terça-feira, 10 de julho de 2012

É assim que se faz a estória (3)


NOS ONZE ANOS DO SEU FALECIMENTO
                 
                     Lud, habitante do outro lado do espelho




Lud, Paisagem, serigrafia, col. ns



   A notícia, vinda no JL pela mão de Vítor Silva Tavares, apanhou-me de chofre. Horas antes, já um ex-colega tentara entrar em contacto comigo para me transmitir a triste notícia. E isto porque, à puridade aqui fica dito, a última conversa que tivéramos no dia anterior fora precisamente sobre Lud - Ludgero Viegas Pinto - o pintor e poeta bissexto, o imprevisível Lud que contudo comigo sempre agira como um cavalheiro e confrade fraternal.

  Afinal, o Lud  já estava morto à hora em que concertávamos pedir-lhe desenhos para o suplemento que então co-coordenava e em que combinávamos apanhá-lo, na próxima ida a Lisboa, para uma conversata até às tantas. Mas a vida – a vida que a morte, essa, não tem nada senão negrume – tem destes arrepios, destes desconchavos que nos derribam a alegria. A essa hora, a esse tempo em que congeminávamos projectos que o incluíam, já o Lud lisboeta dos quatro costados e alentejano por casamento e inclinação (como tantas vezes me disse nos tempos em que frequentávamos Monte da Pedra, terra de sua mulher) percorria outros caminhos, outras jornadas de peculiar desenvoltura. Talvez em passo estugado, como usava nos seus bons tempos de empenhado fruidor de ritmos epicuristas, ou em passeio mais pausado desde que uma recomendação de médico lhe aconselhara dietas menos reconfortantes. À hora em que nós o recordávamos pensando para ele diferentes enquadramentos, Lud retoiçava já noutras paragens com o seu atento olho negro de português retinto, o cabelo asa de corvo e o bigode à Douglas Fairbanks dos seus bons tempos.

  Lá por setenta e um setenta e dois, em certo dia apareceu-me na Estação Meteorológica onde eu, pela mão de Vitorino Caramelo, me iniciava como ajudante de meteorologista (única profissão que de facto tive, o resto foi só caminho civil para tratos de existência quotidiana) um sujeito de porte atlético solenemente vestido com um desses fatos azulados que se usavam na década, impecável camisa branca e gravata a condizer. Vinha falar com os responsáveis dum Liceu ou duma Escola do burgo portalegrense para que cordatamente o admitissem como professor de desenho. Propósito louvável, mas algo quimérico. Como pouco depois vim a saber pelo mesmo Pedro Oom que para mim lhe entregara recomendação, só por intemerato desígnio é que Lud se dera a esse périplo de potencial labutador…Com efeito, Lud não era propriamente cidadão que conseguisse estar dia após dia, com esmero, ensinando estudantinhos com propósito e persistência. Ele mesmo se encarregou, digamos, de me esclarecer sobre o inusitado da indumentária, da farpela de dandy: “É só para a entrevista…”, elucidou-me na sua voz educada de alfacinha encartado.
            



Lud, O terceiro, óleo



   De modo que o que lhe ficou dessa viagem algo quimérica foi só um belo almoço na aprazível “Casa Capote” e, dispersa pelos anos, a amizade do signatário.

   De tempos a tempos aparecia-me em Portalegre, em geral acompanhado de um primo amigalhaço ou dum vizinho conterrâneo da esposa e lá íamos nós a caminho da aldeia de Monte da Pedra onde, numa simpática tasquinha a condizer, depois de lauta manducação de petiscos regionais nos entregávamos ao prazer singular e algo desenquadrado da declamação de poemas e ao trautear de algumas canções – manutenção de minha lavra – que o Lud acompanhava com fervor mas sem timbre excessivo…

    Em Lisboa, algumas vezes com Carlos Martins e, pelo menos uma vez, com Luís Osório e Henrique Madeira, demos nossos passeios cortados eventualmente por alguma partida das que gostava de artilhar. Pirraças em vol d’oiseau  mas que nunca indiciavam maldade, antes certificavam um humor de cepa lusitana sem ferocidades.

   Colaborou comigo em suplementos e revistas. Fez capa para um livro meu que não chegou a sair na altura por o seu presuntivo editor ter falido com pequenino estrondo, mas que foi o suficiente para se lhe entravar a rota. Expusemos em conjunto aqui e ali, no país e lá fora com envios pela prestimosa e bendita via postal. E até combinámos, num dia mais sonhador e pachorrento, uma viagem a Itália que o Lud afinal não pôde fruir por mor de outros afazeres e, razão muito ponderosa, por não lhe abundar marcadamente o vil metal.

