quarta-feira, 8 de maio de 2013

STEPHEN HAWKING E OS LIMITES DA INTELIGÊNCIA


 
Considerado um dos maiores físicos da atualidade, o britânico Stephen Hawking acaba de aderir à infame campanha internacional de boicote acadêmico contra as instituições acadêmicas israelenses. Além de infame, a coisa é tão absurda que precisa ser explicada: trata-se de acadêmicos individuais e, em alguns poucos casos, de instituições acadêmicas que boicotam, não o governo ou o Estado de Israel, mas seus pares acadêmicos israelenses.

 A decisão de Hawking marca uma importante vitória na campanha internacional para boicote, desinvestimento e sanções contra instituições acadêmicas israelenses. Outras adesões importantes ocorreram em abril, com o sindicato dos Professores na Irlanda e a Associação de Estudos Americanos e Asiáticos, nos EUA (“Stephen Hawking adere ao boicote acadêmico a Israel”,
http://operamundi.uol.com.br/conteudo/noticias/28774/stephen+hawking+adere+ao+boicote+academico+a+israel.shtml)
 
Não creio que o Sindicato dos Professores irlandeses seja uma “importante adesão”, e duvido que a Associação de Estudos Americanos e Asiáticos norte-americana seja um de seus centros de excelência, dominada que deve estar por multiculturalistas em particular e antiocidentalistas em geral, ou seja, por antimodernistas e obscurantistas de todos os tipos e matizes. O certo é que tal campanha é parte de uma campanha maior, de deslegitimização de Israel, a fim de impor ao país a condição de pária entre as nações, o que por sua vez abriria caminho para ações mais drásticas, incluindo boicote econômico e político-institucional, tendo por alvo final o enfraquecimento do país a fim de abrir as portas da possibilidade de sua extinção, seja política ou militar, o que jamais saiu da agenda tanto dos grupos políticos palestinos quanto dos islamitas quanto dos esquerdistas em geral. O fim de Israel seria uma espécie de vingança histórica contra o fim da URSS para uns, e uma desforra para a mediocridade geral em que o mundo muçulmano patina há séculos para outros. Além disso, faria a alegria desmesurada de todos os antissemitas do planeta.

Não é de surpreender que isso esteja vingando na academia ocidental, pois há muito grande parte dela se tornou reduto de irracionalistas, anticientificistas (nas ciências humanas) e toda uma extensa fauna que não tem mais vergonha de expor sua face, seja de antimodernistas ou de simpatizantes do islamofascismo.

Durante anos, fomos ficando escandalizados e angustiados com a tendência intelectual de certos círculos da academia americana. Vastos setores das ciências sociais e das humanidades parecem ter adotado uma filosofia que chamaremos, à falta de melhor termo, de "pós-modernismo": uma corrente intelectual caracterizada pela rejeição mais ou menos explícita da tradição racionalista do Iluminismo, por discursos teóricos desconectados de qualquer teste empírico, e por um relativismo cognitivo e cultural que encara a ciência como nada mais que uma "narração", um "mito" ou uma construção social entre muitas outras (Alan Sokal e Jean Bricmont, Imposturas intelectuais, Rio de Janeiro, Record, 1999, p. 15)
 
Mais adiante, questionam os dois autores, ambos também físicos renomados:

O que virá após o pós-modernismo? Uma vez que a principal lição a ser aprendida do passado é que prever o futuro é arriscado, podemos apenas listar os nossos temores e as nossas esperanças. Uma possibilidade é uma reação que conduza a alguma forma de dogmatismo, misticismo (por exemplo, Nova Era) ou fundamentalismo religioso. Isto poderia parecer pouco provável, pelo menos em círculos acadêmicos, mas a perda da razão foi suficientemente radical para pavimentar o caminho para um irracionalismo mais extremado (p. 228) [grifo nosso]

Tais afirmações são dos anos 1990. Hoje, esse “irracionalismo extremado” que vem insidiosamente tomando conta, há décadas, de boa parte das ciências humanas ocidentais (que de ciência mantêm apenas o nome, presa que são da ideologia e do referido irracionalismo), além de ter se tornado coisa “natural”, pois corriqueira, começa a extrapolar para as ciências naturais, como o demonstra o caso de Stephen Hawking.

