quinta-feira, 28 de março de 2013

A SIMPLICIDADE DA SITUAÇÃO SÍRIA


 

O que está acontecendo na Síria é, de fato, muito simples: um governante e seu grupo se recusam a deixar o poder, e para isso massacram seu próprio povo, o verdadeiro soberano do país. Nada pode ser mais ilegítimo, infame e obsceno. Por que, então, aviões ocidentais simplesmente não bombardeiam os palácios de Assad e acabam com a obscenidade, a infâmia e a ilegitimidade? Porque a guerra civil não cessaria, até que alguém emergisse com força bastante para impor-se como novo governante. Nesse momento, se o Ocidente quisesse influir na escolha (e certamente teria de fazê-lo, tendo em vista a experiência do Afeganistão, de cuja guerra civil emergiu o Taleban, sunita como a maioria síria), o único modo seria se envolver na luta. E isto, depois do próprio Afeganistão e do Iraque, não acontecerá. Há, porém, uma alternativa: o apoio em armas, informações e logística para os rebeldes, a fim de que estes destruam Assad e tomem ao mesmo tempo o poder, encerrando a guerra. Acontece que os rebeldes são muitos. Muitos grupos diferentes unidos pela causa comum contra o ditador genocida. O risco, então, é uma repetição agravada da Líbia, que após a queda de Kadafi se encontra, na prática, dividida entre senhores da guerra. Mais uma vez, volta-se ao fantasma do prolongamento da guerra civil, com resultados imprevisíveis, a não ser que haja uma intervenção ocidental... O que acontece na Síria não é uma mera guerra civil, mas uma tragédia na acepção da palavra, em que o herói luta porque tem de lutar, enquanto o próprio fato de lutar é a realização de sua destruição, não a chance, como acredita, de se livrar de seus infortúnios. O herói, aqui, naturalmente é o próprio povo sírio. A frase de Brecht (“Triste do país que precisa de heróis”) poucas vezes foi tão real e tão amarga.

4 comentários:

Joaquim Simões disse...

Excelente texto! Parabéns!

José Gonsalo disse...

http://fiel-inimigo.blogspot.pt/2013/03/a-simplicidade-da-situacao-siria.html

Paulo Porto disse...

(chegado aqui pelo FI)

O Luiz pede para o ocidente contribuir para o fim de Assad. Penso que o Luiz não tem em atenção que o ocidente contribuiu para o fim de de Mubarak e Gadafi , com os resultados que se conhecem.

Não eh previsivel que saia algo de bom da guerra civil siria.
O mal tamben combate o mal, foi sempre assim. E na Siria estah em curso mais uma luta do mal contra o mal. Soh isso.

É certo que Assad eh uma ponta de lança dos iranianos. Assim mesmo, com Assad as mulheres andam de cabelos descobertos e os cristãos não são perseguidos. Como será com os sunitas que estão para apear Assad?


Lembro ter escrito isto;
http://fiel-inimigo.blogspot.pt/2012/02/siria-entre-escuridao-e-as-trevas.html

Jose Carmo disse...

Na questão Síria, o Ocidente deve agir tendo em conta apenas os seus interesses. E os seus interesses, na minha opinião, passam por salvaguardar um melhor futuro para os seus cidadãos. E isso passa, neste conflito, por garantir que as partes ( sunitas e xiitas), se degladiem o máximo de tempo possível, esgotando-se e enfraquecendo-se mutuamente. Ajudar os sunitas? Claro, desde que os xiitas estejam prestes a vencer. Ajudar os xiitas? Obviamente, desde que os sunitas estejam na mó de cimaa.