segunda-feira, 25 de junho de 2012

Thomas Sowell - Race, Poverty & Intellectuals

Descubra as diferenças



(imagem obtida aqui)


A notícia foi dada assim:

"200.000 portugueses vivem a mais de uma hora de um hospital".

Mas, feitas as contas, poderia ter sido dada assim:

"98% da população portuguesa vive a menos de uma hora de um hospital, apenas 2% vive mais longe.".

Para ver as soluções não precisa de virar o computador ao contrário.

Paraguai sob cerco do Foro de São Paulo


"O Foro de São Paulo, liderado pelo PT e Dilma Rousseff, está fazendo o cerco político sobre o novo governo do Paraguai, pois estão inconformados com a queda do ex-presidente Lugo. A Argentina retirou o embaixador, o Brasil trouxe o seu para consulta e Hugo Chávez informou que suspendeu o comércio de petróleo. O Paraguai foi desconvidado para a reunião do Mercosul. Vemos que o embrião de governo mundial sob o Foro de São Paulo está pondo suas unhas de fora. Tempos de grandes perigos."

O Egipto e a Irmandade Muçulmana

A Irmandade Muçulmana é o grande vencedor da chamada Primavera Árabe, tendo-se instalado, ou estando prestes a instalar-se, no poder dos mais importantes países sunitas, ao mesmo tempo que desafia e ameaça seriamente  a estratégia de poder dos xiitas iranianos, em países como a Síria e o Líbano.

No Egipto, o mais importante país árabe, a Irmandade tem jogado o jogo dos tronos com implacável e esclarecida mestria.
Começou por manter um notável low profile nas manifestações do início de 2011, usando os revolucionários laicos como testas de ferro, para se ver livre de Mubarak e enfraquecer o regime militar. 
A ausência da IM da praça Tharir teve inclusivamente o mérito de manipular os chamados "idiotas úteis" da esquerda ocidental, que, como Sartre no Portugal de 1975, apenas viram o horizonte cor de rosa de uma  nova era prenhe de chavões como "paz", "liberdade", "democracia", etc, etc. Muita gente se entusiasmou com a magnífica Revolução egípcia e era patente, nas análises dos media e até de alguns políticos, com a Administração Obama à cabeça, a  crença cega de que o que aí vinha era uma democracia moderna, feita com gente do Facebook e do Google, arejada e moderna, um equivalente local das ocidentais Gerações X e  Y.

A IM, a mais bem organizada força social egípcia, não teve qualquer dificuldade, nas eleições de Março de 2011, em ganhar naturalmente a maioria dos assentos na Assembleia Constituinte encarregada de redigir a nova Constituição.

Quatro meses depois, em Julho de 2011, na manifestação intitulada "Sexta-Feira da Sharia",  quem estava em massa na Praça Tharir, já não eram os ingénuos revolucionários do Facebook, mas os barbudos e confiantes islamistas, a exigir, já não o fim de Mubarak, mas a imposição da sharia

A luta entre islamistas e secularistas é, foi desigual. Os primeiros têm um  visão do que querem, os segundos só sabem o que não querem.

Os primeiros querem, no Egipto um estado islâmico, regido pela sharia,  e, à la longue, islamizar o mundo (o proclamado objectivo último da Irmandade); os segundos eram apenas contra a repressão, Mubarak e o regime militar.

Mas "ser do contra", nunca foi programa político, apenas bandeira para acção. "Ser do contra" é contrapoder, não é poder. Serve para destruir, não para construir.

A IM, tendo uma visão clara do que pretendia, não hesitou em aliar-se aos secularistas quando lhe foi conveniente, em proferir declarações apaziguadoras, quando precisam do apoio ocidental, e em abraçar o formalismo democrático, quando lhes interessa. Como dizia Erdogan, o 1º Ministro turco, que preside à paulatina islamização do estado turco,  "a democracia é como um autocarro, quando chegas ao teu destino, sais".


