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quinta-feira, 7 de agosto de 2014

A tradição ainda é o que era




Por isso, mais uma vez deixo que Alberto Gonçalves fale por mim.


Um verão português


Para um país cuja actualidade é tão pateta durante o ano inteiro, seria de esperar que a silly season portuguesa não se distinguisse das temporadas restantes. Gloriosamente, distingue-se: o nosso Verão consegue elevar o ridículo a níveis desconhecidos para cá da Venezuela, onde "um passarinho" acaba de contar ao Presidente Maduro que Hugo Chávez - o "grande profeta" - se sente "feliz".

Ele é a passagem à "clandestinidade revolucionária" do Partido da Nova Democracia na Madeira, embora que se saiba ninguém, incluindo os cidadãos com direito de voto, persiga a referida agremiação. Ele é a "praia urbana" no centro de Lisboa. Ele é a "pipa de massa", o termo técnico utilizado por Durão Barroso para explicar a próxima vaga de fundos europeus. Ele é o "génio do Euromilhões" que descobriu que a multiplicação das apostas aumenta a probabilidade de sucesso e nem assim arranja 500 euros para ir aos EUA apresentar a boa-nova. E ele é o presidente de uma Federação Portuguesa de Cicloturismo, que quer os automobilistas a pagar os acidentes provocados pelos ciclistas (ou apenas os acidentes de autoria duvidosa, as notícias não são claras).


O caso do senhor José Caetano merece atenção redobrada. Segundo este repentino herói da classe operária, quem anda de bicicleta fá-lo por falta de dinheiro para um carro, um passe social ou, lá está, um vulgar seguro de responsabilidade civil (cerca de 25 euros, pelas minhas pesquisas). Como é que semelhante desgraçado foi capaz de comprar uma bicicleta é mistério que me escapa. Mas essa não é a questão levantada pelo senhor José Caetano. A questão é a necessidade de constatar com urgência que todos os condutores de automóveis são uns nababos arrogantes e empenhados em estraçalhar os sucessores de Eddy Merckx que se lhes atravessem à frente. A questão é a presunção da inocência dos que têm menos, ou dos que aparentam ter menos.

Razão tinha Enver Hoxha, que por via das dúvidas pôs os albaneses em peso a pedais. Na falta de regime tão justo, Portugal debate-se com os ressentimentos decorrentes da desigualdade, os quais levam o milionário do Hyundai a maltratar o pobre que sprinta na contramão e, para cúmulo, a exigir o arranjo do pára-choques. No fundo, é a lengalenga do Brecht, do rio e das margens revisitada. E é a luta de classes em versão Código da Estrada. Certo, certo é que as massas se agitam e a revolução não tarda. Só se atrasou um bocadinho porque de bicicleta as massas demoram a chegar.




"Gays" pela Palestina: a sério?


Três mil pessoas protestaram junto à embaixada de Israel contra a "ocupação sionista", o "massacre da Palestina", o "genocídio de Gaza" e o "estado terrorista" que "mata mulheres e crianças".

Curioso. Haverá em Lisboa dezenas de embaixadas de regimes de facto terroristas que ocupam ilegalmente territórios, praticam massacres e arremedos de genocídio e assassinam mulheres e crianças. Porém, nunca nenhum desses edifícios é incomodado com aglomerações de ociosos aos gritos. À primeira vista, ou os indignados profissionais só se preocupam com as vítimas árabes ou com os "crimes" israelitas. À segunda vista, fica claro que, como as matanças de sírios, líbios ou palestinianos "dissidentes" não merecem um resmungo, o problema é apenas com Israel. Deixo à imaginação, ou às recorrências da história, a tarefa de perceber porquê.


Mas não falemos de coisas tristes. Na manifestação em causa, além dos lencinhos fedayin e geral parafernália típica destas pândegas, exibiu-se pelo menos um sujeito com a bandeira do arco-íris, marca do "orgulho gay". Não imagino nada tão peculiar quanto a defesa do Hamas através de um símbolo que o Hamas pune com prisão, tortura e, quando calha, execução. Já que os indignados profissionais gostam de comparar a invasão de Gaza ao Holocausto, seria o mesmo que um apoiante de Hitler ostentar a estrela de David nos comícios do Deutschlandhalle. Seria, não: é.


segunda-feira, 28 de julho de 2014

E aqui ficam mais 2...




... deste conjunto de 4 crónicas de Alberto Gonçalves:



Língua geográfica


Em Díli, Cavaco Silva garantiu que a CPLP se define através da língua e dos direitos humanos. Nem de propósito, a CPLP estendeu-se à Guiné Equatorial, onde a democracia é conceito discutível e onde se fala castelhano e dialectos. Mesmo no site do Governo local o anúncio da adesão foi feito apenas em espanhol, inglês e francês. Parece que o petróleo - e as pressões de Brasil e Angola - pesou nesta história. É a economia, estúpidos? Se calhar é, o que significa que pela primeira vez após anos de lirismo em redor das descobertas a CPLP descobriu uma razão de existir: a conversa da "projecção do português" era muito linda para juntar em cimeiras sujeitos que gostam de se juntar em cimeiras. Mas só.

