domingo, 22 de julho de 2012

Economista do FMI demite-se "envergonhado"




É este o título do que por aqui se diz.

Depois, adocem com isto e temperem com uma pitada disto.

E vão de férias, vá...

sábado, 21 de julho de 2012

LIBERDADE DE EXPRESSÃO

  


  Voltei por instantes, para dizer ainda o que se segue e que enviei também, por email, à confraria.

  O nosso confrade Vicente Páscoa, que agora se encontra definitivamente em Portugal após uma estadia de 14 anos na Bélgica, publicou no forum do DN o que aqui se dá a lume e tem vindo a ocupar as atenções dos jornalistas e leitores daquele órgão nacional e. por extenso, afinal todos os publicistas do país. Ouçamo-lo então:

   A questão do "comentário livre" versus "comentário moderado" ou "censurado", liga-se profundamente à questão da Democracia e da Sociedade tutelada. Mas como? Aqui é que está o busílis. Ora bem: a meu ver o problema põe-se agora porque pela primeira vez houve em Portugal um debate sério e a sério.

   Até há bem pouco isso não acontecia porque ninguém punha em causa eficazmente o facto de haver uma clique (política, amparada em publicistas "da corda" e com boa boca e disposição) que punha e dispunha enquanto o geral do poviléu não piava. A Crise veio modificar os dados da questão: deixaram esses senhores de ter "poder de vida ou de morte" sobre o discurso societário. Os comentadores são emanações do cidadão comum.








   O medo vai-se perdendo. E como o medo se vai perdendo e a clique dominante já não controla eficazmente, aparecem comentadores enraivecidos, ou "a soldo" da agit-prop, que desbocam e desbancam o discurso. Isto é o índice seguro de que o País administrativo se esboroa!

  A clique dominante, a que a lógica de formações típicas e com cassette subversiva afinal justifica, já não sabe o que fazer e faz uma fuga para a frente: primeiro tentando instaurar a "lei da rolha", informalmente, dentro em breve criando formas legais que permitam a prisão de contestatários. E se fosse com a gerência anterior, dominada por um indivíduo sem princípios, um aventureiro político típico, ainda seria pior: seria uma espécie de Venezuela com "safanões a tempo"!





Pat Condell: American Dhimmi

sexta-feira, 20 de julho de 2012

Saravah, hermano Saraiva




  Irmão Saraiva, amigo Saraiva, compadre Saraiva, Dr. Saraiva ou, tão simplesmente, José Hermano Saraiva.

  Companhia proveitosa de tantos programas televisivos com cabeça, tronco e membros, este era um homem que aqui neste espaço se estimava. Creio dizer bem – e foi há cerca de meia hora que soube do seu falecimento.

  Eu hoje andei por fora, com amigos de fresca data e só há bocadinho voltei ao ninho portalegrense do Atalaião. E foi a minha neta, que também gostava dele, quem me deu a notícia.

  Conheci este homem em 2001, quando me deu o gosto de entrar num programa dele, desta feita sobre José Régio, em vista de eu ser nessa altura o responsável do Centro de Estudos da Casa-Museu do autor de “Davam grandes passeios ao domingo…”.

  Durante uma manhã e uma tarde – tempo usado nas filmagens e num almoço à maneira na apreciada “Casa Poeiras”, mesmo ao lado do Palácio dos condes de Avilez – conversámos as três conversadas, como se diz em vernáculo alentejano. Ou para ser mais exacto: eu ouvi-o principalmente, não porque ele monopolizasse a conversa mas sim porque era um gosto ouvir o seu discurso entusiasmado, interessante e vivo, repleto ora de imagens ora de informações cheias de propósito. A vitalidade daquele homem, na altura já com 82 anos, era impressionante. E era uma coisa extraordinária contemplá-lo ali ao vivo, com os maneirismos e características celebrizadas pela tv…!

  Um personagem, um historiador e um ser humano que me foi grato conhecer.

