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sexta-feira, 11 de outubro de 2013

ASSIM QUE PASSEM 3 MESES…




  A grande delícia, que é também a grande aventura de leitores encartados, é apanharem-se belos livros ao preço da uva mijona.

  Nem precisam de ser primeiras edições, que isso é apenas um quitute mais neste esforço glorioso de se mercarem, mediante quantias modestas, exemplares que nos saciem esta paixão relativamente douda de se terem obras amoráveis de autores que sabem como se ergue um mundo muito próprio e que nos verdadeiros casos de alto talento ou de génio não precisam de encómios dos habituais fogueteiros da crítica que se esfalfam para fazer fins de meses ou de se auto-elevarem através das qualidades dos outros.




 Creio que me faço entender. Ou seja, já me perceberam na perfeição...

 E não falo desses livros produzidos por cavalheiros/as que os obraram para uma dúzia de anos de imortalidade (ou mais ou menos), mas de obras realmente poderosas, suscitadoras e únicas, onde se sente o frémito que Samuel Pepys dizia exalar-se das obras-primas.

  Eu, com os livros recebedores de Nobel, tenho tido experiências muito positivas.





Pecuniariamente falando.

Sabem como faço? Como é o meu procedimento ?

Pois é simples!

Tenho calma. Aguardo pacientemente como o chinês da estorinha exemplar.

Sento-me, salvo seja, aos portões dos espaços de leilões. Vou fumando uns cigarritos, deitando a terra umas cervejolas, olhando a paisagem ensolarada ou contemplando o vasto céu nocturno. E enquanto trato da saúde a umas bejecas e despacho uns paivantes, sinto-me assim como aquele filósofo que contemplava o imutável mundo com um sorriso nos lábios.

  Fico nisto uns três quatro meses.




 E a pouco e pouco ei-los que começam a chegar: uns bem estimadinhos, outros com algumas dobritas, uns vincos de cansaço – que, todavia, não lhe afectam o miolo…a substância folhosa.

  Passada a novidade – engordada no anúncio na santa tv ou no florete do conspícuo jornal literário cá da s’nhora pátria – degustada a novidade (salvas as naturais excepções dos mangas que os lêem a valer e os guardam por real amor à escrita), os tomos, como guerreiros que já cumpriram o seu dever, entram nesse limbo que são os interactivos espaços de leilões, com os seus “licitação, tanto” e “compre já, tanto”.

  E como um guerreiro comanche ou um zulu, ali estou eu (como outros da mesma bitola) à espreita.

   Em suma: da malta nobelizada (com excepção da saramagal figura, que dessa qu’é que querem, não gasto) tenho apanhado quase tudo.

  Daí que, para esta excelente Alice Munro deste ano, me pareça que lá para fevereiro março irá cantar nas minhas estantes, na minha banca-de-cabeceira, uma resmazita mui aprazível. Mercada a preçozinho convidativo.

  Como os pescadores e os caçadores de tocaia, já aprontei o meu espingardum simbólico.




  Alice, grande senhora canadiana habitante desses lugares que me foram tão acolhedores nas duas vezes que visitei o Ontário, cá a espero no fim do Inverno ou no começo da Primavera.


Evohé!

sexta-feira, 28 de junho de 2013

A AURORA BOREAL DAS “DEMOCRACIAS FELIZES” ou DE COMO O ESCRITOR TEM RAZÃO ANTES DO TEMPO





A PROPÓSITO DE “EXTERMÍNIO NO 31º ANDAR”, DE PETER WAHLÖÖ


  Sem comentários – para quê? – aqui fica o texto que dei a lume em páginas culturais do Brasil, de França e de Portugal em 2007/2009.
  O livro, por seu turno, foi escrito em 1964 (‼!) e publicado entre nós em 1990.
 …e é assim que se faz a Estória. E a História também…



                    “Porque vos ensinam eles a amá-los, se é para vos tratar assim? Porque não vos deixam eles em paz?” – William Irish



     Há livros assustadores. Uns pelo espírito, como por exemplo o “Lázaro” de Andreiev, que nos coloca de chofre e sem complacências em frente do facto de que uma vida de ressuscitado seria, afinal, tão angustiante e repugnante como a degustação de uma refeição apodrecida. Outros pela letra, como o Drácula de Bram Stoker sobre o qual já se disse que só um leitor completamente destituído de sensibilidade conseguirá ler numa casa deserta e pelas horas mortas da noite.