   Em casa dos familiares próximos do Dr.Feliciano Falcão, conviva e amigo de Régio, está decerto uma obra sua. Foi compra/venda feita durante uma das tais viagens até aos rincões de São Mamede. Por mor desse negócio artístico proveitoso, generosamente, o pintor quis debruçar-se comigo, fazendo do seu bolso as honras do bródio, sobre uma vasta pratada de marisco acompanhada de outros pitéus e líquidos condizentes, numa Casa do ramo bem conhecida ali ao pé do Coliseu da capital.

    Lud tinha mão de pintor e era – para mim sempre foi, como o atesta uma dedicatória iluminada com um desenho e aposta no meu exemplar de um livro de C.W.Ceram – um conversador tonificante ainda que algo deambulatório. Levemente intempestivo para alguns, não sei porquê mas sempre manifestou pelo que aqui o evoca e relembra uma cordialidade afectuosa e um companheirismo intelectual que nunca desceu à zombaria ou ao descontrole. Ares serenos do Alentejo o enlevavam nesses momentos? Não o sei, nunca o soube nem procurei tirar isso a limpo, confesso que jamais pensei muito nisso. Mesmo agora e quando ele se foi e só restou um halo de saudade com uma dúzia de anos.

  Nessa altura senti uma sensível amargura e disse para os meus botões enquanto lhe recordava o perfil desaparecido: “Até sempre, amigo Ludgero. Que descanses coloridamente, já sem as tuas habituais inquietações, na absoluta paz final!”.   
                                                                                                      



Lud, Gato número seis, óleo


Nota do senhor Professor Doutor Administrador deste blogue:
Lud (Ludgero Viegas Pinto) nasceu a 3 de Junho de 1948, em Lisboa, no Bairro de Alfama, tendo falecido em 2001, também em Lisboa, com 53 anos. Apesar de toda a actividade que desenvolveu ao longo da vida, participando em múltiplas exposições e como ilustrador dos melhores jornais e das melhores revistas do país, é hoje um dos mais esquecidos artistas do Movimento Surrealista português. 

Luz ao fundo do túnel?

Comentário de uma leitora do ProfBlog:
Pois eu, professora de uma turma de Matemática do 9º ano que obteve resultados muito melhores no exame do que no teste intermédio, concordo plenamente com esta afirmação.
Foi notória a mudança de postura dos alunos e encarregados de educação em relação à disciplina, ao aumento da exigência e do grau de dificuldade do que foi trabalhado em aula, a partir do momento em que estiveram perante uma prova com as características do Teste Intermédio.
Este exame, sem a realização do teste intermédio, teria tido resultados muito inferiores.

No tempo da outra senhora

No tempo da outra senhora os resultados dos exames eram excelentes, o processo decorria sem falhas, o sistema educativo atingia altos níveis de desempenho fruto de uma política educativa avançada e o  primeiro-ministro apareceria durante 15 dias na televisão a receber os parabéns dos alunos e os louros dos pais.
No tempo atual não é bem assim: o ministro mostra-se insatisfeito com os resultados e o Albino não se conforma com o nível de dificuldade dos exames. A outra senhora é que era fixe.

segunda-feira, 9 de julho de 2012

Buraco Obama ...

... parece ter ficado agastado quando soube que os israelitas iam demolir o palacete onde um especial árabe, unha-com-carne a Hitler vivia: nada mais nada menos que o Grande Mufti de Jerusalém Haj Amin al-Husseini.

Durante a II Guerra Mundial Haj Amin al-Husseini passou muito tempo em Berlim namoriscando todos os seus heróis fascistas (variante de socialismo) para que a "solução final" (extermínio dos judeus) abrangesse também ao Médio Oriente onde ele propunha 'trabalhar no projecto'.

Ainda hoje a esquerda é descaradamente anti-semita.

Thomas DiLorenzo - Understanding Capitalism

A revolucionária que saiu à Rua Sésamo





Conhecia apenas de vista o Monstro das Bolachas, boneco da Rua Sésamo que doravante e pelo menos em Espanha trocará os biscoitos por uma dieta equilibrada em fruta e vegetais. A ideia visa combater a obesidade infantil, mas é sobretudo uma prova da infantilidade destes ditatoriais tempos.

