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terça-feira, 5 de fevereiro de 2013

Alguns poetas brasileiros (5)





Um poema de Luís Estrela de Matos


                                              a carlos felipe moisés


 a  longa madrugada avança em mim pelo meu corpo
e  eu avanço por ela, por suas veias invisíves
 tentando  tocar o impalpável
e  juntos nos vivemos como um amor que não pode terminar;
de  meu lado porque entrego minha alma e minhas forças ao desconhecido
e  de seu lado porque ela se realiza em meu sangue
 e neste coração que sempre pulsa forte
O ar fica mágico e quase sinto um cheiro  real de chocolate se fazendo.
Este  mistério doce e decidido chama-se escrita
e  eu não o trocaria por nada neste mundo,
absolutamente  nada.
Esse  é o grande amor acontecendo
 o amor de uma vida
noturna,
 eterna.

 E  inteira.


 Nicolau Saião,Os namorados

sábado, 16 de junho de 2012

ALGUNS POETAS BRASILEIROS (3) - PINHÕES PARA O FIM-DE-SEMANA



 Conforme o convite anexo (que mais servirá, ou exactamente servirá, para um contacto com a Autora e o evento, pois não será viável a viagem - mas que bom seria dispormos de um flying saucer para deslocações super rápidas, neste caso a Fortaleza, cidade que vos atesto ser uma delícia à beira do mar...

 Aqui vos deixo, para uma leve degustação, dois poemas da Aíla (que em Julho estará de visita a Lisboa, depois rumando a Paris) bem assim como o texto que lhe dediquei e inserido numa "orelha" do volume.
 E que tenham um muito bom fim-de-semana é o que vos deseja, com os habituais e cordiais abrqs e bjh, o vosso
n.



Silêncio antigo


 Há sempre uma casa
com seu silêncio antigo
e seus conhecidos fantasmas
a nos habitar.
Há sempre a memória
de um amor interdito,
a dar a ilusão
de que a felicidade está
apenas
no que poderia ter sido.

O tempo vivido desliza,
guardando abismos que
devoram a carne do tempo.
O que nos pertence
é apenas o presente
e a certeza de que
eterno
é somente o que não se realiza.




A cidade me esconde
entre ruas e esquinas,
perdida em mim
como suas avenidas
entre semáforos e arranha-céus.

Não sabe do mundo inteiro
que dorme
quando fecho os olhos
nem que suas ruas e casas
são apenas artérias de um corpo
onde a geografia
não dimensionou mapas.

A cidade me esconde
sob suas luzes
e não percebe
nos subterrâneos abismos
dos meus olhos,
um coração que pulsa
e é maior que ela.




 "Aila Sampaio, poetisa de corpo inteiro, olha – contempla, considera, vê – para depois as descrever, as vias pelas quais o grande segredo do mundo e da vida vem até ao universo do poeta.

 Ele pertence a todos os humanos, mas acontece que pelas razões da existência, que são um pouco misteriosas, só alguns o conseguem fazer viver. Fazer viver mediante a escrita, que muitos cultivam mas nem todos alcançam na sua justa dimensão.

  Há nessa escrita, que é um continente muito real, uma parte de naturalidade e outra de estranheza – e ambas se unem ou se fundem na matéria específica que são os poemas. O poeta é simultaneamente o demiurgo e o humano demasiado humano que atravessa tanto os lugares de dor como os de alegria completa. Daí que enquanto hacedor (hacedora, neste caso) ele faça comparecer naquilo que as palavras, a escrita, lhe dão, todas as certezas e todas as dúvidas, que é essa a busca que aos verdadeiros poetas fundamenta.

   No caso presente, a exposição dos sentimentos mais íntimos, os grandes haustos dum silencio comparticipativo e duma voz que por íntimo pudor se coloca numa penumbra tanto quanto se revela nos seus momentos de felicidade e lume, é a substancia e a matéria duma comoção, pois que é dado ao poeta falar, mas não falar para que tudo continue na mesma e sim porque o que se procura é uma transfiguração. Da vida, da existência de quem escreve e, por último, de quem lê, o universo desses potenciais leitores para que aponta o desejo de permanência que é o que certifica a Poesia que existe para valer. E assim se entende que em Aíla Sampaio, como em todos os verdadeiros poetas, os poemas não são um álibi, uma estratégia de domínio ou de afirmação mundana, uma arma para estabelecer poderes espúrios, mas sim uma aposta fremente na vida que lhe foi dado viver.

  Duma forma que tenho por íntima e solene, mas doada, a autora deste livro expõe-se tanto quanto nos expõe a nós. Porque, ao sermos assim leitores, irmanamo-nos na sua conquista de mais luz – essa luz com que os poemas, pequenas fogueiras brilhando na negrura dos tempos, afixam a sua transmutação, a sua fome de beleza e a sua certeza dum futuro encontrado.