Ganha facilmente a guerra aos secularistas, o confronto final é com os militares. As Forças Armadas são a outra grande organização egípcia e as chefias têm, de um modo geral, uma visão do Egipto bastante mais moderna e liberal do que a IM. Muitas delas frequentaram cursos no Ocidente e olham para a perspectiva islamizante como um regresso ao passado. Para além disso, dominam um enorme e lucrativo conglomerado económico-militar.

Os militares são um adversário mais forte que os naives secularistas, e podem aguentar uma luta mais prolongada mas, a  prazo, estão também condenados.


Na semana passada, sabendo já que a IM muçulmana ia eleger o Presidente, vibraram o 1º golpe, levando o Supremo a dissolver o parlamento e assegurando que a Junta Militar mantém o controlo do país.

No fundo trata-se de seguir o livro de instruções do velho Kemal  Ataturk , assegurando que os militares se mantém no comando do processo.

O problema é que a tese de Ataturk falhou. Na Turquia, assim que os islamistas alcançaram o poder, o controlo militar ( e judicial) foi paulatinamente erodido  e, no final, completamente destruído. Os islamistas prenderam metade das chefias militares, dos juizes e centenas de jornalistas e, dominando estes poderes, instalaram neles os seus partidários. 
A Turquia é hoje um estado crescentemente islamizado, onde o islamismo domina inapelavelmente.

No Egipto, a força actual da Instituição Militar é bem menor do que a sua equivalente turca de há 10 anos e parece ter ainda menos vontade de usar a força bruta, o único argumento que poderia colocar em cheque os planos da IM.

Para além disso, o Ocidente tende a encarar a tutela militar como um mal em si, reagindo como numa espécie de reflexo pavloviano que inibe uma pragmática ponderação de vantagens e inconvenientes. É esta atitude cega que explica a quase imediata retirada de apoio a MUbarak, um ditador militar, mas um aliado, em confronto  com o poder bem mais retrógrado, repressivo e hostil da IM.

Assim sendo, as recentes acções do poder militar, longe de serem uma afirmação de poder, são, efectivamente, um esbracejar de fraqueza.

Os militares sentem que o tempo corre contra eles.
A IM não irá entrar em confrontação aberta, tal como os islamistas turcos o não fizeram. Irá apenas  erodir progressivamente o poder militar, alfinetá-lo, deslegitimizá-lo, constituindo gradualmente uma base de poder que lhe permitirá, a prazo, fazer o que Erdogan fez na Turquia.

No que respeita às relações externas, a IM tem igualmente uma visão (islamizar o mundo, seguindo a injunção corânica) e irá obviamente prossegui-la.  O Ocidente é um inimigo a prazo e Israel, logo ali ao lado, um inimigo  a tempo inteiro.
A confrontação com Israel é inevitável, mesmo que não seja imediata. O que será imediata é a escalada dos ataques a Israel a partir do Sinai,  a total cooperação com o Hamas, ele mesmo um ramo da IM, etc.
O Tratado de Paz será, paulatinamente, um mero pedaço de papel que, aliás, a IM já declarou pretender submeter a referendo e/ou renegociar.

Os militares não irão opôr-se a isto. Na tentativa de manter o seu poder, seria um erro trágico ir contra o forte sentimento popular anti-israelita, tanto mais que isso não lhes iria granjear qualquer apoio ocidental, uma vez que a estranha aposta dos líderes ocidentais, particularmente da Administração Obama, é na (táctica)  moderação da IM.

A mesma IM que está já implantada nos EUA e em cujos documentos internos, apreendidos há algum tempo nos EUA, consta como objectivo, "destruir a civilização ocidental a partir de dentro".


E já se sabe que quem com o diabo se deita, com o diabo amanhece.

domingo, 24 de junho de 2012

Lord Monckton Breaks Down Rio+20

Rio para não chorar



(imagem obtida aqui)


Título deste texto de Alberto Gonçalves, publicado no DN de 21 de Junho (via Estado Sentido):

Recentemente, Ricardo Araújo Pereira seguiu o remoto exemplo de Raúl Solnado e foi mostrar a comédia nacional aos brasileiros. Como o Ricardo é brilhante, é de presumir que a coisa tenha corrido bem. O pior é que, como tantas vezes sucede, o sucesso do bom abre as portas ao mau, ao péssimo, ao atroz e a Boaventura Sousa Santos, que enquanto comediante integra uma categoria à parte. Quer dizer, eu e a maioria das pessoas que conheço rimo-nos feito perdidos de cada intervenção do homem. Aliás, basta o homem aparecer para desatarmos às gargalhadas: ele é o sotaque de BSS, ele é o penteado de BSS, ele são os fatos de BSS para consumo ocidental, ele são as camisas exóticas de BSS para passeios no Hemisfério Sul. Para cúmulo, BSS fala.