   Outros, por seu turno – e é o caso desta “utopia negra” vasada nas luzes boreais que conformam as sociedades escandinavas – porque o que neles se encena está a acontecer paulatinamente. E não só naqueles rincões.

   O caso sucedido tempos atrás na politicamente correcta Noruega, onde os monstros particulares são produto de uma administração cuja tenaz cegueira é a prova do seu cinismo suave e perito em enterrar a cabeça na neve (e já não, como os avestruzes, na areia do deserto) para sagração de um oportunismo que finge supor que os cidadãos são um resíduo angélico para que se não vejam as partes demoníacas do seu poder governativo, mostra-o sem véus e sem disfarces.

Nicolau Saião, O grande guerreiro

    Nesta obra de entrecho quase linear, duma secura de estilo necessária para que a sugestão resulte, Peter Wahlöö (que com sua mulher Maj Sjowal deu na época a lume um belo punhado de polars bem inseridos no género, mas com um timbre de novidade que os distinguiu) segue passo a passo os sete dias duma investigação que um inspector da polícia efectua para que naquela sociedade pacífica e onde o Estado mais ou menos cordial procura que o cidadão viva sem traumas (e onde o único crime significativo e punido aliás sem muita violência expressa é a embriaguez, que entretanto se multiplica) tudo continue a ser sereno.

   Nesta sociedade o controle é exercido pela leitura: leitura de revistas e de jornais com visão positiva, onde o próprio fenómeno desportivo (fautor de paixões e frequentemente de conflitos) não recebe muita atenção a não ser a que possibilita que se possa epigrafar televisivamente o sucesso das vedetas que o integram.

   O consórcio que o domina é constituído por gente esclarecida e de “boa formação” partidária e propugnadora de uma igualdade social estabelecida de maneira amena e que até quando despede dos empregos o faz cordatamente: o indivíduo ou indivídua em causa recebe uma reforma razoável e um diploma por bons serviços, assinado por altas individualidades. E o além está muito longe…mesmo quando ao virar da esquina.

    Mas há sempre alguém que, com impetuosidade maldosa, “sem olhar à felicidade social a que se conseguiu chegar” (sic), resolve meter um pauzinho na engrenagem. Por puro sadismo (como se diz neste ocidente cristão, civilizado e culto) ou por maldoso anarquismo (como há dias disse publicamente um comandante da polícia metropolitana inglesa, que ao mesmo tempo solicitou aos cidadãos britânicos que, e cito, denunciassem os vizinhos que soubessem que perfilhavam ideias anarquistas – o que quer que isto seja…)? Ou, ainda, por impiedade, como se diz naqueles países do oriente que têm a dita de existir em teocracias?

    Alguém, portanto, usando precisamente uma folha anexa não preenchida dum desses diplomas, (uma vez que o papel é pacificamente controlado), endereçou às autoridades uma carta inquietante, sugerindo que inquietantes acontecimentos iriam dar-se. E embora as forças vivas tenham essa carta por eventual simples brincadeira, tal como uma outra insistência significante, nunca fiando – a própria brincadeira indicaria já um escabroso, quiçá injusto, desvio e Jensen - polícia compenetrado e eficiente sofrendo no entanto de um doloroso e crónico desarranjo gástrico que nem a comida cientificamente confeccionada e posta à disposição dos cidadãos pelo ministério da saúde que tem a seu cargo as dietas racionais consegue tranquilizar – mergulha num universo de entrevistas e de encontros que pouco a pouco lhe patenteia os meandros do jornalismo, se jornalismo se lhe pode chamar, e da criação escrita quando a criação escrita é apenas um simulacro que ora leva ao suicídio dissimulado (ou assistido) ora à entrega a um ambiente de mundanidade, de sucesso e de notoriedade bastante semelhantes ao que usa utilizar-se nesta Europa das pátrias e, suspeito-o com alguns tremores relativos, nas sociedades alfabetizadas de outros continentes…