Por pueril que soe dizê-lo em 2014, nem uma língua se "projecta" nem o seu peso depende de decisões políticas. O inglês não se tornou a língua franca dos nossos dias por decreto, e sim por causa da televisão e do cinema americanos, da música popular anglo-saxónica e da concentração das grandes empresas de informática na costa oeste dos EUA, que levam um fedelho a fazer search, download e convert antes de aprender a escrever "o popó da titi". Adicione-se, para os eruditos, o domínio do cânone literário contemporâneo, de Dickens ao "assimilado" Nabokov, de Fitzgerald a Bellow, e tem-se tudo aquilo que o português não tem e não terá. A pertinência dos escritores não aumenta ao enfiá-los no Panteão.


É grave? É assim. Os alemães, que em certo sentido (e apenas em certo sentido) possuem uma língua mais "restrita" do que a nossa, não se queixam. Os escandinavos, que comunicam em código cifrado, também não. E, coitados, vão vivendo, ao contrário dos guardiões oficiosos do português, que sofrem brutalmente com a respectiva insignificância. Em Setembro decorrerá em Brasília o Simpósio Linguístico-Ortográfico da Língua. O presidente da Academia de Letras lá do sítio publicou há dias um texto alusivo. O texto está repleto de locuções de sacristia e de erros primários, que ainda ninguém corrigiu. Em lugar de "projectar" o português, talvez fosse preferível escondê-lo.


Juventude inquieta



Com a excitação motivada pelos erros ortográficos de uma deputada socialista num texto do Facebook, ninguém reparou na publicação, já lá vão uns tempos, do novo romance de outra deputada socialista. Ninguém, ou quase ninguém, que o atento blogue Malomil fez há dias a indispensável recensão crítica de Apátrida, a obra com que Isabel Moreira demonstra aos escassos cépticos restantes que um assento parlamentar não só não é incompatível com o QI de Forest Gump como tal QI parece ser critério de admissão.

(imagem retirada de http://malomil.blogspot.pt)

Sobre o conteúdo de Apátrida, encaminho os curiosos para o blogue citado, acrescentando apenas que não consumo produtos alegadamente literários que incluam pérolas como: "unilateralidade sem dolo", "esmurra o vomitado nas casas de banho" e "fumei três ganzas e bebi uma garrafa de vinho tinto", embora a combinação de estupefacientes com o álcool justifique plenamente que se escreva assim. A mera frase "deus a mijar-se de medo pelas pernas abaixo" (limito as citações às transcritas no Malomil) resume a essência da coisa: uma adolescente com corpo de adulta e cérebro de criança convence-se de que, se enfileirar muitas letrinhas num ecrã de computador, obtém algo similar a um pequeno livro. Se encher o livro com o tipo de patetices usadas pelos petizes para maçar os parentes, consagra-se junto de 12 semianalfabetos como autora "irreverente". Há imensos irreverentes do género por aí, com sorte enclausurados nas EB 2/3. Com azar, habitam os auditórios das Fnac e o Parlamento. Antes de escrever livros, a Dra. Isabel devia experimentar ler pelo menos um.

domingo, 20 de julho de 2014

Das aventuras do Pato Donald







António, um rapaz de Lisboa





A cada semana, António Costa revoluciona a ciência económica. Primeiro foi a tese de que a riqueza é preferível à austeridade, inovadora aplicação na macroeconomia do princípio de Maria Antonieta. Depois, descobriu que o problema não é o excesso de licenciados, mas a falta de empregos para licenciados (criam-se os empregos e a chatice fica resolvida). Agora, explicou a uma embevecida plateia de sindicalistas que "não há crescimento sustentável com endividamento, mas também não há crescimento sustentável com empobrecimento", sentença que se comenta sozinha.

Se não se aproximassem as férias, o Dr. Costa ainda estaria a tempo de dizer que: 1) o investimento público é melhor do que o privado excepto nos casos em que o investimento privado é melhor do que o público; 2) o Estado social é sustentável desde que saia baratinho aos cidadãos; 3) Portugal não deve sair do euro enquanto os euros entrarem em Portugal; 4) pelo menos na perspectiva dos destinatários, os salários altos são preferíveis aos salários baixos; 5) o Pato Donald é um boneco.

Brincadeiras à parte, o que é isto? Não é de agora que Portugal não se pode queixar em matéria de produção de políticos absurdos. Mas entre as nulidades sem uma ideia na cabeça e o Dr. Costa, em cuja cabeça fervilham centenas de ideias desconchavadas, vai uma diferença considerável. Já nem falo da tentativa de vender o homem a título de salvador da pátria: falo do homem propriamente dito e da deprimente comparação com aqueles a quem sonha suceder. Ao pé do Dr. Costa, Passos Coelho passa por um modelo de estadista, Sócrates por um sujeito quase ponderado, Santana por um governante responsável, Barroso por um gigante do pensamento, Guterres por um paradigma da racionalidade financeira e Cavaco, ele sim, pelo salvador da pátria que nunca foi. Perante o Dr. Costa, até o jovem António José Seguro parece habitar o mesmo planeta que os restantes mortais.

Em suma, o Dr. Costa é um embaraço ambulante. Logo, provavelmente será depois do Verão o líder do PS e, se os amigos o mantiverem calado entretanto, hipotético primeiro-ministro no ano que vem. Um pessimista vê à distância e, na lógica do "depois de mim virá", tende a imaginar que espécie de calamidade pode aparecer ao País após o Dr. Costa. Um optimista desconfia que, após o Dr. Costa, é improvável haver País.



