o fizeram, isto
é, da mesma maneira como procederiam com qualquer outro suspeito de actividades
ilícitas.
Admitamos,
porém uma segunda hipótese, a de nos encontrarmos perente um caso de distúrbio
de personalidade do tipo romanceado por Robert Louis Stevenson em O médico e o monstro. O caso em que
teríamos, ao mesmo tempo, um Sócrates “primeiro-ministro exemplar” (para
retomar a expressão de Mário Soares) e um outro, meliante mafioso nas horas
livres da governação, embora para tal se aproveitando dos conhecimentos e
influências que o cargo ocupado lhe facultavam. Quem deveria então a polícia
escolher para a detenção: o dr. Jekyll com Mr. Hyde à perna; ou Mr. Hyde
trazendo a reboque o dr. Jekyll? Uma escolha impossível julgo eu, já que tal
exigiria das autoridades um prévio conhecimento da psique de José Sócrates,
produto do exame que, tanto quanto se saiba, nunca foi realizado.
Chamo,
a propósito, a atenção para que a argumentação dos responsáveis maiores do PS e
de alguns dos defensores de Sócrates segue em paralelo com esta linha de
raciocínio, ao afirmarem que não se pode nem deve confundir o Sócrates político
com um eventual Sócrates criminoso. De outro modo: que podem existir em
sincronia, numa só pessoa, um brilhante e patriótico primeiro-ministro e um
escroque de primeira linha, que age em proveito próprio suportado pelas funções
que desempenha. A hipótese, como disse anteriormente, não é menosprezável, mas
terá que ser provada; e a polícia não é, nem costuma ir, à bruxa. Limitou-se,
pois, a proceder segundo as regras do mais elementar bom-senso quando se trata
de prender um suspeito de crimes graves.
Donde
virá, então, aquilo que me parece ser uma espécie de incoerência toldada pelas
emoções (ou por quaisquer outros factores desconhecidos…) por parte de quem se
indignou com a prisão de um antigo primeiro-ministro? Esta a pergunta a que,
como já disse ao início, me propus responder a mim próprio, mas que achei
pertinente o bastante para dever partilhá-la.
É
que neste “não se prende nem se trata assim um antigo primeiro-ministro!” há
qualquer coisa de “ancien régime” com cheiro a peúga de ex-seminarista, algo
entre o bafio e o cheiro a beco escuso e escuro da vontade. Algo que cheira a
“argumento de autoridade” e a “você sabe com quem está a falar?” que me
assombrou em menino com voz roufenha.
Juro:
estremeci de apreensão e um arrepio percorreu-me a espinha quando ouvi,
repetido até por quem não esperaria, aquele “não se prende nem se trata assim
um antigo primeiro-ministro”! Parecia-me que, como num vulgar filme de terror,
um grupo de zombies fazia ecoar, no país, a voz de quem houvesse feito das suas
cabeças sepultura, assombrando os vivos com os restos que de si nelas
permanecessem, antes de se tornar para sempre em pó.
A
simples possibilidade de enunciar tudo isto de forma explícita me constrange e
enoja. Respondi, portanto, à pergunta metaforicamente. Mas julgo que fui
bastante claro sobre a identidade desse avesso de Lázaro, doentio e violento,
que tão fundo cravou as suas garras na mente de Portugal. Mesmo nos que são (ou
se dizem) paladinos da democracia.
Voltando
ao tom anterior, e antes de terminar quero ainda, contudo, acrescentar algo que
julgo oportuno e de certa importância para alguns militantes socialistas.
Começo
por recordar os elogios que Miguel Macedo recebeu de toda a oposição quando, há
pouco tempo, pediu a demissão das suas funções de ministro da Administração
Interna. Fê-lo devido à prisão do responsável máximo do Serviço de Estrangeiros
e Fronteiras e de outros funcionários envolvidos em casos de corrupção. Gente,
note-se, cuja nomeação para as posições que ocupavam não fora feita por ele,
mas por quem o antecedera como responsável do MAI – não me lembro se o director
do SEF foi nomeado logo no início do primeiro governo de José Sócrates ou no
final do de Durão Barroso. Não teria necessidade de sair, mas demitiu-se em
benefício da credibilidade do regime enquanto aguarda pelo apuramento da
investigação e pela consequente decisão judicial.