   Homem sério e bom profissional, ético tanto quanto as circunstâncias peculiares o permitem, nesta viagem iniciática de uma semana nem sequer negra em que a desesperança do protagonista é irmã colaça da desesperança sentida pelo leitor enquanto mergulha na naturalidade do relato, a regra da “detective novel” é subvertida, ou melhor: invertida. Os chefes que o comandam preferiam não saber e a demanda de Jensen dirige-se não à descoberta mas à ocultação. Nas sociedades racionalmente policiadas, como por exemplo a sociedade lusa, o polícia, (que funciona como Némesis justiceiro) age preferencialmente como aquele que camufla o enigma ou, dizendo ainda mais esclarecedoramente, faz com que o enigma seja uma camuflagem que garante ou sustenta o “equilíbrio” entre as classes, para que a paz e o progresso coabitem salutar e airosamente…

    No entanto, nem nestas mansões quase celestiais as coisas são como deviam ser (ou se esperava que fossem).

   Dizia António Maria Lisboa, numa frase bem respigada por Cesariny, que “Todo o acto premeditado ou todo o acto leviano tem a sua guilhotina própria”.

    A mim sempre me pareceu que ele tinha razão ao cunhar este conceito. E, se o pudesse ter lido, creio que Jensen – e muito mais os seus chefes – teriam dolorosamente entendido a verdade que assistia ao infausto poeta surrealista lusitano.


    À sua deles própria custa – mas isso seria já uma outra estória…   

sexta-feira, 31 de agosto de 2012

EM ESPANHA, COM BOM VENTO…





   Como disse Torga num seu poema do tomo "Poemas Ibéricos", celebrando o nosso homem, "Dom Miguel.../Fazia pombas brancas de papel,/ E guardava a mais pura na lapela."...

   Pois bem, é mesmo este Dom Miguel, o grande Unamuno que soube ver em Portugal "um povo de suicidas" (suicidados pela circunstância baixamente lusa, que até hoje dura e de que maneira?) que os XV Encontros Ibero-Americanos de Cultura irão ter como figura central nos dias 3 e 4 de Outubro na cidade de Salamanca.

   Aqui vos deixo em anexo, atalhando caminho e de forma cabal, a peça que as Agencias noticiosas espanholas, portuguesas e sul-americanas difundiram há um par de dias e que até a nossa santa TV, normalmente tão desatenta para tudo o que não seja bola e talk-shaws, não se deu ao descaramento de ocultar... O que só lhe fica bem!

   Para ter mais salero, a notícia vai no original espanhol.

 Como detalhe mínimo, mas defensável dum ponto de vista da humana cordialidade, consintam que refira que entre os diversos participantes dos diferentes países vou ter o gosto de ali reencontrar o poeta Gabriel Chavez Casazola, um dos mais significativos autores bolivianos da contemporaneidade e que foi meu seguro confrade na Bienal de Fortaleza.




Poetas iberoamericanos y españoles dedicarán su XV Encuentro a Unamuno


Estatua de Miguel de Unamuno frente a la que fuera su casa.


   El homenaje se llevará a cabo en el Teatro Liceo

Año tras año, se dan cita poetas de diferentes latinoamerica y este año decidieron hacerlo en homenaje de uno de los más grandes pensadores de España

  SALAMANCA, ESPAÑA.- Miguel de Un amuno será la estrella del XV Encuentro de Poetas Iberoamericanos que, bajo el título "Di tú que he sido", reunirá en Salamanca en 3 e 4 de octubre a escritores de Brasil, Venezuela, República Dominicana, Bolivia, Perú, Cuba, México, Ecuador, Portugal y España.

    El Teatro Liceo de la capital salmantina acogerá el evento los días 3 y 4 de octubre, coordinado por el poeta hispanoperuano Alfredo Pérez Alencart, informaron fuentes del Ayuntamiento de Salamanca.