  Aqui o evoco e celebro, hermano nosso.

  Saravah, Dr. Saraiva!

  ns

PASTÉIS DE FABRICO PRÓPRIO (1)




 Dentro de dias vou de férias. Mas por “fas ou por nefas”, encerro hoje até ao meu regresso, lá para finais de Agosto, a minha actuação.
 Não quero deixar-vos “à francesa”. Ou melhor, deixo-vos com este francês e assim parto sem má-consciência.
 …Já agora, para os mais traquinas não me xingarem com uma frase cruel, atirando-me que sou muito crítico da crise mas que vou de férias para fora, informo que passarei as ditas vacanças cá dentro. E até numa casa própria – pois não me cresce o caroço como dizia numa sua excelente novela a nossa saudosa Natália Correia.
 Bye e divirtam-se, folks!




BRAQUE


Olha o Georges
diziam os colegas
a andar de bicicleta

Mas isso era muitos anos depois
e na infância não se sabia como
embora estivesse em relevo essa figura
entre peixe e cavalo.



Braque, O dia


Georges passava tranquilamente
de uma sala para um quarto
de cabelos eriçados
enquanto as flores e os frutos
se multiplicavam
na madrugada

Mas Georges não sabia nada disso
um prato de legumes lhe bastava



Braque, Guitarra, frutos e jarro


Havia uma grande e silenciosa alegria
uma palpável tranquilidade
na casa onde o Verão caíra
sem que ninguém se desse conta.

Mas Georges ainda nada sabia
de jarras e de janelas

Limitava-se a deixar que até ele
chegassem silhuetas de animais

que sobre as suas mãos de criança
deixariam talvez mistérios de outrora.



Braque, Atelier VI


Georges sabia, afinal, o necessário
para traçar a unidade da luz
ângulos

e maravilhas abandonadas.





                           in CAIXA DE CORES

quinta-feira, 19 de julho de 2012

O verdadeiro artista é o bimbo...


A obra de Matisse que a polícia julga ter recuperado

... da social-comunicação que escreve isto:


«A polícia norte-americana acredita ter descoberto uma famosa pintura do conceituado artista Henri Matisse. Avaliada em, aproximadamente, 2,5 milhões de euros, a obra tinha sido roubada de um museu venezuelano há dez anos.»

Para ler o resto da notícia, clicar aqui.

Vai daí, diz ele assim,






Verão Quente


É lamentável que o espaço de oposição ao governo esteja a ser ocupado por D. Januário Torgal Ferreira e por Mário Soares. E isto é assim pelas pessoas em si, pelo que representam e pelo tipo de discurso que protagonizam. A democracia deve ser o espaço da solução e da sua alternativa. Ora, o bispo das Forças Armadas e o ex-presidente não são solução para o que quer que seja. E muito menos estão em condições de apresentar qualquer alternativa.




Mário Soares é um político reformado e irreformável, dono de algumas poucas virtudes sobrevalorizadas pelo próprio, às quais uma parte significativa dos portugueses foi sensível numa determinada fase e a que se tornou indiferente depois, e de um conjunto razoável de vícios que são, em boa medida, partilhados pelo próprio sistema (o amiguismo, a ideologia balofa, o empurrar os problemas com as bochechas, etc.). Por seu lado, D. Januário acumula, ironicamente, a condição de representante de duas instituições, o Exército e a Igreja,  que enquanto tais e tal como acontece com os árbitros no futebol, são tanto mais úteis ao país quanto menos se notar a sua presença em campo. Para além disto, o discurso de um e de outro constituem o exemplo acabado do mais profundo espírito anti-democrático.