Os
ministros são-no por convite do primeiro-ministro indigitado após as eleições.
Seriam, assim, da confiança de José Sócrates aqueles que integraram os seus
governos e discutiram as diferentes políticas sectoriais e as medidas
destinadas a implementá-las. Não ignoravam as motivações e os objectivos
apresentados pelo chefe da equipa governamental de que decidiram fazer parte.
Não podem, assim, afirmar que desconheciam o alcance e as implicações do plano
que ajudaram a estruturar e a fazer cumprir. Se não se aperceberam, serão
incapazes para desempenhar devidamente funções a esse nível. Se se aperceberam,
das duas uma: ou não se deram conta de eventuais irregularidades; ou, se deram,
serão cúmplices passivos ou activos de Sócrates.
Ora
alguém duvida de que a incapacidade de detectar crimes de lesa-pátria é
incomparavelmente mais grave do que o desconhecimento de um ministro sobre
actividades criminosas de um conjunto de funcionários de um dos sectores de um
ministério? Sem falar já na possibilidade de se ser suspeito de conivência…
Daí
o meu apelo aos antigos militantes do PS que colaboraram com Sócrates, a
começar por António Costa: a bem do regime democrático, demitam-se de todas as
suas funções políticas partidárias. Sigam o exemplo que – tão justamente e a-propósito
– elogiaram de Miguel Macedo e esperem pelo apuramento da verdade para as
retomarem, rebrilhando de inocência e verticalidade cívica.
E
que não vociferem como o pobre “pai da nossa democracia”, cada vez mais
fragilizado, que “aquilo não se faz a um antigo primeiro-ministro!”. Para que
os portugueses, eles próprios alheios ao fantasma ainda habita em muitos dos
seus maiores, mas tendo em mente o velho provérbio “diz-me com quem andas,
dir-te-ei quem és”, não discorram de modo tão distorcido como a frase inscrita
na foto deixa transparecer.
terça-feira, 25 de novembro de 2014
Sócrates e a banalidade do Mal ou A volta do condottieri (2)
Sem título, gravura de Nicolau Saião
Não nos deixemos equivocar: o caso Sócrates
não é fundamentalmente um caso de polícia ou de justiça, mas sim eminentemente
e no mais alto e triste grau um caso de política.
De política especiosa ou, mesmo, especial?
Talvez… Mas claramente um caso onde o que emerge é a panorâmica de uma prática política
que pelos anos fora - nos lugares expressos em que este sedutor aventureiro
político pôde estribar a sua maneira de estar e de fazer estar – foi criando um
estilo entre a arrogância, a agressividade e o descaramento demagógico que não
só colocaram o País à beira da bancarrota mas, ainda pior, à beira da falência
ética e moral.
Basta termos acompanhado, com algum
pormenor, durante o par de anos transactos, os espaços públicos onde a
mentalidade do condottieri (pois não é verdadeiramente, nem nunca foi, um
líder, mas claramente um condottieri, com toda a carga ideológica e pessoal que
essa condição arrastava) extravasava no exemplo dos seus partidários e áulicos,
para se entender tudo: a agressividade compulsiva, a arrogância pesporrente, a
ausência de ética nos escritos e nos ataques aos oponentes, em suma: a sombra
extremamente perceptível de um posicionamento a que poderemos dar a
classificação de cripto-fascista típica, jogando no revanchismo, na postergação
de uma atitude tolerante, muitas vezes descendo ao enxovalho e à violência
verbal desbragada.
O indivíduo político em causa cifrou na sua
figura e no seu estilo tudo o que de pior tem existido no ambiente conceptual
da nação. Por isso não admira que tenha sido o chefe sonhado e amado pelos seus
asseclas, para quem os antónios josés seguros e os antónios costas não passam
de passageiros secundários para a ocupação provisória da barca em que apostavam
por não terem outro remédio, mas que os não fazia esquecer do “chefe” real onde
se concentravam as suas nostalgias e as suas esperanças de poderem voltar a
dominar intangivelmente, mas muito consistentemente, o País que ajudaram a
depredar.
Os elogios e as declarações sistemáticas de
reverência ao condottieri, propiciadas pelos seus partidários intransigentes,
seduzidos pelo seu carisma de “animal
feroz da política” (expressão que traz bem o selo de um discurso
cripto-fascista típico, pela brutalidade da frase) não traduz senão a captura
por um tipo de prática política contra os interesses do Povo e da nação.