No Brasil, durante os encontros de vozes "alternativas" que antecederam a Cimeira Rio+20, de resto duas notáveis oportunidades para o humor inadvertido, BSS falou. E explicou que a Europa precisa de aprender com os maravilhosos exemplos do Terceiro Mundo, experiência de que foi privada devido a séculos de colonialismo. Tradução: a menos que a Alemanha e a Inglaterra imitem os fraternais regimes da Bolívia ou da Venezuela, a Alemanha e a Inglaterra estão perdidas. A título de punch line, acrescentou ser necessário lutar contra a concentração de riqueza e o abismo entre ricos e pobres, eventualmente adoptando o modelo "bolivariano" e arruinando toda a gente.

É ou não é brilhante? O pior é que este estilo de comédia também é arriscado: muitos brasileiros não percebem o humor de BSS e tomam-no por um pensador de facto e não pela caricatura de uma sátira a uma paródia de um pensador. Ricardo Araújo Pereira apresenta-se como humorista e tem graça. A vastíssima maioria dos restantes humoristas indígenas apresenta-se como tal e não tem gracinha nenhuma. BSS apresenta-se como "cientista social" e suscita a estupefacção dos não iniciados, que hesitam entre levar aquilo à letra ou usufruir do seu potencial hilariante.

E o melhor de tudo passa pelo facto de não sabermos se o próprio BSS se leva igualmente a sério. A sério, só isto: sempre que se lamenta a fuga de cérebros do país, convém contrabalançá-la com a fuga de malucos. Infelizmente, estes regressam logo a seguir.

Bom domingo!

sábado, 23 de junho de 2012

Revivendo Marx

No Fiel Inimigo,
Dreams from My Real Father (profeta Obama)
Monckton - A doença são os humanos, os humanos são veneno

Keynesianismo - Salvados: Cuando éramos ricos

Via Facebook de Ramiro Marques.

Luiz Carlos Molion: Canal Livre discute mudanças climáticas na Rio+20

Já agora, de cada vez que virem uma chaminé de onde sai fumo, branco, preto, conzento, azul, amarelo, não de trata de CO2 este é invisível.
"O Canal Livre deste domingo (27) recebeu o professor de climatologia da Universidade Federal de Alagoas, Luiz Carlos Molion. Os jornalistas Fábio Pannunzzio, Fernando Mitre e Eduardo Oinegue comandam o debate."

Via Terrorismo Climático.

True Outspeak - Olavo de Carvalho - 20 de junho de 2012

TEMAS
  4:25 - Técnicas e regras para se fazer poemas; Soneto do Estudante Sério
  9:46 - Comitê de Investigação para "Fast and Furious"; Obama e sua Biografia
14:46 - Rússia, China Faz Propaganda Desarmentista nos EUA
16:35 - Ataques de Animais aos Humanos nos Parques Nacionais; Ideologia "Naturalista" da Nova Era
23:43 - Lendo Artigo:"Debate e Preconceito"
38:40 - Turma Gayzista x AntiGayzismo; Sobre o cara do canal POETAeATEU
44:02 - Eliminaçãoo dos Direitos Autorais
45:23 - Lendo Notas: Sobre Psicopatia e Homossexualidade

sexta-feira, 22 de junho de 2012

Quando o Monstro se devora


achei genial esta imagem... tirei daqui


A economia neoliberal é um ser autónomo, programado para buscar o enriquecimento; enriquecer ou morrer, esse é o lema dele. Enquanto é pequenino, é um encanto, toda a gente gosta do seu ar maroto, divertido, sempre ocupado a amealhar; muito travesso, é preciso que os pais estejam sempre de olho nele. Mas sem dúvida que enquanto pequenino dá outra vida e alegria à casa.

