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segunda-feira, 2 de junho de 2014

Azulejos para Madagáscar


Jules Morot


 Com a delicadeza típica dos grandes espíritos, das pessoas de razão e coração que temos por vezes a sorte de ter por amigos, dias atrás recebi uma carta do Jules Morot - há dois anos a leccionar em Madagáscar - na qual o excelente autor de "Récits du parc" me solicitava se eu não poderia vender-lhe (vender-lhe!) um cartão para azulejo para ele ornamentar a sua casa de La Jolle. No género dum daqueles que, pouco mais que há um par de anos, eu lhe dera para o seu entreposto (adega e salão de provas) bem situado nos campos perto de Tours. Sugeria mesmo se não poderia ser um igual ao que eu mesmo tenho na sala de cima da minha cabana de Arronches. É que quando ele me visitara - e que visita mais ou menos helénica foi aquela!, pois se fizera acompanhar, para além da sua esposa Julienne, de uma boa dúzia de garrafas do seu afamado tintol "Pérouse", aquele de se dar estalos co'a língua bem colocada - dizia eu, gostara do maroto do painelzito (bondade dele).

   Com fraternal sadismo, disse-lhe que não. Com efeito, porque não vendo os meus quadros (surrealista que sou, tenho este hábito, confesso que mau, de os fazer para meu próprio gozo...e de alguns amigos que iam a mostras que dantes fazia mas já não faço). Manias. Mas bom: que a seguir disse-lhe que, como me sentia ligeiramente pachorrento não lho vendia mas...lho dava. E, como me empolgara, que ia executar uma versão um pouco diferente do outro, embora seguisse o mesmo figurino e estilo. E, num exagero de doçura, que lhe ia mandar não um...mas quatro. (É que não me esquecera da semana que há 3 aninhos passei na sua mansão, onde petisquei do fino e engorlipei do bom, sempre tudo posto num ambiente fraternal com que os franciús que se prezam, acho eu, gostam de acatitar convivas).

  Foi nessa altura que ele me deu, para que eu o traduzisse, um dos seus poemas, que em anexo apresento aos caros confrades para aquilatarem da categoria real deste criador de vinhos doublé de professor, de gastrónomo e de poeta em pleno. 

  E fiz seguir os cartões. No fundo o privilégio era meu. E não digo isto a reinar!



   (... Em meados do próximo ano lá os irei contemplar, estes filhos emigrados (como muitos portugueses dest'época algo surpreendente...).



     E, o que será muito melhor, enquanto ambos os dois, mais a Julienne anfitriã de brios, degustarmos calmamente assim umas coisinhas deliciosas. Evohé!


   
O URSO GANIMEDES
Ele levanta-se
coitado dele
e nós sentimos aquele arrepio inquietante
da sexta-feira ligeiramente escura
Cristãos comunistas desportistas consumidores de alcachofras
e mesmo outros de crânio em silhueta contra a luz da lua
no meio do frio glacial do continente antártico
se bem me entendo  financistas agentes de câmbio
comerciantes  ruidosos alunos de artes polícias
personagens que fazem navegar os barquinhos nos tanques dos seus
jardins da infância
Velhos capões
Notamos dizia eu  ou melhor    notam vocês os que
ainda por aí têm sonhos
a sua poderosa silhueta de comedor de bagas de zimbro
de fruta da época se a conseguia apanhar   
de uma perna descarnada de montanhês
nos tempos da grande solidão feliz
 O urso que outrora ia de Somner Valley a Livington pelo meio
das gramíneas das faias das nogueiras até às primeiras encostas
da grande montanha verde e negra

                                  ***
O meu urso
suave como um lilás
como um carvalho das Ardenas
sem saber ler sem saber escrever
O de muito perto da terceira subida nas Rochosas
ou mesmo da quinta ou da sétima
lá onde havia entre os abetos seculares um pequeno
lago sonolento
e se dizia que por ali emigrantes antigos tinham rebentado
no inverno coloquial de Wyoming evocado em Toulouse

Aquela senhora conferencista de boa perna dava-me volta ao miolo
Até me fazia sentir câmbrias

de Santa Fé a Colorado Springs
o meu urso  meu é claro ainda que de mil transeuntes contentinhos
Aquele que virando a cabeça   erecto   nos faz recordar o Quaternário
na sua imensa estrutura de velha fera indolente.