O problema essencial das afirmações de D. Januário não é o de ele ser bispo ou major e de nessa qualidade, ou na de simples cidadão, criticar o governo. É de apostar em acusações gravíssimas, generalizadas a um órgão de soberania democraticamente eleito e de não as fundamentar. Com tal comportamento, ofende, antes de mais, os portugueses. A raiva e o excesso quando se aliam à vacuidade não só não atingem o alvo a que se dirigiam, como retiram credibilidade a quem profere as acusações. No mesmo plano se colocou Mário Soares. Defender que os portugueses querem um novo governo revela, antes de mais, a ambição de falar em nome de quem já não lhe reconhece autoridade para isso. Para além do mais, trata-se mais da expressão de um desejo do que do diagnóstico da realidade. Excesso e falta de sustentação de afirmações que só não surpreendem porque ao contrário do próprio, já todos percebemos que o papel político de Mário Soares é meramente decorativo.




O problema deste estado de coisas é que o país precisa de oposição ao governo. Forte, credível, sustentada, com propostas que possam constituir-se como alternativa. Com D. Januário e Mário Soares a ocupar o espaço mediático não é só o discurso populista ou radical de Louçã e Jerónimo que perdem palco e oportunidade. É também a incapacidade de Seguro se afirmar como alternativa moderada que se torna mais evidente. Tudo em benefício de um governo que se encontrava há uns dias atrás em grandes dificuldades e com acelerado desgaste e que pode, agora, respirar um pouco e até apresentar-se como vítima de ataques desvairados, com isso reforçando a credibilidade da tese da conspiração de interesses. Repito, tudo em benefício de um governo que estava contra as cordas, mas não necessariamente em benefício do interesse do país.



O Eterno Futuro


[Olavo de Carvalho, transcrição de parte de uma aula]

[Clicar e avançar para 11:35] É da própria natureza do processo revolucionário não saber exactamente onde vai chegar porque se uma revolução tivesse metas absolutamente definidas ela poderia ser julgada a partir da realização ou não dessas metas mas se ela admitir isso ela tem que admitir também uma autoridade soberana acima dela, quer dizer, ela vai ser julgada. Mas um processo revolucionário que aceita ser julgado por uma ordem externa ele elimina-se a si mesmo então, seria algo contraditório.

A revolução é ao mesmo tempo a força que conduz o processo e ela tem que ser ao o tribunal de última instância. Só ela é tribunal de última instância então ninguém a pode julgar desde fora. Então, não é possível, jamais, uma força externa à revolução que seja a própria população julgar a revolução e absolver ou condená-la, saber se ela atingiu os seus resultados ou não.

Por outro lado como a dialéctica interna do movimento revolucionário consiste em você se arrogar no presente uma autoridade que vem do futuro, de um estado futuro ao qual a revolução está tendendo, então, naturalmente, o futuro é que passa a ser o juiz mas acontece que ao mesmo tempo como o único juiz possível é a própria elite revolucionária, então a elite revolucionária se identifica com o futuro e, naturalmente, para onde essa elite se desloca também o futuro se desloca com ela. Então você vai empurrando o futuro com a barriga, o futuro nunca chega e então a revolução nunca pode ser julgada. Isso quer dizer que também daí decorre uma consequência, também inevitável, que é a perfeita irresponsabilidade histórica que é inerente a todo o processo revolucionário. Nenhuma elite revolucionária pode jamais responder pelos seus feitos porque ela não tem perante quem responder, não há um tribunal perante o qual ela possa responder. O tribunal é o futuro mas, ao mesmo tempo, o futuro é personifica o futuro é a elite revolucionária. [13:50].

Quando as pessoas perguntam como é possível depois de tanta violência, tantos crimes, tantos fracassos da história do comunismo o pessoal ainda se apresenta em público defendendo o comunismo com a mesma cara de pau como se nada tivesse acontecido. Então o observador leigo imagina que é uma espécie de hipocrisia mas eu digo que não é hipocrisia isso é uma estrutura inerente ao processo revolucionário. [14:18]. Assumir a responsabilidade pelo que você fez só é possível dentro de uma ordem social no qual haja uma instância julgadora que não é a mesma força agende do processo. [14:32].