  El pintor Miguel Elías ha preparado la ilustración de una antología, así como los retratos de todos los poetas invitados a esta cita  con el título ''Di tu que he sido'' extraido de uno de los versos del poema ''Salamanca'' del autor español

  Entre ellos figuran Pablo de Tarso Correia de Melo (Brasil), José Pulido (Venezuela), Basilio Belliard (República Dominicana), Gabriel Chávez Cazasola (Bolivia), Héctor Ñaupari (Perú), Reinaldo García Ramos (Cuba), Juan Ángel Torres Rechy (México), Aníbal Fernando Bonilla (Ecuador), Nicolau Saião (Portugal)
*, junto a los españoles Santiago Redondo (Valladolid), Rafael Soler (Valencia), Miguel Velayos (Ávila) y José Amador Martín (Salamanca).

  La publicación incluye también textos de Efraín Bartolomé (México), Juan Antonio Massone (Chile), Washington Benavides (Uruguay), los españoles Verónica Amat y Juan Carlos López, así como los brasileños Edir Meirelles, Marcia Barroca, Messody Benoliel, Jucara Valverde y Luiz Gondim.

   El encuentro, que coincide con los actos de conmemoración del 75 aniversario de la muerte del filósofo, que se desarrollan durante este año en Salamanca, será clausurado con la conferencia titulada "Unamuno poeta", que estará a cargo del presidente del Pen Club de Brasil y antiguo alumno de la Universidad de Salamanca (USAL), Claudio Aguiar.
………………
* (Para além da antologia, em tradução de Alfredo Pérez Alencart, colaboro com o texto “Unamuno no Além recordando os campos da Ibéria”)



terça-feira, 3 de julho de 2012

Três estórias de Vincenzo Quillici


(imagem recolhida aqui)


Ando, tenho andado, por fora do lar doce lar num périplo que amavelmente me arrastou da Zafra até ao norte lusitano trespassando fronteiras, bordejando as Hurdes e atravessando o vale do Jerte, repleto de cerejeiras em fruto. Em frutos já em plena colheita.

Não me interpretem mal... Gosto muito de flores, mormente as que esplendem como imensos reques nos cerejais a que já Tchekov teatralmente emprestou prestígio e garbo. Mas... não sei... o Jerte, o maravilhoso Jerte, emociona-me mais se as flores esplendorosas brancas singulares se transfiguraram nos pequenos abundantes frutos de um rubro peculiar, emocionante... e saboroso.




(imagem recolhida aqui)

Mas adiante.

Agora que vim a estes rincões interactivos, tirando-me de meus cuidados e com a cordialidade fraternal de sempre mando-vos estas três "cerejas" de colheita francesa, que decerto vos deixarão no "palato" um sabor gratificante.

Que tenham uma excelente semana...e hasta la vista, folks!





                 QUILLICI OU A DOÇURA SUFOCADA
         




(ilustração de Nicolau Saião)

   Conheci Vincenzo Quillici em Junho de 99, aquando da minha estadia em Paris e em Bruxelas para lançar na Livraria Lusófona, frente à Sorbonne (e, a seguir, numa galeria da capital belga que tinha o ambiente dos contos de Jean Ray) o meu livro de poemas “Flauta de Pan”.

    Chamou-me a atenção aquele homem que se mantivera ligeiramente à parte da assistência luso-francesa enquanto o apresentador, depois um confrade e, finalmente, eu mesmo debitávamos com o melhor esmero as nossas orações de sapiência...Usava um chapéu de abas largas e uma gravata fina à Gary Cooper, serve dizer: um daqueles objectos ornamentais tão usuais nos filmes dos anos 50 com que os “dandys” pistoleiros criavam o seu pessoal cenário de elegância.

    Mais tarde, soube que não o fazia para se singularizar, mas apenas porque amava a fantasia percorrida por um senso-de-humor inteiramente partilhado com os amigos e as outras pessoas em geral.

    Disse-me que viera ali para me contactar, pois amigos comuns lhe tinham dado a notícia do evento e a localização da funçanata.

    Finalizámos o encontro, já tarde na noite, em frente de umas canecas de cerveja irlandesa, perto da Rua do Rivoli, acompanhadas de filetes de vitela. Quillici comia com apetite e com uma espécie de concentração a que eu chamaria artística: por duas vezes, ao que recordo, solicitou ao empregado que deixasse a espuma da preciosa bebida um pouco acima das bordas, pois ficava mais sugestiva...mais apetitosa...