O Ganimedes
calmo empregado entre funcionários engravatados
pensa que pelas ruas faria dar gritinhos às raparigotas sem cuecas
a moda mais na moda de agora   imaginem vocês
a sua companheira ursa perdida com a barriga ao léu
                                    
                                          ***

Ganimedes
No Zoo parisiense ele é um senhor cheio de categoria
mau-grado o seu silêncio habitual
chegam a atirar-lhe maçãs   muitos lhe lançam
amendoins ou nozes de Agosto
e avelãs e até um maço de cigarros amarfanhado

O meu urso
Primo do meu primo Ribonard e dum grandalhão
mais tosco que a rocha Tarpeia
taberneiro merceeiro em La Jolle  onde eu ia com o tio Lenôtre
comprar botas de caçador de perdizes
de cigarrinho mais que malcheiroso sempre ao canto da bocarra
sempre ensopado em branco e aguardente barata.
Ganimedes

sob o luar e os planetas libertos aguarda o momento de estoirar.


terça-feira, 24 de setembro de 2013

SOBRE JULES MOROT




      Jules Morot, francês de fio a pavio, não podia deixar de ser um poeta que raciocina sobre a questão da escrita e da literatura que se organiza sobre aquela e, naturalmente, sobre a vida que lhe reside em torno, antes ou depois do acto.
      Sendo originário do Loire, essa - e cito - “região pacífica da exuberante paisagem, vinhas, longas praias arenosas e sapais, salpicada de castelos, solares e zonas de caça e na qual os prazeres bucólicos se misturam com a fruição de cidades fascinantes”, um pouco desse rincão encantado lhe percorre o que pensa, o que escreve, o que inventa.
      Assim sendo, é natural que se detecte nele um fundo mágico que o lança em composições nas quais tenho percebido duas coisas fundamentais: o amor à natureza e ao pensamento especulativo (o que se me oferece, por exemplo, nos seus poemas “O besouro” e “Mozart” dados a lume na DiVersos nº 7 -  revista de poesia e tradução).
   Creio que o trecho que aqui vai, extraído do seu “La chambre engloutie” (inserido na sua obra mais recente) do mesmo modo explicita o seu mundo interior, vazado numa afirmação que afinal é interrogação sistemática mediante os ítens que o enformam e que, ao cabo, reflectem o homem e o autor fascinado ante os mundos de baixo e de cima – que o mesmo é dizer os do espírito e os da luminosa materialidade.
                                                                                                                         
INTRODUÇÃO - O Regresso

    Eu chegava de Besançon.
  Era um dia de chuva miudinha de meados de Março e no largo da estação tomei um táxi da fila que aguardava passageiros. A imagem de “O marido da cabeleireira” perpassou-me na mente ao efectuar o acto tão simples de entrar no automóvel. Logo a seguir recordei o que a personagem dizia antes de morrer: “Todo o meu passado desapareceu contigo”. E toca, brrrr!, de se lançar às águas do rio.
  Mandei seguir para a Praça Lebrun, que fica perto da rua Lepic onde se situa o meu sóbrio apartamento de solteiro. O motorista era magro, de cabelo escuro, bigode à inglesa, tipo de  belo tenebroso.  Notei que  depositara  no  banco do lado um livro qualquer – mais me parecera um caderno - que pude relancear fugazmente. Tanto mais estranho consoante ostentava na capa uma ilustração que me intrigou.
   Ao passarmos nas imediações do parque Monceau soltei uma pequena imprecação. E disse de imediato: “Esqueci-me dos cigarros, raios!”. Então, num gesto entendível, debrucei-me ligeiramente e passei-lhe uma notinha de 20 francos. Ele encostou o carro perto do espaço dos jogadores de bolas deserto àquela hora, pois percebera que a demasia lhe estava destinada. Enquanto ele se dirigia ao quiosque, num gesto rápido e decidido peguei no livro-caderno. E compulsei-o sem demoras.
  Era um manuscrito. Com entradas, que me pareceram reflexões. Li um par de linhas. Vi que o nome posto ao alto da primeira página correspondia ao do taxista na pequena placa identificativa do “tablier”. Sem alardes, como faria o Arsène Lupin, meter o manuscrito no bolso interior da gabardina e recostar-me serenamente foi uma naturalidade que não me levou 3 segundos. Um taxista escrevente! E o par de linhas mostrara-me que o meu rapinanço (pois se tratava dum delicioso roubo) fazia sentido. Aconcheguei mais ao queixo a gola da sebosa, para disfarçar melhor o meu trombil. Ele durante uns minutos não notaria a volatilização da sua menina-dos-olhos, pensaria talvez que caíra para o espaço intermédio entre o banco e a porta. E quando despertasse do engano já seria tarde.
   Ele regressou, passou-me o maço de “gauloises” e com um gesto dei-lhe a demasia.
   Nos minutos que levou a trajectória até à Praça Lebrun amodorrei sem má consciência. Ali apeei-me, paguei-lhe generosamente para compensar o amargo despertar e comecei a andar como se fôsse para a rua Vosges.
  Passei por cima da relva, no separador arborizado com que o município nos mimoseia e num cavalgar harmonioso voltei para trás em passo estugado. O coração batia-me um pouco, como se tivesse acabado de cometer um assassinato. Mas a alma entoava uma pequenina melodia.
  Levar-me-ão a mal? Chegarão mesmo a chamar-me ladrão, a cobrir-me de adjectivos pouco próprios? Eu, contudo, vejo o assunto de modo bem diferente.
  Já em casa, depois das abluções e dos momentos de nostálgica retoma do ambiente familiar, despi-me calmamente e enverguei um pijama confortável. E enquanto degustava uma colação leve mas saborosa, deitei-me à leitura.
  Estive nisto mais duma hora, entre o irritado, o seduzido, o admirado.
  Eram, com efeito, reflexões ora sobre isto, ora sobre aquilo. Coisas do dia a dia, artes, literaturas, o que se esperaria em quem tem muito tempo para locubrar nas horas de uma vida de solteiro e com uma profissão pouco compaginável, pensei, com o trabalho do pensamento. No entanto enganara-me e creio que ficara de parabéns.
  Entre esses exercícios de pensamento e, mesmo, de crítica com certa penetração, ia contudo assomando, mesmo ressaltando, uma espécie de história delineada pelos breves diálogos entre duas personagens identificadas apenas pelos apelidos: Barre e Cibaljet.