quarta-feira, 18 de julho de 2012

Let's change the face of British politics - Nigel Farage in Dudley


• Nigel Farage speaking at a public meeting at The Mill Theatre, Dormston Sports and Arts Centre, Sedgley, Dudley, 16 July 2012

• Speaker: Nigel Farage MEP, Leader of the UK Independence Party (UKIP), Co-President of the 'Europe of Freedom and Democracy' (EFD) Group in the European Parliamen

DOIS POEMAS DE GÉRARD CALANDRE



Chirico, Interior metafísico com biscoitos


NAVEGAÇÃO



1. Quantas vezes
comecei por ali
pela janela entreaberta
cruzada por uma leve penumbra
- Deneb ou outra estrela
da Cassiopeia, ou um planeta
errante
Quantas vezes
sem saber que dizer, sem poder
respirar a valer
inventei ruídos ao longe
pus gente a viajar à beira de caminhos
que nem sei se existem   Quantas vezes
escarneci fiquei sério
e digo isto sem troçar
deixei a mão direita sozinha
acenando entre particípios e conjuntivos
Quantas vezes  quantas vezes
perdi de vista a morte a vida
Quantas vezes
cheio de sono   farto de verbos
peguei em sonhos numa vassoura
fugi assustado, andei de barco
e ao acordar enchi-me duma imperiosa
ternura   num suspiro
e fui pelas ruas bocejando
trocando os pés moderadamente
como se estivesse ligeiramente louco
ou os poemas fossem    apenas simulacros.


2. Agora vou pensar um bocado no “Anjo Guardião
Aparecendo a Maria” da basílica de San Genaro
de Piero de la Francesca, como que por acaso
Uma pintura sem arabescos, aparentemente
sem semelhanças com outra que vi – e no entanto
tão igual! – num museu de Évora durante a minha
primeira viagem a Portugal. Almoçara
num famoso restaurante de Lisboa
Como a cidade estava bela cheia de vento
e a minha bendita gravata de riscas que a
Jeannette me oferecera   devia
fazer um vistão
e eu rapava o prato   miraculosamente
e então a Jeannette disse-me: repara! E eu
olhei
Um senhor alto, de óculos reluzentes
olhei   entre o assado e o doce
Era, esclareceram-me, um famoso escritor
uma pessoa de qualidade, romancista   também
com putices finas pelo meio, um homem
de confiança de Sua Excelência   enfim
antes da fruta, antes do brandy. A Jeannette
dissera-me: repara! E eu olhei, eu
olhei. Vírgula, dois pontos, aspas
traço e sublinhado.

A gravata está pendurada
no trinco de uma porta. Entretanto
como passaram vários meses
já digeri o assado, a sopa, o doce
o charuto que o Pierrot me deu. Doravante
- lembro-me que pensei –
vou passar a comer em modestas tascas
não fumar
mijar   sei lá   se calhar à socapa atrás

dum arbusto.


                     in Vestiges/Vestígios” (Tradução ns)

   Na segunda parte deste poema é perceptível a simpática alusão do A. a um muito conhecido e estimado vulto político, também nas suas horas renomado tradutor e poeta.




  Gérard André Loison Calandre nasceu em 1952, na Bretanha. Viveu vários anos em  Messina, entregue ao professorado e a trabalhos de laboratório, que abandonou após  desastre numa das estradas europeias.
   De formação científica, manteve-se largo tempo relativamente afastado do mundo das letras.
  Autor de “Vestígios”, O levantino – pré-novela e de textos esparsos sobre o seu ramo profissional, debruça-se presentemente sobre “O sentimento de perda em Gérard de Cortanze”(ensaio).
  Visitou Portugal em 92 e 97. Após o falecimento de sua segunda mulher, Jeanne Vaillon Remise,  foi residir para o Canadá francófono.
  Textos seus foram dados a lume por Agulha, TriploV e revistas Bicicleta, Abril em Maio e DiVersos. 

terça-feira, 17 de julho de 2012

MOMENTO DE POESIA, novo fado português



 Nicolau Saião, O caçador (desenho a tinta-da-china)

   Dias atrás um confrade meu, grande poeta brasileiro (um dos maiores que aquele país irmão possui) enviou-me uma das suas habituais missivas – que sempre recebo com gosto – e a certa altura lamentava impressamente que eu perdesse tempo a escrever coisas políticas (sic), pois o que ele achava digno era eu dar-vos poemas, poesia própria e alheia (e eu agradeço o mimo de considerar que faz sentido eu dar aqui a lume o material de fabrico próprio a par do de fabrico alheio…).