Mas ele cresce.
Cresce sempre.

E assim, o encantador e promissor ser torna-se um Monstro. Um Monstro insaciável que precisa de crescer continuamente ou morre, assim foi concebido este ser. Mas tem pai que é cego e para os seus pais o Monstro continua a ser o seu menino querido de sempre. Faz dos pais o que quer e eles em tudo o apoiam.

Lança a sua voracidade para fora da casa onde nasceu, porta onde conseguir entrar tudo devora. As outras casas são primeiro apanhadas na conversa encantatória do Monstro; até que a primeira lhe bate com a porta e logo as outras começam a perceber o perigo e, uma a uma, fecham a porta ao Monstro. Não sabem que o Monstro deixou lá a sua semente, em breve novos monstrinhos surgirão nessas casas; mas, por agora, a sua preocupação é manter longe o Monstro.

O Monstro está com um problema; para continuar a crescer, a existir afinal, porque se não cresce morre, tem de se alimentar do recheio da sua própria casa.
E assim o Monstro começou a autodevorar-se; está a devorar a Grécia, Irlanda, Portugal, Espanha, já começou a petiscar a Itália.

Os pais do Monstro, cegos como todos os pais, não vêm problema nenhum nisso, nada a criticar ao seu “menino”: a autofagia é uma prática sanitária, dizem, as células praticam-na regularmente para se livrarem dos resíduos da sua actividade. Está tudo bem. O seu monstrinho está apenas a devorar o Lixo.

E o Monstro, para o qual tudo é lixo menos a sua boca, come, come-se...

UM POUCO DE PARAÍSO (6)




TRÊS PALAVRAS

  Há, neste acervo, um verso que a meu ver descreve com exactidão o mundo da escrita de António Salvado: “só a natureza purifica os sons”, diz ele a dada altura no poema dedicado a Claudio Rodriguez. (Claudio Rodriguez, sublinho, ou seja: um dos poetas europeus onde a natureza se confrontou decisivamente com os sons duma modernidade assumida, reencaminhada nos troços vicinais de um continente que não perdera de vista a claridade da Grécia mas sabia ser impossível não a tentar reconverter através do mergulho achado em Rimbaud e Dylan Thomas).

  Poeta da natureza, António Salvado? Sim, mas também da linguagem que a certifica, perpassa e ultrapassa. Conhecedor dos clássicos, sempre soube viajar – como fica patente nesta pequena antologia – pela comovida desconstrução da escrita.

   E, assim, é um contemporâneo tanto dos que se foram como de todos os outros que a seguir irão vindo.

     Por último e ainda no continente da Poesia, gostaria de relevar o trabalho incontornável de AS enquanto tradutor – e dou ao termo trabalho, aqui, o seu exacto perfil e conteúdo não só de labor mas de encantamento partilhável, uma vez que é disso que se trata: ser António Salvado, como a meu ver tem sido, o poeta do seu poeta vertido em português sem jaça e com o ritmo próprio e a figura de quem escreve como se em língua lusa este escrevesse.



                                               
G. Chirico, Ariadne
                                                         
                                                                                                                
EPITÁFIO PARA MINHA MÃE

Porque sabias os caminhos
que encontrarias na viagem,
sem desaires nem labirintos
a tua vida foi a simples
maneira de atravessares
no mundo brenhas e neblinas.

Não precisavas de milagres
para aqueceres a tua crença:
afagos de serenidade,
os dias chegavam passavam
com a mesma limpidez quente
e mansa que a fé torna clara.

Desfolho rente à tua campa
os ramos de malvas: lembranças
do cálido peregrinar
das contas puras do rosário
que os dedos do amor rezaram
à espera de um céu alcançado.




Arcimboldo, Primavera


CASA DO AMOR

Foi nas perenes coisas que aprendi
a ser: a casa do amor cercada
de ruas que subiam junto ao fim
do céu que sempre mais se prolongava,

de longo mudos maternais jardins
onde as eternas flores eram lagos
de fragrância ofegante colorida
e os lagos sol em água mergulhado.