***

   


(...)

 "Cibaljet repôs o livro na prateleira de cima duma das altas estantes em madeira encerada de cerejeira. Com um sorriso ameno disse para Barre, enquanto vertia nos copos uma generosa porção do líquido contido na garrafa de cristal facetado: - Na adolescência fui muito suscitado pelo catorze. Era um número que, não sei porquê, me despertava curiosos pensamentos. O sete duas vezes, o sete para um par de enamorados ou de companheiros, ou de inimigos...  
  Quando me tornei adulto, foi o quarenta e seis...
  É um número de grande poder, o quarenta e seis - disse Barre suavemente.Tem razão - redarguiu Cibaljet com um sorriso - É o sete multiplicado seis vezes e, depois, adicionado do quatro. Ou seja: da terra, da água, do ar e do fogo. "


***

  "Senti isso uma vez perto de Claremorris, no País de Gales, quando se começa já a descer até aos prados de Ballinrobe - disse Cibaljet entre duas puxadelas do havano - A sensação de que estamos longe, muito longe...como se fôssemos outros e nada nos prendêsse ao que fômos.
  Entendo! - redarguiu Barre com uma expressão sonhadora - Tive a mesma experiência certa noite junto ao Bósforo, quando ainda não me decidira a deixar a velha Europa...
  Você acha que a sensação é muito habitual, pelo menos em viajantes experimentados e decididos, com uma boa qualidade de conhecimento de estradas e lugares? - tornou Cibaljet passando-lhe o frasco viajeiro de aço recoberto de couro onde a bela aguardente das Cevènnes esperara a sua vez.
 Ora... - disse Barre na sua voz de baixo a que um leve tom de barítono emprestava um timbrezinho peculiar - Tenha em conta que a maior parte dos mortais com ou sem qualidades próprias de caminheiros se limitam, a não ser que haja milagre, a deslocar-se para aqui ou para acolá como se um vento os levasse..."


***

  “Já não me recordo quem teria dito a frase “Foge de alguns, foge de um, foge de todos” - disse Cibaljet passando a Barre a tábua onde um belo naco de Brie exalava o seu perfume sedutor para gastrónomos encartados – E quem teria dito, diabos levem a memória, “O companheiro Deus se quiser existir que exista” ? Puxo pela cabeça e por mais que tente não me consigo recordar...
  Sim, esses lapsos são apoquentadores em extremo – redarguiu Barre com um fino sorriso, untando a fatia de pão com deleite e vasando nos copos um Chandelle que estava mesmo a pedi-las – No meu caso, há anos que tento encontrar pistas do poeta que escreveu “Cuco, és tu uma presença errante ou apenas uma voz indagadora?”. Tenho procurado em antologias, em selectas liceais, em alfarrábios...e nada! E quem teria dito “É uma cidade soturna e desencorajante. Certas pessoas deviam entrar directamente do hall para o páteo e nunca lhes deveria ser franqueada a sala” ?
  Por mim sou um homem confiante – tornou Cibaljet entre duas mastigadelas – Ainda não perdi a esperança de conseguir lembrar-me de quem foi que disse “A vida é um mistério e não um delírio”.
 Barre pousou o copo. “Sabe - soprou de mansinho – quando era garoto um parente meu dizia que a memória atraiçoa frequentemente os que comem muito queijo...
  E talvez seja verdade... – disse Cibaljet servindo-se de outra generosa porção do Brie que restava na tábua – Será um caso de sabedoria popular...
  Mas nenhum deles sorriu.”