  É capaz, mas não o iria asseverar, de ser verdade. De ter ele razão. No entanto, ao mesmo tempo que o lia, sentia bater-me nas orelhas a frase lúcida de António Maria Lisboa, que rezava e ainda reza “A crítica é a razão da nossa permanência”, a par daqueloutra de Manuel de Castro “Chama-se UM HOMEM àquele que sabe o que está fazendo” e, “the last but not de least” como usa dizer o famoso crítico lusitano cujo nome não me ocorre de momento, ainda a de Camus, que arruma, creio eu, a questão definitivamente: “A poesia e a prosa nunca devem esquecer que se são feitas por um impulso que não tem por norma o testemunho ético não passam de actos desumanos ou, no limite, de egoísmos ou mesmo de canalhices”. (E não devemos esquecer que há a crise que nos sufoca, provocada por estimáveis homens públicos ladrões e/ou caloteiros – e agora nós é que temos de esportular as lecas para encher o buraco que esses amáveis bandidos escavaram…Porque havemos de passar em branco as suas malfeitorias?).

   Mas como sou, creio eu, um tipo tolerante e – talvez por ser fraquito e um pouco medroso – um esforçado gerador de consensos, pensei que podia conciliar as coisas e dar poesia que, simultaneamente, tivesse algum pequenino gesto social.

  Vai daí saíu-me o que aqui vos deixo, com o xi-coração de sempre pelo menos para as minhas estimadas leitoras:


FADO PORTUGUÊS

Vamos lá falar a sério:
a nação está estragada.
Só há uma solução:
- malta, vamos p'rá porrada!

Até sou um tipo afável
mas isto assim não dá nada...
Temos justificação:
- malta, vamos p'rá porrada!

Tudo limpinho e às claras.
Em segredo não vale nada
e os da “secreta” vigiam…
- malta, vamos p'rá porrada!

O Sócrates lá na estranja
leva vida regalada
e nós aqui a tinir…
- malta, vamos p'rá porrada!

O Constâncio melhorou
recebe uma batelada!
Aqui, perdeu quem poupou
- malta, vamos p’rá porrada!

Até o Cavaco ganhou,
tem vidinha prestigiada
pois engrola o que sempre engrolou…
- malta, vamos p'rá porrada!

Diz ao povo para ter calma.
É uma treta pegada,
ele quer é safar os gandulos…
- malta, vamos p’rá porrada!

Confiava no sô Lima…
e o Loureiro figura amada
merecia-lhe toda a estima…
- malta, vamos p’rá porrada!

O Arménio propagandeia
e é só conversa fiada.
Quanto ao Xico, é um varre-feiras…
- malta, vamos p’rá porrada!

O Seguro é um alfenim
de cantiga bem cantada,
mas andou co’ Sócrates ao colo!
Malta, vamos p’rá porrada.

Mandantes? Urina neles
pois é tudo uma cambada.
Só há uma coisa a fazer
- malta, vamos p'rá porrada!

Vamos agir em conjunto,
está a pátria ameaçada.
Sem temor, tratemos deles...
- malta, vamos p'rá porrada!

O caminho é só já esse:
ou nós ou a Força Armada.
Temos de salvar o país!
- malta, vamos p'rá porrada!

Viram como foi lá fora?
É uma coisa danada,
estes gajos só percebem
se a malta for p'rá porrada!