E nela: o pão cantado sobre a mesa,
a bilha da ternura a renascer,
a pureza do linho a dedilhar
as palavras nos lábios entoadas…

deito longe a saudade: permanece
a casa do amor, em mim, perene.




Michael Parkes, Juggler



MEDITAÇÃO
                             (à memória de Claudio Rodriguez)


Dos olhos e das mãos brotam as coisas:
inocentes paisagens onde a vida
e a morte se insinuam e comprazem.
Feitas indagação, elas entregam
- mesmo longínquas – o fluir constante
do sangue atravessando o pensamento.
De há muito que o sabemos caminhando:
somente a natureza purifica os sons
da chama inviolável que destrói
enganos: uma flor desabrochada,
rapariga no curvo do distante,
calor do oiro na melancolia.
Daí, que a claridade estenda os braços
a resvalar-se à voz: e invada os veios
exaltados da pureza   e bafeje
para que ouçamos dela o sussurrar,
como um astro súbito   inesperado,
como a verdade plena de harmonia.
Em segredo, o pulsar do coração
traça novos destinos entre areia,
reconstruindo a casa à beira do abismo
solidifica a água das correntes.
Em segredo. Os olhos abrem-se mais
e as mãos, hirtas p’lo frio passageiro,
modelam ouro espaço e outro tempo
para que o canto seja eternidade.





   Nota - Com maior número de poemas, acervo publicado na “DiVersos – revista de poesia e tradução” e no “TriploV” 

quarta-feira, 20 de junho de 2012

DOS COSTUMES DOS GIRINOS


   
  Nicolau Saião, Dos costumes dos girinos


     Eu, que me tenho lembrado de tanta coisa, nunca me lembrei de escrever sobre as denominadas “secretas”. Por medo, por receio, por timidez, porque sou português e, ainda por cima, alentejano – o que me faz ser um quase inerme ainda que não inerte? Não o sei.

    Só posso, digamos, conjecturar.

    Talvez seja por doçura de maneiras. Por esta ternura, muito minha, que tenho pelas coisas do Estado, que é como se sabe geralmente – e eu sei muito particularmente – uma entidade que nos merece o maior respeito e até mesmo um pouco de carinho. E de admiração.

   Dir-me-á, talvez, do lado algum leitor mais arguto, ou malandreco:” O amigo deve estar a brincar…! É aquele seu senso de humor, entre o amargo, o doce, o cruel e o amigável, não é?”. E olhará para mim com um timbre algo jocoso posto que fraternal.

   Juro que não.



   É que tenho pelo Estado luso, mormente o que se abrilhanta entre nós com os operadores que o enformam, uma enorme admiração. E não só pela sua intrínseca…sobriedade.

   De facto, enquanto Estados estrangeiros andam enfronhados em casos tenebrosos (ministros, primeiros-ministros e até presidentes protagonistas de putanhices, fraudes e patifarias de alto coturno), por cá humildemente andam metidos apenas em coisinhas como “sugerirem” ou “destaparem” que uma namora com um da esquerdalha mais agitada. Ou que outro apanhava detalhes de que um truta tinha amigos, meio-amigos ou inimigos – coisa que toda a gente sabe e é pois um “segredo de Polichinelo”.




   Onde, em certos países, há assassinatos e matanças bravas para se taparem segredos e conluios, por cá há alfenins que guardavam mails e sms como se fôssem entradas diarísticas…

  Como não ter pois um certo olhar de terna indulgência para com estes…arcanjos?




(imagem obtida aqui)

  Ontem chegou-me um mail, do nosso Nuno Rebocho, que confirma à puridade, creio, esta característica patriarcal, caseira – em jeito de coisinhas de opereta - de gente da nossa terra. E que vos dou a seguir.

 … E espero que nenhum leitor, lembrando-se de repente, numa súbita iluminação, solte do lado a frase de Brassens, que reza: “Olha meu filho, lembra-te disto: (e agora, para manter o sabor, vai no original) les plus grands cons sont les petits cons!”.