A ciência é e sempre foi universalista. O boicote às instituições acadêmicas de um país inteiro, condenando-as a priori, assim como seus membros, além de um ato da mais grave e infame injustiça, é um ataque brutal não só à liberdade de pensamento como à própria ciência, aqui jogada na lata de lixo dos preconceitos ideológicos pelos próprios acadêmicos ocidentais. Trata-se, enfim, de um gesto fascista e de caráter totalitário, que faria inveja ao camarada Mao da “Revolução Cultural” e ao camarada Pol Pot da perseguição sistemática à intelectualidade cambojana. Que esse tipo de fascismo acadêmico seja capaz de seduzir um homem da grandeza intelectual de Stephen Hawking não espanta quem conhece a história, pois homens como Werner Heisenberg, um dos criadores da física quântica, aderiram alegremente ao nazismo. Ainda assim, é assustador o poder duradouro de convencimento do obscurantismo.

14 comentários:

alf disse...

Estas coisas espantam-me neste mundo onde já nada me espanta; mas ocorre-me uma pergunta: se decidissem boicotar as academias da Síria ou do Irão, a repulsa pelo acto seria a mesma?

Ari disse...

Tempos atrás soube de um insight interessante, que brotou em alguma consciência...: o de que a evolução não tem um ritmo definido. Sua intensidade seria diretamente proporcional ao vulto do desafio a superar. A história de Israel parece confirmar essa tese. E Israel poderia então dizer "eu quero é mais!"

Luís Dolhnikoff disse...

A pergunta é interessante, caro Alf, porque a resposta é um tanto surpreendente: em regimes totalitários como o sírio e o iraniano, não existe liberdade acadêmica, pois não existe liberdade de pensamento; portanto, suas academias já são "boicotadas" por seus governos. E isto não é retórica: numa teocracia como a iraniana, a teoria darwinista, por exemplo, é proibida. E a "filosofia" tem de se "adequar" ao Corão, enquanto a história deve seguir a ideologia oficial. Um tal boicote seria simplesmente ocioso. Ao mesmo tempo, não faria sentido, porque seus povos são vítimas de seus governos, incluindo os acadêmicos. Enfim, tal boicote só faz "sentido" porque Israel é uma democracia...

Manuel Graça disse...

Tem razão caro Luís, mas se um qualquer traste se deslocasse de uma dessas universidades que se adequam ao Corão para botar palavra (calão luso) em Portugal, não faltariam laudas de "conferencista intelectual de reputado nome mundial". Toda a esquerda lá cairia.

Anónimo disse...

Falemos sem paninhos quentes. O islamo-fascismo é um irmão colaço do chamado esquerdismo. Como disse James Bruce em 1982, "O bigode de Estaline tem equivalente com o de Hitler e as barbas dos mullahs. É tudo uma questão, simbólica, de como tratar dos cabelos ideológicos...". O fundo é pois o mesmo: o ódio à razão, o cultivo do obscurantismo e do arrivismo mental, a desvergonha "filosófica" que tem raízes no erotismo recalcado e na supressão dos sentimentos. Por isso é que tanto uns como outros exibem frieza no matar e no prender. Fazem parte do Ur-Fascismo, ou fascismo estrutural, como dizia Umberto Eco.

Ramiro de Matos

Jose Carmo disse...

Excelente artigo, Luis D. Não creio, todavia, que SH tenha tomado esta decisão do alto da sua estatura intelectual, mas sim da infeliz debilidade físico e do decair mental que está associado à idade e à doença que o prostra.
Render-se à pressão, à narrativa do "palestiniano" como o novo "proletário" do mundo, como o novo "judeu" credor do pedestal do sofrimento, é natural, em pessoas que já não estão em si, que já não resistem, que já não são capazes de fazer escolhas de Aquiles

alf disse...

As sociedades humanas só funcionam segundo dois critérios: ou cada um por si ou por solidariedade. os nórdicos estabeleceram uma sociedade baseada na solidariedade. As restantes democracias baseadas no interesse individual.

Nos sistemas cada um por si, quem tem o poder abusa dele.

nas nossas belas democracias, quem tem o poder é a classe média (era...). E, claro, abusa dele - é por isso que todas assentam em 1/3 de descartáveis, por mais ricas que sejam pelo menos 1/3 da população vive no limiar de sobrevivência. A classe média adora a democracia, é claro, quem não gosta de ter criados?

A alemanha nazi era uma democracia. Com em todas estas democracias, lixam-se as minorias sempre que convém à classe média. No caso, lixaram-se os judeus.

Israel ocupou o território palestiniano, tirou os árabes de suas casas e colocou-os num campo de concentração no deserto.