O BE que fica e o BE que parte




Em geral, tendemos a pensar no Bloco de Esquerda enquanto uma agremiação divertida. Dispõe bem contemplar à distância os movimentos de grupos, subgrupos e facções de um único indivíduo que diariamente abandonam esse partido moribundo a caminho do PS e das carreiras com que o PS, sobretudo o PS do Dr. Costa, lhes acena. O facto de todos os fugitivos se desculparem com a necessidade de "contribuir para convergências à esquerda" torna a brincadeira hilariante. O pormenor de todos se esconderem atrás de siglas, organizações, princípios e estatutos solenes eleva a brincadeira ao nível da grande comédia.

Ocasionalmente, porém, um pedacinho da realidade irrompe para nos lembrar da natureza do BE, e de que esta não é só galhofa. O Médio Oriente, por exemplo. Bastou Israel reagir aos constantes ataques sofridos a partir de Gaza para o BE vir falar em "banho de sangue" e propor as sanções económicas do costume. E o costume inclui o desprezo do BE face a um Estado civilizado e a simpatia pela barbárie mais à mão. O costume é o BE negar as "causas" que lhe valeram 15 minutos de fama em favor do seu exacto reverso.

O ódio aos ricos? Os líderes de Gaza passeiam-se em aviões de luxo e apascentam fortunas em contas offshore. Os direitos LGBT? Em Gaza a homossexualidade é punida por lei e os seus praticantes fogem da tortura rumo a uma certa nação vizinha. A igualdade de género? A islamização do território reduz as mulheres a um pechisbeque silencioso e reprodutivo. A violência doméstica? Calcula-se que mais de metade das mulheres locais seja espancada pelos maridos pelo menos uma vez por ano - tradicional e recatadamente. E há as restrições às artes e à internet. O racismo oficial. A imposição violenta da "virtude". As conversões forçadas de cristãos. E, numa prática que o BE lamentará não se usar por cá, o fuzilamento de dissidentes.

Sob o verniz da trupe burlesca e as mesuras progressistas para consumo dos simples, o BE, o que parte e o que resta, é essencialmente isto: criaturas avessas à democracia que usam o sistema democrático para ganhar a vida. Darmo-nos ao trabalho de as distinguir é tão inútil quanto perguntar-lhes porque é que a indignação que Gaza lhes suscita não se estende à Síria ou ao Egipto. Ou porque é que só nas recentes implosões eleitorais descobriram intolerante um partido que nunca foi outra coisa. Ou porque é que, em suma, se confere relevância pública a declarados ou dissimulados inimigos do público.



Um mundo de fantasia




Desde os 10 ou 11 anos que não leio banda desenhada, incluindo aquelas de super-heróis. Se lesse, não as reconheceria. Ao que consta, Thor (o semideus escandinavo com martelo de São João) é agora uma mulher. E o Capitão América vai ser preto, perdão, afro-americano. Mas, informam os autores da mudança, não será um afro-americano qualquer, e sim "um homem moderno em contacto com os problemas do século XXI". Isto é, o novo Capitão América "terá uma maior empatia com os mais desprivilegiados" já que, cito, "foi assistente social". Apetecia-me deixar um comentário sobre a terminal idiotia do nosso tempo. Porém, enquanto o Homem-Aranha não for "transgénero" e Hulk não acumular as aventuras com a presidência de um observatório, julgo ainda haver esperança.


terça-feira, 15 de julho de 2014

Portugal por...






Contracultura

Não vou mentir: houve um momento em que quase duvidei da capacidade de António Costa para regenerar o País. A culpa não é minha. Sucede apenas que, de tanto se habituar a políticos medíocres, uma pessoa sente dificuldade em distinguir a grandeza à primeira vista. Porém, à segunda não falha.

A minha epifania com o Dr. Costa aconteceu no dia em que li o manifesto "A Cultura apoia António Costa", e reforçou-se no dia em que o Dr. Costa se reuniu com "centenas de intelectuais" disposto a demolir convenções caducas. Em situação de crise, o populista comum falaria do desemprego e prometeria trabalho, falaria da dívida e prometeria crescimento, falaria dos pobres e prometeria compaixão. E melhor saúde e justiça mais equitativa, e educação mais capaz. O Dr. Costa ignorou estas palermices, foi directo ao que de facto importa e prometeu um Ministério da Cultura. A casa, no caso o Mercado da Ribeira, em Lisboa, veio abaixo - felizmente em sentido figurado.

Confesso que me rendi naquele momento. Não faz sentido pensar em distribuir benesses aos pobres ou à classe média sem antes assegurar que os intelectuais recebem a sua parte do bolo. Nas palavras, sempre belas, da escritora Lídia Jorge, "o sector cultural é um pulmão do corpo social", e ninguém de boa-fé deseja que Portugal sufoque. De que serviria uma economia pujante (as pernas da sociedade) ou o equilíbrio das contas públicas (os cotovelos) se a Cultura, com gigantesco C, agoniza com enfisema por falta de intervenção estatal? Dito de outra maneira, de que nos vale uma nação próspera em que a dona Lídia carece dos estímulos necessários à respectiva obra?