Pressupor que as crianças imitam as personagens de ficção é acreditar que diversas gerações ficaram milionárias por ler as histórias do Tio Patinhas, que inúmeros petizes se lançaram pela varanda após um desenho animado do Super-Homem ou que uma data de moçoilos passaram a residir em conjunto com um idoso mal-educado em consequência do convívio com as aventuras de Tintim. Ou, para usar outro exemplo em que a opressão vigente fez lei, é acreditar que muitos meninos desataram a fumar por inspiração de Lucky Luke, cujo cigarro foi entretanto substituído por uma palha (e é extraordinária a quantidade de criancinhas com palhas pendentes dos lábios desde então).

Porém, o pequeno fascismo dos nossos dias não espanta. Espantoso é perscrutar as cabeças que apoiam, e prescrevem, semelhantes delírios. O DN ouviu uma: Isabel do Carmo, dita endocrinologista, acha aconselhável que, "no caso das crianças com excesso de peso ou obesas", se lhes retire certos alimentos "da vista, seja em casa, seja na televisão".

Assim de repente, a dra. Isabel assemelha-se imenso àquela ilustre antidemocrata que há meia dúzia de anos foi condecorada pelo então presidente Jorge Sampaio e que, nos idos da década de 1970, chefiava uma organização terrorista intitulada PRP, prestigiado cargo que a envolveu no rebentamento estratégico de explosivos em locais avessos à revolução. Respeita-se a coerência de quem, hoje como ontem, está disposta a tudo de modo a impor a sua vontade. O que custa é respeitar a opinião em matéria de saúde vinda de uma criatura cujo bando recreativo cometeu, entre diversas traquinices, crimes de sangue. No fundo, não seria demasiado diferente se o estripador de Lisboa se aliviasse de uns palpites sobre a importância da matemática no ensino básico.

Além disso, acresce à questão moral a questão técnica. Mesmo sendo credível que a dra. Isabel desempenhou com mestria a antiga profissão, nada indica a sua competência na actual: para uma especialista em nutrição e para sermos educados, a dra. Isabel possui excesso de peso. Ou muito me engano ou a senhora não perde uma emissão da Rua Sésamo, na versão não censurada e repleta de calorias.

domingo, 8 de julho de 2012

Higgs Boson (extended interview footage)

Nivaldo Cordeiro: Coutinho x Safatle


"A Folha de São Paulo deu nota sobre a participação, na Flip, em Paraty, do português João Pereira Coutinho e de Vladimir Safatle, seus articulista semanais. São autores antípodas. Coutinho defende a sociedade aberta, a democracia, os chamados valores ocidentais. Já Safatle é marxista-leninista. O debate entre ambas as correntes não se esgota e os tempos são de duelo intelectual, pois afinal o modelo social-democrata está esgotado, em crise no mundo todo. Os anos vindouros dirão quem sairá vitorioso nesse debate."

"The Skeptical Environmentalist": A Conversation with John Tierney and Bjorn Lomborg

sábado, 7 de julho de 2012

Para purgar azias civilizacionais


Alguns  poemas de índios norte-americanos
                      
                            





Todo o sudoeste é uma casa
Feita de penumbra. Foi feita de polén
E de chuva. A terra é antiga e durará
Para sempre. Há muitas cores nas colinas
E na pradaria e uma vegetação sombria
Cobre a montanha ao longe. A terra é fértil e forte
E a beleza enche tudo à nossa volta.

                                                           (Pueblos)
















Saiu a lua, branca como a folha do machado
E o meu machado é uma lua pequena
O sangue do alce brotará sob a lua
Unirá a lua grande e a lua pequena
E o fogo da vida será como um sol
No coração dos caçadores.

Machado, agradeço-te o fogo da vida
Alce, agradeço-te o fogo da lua
Da grande e da pequena lua
Vê que vais viver para sempre no nosso coração
E serás o sol e as pequenas luas
Grandes como o fogo que circula
No interior da floresta.

                                                    (Ojibwa/Chipewa)















Somos as estrelas, entoando
Um canto com a nossa luz.
Somos os pássaros de fogo
Voando pelos espaços.
O nosso brilho é uma voz
Que traça o caminho aos espíritos
Para que eles possam passar.
Entre nós três caçadores
Procuram caçar um urso.
Nunca houve tempo algum
Em que eles o não caçassem.
Do alto olhamos os montes
E é esta a canção das estrelas.