    Ao despedir-se, pôs-me nas mãos uma pequena brochura contendo seis estorinhas que classificarei de surpreendentes e apelativas, em vista do seu específico humor negro tranquilo e sedutor, mas que eu também diria percorridas por uma evidente melancolia.

   Desse livrinho, que depois ampliaria principalmente por incitamento de Maria Darmyn, com quem entretanto contraíu matrimónio, extraí e traduzi estes três relatos que aqui vos deixo, com agradecimentos ao seu autor.



Paul Cézanne, Natureza morta com um prato de cerejas, 1885-87


                                                                                                          
O PARENTE

    A senhora Beaumont, Mélanie Beaumont de sua graça, todos os sábados de manhã se deslocava a ouvir missa em Saint Sulpice. Gostava da igrejinha, do jardinzito próximo e do mercado mesmo ao pé onde frequentemente se abastecia para a semana. Comprava endívias, laranjas de todo o ano, rabanetes de que era particularmente gulosa, peixe e alguma carne. Flores da época, se era tempo delas umas cerejas, rabanadas e bolo-dôce.    A senhora Beaumont, que era uma alma cândida, usava no tempo frio um casaco castanho claro a condizer com o seu cabelo cuidadosamente pintado – embirrava com as brancas e perdoava-se esta faceirice – e um lenço de cabeça às pintinhas discretas que lhe ficava muito bem. A senhora Ricot, a vendedeira de verduras, via-se mesmo que lhe tinha alguma inveja.

   Naquele sábado a senhora Beaumont sentia uma pequenina pontada no peito. As coisas, desde as árvores aos automóveis, parece que estavam assim como que enevoadas, fluidas e até julgara distinguir um buçozinho sob o nariz da menina Sabine, que era loira e roliça, com os seus braços clarinhos mexendo-se daqui para ali a pesar o peixe e a fazer os trocos.

   Foi quando abandonava o mercadinho e ia já virar para a rua Lambert, direitinha a casa, que o homem se lhe dirigiu, polidamente ainda que com ar resoluto. A princípio não percebeu, julgara ter ouvido mal. Decerto um pouco intimidado ante o seu ar de incompreensão, o cavalheiro repetiu contudo:” Senhora Mélanie Beaumont, não é assim? Sou seu filho.”

   A princípio ficou como que paralisada. Depois, segurando-se nas pernas, olhou o moço bem de frente e começou ao mesmo tempo a reflectir. É que lhe achava um ar familiar. Ferdinand, o gascão de bigode fino e olhos indagadores? O Egobert, que era caixeiro e gostava da sua pinga? O Maubart, que apesar de aborrecido era bom sujeito? Não era capaz, digamos, de enquadrar a cara do moço numa recordação determinada.

    Mas sorriu, já com a ideia fisgada de lhe fazer depois um interrogatório em regra. “E o senhor seu pai…como vai passando?” perguntou com natural delicadeza embora um pouco indecisa.

   Enquanto o rapaz lhe respondia, esclarecendo-a que ele falecera pouco tempo atrás, a senhora Beaumont ia dizendo de si para si que já teria algo para contar à noite, no serão habitual com a vizinha Malverne.



FELICIDADE             


   Em certo dia, o senhor Jacquemard pôs-se a pensar. Tinha entrado na sala depois de vir da rua, atravessado o vestíbulo sem reparar em nada e, ao acender a luz, viu os tigres. Olhou de novo. Um estava ao pé da mesa, com um ar de expectativa e o outro, maiorzinho, acomodado no sofá.

  O senhor Jacquemard, depois de ter tirado o maço azul de “Gauloises” da estante ao pé da televisão, apagou a luz e fechou a porta mansamente. Desceu as escadas, fez um gesto feio nas costas da porteira e saiu para o frio de Março. O senhor André, o ronha reformado do Estado, bastante mais velho que Jacquemard e perito em electricidades, estava como sempre na sua mesa por detrás da montra do cafézinho da esquina e olhou-o suspeitosamente. O senhor Jacquemard foi andando, pensando como um homem a quem tivesse saído a lotaria sem estar à espera. No seu peito algo ronronava com ternura. Jacquemard começou a recordar-se da sua infância no Poitu: os regatos correndo entre bosques de avelaneiras, o fumo sobre os telhados das casas da quinta, o tilintar dos chocalhos das vacas da courela de mestre Paupel, o seu boné de abas quando era inverno. “Jacquemard, pensou de si para si, há coisas na vida que não podemos explicar. Tomemo-las como ofertas do mundo misterioso. Não esperar mais do que a nossa conta...isso é que é saudável!”.