E quem diz a dona Lídia diz qualquer um dos intelectuais empenhados em consagrar o Dr. Costa, os quais, por definição, sabem aquilo que nos convém a todos. Se Virgílio Castelo recomenda o Dr. Costa, para mim chega. E se Luís Represas também o faz, para mim sobra. Eu quero estar onde estão Paco Bandeira e Tomás Taveira, Io Apolloni e Maria do Céu Guerra, Nicolau Breyner e Isabel Alçada, o Sr. Júlio do cavaquinho e António Mega Ferreira, Diogo Infante e Júlio Pomar. Por que carga de água duvidaria da superior percepção, face aos mortais, do realizador João Canijo e da fadista Mísia? Haverá alguém suficientemente burgesso para questionar o caminho apontado por Ana Zanatti e Alice Vieira?

Agora a sério. O ódio da "Cultura" à independência e à liberdade, passe a redundância, talvez não seja tão grande quanto o desprezo pela sociedade que diz ajudar a respirar. Ainda assim, não sei o que é pior, se a desmesurada presunção dos vultos citados, se a possibilidade de no eleitorado haver uma quantidade significativa de gente influenciável pelos vultos. Caso a haja, merece tudo de mau, incluindo a Cultura dos simples e o Dr. Costa.


O regresso das caravelas

Antes do jogo do Brasil com a Alemanha, um colunista do jornal Globo acusou a Presidente indígena de usar o Mundial de futebol como indicador do sucesso do seu Governo. Não sei quem vive mais fora da realidade, se o colunista se a dona Dilma. Em matéria de "projecção" internacional, realizar um evento daquelas dimensões no Brasil foi uma ideia tão luminosa quanto fazer um filme promocional de Dresden em 1945. Ao começar por chamar a atenção para a bola, o Mundial acabou a chamar a atenção para o resto: a miséria, a violência, a repressão, o caos, o atraso, a corrupção e uma economia que, há um par de meses, o responsável de um banco dinamarquês considerou a pior entre as dezenas de países que visita anualmente.

Aparentemente, a ideia, típica dos populismos latinos e de dois ou três regimes do hemisfério norte, era a de que o êxito desportivo disfarçaria o desastre fora do desporto. Ao que consta, o Brasil levou com sete golos e cada um ajudou a realidade a aproximar-se da superfície: o campeão mundial dos fracassos (cito de novo o Sr. Steen Jakobsen) conquistou mais um triunfo. E, se reeleger uma criatura com o esclarecimento e a seriedade da dona Dilma, não ameaça perder o título nos próximos tempos. Os tumultos e as lágrimas posteriores à goleada sugerem que a realidade local, submersa em doses variáveis de ressentimento e sentimentalismo, continua a ser um mistério para os autóctones.

E para muitos estrangeiros também. Numa daquelas rajadas de inanidades que alegram o dia de qualquer um, o sociólogo Boaventura de Sousa Santos apareceu a explicar que a União Europeia "morreu com a crise grega" e que Portugal e a Europa devem procurar "alternativas, olhando para o Sul global". Ao cuidado dos que já desataram a rir, informo que o melhor ainda vem aí. Ei-lo: é urgente um "regresso das caravelas", com uma "política renovadora de conhecimento", em busca da "inovação e das experiências de luta e de resistência do Sul".

Traduzido em português menos alucinado: a Grécia (e Portugal) arruinou-se, logo há que encobrir as causas da ruína - em suma o excesso de estatismo, a inépcia e a trafulhice - e proclamar a falência do projecto europeu, que por sua vez abre as portas à aprendizagem com calamidades em forma de nação, do Brasil à Venezuela, da Bolívia ao Uruguai. Num ápice, os gregos (e os portugueses) ficariam com saudades da penúria vigente, mas sofreriam uma penúria terminal arquitectada pelo Dr. Boaventura, obviamente um consolo. No fundo, dado que o prestígio dos idiotas aumenta em função da desgraça alheia, trata-se de convencer os alcoólicos a acrescentar ao currículo os prazeres do jogo e da cocaína.

Em princípio, é improvável que um adulto diga estas coisas a sério. Sucede que, no Sul das "alternativas", milhões de adultos não só dizem coisas similares: pensam-nas e votam em conformidade. Não admira que o Sul desperte a inveja da Terra. E não admira que, numa prolongada vénia ao absurdo, o Dr. Boaventura arrisque um comentário sobre a selecção portuguesa, que acha "o espelho do País: sem soberania e sem aspirações". Miremo-nos, pois, no Brasil. As caravelas estão prontas?


O que é preciso é saudinha

Só um coração empedernido não se comoveria face à greve dos médicos, sempre a zelar pelo bem-estar dos utentes. No Telejornal, um utente particularmente felizardo explicava que fizera 70 quilómetros para uma consulta que, afinal, não houve. Como ele, muitos viram as consultas adiadas ou canceladas. Aos mais afortunados aconteceu o mesmo com as cirurgias.

Em Portugal, morrem por ano cerca de três mil pessoas por negligência médica ou, para usar um termo brando, por "evento adverso". A Deco calcula que 60% dos portugueses receiam ser vítimas de erros médicos e que 58% já se queixaram formalmente dos ditos. Não é preciso ser sobredotado para perceber que um simples dia de greve reduz em 1/365 semelhante flagelo, que um mês e pouco de greve reduziria o flagelo em 10% e que uma greve permanente e ininterrupta acabaria com o flagelo de vez.