Por isso, nada de medos.
E de cara levantada
sem coisas clandestinas:
- MALTA, VAMOS P'RÁ PORRADA!!!

Contra o Paulo Campos é que era

Se estas três mil pessoas tivessem feito o mesmo quando grande parte das parcerias público-privadas foram engendradas, talvez o país não tivesse chegado a este estado. Não houve um único cartaz empunhado contra Paulo Campos, esse atentado às sanidade das finanças públicas. Contra Miguel Relvas vai haver muitos, pois há que ter em conta o lado cómico da coisa. Os portugueses adoram folclore.

domingo, 15 de julho de 2012

Pacifismo indignácaro

Para quando uma missão de escudos humanos para interposição da guerra civil na Síria? Só havia indignácaros com tomates quando dos bombardeamentos dos EUA ao Iraque ou os tomates apenas surgiam porque quem bombardeava era os EUA?

A confraria da consciência tranquila

Miguel Relvas diz que está de 'consciência tranquila', julgando provavelmente dizer uma originalidade. Mas não, a 'consciência tranquila' é uma instituição nacional e não há ninguém, que apanhado em alguma aldrabice, não se socorra dela para demonstrar que está inocente. Isaltino Morais, os condenados da Casa Pia, Armando Vara, Dias Loureiro e os socialistas, todos juraram a pés juntos que tinham uma consciência imaculada e sereníssima. Uns santos.

O homem de quem ninguém fala


sábado, 14 de julho de 2012

Do Hollande que desconhece as boas ferramentas do estado-social

Mas a Peugeot vai despedir 8 mil trabalhadores? Hmmm?

Mas, então, Hollande, paladino do socialismo e mestre em comércio justo, não conhece a solução? Basta que mande dinheiro para Portugal, os portugueses desatam a comprar carros e ... já está. Mais uma retumbante vitória do estado-social sobre os neo-liberais.

Aquilo que os espanhóis estavam a precisar de ouvir!

sexta-feira, 13 de julho de 2012

Preparando o fim-de-semana

Deste lado do mar...


  

  Maria Elena Sancho tem um programa de rádio, "Poesia y algo más", ali ao lado na Argentina (se acaso estivermos no Google Earth é claro - mas é o mesmo, que hoje os países tocam-se e assim se diga para os autores e as obras), nessa Buenos Aires onde pairam os ecos da voz de Borges, de Adolfo Bioy Casares, Juan Gelman, Alejandra Pizarnik e tantos, tantos mais...
   
 Ora acontece que suscitado por Julia Prati e Victoria Servidio, fui convidado a enviar-lhe umas coisitas minhas. E a propostas destas de senhoras poetisas assim nada se recusa, mormente por estarmos a contas com o país de Gardel...
 (Isto digo eu na galhofa, mas usteds já me perceberam).

 Em suma, tirei-me de meus cuidados e enviei, entre outras coisas, o que vos remeto em anexo para leitura e uns minutos de traquinice cultural, sempre com a estima e o proverbial abraço de fim de semana.







Cézanne, Casas à beira da estrada, 1881


OUTRORA

A antiga casa    não lhe mexam. Não procurem
desfazer-lhe os sinais que as sombras
lhe deixaram. Os canteiros
que fiquem com pedaços de cacos,  velhas
rugas sob os alicerces. Plantas          
    
que o silêncio gerou anos e anos
às telhas se misturem      .
Os dedos,  não lhos marquem     
com óleos,   tintas,   cores     
em toda a frontaria e nas traseiras     
E as nódoas de musgo, a cansada ferrugem, as     
flores quase desfeitas
abandonem-lhas. Não lhe pintem
também a luz
que o tempo debaixo do cimento faz ficar
- o sol,  o vento,  a chuva -
mágoas e alegrias dum século
mais que incolor e vago.
     
Absorto e parado
que tudo sempre idêntico
sepultado nas crostas sem limites
fique    como os minutos da terra,  assim desfeitos.