 Arronches, Casa da Muralha, em Abril 

  ns"                       



quinta-feira, 7 de junho de 2012

DA POESIA NAS SUAS OBRAS VIVAS



Floriano Martins, Jóias do abismo (colagem) 

Do escritor Floriano Martins recebemos, através de mail, estas palavras que se referem ao recente post publicado a seu respeito na secção "Alguns poetas brasileiros".
Pelos elementos que nos dá e que são um elemento mais sobre este confrade, aqui as reproduzimos para cabal ilustração dos leitores:

Sempre gostei muito de uma tela de Gorky chamada Diário de um sedutor. Ligaste bem os pontos, pois a minha poética não vive sem duas coisas: a plástica e a tragédia. E creio que sabes bem que na infância Milton foi um companheiro e tanto, pois seu Paraíso Perdido era o único livro de poesia (além dos sonetos de Shakespeare) que meu pai tinha em casa. E muito obrigado pela consideração que tens ao Alma em chamas, Nico. Creio que ele se amplia, ao ser corrigido e somado ao volume que guardo agora (sem ansiedade) à espera de uma publicação: A vida inesperada.
Abraxas

terça-feira, 5 de junho de 2012

ALGUNS POETAS BRASILEIROS (2)




DUAS PALAVRAS SOBRE FLORIANO MARTINS

  Nestes poemas de FM sente-se pairar a sombra de Arshile Gorky. Ou melhor, talvez: FM revisita esse grande pintor excursionando pela sua própria rota interior, a que possui os sinais de um país transterreno. O Arshile Gorky das noites e das manhãs onde as coisas e os seres, os objectos e os espíritos bem materiais cobram a sua figura mais real e exacta. Assim, é natural que ali também  esteja Milton e todos os seus paraísos achados e perdidos.

  Está ali a escrita, que é signo maior lavrado nas paredes de um amor deliberadamente posto em equação. E está ali a interrogação do homem que escreve. Por isso também Prometeu ali comparece - esse Prometeu que Gorky encenou nos seus quadros diurnos, pois que o fogo da sabedoria ele o acalentava a cada pincelada, a cada retrocesso, a cada nova inflexão.

  Arshile Gorky, Milton, Prometeu: o mistério das coisas e dos seres, a sua representação virtual e a chegada ao conhecimento. Ou pelo menos à  busca do conhecimento - como claramente acontece nestes poemas de memórias e de presenças e de sangue espiritual, secretos e luminosos, do poeta sem jaça que é Floriano Martins.


                                    TRÊS POEMAS





O TABELIÃO

Um nome para as partes de teu corpo que emitem fogo,
outro para o rosto que se guarda de tais chamas.
Um nome que seja para o guia de tuas pernas flutuantes,
e outro mais para os campos que evitam tua morada.
Todos estarão felizes com seus nomes. Uns com mais de um,
outros a ponto de perdê-lo. O nome os torna quase perfeitos.
Aponta-me um deus sem nome e disto me encarrego.
Serão belos ou tristes, enfaixados ou traídos pela corte,
violentos ou angustiados. Há os que se sentem únicos
e julgam-se renascidos a cada vez que o nome é pronunciado.
Mesmo sendo iguais, os nomes também são distintos.
Distribuo-os carregados de ilusões. Fábulas ou decretos,
rubrica de tudo o que somos ou rejeitamos. Não te protege
o inferno do nome certo, traje com que entras em cena.






OS MISERÁVEIS TORMENTOS DA LINGUAGEM E AS SEDUÇÕES DO INFERNO NOS INSTANTES TRÁGICOS DO AMOR DE BARBUS & LOZNA | 3.

Os amores expõem sua nudez sob a luz do tempo, afiam suas páginas com um indestrutível ardor, ninguém pode julgar ou condenar o amor, a figueira sagrada de seus rituais, o latejo selvagem do universo, os lauréis do absoluto, ninguém pode tramar contra a pele do amor, a assombrosa claridade de seus desdobramentos e prejuízos, mesmo na vastidão de suas ruínas há um sentido de larga intempérie, uma diferença diante da morte, um brilho que fixa a astúcia do acaso, onde o esplendor do tempo é uma vertigem porém não o declínio absoluto, onde a memória é uma transparência do futuro, onde o mistério é um decifrar escuridões, a imagem de uns olhos refletida no próprio instante de seu desvanecimento, os amantes vão cobrindo o torvelinho de seus desastres passionais, os desenraizamentos de suas visões e o arroubo do esquecimento, enquanto apenas o vento sopra e o amor persiste.






ENTRADAS INVISÍVEIS | 5.

Meu pai envelhecido diante do fogo,
árvore não mais guardada em tremores.
Oh doce treva, tua idade se extingue
para sempre? Que obscuro cântico
afasta o homem do júbilo de sua morte?
Terra e homem diante do fogo, névoa
a voz das cinzas. A língua não pode
conter sua imagem derramada em cal.
Meu pai, com seu pesado corpo alheio
ao tempo, parece haver desnudado
o inferno, aprendido as palavras com que
se faz o abismo descarnar. Rodeado
por ávida quietude, o fogo, eterno súdito
de impiedades, rege o olhar do morto.