   A ser verdade, isso é que me deixaria a tremer…

  Tenho pensado no charivari que vai por aí no caso das Secretas. Mas ninguém se preocupou quando, há alguns anos, quando foram "formados" os primeiros secretas, tiveram logo como teste a Comunicação Social.



   Caíram na Rua Augusta, no "Século" - era o primeiro e elucidativo ensaio.   
   Deram nas vistas e foram fotografados. Eu era então subchefe de redacção e fui avisado de movimentos muito suspeitos; sujeitos que estavam sentados nas esquinas, a controlar as portas de entrada, anotando entradas e saídas. Mandei-os fotografar, o que foi feito. E depois, interpelá-los.
   Foi uma bronca das antigas. Telefonaram a correr ao director (Jaime Nogueira Pinto), pedindo desculpas de tudo isto e explicaram que era uma espécie de exame final das "secretas". O caso foi abafado, e não devia ter sido: como teste era perigoso... O Jaime deve lembrar-se disto. Se como teste se "lembraram" da CS, como ficar espantado com o "Público" e o "Expresso" agora (Só estes?).

Nuno Rebocho



terça-feira, 19 de junho de 2012

A condição humana é uma tragédia ou uma comédia?


Ally Bruener

Eu julgo que tem dias... Mas o xôguarda é que sabe!

TEXTOS DIVERSOS (3)





Como nas limpezas de Primavera

   O mundo podia ficar bem melhor se efectuássemos umas varridelas no seu perímetro psicológico e no imaginário quotidiano, à guisa daquelas limpezas de Primavera que as donas-de-casa operosas costumam levar a efeito no “home sweet home”.

   E para que o dito imaginário comece a escarolar-se e a recompor-se, é preciso entre outras coisas:


- que ao princípio deixe de ser apenas o Verbo; junte-se alguma música; de preferência um pouco de flamenco ou mesmo de fado hilário

- que os egípcios deixem de andar de lado; e os gregos também

- que o Brel largue a sujeita de vez; já não se aguenta aquele contínuo miado do “ne me quitte pas”

- e, já agora, que volte à vida, que faz muita falta nestes tempos inóspitos

- que as torradas deixem pela manhã de ser sistematicamente comidas com manteiga; o queijo de Nisa e a pasta de fígado de La Serena merecem uma oportunidade

- que, futuramente, a Feira do Livro do Porto se realize em Lisboa e a de Lisboa no Porto

- que os filmes portugueses passem a ser filmados em Neptuno, para ficar mais barato e não terem preciso de subsídios

- que o tal das escritas fenomenais (será necessário nomeá-lo?) se ponha a levitar

- que a política à portuguesa seja encerrada para obras ou transformada num ornitorrinco

- que os portugueses passem a ser espanhóis três dias na semana e um para descansar; e que o inverso também seja verdadeiro

- que o nosso homem se engane ao menos uma vez; ou o contrário

- que os poetas americanos finalmente consigam ser tão bons como os ingleses; e os tradutores idem

- que o tal senhor corte a pera, para não se prestar a anedotas trágico-marotas

- que deus se perdoe, porque às vezes parece que não sabia mesmo o que fazia.



(imagem obtida aqui)

segunda-feira, 18 de junho de 2012

Público? Privado?


O que acha, sr. doutor?

Um texto de Teolinda Gersão sobre a «nova gramática» (recebido por email)





Tempo de exames no secundário, os meus netos pedem-me ajuda para estudar português. Divertimo-nos imenso, confesso. E eu acabei por escrever a redacção que eles gostariam de escrever. As palavras são minhas, mas as ideias são todas deles. Aqui ficam, e espero que vocês também se divirtam. E depois de rirmos espero que nós, adultos, façamos alguma coisa para libertar as crianças disto.

Redacção – Declaração de Amor à Língua Portuguesa

Vou chumbar a Língua Portuguesa, quase toda a turma vai chumbar, mas a gente está tão farta que já nem se importa. As aulas de português são um massacre. A professora? Coitada, até é simpática, o que a mandam ensinar é que não se aguenta. Por exemplo, isto: No ano passado, quando se dizia “ele está em casa”, ”em casa” era o complemento circunstancial de lugar. Agora é o predicativo do sujeito. ”O Quim está na retrete” : “na retrete” é o predicativo do sujeito, tal e qual como se disséssemos “ela é bonita”. Bonita é uma característica dela, mas “na retrete” é característica dele? Meu Deus, a setôra também acha que não, mas passou a predicativo do sujeito, e agora o Quim que se dane, com a retrete colada ao rabo.