Não podem portanto os membros do Partido
Socialista, que por excesso ou por diferença consentiram no domínio
interiorizado da mentalidade e da postura material socrática, virem agora
eximir-se a responsabilidades alegando que uma coisa é a política em que se
mergulham e, outra, as responsabilidades do foro judicial em que ele – o
político que sempre epigrafaram e desculpabilizaram – está metido.
O caso de Sócrates é directamente dependente
de um estilo e uma prática política evidente, muito própria e muito marcada.
Pretenderem convencer-nos do contrário é
apenas uma simulação mais que agora tentam para sacudirem do capote a água
pantanosa em que se deixaram ir existindo!
segunda-feira, 24 de novembro de 2014
É José Sócrates que está em causa...
... ou o país que, preguiçosamente, estupidamente, se alheou de tudo o que é aqui referido ao longo destes anos, com responsabilidades acrescidas para os militantes do PS?
quarta-feira, 23 de outubro de 2013
O CONDOTTIERI ATACA DE NOVO…
Nicolau Saião, O monarca
No diário Destak de ontem, José Luís Seixas, através da sua coluna de
opinião, escreve o que se segue sobre o indivíduo que – perdida toda a contenção
e num arroubo de insensato rancor por ter sido defenestrado do poder pelo povo
que claramente despreza – numa entrevista ao Expresso, deu em côncavo e em
convexo o seu perfil e o seu carácter de ex-político e de despejado por extenso.
Aqui fica o texto, curto mas notável e
corajoso a mais dum título.
“COLUNA VERTICAL
O glossário de Sócrates
Ao longo do seu percurso político, Sócrates sempre transmitiu a
imagem de um narciso empertigado e prepotente. O verniz foi estalando de quando
em vez, como naquele abraço a Barroso, exclamando “porreiro, pá!”. Ou na
expressão de incontido desprezo que marcou os debates parlamentares da época ao
invetivar, salvo erro, Louçã, com um «a tua Tia!». Admito que possa ter sido «a
tua Mãe», mas a minha recordação aponta mais para a colateral.
A entrevista da personagem ao Expresso é uma verdadeira pérola
digna de arquivo para memória futura, não vá o diabo tecê-las. A pretexto de um
«Sócrates íntimo», dedilhou qualificativos depreciativos sobre tudo e sobre
todos, à exceção, claro está, dele próprio. Usou, com eloquência e supina
elegância, o calão mais depurado que se tem lido em jornais supostamente de
referência. Se um dos seus opositores é «um merdas», toda a direita já é «uma
cambada de filhos da mãe» que, curiosamente, aspirava tê-lo por líder. Há um
alemão que é um «estupor», ademais de partilhar o conceito anteriormente
referido de filho da progenitora. «Canalhas» e «pulhas» são referidos a eito,
embora com o seu – dele – critério. O resto são «tipos» e «gajos», «raios os
partam a todos!»
Tem – ele – uma «boa vida» – coisa que os portugueses não
conseguem partilhar – e «não sente nenhuma inclinação para voltar a depender do
favor popular», que é como quem diz: “esse bando de ignaros, que é a populaça,
não merece o meu génio”… Replicando expressões suas, apetece dizer ao “gajo”
que pode estar tranquilo quanto ao favor do povo. Este costuma ser criterioso
relativamente ao “filhos da mãe” que o deixou na penúria!”
Nota – Quando, num artigo dado a lume no TriploV, no Ablogando
e, em periódicos, em Espanha, França e Brasil caracterizei o antigo premier como um aventureiro político com perfil não de líder mas de
condottieri, não o fiz por hostilidade mas por tipificação realista-científica.
Os ulteriores procedimentos e bosquejos conceptuais do dito
sujeito creio que me asseguraram que acertara no alvo.
É patente que, a pouco e pouco, se vão desvelando na sua figura
em recorte os tiques a que Umberto Eco deu o nome de cripto-fascismo: a
violência verbal desbragada carreando rancor, a pequena megalomania, o atiçar
duma violência e duma brutalizada narrativa que não são normais em países
civilizados – mas que são muito naturais num terceiro ou num quarto mundo.
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