                                                 (Algonquins)
















No tempo da morte
Quando eu vi que a morte me procurava
Fiquei espantado. Tudo se destroçava.
A minha casa
Tristemente tive de a deixar. Olhei para longe
Enviei o meu espírito para norte
Para sul, leste e oeste, tentando escapar à morte.
Mas nenhum lugar encontrei
Já não havia caminho de fuga.
                                                                

                                                             (Luiseño)



                                                                                       




Trad. Ns

Consequências da decisão do TC – II

No Blasfémias:
Todo e qualquer aumento de pensões, de reformas ou de salários da função pública passam a ser inconstitucionais.

Outra perspectiva para as consequências da crise na Grécia!!




Recebido por e-mail:



1. Zeus vende o trono para uma multinacional coreana.                  
2. Aquiles vai tratar o calcanhar na saúde pública.

3. Eros e Pan inauguram prostíbulo.

4. Hércules suspende os 12 trabalhos por falta de pagamento.

5. Narciso vende espelhos para pagar a dívida do cheque especial.

6. O Minotauro puxa carroça para ganhar a vida.

7. Acrópole é vendida e aí é inaugurada uma Igreja Universal do Reino de Zeus. 

8. Eurozona rejeita Medusa como negociadora grega: "Ela tem minhocas na cabeça".

9. Sócrates inaugura Cicuta's Bar para ganhar uns  trocados.

10. Dionisio vende vinhos à beira da estrada de Marathónas.

11. Hermes entrega currículo para trabalhar nos  correios. Especialidade: entrega rápida.

12. Afrodite aceita posar para a Playboy.

13. Sem dinheiro para pagar os salários, Zeus libera as ninfas para trabalharem na Eurozona.

14. Ilha de Lesbos abre resort hétero.

15. Para economizar energia, Diógenes apaga a lanterna.

16. Oráculo de Delfos vaza números do orçamento e provoca pânico nas Bolsas.

17. Áries, deus da guerra, é preso em flagrante  desviando armamento para a guerrilha síria. 

18. A caverna de Platão abriga milhares de sem-tecto.

19. Descoberto o porquê da crise: os economistas estão falando grego!

A Máfia das Parcerias Público-Privadas / Negócios da Semana

sexta-feira, 6 de julho de 2012

Ronald Reagan - America 2012

"Quando se priva as pessoas do que ganham ou se lhes tira o trabalho, destrói-se-lhes a dignidade pondo-se em causa as suas famílias. Não se pode ajudar as famílias se não houver trabalho e não há trabalho se as pessoas não tiverem dinheiro para investir e a vontade para o investir."

terça-feira, 3 de julho de 2012

Da vilania do lucro

Imaginemos 10 pessoas (ou 10 empresas) a trabalhar em concorrência. Imaginemos que um deles tem uma ideia que, aplicada, lhe dá vantagem. Segundo a esquerda, esse trabalhador deve submeter-se ao interesse geral porque o colectivo deve ter prioridade relativamente ao individual. Nesta perspectiva ninguém se dará ao trabalho de ter ideias e tudo morrerá de bafio porque ter ideias põe em causa o interesse de 9 tudo ficando permanentemente estagnado. Evidentemente que neste contexto o somatório de interesses afectados é sempre superior ao interesse individual.

Em liberdade, em que o interesse colectivo resulta do somatório de interesses individuais sobreponíveis ao colectivo (quer seja grande quer pequeno, a sua totalidade ou parte dele), o trabalhador que tem uma ideia avança com ela e tira dela partido ficando, naturalmente com uma margem de lucro acima do anteriormente possível e em vantagem perante a comunidade (novamente seja de que tamanho for, a totalidade ou parte dela).

Os restantes nove ficam, evidentemente em desvantagem, mas têm uma arma: desvalorizam o seu trabalho para minimizar a falta de vantagem. “Vilania” grita a esquerda. Treta, respondo eu.

Por um lado quem teve a ideia não pode abusar da margem porque sabe que os restantes dispõem de alguma margem para ceder atenuando (até anulando) o efeito da inovação. Por outro, nada impede os restantes de reagirem procurando uma sua ideia ou optando, de alguma forma, por aplicar a inovação do colega anulando-a desta forma.

“Luta absurda pelo lucro”, diz a esquerda. Treta, digo eu. Das inovações entretanto conseguidas lucram também os clientes e, clientes, somos todos nós.