                                                                                
Nota 1 – FM: poeta, tradutor, ensaísta, operador cultural no sentido mais salubre do termo, tem presença marcada nas Américas e na Europa. Foi o curador da Bienal do Ceará (Fortaleza, 2008) e orientou seminários nos EUA. O seu poemário “Alma em chamas”, publicado em 1998, temo-lo como um dos melhores livros dados a lume no Brasil nos últimos 20 anos.

Nota 2 - As máscaras que encimam cada um dos poemas fazem parte de uma recente exposição feita no seu país pelo autor.

segunda-feira, 23 de abril de 2012

ALGUNS POETAS BRASILEIROS (1)




C. Ronald ou os fogos da noite

  Para iniciar esta secção - dada a lume nestes tempos curiosos (surpreendentes?) em que poetinhas d’ aquém e d’além mar por obra e graça de “fazedores administrativos” são postos numa epígrafe de talento que de facto não merecem e só tem o intuito da mera propaganda para escarafunchar cabeças – nada melhor que a voz de um verdadeiro poeta, um poeta sem complacências e rodriguinhos de escrita e de que a Terra de Santa Cruz se pode e deve orgulhar ser dela e viver nela.
  Com simplicidade, mas com aquela atitude varonil e digna dos altos talentos, Carlos Ronald Schmidt vem de há décadas sustentando nas mãos o fogo da poesia, que é tão natural nele como um objecto familiar e que nos garante a todos na realidade quotidiana das melhores horas e dos melhores momentos.
 Aqui deixo quatro poemas que seleccionei da sua vasta Obra.






O GAROTO STRAVINSKY

Lendo Carl Spitteler numa primavera horrível.
Não é possível ser grande
com tamanha tagarelice.
Stravinsky (o certo) descobriu isso
despindo-se (noutra). Passa a língua nas notas.
Dia maravilhoso nesse bar de praia e dizer:
estou em falta contigo, "a tragédia
não tem nada a haver com a sujeira que
deixa". Uma volta nos arrabaldes (lavam as
máquinas matricidas) póstumos entre colunas
gregas. Ah, nunca, antes
de estremecer no horário o ano vindouro com
novela numa TV idiota.
E parturientes de acéfalos
já desligados da casca. Ora!
Igor sustenta nosso futuro. Por aqui, tudo bem. Então discutem sem
definição alguma, encolhidos na alcova. Especialistas de
cemitério tampouco vi. Claro, somente coveiros,
mas estes nunca levaram a sério uma cova
e tampouco a própria.

  (in Como Pesa!, 1993)


Eis a porta que range com aquele que entra:
domínio da incerteza para mais de um corpo
e o silêncio desfeito. A terra depois disto
e o tamanho inexato daquele que a tenta

como parente estranho que nem era homem
entregue ao acaso com a visão atiçada
no acúmulo de cartas quando pesa o nada
na permanência inútil e no lugar dos nomes.

Mãos em coisas pequenas só alargam a morte
no que consomem do outro. Mas o verbo firma-se
em cada grito de antes sendo ainda mais forte.

Ai, meus Senhores, funde-se o pressentimento.
Não sois nada, nem há folha fora dessa bíblia
que não seja virada e lida cada noite...

(in Gemônias, 1982)


NA CANTINA DO BOSQUE

Recebendo o presente dos amigos, começo
uma idade nova sem mudar os hábitos.
Eu, animal ainda não notado na natureza.
Pronunciem um nome que a identidade se apresenta.
Não é um local apropriado para a alma
a realidade que os adultos inventam.

Qualquer lugar deste país, embrutece.
As aves choram o vermelho da terra esfolada.
Ah, regato perfeito, a voz humana
só é percebida depois de perdidas as palavras.
A sordidez é toda a História e ali
qualquer lembrança pode ser rival dos sentidos.

De certo há muita coisa a nos integrar.
Uma bela italiana a nos servir.
A alma rústica não sabe o que é pensar
antes que nos roubem, rápido, sua essência.
No cardápio o avesso foi escrito por alguém:
“Temos que comer o que nos é dado olhar”.

(in A Cadeira de Édipo, 1993)


PARA ESTAR NA PAISAGEM

Assim que entro, a casa estabelece as regras,
o apoio da terra, as mãos como duas naturezas
juntas e algo que não fui quando chego à cozinha:
algoz e vítima, alimento e gosto, amor e ódio
sobre o mesmo fogo. Tu estavas distante
dessa história, iluminada e nua. Débil eco
para quem precisa do encanto, das coisas antigas
e das novas. Ainda uma vez mais os sonhos tentam
o existido com o que fica dos mortos. O hábito
com que provo o tempo nessa noite de chuva.
Acima de nós, beleza e verdade confundem
a liturgia das raízes, o manancial dos enigmas
a graduar o acaso por tudo que tivemos juntos
entre frutos e flores.

(in As coisas simples, 1986)