Quando se acusa a classe médica de corporativismo, esquece-se que nenhuma outra corporação assumiria com tamanha frontalidade as próprias limitações e falhas. E quando os médicos dizem que a sua "luta" é em defesa da nossa saúde, não estão a brincar. Até porque, é sabido, com a saúde não se brinca.

segunda-feira, 23 de junho de 2014

Sobre a pátria do cão de Obama...





... mais três crónicas de Alberto Gonçalves:



O pensamento mágico

Após o heróico 0-4 com a Alemanha, as televisões foram naturalmente à cata de transeuntes frustrados. Encontraram imensos, cada um com a sua justificação para a derrota. Algures em Lisboa, à porta de um daqueles antros que congregavam os militantes do falecido BE, uma rapariga com ar de militante do falecido BE explicava que o pior nem era a goleada: era a goleada perante os alemães e, evidentemente, a sra. Merkel.

Apesar do profundo e até certo ponto indescritível absurdo da opinião, esta esteve longe de ser isolada e circunscrita ao Bairro Alto. Contaram-me que, na Sport TV, o ex-futebolista Carlos Manuel, com um sorriso onde em tempos medrava farto bigode, dissertava antes do jogo sobre a necessidade de vencer a chanceler alemã. O também funcionário da casa Pedro Henriques, que não conheço de lado nenhum e que é o único comentador televisivo que, no futebol e no resto, escapa ao ridículo, informou o sr. Manuel que a sra. Merkel trata de defender os interesses dos seus eleitores, e que teria sido preferível os nossos governantes destes 40 anos procederem de forma idêntica em vez de alimentar bodes expiatórios para a inépcia e a trafulhice.

Do que o País precisava era de um Pedro Henriques em cada esquina. Infelizmente, tal não se vislumbra possível, pelo que convém aceitar a realidade: muitos portugueses não aceitam a realidade. O tipo de cerebelo que julgava vingar as frustrações pátrias num jogo da bola é o mesmo que atribui a terceiros a responsabilidade pelos erros próprios. Por improvável que pareça, havia gente que ansiava por ver no relvado uma compensação face à "arrogância" da sra. Merkel. Sem surpresas, é a mesma gente que decidiu unilateralmente a obrigação da sra. Merkel em patrocinar-nos sem condições. Trata-se, sem tirar nem pôr, daquilo que os antropólogos designam por "pensamento mágico".

O pensamento mágico estabelece nexos de causalidade entre acções ou eventos independentes entre si. Imaginar que a queima de uma madeixa de cabelos implica que o seu antigo proprietário irrompa em chamas é igual a imaginar que um remate certeiro de Cristiano Ronaldo afectaria a economia alemã. Ou a imaginar que a prosperidade da economia alemã é que maldosamente impede o Estado indígena de gastar tudo o que gostaria. Estamos no reino, ou na república, do puro vudu, típico em sociedades primitivas e, pelos vistos, na portuguesa.

A má notícia é que o pensamento mágico é obviamente irrelevante para o mundo exterior. A boa notícia é que pode ser exercido com absoluta liberdade. Se o confronto em Salvador da Bahia não correu bem, nada impede a menina do BE de humilhar a Alemanha numa partida de poker com o Franz do InterRail, ou o ex-futebolista Carlos Manuel de exibir mestria nos dardos contra um retrato do ministro Schauble. Claro que o ideal seria um país capaz de escolher a racionalidade e lidar com as coisas como elas são. Mas isso já entra no domínio do sonho, e convém deixar o pensamento mágico aos especialistas.


O sexo e a idade

Uma Sociedade Portuguesa de Psicologia da Saúde realizou um estudo sobre a implementação da educação sexual nas escolas. Os resultados são dúbios. Por um lado, de acordo com o Jornal de Notícias, "os alunos do ensino secundário gostariam ainda de estar mais envolvidos nas atividades relativas à educação sexual nas escolas, manifestando disponibilidade para serem "mentores, em atividades informativas e formativas com colegas mais novos"". Por outro lado, os alunos em geral sentem-se desmotivados - sempre uma maçada nestas questões - e "criticaram a forma "idêntica e sem progressão" de apresentação" dos assuntos. Vamos por partes.

Desde logo, é bom sinal que os petizes mais crescidos pretendam ser "mentores" (um óbvio eufemismo) dos mais pequenitos no que toca ao sexo. Sempre indicia que a existência dos adolescentes contemporâneos não se esgota na PlayStation e no Facebook conforme se chegou a temer. Pelo menos alguns percebem que, em matéria de possibilidades reais, a Patrícia do 8.º G é preferível a Lara Croft.

Em contrapartida, talvez não se aconselhe ouvir as recomendações de crianças a propósito das disciplinas a sério. No caso da Educação Sexual, que não serve para nada, excepto para preencher horários e convencer pedagogos da sua própria modernidade, o problema não se põe. Mas imagine-se que se passa a ouvir os meninos e as meninas acerca dos conteúdos e dos processos de ensino em Matemática, Física e coisas assim: na perspectiva optimista, arrasa-se num ápice com o que resta da exigência educativa. Na perspectiva pessimista, essa exigência faleceu há muito, pelo que ouvir crianças, pais, tios, sindicatos, professores, tutelas ou os órgãos sociais da Associação Recreativa de Massarelos não faz diferença nenhuma.