***

  “Meu caro Barre: ontem, na rua do Tivoli, encontrei um alquimista. Não se ria, essa qualidade existe. Acontece que por uma subtil concatenação de factos esse homem é meu vizinho e tive oportunidade de lhe prestar um pequeno obséquio que o dispôs a meu favor. É um indivíduo inteligente e desembaraçado, com um vago ar de distância indefinível que, contudo, não o apouca.
   Após vários anos de contacto fortuito, eis que confiou em mim. Contou-me uma história surpreendente.
  Como não saberá, mas aqui fica a revelação, os adeptos que atingem a iluminação não precisam daí em diante de comer ou beber e consequentemente de eliminar os resíduos líquidos ou sólidos. Habitando vinte anos atrás um solar isolado das redondezas, entregou-se a uma curiosa actividade: esteve 4 meses sem sair do seu quarto, imóvel numa poltrona e lendo incessante e interessadamente as obras de Vítor Hugo. Entre um e outro livro, dormia a sono solto para se distrair com os sonhos. Depois, recomeçava.  
  Os músculos não se atrofiavam pois as células corporais, nessas pessoas, mantêm a elasticidade. Quando chegava ao fim dos tomos, reflectia sobre as qualidades e defeitos da Obra do mestre. Adquiriu assim a certeza de que a leitura roda no espírito humano como um planeta o faz à volta do Sol.
  Vai dentro em breve recomeçar o mesmo périplo, desta vez com as obras de Balzac. Para isso isolar-se-á numa vivenda que descobriu nos arredores do Languedoc, no cimo duma colina e no meio de um bosque fora dos circuitos de quem quer que seja. Estará nisto, segundo prevê, 8 meses seguidos. Depois, será a vez de Homero, de Dante, de Borges, de John O'Hara, de outros mais. Dará aí para coisa de 4 anos. No entanto, desta vez acompanhará as leituras com intervalos durante os quais, cozinheiro emérito em que se tornou por gosto e sensibilidade gastronómica, preparará pratos sumamente apetitosos conforme a sua disposição do momento.
  Disse-me que um dia, em meio às suas leituras futuras, já os homens terão chegado a um planeta habitado fora do nosso sistema solar. Sairá então, com o intuito de renunciar à leitura dos clássicos e votar-se a passeios incessantes durante os quais ordenará na sua cabeça todas as páginas que leu.
   A solidão não o assusta. A única coisa que parece preocupá-lo um pouco é que, entrementes, uma catástrofe nuclear aniquile a nossa velha Terra. Eu disse-lhe que deveria começar a pensar em manobrar de forma a que os governos que se interessam pela aquisição atómica não tivessem esse ensejo.  
  Uma vez que dispõe de incomensuráveis possibilidades, já de tempo já de sabedoria, isso ser-lhe-á possível a meu ver.
  Ele olhou-me fixamente durante uns segundos e depois respondeu: “Saiba que mesmo a nós é extremamente difícil inflectir a loucura dos homens. Já outros antes de mim o souberam. Confiemos antes nas leis do acaso”.
  Despedimo-nos à porta do edifício que ambos habitamos, em andares diferentes.
   Agora  estou sentado a ouvir uns trechos de Brahms, enquanto lhe escrevo.  Jantei costeletas grelhadas com um fiozinho de molho inglês para acertar a preparação. Sinto, contudo, uma leve inquietação que não consigo definir se vem da conversa ou do leve zumbido que algures soa vindo do apartamento do lado, onde reside aquela morena de que não sei se já lhe falei.
  Até que nos encontremos.
  Cibaljet”

 ***

  “De cada vez que ouço Stravinsky ou leio Maupassant sinto sempre que alguém foi demasiado longe. Há autores que nos deslumbram e outros que nos sufocam. E o mais grave é que ambas as coisas podem ser suplementares.  Nunca consegui ler mais do que três contos de Maupassant de uma vez só. E nunca consegui ouvir Stravinsky durante um inteiro quarto de hora. O pássaro de fogo põe-me todo a tremer. Tal como sucede com O colar de Maupassant. A meu ver existe algures, perdida no meio dos séculos e das coisas, dos acontecimentos e das descobertas, uma lógica inquietante que ainda não foi avaliada. Algo para além das frases e dos sons. Tem-se a impressão que certos autores tocaram com o dedo nu o mistério da espécie... - regougou Barre em voz cava
   Junto da janela, Cibaljet olhava atentamente para fora. Traçava, distraidamente, figurinhas no vidro embaciado com a mão direita, enquanto a esquerda levava aos lábios, intermitentemente, o charuto já meio fumado.
   Vem aí uma forte pancada de chuva... - disse enquanto se virava e apanhava o cálice de “Napoléon” da mesinha de mogno envernizado - O céu está negro ali para Norte...Vai ser de escachar!
   Barre inclinou-se e, duma pequena taça de cerâmica com arabescos, tirou uma boa porção de amêndoas torradas.
   Gosto da chuva quando cai numa tarde assim de princípios de primavera, como esta – afirmou com um leve suspiro.”


***

  “Lacordaire ultrapassa em muito a sua própria lenda. Nisso está nos antípodas de Stevenson, cuja lenda é do tamanho da sua vida vivida. Não é fantasia e sim realidade o facto de que escreveu “O médico e o monstro” de rajada, horas depois de ter tido um sonho onde lhe foi oferecida a imorredoira história. - E, dizendo isto, Barre estugou o passo ao longo da álea que bordejava o canteiro de flores diversas e multicoloridas.
  Sim, mas só até à segunda transformação. Daí em diante teve ele de inventar – retorquiu Cibaljet com um leve sorriso enquanto, tomando Barre pelo braço, o encaminhava na direcção da pérgola um pouco mais adiante.”