No ano passado havia complementos circunstanciais de tempo, modo, lugar etc., conforme se precisava. Mas agora desapareceram e só há o desgraçado de um “complemento oblíquo”. Julgávamos que era o simplex a funcionar: Pronto, é tudo “complemento oblíquo”, já está. Simples, não é? Mas qual, não há simplex nenhum, o que há é um complicómetro a complicar tudo de uma ponta a outra: há por exemplo verbos transitivos directos e indirectos, ou directos e indirectos ao mesmo tempo, há verbos de estado e verbos de evento, e os verbos de evento podem ser instantâneos ou prolongados; almoçar por exemplo é um verbo de evento prolongado (um bom almoço deve ter aperitivos, vários pratos e muitas sobremesas). E há verbos epistémicos, perceptivos, psicológicos e outros, há o tema e o rema, e deve haver coerência e relevância do tema com o rema; há o determinante e o modificador, o determinante possessivo pode ocorrer no modificador apositivo e as locuções coordenativas podem ocorrer em locuções contínuas correlativas.

Estão a ver? E isto é só o princípio. Se eu disser: Algumas árvores secaram, ”algumas” é um quantificativo existencial, e a progressão temática de um texto pode ocorrer pela conversão do rema em tema do enunciado seguinte e assim sucessivamente. No ano passado se disséssemos “O Zé não foi ao Porto”, era uma frase declarativa negativa. Agora a predicação apresenta um elemento de polaridade, e o enunciado é de polaridade negativa. No ano passado, se disséssemos “A rapariga entrou em casa. Abriu a janela”, o sujeito de “abriu a janela” era ela, subentendido. Agora o sujeito é nulo. Porquê, se sabemos que continua a ser ela? Que aconteceu à pobre da rapariga? Evaporou-se no espaço? A professora também anda aflita. Pelos vistos no ano passado ensinou coisas erradas, mas não foi culpa dela se agora mudaram tudo, embora a autora da gramática deste ano seja a mesma que fez a gramática do ano passado. Mas quem faz as gramáticas pode dizer ou desdizer o que quiser, quem chumba nos exames somos nós. É uma chatice.
 
Ainda só estou no sétimo ano, sou bom aluno em tudo excepto em português, que odeio, vou ser cientista e astronauta, e tenho de gramar até ao 12º estas coisas que me recuso a aprender, porque as acho demasiado parvas. Por exemplo, o que acham de adjectivalização deverbal e deadjectival, pronomes com valor anafórico, catafórico ou deítico, classes e subclasses do modificador, signo linguístico, hiperonímia, hiponímia, holonímia, meronímia, modalidade epistémica, apreciativa e deôntica, discurso e interdiscurso, texto, cotexto, intertexto, hipotexto, metatatexto, prototexto, macroestruturas e microestruturas textuais, implicação e implicaturas conversacionais? Pois vou ter de decorar um dicionário inteirinho de palavrões assim.
 
Palavrões por palavrões, eu sei dos bons, dos que ajudam a cuspir a raiva. Mas estes palavrões só são para esquecer. Dão um trabalhão e depois não servem para nada, é sempre a mesma tralha, para não dizer outra palavra (a começar por t, com 6 letras e a acabar em “ampa”, isso mesmo, claro.)
Mas eu estou farto. Farto até de dar erros, porque me põem na frente frases cheias deles, excepto uma, para eu escolher a que está certa. Mesmo sem querer, às vezes memorizo com os olhos o que está errado, por exemplo: haviam duas flores no jardim. Ou: a gente vamos à rua. Puseram-me erros desses na frente tantas vezes que já quase me parecem certos. Deve ser por isso que os ministros também os dizem na televisão.