A inovação de cada um tem que ter prioridade face ao interesse geral porque é do interesse geral que haja inovação. Muito embora o interesse geral seja temporariamente afectado, não é possível que haja inovação se assim não for. Cada um no seu campo, inovando na medida das possibilidades e necessidades, embora ponha sempre em causa o interesse imediatos da comunidade, sejam grande ou pequena, uma parte ou a totalidade, permite que o progresso geral tenha lugar.

Pedra Filosofal (António Gedeão)

Eles não sabem que o sonho
é uma constante da vida
tão concreta e definida
como outra coisa qualquer,
como esta pedra cinzenta
em que me sento e descanso,
como este ribeiro manso
em serenos sobressaltos,
como estes pinheiros altos
que em verde e oiro se agitam,
como estas aves que gritam
em bebedeiras de azul.

eles não sabem que o sonho
é vinho, é espuma, é fermento,
bichinho álacre e sedento,
de focinho pontiagudo,
que fossa através de tudo
num perpétuo movimento.

Eles não sabem que o sonho
é tela, é cor, é pincel,
base, fuste, capitel,
arco em ogiva, vitral,
pináculo de catedral,
contraponto, sinfonia,
máscara grega, magia,
que é retorta de alquimista,
mapa do mundo distante,
rosa-dos-ventos, Infante,
caravela quinhentista,
que é cabo da Boa Esperança,
ouro, canela, marfim,
florete de espadachim,
bastidor, passo de dança,
Colombina e Arlequim,
passarola voadora,
pára-raios, locomotiva,
barco de proa festiva,
alto-forno, geradora,
cisão do átomo, radar,
ultra som, televisão,
desembarque em foguetão
na superfície lunar.

Eles não sabem, nem sonham,
que o sonho comanda a vida,
que sempre que um homem sonha
o mundo pula e avança
como bola colorida
entre as mãos de uma criança.

In Movimento Perpétuo, 1956

Três estórias de Vincenzo Quillici


(imagem recolhida aqui)


Ando, tenho andado, por fora do lar doce lar num périplo que amavelmente me arrastou da Zafra até ao norte lusitano trespassando fronteiras, bordejando as Hurdes e atravessando o vale do Jerte, repleto de cerejeiras em fruto. Em frutos já em plena colheita.

Não me interpretem mal... Gosto muito de flores, mormente as que esplendem como imensos reques nos cerejais a que já Tchekov teatralmente emprestou prestígio e garbo. Mas... não sei... o Jerte, o maravilhoso Jerte, emociona-me mais se as flores esplendorosas brancas singulares se transfiguraram nos pequenos abundantes frutos de um rubro peculiar, emocionante... e saboroso.




(imagem recolhida aqui)

Mas adiante.

Agora que vim a estes rincões interactivos, tirando-me de meus cuidados e com a cordialidade fraternal de sempre mando-vos estas três "cerejas" de colheita francesa, que decerto vos deixarão no "palato" um sabor gratificante.

Que tenham uma excelente semana...e hasta la vista, folks!





                 QUILLICI OU A DOÇURA SUFOCADA
         




(ilustração de Nicolau Saião)

   Conheci Vincenzo Quillici em Junho de 99, aquando da minha estadia em Paris e em Bruxelas para lançar na Livraria Lusófona, frente à Sorbonne (e, a seguir, numa galeria da capital belga que tinha o ambiente dos contos de Jean Ray) o meu livro de poemas “Flauta de Pan”.

    Chamou-me a atenção aquele homem que se mantivera ligeiramente à parte da assistência luso-francesa enquanto o apresentador, depois um confrade e, finalmente, eu mesmo debitávamos com o melhor esmero as nossas orações de sapiência...Usava um chapéu de abas largas e uma gravata fina à Gary Cooper, serve dizer: um daqueles objectos ornamentais tão usuais nos filmes dos anos 50 com que os “dandys” pistoleiros criavam o seu pessoal cenário de elegância.

    Mais tarde, soube que não o fazia para se singularizar, mas apenas porque amava a fantasia percorrida por um senso-de-humor inteiramente partilhado com os amigos e as outras pessoas em geral.

    Disse-me que viera ali para me contactar, pois amigos comuns lhe tinham dado a notícia do evento e a localização da funçanata.

    Finalizámos o encontro, já tarde na noite, em frente de umas canecas de cerveja irlandesa, perto da Rua do Rivoli, acompanhadas de filetes de vitela. Quillici comia com apetite e com uma espécie de concentração a que eu chamaria artística: por duas vezes, ao que recordo, solicitou ao empregado que deixasse a espuma da preciosa bebida um pouco acima das bordas, pois ficava mais sugestiva...mais apetitosa...