A terceira via em "collants"

Ainda haverá alguém com vontade de rir das pantominices de "Tozé" Seguro? Bastou espevitar as ambições do dr. Costa para o ainda secretário-geral parecer, por comparação, um paradigma de sensatez. No início da sua caminhada triunfal rumo ao poder, o dr. Costa, que, segundo artigo biográfico no Público, praticou ballet com os "filhos de operários e de prostitutas", começou por adoptar o exacto vazio retórico do seu concorrente. A estratégia motivou, entre a escassa opinião publicada que não venera o antigo bailarino, acusações diversas, ou sobretudo a acusação de que, salvo pela tez de um e as sobrancelhas do outro, era impossível distinguir o dr. Costa do dr. Seguro.

Alarmado, o ex-colega dos filhos de operários e de prostitutas convocou o staff a fim de adoptar novo plano: se a emissão de vacuidades comuns não funcionava, havia que passar a emitir vacuidades absolutamente tresloucadas de modo a elevar-se acima da concorrência - ou, na pior das hipóteses, abaixo.

O primeiro fruto desta visão revisionista surgiu sob a forma de uma pérola de economia alternativa. De acordo com o dr. Costa, o primeiro-ministro "ou aumenta os impostos para aumentar a receita ou faz corte dos salários para baixar a despesa. Ora, nós não podemos viver neste quadro de opções tão limitado e temos que dizer ao primeiro-ministro que percebemos que ele não sabe sair dessa receita". Por felicidade, "há uma outra receita", "uma terceira via" que Passos Coelho "não sabe, nem quer aprender", mas há que "lhe ensinar": "aumentar a riqueza".

Repito, para que não restem dúvidas: num demi plié arrebatador, o dr. Costa propõe aumentar a riqueza. E é isto que distingue os eleitos. Enquanto a comum cavalgadura se debate com um cobertor que ora cobre a cabeça ora cobre os pés, os que desenvolveram o génio junto da descendência de proletários e marginais arranjam um cobertor maior. Desde a Maria Antonieta da lenda e dos brioches que não se via rasgo assim: para não sermos pelintras basta que sejamos milionários, evidência cujas aplicações são ilimitadas. O cidadão hesita entre a bicicleta e os transportes públicos? É melhor comprar um Mercedes. Férias em Tenerife ou no Algarve? Quinze dias no Sandpiper em Barbados. T0 em Campo de Ourique ou T2 no Cacém? T4 tangencial a Washington Square.

A continuar neste ritmo, o dr. Costa já não irá a tempo de ensinar a terceira via ao pobre dr. Passos Coelho. Mas arrisca-se a conquistar a chefia do PS, a liderança do Governo, um ou dois Nobel e um lugar de solista no Bolshoi.

sexta-feira, 13 de junho de 2014

Do país da rataria...




... escrevia assim Alberto Gonçalves no passado domingo, no DN:


Um país à escala do Rato

Uma história engraçada a correr por aí é a do medo que António Costa suscita na direita. Em primeiro lugar, não sei o que se entende por "direita", se os partidos no Governo ou se as pessoas que não apreciam um Estado intrometido e salteador (ambas as instâncias parecem-me algo incompatíveis). Em segundo lugar, garantiram-me que uma sondagem "interna" coloca o portentoso "carisma" do Dr. Costa um ou dois pontos percentuais acima do pobre rival nos gostos do eleitorado em geral. Por conveniência, admitamos que PSD e CDS andam assustadíssimos e que as facções empenhadas em enxotar o Dr. Seguro têm razão.

Ainda assim, não é esse o ponto. O ponto é a tese que resume os apetites dos insurgentes no PS: trocar o líder A pelo líder B é vital na medida em que A não é capaz de devolver os socialistas ao poder (ou o poder ao partido) e B talvez o faça. Pelo menos a franqueza é louvável. Claro que todos os partidos actuam em benefício daquilo que os coloca próximos do mando, mas costumam disfarçar a cobiça sob o simulacro de um debate interno e vagamente ideológico. O PS do Dr. Costa, ou que se serve do Dr. Costa, não disfarça. Ali não existe a menor intenção de distinguir o pensamento do autarca lisboeta do pensamento do secretário-geral, tarefa de resto impossível na medida em que nunca qualquer deles revelou possuir semelhante excentricidade. B é preferível a A porque sim.


Marx, o bom e velho Groucho, esclarecia: estas são as minhas convicções; se não gostarem, arranjo outras. No PS não há convicções nenhumas, excepto a certeza de que se está mais confortável a decidir orçamentos do que a votar contra eles, a satisfazer clientelas do que a pedir-lhes paciência, a afundar a economia do que a acusar Pedro Passos Coelho do mesmo. Não ocorre aos socialistas que à margem das intrigas há alguns milhões de cidadãos, certamente cansados de austeridade e provavelmente abismados com o brutal egoísmo dos que lhe prometem o fim da austeridade. Em suma, discute-se o melhor para o PS como se se discutisse o melhor para o País. Por acaso, e por norma, costuma funcionar ao contrário. Nesse sentido, e só nesse, o Dr. Costa mete medo.

domingo, 23 de março de 2014

A geração dos 70...