***

   “Caro Cibaljet: Contaram-me ontem que Marcel Proust deixou algures, de acordo com um dos seus melhores exegetas, dois livros inéditos. A meu ver trata-se de não mais que um boato vago, talvez incrementado por um editor voraz e arteiro com o intuito de despertar uma nova curiosidade pelas obras já existentes. Mas e se fôr verdade? Que novas visões isso despertará, não acha? Críticos, leitores, simples observadores, andarão à porfia durante sei lá que tempo em roda da obra do aristocrata mais socialista de França. E já me revelaram que se trata de um diário e de cartas confidenciais.  Que bico de obra, que bela jornada para duas ou três épocas!
   Gostaria de ouvir a sua opinião. Até domingo próximo e os meus respeitos à senhora sua Mãe.
   Barre”


***

   “Meu caro Barre: A meu aviso trata-se de um boato, desses que surgem ciclicamente na nossa sociedade hiper-literária. Ou, melhor dizendo, sofisticada pelos piores motivos. Mas sempre lhe digo que, a ser verdade, teria importancia apenas nas vendas e nos fins-de-mês das livrarias. E daria durante um lustro pano para mangas aos batalhões académicos da especialidade, mas nada mais. Quando um autor está morto, fisicamente morto e várias décadas passaram sobre a sua desaparição da cena, transforma-se em História com todas as consequencias que se conhecem. Nada mais modifica, quando muito suscita um arrepio intelectual e algumas paixões de segunda ordem.
   Assim, se por exemplo um autor, trinta anos passados sobre o seu último livro, anunciar que vai publicar um tomo de inéditos que lhe haviam escapado, arriscar-se-á a passar por velho relho à guisa de plagiador da sua própria obra.Tanto mais que, entretanto, apareceram novos ritmos, novas maneiras de indagar os séculos e o século, um novo olhar sobre a escrita.
   Infelizmente e creio que digo bem, a literatura é um pouco como as bananas, que devem ser consumidas na hora. A novidade, tanto quanto me parece, advém-lhe sempre de novos relances, de leitores sucessivos, não de descobertas materiais.
   Seja como fôr, a ser verdade, creia que estarei como um dos primeiros compradores dessa iguaria, tanto mais que a frequentação das velhas glórias é uma das características de que não abdico. E, além disso, qualquer página de Proust é no fundo como se tivesse sido escrita mesmo agora, o que contradiz absolutamente tudo o que lhe disse atrás.
   Até domingo, pois. E uma saudação respeitosa a seu Tio.
  Cibaljet”


***

   “E esta é uma das peças que me chegaram ontem – disse Barre assim que entrou, sustendo cuidadosamente nas mãos uma peça de cerâmica de côr esverdeada, com pequenos elementos abstractos, que Cibaljet logo se apressou a contemplar tão-logo foi deposta sobre a toalha que cobria a mesa no centro da pequena sala -  Ainda nem sequer a coloquei junto de outras irmãs de outras civilizações. Não é uma beleza?
   Cibaljet, sem a levantar, rodou-a cuidadosamente, quase com ternura. Olhava-a como que extasiado. Virou-se e olhou Barre com unção.
   Tão simples e no entanto tão bela! - afirmou - Olha-se para isto e quase se ouvem os sons do passado em que esta peça foi um elemento do dia a dia. Posso quase ver os que dela se serviam, o camponês comendo nela o seu alimento enquanto olhava os filhos e a mulher, ou enquanto sentado à porta de casa olhava os longes da floresta na tardinha que chegava. Os sons dos animais que começavam a ouvir-se na noite nascente...
   Neste caso – disse Barre com um trejeito, contudo assaz delicado – temo que se engane: é um exemplar, muito bem conservado, das taças ou tigelas, conforme queira, em que os participantes no rito maia bebiam o sangue da vítima propiciatória que o sacerdote acabara de degolar.”
                                                      
  (...)

in O quarto submerso, de Jules Morot
Trad. nicolau saião



quarta-feira, 29 de maio de 2013

Assim que cheguem os dias... (Tant qu'il aura des jours...)‏


Paul Cézanne, L'Estaque 


Sim - os dias, os grandes dias amenos na Provença e na Grand Prairie, tão justamente celebrados em novelas inolvidáveis por Marcel Pagnol, Jules Lemaitre e Marcel Scipion ou, já nas bandas do cinema, por Claude Berri, Jean Renoir, Marcel l'Herbier...

   Nesses lugares, se em boa companhia estamos, os dias são amáveis e fecundos. E se a companhia for, por exemplo, o filho do Sr. Antoine Morot (infelizmente já falecido) criador de vinhos, nomeadamente do famoso e gostoso Jolibleu Chambray e estivermos nas suas caves de La Jolle, acompanhados também pela presença de sua esposa Marcelle (ajudante vinhateira mas também pintora e ceramista-tapeceira) então a coisa magnifica-se, tanto mais que com aquele pundonoroso tintol costumam aprochegar-se iguarias de mui fino trato... para acalentarmos as papilas e a poesia que nisso tudo está inclusa.