    Ao despedir-se, pôs-me nas mãos uma pequena brochura contendo seis estorinhas que classificarei de surpreendentes e apelativas, em vista do seu específico humor negro tranquilo e sedutor, mas que eu também diria percorridas por uma evidente melancolia.

   Desse livrinho, que depois ampliaria principalmente por incitamento de Maria Darmyn, com quem entretanto contraíu matrimónio, extraí e traduzi estes três relatos que aqui vos deixo, com agradecimentos ao seu autor.



Paul Cézanne, Natureza morta com um prato de cerejas, 1885-87


                                                                                                          
O PARENTE

    A senhora Beaumont, Mélanie Beaumont de sua graça, todos os sábados de manhã se deslocava a ouvir missa em Saint Sulpice. Gostava da igrejinha, do jardinzito próximo e do mercado mesmo ao pé onde frequentemente se abastecia para a semana. Comprava endívias, laranjas de todo o ano, rabanetes de que era particularmente gulosa, peixe e alguma carne. Flores da época, se era tempo delas umas cerejas, rabanadas e bolo-dôce.    A senhora Beaumont, que era uma alma cândida, usava no tempo frio um casaco castanho claro a condizer com o seu cabelo cuidadosamente pintado – embirrava com as brancas e perdoava-se esta faceirice – e um lenço de cabeça às pintinhas discretas que lhe ficava muito bem. A senhora Ricot, a vendedeira de verduras, via-se mesmo que lhe tinha alguma inveja.

   Naquele sábado a senhora Beaumont sentia uma pequenina pontada no peito. As coisas, desde as árvores aos automóveis, parece que estavam assim como que enevoadas, fluidas e até julgara distinguir um buçozinho sob o nariz da menina Sabine, que era loira e roliça, com os seus braços clarinhos mexendo-se daqui para ali a pesar o peixe e a fazer os trocos.

   Foi quando abandonava o mercadinho e ia já virar para a rua Lambert, direitinha a casa, que o homem se lhe dirigiu, polidamente ainda que com ar resoluto. A princípio não percebeu, julgara ter ouvido mal. Decerto um pouco intimidado ante o seu ar de incompreensão, o cavalheiro repetiu contudo:” Senhora Mélanie Beaumont, não é assim? Sou seu filho.”

   A princípio ficou como que paralisada. Depois, segurando-se nas pernas, olhou o moço bem de frente e começou ao mesmo tempo a reflectir. É que lhe achava um ar familiar. Ferdinand, o gascão de bigode fino e olhos indagadores? O Egobert, que era caixeiro e gostava da sua pinga? O Maubart, que apesar de aborrecido era bom sujeito? Não era capaz, digamos, de enquadrar a cara do moço numa recordação determinada.

    Mas sorriu, já com a ideia fisgada de lhe fazer depois um interrogatório em regra. “E o senhor seu pai…como vai passando?” perguntou com natural delicadeza embora um pouco indecisa.

   Enquanto o rapaz lhe respondia, esclarecendo-a que ele falecera pouco tempo atrás, a senhora Beaumont ia dizendo de si para si que já teria algo para contar à noite, no serão habitual com a vizinha Malverne.



FELICIDADE             


   Em certo dia, o senhor Jacquemard pôs-se a pensar. Tinha entrado na sala depois de vir da rua, atravessado o vestíbulo sem reparar em nada e, ao acender a luz, viu os tigres. Olhou de novo. Um estava ao pé da mesa, com um ar de expectativa e o outro, maiorzinho, acomodado no sofá.

  O senhor Jacquemard, depois de ter tirado o maço azul de “Gauloises” da estante ao pé da televisão, apagou a luz e fechou a porta mansamente. Desceu as escadas, fez um gesto feio nas costas da porteira e saiu para o frio de Março. O senhor André, o ronha reformado do Estado, bastante mais velho que Jacquemard e perito em electricidades, estava como sempre na sua mesa por detrás da montra do cafézinho da esquina e olhou-o suspeitosamente. O senhor Jacquemard foi andando, pensando como um homem a quem tivesse saído a lotaria sem estar à espera. No seu peito algo ronronava com ternura. Jacquemard começou a recordar-se da sua infância no Poitu: os regatos correndo entre bosques de avelaneiras, o fumo sobre os telhados das casas da quinta, o tilintar dos chocalhos das vacas da courela de mestre Paupel, o seu boné de abas quando era inverno. “Jacquemard, pensou de si para si, há coisas na vida que não podemos explicar. Tomemo-las como ofertas do mundo misterioso. Não esperar mais do que a nossa conta...isso é que é saudável!”.