E também já não suporto respostas de cruzinhas, parece o totoloto. Embora às vezes até se acerte ao calhas. Livros, não se lê nenhum, só nos dão notícias de jornais e reportagens, ou pedaços de novelas. Estou careca de saber o que é o lead, parem de nos chatear. Nascemos curiosos e inteligentes, mas conseguem pôr-nos a detestar ler, detestar livros, detestar tudo. As redacções também são sempre sobre temas chatos, com um certo formato e um número certo de palavras. Só agora é que estou a escrever o que me apetece, porque já sei que de qualquer maneira vou ter zero.

E pronto, que se lixe, acabei a redacção - agora parece que se escreve redação. O meu pai diz que é um disparate, e que o Brasil não tem culpa nenhuma, não nos quer impôr a sua norma nem tem sentimentos de superioridade em relação a nós, só porque é grande e nós somos pequenos. A culpa é toda nossa, diz o meu pai, somos muito burros e julgamos que se escrevermos ação e redação nos tornamos logo do tamanho do Brasil, como se nos puséssemos em cima de sapatos altos. Mas, como os sapatos não são nossos nem nos servem, andamos por aí aos trambolhões, a entortar os pés e a manquejar. E é bem feita, para não sermos burros.

E agora é mesmo o fim. Vou deitar a gramática na retrete, e quando a setôra me perguntar: “Ó João, onde está a tua gramática?” Respondo: “Está nula e subentendida na retrete, setôra, enfiei-a no predicativo do sujeito.”

João Abelhudo, 8º ano, turma C (c de c…r…o, setôra, sem ofensa para si, que até é simpática).

UM POUCO DE PARAÍSO (5) - Para começar bem a semana





Dois poemas e dois quadros de João Garção:









ABECEDÁRIO

Vá, não entres aí
Isso é um advérbio de modo
E embora te pareça um particípio passado
é um adjectivo e às vezes um presente.

Fica parado à saída: está a chover
Dentro dessa frase quem anda ao sol molha-se muito
É um discurso idiomático e por isso
onde está o prenome é o substantivo.

Junta-te ao ponto e vírgula. Custa menos
do que escrever com pontinhos nos ís
quando as reticências nos confundem
com exclamações   ou verbos no futuro.

Os conjuntivos na oração nunca se entendem:
e por isso, dizem, é que os agás são mudos.











SENTIMENTO

A água está parada, muito quieta no meio da noite.
E é preciso perguntar-lhe: és água de um rio?
És água dum mar? És água dentro dum copo
sobre uma mesa muito antiga e sonhada?
És água para um cavalo beber? Para um cão se banhar?
Para um homem e uma criança se lavarem ao relento?
Para uma mulher, para um gato, para um lobo?

E a água talvez não te responda. Nunca te responda.
Ou te responda tarde de mais. Ou nem sequer te ouça.

Mas tu pergunta. Pergunta e espera pela resposta.
Mesmo que os minutos passem entre ti e a água.
E devagar uma silhueta se desloque
e depois se detenha no meio das árvores imóveis.





*


Poeta, pintor, ensaísta e professor. Natural de Portalegre (1968) onde fez os primeiros estudos. Foi futebolista profissional (guarda-redes) na primodivisionária Académica de Coimbra. Licenciado em História da Arte e Mestre em História Contemporânea de Portugal (Coimbra), foi depois presidente da Direcção e é professor do Instituto Superior de Ciências Educativas de Felgueiras. Poemas e textos seus integram diversas antologias poéticas e plásticas. É colaborador de importantes órgãos artísticos nacionais e internacionais e tem participado em exposições de pintura em Portugal e no estrangeiro.  Organizou a exposição internacional de mail art “O Futebol” (Coimbra).
  Especialista em teoria artística e arte aplicada, proferiu conferências e publicou artigos sobre Educação, Arte, Ética e Política em jornais e revistas da especialidade. Colaborador de “Agulha”, “TriploV”, “SIBILA”, “DiVersos”, “Bicicleta” e “Jornal de Poesia”. Autor de “Os versos do Zé Povão”, de “Contos do centro do meio” e de “Raul Proença, escritor e cidadão republicano”.
  Vive em Guimarães.