A brisa,  como em sons
de vida e morte
nas janelas abertas    passe
- lamento reflectindo a memória
lenta das vozes.

Que as asas lhe resguardem a quietude. Que o sol
a vele e adormeça sua paz final. Que o Outono
lhe acalente a ausência:  porque  já nada pode
agora transtornar
a velha moradia
- os campos,  em redor,  são o disfarce
de milhares de coisa já perdidas -       
aranha minúscula subindo
os tempos invisíveis
laços para sempre desmanchados, porta
que se entreabre e une   finito e infinito.

                                                           in FLAUTA DE PAN

quinta-feira, 12 de julho de 2012

É assim que se faz a Estória (4)



Obra de Mário Henrique Leiria 


   O Vicente Páscoa escreveu-me há dias. Com a frontalidade que o caracteriza, mas também com a amável ironia que o exorna, dizia-me a dado passo do seu bilhete (não lhe chamaria carta) razoavelmente acerbo mas onde se distinguia uma fraternal sobriedade: “(…) Tenho gostado do blog. Mas a meu ver, e tu desculpa, parece-me que pões lá demasiada poesia.(…) Numa altura em que factos momentosos atravessam o firmamento das híper-realidades nacionais (as sucessivas maratonas do Relvas, as paredes que cada vez mais se apertam, se houver boa vontade da Procuradoria, em torno do díscolo parisiense, a inocência do Lima esse primor de cristianíssimo calvo, as pachachadas do Arménio e a incontroversa velhacaria proto-revolucionária do Xico, para não falar de alfenins como o Seguro e outros infalíveis resíduos de uma administração fundibular cada vez mais sonsa e malévola(…) tu resolves esquecer ou não reparar nisso e…toca de poesia para a ribalta(…)”.

   Respondi-lhe sucintamente que não me apetecia remexer na lama.

  Além do mais e de acordo com o meu médico (um homeopata que nunca me desiludiu) eu apresento sinais inequívocos que se caracterizam por perda de auto-estima, tristeza acentuada, dificuldades de concentração, amargura e, intermitentemente, vontade de partir tudo (mas não no lar) e pequenas lucubrações em torno da serventia de caçadeiras de canos serrados e catanas de tipo japonês. “É evidente que se trata de uma crisionite-depressiva!”, diagnosticou o “good doctor” e eu não o irei contrariar.

   Em minha defesa digo contudo que o que me acalma, salvo os Socians e os copitos, com muito gelo, de Queen Margot de 8 anos, é a postura de poesia neste estimável entreposto.

   Mais do que uma fezada é uma questão de auto-ajuda. E alea jacta est!



Nicolau Saião, Génesis (tapeçaria), col. engº Ignacio Maragall             
                     
                                                                                                     
Mário Henrique Leiria


Origem dos sonhos esquecidos


Entre a bicicleta e a laranja
vai a distância de uma camisa branca

Entre o pássaro e a bandeira
vai  a distância dum relógio solar

Entre a janela e o canto do lobo
vai a distância dum lago desesperado

Entre mim e a bola de bilhar
vai a distância dum sexo fulgurante

Qualquer pedaço de floresta ou tempestade
pode ser a distância
entre os teus braços fechados em si mesmos
e a noite encontrada para além do grito das panteras

Qualquer grito de pantera
pode ser a distância
entre os teus passos
e o caminho em que eles se desfazem lentamente

Qualquer caminho
pode ser a distância
entre tu e eu

Qualquer distância
entre ti e eu
é a única e magnífica existência
do nosso amor que se devora sorrindo.

                                                                   (1949)





Mário Henrique Leiria (imagem obtida aqui)


Foi-me enviado, inédito – em 1978 - por Mário Cesariny, que depois o publicaria, na revista “MELE – International Poetry Letter” (dada a lume em Honolulu e dirigida por Stefan Baciu) cujo número de Março de 81 foi integralmente dedicado aos poetas surrealistas portugueses.