A ternura dos setenta


Não é novidade que o Governo apenas pareça sofrível por comparação com a empenhada toleima da oposição, mas não convém exagerar. Pôr o sr. Marco António às vezes Costa a reagir aos manifestos pela "reestruturação" da dívida - o indígena e o estrangeiro - já é forçar a nota.

Não sei se devido ao assombroso currículo do cavalheiro, se devido à respectiva envergadura (moral), ou se devido à convicção geral de que daquela cabecinha nunca sairá nada vagamente semelhante a um pensamento aproveitável, a verdade é que ver o sr. Marco António às vezes Costa refutar as críticas à governação do País não difere muito de promover o treinador Jorge Jesus a crítico literário. Por algum motivo, ou por inúmeros motivos, há a tendência para suspeitarmos que, quando o Governo de Portugal se deixa representar pelo sr. Marco António às vezes Costa, o Governo é uma anedota e Portugal está perdido. O sr. Marco António às vezes Costa quase inverte a ordem natural e, por contraste, transforma os opositores em gente ponderada e responsável. A sorte do Governo é que depois os opositores contra-atacam e devolvem a harmonia ao universo.

Atente-se, por exemplo e se não for pedir demasiado, em João Cravinho. O promotor do manifesto caseiro considera que o manifesto não caseiro "revela", cito, "que o que dizemos não é nenhum disparate". Tamanha franqueza comove. Sem o notar, o dr. Cravinho admite que a opinião dele e das outras 69 alminhas subscritoras do panfleto nacional importa pouco - pelo menos até que 70 e tal economistas "internacionais" assinem um panfleto a corroborá-la.

Nem vale a pena perder tempo com a evidência de que não custaria encontrar 70 ou 700 economistas de gabarito mundial capazes de ridicularizar o manifesto do dr. Cravinho. Se nas ciências exactas o consenso já é precário, nas artes de prestidigitação como a Economia, o consenso é por definição absurdo. Porém, o que aqui salta à vista é a ancestral submissão ao juízo de valor que chega de além-fronteiras: temos razão na medida em que "lá fora" nos dão razão.

Trata-se de um pequeno tique, infelizmente com consequências de gravidade diversa. Uma coisa é convencermo-nos de que precisamos de um Teatro Nacional porque "lá fora" existem teatros nacionais. Coisa diferente é acreditar no carácter essencial do "investimento" público porque "lá fora" é assim, na imortalidade do Estado "social" porque "lá fora" é assim ou, conforme o dr. Cravinho se lembrará, no sucesso das PPP porque "lá fora" as PPP são assado. E acreditar na "reestruturação" da dívida porque o sucesso do precedente grego salta à vista.

Brincadeiras à parte, o facto é que o Governo, coitado, tem vindo a renegociar a dívida dentro do possível e do aceitável pelos credores. O que os campeões da "reestruturação" pretendem é algo assaz diferente: um milagre que nos dispense de reformas, obrigações e maçadas afins. Um Estado irreformável e intocável. No fim de contas, uma falência colectiva apesar de tudo sem grandes precedentes locais. No fundo, é isto, embora isto soasse mais convincente se não fosse o sr. Marco António às vezes Costa a dizê-lo.


Decretar a prosperidade

Há pouco tivemos o manifesto pela "reestruturação" da dívida. Agora temos o BE, o PCP e o relevantíssimo pingente chamado PEV a pedir que as eleições europeias constituam um voto de protesto contra a austeridade. Sendo partidos parlamentares e pouco admiradores da democracia, não sei o que os leva a esperar pela decisão popular, inevitavelmente incerta e ambígua: a extrema-esquerda podia muito bem cortar caminho e submeter o voto de protesto à Assembleia da República. Com alguma sorte, e a abstenção ou a distracção de meia dúzia de deputados da maioria, talvez se conseguisse proibir a austeridade mediante decreto.

Aliás, é difícil perceber porque é que a austeridade, e não só a austeridade, ainda não foi abolida. Uma nação tão virtuosa e legalista já devia ter interditado por lei a austeridade, a dívida, o défice, a crise, a sra. Merkel, o FMI, a gripe sazonal e a família Carreira. Em contrapartida, urge considerar obrigatório: a felicidade; o salário médio luxemburguês; o crédito externo sem juros nem prestações; a solidariedade europeia; o direito às trufas; o Mercedes; o spa no jardim de casa; o jardim de casa; a casa e a abundância em geral.

É verdade que a Constituição já não anda longe de semelhantes desígnios, mas carece de uma ou duas revisões para consagrá--los. Excepto a realidade, o que nos impede?


A miséria

Não costumo alongar-me nas citações. E certamente não costumo alongar-me nas citações de José Sócrates. Mas corre pelos blogues liberais (não são muitos) um pequeno e esclarecedor vídeo extraído do debate entre o ex-secretário-geral do PS e o ex--chefe do Bloco de Esquerda durante a campanha eleitoral de 2011. O debate é moderado por Clara de Sousa. A certa altura, o eng. Sócrates propõe-se esmiuçar um tema hoje relativamente em voga:

"- Vamos ao essencial da sua proposta: o que é que Francisco Louçã propõe para resolvermos o problema? Diz assim: vamos reestruturar a dívida. O que é que significa reestruturar a dívida? Reestruturar a dívida é um termo técnico. Isto significa não pagar parte da nossa dívida.