Paul Cézanne, Natureza morta com cesto de maçãs



 Resumindo: lá mais para o tempo quente terei ensejo de rever aqueles amigos, a que se juntarão talvez os confrades de Espanha Ignacio Maragall e Maria Darmyn. E poderei então contemplar os painéis (de azulejo e pano tapeceiro) que, comunicaram-mo hoje, já estarão encaixados nas paredes da sala de entrada da adega e no salão da vivenda próxima aonde residem.


 Para aquilatarem da qualidade lírica do vinhateiro em causa (risos), aqui vos deixo 3 poemas 3 da sua produção, que tem um travo frutado, prudentemente encorpado e com um eflúvio floral - mas que só trepa galhardamente se nos dermos a desmandos sem norte e sem estrela. Mas adiante!


Jules Morot


TRÊS POEMAS DE JULES MOROT


ANDANÇAS

   As minhas viagens são feitas de acasos e de sombras. Ou de sombras e de acasos, pois a soma e a sequência dos factores por vezes é arbitrária. Ou não será assim?
  Não importa de momento, agora o que é preciso evocar são as grandes presenças das florestas passando por mim, sobre mim, por sobre a minha cabeça, os meus pés, as minhas mãos e os meus ombros. A roupa que me veste e que de tempos a tempos me desnuda, o mar que sempre recordo, naquela tarde ensolarada, naquele fim de tarde quando uma estrela já luzia no céu, o banco de jardim onde me sentei um dia numa pequena terra de Espanha, os grandes lumes acesos na serra, as fogueiras que me deslumbravam, me deixavam surpreso pois ainda não conhecia o fogo e a sua incontável arquitectura plena de terrores e de encantamentos, a voz do vento lá por fora, pelos caminhos da montanha, solitários como flores num bosque que não se sabe bem em que lugar fica.

 As minhas viagens são feitas de amargura pois não mais voltarão. São como um rochedo num bosque silente na manhã, um bosque onde animais nasceram e animais morreram, a doçura de um raio de sol ou de luar sobre o dorso de um lobo ou de uma inconcreta aparição.

  Tenho a tua mão e não tenho a tua mão. Imagens rodeiam-me e são coisas que existem, o pão e a água trazida dos lugares mais remotos e que nos habitam. A minha água interior, a tua água que ressuma, que bebi no teu coração, os teus olhos que já não reconheço, o fulgor do passado. As casas que correm ao meu redor, o rufar repentino de um combóio perdido e aquela voz de mulher dizendo para a outra, a mais nova, a mais vistosa: “Ali era o nosso quarto, lembras-te? Tantas vezes que nos pusemos ali à janela, ainda o Pai era vivo!”. A memória que se esconde para sempre num recantozinho do cérebro, como um retrato humilde ao canto de uma mesa numa sala muito antiga.

  As minhas viagens são feitas de tudo o que nos ampara e desampara nas grandes caminhadas, ao longo dum rio ou dum deserto.

  As minhas viagens são como livros amados e iguais aos crimes de outro alguém que existe e não existe, um alguém que mora dentro de mim e do peito que ainda conservo mergulhado neste tempo, no outro tempo, em todos os tempos do universo.



 Nicolau Saião, A colheita (painel de azulejo, 150 x 315 cm)


MOZART

Lêem-se os gregos
suecos, alemães
ou a doce língua
de não sei quantos
de não sei que imóvel pedaço de página
claves de sol
talvez o latim o alano o islandês
e é sempre a mesma música
sempre como um veio numa flor grossa obscena
Diz um   um alfinete   diz outro
um parafuso
pois sim
uma fina difusa coisinha semimorta
semi-deitada
semi-cerrada
uma inteligente coisa muda
maior que um tiro na orelha
pois não
uma espécie de porta
de dor discreta.

Meu bom senhor
olhai
nos prados nas tabernas
nos ermitérios
nos armários
um rasto de cão

Nos óculos do primeiro violino
tudo desaparece.

Tendes vós sono, desejo
de novas estações? Tendes florins?
Tendes, acaso, em dias
já passados
mãos musicais, sinais
de outras mortes?


Nicolau Saião, A criação do mundo (tapeçaria, 150 x 300 cm)


O BESOURO

Soa lá fora
espalha-se pela casa
no calor das árvores que aguardam
o mais curto caminho
humano   na direcção do ribeiro
o besouro   o seu som de campainha
de sineta
astucioso repicar  e logo
lembranças vagas na tarde
pequeno fio de memória nos nossos ouvidos
e  é exacto  um esvoaçante ser que em rodopios
perpassa
por sobre os roseirais
a sombra hirta dos sentidos.