  Em vista disso foi andando para a tasca onde costumava fazer as suas refeições desde que a mulher falecera, resolvido a destroçar uns belos linguados salteados com batatinhas. Um dos seus pratos favoritos, ainda que não fôsse um comilão.

  Ia cheio de paz, mas um bocado intrigado. Disse com os seus botões:” Logo, quando me for deitar, espero bem que também lá estejam uns avestruzes”. O senhor Jacquemard sempre fora, e isto desde pequeno, um homem de espírito aberto, curioso até mais não. Lá na loja, por causa disso, os colegas até lhe atiravam às vezes, de raspão, piadas que lhe entravam por um ouvido e saíam pelo outro.




O FLIBUSTEIRO

   Foi um pouco antes do jantar, depois de vir do escritório, que o Basile teve a certeza de que era cornudo.

    Era uma segunda-feira. Basile – Basile Cambon, como o grande homem de Estado – saía sempre depois de todos os empregados se despacharem. A menina Capitoline, a dactilógrafa e recepcionista, dissera-lhe como sempre com os seus olhinhos de carneiro mal-morto: “Quer que feche, senhor Basile?”. E ele, como sempre, respondera: “Não, deixe estar. Vá andando que eu depois fecho tudo”. Toda a gente, desde o Rimet, o estarola que também fazia as vezes de caixeiro-viajante quando calhava, até à madame Sidonie, que a Casa herdara da anterior gerência, sabia que ela estava apaixonada por Basile, mas ele só se servia disso para lhe atirar para cima do lombo uns leves trabalhitos inadiáveis. Também toda a gente sabia que o patrãozinho Cambon, sucessor do velho Ignace, gostava muito da esposa, a dona Renate filha dos Blondine das ourivesarias. Nem constava que ele se desalinhasse até quando ia, o que aliás depois do casório se tornara muito raro, aos serões das Folie Bergères.

   Às vezes até se davam ao trabalho de falar no casal perfeito que eram Basile e Renate.

  Comeu a refeição quase em silêncio. De vez em quando, entremeado na escassa conversa, um olhar saltava em direcção à face da esposa, que com os lábios vermelhinhos e os cabelos arruivados aguentava muito bem uma segunda e até uma terceira mirada. E o peitinho de rola até lhe arfava, ela que era dada a fagueirices como Basile muito bem sabia.

   Aí por volta da sobremesa, Basile percebeu quem era o destruidor do seu lar: o Patrice, evidentemente, o tal que nas festas de aniversário, de Carnaval e de antigos alunos do liceu tinha o hábito de pôr um monóculo e de imitar o Maurice Chevalier e o Coluche. Um tunante, é claro, mas sabe-se como as senhoras românticas se pelam por tal género de energúmenos.

  Ainda tentou dizer para si mesmo que ninguém iria reparar, que tal coisa era na cidade o pão-nosso de cada dia, que muitos dos seus conhecidos também participavam de tal estatística. Mas nada o consolava. Sentira assim como uma cabeçada no plexo solar e, quando passara a Renate a tacinha da compota, até as mãos lhe tremiam.

  Com a classe herdada de seu pai, um homem honrado dos pés à cabeça, fez que não reparava na evidência da traição. Mas o coração estalava-lhe de comoção camuflada.

  Foi para o escritório sem dar sequer uma palavra à esposa, que aliás nem se deu conta do gesto: pairava é claro noutros universos e o nariz reluzia-lhe sem embaraços.

  Passou as mãos pelos seus velhos livros, seus companheiros de aventura. Do armário tirou os calções de pano grosso, o casacão de alamares, o chapeirão e o sabre. Ajustou, depois de bem enfarpelado, o par de pistolões em cruz no cinturão largo de couro com a grande fivela de prata. O papagaio estava, como sempre, no poleiro da cozinha: foi só tirá-lo de lá e colocá-lo sobre o ombro.