- Isso seria trágico para Portugal, eng. José Sócrates?
- Absolutamente trágico!
- Quais eram as consequências para o País?
- Vou responder. Isso significa calote aos credores. Isso significaria, em primeiro lugar, Portugal passar imediatamente a fazer parte do lote de países que não cumprem, da lista negra. Isso significaria desde logo o colapso do sistema financeiro, porque nenhum dos nossos bancos, nenhuma das nossas grandes empresas se poderia, digamos assim, financiar. E isso teria consequências gravíssimas na nossa economia, nas empresas e nos trabalhadores. Pagaríamos isso com desemprego, com falências e com miséria, Francisco Louçã. É por isso que essa proposta é absolutamente irresponsável."

Por irresponsável que também tenha sido a governação do eng. Sócrates, houve momentos em que, por comparação com os delírios dos partidos comunistas, o homem passava por um estadista sensato (principalmente se esquecermos que a dívida em questão fora, em larga medida, criada por ele). Este é um desses momentos, por um lado abonatório para o antigo primeiro-ministro, por outro desanimador para Portugal, cujas alegadas elites, alegadamente de todas as cores políticas, exigem agora de modo oficioso a reestruturação da dívida, leia-se o tal calote, o tal colapso e a tal miséria.

Ou seja, à esquerda, à direita e ao centro, hoje existe pior do que o eng. Sócrates, incluindo o próprio, que um destes dias se declarou de acordo com o célebre manifesto dos 70, logo em desacordo consigo após meros 3 anos. Por cá, o pessimismo é uma aposta segura.

terça-feira, 25 de fevereiro de 2014

"Adeus tristeza"


(imagem obtida aqui)


Com "uma guitarra na mão", Fernando Tordo emigrou para o Brasil. Até aqui, descontada a louvável tolerância da TAP na bagagem de cabina, nada de especial: embora por regra mais jovens, muitos portugueses também emigram e, se atendermos à história, sempre emigraram. A circunstância de se tratar de um cantor e compositor popular não torna o gesto de Fernando Tordo diferente do gesto de tantos enfermeiros, biólogos e serralheiros, mesmo que estes raramente mereçam reportagens televisivas. É típico dos países pobres que as pessoas sem trabalho, ou com trabalho mal remunerado ou, como se afirmou no caso, com reformas pequeninas, procurem uma vida melhor. A culpa? É de todos e não é de ninguém, se me permitem o cliché. Não vale a pena apontar o dedo a quem votou no Governo da "austeridade". Nem a quem votou nos governos que forçaram a "austeridade". Por muito que nos custe, a "austeridade" é o nosso valor facial, o melhor que conseguimos se nos deixarem entregues a nós próprios e aos "fundos" e "tranches" que continuam a cair por aí. Sem os "fundos" e as "tranches", o valor facial será ainda menor. E, salvo um milagre, a "austeridade" maior.

Fujo do assunto. O interessante na partida de Fernando Tordo começa no pormenor de ele a ter anunciado no Facebook, em texto cheio de pretenso entusiasmo que as lamúrias em entrevistas posteriores (sim, teve direito a entrevistas) comprometeram. O interesse cresce quando o filho de Fernando Tordo publica no seu Facebook uma "carta-aberta" e terna ao seu pai, lamentando o ódio nas "caixas" de comentários online (ai, ai, que haveria imenso a dizer sobre o ódio nas "caixas" de comentários online). Por fim, a coisa atinge o sublime no momento em que Fernando Tordo responde ao filho - adivinhem - através de "carta-aberta" no Facebook.

Em suma, a internet é um refúgio de mal-intencionados, por isso vamos lá trocar intimidades na internet que as chamadas telefónicas estão pela hora da morte e os e-mails "fechados" não suscitam notícias de rodapé. À primeira vista, o maior problema da família Tordo não é a falta de dinheiro: é a falta de noção de privacidade, a falta de noção da sua insignificância. O problema da família Tordo é, afinal, o problema de incontáveis artistas caseiros, com e sem aspas: a lata. Dado que Fernando Tordo gosta de "cartas-abertas", cá segue outra.

Caro senhor (que não tenho o prazer de conhecer), emigrar não é um drama obrigatório. É uma decisão pessoal que, por definição, convém mantê-la assim ou limitá-la a círculos restritos. E se não é proibido espalhá-la aos ventos, é ridículo apresentarmo-nos ao público enquanto exemplo de sofrimento. Principalmente se o sofrimento é bastante relativo. É que também não é proibido que o público ache o exercício pretensioso e responda em conformidade. Além disso, já se sabe que quem abusa do acesso aos media arrisca-se a levar com os media em cima. Era escusado provocar a manchete do jornal i, que divulgou os 200 mil euros amealhados desde 2008 pela empresa que o senhor possui - só em concertos encomendados pelo Estado, com as autarquias à cabeça. Para quem se queixa dos "agentes públicos que desprezam as Artes (com maiúscula)", não está mal. Para quem insiste na relevância da Arte que produz, está péssimo: não haverá multidões ansiosas por encher auditórios de modo a assistir, sem patrocínios camarários, à enésima interpretação de Tourada? Pelos vistos, não. Por isso, o senhor rumou ao Brasil, onde decerto o aguardavam impacientes. E, ao que li, regressa em Abril. O senhor é um emigrante breve, mas o tempo que nos rouba já vai longo.

Adenda (26-02-2014) - Um esclarecimento de Fernando Tordo.