Um harpejo
de violinos no nosso olhar reflectido
nos vidros
de hoje e amanhã
Agora um gesto  um balbuceio
um simples animal   de metal furando a tarde
seguro   bem seguro
do seu talento  da sua carne temporária
lembrança de céus distantes
de anos repassados   de poeira

de roteiros felizes.


in Jules Morot, Le mardis-gras
Tradução de Nicolau Saião


(Dados a lume, respectivamente, no "TRIPLOV" e na "DiVERSOS – revista de poesia e tradução". Trechos do seu livro La chambre engloutie foram dados a lume por Floriano Martins na "AGULHA – revista de cultura", Brasil)

Nota - O tradutor, aqui como em textos de sua autoria, não segue os preceitos do chamado Acordo Ortográfico.

domingo, 10 de fevereiro de 2013

Três, a conta que deus fez (dito popular)



(imagem recolhida aqui)


   Pela mão de Camilo Prado, através da sua Editora Nephelibata,  foram dadas ao grande público brasileiro e, por extensão, a todos os leitores da língua portuguesa, os livros Os fungos de Yuggoth, de H.P.Lovecraft, e Vestígios, de Gérard Calandre.

   A expressão pela mão tem inteiro cabimento – pois as edições da Nephelibata, que se impõem pela sua qualidade material, são executadas artesanalmente pelas mãos do editor com o concurso adequadíssimo das mãos de sua mulher. Mais do que trabalho aprimorado será de se dizer trabalho de quem ama os livros e os faz com desvelos de amorosos por extenso.

   Não é de estranhar pois que todas as edições já postas em terreiro possuam a bela estrutura (até no papel!) que faz jus à frase consabida de Éluard que, em frente de um escorço de Picasso, que mais tarde o veria numa bela edição de Albert Skira, a disse com emoção: “Como eu gostaria de poder fazer os meus livros com as minhas mãos!”.

   O empreendimento a que Camilo meteu ombros justifica plenamente, pelos resultados - já de concepção gráfica já de acabamento, diria mesmo de feitura total – que epigrafemos da forma mais alta estes livros que se certificam como objectos excelentes da arte de editar.

   Finalmente, mediante os bons ofícios de Annie Launay e das Éditions du Parc, vai também sair a público o tomo bilingue de Jules Morot, Le mardis gras, de que tive o gosto de assegurar a versão em português (Terça-feira gorda).

   Em anexo, para que as possam ver, estão imagens das capas das obras referidas. 
     
    A seguir  dois poemas de cada um dos autores em epígrafe:
         



   

                       

VENTOS ESTELARES
 
 Sobretudo no Outono, a essa hora
 Em que tombam as sombras do entardecer
 Os ventos estelares derramam-se
 Pelas ruas mais altas e desertas
 Onde assoma a luz fagueira de algum cálido aposento.

 As folhas secas agitam-se em estranhos redemoinhos,
 O fumo das chaminés enrola-se com etérea graça
 Atento às geometrias do espaço exterior
 Enquanto Fomalhout palpita entre as brumas do Sul.

É a hora em que o poetas lunáticos conhecem
Que fungos brotam em Yuggoth,  que perfumes
E matizes de flores enchem os campos de Nithon,
Que nenhum jardim terrestre pode ter.
  
Mas, por cada sonho que esses ventos ofertam
Doze dos nossos nos roubam!


H. P. Lovecraft
  

A JANELA

Era uma casa velha, com estranhas alas tão emaranhadas
Que ninguém podia dizer que lhes conhecia bem a disposição,
E num quarto pequeno algures nas suas traseiras
Havia uma singular janela entaipada com pedra antiga.

A esse lugar, numa infância atormentada pelos sonhos,
Costumava  ir sózinho, quando reinava a noite negra e vaga.
E destroçava as teias-de-aranha sem qualquer  ponta de medo
Sentindo-me,  p’lo contrário,   cada vez mais maravilhado.

Mais tarde  num certo dia  levei até lá uns pedreiros
P’ra descobrir que paisagem os meus antepassados
Haviam tentado encobrir,
Mas quando perfuraram a pedra, impetuosamente entrou
Uma lufada de ar soprada p’lo ignoto vazio  do outro lado.

Fugiram a sete-pés... Eu assomei-me  - e encontrei um por um
Todos os mundos selvagens que os sonhos me haviam mostrado.







NOTÍCIA

Ao declinar da tarde chego à cabana velha
de muitas gerações. O silencio deixa-me respirar.
As paredes ainda são as mesmas. Grandes manchas
de humidade, a luz de astros distantes, a presença
de pássaros desconhecidos. Os meus pensamentos que
iniciam a ronda das sombras. Era um dia era uma hora
propícia de repousos, de vozes como antigamente.
Coisas construídas e eu estou aqui
ladrar de cães entre as árvores. Eu vejo
mais do que a luz, as linhas leves dos montes.
Desce neles o perfil divino da terra molhada.
As estações na ombreira da porta Raramente lembramos
os lugares como um livro que se abre Horizonte já
inacessível.
O primo pequeno o calção sujo de terra Fotografias
pacientemente dispostas sobre a mesa de madeira
Sem detença me abandono Veredas perfumadas flores voando
pulsa lento o sangue junto ao esqueleto

Neste chão vos imagino calados como outrora
vida sem desenlace o fogo que se desenrola
amei em vós o fulgor do coaxar das rãs
o alfabeto sensível do que a escuridão me dizia.