  Em vista disso foi andando para a tasca onde costumava fazer as suas refeições desde que a mulher falecera, resolvido a destroçar uns belos linguados salteados com batatinhas. Um dos seus pratos favoritos, ainda que não fôsse um comilão.

  Ia cheio de paz, mas um bocado intrigado. Disse com os seus botões:” Logo, quando me for deitar, espero bem que também lá estejam uns avestruzes”. O senhor Jacquemard sempre fora, e isto desde pequeno, um homem de espírito aberto, curioso até mais não. Lá na loja, por causa disso, os colegas até lhe atiravam às vezes, de raspão, piadas que lhe entravam por um ouvido e saíam pelo outro.




O FLIBUSTEIRO

   Foi um pouco antes do jantar, depois de vir do escritório, que o Basile teve a certeza de que era cornudo.

    Era uma segunda-feira. Basile – Basile Cambon, como o grande homem de Estado – saía sempre depois de todos os empregados se despacharem. A menina Capitoline, a dactilógrafa e recepcionista, dissera-lhe como sempre com os seus olhinhos de carneiro mal-morto: “Quer que feche, senhor Basile?”. E ele, como sempre, respondera: “Não, deixe estar. Vá andando que eu depois fecho tudo”. Toda a gente, desde o Rimet, o estarola que também fazia as vezes de caixeiro-viajante quando calhava, até à madame Sidonie, que a Casa herdara da anterior gerência, sabia que ela estava apaixonada por Basile, mas ele só se servia disso para lhe atirar para cima do lombo uns leves trabalhitos inadiáveis. Também toda a gente sabia que o patrãozinho Cambon, sucessor do velho Ignace, gostava muito da esposa, a dona Renate filha dos Blondine das ourivesarias. Nem constava que ele se desalinhasse até quando ia, o que aliás depois do casório se tornara muito raro, aos serões das Folie Bergères.

   Às vezes até se davam ao trabalho de falar no casal perfeito que eram Basile e Renate.

  Comeu a refeição quase em silêncio. De vez em quando, entremeado na escassa conversa, um olhar saltava em direcção à face da esposa, que com os lábios vermelhinhos e os cabelos arruivados aguentava muito bem uma segunda e até uma terceira mirada. E o peitinho de rola até lhe arfava, ela que era dada a fagueirices como Basile muito bem sabia.

   Aí por volta da sobremesa, Basile percebeu quem era o destruidor do seu lar: o Patrice, evidentemente, o tal que nas festas de aniversário, de Carnaval e de antigos alunos do liceu tinha o hábito de pôr um monóculo e de imitar o Maurice Chevalier e o Coluche. Um tunante, é claro, mas sabe-se como as senhoras românticas se pelam por tal género de energúmenos.

  Ainda tentou dizer para si mesmo que ninguém iria reparar, que tal coisa era na cidade o pão-nosso de cada dia, que muitos dos seus conhecidos também participavam de tal estatística. Mas nada o consolava. Sentira assim como uma cabeçada no plexo solar e, quando passara a Renate a tacinha da compota, até as mãos lhe tremiam.

  Com a classe herdada de seu pai, um homem honrado dos pés à cabeça, fez que não reparava na evidência da traição. Mas o coração estalava-lhe de comoção camuflada.

  Foi para o escritório sem dar sequer uma palavra à esposa, que aliás nem se deu conta do gesto: pairava é claro noutros universos e o nariz reluzia-lhe sem embaraços.

  Passou as mãos pelos seus velhos livros, seus companheiros de aventura. Do armário tirou os calções de pano grosso, o casacão de alamares, o chapeirão e o sabre. Ajustou, depois de bem enfarpelado, o par de pistolões em cruz no cinturão largo de couro com a grande fivela de prata. O papagaio estava, como sempre, no poleiro da cozinha: foi só tirá-lo de lá e colocá-lo sobre o ombro.

   Estava pronto. Desceu ao quintal, o quintal grande e arborizado que a mãe Cambon tanto ornamentara e melhorara. Acenou para o seu imediato, com a larga mão aberta, o sinal de zarpar. E desta vez é que já não voltaria.