   Estava pronto. Desceu ao quintal, o quintal grande e arborizado que a mãe Cambon tanto ornamentara e melhorara. Acenou para o seu imediato, com a larga mão aberta, o sinal de zarpar. E desta vez é que já não voltaria.

   Assim como assim, afinal, no fundo nunca gostara muito de Paris.
                                                                                                                
                      




    Poeta e contista de ascendência transalpina nascido em Aubagne em 1967. Fez parte do brilhante círculo de jovens autores que agregou, para além doutros, os poetas Marcel Delpach e Jules Morot (já publicados entre nós) e a musicista Maria Darmyn. Professor agregado num estabelecimento de ensino na Gardanne (Provença), deu a lume poemas avulsos e “Recits du parc”, pequenas histórias do quotidiano onde brilha uma crueldade terna e desenvolta (in AGULHA e TRIPLOV).                                                                      

quinta-feira, 7 de junho de 2012

Os corpos de Deus e do Homem



(imagem obtida aqui)

Caros confrades e amigos

   Hoje é dia de Corpo de Deus. Data significativa para crentes, dia de feriado para todos. Em suma, geralmente dia de repouso e de alegria. E a alegria, mormente a alegria de viver é algo de fundamental, diria mesmo fundacional.

  Mas há dias em que a alegria se nos gela de repente nos minutos. E ficamos quase inermes. O coração e a vontade param por segundos e quando recomeçam a vibrar é com uma agulha enterrada.

  Depois, como me disse em mail uma querida confrade amiga, quando ontem lhe escrevi a narrar coisas tristes, “E passados dias reentramos na normalidade, que se pode fazer?”. Porque, bem ou mal, a vida continua. Mas desta vez foram duas as agulhas: uma ao princípio do dia, outra quando este findava.

 Para mim e para muitos ontem foi um dia amargo.



(imagem obtida aqui)


 Como o confrade talvez tenha ouvido nos noticiários, morreram no deserto do Sahara, no périplo de Marrocos, dois moços irmãos. Andavam, desde pequenitos, sempre juntos, andavam juntos sempre que podiam agora que já eram homens. E juntos morreram, quando numa prova automobilística atravessavam as imensidões daquele norte de África.

 De pequenos os conheci, em grandes os via frequentemente: eram os filhos do meu querido amigo e mecânico António Ramos, a quem devo tantas amabilidades e desvelos de pessoa honrada e profissional sem jaça.

  O mais velho deixa um casalinho. Filhos que irão crescer sem pai. Às vezes a vida é bem dura – e creio que não é preciso dizer mais nada.

  Quase ao findar a jornada, outra notícia amarga me atingiu. Chegara ao fim dos seus dias o grande Ray Bradbury. E nem o/a confrade imagina o que este homem, este escritor que modificou totalmente o panorama imaginativo da literatura americana, tendo também um enorme relevo na mundial, representou para mim.



(imagem obtida aqui)


  Li-o pela primeira vez há mais de meio século. E desde o primeiro momento ele foi para mim um símbolo, entre alguns mais (Lovecraft, Régio, Camus, J.Dikckson Carr), um daqueles cuja arte nos garantia que, como dizia António Maria Lisboa, mesmo em tempos funestos “Não há razão/para queimar a esperança”. Mestre do conto e grande poeta da science-fiction, a sua influência no sentir literário e no pensar a existência sem fronteiras foi enorme e, felizmente, reconhecida tanto pelos leitores devotados como pelos especialistas e a própria aparelhagem crítica, que a breve trecho teve, ora com gosto da parte de uns, ora com inevitabilidade da parte de outros, de o cifrar como um dos grandes escritores do nosso tempo vivo.

  Em anexo vos ofereço duas obrinhas pictóricas e um texto que em tempos lhe dediquei.

  E que, se me permitem, ponho sob a égide da partilha: tanto do artista justamente glorificado, rodeado da sua amada família no momento da morte, como dos dois moços anónimos, para o vasto mundo, tombados na solidão de um deserto.





(imagem obtida aqui)


O coração do Mundo

                                            a Ray Bradbury, inventor de corações


   Tempos atrás, numa clínica de New Jersey, uma criança recebeu um coração novo.