Devagar. Deus dá-se por satisfeito espreguiça-se
no sereno entardecer. Devagar digo de mim para mim
Longa criatura arfando na terra nas horas que passam.

Abro a porta, aguardo a quietude abro a saída
uma chuva mais frágil entre duas águas que se reúnem.


Gérard Calandre


JITTERBUG


Perdi uma das casas
da minha infância

Pombos por sobre as árvores
onde é agora um hipermercado

Na rádio, Hillary St.Georges
entoa uma ária do  “Rigolleto”.

O meu pai morreu com um livro de Tchekov
sobre a mesa-de-cabeceira
onde um lenço e uma tesoura de unhas
aguardavam o último arranco

O meu tio, que me ensinou a espirrar
- fazia-o sem ruído, como um velho soldado –
morreu também
e a prima que me acalentara as manhãs de domingo
foi também desta para melhor. E agora

Olho ao longe o pequeno subúrbio
a minha casa antiga está entre outras
Será a que inicia a rua frente à estrada
a segunda, a terceira? Não creio que seja a de portas
azuis, com um pezinho a condizer, ou aqueloutra
um pouco fanada, com uma motocicleta junto ao muro.

A mãe, pobre dela, ausentou-se
vive agora num bairro periférico
e a sua memória flutua
“Filho, lembras-te da figueira?”
“Meu rapaz, recordas-te do perdigueiro castanho?”

E é só a isto que chega
enovelando rostos, quando muito uma expressão
das vizinhas que iam ao baile.

Por isso
sou já um pouco como aqueles velhotes relampados
de sapato engraxado, estralejante
comendo bolos-de-rei com um cafézinho
na “roulotte” de comes-e-bebes
perto do andar que hoje habito. Tenho já
como eles

a pupila funda
a garganta presa
o braço anguloso
de quem foi desapossado de algo que era perene

e agora é a fome da terra   uma linguagem secreta.

                      




COMMOTION DE NOËL

Je suis un espion plus que parfait
mes yeux mes mains ma silhouette
tout ce que j'ai appris tout ce que j'ai oublié
tout ce que j'ai vu Seigneur après votre décès
même les cuillères de bois et l'assiette brute
du dîner
au commencement de la nuit
même les chaussettes avec des trous de mon cousin
même la chemise en lambeaux de mon père
et les joyeux yeux tristes de ma mère
et ce qui nous achetons sans le paiement
et sans un dieu lui paye

Tout cela je garde dans mon coeur.

Dans les nuits les jours de mon adolescence
quand je m'asseyais à méditer
dans la roche peinte de blanc
au moyen du potager de la petite Armandine
qui m'offrait des marrons cuits quand c'était l'automne
et nettoyait mon front avec un mouchoir de lin
en regardant ma sueur de sang.

Tout cela est mon trésor
pour vous cher Monsieur pour vos anges
pour vos assistants dans la forêt céleste
pour les notaires de votre auguste Père
sans oublier le petit que vous avez été
et même le mendiant qui vous a aidé
à monter sur le petit âne
qu'il vous a transporté jusqu' à la porte Suse
ce jour lá de Pâques.

Ainsi, Seigneur, pardonne moi
mes défauts
mes brusques joies
mes étranges silences

et  tous les poèmes que j'ai seulement pensé.


Jules Morot


POUR O.HENRY

Dans son esprit s'est faite lumière
et il a tapoter par centaines le grisbi

Son bouton de gilet ne lui servait pour rien de plus
et dans sa cellule il l'a regardé attentivement
il s'a donné à ce travail
en l’érigeant entre deux doigts 
l'indicateur et le gros pouce

Sa femme l'a cousu à l’époque ancienne
un heureux après midi de bourbon et de sacrés bécots

Il se méfie  se méfie et pourtant
beaucoup est resté pour décider
peut-être des diamants   des horloges des chaînes d'or
mais rien ne l'intéressait déjà   il a eu nécessité
de madrigaux et de quelques monnaies sonnantes
Et tout a été simplement de cette jolie manière.

Nous avons besoin de bien plus de choses
nous   leurs vieux compagnons de promenades
par des villages bruyants
de bien de plus nous avons besoin
mais c'est surement au cours
des temps sans date marquée.

L'amour l'amitié flagrants délits de jeunesse
de bien de plus nous avons besoin
et le monde arrive et apporte
seulement du cotton sordide dans les poches.


(Em linha no TRIPLOV, no UN SOIR UN TRAIN e no AU TOUR DE MA CHAMBRE)

    Cordialmente, desejando-vos um excelente período carnavalesco (...é claro que não me refiro ao ambiente político mas ao Carnaval ele-mesmo!) aqui ficam, com a proverbial estima.

Nota: as fotografias foram obtidas em www.revista.agulha.nom.br