Há uns fez uma incursão nesse campo de concentração onde sobrevivem os palestinianos para destruir o sistema informático que os suecos tinham oferecido para fazer o registo da propriedade individual. Prisioneiros não têm propriedade individual, seria o começo da sua organização. Destruiu também as escolas oferecidas pela ONU. Claro, os prisioneiros devem ser mantidos na ignorância.

Desde esse dia, todo o mundo percebeu a situação, mais nenhum país apoia Israel a não ser os EUA pelas razões conhecidas.

Em pleno séc. XXI, não se admitem campos de concentração.

As sociedades que mantêm campos de concentração não podem sentar-se à mesa do mundo que se pretende civilizado.

por isso, o Hawkins tomou a atitude que tomou. Ser Sábio implica responsabilidades perante a humanidade.

Quem presume que o sábio é parvo deve pensar duas vezes, talvez não seja tão iluminado como se presume.

Jose Carmo disse...

"Israel ocupou o território palestiniano, tirou os árabes de "


1- Israel não tirou o território aos "palestinanos" porque
a- O território já era israelita há milhares de anos.
b- Israel refundou-se num território que lhe foi atribuido pela Lei Internacional e pelos tratados
c- O território não era "palestiniano" porque jamais existiu uma identidade, uma nação, um povo, uma língua, palestiana
d- O alf demonstra a má fé das suas formulações quando a seguir refere que "tirou de lá os árabes". Tem razão quanto aos árabes, errou quanto ao "tirou". Efectivamente os "palestinianos" são árabes. Ora como deveria saber, a Arábia é uns milhares de quilómetros a sul. Espanta-me que o alf não se questione como é que os árabes ocuparam o território que era dos judeus, mas parece que as narrativas hemiplégicas são assim mesmo...zarolhas, só olham para o que querem ver. E errou quanto ao "tirou" porque os árabes que sairam de Israel na sequência da guerra que os árabes moveram a Israel, sairam instigados pelos próprios exércitos arabes, convencidos que era temporário e que rapidamente aniquilariam os judeus.

Como vê, alf, há mais, muito mais, para lá dos slogans que engole sem mastigar.

Luís Dolhnikoff disse...

Sua síntese é perfeita, JC. Mas além disso, sugiro ao Alf ler a análise extensa que faço dessa questão, como ela comporta, em http://www.triplov.com/letras/Dolhnikoff/2013/palestina.htm

Jose Carmo disse...

Fui ler a análise. Excelente, referenciada e completa.

ora viva disse...

É engraçado que o pessoal que é tão indignadamente militante da causa "palestiniana", se limitou até hoje a uns circunstanciais protestos de café ou de tertúlia quando se trata da criminosa condição em que se encontram desde sempre as mulheres e os restantes "cidadãos" dos países e territórios ocupados islamizados.
Ah, pois, já me esquecia! Isso é cultural e o respeito pelas culturas é um emblema da tialhada de esquerda da Linha. É que eles são assim, sei lá!, tão típicos, 'tadinhos, giríssimos com aquelas túnicas e véus e assim... Os judeus, não, vestem-se como nós, fazem as coisas como nós e tudo, ganham dinheiro como nós e tudo, uns pindéricos, é o que eles são, que horror!

Jose Carmo disse...

O palestianianismo é a "cause du jour". O "palestiniano" é o substituto do "proletário", no imaginário esquerdista. Não por ser palestiniano, isso é irrelevante, mas por , na narrativa desta esquerda, ser "oprimido" pelos judeus e pelos americanos.
Só estes "oprimidos" contam. Os ruandeses, sudaneses, sirios, judeus, tibetanos, kurdos, cristãos, berberes, etc, não riscam nada, não porque não estejam (muito) pior, mas porque não têm a sorte de ser "oprimidos" pelos judeus e pelos americanos.

Anónimo disse...

O caso curdo é exemplar: um povo que desde há mil e tal anos luta por recuperar a sua autonomia territorial e política. E que só agora, por ter ajudado à queda do Saddam, que procurou massacrá-los, tal como os turcos na Turquia, é que conseguiu algumas vitórias nesse sentido. Mas alguma esquerda quis ou quer saber disto? Ao contrário, utilizaram-nos sempre para os seus fins políticos.

Luís Dolhnikoff disse...

Meu caro Anônimo, o caso curdo é o mais grave de todos, o de uma grande povo traído e "esquecido" pelos poderes coloniais à época da descolonização, e depois pelos Estados árabes sucessores, estas eternas "vítimas". A opressão curda vem desde então sendo praticada com brutalidade e brutal silêncio pela Turquia, Síria, Iraque e Irã.