   O facto não causaria estranheza não fosse dar-se a circunstância de a criança ser um bebé de tenra idade. Agora, com o seu coraçãozinho batendo serenamente, a pequenita - pois trata-se de uma menina - irá pela vida fora.

   Esperemos que vá. De acordo com os médicos que procederam ao transplante a pouca idade da garota favorece o resultado da operação. Com o seu pequenino coração tiquetaqueando, Philipa enfrentará o mundo e as suas tristezas e alegrias. Com esse coraçãozinho de empréstimo – que será todavia muito seu – conhecerá tudo o que uma criança do quotidiano ocidentalizado usa experimentar: o despertar lento para a vida de relação, o progressivo descobrir da existência, a surpresa das brincadeiras e o esforço controlado do trabalho. Conhecerá outras crianças, outras vidas: outros corações. Conhecerá um dia o amor e a amargura – embora, prosaicos que todos somos, bem saibamos que não é no coração que residem os sentimentos. Mas, como referia Richard Lewinson (esse mesmo, o excelente historiador francês que, curiosamente, foi também o criador de uma das figuras mais conhecidas do moderno relato policiário: o Tenente Columbo) “prestemos homenagem à fantasia secular de situar no coração a morada desse mar que sempre agitou a humanidade”.



Nicolau Saião, Viagem a Alderbaran – a Bradbury, (Col. António Garção)


   A possibilidade de receber em termos o coração estranho deveu-se aos melhoramentos introduzidos em certo mecanismo de apoio por um cientista-inventor. Aliás, de acordo com as notícias que diariamente se cruzam sobre os diversos sectores da actividade humana, os inventos estão a conhecer ultimamente como que uma idade de ouro. Os inventores, esses curiosos Ulisses da ciência aplicada, se desde sempre foram apreciados pela lenda e pela literatura de imaginação só nos últimos tempos estão recebendo uma atenção profunda: na Bélgica, em França, nas Américas, em Espanha e até nos actuais países de Leste, a acção desses homens granjeia o apoio e o apreço das entidades científicas e mesmo das empresas com alta capacidade de manejo. No fundo, é delas o benefício; e, finalmente, de todos nós. Porque a existência é uma componente rica e articulada, nos melhores casos, entre o espiritual e o material.

   Jules Verne, que aliás morreu desiludido com o excessivo materialismo do seu tempo e o que este tinha por ciência definitiva, disse-o com propriedade, tal como o têm feito outros autores que equacionaram e debateram nos seus escritos esses temas candentes. A talhe de foice:  Ray Bradbury, Fritz Leiber, Clifford Simak, Isaac Asimov...

   Mas em Portugal (como noutros lugares…) não é, com efeito, assim. Já vai sendo conhecido nos diversos países que um inventor, cá no jardim, passa as passas-do-Algarve para conseguir afirmar-se. Dispondo de um poder de imaginação relativamente limitado, formado frequentemente por homens públicos mazorros ou de espírito bronco e politicão, o Estado português não tem tido pelos inventores portugueses o desvelo que estes merecem. Aqui há dias um destes homens teve ocasião de relatar na televisão a sua odisseia de pessoa criativa num país onde a imaginação é por vezes mais bem vista a inventar aldrabices mediáticas, cenários políticos e outras baldrocas.

     Sabia o leitor que muitos dos inventos mais úteis e comuns que aí andam p’lo mundo  foram congeminados por inventores portugueses?



Nicolau Saião,  Lá fora está-se melhor – a Ray Bradbury, (Col. Maria Estela Guedes)


    Pois é verdade. O que acontece é que tiveram de ir para as franças e araganças dar seguimento prático às suas invenções. Cá no portugalinho tinham de se quedar como se nada tivessem descoberto. Nem facilidades para registarem os seus trabalhos lhes eram dadas!

  Pelo que, fique então sabendo: se acaso inventar algo e for lusitano, perca um bocado as ilusões. E encha-se de paciência…

 E se quiser ter o quotidiano facilitado, dedique-se antes – será muito apreciado pela doce gente politiqueira que vive um pouco em todo o lado – a artilhar uma nova maneira de fazer o Zé Povinho esportular as lecas.

   É o espírito inventivo que muitos deles apreciam. Até lhes faz bater o coração!