   Assim como assim, afinal, no fundo nunca gostara muito de Paris.
                                                                                                                
                      




    Poeta e contista de ascendência transalpina nascido em Aubagne em 1967. Fez parte do brilhante círculo de jovens autores que agregou, para além doutros, os poetas Marcel Delpach e Jules Morot (já publicados entre nós) e a musicista Maria Darmyn. Professor agregado num estabelecimento de ensino na Gardanne (Provença), deu a lume poemas avulsos e “Recits du parc”, pequenas histórias do quotidiano onde brilha uma crueldade terna e desenvolta (in AGULHA e TRIPLOV).                                                                      

Nigel Farage: Euro Crisis Breakthrough Breakdown

segunda-feira, 2 de julho de 2012

Gary Johnson - American Solutions

Gerard Batten: The British people want an IN-OUT referendum now!

The Carbon Tax starts down under



Clicar a imagem.

Para um novo profetismo


(imagem pescada aqui)

No Fiel Inimigo, ontem:


É natural:

Ainda não declarou que não pagava para colocar os neo-liberais em sentido

Ainda não constituiu uma agência de rating para "regulamentar" o mercado e manter a coração que a França merece.

Ainda não aumentou o período de férias para combater o desemprego.

Ainda não reduziu o horário de trabalho para combater o desemprego.

Ainda não aumentou os impostos para aumentar a igualdade e redistribuir mais.

Ainda não mandou fechar as centrais nucleares para aumentar o emprego verde.

Ainda não proibiu a circulação de veículos a combustíveis fósseis para os substituir por automóveis eléctricos.

Ainda não vendeu todo o material de guerra para mostrar que se aumenta a segurança desarmando.

Ainda não mandou fechar as fábricas de armamento para mostrar que os franceses são pacifistas.

Ainda não mandou duplicar o número de linhas de TGV para acelerar a economia.

Ainda não mandou triplicar o nº de aeroportos para acelerar a economia.

Ainda não deu duas chapadas à sra Merkel para que os bonds avancem, e, ainda por cima, aplica AUSTERIDADE aos franceses.



Nota minha:
Não foi casualmente que dei ao post o título da obra de Raymond Abellio. Quem a leu, talvez encontre nisso o humor possível.

domingo, 1 de julho de 2012

Milton Friedman PBS Free to Choose 1980 Vol 1 of 10 Power of the Market

Bom domingo!

O Mistério Português

Na última cimeira europeia o impossível aconteceu: o BCE (tanto quanto percebi) vai financiar as dívidas soberanas através do fundo de resgate. A pedra de toque de todo este processo de destruição dos Estados caiu. Como foi isto possível?


Toda a evolução das sociedades humanas, os diferentes sistemas políticos, as leis, as regras, praticamente toda a estrutura da sociedade humana, decorre de uma única coisa: o poder negocial dos interesses em jogo.

O Poder Negocial é a Grande Lei da Sociedade, tudo o resto é consequência desta lei.



Por exemplo, foi o movimento sindical que deu poder negocial aos trabalhadores e lhes permitiu acordos que foram fixados em Leis, garantidas pelo Estado.

Na última cimeira, França, Espanha e Itália uniram-se e obtiveram um poder negocial superior ao da Alemanha; e assim conseguiram o que queriam. E o que queriam eles? Salvar os Estados; porque a destruição dos Estados é o objectivo dos “ricos”, pois já não precisam deles, quem precisa deles é sobretudo a classe média porque já não tem sindicatos, já não tem organização, já não tem poder negocial, não tem outro poder que não seja o que vem do Estado; e a classe mais pobre já pouco tem a perder com o fim do Estado.

Há várias maneiras de ter poder negocial; uma é pela força bruta, “pelo número de espingardas”, que foi o que aconteceu nesta cimeira; a outra é sendo “um grão na engrenagem”, que foi o que fizeram os gregos; outra ainda é ameaçar causar algum prejuízo porque, na sociedade humana como na selva, raramente alguém está disposto a ficar ferido para matar o outro, que foi o que tentou fazer o Sócrates, à mistura com algum bluff (mal sucedido, pois a fragilidade da sua situação condenava à partida qualquer possibilidade de sucesso negocial).

E nós agora? Como é evidente, Portugal não só não negoceia como, pelo contrário, o governo agrava unilateralmente as exigências da outra parte; que estratégia é esta, que merece o apoio dos portugueses dado que não há contestação significativa nem quebra nas intenções de voto? Nem sequer o líder da oposição contesta a não ser com palavras de circunstância e vazias de consequências? Que mistério é este?

(continua)